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sexta-feira, outubro 15, 2010
Sexualidade da criança - Atenção para pais e educadores
Sexualidade da criança - Atenção para pais e educadores
Por Maria Helena Vilela*
Importância dos educadores e pais no processo de sexualidade.
É difícil para o adulto aceitar que é natural a criança sentir prazer sexual. Mas, é na infância que construímos os alicerces que compõem os elementos centrais da sexualidade: a vinculação afetiva, a configuração da imagem corporal, a identidade sexual básica como homem ou mulher, a segurança e conforto como ser sexual, os medos e as preocupações... e também as sensações eróticas.
Quando pensamos em prazer sexual, imediatamente nos remetemos à excitação sexual e ao orgasmo. Mas para chegarmos até aí, antes, foi importante vivenciar outras formas de prazer decorrentes da descoberta do corpo, do carinho e da intimidade que irão interferir diretamente na relação afetivo-sexual, permitindo a entrega, a confiança e a cumplicidade.
Tudo começa no decorrer do primeiro ano de vida. A primeira fase é aquela que Freud chamou de fase oral, na qual a sucção é a manifestação sexual característica. Mas, o prazer não está unido, apenas, à estimulação e à riqueza de sensações da mucosa da cavidade bucal e dos lábios. O alimento, o leite materno ou de mamadeira, morninho, desliza pelo seu aparelho digestivo, aliviando a dor causada pela fome. Neste momento, além de saciar, o ato de amamentar propicia o aconchego e o calor do colo materno, a conversa e a troca de olhares. Este contato materno propicia a consolidação da imagem corporal, o estabelecimento de zonas erógenas e a experimentação de emoções e sentimentos associados às sensações de prazer e desprazer que ajudam a confirmar o vínculo afetivo.
É a forma como a criança é atendida em suas necessidades que dá a ela a dimensão de sua importância e a aprendizagem do amor. A criança ama do jeito que se sente amada. Por isso, que acredito que a melhor forma do professor ensinar um aluno a amar e a ter auto-estima é amando, respeitando e valorizando suas necessidades.
Em torno do segundo ano de vida, a criança adquire a capacidade de aumentar a percepção e a coordenação motora. Ela consegue cada vez mais explorar o ambiente, adotar maneiras de expressar emoções e perceber a importância do controle de certas vontades. É o início da sociabilização! Quem exerce maior influência neste processo são os pais, mas os professores também significam muito para os seus alunos e despertam neles, o desejo de agradá-los e sentir confirmado seu bem querer e aprovação.
Para a criança sentir prazer nesse processo de aprendizagem ele precisa ser gradativo, desenvolve-se num contexto de baixa tensão e sem desgaste emocional dos pais ou educador. A criança é simplesmente levada a imitar o comportamento correto e recompensada sempre que o fizer.
Aos 3-4 anos de idade, por meio da observação, manipulação e percepção das sensações corporais, a criança faz a diferenciação sexual de si e do outro, descobrindo que quem tem “o pipi para fora” é homem e o “pipi encoberto” é mulher. É um período de investigação sexual. Daí surgirem os famosos porquês. Como se de repente a criança começasse a enxergar as coisas. Ela precisa conhecer e entender o que acontece à sua volta. Através de perguntas, vai testando as diferenças entre os sexos (homem tem barba, mulher tem seios) e demonstra interesse tanto em relação aos adultos como a outras crianças.
Os bebês pequenos e as barrigas de mulheres grávidas exercem grande atração sobre ela, desencadeando uma série de perguntas do tipo: Como se faz um bebê? Como ele entrou na barriga? Por onde saiu? As respostas devem ser dadas numa linguagem que a criança compreenda: clara, curta e convincente. Se a criança voltar a perguntar a mesma coisa para outra pessoa, não se irrite e nem se sinta frustrado na sua resposta - crianças costumam testar as respostas dadas.
Mas a curiosidade não para aí! Descobre que é gostoso tocar em determinadas partes do corpo, principalmente a região genital. E tudo que lhe causa prazer, ela tende a repetir. É quando pode começar os episódios de masturbação, se bem que o termo não me parece apropriado para essa fase. A masturbação envolve pensamento erótico e isso a criança ainda não tem. O adequado é falar manipulação dos genitais.
Nesta fase, que Freud designou de genital, se constrói, entre outras coisas, o alicerce da intimidade com o prazer genital. Quando a criança pode identificar e perceber as sensações que seu corpo é capaz de produzir, isto permite uma intimidade consigo mesma, que será importante por toda a sua vida.
Esta fase, no entanto, costuma ser crítica dentro da escola, porque em geral os professores não sabem que atitude tomar ao surpreender a criança tocando nos genitais. Em vez de fazer a adequação deste comportamento sexual para o ambiente social, o adulto acaba entrando em pânico e não fazendo nada; e, a criança, não aprendendo as regras e repetindo o ato. Na escola, o professor deve lidar com naturalidade diante da manifestação sexual das crianças, mostrando claramente que aquilo é natural, mas, que o local e o momento não são adequados. Para a criança compreender melhor, se pode ensinar o conceito de público e privado, dizendo que os genitais são partes íntimas que não ficam expostos e, portanto, não devem ser tocado na frente de outras pessoas. Mas, atenção! Se depois desta conversa a criança continua a se toca de maneira insistente, o professor deve ficar atento ao fato da criança estar querendo para chamar a atenção, ou ser de ser examinada por um pediatra para avaliar a possibilidade de alguma coceira ou infecção nesta região.
Brincar é fundamental para o desenvolvimento da criança. Através da brincadeira, ela treina ações futuras, aprende novos papéis, ensaia como deve ser o comportamento esperado do seu sexo, elaborando as informações que foram transmitidas para ela.
E, assim, vai atravessando diversas etapas no processo de identificação sexual: no início, imita as pessoas que têm para ela grande valor afetivo. Depois, ao descobrir que é homem ou mulher, trata de repetir os comportamentos da pessoa do mesmo sexo.
Através destas vivências, a criança incorpora aspectos de seu cotidiano que vão reforçar ou inibir a sua identificação com pessoas do mesmo sexo. Neste processo, é importante que reconheça no pai e na mãe que vale a pena ser desse sexo. E mais: que o progenitor do mesmo sexo seja valorizado pelo do sexo oposto.
A escola deve estar atenta a essas situações e os pais devem orientar suas crianças desde cedo a exercer a sexualidade com responsabilidade.
* Maria Helena Vilela é diretora do Instituto Kaplan http://www.kaplan.org.br/
(Envolverde/Pauta Social)
terça-feira, outubro 05, 2010
Comprar ou brincar
Comprar ou brincar
ROSELY SAYÃO
A aquisição exagerada de brinquedos colaborou para que a brincadeira ficasse em segundo plano
"NÃO BASTA ser criança para ter infância". Essa frase, pronunciada no documentário "A Invenção da Infância" (disponível na internet em www.portacurtas.com.br), não me deixa em paz.
Todo dia minha memória a torna atual: quando pais falam comigo a respeito de seus filhos, quando professores contam como organizam os trabalhos na educação infantil com seus alunos, quando vejo crianças em situações nada infantis. Com a aproximação do chamado Dia da Criança, creio que vale a pena dialogar com a frase. Desde que o conceito de infância foi inventado, nós temos uma ideia social do que é ser criança e essa ideia foi utilizada principalmente para fazer distinções entre adultos e crianças.
Pois a infância, caro leitor, vem sofrendo tantas transformações no mundo contemporâneo que, hoje, já não temos mais consenso social a respeito do que é infância e, portanto, do que é ser criança.
Por isso, fica extremamente difícil traçar alguma linha divisória entre o universo infantil e o mundo adulto.
Esse fato torna a vida de todos -crianças ou não- muito mais complexa porque, na ausência de um conceito compartilhado pela sociedade, cada um cria seu próprio conceito a respeito.
Já no início dos anos 80, um professor universitário estadunidense chamado Neil Postman publicou um livro chamado "O Desaparecimento da Infância", em que alertava a sociedade para o fato de que as crianças estavam se transformando precocemente em adultos.
Na época, a tese do autor parece não ter feito muito sentido porque o livro foi republicado apenas em 1994. O mesmo ocorreu no Brasil: a primeira edição aqui saiu em 1999, e a reedição veio apenas seis anos depois.
Isso pode significar que a sociedade está, atualmente, com o seu olhar mais voltado para a infância, quiçá com anseios de salvá-la. Vamos então fazer um breve levantamento sobre como temos feito as crianças se transformarem em adultos antes do tempo.
Comecemos, à luz da comemoração do Dia da Criança, sobre como elas têm sido sugadas pelo consumo. Nem é preciso falar muito a esse respeito, porque já sabemos que, antes mesmo de a criança saber o que é ser cidadão, ela já ocupa ativamente o papel de consumidor. Alguém tem dúvidas de que esse dia será celebrado pela sociedade, de modo geral, por meio do consumo?
A aquisição desenfreada de brinquedos colaborou muito para que o ato de brincar ficasse em segundo plano. Resultado: as crianças, na atualidade, quando querem brincar não podem e, quando podem, não querem e/ou nem sabem.
Num outro documentário chamado "Criança, a alma do negócio" (disponível em www.alana.org.br), existe uma cena chocante. Um adulto pergunta a um grupo de crianças se elas preferiam brincar ou comprar. Comprar foi a resposta quase unânime.
E o que dizer, então, do tempo da criança? Em casa ou na escola, ela quase não tem tempo para brincar já que, quando ela brinca, queremos que aprenda algo. Brincar deixou de ser uma finalidade em si para se transformar em meio para atingir alguma meta ou objetivo. Pode? Ora, desse jeito, o brincar deixa de ser lúdico para se tornar um método pedagógico!
Se quisermos verdadeiramente melhorar o futuro para os mais novos, nós precisamos deixar a criança ser criança enquanto ela está na fase da infância. Isso significa que os adultos precisam renunciar a serem, eles mesmos, tão infantilizados.
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)
segunda-feira, setembro 20, 2010
Atualizar a pedagogia face ao mundo mudado - Por Leonardo Boff
Atualizar a pedagogia face ao mundo mudado
Por Leonardo Boff
Séculos de guerras, de confrontos, de lutas entre povos e de conflitos de classe nos estão deixando uma amarga lição. Este método primário e reducionista não nos fez mais humanos, nem nos aproximou mais uns dos outros e muito menos nos trouxe a tão ansiada paz. Vivemos em permanente estado de sítio e cheios de medo. Alcançamos um patamar histórico que, nas palavras da Carta da Terra, “nos conclama a um novo começo”. Isto requer uma pedagogia, fundada numa nova consciência e numa visão includente dos problemas econômicos, sociais, culturais e espirituais que nos desafiam.
Esta nova consciência, fruto da mundialização, das ciências da Terra e da vida e também da ecologia nos está mostrando um caminho a seguir: entender que todas as coisas são interdependentes e que mesmo as oposições não estão fora de um Todo dinâmico e aberto. Por isso, não cabe separar mas compor, incluir ao invés de excluir, reconhecer, sim, as diferenças mas também buscar as convergências e no lugar do ganha-perde, buscar o ganha-ganha.
Tal perspectiva holística vem infuenciando os processos educativos. Temos um mestre inolvidável, Paulo Freire, que nos ensinou a dialética da inclusão e a colocar o “e” onde antes púnhamos o “ou”. Devemos aprender a dizer “sim” a tudo aquilo que nos faz crescer no pequeno e no grande.
Frei Clodovis Boff acumulou muita experiência trabalhando com os pobres no Acre e no Rio de Janeiro. Na esteira de Paulo Freire, entregou-nos um livrinho que se tornou um clássico: “Como trabalhar com o povo”. E agora face aos desafios da nova situação do mundo, elaborou um pequeno decálogo daquilo que poderia ser uma pedagogia renovada. Vale a pena transcrevê-lo e considerá-lo pois nos pode ajudar e muito.
1.”Sim ao processo de conscientização, ao despertar da consciência crítica e ao uso da razão analítica (cabeça). Mas sim também à razão sensível (coração) onde se enraizam os valores e de onde se alimentam o imaginário e todas as utopias.
2. Sim ao “sujeito coletivo” ou social, ao “nós” criador de história (“ninguém liberta ninguém, nos libertamos juntos”). Mas também sim à subjetividade de cada um, ao “eu biográfico”, ao “sujeito individual” com suas referências e sonhos.
3. Sim à “praxis política”, transformadora das estruturas e geradora de novas relações sociais, de um novo “sistema”. Mas sim também à “prática cultural” (simbólica, artística e religiosa), “transfiguradora” do mundo e criadora de novos sentidos ou, simplesmente, de um novo “mundo vital”.
4. Sim à ação “macro” ou societária (em particular à “ação revolucionária”), aquela que age sobre as estruturas. Mas sim também à ação “micro”, local e comunitária (“revolução molecular”) como base e ponto de partida do processo estrutural.
5. Sim à articulação das forças sociais sob a forma de “estruturas unificadoras” e centralizadas. Mas sim também à articulação em “rede”, na qual por uma ação decentralizada, cada nó se torna centro de criação, de iniciativas e de intervenções.
6. Sim à “crítica” dos mecanismos de opressão, à denúncia das injustiças e ao “trabalho do negativo”. Mas sim também às propostas “alternativas”, às ações positivas que instauram o “novo” e anunciam um futuro diferente.
7. Sim ao “projeto histórico”, ao “programa político” concreto que aponta para uma “nova sociedade”. Mas sim também às “utopias”, aos sonhos da “fantasia criadora”, à busca de uma vida diferente, em fim, de “um mundo novo”.
8. Sim à “luta”, ao trabalho, ao esforço para progredir, sim à seriedade do engajamento. Mas sim também à “gratuidade” assim como se manifesta no jogo, no tempo livre, ou simplesmente, na alegria de viver.
9. Sim ao ideal de ser “cidadão”, de ser “militante” e “lutador”, sim a quem se entrega, cheio de entusiasmo e coragem, à causa da humanização do mundo. Mas também sim à figura do “animador”, do “companheiro”, do “amigo”, em palavras pobres, sim a quem é rico de humanidade, de liberdade e de amor.
10. Sim a uma concepção “analítica” e científica da sociedade e de suas estruturas econômicas e políticas. Mas sim também à visão “sistêmica” e “holística” da realidade, vista como totalidade viva, integrada dialeticamente em suas várias dimensões: pessoal, de gênero, social, ecológica, planetária, cósmica e transcendente.”
(Envolverde/O autor)
quarta-feira, junho 02, 2010
Desenvolvimento infantil
SÉRIE ESPECIAL Desenvolvimento infantil
Os primeiros anos de vida de uma criança são marcados por grandes transformações e descobertas. Aos poucos, os pequenos começam a entender o mundo em que vivem e aprendem a lidar consigo mesmos e com os outros. Para ajudar você a compreender melhor o universo infantil, preparamos esta série especial com sete reportagens e sete vídeos. Boa leitura!
SÉRIE ESPECIAL
Desenvolvimento infantil
Os primeiros anos de vida de uma criança são marcados por grandes transformações e descobertas. Aos poucos, os pequenos começam a entender o mundo em que vivem e aprendem a lidar consigo mesmos e com os outros. Para ajudar você a compreender melhor o universo infantil, preparamos esta série especial com sete reportagens e sete vídeos.
Boa leitura!
terça-feira, junho 01, 2010
Presente obrigatório
Presente obrigatório
Blog da Rosely Sayão - 11/03/2010
A mãe de uma garota de cinco anos narrou uma situação que a deixou muito constrangida. Ela levou a filha à festa de aniversário de uma colega de escola. Ao saírem, a mãe da colega deu uma lembrancinha -essa moda pegou mesmo- para a menina como agradecimento por ela ter comparecido à comemoração. A filha olhou para o que recebeu e, rapidamente, disse: "Só isso?!".
Outra mãe, cujo filho tem quatro anos, contou uma história parecida: no Natal, uma amiga dela levou um presente para seu filho que, ao recebê-lo, jogou longe e começou a chorar dizendo que não era isso o que queria ganhar.
Para complementar, um caso que considerei absurdo. Um casal processou uma loja de presentes porque ela não apresentou aos convidados todos os itens que eles haviam escolhido para sua lista e, por causa disso, eles ficaram sem alguns objetos que queriam ganhar.
Os presentes de casamento, aniversário, Natal e outras comemorações em que temos o hábito de presentear tornaram-se mais importantes do que a data, do que as pessoas e seus vínculos, do que a vontade de mimar alguém e manifestar seu carinho e tudo o mais que envolvia o ato.
Presentes, como bem ilustram os casos citados, transformaram-se em obrigação, encomenda, em expectativa que não pode ser frustrada. Abdicamos da surpresa de receber ou de dar um presente, da sensação gostosa ou do desagrado que se tem ao descobrir o que ganhamos em nome da praticidade.
Afinal, dá trabalho, custa tempo procurar um presente que tenha algum significado para a pessoa que iremos presentear, não é mesmo? E, depois de tudo, ainda correr o risco de não agradar? Não queremos riscos nem tampouco compromisso.
Por isso surgiram as listas: de Natal, de casamento, de aniversário, de chá de bebê... E quem faz a festa, afinal, é o comércio, que inventou até o vale-presente. Por que alguém iria se preocupar com o que dar de presente se a própria pessoa pode escolher o que quer?
Do jeito que a coisa está, acho que ganhar presentes pode até se transformar em um meio de sobrevivência. Assisti a um filme, que nem era muito bom, mas cujo roteiro era exatamente esse: dois jovens que se conhecem decidem simular um casamento somente para ganhar presentes e ter, com isso, uma renda extra.
Os mais novos talvez nem conheçam o sentido original do presente. E, já que temos reclamado tanto do consumismo exagerado que ensinamos a eles e também da nossa falta de tempo para tudo -inclusive e principalmente para o convívio familiar e com os amigos-, pode ser essa a hora de começar a retirar o caráter utilitarista e impessoal do presente e dar a ele o valor afetivo que merece.
Uma atitude desse tipo gera consequências, é bom saber: dedicação, tempo e, acima de tudo, compromisso com as pessoas com quem temos e cultivamos um vínculo amoroso. E, ao contrário do que aprendemos a pensar, viver bem tem tudo a ver com esse tipo de presença, não é verdade?
domingo, maio 02, 2010
Opinião: A função dos pais é ajudar o filho a se constituir como pessoa
Opinião: A função dos pais é ajudar o filho a se constituir como pessoa
Para uns, os filhos fazem tudo certo, para outros, fazem tudo errado.
Ambas atitudes colaboram pouco para o desenvolvimento da criança.
Ambas atitudes colaboram pouco para o desenvolvimento da criança.
Ana Cássia Maturano Especial para o G1, em São Paulo
O nascimento de uma criança representa a concretização de um milagre. Por mais que se saiba de todo o funcionamento biológico da reprodução, parece incrível que aquele ser se desenvolveu no ventre de sua mãe.
Milagres são obras de uma divindade, o que nos remete à ideia de perfeição. É o que muitos pais pensam ou esperam de seus filhos – que sejam perfeitos.
Entre os que desejam isso, existem pais que não conseguem reconhecer nada do que os filhos fazem. Qualquer coisa poderia ser melhor, mesmo que tenham feito algo muito bom.
Boicotam seus filhos naquilo que são ou fazem. Consideram que admitir seus pontos positivos, poderia fazer com que não se esforçassem mais. Mas com tanto esforço e poucos resultados, há grandes chances de seus filhos se tornarem pessoas inseguras, exigentes e frustradas consigo mesmas.
Há aqueles, no entanto, cujos filhos são a tradução dos seres mais primorosos que existem. Tudo o que fazem é ótimo. Se o filho apresenta algum comportamento diferente, no máximo, acham graça. Se algo lhes acontece, é culpa do mundo, eles foram apenas vítimas. Se vão mal na escola, é ela que não é boa. Só arrumam desculpas para aquilo que dizem, o contrário do que pensam.
Ambas atitudes colaboram pouco para o bem-estar e para o desenvolvimento das crianças, revelando a cegueira dos pais, que os impede de ver os verdadeiros filhos que têm. Enquanto um enxerga de maneira deformada, o outro apenas vê aquilo que quer, e pode.
Elogios
Quando uma pessoa nunca é reconhecida por aquilo que faz, por melhor que seja o produto, ela deixa de ter um parâmetro para avaliar o resultado de suas ações. Isso se dá inicialmente através do outro. A medida que cresce, essa capacidade de dar um valor para as coisas é internalizada. O outro não é mais tão necessário (sempre precisamos de elogios) para termos certeza de nossas ações.
Isso envolve o desenvolvimento da capacidade de aceitar seus próprios erros ou resultados não muito bons. Mesmo que eles existam, há espaço para o triunfo e para a satisfação.
Por sua vez, aqueles que não conseguem ver nada além da divindade que é seu filho, provavelmente negam seu lado humano e real. Esquecem de circunscrevê-lo, impedindo-o de ter a noção de quem realmente é. Algo que provavelmente seus pais também não sabem, apenas o imaginam de acordo com seus desejos.
Assim, ficam impedidos de ouvirem os filhos em suas necessidades. Se uma criança vai mal na escola, realmente pode ser uma falta de adaptação àquele tipo de instituição. Porém, outras possibilidades têm que ser consideradas, como uma dificuldade de aprendizagem, por exemplo. Algo que um pai só poderá se dar conta se não ficar negando a humanidade de seu descendente e tudo o que a envolve. Afinal, uma divindade jamais teria problemas para aprender.
Um filho tem que ser olhado como ele realmente é. No que é bom e em que precisa de ajuda. A função de um pai e de uma mãe é ajudá-lo a se constituir como pessoa – real e humana, para que ele possa ser e se reconhecer.
(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)
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