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terça-feira, novembro 09, 2010

Sobra mau gosto, falta brincadeira

Sobra mau gosto, falta brincadeira
ROSELY SAYÃO
Crianças são humilhadas em episódios chamados de "brincadeira de mau gosto"
A EXPRESSÃO "brincadeira de mau gosto", agora, virou moda entre crianças, adolescentes e até adultos.
E pior: ela tem sido usada, principalmente pelos mais novos, para explicar as situações mais absurdas e até tragédias que acontecem em nosso mundo.
Você se lembra, caro leitor, do garoto de nove anos que morreu na escola que ele frequentava, vítima de um tiro?
Pois em uma reportagem que abordava o assunto, colegas do menino chegaram a enunciar a hipótese de a tragédia ter ocorrido pelo descontrole do que seria, inicialmente, uma "brincadeira de mau gosto" entre colegas.
E o tal "rodeio de gordas", uma espécie de jogo universitário em que alunos da Unesp do campus de Assis demonstravam interesse em paquerar alunas com sobrepeso e, depois de conquistar a atenção delas, agarravam as garotas por trás e tentavam se manter nessa posição o maior tempo possível, simulando um rodeio? Da mesma maneira, o evento foi descrito por alguns alunos como uma "brincadeira de mau gosto".
Em escolas, é comum crianças serem humilhadas com apelidos, por colegas, ou serem excluídas e isoladas pelos mais diversos motivos e, da mesma maneira, as crianças nomeiam tais situações com a mesma expressão.
Até programas de televisão, agora, exploram o tema com as já conhecidas "pegadinhas" que, invariavelmente, colocam pessoas em situação de vexame, humilhação etc. Pois não é que as pegadinhas são chamadas de brincadeiras? De mau gosto, é claro. Que pena que juntamos nessa expressão conceitos tão antagônicos.
Brincadeira supõe, acima de qualquer coisa, diversão das pessoas envolvidas. Brincar é um ato lúdico muito próprio da infância, e que acaba por se estender pela vida toda. O que seria da nossa vida sem as brincadeiras e o prazer que elas proporcionam?
Por isso, fica difícil de entender a popularização da expressão em questão. Sabemos que o tempo que vivemos não ajuda os mais novos a construírem um sentido para a vida. Ao contrário: vivemos uma época dominada pela cultura do tédio, situação muito bem abordada e explanada por Yves de La Taille em seu último livro, "Formação Ética do Tédio ao Respeito de Si" (Editora Artmed). Concomitantemente, a importância do poder de um sobre o(s) outro(s) e o valor do individualismo também colaboram para esse clima de vazio da existência que começa a ser sentido por muitos, já na infância.
Em conjunto, talvez essas características do mundo contemporâneo, combinadas com algumas outras, tenham favorecido o surgimento e o crescimento das tais "brincadeiras de mau gosto", cada vez mais frequentes e presentes na vida dos mais novos. E é bom lembrar que o lugar de vítima e de agente, nesses casos, podem se alternar na vida de qualquer um deles.
Precisamos intervir nessa história para que crianças, adolescentes e jovens entendam que a vida social sustenta a vida pessoal e, portanto, quando não colaboramos para que os relacionamentos sociais sejam respeitosos, comprometemos nossa própria vida pessoal.
Da forma que temos permitido e inclusive participado de várias maneiras da criação dessas chamadas "brincadeiras de mau gosto", desconstruímos o conceito tão caro do ato de brincar, principalmente na infância e, mais ainda, contribuímos decisivamente para uma cultura de desrespeito, de si e do outro. É um futuro com tais características que desejamos aos nossos filhos?
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

terça-feira, outubro 12, 2010

A necessária desilusão amorosa

A necessária desilusão amorosa
MARION MINERBO - marion.minerbo@terra.com.br
O que leva uma adolescente a se apaixonar e sofrer por um ídolo inatingível?
AO COMPLETAR 14 anos, a filha de uma amiga pediu aos pais um presente diferente: ir ao aeroporto Galeão para ver Zac Efron, seu ídolo.
O ator, na época com 21 anos, sairia de um voo que chegava de Angra e embarcaria em outro que o levaria de volta aos EUA. Esse encontro parecia tão importante que os pais, mesmo achando estranho, decidiram bancar.
Às 22h o rapaz apareceu atrás do vidro. A garota o viu por pouco mais de um minuto, mas ficou feliz. Como não havia mais voo de volta para São Paulo, dormiram no aeroporto até o dia seguinte.
Outra adolescente, de 15 anos, está apaixonada por Nick, da banda Jonas Brothers. Quando o grupo passou por São Paulo, ela e outras 5.000 meninas fizeram fila durante horas para tirar foto com eles. Ao chegar perto do artista, a garota passou-lhe disfarçadamente o número de seu celular. Ele não ligou.
O que leva essas adolescentes a se colocarem na difícil -e dolorosa- situação de competir com mil outras garotas pelo amor do ídolo?
Certamente não é para pagar mico, nem por masoquismo. Elas precisam sofrer a desilusão do amor impossível para, recuperando-se, vir a amar alguém possível. Onde achar um amor impossível?
Um ator bonito e talentoso tem tudo para ser tão idealizado quanto inatingível.
Mas a fã vai lutar bravamente antes de desistir. Vai tentar de tudo até ter certeza de que não tem chance. A criativa vai até o aeroporto, a ousada dá o número de telefone. Uma precisa constatar pessoalmente que o avião partiu mesmo. A outra tem de amargar a frustração pela ligação que não veio.
A fã acabará aceitando que o ídolo escolherá alguém de seu próprio mundo, numa relação de igual para igual.
Ela não se coloca diante dele como igual, mas como admiradora incondicional: olha para ele com a mesma devoção com que olhava para o pai quando pequena.
Psiquicamente, as fãs de Zac Efron e Nick Jonas ainda são meninas. A necessária desilusão amorosa as liberta da infância e abre caminho para que virem mulheres.
Começam a olhar para os lados em vez de olhar para cima. A garota cujo ídolo não ligou descobriu um garoto interessante na sua classe e começaram a namorar.
Uma terceira teve um caso com seu ídolo. Depois, ele tocou sua vida e se casou com uma atriz. Mas ela ficou aprisionada naquela paixão. Nenhuma outra experiência, com nenhum outro homem, chegava aos pés do que tinha vivido com ele. Teve o azar de tirar o bilhete premiado.
MARION MINERBO, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Neurose e Não-Neurose" (Casa do Psicólogo)
class=� o m �_ �`_ 'text-align:justify;line-height:150%;border:none; mso-border-alt:solid #984806 1.0pt;mso-border-themecolor:accent6;mso-border-themeshade: 128;padding:0cm;mso-padding-alt:1.0pt 4.0pt 1.0pt 4.0pt'>DESMEMORIADOS Dilma cobrou, mas esqueceu o assunto “Paulo Preto”, ex-assessor do governo paulista que “fugiu com US$ 4 milhões”. Esqueceu, e Serra não cobrou, de “explicar detalhadamente” o escândalo Erenice Guerra.
FUROU A CANOA O governador do Rio, Sérgio Cabral, prometeu fazer companhia a Dilma, no debate da Band. Mas cancelou na última hora. A intriga mais saborosa atribuiu o cancelamento a más notícias nas pesquisas.
DILMA TEM VICE Michel Temer, vice de Dilma, desta vez foi incluído pelo PT entre os convidados para acompanhar a candidata no debate da Band. No primeiro debate, ele teve de “cavar” um convite da emissora. Temer está feliz, agora: pela primeira vez, vai aparecer no programa eleitoral.
MANCADA O programa de Agnelo Queiroz (PT) mostrou na TV quem o apoia – na “Assembleia” – ao governo do DF. Alguém precisa contar aos redatores do programa que não há Assembleia no DF, e sim Câmara Legislativa.
SÓ COLUNA? Descobriram que o filho do acupunturista de Dilma, Gu Zhou-Ji, está na folha de pagamentos da Casa Civil. O chinês disse que Erenice “estava com problema de coluna”. De coluna, artigos, editoriais, manchetes...
CASO MÉDICO No afã de atrair o apoio da Verde, o ex-senador petista Aloizio Mercadante disse que o coração dele e de Marina Silva “batem do lado esquerdo”. Do direito, seria irrevogável procurar um cientista.
PÕE NA CONTA O Conselho Nacional do Ministério Público apura suposta “lesão” ao nosso bolso pelo procurador-geral de Justiça do Piauí, Augusto Cézar Andrade, e do ex-, Emir Martins: eles deixaram um procurador em disponibilidade por quase dois anos. Remunerada, claro.
PENSANDO BEM......falta em carisma a Serra o que sobra em quilos a Dilma.
PODER SEM PUDOR
ERRO DE LOGÍSTICA
Hoje ministro do Tribunal de Contas da União, José Múcio Monteiro foi escalado pelo PFL para disputar o governo de Pernambuco com Miguel Arraes, que retornara do exílio. Sabia que a surra seria grande, mas topou. O PFL botou um helicóptero à sua disposição e, certo dia, ele desceu num distrito próximo a Palmares. Foi o maior rebuliço. No palanque, ouviu a saudação: “E agora o candidato a governador de Pernambuco, que vem de helicóptero só para nos prestigiar!” Ele ficou surpreso com a expressão “nos prestigiar”, mas o locutor explicou onde ele chegara de verdade:
– O senhor é candidato em Pernambuco. O nosso distrito é em Alagoas.

terça-feira, outubro 05, 2010

Comprar ou brincar

Comprar ou brincar
ROSELY SAYÃO
A aquisição exagerada de brinquedos colaborou para que a brincadeira ficasse em segundo plano
"NÃO BASTA ser criança para ter infância". Essa frase, pronunciada no documentário "A Invenção da Infância" (disponível na internet em www.portacurtas.com.br), não me deixa em paz.
Todo dia minha memória a torna atual: quando pais falam comigo a respeito de seus filhos, quando professores contam como organizam os trabalhos na educação infantil com seus alunos, quando vejo crianças em situações nada infantis. Com a aproximação do chamado Dia da Criança, creio que vale a pena dialogar com a frase. Desde que o conceito de infância foi inventado, nós temos uma ideia social do que é ser criança e essa ideia foi utilizada principalmente para fazer distinções entre adultos e crianças.
Pois a infância, caro leitor, vem sofrendo tantas transformações no mundo contemporâneo que, hoje, já não temos mais consenso social a respeito do que é infância e, portanto, do que é ser criança.
Por isso, fica extremamente difícil traçar alguma linha divisória entre o universo infantil e o mundo adulto.
Esse fato torna a vida de todos -crianças ou não- muito mais complexa porque, na ausência de um conceito compartilhado pela sociedade, cada um cria seu próprio conceito a respeito.
Já no início dos anos 80, um professor universitário estadunidense chamado Neil Postman publicou um livro chamado "O Desaparecimento da Infância", em que alertava a sociedade para o fato de que as crianças estavam se transformando precocemente em adultos.
Na época, a tese do autor parece não ter feito muito sentido porque o livro foi republicado apenas em 1994. O mesmo ocorreu no Brasil: a primeira edição aqui saiu em 1999, e a reedição veio apenas seis anos depois.
Isso pode significar que a sociedade está, atualmente, com o seu olhar mais voltado para a infância, quiçá com anseios de salvá-la. Vamos então fazer um breve levantamento sobre como temos feito as crianças se transformarem em adultos antes do tempo.
Comecemos, à luz da comemoração do Dia da Criança, sobre como elas têm sido sugadas pelo consumo. Nem é preciso falar muito a esse respeito, porque já sabemos que, antes mesmo de a criança saber o que é ser cidadão, ela já ocupa ativamente o papel de consumidor. Alguém tem dúvidas de que esse dia será celebrado pela sociedade, de modo geral, por meio do consumo?
A aquisição desenfreada de brinquedos colaborou muito para que o ato de brincar ficasse em segundo plano. Resultado: as crianças, na atualidade, quando querem brincar não podem e, quando podem, não querem e/ou nem sabem.
Num outro documentário chamado "Criança, a alma do negócio" (disponível em www.alana.org.br), existe uma cena chocante. Um adulto pergunta a um grupo de crianças se elas preferiam brincar ou comprar. Comprar foi a resposta quase unânime.
E o que dizer, então, do tempo da criança? Em casa ou na escola, ela quase não tem tempo para brincar já que, quando ela brinca, queremos que aprenda algo. Brincar deixou de ser uma finalidade em si para se transformar em meio para atingir alguma meta ou objetivo. Pode? Ora, desse jeito, o brincar deixa de ser lúdico para se tornar um método pedagógico!
Se quisermos verdadeiramente melhorar o futuro para os mais novos, nós precisamos deixar a criança ser criança enquanto ela está na fase da infância. Isso significa que os adultos precisam renunciar a serem, eles mesmos, tão infantilizados.
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

segunda-feira, outubro 04, 2010

Psicólogos estudam a importância da beleza na vida dos seres humanos

Psicólogos estudam a importância da beleza na vida dos seres humanos
Nicholas Humphrey
Os psicólogos estão se interessando novamente pela história da evolução da beleza. Mas ainda há muita coisa desconhecida. A teoria da evolução não teve problemas para explicar a maioria das coisas que dão prazer aos seres humanos: mel, orgasmos, raios de sol, canções de ninar, flores no jardim. Mas, quanto mais perto chegamos da beleza propriamente dita, mais difícil é perceber como a atração das pessoas pela beleza pode contribuir para a sobrevivência biológica. Se a beleza tivesse um significado relativamente menor em nossas vidas, poderíamos deixá-la de lado. Mas, na verdade, é o oposto. Na beleza, as pessoas podem encontrar o próprio sentido da vida.
A beleza é de fato uma coisa tão distinta? Será que a beleza não é apenas o caso limitado dos prazeres ordinários – produzida, talvez, pela união de várias espécies de prazer num único momento?
Há vários motivos para acreditar que nossa resposta à beleza é de fato especial – e diferente de nossa resposta em relação a um cheesecake, por exemplo. Pensamos na beleza, como disse o filósofo G.E. Moore, como um coisa boa em si mesma. Mas não achamos que o cheesecake é bom em si. Nos sentimos virtuosos em perseguir nosso amor pela beleza, e esperamos que os outros nos apreciem por isso – como se, em vez de cedermos a um apetite privado, estivéssemos honrando algo de maravilhoso fora de nós.
Nós amamos a beleza através de nossos sentidos, mas o que amamos obviamente não se resume apenas ao estímulo sensorial. No caso do cheesecake, precisamos apenas receber o estímulo na língua e os botões afetivos certos são pressionados. Mas no caso da beleza, não é algo tão direto. Para começar, precisam nos dizer o que é beleza antes que respondamos a ela. O ensaísta norte-americano Henry Thoreau disse: “não gostamos de poesia a menos que saibamos que é poesia”. E o mesmo vale para muitas formas de arte.
Além disso, não basta que um objeto com as qualidades sensoriais certas chegue à nossa atenção como arte. Ainda precisamos saber quem o fez e como. Nos preocupamos bastante com o input criativo, a genuinidade e autenticidade. Embora achemos uma cópia de uma fatia de cheesecake tão saborosa quanto outra, achamos uma reprodução de Rembrandt menos valiosa – e menos bela – do que o original. Embora apreciemos o cheesecake sem pensar como ele foi feito, valorizamos as obras de arte apenas quando vemos a mão do ser humano por trás dela.
A beleza nos inspira, e nos eleva – provocando às vezes a sensação peculiar de “fluidez”, “fusão” ou “união”. A escritora britânica Rebecca West escreveu, por exemplo, sobre “esta cristalina concentração de glória, esta profunda e serena e intensa emoção que sinto diante das maiores obras de arte.” “O que, afinal”, ela se pergunta, “é essa emoção? Qual é o papel das supremas e grandes obras de arte na minha vida, que faz com que eu me sinta tão feliz?” Bem, o que um psicólogo evolucionista acha disso? Uma coisa é evidente de imediato, e trata-se dos sinais indicadores de uma emoção social. A beleza desperta a emoção moral. E as emoções morais – ciúme, raiva, paixão, luto, devoção, admiração, humildade – sempre estão fundamentalmente relacionados a outras pessoas. O mesmo vale para a beleza.
Pode parecer que nós gostamos das coisas belas como se o que importasse fosse a própria existência dessas coisas. Mas e se os nossos sentimentos sobre as coisas forem na verdade um reflexo de nossos sentimentos em relação a uma pessoa idealizada? E se as emoções que surgem por causa da beleza espelham as que podemos sentir de outra forma por uma criança, uma mãe, um amigo, um parceiro sexual?
A chave está na sexualidade. As evidências são claras. As imagens do êxtase estético são, de tempos em tempos, transparentemente eróticas. Já vimos isso na fala de West sobre “esta cristalina concentração de glória”. Ou também no crítico hispânico-americano George Santayana, que escreveu: “todo o lado sentimental de nossa sensibilidade estética – sem o qual isso seria perceptivo e matemático em vez de estético – deve-se à excitação remota de nossa organização sexual.”
Acredito que Santayana estivesse certo. Mas ele ainda não tinha uma boa ideia sobre o porquê estava certo. Charles Darwin, entretanto, tinha uma ideia muito boa. O que Darwin propôs em seu grande livro “A Origem do Homem e a Seleção Sexual” era que as preferências estéticas humanas de fato evoluíram no contexto da corte e da escolha de um parceiro.
Quando estamos excitados pela beleza, o que acontece num nível mais profundo é que estamos respondendo às características do objeto belo que revelam a mão de um artista. No mundo real, qualquer artista assim deve ser um indivíduo com habilidades manuais, sensoriais, intelectuais e talvez até morais especialmente desenvolvidas. E uma pessoa com essas habilidades deve ser uma pessoa com traços altamente desejáveis como progenitor, pai ou mãe, companheiro ou companheira. Assim, quando nos excitamos com a beleza das coisas em torno de nós, estamos nos excitando com as pistas de que estamos na presença de um bom parceiro em potencial.
Ainda assim, mesmo que isso seja uma resposta plausível para “por que as pessoas fazem e apreciam arte?”, ela não pode ser a resposta total para a pergunta “por que amamos a beleza?”. Porque esta teoria não diz nada sobre a resposta humana à beleza do mundo natural. Ainda assim, as emoções estéticas despertadas respectivamente pela beleza na arte e na natureza são certamente muito parecidas.
Acho que a resposta está na convergência notável entre as características das obras de arte que valorizamos porque fornecem uma prova da habilidade humana, e as características de coisas naturais que evoluíram e persistiram porque essas características normalmente as conferiam um poder de continuar existindo e a capacidade de sobreviver. Isso quer dizer, a convergência entre nossa percepção de uma “boa forma” estética e a seleção natural de uma “forma estável” do ponto de vista evolutivo.
No caso de animais e plantas, parte da explicação se deve ao trabalho da seleção natural comum. Ter um corpo que cresce de uma forma ordenada e harmoniosa é a melhor forma de construir uma máquina viva. A boa forma é biologicamente adaptável. Simetria, segmentação, equilíbrio, graça. Essas características são a escolha preferida pelo “relojoeiro cego”.
Mas há outro motivo bem diferente para a convergência. É a existência de leis universais da morfogênese que resultam na emergência dos chamados “estados atratores” - estados que produzem a ordem a partir do caos. E essas leis funcionam em tudo na natureza, onde quer que sistemas complexos estejam em fluxo. Tanto que percebemos que a ordem e a harmonia emergem não só na natureza orgânica mais em tudo ao nosso redor, também na natureza inorgânica – na forma das cadeias de montanhas, nuvens, galáxias.
Imagine, agora, que nossa suposição básica quando nos deparamos com esses modelos na natureza é imaginar que isso deve ter a mão de um artista por trás. “Alguém sente o mesmo tipo de emoção por uma borboleta ou uma flor que sente por uma catedral ou uma pintura?”, perguntou certa vez o crítico britânico Clive Bell. A resposta (embora não a de Bell) poderia ser: sim, nós sentimos.
A ilusão da beleza natural funciona desde que de fato imaginemos a mão de um artista. Mas essa condição levanta problemas. Porque, como eu disse, nós evoluímos para sermos altamente sensíveis a questões de autenticidade na arte. Em geral, se descobrimos que uma obra de arte não é do artista que imaginávamos, provavelmente vamos achá-la relativamente sem valor. Assim, há uma questão real sobre por que deveríamos continuar a valorizar as obras da natureza quando na verdade nós sabemos que nenhum artista as fez.
A resposta, é claro, é que não sabemos isso: ou estamos muito dispostos a nos enganarmos. E esta ilusão pode ser sustentada por vários fatores.
Para começar, acontece que muitos de nossos encontros com a natureza acontecem primeiro através da arte. Nós vemos fotos de flores feitas pelo homem antes de encontrarmos com as flores de verdade. E mesmo quando vemos primeiro a coisa de verdade, costumamos não percebê-la até que um artista humano a capture e a enquadre para nós. Assim, até o momento em que vemos a cena natural, já a vimos pelos olhos de um artista anterior.
Mas existe também uma tendência humana para acreditar que os fenômenos naturais não são meramente obras acidentais de arte, mas obras genuínas – o trabalho de um criador supremamente inteligente e habilidoso. Tudo leva a crer que é de fato essa admiração pelo Grande Artista no Céu que explica o romance que temos com a natureza. Então encontramos Newton, por exemplo, argumentando que apenas um artista extremamente habilidoso poderia ter feito as leis da física tais como são.
Nós amamos a natureza porque acreditamos que Deus a fez. Mas seria ainda mais próximo da realidade psicológica e biológica dizer: “Como Deus fez a natureza, é por isso que eu amo a Deus”. Uma vez que, seguindo meu argumento, pareceria provável que nossa experiência da beleza natural nos levasse a uma paixão erótica por qualquer um que imaginamos tê-la criado. Assim, o êxtase religioso, o êxtase estético e o êxtase sexual se tornariam parte do mesmo pacote.
*Nicholas Humphrey é psicólogo teórico e professor emérito da Escola de Economia de Londres. Seus livros incluem “Seeing Red: A Study in Consciousness” e “Soul Dust”, que será lançado em breve
Tradução: Eloise De Vylder

quinta-feira, setembro 09, 2010

Psicologia do golpe do sequestro

Psicologia do golpe do sequestro
Mauro Laskowsky – Blog Psicologia Evolucionista na Clínica
Muita gente no Rio de Janeiro tem sido vítima do golpe do sequestro por telefone. Bandidos ligam para a casa da pessoa, dizendo que estão com um parente e pedem um dinheiro que deverá ser levado em algum ponto da cidade em troca do parente em questão. Geralmente eles instigam a pessoa a dizer o nome do seu próprio filho sem perceber e usam esse nome para desesperar a vítima.
Mas o que me tem chamado a atenção é o fato de que mesmo sabendo deste golpe já muito divulgado, as pessoas caem nele assim mesmo.
E o mais extraordinário é o seguinte: Todas as mães de conhecidos que tenho conversado (inclusive a minha própria), juram que ouviram a voz de seus filhos no fundo, pedindo ajuda. É quase um experimento involuntário e mórbido da incrível distorção que podemos fazer de nossos sentidos. Essas mães por algum mecanismo emocional incrível ouvem a voz de seus filhos mesmo não sendo eles a gritar no fundo na ligação.
Imagino que as mães quando percebem do que se trata o telefonema acima, colocam toda a sua atenção sensorial em cada micro ruído que seu ouvido é capaz de ouvir vindo do outro lado da linha. Esta superatenção, estando elas sob estresse, deve confundir a capacidade de avaliação da vítima a ponto dela acabar sucumbindo pela forte emoção.
Essa questão me veio à cabeça quando estava lenda um texto sobre “lembrança de vidas passadas” e também considerei as pessoas que juram terem vistos ETs, enfim crenças não comprovadas cientificamente, mas que rondam o imaginário de um modo geral. A certeza que as pessoas têm de terem presenciado aparições ou fenômenos dessa natureza, deve ter um mecanismo cerebral semelhante de engano ou autoconvencimento ao que as mães acima sofrem.
Não é a toa que no meu caso particular foi meu padrasto que é Físico, portanto um homem acostumado com evidências, que salvou minha mãe do golpe, tendo a ideia de falar um nome qualquer para induzir o bandido ao erro evidenciando que se tratava de um golpe.

Jeffrey Arnett: Elas são “adultos emergentes”

Jeffrey Arnett: Elas são “adultos emergentes”

Psicólogo americano aponta um novo período de transição depois da adolescência

Fernanda Colavitti – Época

ÉPOCA – Qual é a definição de adulto emergente?
Jeffrey Arnett – É um período intermediário entre a adolescência e a vida adulta, que ocorre entre os 18 e os 25 anos – podendo durar mais ou menos, dependendo da pessoa. Nessa fase, os jovens prolongam o período em que não precisam ter todas as responsabilidades da vida adulta. O motivo é a procura por melhorias em sua vida: investimento nos estudos, na carreira ou na estabilidade financeira. Também estão à procura da pessoa certa para casar e ter filhos.
ÉPOCA– Homens e mulheres passam por isso da mesma forma?
Arnett – As mulheres experimentam como os homens esse período de transição antes da vida adulta. A diferença é que elas têm um relógio biológico que, aos 30, começa a alertá-las de que o período de fertilidade está diminuindo. Portanto, se quiserem ter filhos, precisam crescer. Elas tendem a casar e ter filhos três anos antes dos homens.
ÉPOCA – Adultos emergentes também existem em países como o Brasil?
Arnett – Em países emergentes a maioria dos jovens não passa por essa fase. Casam, têm filhos e param de estudar antes dos 20 anos. Mas em todos os países emergentes há minorias de jovens de classe média e alta que experimentam essa fase, ainda que de forma diferente dos jovens dos países industrializados.


Jeffrey Arnett Psicólogo, professor da Universidade Clark, nos Estados Unidos, escreveu três livros sobre adolescentes e tem dois filhos

quarta-feira, setembro 08, 2010

Paul Bloom: "Nossas crenças afetam nosso prazer"

Paul Bloom: "Nossas crenças afetam nosso prazer"

Um dos maiores estudiosos do aprendizado explica por que a ilusão é importante para o desejo humano

Letícia Sorg - Época

É fácil imaginar uma explicação evolutiva para o desejo de fazer sexo ou comer – comportamentos favoráveis à reprodução e à sobrevivência da espécie tendem a ser transmitidos. Mas como explicar o gosto por música ou pintura? Por que na infância gostamos de ursos de pelúcia? Em suas pesquisas sobre o desenvolvimento infantil, o psicólogo Paul Bloom, professor da Universidade Yale, descobriu que as crianças não gostam de seus brinquedos por causa da aparência e se recusavam a receber uma cópia, mesmo idêntica, no lugar do original. Qual é a razão? Instigado pela dúvida, Bloom reuniu as últimas pesquisas sobre o tema no livro How pleasure works (Como o prazer funciona), lançado recentemente nos Estados Unidos. Nesta entrevista, como no livro, ele tenta explicar por que gostamos do que gostamos.
ENTREVISTA - PAUL BLOOM
QUEM É Psicólogo nascido em 1963 em Montreal, no Canadá, vive em New Haven, nos Estados Unidos, com a mulher, a psicóloga Karen Wynn, e dois filhos
O QUE FEZ É professor do Departamento de Psicologia de Yale. Seus trabalhos foram publicados nas revistas Nature e Science, entre outras. Escreve regularmente artigos em jornais como o The New York Times e o The Guardian. Entre outros livros, é autor de Descartes’ baby (2004), sobre como crianças aprendem
ÉPOCA – Por que é importante saber por que gostamos do que gostamos? Paul Bloom – Há duas respostas. Minha resposta é que é intelectualmente interessante. O prazer é um aspecto fundamental da natureza humana e qualquer teoria sobre a mente ou sobre como as pessoas funcionam inclui entender melhor do que elas gostam. A resposta prática é que muitas pessoas querem aumentar a quantidade de prazer que têm em sua vida e diminuir a quantidade de sofrimento, e, para isso, é preciso entender do que gostamos e por que gostamos. Muitos de nós não sabemos o que nos dá prazer, e aprender mais sobre isso pode melhorar nossa vida.
ÉPOCA – O senhor diz que há uma lista finita de prazeres. Quantos e quais são eles? Bloom – É difícil dizer um número, mas são mais do que cinco e menos do que 50. As pessoas gostam de sexo, de comida, de histórias, de se sentir seguras, de satisfazer sua curiosidade... Se continuarmos a listar, chegaremos aos prazeres que nos foram dados pelo processo evolutivo.
ÉPOCA – Mas seu livro questiona a ideia de que todos os prazeres são resultado do processo evolutivo e, portanto, formas de favorecer a reprodução e a sobrevivência. Bloom – Grande parte do meu livro é uma discussão sobre como vamos além desses prazeres inatos. Muitos prazeres – os mais interessantes, eu diria – não trazem nenhuma vantagem evolutiva, como apreciar uma obra de arte ou assistir à televisão. A ideia de que muitos prazeres surgiram da evolução é verdadeira, mas me interessa como nós ampliamos e elaboramos esses prazeres, algumas vezes até eles não terem mais benefícios para nossa sobrevivência. As pessoas evoluíram para sentir atração sexual umas pelas outras. Isso faz muito sentido dentro da teoria de Darwin. Mas também somos atraídos pela pornografia, por fotografias, por vídeos, que não trazem nenhum benefício reprodutivo.
ÉPOCA – Mas todo prazer precisa ter uma ligação, ainda que indireta, com a evolução? Bloom – Há sempre uma ligação, mas nem sempre tão simples. O caso da pornografia é uma extensão clara: como evoluímos para responder aos estímulos de pessoas reais, é natural respondermos também a imagens. Mas há extensões menos claras, como o prazer dos objetos com valor sentimental, como ursos de pelúcia, alianças de casamento. Esse é um prazer muito humano – não é algo que poderia facilmente ser explicado pelo processo evolutivo. Basicamente, o que acontece é que relacionamos nossa própria história ao objeto.
ÉPOCA – Isso quer dizer que o prazer é mais cultural do que biológico? Bloom – Não. Nós temos interesse na essência das coisas, na natureza mais profunda, e isso é universal. Não é produto de uma cultura, é biológico. Mas há também aspectos culturais que podem alterar nosso prazer.
ÉPOCA – Como explicar que dois irmãos que dividem grande parte da carga genética e foram criados na mesma cultura possam ter gostos totalmente diferentes? Bloom – Uma parte da explicação está nas diferenças genéticas. Outra parte pode estar ligada à experiência individual – um irmão pode comer algo ouvindo uma música de que gosta e associar um alimento a algo bom, enquanto o outro pode fazer uma associação ruim.
ÉPOCA – O senhor descreve vários estudos que mostram como somos incapazes de distinguir, em testes cegos, água da torneira de água engarrafada, vinho caro de vinho barato. Bloom – Somos incapazes até de distinguir patê de ração de cachorro! O engraçado é que as pessoas acham que elas, ao contrário dos participantes das pesquisas, saberiam a diferença. Elas me dizem: “Eu gosto da bebida pelo seu sabor! Bebo aquele vinho porque gosto, não ligo para o preço”. Mas isso é uma ilusão de todos nós. Quer gostemos ou não, nossas experiências são muito influenciadas por nossas crenças. O que pensamos afeta drasticamente o que sentimos.
ÉPOCA – Deveríamos, então, deixar de lado as degustações de vinho e parar? O prazer é uma ilusão? Bloom – As pessoas sempre pensam que esses estudos trazem uma má notícia. Mas não estou certo disso. Essas pesquisas só mostram que somos sensíveis a aspectos mais profundos. Suponha que você tenha um objeto de que gosta muito, mas que não consiga distinguir de outro objeto, uma cópia, pelo qual você não tem nenhum apreço. É irracional gostar mais do original, por causa de sua história, do que da cópia? Acho razoável considerar que algo é mais gostoso porque você acha que é natural ou porque você sabe que é mais caro. É verdade que somos enganados algumas vezes, mas não na maioria delas. Às vezes escolhemos ter um Picasso, e não uma réplica; ou manter nossa aliança de casamento original, e não usar uma cópia. Existe a opção de beber um vinho sem olhar o rótulo ou saber seu preço. Mas, na minha opinião, ter esse conhecimento torna as experiências mais prazerosas.
ÉPOCA – Até que ponto podemos alterar nossos gostos, nossas fontes de prazer? Bloom – Se as crenças mudam radicalmente a forma como as pessoas sentem algo, então o prazer pode mudar se as opiniões mudarem. Se suas convicções sobre um objeto mudarem, seu sentimento sobre ele vai mudar. Se as pessoas começarem a reprovar o processo de obtenção dos diamantes, vão passar a gostar menos deles. Isso de certa forma é uma boa notícia: nossa crença de que algo é ruim pode nos fazer gostar menos dele.

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