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quinta-feira, junho 23, 2011
O problema do passado - Roberto DaMatta
O problema do passado
ROBERTO DaMATTA - O Globo - 22/06/2011
Meu título ideal seria "o problema do passado e o passado como problema", mas ele é grande demais para o jornal que vai embrulhar as batatas dos vencedores. Ou seja: os "anos atrás" (e como poderiam estar na frente?), esse cacófato que forma ao lado do "escapei do pior" o par de burros de nossa insensibilidade para com uma escrita atenta e que, encarnados na vontade de perpetuar até a eternidade certos documentos, é o nosso novo problema.
Outro nome cogitado foi "uma teoria da ferida". Minha inspiração vem da justificativa do presidente do Senado, José Sarney, ao racionalizar a sua adesão a evitar que certos documentos pudessem ser abertos a nós, os cidadãos comuns dessa sociedade a quem tanto ele, Sarney, quando todos os chamados "órgãos de controle" e todos os arquivos, bem como todos os tijolos, mesas, papéis e funcionários do estado, têm o dever de honrar e servir. E aqui está o nó da questão.
Pois para José Sarney, como para Fernando Collor, soltar alguns documentos da sua prisão dos anais do poder abre feridas. E como um dos donos do poder à brasileira, ele invoca uma teoria de inspiração eugenista (que tem sido a base reacionária para justificar o nosso racismo) para mais uma vez tentar impedir o fim da conversa de um Brasil dos patrões e barões (que sussurra segredos) com o Brasilzão igualitário que exige todos os diálogos. Não apenas para tentar botar na cadeia os que usam cargos públicos para reencarnar baronatos, mas para ter uma maior compreensão dos seus caminhos. Para ver o que se esconde debaixo do tapete.
Com a sua "teoria da ferida", Sarney revela como estamos muito mais no "1984" de George Orwell do que no 1848 de Marx e Engels. Se, com o seu manifesto, eles queriam liberar as forças sociais, o primeiro vislumbrou um mundo no qual quem dominava o presente subjugava o passado. Seu herói, um certo Winston Smith, membro de um já brasileiro Ministério da Verdade, exercia a função sugerida por esses nobres ex-presidentes e outros potentados da nossa cena política: reescrever o passado de acordo com o interesse do Partido. Coisa realizada por esse mesmo Sarney com o mesmo argumento há algumas semanas, quando tentou suprimir do painel histórico do Senado o impeachment de Collor.
O uso do eterno como dimensão de legitimidade é um dado das sociedades hierárquicas. Em vez de discutir o passado elas preferem o seu enterro e a sua supressão. Não foi isso que nos fez queimar os arquivos da escravidão, o que, dizem alguns historiadores, evitou indenizar os escravocratas naquilo que seria uma "bolsa da escravaria", mas que - e esse é o ponto - impediu conhecer melhor as implicações de um estilo de vida escravocrata?
Em sistemas onde tal tendência coexiste com a dimensão igualitária e competitiva, como é o caso do Brasil, esse traço transforma-se numa borra. É uma excrescência reacionária que contradiz brutalmente toda a utopia do partido que elegeu a primeira mulher presidenta da República. Trata-se de uma negação da história, que - em vez de ser lida como algo que foi feito por pessoas em certos contextos e sob o governo de conceitos, crenças e valores, podendo ser avaliada e, reitero usando a palavra em itálico, compreendida - repete dogmas e promete uma demagógica mudança do presente para não ler um passado que pode ferir, como quer Sarney, ou curar como quer esse cronista de Niterói.
Só os infalíveis são prisioneiros do eterno. Deus é eterno e por isso nada lhe é estranho. Ora, a democracia igualitária nasce justamente pela relativização do eterno e pela presença do humano, que é necessariamente finito, falacioso, interesseiro, transitório, doente, deprimido e também e, por isso mesmo, confiante e orgulhoso de sua condição. Eternizar é esquecer, e esquecer é deixar de lembrar. Há doenças que impedem a lembrança, mas, no caso do Brasil de Dilma, Sarney e Collor, trata-se de bloquear a lembrança por decreto! Por um ato do Estado que se coloca como um pedaço independente da sociedade e dos valores que governam o todo do qual esse Estado, quer ele queira ou não, faz parte.
Essa eternização de papéis que escapam das classificações normais reitera algo que percorre minha obra. O fato de que, no Brasil, o Estado se situa como um pedaço independente da sociedade. Parodiando Pascal, como um coração, que, no entanto, tem razões que a sociedade desconhece.
Trata-se, mais uma vez, de uma blindagem. Agora não é mais do chefe da Casa Civil, mas de documentos que, por motivos que escapam do bom senso republicano, deveriam ficar com Deus nessa eternidade que, no fundo, é o nada de onde viemos e para o qual - salvo a fé e a esperança - retornaremos.
O esquecimento é o maior amigo dos poderosos porque ele impede o diálogo entre o dito e o não dito, entre o que se revela e o que se esconde. Tudo o que constitui a reflexividade daquelas mãos que se desenham a si mesmas de Escher, sem a qual não existe alma e humanidade.
Que se blindem os venais que preferem honrar o sigilo dado às empresas para as quais deram consultorias milionárias, deixando de lado o papel honroso de servidor do povo brasileiro como chefe da Casa Civil, entendemos todos numa era onde o assalto é feito em rede, mas que se imunize e higienize o que é de todos ultrapassa o bom-senso. Mesmo nesse mundo lulo-petista onde reina, até palavras e ações em contrário, a mendacidade.
quinta-feira, fevereiro 03, 2011
Legitimidades e vilezas
Legitimidades e vilezas
ROBERTO DaMATTA - O GLOBO - 26/01/11
Um traço visível, insofismável e indelével de nosso patriarcalismo escravista que curiosamente Gilberto Freyre não associava ao Estado, mas somente a sociedade, é - em toda tentativa de modernização - uma profunda crise de legitimidade. As regras não se encaixam aos comportamentos ou sequer com as suas implicações jurídicas. Essa incongruência surge em quase todos os domínios do chamado "estado", que confundimos (propositadamente ou não) com o seu lado mais personificado, o "governo" (que é sempre de alguém). O resultado é a vil transformação do legítimo em ilegítimo, tal como ocorre quando um tribunal condena um inocente. No momento chama atenção a questão da aposentadoria de governadores, um sistema que permite acumular múltiplos benefícios de tal sorte que os "patrões do estado" (relativamente eventuais, mas com um olho grande nas vantagens permanentes) transformam a administração pública num mecanismo de enriquecimento pessoal a competir com o seu lado altruístico e "social". Neste processo, o Estado deixa de ser um sistema destinado a prestar serviços à sociedade. Só há grana para pessoal, não há como investir em educação, saúde, transporte e segurança.
Estou convencido que tal modelo nasceu na matriz aristocrática imperial somada ao neo-stalinismo, tão popular entre os "desenhistas" que sucessivamente reformaram (com um extraordinário pendor para o pior) a nossa administração pública. Tais engenheiros, chamados nos governos militares de "tecnocratas", sempre foram travestis dos velhos letrados ibéricos, bacharéis em Coimbra, e crentes num platonismo jurídico que até hoje proclama a letra da lei como tendo o poder (tal qual uma formula mágica) de modificar a realidade, resolvendo suas contradições. Esse fetichismo jurídico-político tem sido dominante na política brasileira. É dele que vêm um brutal centralismo e o poder avassalador que faz com que um presidente tenha a capacidade de nomear milhares de pessoas e de distribuir para os ávidos comedores do bom presunto desse velho Reino de Jambon inúmeros cargos e instituições. Haja, porém, dinheiro para sustentar cada vez que tais mudanças sempre centralizadoras são feitas, causando roubos e rombos de todos os tipos. Numa fórmula, fizemos a república, mas jamais admitimos viver num sistema republicano. E os recursos da sociedade, furtados pelo Estado, são os construtores de uma curiosa dualidade: de um lados os milionários por ele vitaliciamente mantidos; do outro, os milhões de pobres e desvalidos que vibram quando recebem uma bolsa de pobreza! Tudo isso sob a égide de políticos bem vestidos e falantes, prontos para politizar tudo, até mesmo a política!
Um amigo faz o desabafo: minha filha separou-se! O marido deu-lhe um cartão vermelho e fugiu de casa como um foragido da lei.
- Sei como é difícil... Mas com diálogo e bom senso tudo se resolve - repliquei, sabendo do poder desse tipo de tempestade.
- Pois, professor, bom senso é justamente o que não há. O fdp recusa conversar. Sabe como tocar no coração da minha filha, que se casou novinha e o tinha como modelo e mentor. Procrastinador, ele adia tudo e recusa até mesmo os filhos que, moços, vão enxergando o pai como uma figura cada dia menor aos seus olhos. É de cortar o coração...
- Sabe qual é a última? Ele agora quer o seu nome de volta. Imagine, todos os documentos de minha filha têm o nome de casada e ele, sabendo como feri-la mortalmente, quer um pedaço daquilo que se incorporou à sua identidade. Na última conversa que tiveram, ela recusou e ele propôs, veja que vileza, vender o seu nome por algumas dezenas de milhares de reais. O senhor já viu isso alguma vez?
- Vi! - respondi com o coração partido pela contundência que a infâmia sempre produz.
É o Brasil moderno. Pelo partido come-se o Jambon, pelas ideologias fica-se rico, pelo nome de merda de uma família de bosta, um pobre diabo exige dinheiro da ex-companheira que o amou e que honrou esse mesmo nome que ele hoje desonra com todas as forças do seu mau caráter.
Que o leitor perdoe o mau humor do cronista que só não fala do flagelo dos deslizamentos e os comentários cretinos que provocam para não morrer do coração.
Mas onde a legitimidade transborda ilegitimidade, revelando o intestino do sistema, é quando ocorrem esses acidentes que reiteram não o trágico e o aleatório dedo da natureza, que não escolhe lugar ou pessoa, mas o uso do trágico para encobrir o descaso dos gestores públicos, no Brasil chamados eufemisticamente de "políticos", uma palavra que, sabemos todos, inclui tudo menos responsabilidade pública. E por isso eu proponho não mais usá-la e bani-la do nosso vocabulário, substituindo-a por gestor, gerente ou administrador público. Pois esses termos trazem à tona a dimensão de serviço e de desprendimento que os representantes desempenham nas democracias modernas como mediadores entre a sociedade e os seus grupos e o estado, por meio da governabilidade que exercem nos parlamentos e nas administrações coletivas.
ROBERTO DaMATTA é antropólogo.
quinta-feira, janeiro 20, 2011
Em redor do Amor
Em redor do Amor
Roberto DaMatta – O Globo e O Estado de S. Paulo - 19/01/11
Faz tempo. Depois num baile, um rapazinho tímido e elegante foi agraciado com uma promessa maravilhosa. A mocinha que ele amava com um amor de fazer doer o coração perguntou depois de um longo e delicioso beijo: o que você quer de mim? "Queria que você gostasse de mim para sempre!", disse o moço encostando a perna no muro cúmplice do apoio que precisava para outros abraços. Selaram o juramento com um segundo e um terceiro beijo. Uma estrela cadente confirmou a eternidade da promessa.
Naqueles tempos antigos, a gente não dizia que amava. A gente dizia que gostava. O amor era uma palavra muito forte e tão removida das coisas do mundo diário que requeria controle e dava vergonha. Escrevíamos sobre o amor, mas usávamos o gostar nas nossas declarações. O amor era para os deuses, para as igrejas cheirando a vela e incenso e para as telas dos cinemas. O gostar era para aqueles rostos deliciosamente humanos, vermelhinhos de tesão e vergonha. Nas telas chatas dos cinemas, eles falavam um trivial "I love you"; nós falávamos tremendo: "Eu gosto muito de você!" Uma outra coisa: só víamos o rosto das nossas namoradas. Quando sentíamos seus corpos, era um atrapalho. A pressão dos seios, o arredondado das coxas e o sentimento do monte que margeava o vale e a fonte que desconhecíamos eram intrusos a serem imediatamente agasalhados nos abraços reveladores do maravilhoso desejo de se confundir com o outro.
É possível um amor eterno? Um amor infinito? Um gostar com perenidade inabalável pelo tempo cujo papel é desmascarar a nossa transitoriedade e a nossa finitude? Quantas vezes me fiz essa pergunta e quantas vezes eu me achei abençoado pelo amor? Um lado meu que, como dizia Shakespeare, eu não sei se é o lado que pergunta ou o que pretende ter uma resposta, diz: o amor eterno dribla a nossa mortalidade. Somos enterrados, mas o amor triunfa nos seus impulsos que tocaram os que conhecemos. Neles fica essa memória do amor que trás de volta um encontro precioso da alma com o corpo (jamais contra ele), tornando essa convivência uma bênção porque, finalmente, eles não estão mais em guerra ou negociação. No amor, um precisa do outro e um se realiza por meio do outro.
O que esperamos do amor e no amor? No amor físico há uma etiqueta e por isso ele seria, digamos, cordial na sua grata selvageria e milagrosa avidez. Todos experimentamos, como indicam os melhores pesquisadores dessa área - os grandes poetas e cantores -, uma coercitiva curiosidade própria do amor erótico. Esse amor que se prova a si mesmo na medida em que se vai realizando. Daí o sentimento que ele é, simultaneamente, céu e terra; fogo e água; pele e coração; suspiro e estertor. No amor eterno, que nada pede porque simplesmente deseja ter tudo, não há limite nem etiqueta. O outro é tudo e nele estamos perdidos com a intensidade do desejo que uma criança tem por um sorvete ou um político, por um cargo. Como regular um amor que sempre leva a perda e a resignação porque não pode se concretizar em rotinas? Pois a prova do amor não é o clímax, mas o dia a dia que transforma o beijo sequioso no beijinho suave com o qual o marido e a esposa dizem "boa noite" um para o outro. Esses beijinhos dados na porta do supermercado ou na hora de ir para o trabalho são o fim ou são a prova de um elo amoroso?
No recalque do amor pelos códigos morais e religiosos, há uma disputa entre o amor incondicional devido ao Criador, ao Partido ou ao Mantenedor da Vida, e o amor pronto a ser vivido na carne. Esse amor personificado em uma criatura. Dir-se-ia que a segunda forma é uma deformação da primeira, mas pode-se perfeitamente inverter o argumento. O amor a Deus é um substituto do amor sensual que estamos sempre dispostos a sentir, mas que passa muito depressa. A teoria de um amor eterno (ausente em muitas sociedades, diga-se logo) compensa essa velocidade dos encontros com o ser amado, sempre fugazes e muito breves porque o corpo limita e aprofunda aquilo que a mente estende aos céus e às estrelas.
Fly me to the moon - canta o poeta.
Leve-me para a lua e deixe-me "tocar" entre as estrelas.
Eis, na simplicidade enganadora da música popular, a fórmula que meus pais e tios usavam, quando falavam da visita a um dantesco "sétimo céu". Essa subida aos céus usando o próprio corpo e não a alma ou uma nave espacial sem morrer e, muito pelo contrário, sentindo o coração pulsar com intensidade inusitada, compete com os deveres coletivos, sobretudo com as tarefas mais duras que os cotidianos requerem. Amar ou cortar lenha? Beijar na boca ou estudar? Escrever ou sentir o corpo do outro junto ao nosso? Que relação pode haver entre prazer e dever, senão o do conflito, do recalque e do combate?
Uma última pergunta: por que raios estou eu a escrever estas mal traçadas, quando todo mundo fala de política e de economia, dizendo sempre o mesmo do mesmo? Não sei. Só sei que essas questões fazem de mim um "homem humano", como dizia Setembrini, aquele habitante de uma certa montanha mágica inventada por Thomas Mann.
quarta-feira, dezembro 29, 2010
Ritos de passagem
Ritos de passagem
Roberto DaMatta - O Estado de S. Paulo - 29/12/2010
A expressão, embora técnica, é definitivamente poética. Remete tanto a um momento quanto a um processo, essas dimensões típicas do humano tanto na sua imprevisibilidade que nos faz voar, quanto na sua estabelecida tonelagem que nos ata a este mundo. Todos passamos e viver é transitar sofrendo ou exultando por meio das etiquetas e das fórmulas que recebemos das sociedades e famílias onde entramos sem convite ou escolha. Assim, ritualizamos tanto o nascimento quanto a morte; bem como todos os momentos críticos de nossas vidas. Felizmente, por mais que o tempo passe, haverá sempre uma primeira e uma última vez.
O descobridor dessa fundamental platitude não foi nenhum gênio da publicidade, mas um antropólogo chamado Arnold Van Gennep. Foi ele que num livrinho com esse título, publicado em 1909 (divulgamos essa obra no Brasil em 1978, numa coleção que dirigimos com o Prof. Luiz de Castro Faria), enxergou o padrão dos ritos de crise de vida individuais ou coletivos, que sempre e em toda época ou lugar, seguem os mesmos princípios. O primeiro é que, embora eventualmente ligados a processos fisiológicos, eles são de fato ideológica (ou socialmente) definidos; o segundo é que são sempre dramatizados e, assim, compartimentalizados em algum palco ou local onde devem ignorados ou obrigatoriamente ser vistos por todos; e, finalmente, o terceiro, é que todos eles têm uma fase de separação (que remove a pessoa ou o objeto do seu campo habitual); uma fase limite ou fronteiriça, onde não se está na velha posição social nem fora dela; e uma fase final de incorporação no novo papel, ambiente ou momento.
Ora, é exatamente isso que todos nós temos feito nesse período de festas. Fase inaugural de uma estação de consumo obrigatório que culmina no ano-novo, porque Papai Noel tem que encher o seu enorme saco de brinquedos e nós a nós mesmos e aos nossos próximos de "lembranças". Tal período termina no carnaval e se você quiser fazer alguma coisa séria nesta época, você vai ouvir um brasileiríssimo e preguiçoso: "Isso só depois do carnaval!"
* * *
Cada qual sai do ano velho e entra no novo com um rito de passagem peculiar. Conheço gente que toma banho de cheiro, outros que bebem e comem desbragadamente. Meu saudoso pai dava tiros de revólver para o ar; um amigo, antropólogo estruturalista, batia tampas de panela; outros comem lentilhas (símbolos de fartura) pela meia-noite. Dizem que quem faz algo bom na virada do ano, repete essa coisa o ano todo. Ademais, no Brasil, somos arregimentados a nos vestir de branco e ir à praia, onde fazemos um ano morrer e dele partejamos um tempo novo.
Neste Natal eu, modesto, fui ao barbeiro.
Como vocês sabem, o barbeiro é a prova mais patente e gritante de como nós precisamos do outro e somos feitos pelos outros. É o testemunho que não podemos nos enxergar dormindo do mesmo modo que estamos impedidos - a não ser usando algum instrumento - de ver nossas próprias nucas, costas e traseiros. A nossa proverbial lateralidade (esquerda/direita, alto/baixo, frente/fundo, fora/dentro) não nos permite coçar nossas costas. Precisamos de outras mãos e a coceirinha gostosa, mas irremediável, pode ser prova de terrível solidão.
Tudo isso faz com que o barbeiro seja a primeira e talvez a mais fundamental experiência de alteridade, pois ninguém corta - como sabem melhor do que ninguém os indianos - o seu próprio cabelo a ser trabalhado por um outro que nos vê pelas costas sem, entretanto, nos mandar embora ou nos desprezar.
- O que deseja?
- Um corte de cabelo.
- Qual?
- Como?
- Sim, meu senhor, que cabelo?
* * *
Um querido amigo me deve, por conta de um outro rito de passagem, o eleitoral - que seria vencido no primeiro turno e por larga margem pela candidata petista, hoje a primeira presidente mulher da nossa história, duas garrafas de uísque John Walker Blue Label. Mas até agora eu, de azul, só vi o céu, como naquela belíssima música de Irving Berlin. Blue skies/Smiling at me/Nothing but blue skies/ Do I see...
* * *
Estamos também transitando de governo, mas mantendo a tradição de Lula. Como teria reagido um feroz e oposicionista PT diante da proibição de uma greve no governo FHC? Salve a neomendacidade política lulista que talvez seja o sintoma mais flagrante de que transitamos para um meio-termo efetivamente burguês, iluminado pelo bom senso dos interesses próximos e, queira Deus, dos distantes também.
Aliás, a César o que é de César: o governador Sérgio Cabral falou franca, corajosa e abertamente de dois temas que temos que discutir e não podemos mais marginalizar: o aborto e o jogo como parte da bagagem da liberdade englobada pela cidadania republicana. Não sou favorável a nenhum descontrole, sei da gravidade e das contradições implicadas, mas penso que se pode estabelecer controles, sem os quais seria impensável diminuir ou limitar o hedonismo desabrido que conduz ao consumo de drogas, à dissipação pela jogatina e ao crime.
* * *
Finalmente, aproveito a oportunidade para desejar ao leitor um feliz ano-novo. Viva os bons momentos produzidos pelas festas. Aproveite essa brecha de alegria e despreocupação que a figura da Sagrada Família e dos Reis Magos, com seus inefáveis presentes, exemplificam. O sofrimento é permanente, mas ele é a maior prova de que o amor existe.
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