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sábado, outubro 30, 2010

Martha Medeiros: “A separação é uma pequena morte”

Martha Medeiros: “A separação é uma pequena morte”
Em novo livro, a autora de “Divã” descreve as dores que marcam o fim de um relacionamento
Martha Mendonça – Revista ÉPOCA
Perder um amor é como sobreviver a um acidente de avião. Primeiro se ouvem as turbinas parando, então vêm a parada definitiva e um estrondo. É assim que começa o novo livro de Martha Medeiros, Fora de mim, o relato ficcional de uma mulher no fim de um relacionamento. Mal foi lançado, o livro já está na lista dos mais vendidos de ÉPOCA. Martha Medeiros é uma escritora que descobriu em si as vozes de várias mulheres. Além de seu livro Divã – que, depois de teatro e cinema, deverá virar série de televisão –, outros dois foram adaptados para o teatro e estão em cartaz no Rio de Janeiro: Doidas e santas e o monólogo Tudo que eu queria te dizer. Influente no universo feminino, ela diz que já recebe mais e-mails de homens: “Eles também querem relações estáveis”.
QUEM É Gaúcha de 49 anos, é separada e mãe de duas adolescentes
O QUE FEZ Colunista e escritora, tornou-se uma espécie de referência para assuntos relacionados ao universo feminino
O QUE PUBLICOU Dezenove livros, entre eles os best-sellers Divã, Doidas e santas e Tudo que eu queria te dizer
ÉPOCA – Por que um livro sobre a dor da separação?
Martha Medeiros – Separação deixou de ser uma situação excepcional na vida das pessoas. Acontece com recorrência, em função do maior número de relações que temos durante a vida. E é uma dor que nada tem de amena. A perda de um amor verdadeiro é algo com o qual não sabemos lidar com desenvoltura. É uma pequena morte.
ÉPOCA – De onde saiu a comparação entre a separação e um acidente aéreo?
Martha – Não me lembro de onde surgiu essa ideia. Gosto muito de uma música do Pedro Verissimo, filho de Luis Fernando Verissimo, em que a letra diz que O amor foi como um acidente/foi como quebrar os dentes/foi cortante e de repente/e olha o que restou. Escuto muito essa música em minhas caminhadas, talvez seja daí. A verdade é que a dor do amor parece mesmo com um acidente a que sobrevivemos. É preciso superar o choque.
ÉPOCA – O que há de autobiográfico em Fora de mim?
Martha – O começo do livro tem a ver com dores já vividas, com uma paixão turbulenta que tive. Quem já não passou por um sofrimento de amor? Mas, passado o início do livro, o resto foi ficção pura. Busquei a latin lover que há em mim, meu lado Almodóvar, meu lado Frida Kahlo. Tenho atração pela passionalidade do amor.
ÉPOCA – Por que as mulheres se identificam tanto com o que a senhora escreve?
Martha – Creio que tenha a ver com a facilidade da escrita. Sou uma devota da simplificação e da objetividade. Tenho horror a enrolação. Gosto de pegar atalhos e ir direto ao ponto. Mulheres gostam de quem “fala” com elas de igual para igual.
ÉPOCA – Como se pode responder à pergunta “o que as mulheres querem”?
Martha – As mulheres querem tudo. Simples assim – e impossível assim.
ÉPOCA – No que o mundo de hoje está mais fácil e mais difícil para as mulheres?
Martha – Está mais fácil conquistar uma liberdade que sempre foi sonhada e que antes não passava de uma utopia. Hoje ela é palpável, real. O difícil é lidar com o preço que temos de pagar por ela.
ÉPOCA – A senhora está perto dos 50 anos, uma idade em que são comuns mudanças e questionamentos. Quais são os seus?
Martha – Pela primeira vez estou acusando o golpe da idade. O que me preocupa é que tenho um espírito muito jovem. Temo a falta de sintonia entre saúde física e saúde mental. Estou solteira, como só estive antes dos 20 anos. É um reencontro muito bacana comigo mesma, estou reconectando os fios que me unem a minha essência, mas pela primeira vez dá um friozinho na barriga quando penso em solidão. Ainda pretendo amar de novo.
ÉPOCA – Seus livros têm virado peças de teatro e ao menos um filme, Divã. A senhora vê sua criação nessas adaptações?
Martha – Tenho consciência de que, ao autorizar adaptações, deixo de ser a proprietária privada de minha obra. Passa a ser um trabalho de equipe. Aprendi a me desapegar, não posso exigir fidelidade absoluta ao que escrevi.
ÉPOCA – A senhora recebe centenas de e-mails e cartas. São sempre de mulheres?
Martha – Os homens estão quase se tornando maioria entre as mensagens que me chegam por e-mail, o que confirma que é um estereótipo a ideia de que eles só se interessam por sexo, carros e futebol. Eles também desejam relações estáveis, também têm medo da solidão, se preocupam com os filhos, não gostam da ideia de envelhecer...

sábado, julho 03, 2010

Ayres Britto nega liminar a políticos que tentavam escapar da ficha limpa

Ayres Britto nega liminar a políticos que tentavam escapar da ficha limpa
Políticos de SC, MG e PR tentaram reverter lei que vetou suas candidaturas.
Para vice-presidente do STF, só um colegiado poderia revogar as decisões.
Robson Bonin Do G1, em Brasília 03/07/2010 12h08 - Atualizado em 03/07/2010 12h42
O vice-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Carlos Ayres Britto, negou na noite desta sexta-feira (2) três pedidos de liminar para suspender a Lei da Ficha Limpa. As medidas foram apresentadas pelo deputado federal João Pizzolatti (PP-SC), pelo ex-prefeito de Montes Claros (MG) Athos Avelino Pereira e o ex-vice-prefeito Sued Kennedy Parrela Botelho e pelo candidato a vereador paranaense Juarez Firmino de Souza Oliveira.
A Lei da ficha limpa veta a candidatura de políticos condenados crimes eleitorais por um colegiado de juízes. A norma foi aprovada no Congresso e sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 4 de junho. Também ficam inelegíveis aqueles que renunciaram para escapar da cassação e os cassados pela Justiça Eleitoral por irregularidades nas eleições de 2006.
Ayres Britto está no exercício da presidência da Suprema Corte e negou os pedidos alegando que não poderia suspender individualmente uma decisão tomada por um colegiado de juízes. O ministro afirma que “não está totalmente convencido” da possibilidade de concessão do efeito suspensivo por decisão monocrática, ao analisar uma decisão de colegiado.
“Se não é qualquer condenação judicial que torna um cidadão inelegível, mas unicamente aquela decretada por um 'órgão colegiado', apenas o órgão igualmente colegiado do tribunal ad quem [instância superior] é que pode suspender a inelegibilidade”, argumenta Ayres Britto em seu despacho.
A negativa de Britto aos pedidos de suspensão da lei da Ficha Limpa ocorre depois de colegas – ministro Dias Toffoli e ministro Gilmar Mendes – de Ayres Britto terem concedido duas sentenças favoráveis a políticos atingidos pela norma, o senador Heráclito Fortes (DEM-PI) e a deputada estadual de Goiás, Isaura Lemos (PDT).
Casos
Ao negar o pedido do deputado federal catarinense João Pizzolatti (PP), Ayres Britto alegou que o parlamentar, condenado por improbidade administrativa, não foi penalizado pelo exercício de seu mandato, mas por ser sócio de uma empresa que teve um contrato com a Prefeitura de Pomerode (SC) considerado irregular pela Justiça.
O mesmo argumento foi utilizado por Britto no caso do ex-prefeito de Montes Claros (MG) Athos Avelino Pereira e do ex-vice-prefeito Sued Kennedy Parrela Botelho, condenados pela Justiça Eleitoral de Minas.
Já para Juarez Firmino de Souza Oliveira, condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Paraná, Ayres Britto afirmou que o Supremo não poderia suspender um recurso da Justiça Eleitoral. Oliveira teve suas contas de campanha para vereador de 2008 rejeitadas pelo Juízo Eleitoral da 66ª Zona de Maringá (PR). O TRE do estado extinguiu o recurso apresentado pelo candidato, que recorreu ao STF para garantir efeito suspensivo a recurso especial eleitoral contra a decisão do TRE, evitando a inelegibilidade.

FOTO: O vice-presidente do STF, ministro Ayres Britto
(Foto: Nelson Jr./SCO/STF)

domingo, maio 30, 2010

Marina Silva, uma mulher lúcida!

Além de si mesmo
MARINA SILVA - Folha de S. Paulo - 15/03/2010

"A liberdade, um dos direitos básicos da vida, é algo tão visceral e tão intrínseco à condição humana que, em determinadas situações, não poder usufruí-la é como tornar-se um morto-vivo, individual e coletivamente. Quando algumas pessoas chegam ao ponto de subtrair aquilo que é essencial ao corpo, que é o próprio alimento, estão usando o que lhes resta para apontar para essa morte social anterior.
A palavra é tão importante quanto o pão. Há outros alimentos que são vitais, a que chamamos de direitos humanos, que incluem a liberdade de expressar opinião, a liberdade de divergir. O direito de não ser tiranizado. Ainda que a greve de fome seja um ato extremo, muitos encontram nela a última forma de protesto. Por meio dela encerraram-se injustiças, salvaram-se vidas e despertaram-se a consciência e a solidariedade. Historicamente ganhou destaque mundial com Gandhi e sua batalha contra a opressão colonial inglesa na Índia.
Embora meus códigos pessoais e religiosos sejam contrários à ideia de dispor da vida, não há como desconsiderar sua semelhança com o sacrifício de tantos mártires da humanidade que, em defesa de seus ideais e causas, chegaram ao extremo de perder a própria vida.
Para G. K. Chesterton, o mártir se preocupa tanto com alguma coisa além de si mesmo que se esquece de sua vida pessoal. Em suas palavras, o mártir é um portador de princípios e atitudes nobres “porque morre para que alguma coisa viva”.
Nesse caso, o sacrifício acaba desencadeando um processo inescapável de interação, de corresponsabilidade, não só pela vida de uma pessoa, mas pela sobrevivência de valores basilares pactuados pela humanidade. É por isso que a política da não ingerência de um país nos assuntos internos de outro não pode significar a relativização de certos valores, mesmo que defendê-los possa nos criar alguns incômodos. Igualmente inaceitável é desqualificar o expediente e quem está expondo a ferida.
Uma forma de ser respeitoso e solidário é, às vezes, mostrar que nem sempre aqueles que são objeto de nossa lealdade estão certos. Nossa opinião sincera é também uma forma de lealdade.
Quando as contradições são empurradas para debaixo do tapete, em nome de quaisquer alinhamentos incondicionais, não existe parceria, e sim uma relação empobrecida de assimilação. Nesse caso, a cumplicidade mata, por inanição, a coragem para mudar e tornar o mundo melhor, onde quer que isso se coloque como desafio."

sábado, maio 29, 2010

Lucidez!

"Uma sociedade que não se mobiliza, 
uma sociedade que terceiriza seu destino nas mãos de um messias, 
de um salvador da pátria,
 não é uma sociedade politicamente sustentável"

Marina Silva

domingo, maio 23, 2010

O sexo triste dos jovens

O sexo triste dos jovens

Lya Luft

"A nós, adultos, cabe não desviar os olhos, mas
trabalhar na esperança de que um dia nossos
adolescentes conheçam o sexo com ternura"

Procuro ser aberta ao novo, ao que me agrada no novo e também ao que exige um certo tempo para ser assimilado. Às vezes há o que não vale a pena ser assimilado, então, vou buscar outras paisagens. Eventualmente não sabemos se vale ou não, então, a gente fica humilde e espera. Uma novidade (para mim) espantosa, narrada e confirmada em mais de um lugar no país, é dessas que não quero assimilar. Se possível, enterrava numa cova funda, varrida para baixo de mil tapetes, fazia de conta que não existia: o sexo (ou simulacro de sexo) sem encanto, sem afeto, sem tesão, o sexo triste ao qual são coagidos pré-adolescentes, quase crianças, em famílias de classe média e alta. Essas que pensamos estar menos expostas às crueldades da vida.
Talvez eles não precisem comer lixo, correr das balas dos bandidos, suportar brutalidades e incestos, tanto quanto os mais desvalidos. Seu mal vem sob outro pretexto: o de ser moderno e livre, ser aceito numa tribo, causar admiração ou inveja. Cresce, que eu saiba, o número de meninas de 12 a 14 anos grávidas. O impensável ocorre muitas vezes em festinhas nas quais se servem bebidas alcoólicas (que elas tomam, ou pagariam mico diante das amigas, e com essa desculpa convencem os pais confusos), não há nenhum adulto por perto (seria outro mico, e assim elas chantageiam os pais omissos), e ninguém imaginaria o que ia rolar.
Nessas ocasiões pode rolar coisa assombrosa sob o signo da falta de informação, autoridade e ação paternas. Nem sempre, mas acontece. Crianças bêbadas no chão do banheiro de clubes chiques, adultos cuidando para não sujar o sapato no vômito não são novidade (ambulância na porta, porque algumas dessas meninas ou meninos passam mal de verdade); quantas meninas consigo beijar na boca numa festinha dessas? Em quantos meninos consigo fazer sexo oral? Sexo que vai congelando as emoções ou traz uma doença venérea, quem sabe uma absurda gravidez – interrompida num aborto, de sérias consequências nessa idade, ou mantida numa criança que vai parir outra criança.
"Roubaram a sexualidade desses meninos", me diz uma experiente terapeuta. Não deixaram tesão nem emoção, mas uma espécie de agoniado espanto, nessas criaturas inexperientes que descobrem seu corpo da pior maneira, ou aprendem a ignorá-lo, estimuladas ou coagidas por incredulidade ou fragilidade familiar, pelo bombardeio de temas escatológicos que nos assola na TV e na internet, com cenas grotescas, gracejos grosseiros em torno do assunto – "valores" e "pudor", palavras hoje tão arcaicas. Efeito da pressão de uma sociedade imbecilizada pela ordem geral de que ser moderno é liberar-se cada vez mais, sem saber que dessa forma mais nos aprisionamos. Precisamos estar na crista da onda em tudo, tão longe ainda da nossa vida adulta: sendo as mais gostosas e os mais espertos, desprezando os professores e iludindo os pais, sendo melancolicamente precoces em algumas coisas e tão infantilizados e ignorantes em outras, nisso incluindo nosso próprio corpo, emoções, saúde e vitalidade.
A nós, adultos, cabe não desviar os olhos, mas trabalhar na esperança (caso a tenhamos) de que nossos adolescentezinhos, às vezes ainda crianças, vivam de maneira natural essa delicada fase, e um dia conheçam o sexo com ternura, na tesão de sua idade – forte e boa, imprevista e imprevisível, com seu grão de medo e perigo, beleza e segredo. Que essas criaturinhas sejam mais informadas e mais conscientes do que, muito mais protegidas que elas, nós éramos. Mas seguras e saudáveis, não precisando lesar sua bela e complexa intimidade com tamanha violência mascarada de liberdade ou brincadeira. Sobretudo, sem serem estimuladas a lidar de modo tão insensato com algo que pode lhes causar traumas profundos, ou anular um aspecto muito rico de sua vida. É difícil, mas a gente precisaria inventar um movimento consciente, cuidadoso, responsável, contra essa onda sombria que quer transformar nossas crianças em duendes pornográficos, deixando feias cicatrizes, e fechando-lhes boa parte do caminho do crescimento e do aprendizado amoroso.

quarta-feira, maio 12, 2010

Salvaguardar a lucidez, por Nilton Bonder

Salvaguardar a lucidez
NILTON BONDER
Uma conhecida história conta que o rabino viu um sujeito correndo desenfreado pelo mercado. Esbaforido, segurava com uma mão a mala e com a outra o chapéu para que não voasse. O rabino chamou o homem que, entre golfadas de ar, o cumprimentou. “Para onde você corre com tanta pressa?”, perguntou o rabino. “Como assim?”, disse o homem, não escondendo sua irritação por ter que parar. “Estou tentando ganhar a vida e corro atrás de meu sustento! Há oportunidades lá na frente que, se eu não correr, serão perdidas!” “E como você sabe que as oportunidades estão à sua frente?”, disse o rabino. “Quem sabe elas estão ao seu lado, ou, pior, talvez estejam atrás e você se afastando cada vez mais delas?” O homem ficou sem ação, ao que o rabino concluiu: “Meu amigo, não estou dizendo que não deva ganhar seu sustento, mas me preocupo que, na obsessão com seu ‘ganhar’, esteja comprometendo a ‘vida’.”
Realmente há algo de errado na expressão “ganhar a vida”, até porque a vida já está ganha. A diferença entre “vida” e “sustento” está no centro das questões de nosso tempo. Será pela qualidade dessa reflexão que teremos um futuro amigável ou litigioso. Fazer a vida girar em torno do sustento é algo semelhante ao vício cultural de dizer que o “sol nasceu”, implicando que é ele e não a Terra que experimenta o movimento de rotação. Saber distinguir o pivô do que é orbital é o início de toda a inteligência e a possibilidade de anteciparem-se mecânicas e trajetórias.
O nosso mundo é bem caracterizado por esse sujeito com uma mão na mala e outra segurando o chapéu. A mala é representativa de nosso materialismo desmedido, já a mão que segura o chapéu é simbólica da desagregação da identidade num individualismo exacerbado. O mundo é hoje regido pelo sustento. Essa foi a grande parceria entre comunismo e capitalismo que, mais do que adversários, estabeleceram definitivamente o sustento como a haste central de políticas públicas e da cultura. Talvez, em seu embate secular, ambos os sistemas tenham nos distraído da revolução central na cultura planetária que promoviam. Hoje, com todos os dados que temos do litígio que teremos com o futuro, ainda assim há uma lógica do “sustento” que se sobressai à lógica da vida. E nós não ficamos chocados com isso. Nós entendemos. O impacto econômico seria por demais desestabilizador. Interesses importantes ficariam comprometidos. Compreendemos e acolhemos a mesma lógica nazista, indiscutivelmente racional, que não se poupou em usar a vida como combustível para alimentar o desenvolvimento sustentável das circunstâncias de então.
E as políticas de sustentabilidade são hoje um band-aid em fratura exposta. Paliativos que terão pouco impacto na força acumulada pela inércia da cultura. É a cultura que alavanca o movimento maior de massas, de bilhões que não poderão mudar de curso de um dia para o outro. Está na hora de não corrermos mais para a frente. Para o sustento que está sempre na frente. Estabelecer economias de crescimento como única opção de futuro não exige grande dom profético para antever o desastre. Não será bolha, será implosão mesmo. É hora de olharmos para o lado e até para trás e esperarmos por uma nova revolução na cultura humana. Uma revolução que se valha de outras sensibilidades que não apenas a racionalidade. Foi ela que construiu todas as revoluções do século XIX e que afetam a nossa cultura até hoje. Esse iluminismo cultural desbancou a vida e ungiu o sustento. As várias fomes da vida se fizeram em uma única, a do sustento, e está difícil alimentá-la.
O dia do Kipur é um dia para se ter coragem de falar sobre acertos que provavelmente não faremos. Mas essa prática não se faz vazia por conta da dificuldade em promover transformação. É que queremos salvaguardar a lucidez e mantê-la como uma chama para que, em condições favoráveis, ela realimente a labareda de uma nova cultura. Uma cultura na qual, por exemplo, crescer e ter mais não signifique sempre qualidade, em que as oportunidades talvez estejam em não crescer, ou até em decrescer. Celebrar a lucidez nos dá a dimensão de nosso pecado; jejuar dá espaço para outras fomes. E só quando essas fomes forem despertas no ser humano haverá sustento para todos.
NILTON BONDER é rabino e escritor.

terça-feira, maio 11, 2010

Billy Graham: Procurar tratamento para depressão não significa falta de fé

Billy Graham: Procurar tratamento para depressão não significa falta de fé
O evangelista Billy Graham respondeu um questionamento de um internauta do Christian Post sobre a depressão
Por Rodrigo Ribeiro Rodrigues - 08/05/2010 05:57h

Muitas acreditam que a depressão está ligada a falta de fé, porém um dos maiores evangelistas que já surgiu, Billy Graham, discorda dessa tese. Confira a resposta dada a um internauta do Christian Post.
Internauta: Eu não entendo o que está acontecendo com minha esposa. Ela parece ter perdido toda a alegria de viver, e em alguns dias ela quase não consegue sair da cama. O médico diz que ela precisa de um medicamento anti-depressivo, mas alguns amigos dizem que nós só precisamos de mais fé. Ela quer que eu tome a decisão, mas eu não sei o que fazer. - K.S. 
Billy Graham: Eu sou grato por sua preocupação com sua esposa, e eu espero que você faça tudo que puder para ajudá-la. Afinal, se você estivesse em sua posição, eu tenho certeza que iria pedir para ela te ajudar - assim como ela está pedindo a você. A Bíblia diz aos maridos, "Cada um de vocês ... ame a sua esposa como a si mesmo" (Efésios 5:33).  Eu não sou um psicólogo ou psiquiatra, é claro, mas sua esposa certamente parece estar sofrendo de depressão (como diz seu médico). Às vezes, a depressão tem uma causa espiritual, o Rei David, por exemplo, estava deprimido depois que ele secretamente cometeu adultério - e sua depressão não passou até que ele confessou o seu pecado e buscou o perdão de Deus (veja Salmo 32).  Mas a depressão muitas vezes tem outras causas, como desequilíbrios bioquímicos em nossos corpos. Seu médico, aparentemente suspeita que é esse o caso com sua esposa. Nossos cérebros são incrivelmente complexos, e quando algo sai do equilíbrio pode afetar nossa maneira de pensar e olhar para o mundo. Muitas vezes isso pode ser corrigido com medicação adequada.  Isso significa que você estaria deixando Deus de fora do processo, ou olhando para a medicina, ao invés de buscar em Deus uma solução? Não, você não deve pensar dessa maneira. Ao contrário disso, se o medicamento funciona, enxergue-o como forma de Deus responder as suas orações - e o agradeça por isso. Entretanto, constantemente assegure a sua esposa de seu amor - e do amor de Cristo, também.
Billy Graham, norte-americano nascido em 7 de Novembro de 1918 em Charlotte, Carolina do Norte. Foi conselheiro espiritual de vários presidentes americanos. Foi ainda o mais proeminente membro da "Convenção Batista Sulista dos EUA". Graham já pregou pessoalmente para mais pessoas do que qualquer pregador da história ao redor do mundo. De acordo com a sua equipe, a partir de 1993, mais de 2,5 milhões de pessoas tinham "Um passo à frente em suas cruzadas para aceitar Jesus Cristo como seu Salvador pessoal". A partir de 2008, a audiência Graham's lifetime, incluindo rádio e televisão, superou 2,2 bilhões.
Adaptação/ Tradução: OGalileO
Com informações de Christian Post/ Enciclopédia Livre

domingo, maio 02, 2010

A igreja 'evangélica' e as eleições políticas

A igreja 'evangélica' e as eleições políticas
Por Carlos Lima
As eleições estão às portas, e não demora as hienas ávidas por poder saem de seus covis em busca da carniça humana, já putrefata de tanta inércia do pensar. Tadinho do meu povo. É apenas uma vítima do ardil competentíssimo dos que presidiram anos e anos, instaurando a obrigatoriedade da ignorância. Parabéns, Vossa Excelência foi um sucesso nessa empreitada! Queria falar algo nessas símplices linhas sobre a fenomenologia nauseante que é o envolvimento da 'igreja' nesse carnaval luciferiano, orgulhoso e pavonístico até o pó do osso. Não raro você verá, como já viu, as Dilmas numa quinta no culto evangélico e numa sexta rezando aos orixás, acendendo velas pra todos os santos. Justo eles que, quando lhes interessa, dizem que o estado é laico.

Diga-me uma coisa:
Você entregaria a sua esposa para ser usada por um interesseiro que não tem nenhum amor por você e muito menos por sua amada?
Pois é isso que estão fazendo com a igreja.
Entregaram-na aos prazeres da carne dos poderosos se tornando depositária do sêmem repugnante da impiedade, sem direito abortivo, sendo que os filhos virão em formas decadentes reproduzindo mais inferno, mais prostitutas cultuais, num processo viral que não terá fim, a não ser quando o Ômega vier com sua espada desembainhada em fogo. Falsos profetas, pastores, bispos, após-tolos, líderes eclesiásticos, ainda há tempo de se converterem. Não é vergonha nenhuma, vergonha sim é viver nessa podridão de alma.  O que disse vai se perder, tão logo o que não disse aparecer.  De Deus não se zomba, tudo o que o homem semear isso também colherá.
Ai de vós fariseus, guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo. O meu mestre disse isso tudo a respeito, e disse ainda mais;
- O meu reino não é desse mundo!
Não quis o poder político. Se quisesse o teria, se fosse da vontade do Pai.
Não acredite em político evangélico! Apenas acredite em Evangélico político, pois o Evangelho (O Verdadeiro) deve vir antes de qualquer política.  Se for sal de verdade, salgará a terra e ninguém o verá, contudo, sentirá o sabor. Acho que vou parando por aqui. Não preciso mais discorrer sobre esse assunto, afinal, a verdade persuade por si mesma, não há duas mentiras iguais, nem duas verdades diferentes. Digo, por fim, que não sou radicalmente contra o envolvimento de evangélicos com a política. Acredito em gente boa de Deus como a Marina Silva.
Pra lembrar: 'Aplaudir o ridículo é mil vezes mais se ridicularizar'.
Um abraço, Na esperança de que quando vier O perfeito, toda imperfeição seja aniquilada.
Por Carlos Lima conteudo@ogalileo.com.br

quinta-feira, abril 29, 2010

Na interpretação da ministra, a retirada do garoto do convívio da família da mãe e dos amigos no Brasil iria contra o "direito conferido a toda criança de ser criada e educada no seio de sua família".

Justiça mantém filho de ex-jogadora de vôlei no Brasil
Hilma Caldeira foi processada pelo ex-marido por tentativa de sequestro. Liminar garante que o garoto não seja levado pelo pai norte-americano.
29/04/2010 20h32 Débora Santos Do G1, em Brasília
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu nesta quinta-feira (29) liminar que garante a permanência no Brasil do filho da ex-jogadora da seleção brasileira de vôlei Hilma Aparecida Caldeira, 38 anos.
Em decisão anterior, o juiz João César Otoni de Matos, da 19ª Vara Federal de Minas Gerais, determinou que a ex-atleta teria que devolver o garoto Kelvin Caldeira Birotte, de 4 anos, para o pai da criança, o norte-americano Kelvin Birotte. O prazo para entrega da criança às autoridades brasileiras vencia nesta quinta.
Hilma Caldeira foi processada pelo ex-marido em 2006, em ação fundamentada pela Convenção de Haia, sob a acusação de sequestro internacional de crianças.
Segundo informações do consulado norte-americano, no Rio de Janeiro, Birotte desembarcou no Rio de Janeiro, nesta semana, e pretendia voltar com o menino aos Estados Unidos. Um representante do consulado está acompanhando o caso na Justiça Federal, mas não divulgou o paradeiro do pai no Brasil. Birotte chegou a colocar uma foto do filho em um site de crianças desaparecidas nos Estados Unidos e divulgou um telefone para possíveis informações sobre a localização do menino.
Em sua decisão, a ministra do STJ Nancy Andrighi afirmou que “a criança está inserida em ambiente que lhe assegura, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida plena, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.”
Na interpretação da ministra, a retirada do garoto do convívio da família da mãe e dos amigos no Brasil iria contra o "direito conferido a toda criança de ser criada e educada no seio de sua família". Ela lembrou ainda que, de acordo com o estudo psicológico contido no processo, na representação do próprio garoto a família era formada por ele e sua mãe.

segunda-feira, abril 26, 2010

Até que enfim, alguém com firmeza e conhecimento falou a realidade dos fatos!

Entrevista Sérgio Besserman - Por um Rio sem favelas
O economista diz que o inchaço dos morros cariocas foi produzido pelo populismo e defende a remoção dos barracos como um indutor do progresso para todos
Monica Weinberg e Ronaldo Soares – Revista Veja – Edição 2161
Poucos especialistas falam com tanta autoridade sobre a favelização nas metrópoles brasileiras quanto o economista carioca Sérgio Besserman, 52 anos. As últimas estatísticas disponíveis sobre as favelas no país foram produzidas sob sua gestão (1999-2002) como presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Suas opiniões sobre o assunto dão aquele banho de racionalidade que costuma desconcertar o senso comum. Besserman sustenta que retirar os barracos dos morros no Rio de Janeiro é uma solução que, se implementada, vai trazer ganhos econômicos e sociais para toda a população. Diz ele: "A questão precisa ser discutida com rigor lógico, a salvo das influências de ideologias e do romantismo".
A prefeitura e o governo do estado do Rio de Janeiro começaram, na semana passada, a retirar barracos de áreas de risco. Por que nenhum governante fez isso a tempo de evitar tragédias?  Por um misto de incompetência e demagogia. No Rio de Janeiro, a remoção de favelas passou a ser um grande tabu, sustentado por um assistencialismo barato segundo o qual o estado deve prover tudo aos pobres dos morros - ainda que sua permanência ali possa pôr a própria vida em risco e acarretar prejuízos à cidade como um todo. A ideia absurda embutida nesse raciocínio é a de que quem vive em favela é um cidadão especial, que não precisa se submeter nem à Constituição e não tem os mesmos deveres dos outros brasileiros. Sob essa ótica obtusa, remover favelas é visto como uma afronta aos direitos dos mais necessitados. Essa bobagem demagógica tem suas raízes no populismo que há décadas contamina a política fluminense. O inchaço das favelas do Rio é resultado da combinação desses fatores.
Como o populismo contribuiu para a proliferação das favelas? Historicamente, ele foi a mola propulsora das favelas fluminenses, tendo como seu principal expoente o governador Leonel Brizola, na década de 80, quando se chegou ao auge de proibir a entrada de policiais nas favelas. O resultado foi um surto de ocupações irregulares. Sem polícia, foi dado o sinal verde para o banditismo. Sob o pretexto absurdo de que havia uma dívida social a ser quitada, foram concedidos aos moradores das favelas direitos inacessíveis aos demais brasileiros pobres ou ricos. Enquanto isso, os populistas iam esparramando nos morros seus currais eleitorais, ganhando votos em troca de tijolos, cimento, dentaduras e bicas-d’água. Isso explica a perpetuação dessa classe de políticos em uma sociedade que se pretende moderna. Eles e as favelas estão aí como símbolos do atraso. Quando alguém fala em remoção de barracos, são justamente eles os primeiros a levantar a voz contra. Claro, não querem perder seus currais eleitorais.
A quem mais interessam a perpetuação e o crescimento das favelas no Rio? Os políticos são apenas os tentáculos mais visíveis de uma enorme rede de ilegalidades que sustenta milhares de pessoas. Prospera no Rio de Janeiro uma indústria da favelização. No braço imobiliário há, de um lado, os grileiros, que invadem terrenos para vender depois, e, do outro, pessoas de fora das favelas que constroem barracos e os alugam. Os bandidos dominam a vida nas favelas. Eles controlam o comércio de botijões de gás e vendem acessos clandestinos às redes de TV a cabo. Os bandidos cobram até uma taxa a título de oferecer proteção aos moradores. É grande, portanto, o grupo dos que lucram com a existência das favelas. Infelizmente, aos poucos a sociedade foi deixando de se espantar com essa aberração urbana, a despeito das atrocidades cometidas a toda hora em plena luz do dia por um estado paralelo.
Por que a aberração foi assimilada? Isso se deve, em boa medida, a uma visão romântica e evidentemente deturpada sobre as favelas, que começou a ser propagada por parte da esquerda ainda nos anos 70. Essa corrente passou a difundir a ideia de que a convivência entre a cidade formal e o mundo da ilegalidade não apenas era aceitável como deveria ser pacífica. Acabou resultando numa glamourização da bandidagem. Nessa ótica distorcida, criminosos são tratados como líderes populares e toda e qualquer favela ganha apelido de comunidade, ainda que as pessoas vivam ali sob o jugo dos bandidos e à margem da lei. Isso tudo fez do Rio de Janeiro um péssimo exemplo de tolerância e benevolência com o mundo do crime no Brasil. Também não ajudou a combater o surgimento das favelas. Ao contrário: do ponto de vista cultural, só lhes deu legitimidade.
Como reverter a situação em um cenário em que a população das favelas cresce até quatro vezes mais rapidamente do que a da cidade como um todo?  É preciso fazer primeiro o básico do básico: o estado deve recuperar o monopólio da força nos territórios hoje dominados pelos bandidos. As favelas são lugares em que milhões de pessoas vivem sob outras leis que não a do estado de direito democrático. Na prática, elas não estão sob a órbita da Constituição brasileira. Essa ausência de poder público é um padrão que se dissemina também por outras regiões metropolitanas do Brasil, como São Paulo e Brasília - mas em nenhum outro lugar do país o estado deixou tamanho vácuo. Não é viável almejar uma democracia digna e condizente com os avanços do século XXI sem equacionar essa grande anomalia. O estado moderno surgiu, afinal, para garantir a segurança e a paz social. É justamente o oposto da brutalidade que grassa nas favelas do Rio.
O senhor considera a experiência das Unidades de Polícia Pacificadora nas favelas cariocas (em que os traficantes são expulsos e a polícia passa a ocupar permanentemente os morros) uma maneira eficaz de o estado retomar o controle dos territórios em questão? Diria que o princípio não apenas é acertado como, daqui para a frente, o estado não tem mais o direito de retroceder dessa iniciativa. Finalmente, as autoridades entraram em algumas favelas e retomaram o poder, primeiro passo de um processo civilizatório que precisa continuar.
Por que a remoção de barracos é uma solução?  Em contradição com a opinião dominante, acho que há muitos casos em que a remoção se justifica. Antes de tudo, é preciso começar a tratar essa questão com a objetividade que ela requer, longe da sombra da ideologia e dos interesses escusos. Não há como discordar da ideia de que alguém que tenha seu barraco fincado sobre os restos de um antigo lixão, como é o caso de dezoito favelas no Rio, deve ser retirado imediatamente de lá. O mesmo vale para quem tem a casa espetada à beira de um precipício, em flagrante situação de risco. Até aí, prevalece um relativo consenso. No entanto é preciso ir além, encarando uma questão de fundo econômico que é central mas foi posta de lado no debate: as áreas favelizadas provocam uma acentuada degradação da paisagem da cidade, um ativo cujo valor é incalculável. Portanto, quando uma análise de custo-benefício revelar que a realocação de uma favela trará retorno financeiro e social elevado, por que razões não cogitar sua remoção?
Como exatamente a economia da cidade se beneficia de uma remoção? A Lagoa Rodrigo de Freitas, cartão-postal da Zona Sul carioca, é um caso emblemático dos aspectos positivos que podem se seguir a uma remoção. Quando uma favela foi retirada dali, em 1970, os imóveis da região, cujos valores vinham sendo depreciados, inverteram a curva e passaram a se valorizar, aumentando a riqueza do bairro e da cidade, em benefício de todos. A riqueza é destruída no mesmo ritmo em que a favelização se alastra. Os mais pobres também perdem quando a riqueza deixa de ser criada ou é destruída. Os mais pobres são sempre os mais vulneráveis economicamente. Não tenho dúvida de que a política de remoção de favelas, que muitos ideólogos por aí definem como elitista, pode ser inclusiva, proporcionando mais benefícios do que prejuízos à maioria. O discurso da não remoção é um discurso antipobre.
Por que o estado chegou tão perto de remover certas favelas do Rio, mas acabou voltando atrás? Além de toda aquela gente que se beneficia da indústria da favelização e faz pressão contra, a ação de pessoas bem-intencionadas também atrapalhou. Veja o que aconteceu no Morro Dona Marta, em Botafogo, outro endereço valorizado da Zona Sul. Na década de 60, quando ali havia uns poucos barracos, o governo anunciou que faria a remoção. Mas setores ligados à Igreja, sob a liderança do então bispo auxiliar do Rio, Dom Helder Câmara, se insurgiram. O resultado foi previsível. A resistência incentivou a vinda de mais e mais moradores, e o Rio perdeu mais uma vez.
O que fazer no caso daqueles morros que já atingiram dezenas de milhares de habitantes, como a Rocinha? Feitas as contas, existe um consenso de que é muito mais simples e barato urbanizar essas favelas do que removê-las. A ideia central não é apenas prover os serviços nos moldes do velho assistencialismo, mas cobrar por eles, o que é natural com a inclusão dessas pessoas na economia formal da cidade. É preciso ter em mente que 1,3 milhão de habitantes do Rio pertencem ao mundo informal dos morros - o que representa um de cada cinco moradores. A entrada desse contingente na economia formal teria efeito muito positivo para a cidade. Isso depende da implantação de uma política habitacional séria, área em que os governos brasileiros em todos os níveis são tradicionalmente omissos.
Há algum sinal de melhora nesse cenário? Do ponto de vista das políticas públicas, não houve nenhuma novidade relevante nos últimos anos. Mas é preciso reconhecer que o atual ambiente macroeconômico aumenta as chances de avanço. A começar pelo fato de que não existe mais aquele cenário de inflação galopante, que inviabilizava o acesso ao crédito imobiliário para todos os estratos de renda. Habitação é o tipo de demanda que não pode ficar insatisfeita: se o governo não tem uma boa política, as pessoas dão o seu jeito, como tem ocorrido nas favelas brasileiras desde a década de 50. Instalar-se nelas pode até ter sido uma solução boa individualmente para quem não tinha um teto sob o qual morar - mas para as grandes cidades em todo o país significou um verdadeiro desastre.
Como mensurar isso?  A experiência internacional mostra - e o caso brasileiro confirma - que a presença maciça de favelas afeta o ambiente de negócios e faz reduzir as chances de uma cidade competir globalmente. Está comprovado que um cartão-postal degradado e grandes áreas tomadas pela informalidade e pela violência são fatores decisivos para prejudicar a dinâmica econômica e afugentar investidores. Olhe o que está acontecendo no México, onde os cartéis da droga passaram a controlar grandes territórios e se tornaram um dos principais obstáculos ao aumento da competitividade do país. O Brasil ainda não chegou a esse ponto, mas caminhará para isso se não der fim ao controle territorial exercido por bandidos nas regiões metropolitanas.
Há perspectivas de que as favelas deixem de existir a longo prazo? Para mim, a melhor de todas as definições de favela é a que a descreve como um território à margem das leis que regem o restante da cidade. Elas começarão a deixar de ser favelas quando o estado se livrar de seus vícios populistas paralisantes e derrotar a bandidagem que exerce poder efetivo sobre o cotidiano de milhões de brasileiros.

domingo, abril 25, 2010

Falta combinar com o eleitor, que parece mais interessado no futuro que no passado – sobretudo um passado de proveta, em busca de um antagonista, que não há.

Ruy Fabiano – Jornalista – Publicado no Blog do Noblat – 24/04/2010
A opção plebiscitária que Lula fez para sua sucessão é a causa mortis da candidatura presidencial de Ciro Gomes, que será anunciada oficialmente pelo PSB na próxima terça-feira. Lula não quer uma disputa plural, nem mesmo a quer simplesmente polarizada entre os candidatos mais fortes - Dilma Roussef, do PT, e José Serra, do PSDB. Quer uma disputa singular entre não-candidatos: ele e Fernando Henrique Cardoso. Ciro foi excluído porque desmancha essa equação. É um neolulista, ex-tucano, que pode tirar votos dos dois lados. As pesquisas mostram que tira mais votos de Serra do que de Dilma, o que deveria ser festejado pelos governistas. Mas não é. E a razão é simples: Ciro pode ultrapassar Dilma e estabelecer uma polarização com Serra, o que deixaria o PT fora do comando da campanha – e do futuro governo, na eventualidade de vitória. O PT compartilha cargos, mas não o poder. Não admite ser caudatário de ninguém, nem mesmo de um aliado de confiança, como Ciro. Há, no partido, o receio de que a estreante Dilma Roussef não suporte (e os lances iniciais da campanha agravam esse temor) o confronto direto com alguém experiente como Serra. Ciro, se candidato, poderia ser beneficiário da fragilidade de Dilma, derrotando-a antes que Serra o faça. Do ponto de vista pessoal de Lula, não seria problemático, pois sabe que Ciro lhe é fiel.  Mas, na óptica do PT, a hipótese é intolerável. Daí a obsessão plebiscitária, um artifício para evitar um duelo desfavorável entre uma candidata sem vôo próprio, Dilma, e um candidato experiente, Serra, em quem até aqui não colou o rótulo de anti-Lula. O artifício petista consiste em fabricar uma “Era Lula” em contraste com uma “Era FHC”. A idéia seria engenhosa não fosse um detalhe: a Era Lula é, ela mesma, uma continuidade da Era FHC. Estabilidade econômica, desenvolvimento, programas sociais, tudo o que o atual governo exibe como credenciais ao eleitor – e a que se opôs quando na oposição - foi plantado e começou a ser colhido na administração anterior. Se os números indicam expansão, é porque os fundamentos foram preservados. Há dias, perguntaram a Serra se ele, eleito presidente, mexeria no tripé macroeconômico responsável pela estabilidade econômica do governo Lula: metas de inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal. E ele respondeu: “Como, se fomos nós que o fizemos?” A mesma lógica se estende ao programa de bolsas. O grande mérito de Lula consistiu em enfrentar seu partido para não mexer no software herdado da Era FHC. Para manejá-lo, escolheu não um petista, mas um técnico tucano, o atual presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que, depois de consultar FHC, patrono de sua candidatura, abdicou de um mandato zero quilômetro de deputado federal pelo PSDB, em 2002, para integrar-se ao governo recém-eleito. Desde então, é uma de suas peças-chaves. Há dias em editorial, o Wall Street Journal, uma das mais influentes publicações econômicas do mundo, destacou como grande feito econômico de Lula “não ter feito nada”, ter dado continuidade ao que encontrou. Há mérito nisso? Há, claro. Primeiro, a determinação de enfrentar o inconformismo ideológico de seu partido, de que resultou a debandada de alguns petistas históricos, muitos deles hoje no Psol e no PV. Lula mostrou lucidez e coragem, já que, na sucessão dos governos republicanos brasileiros, a regra é a ruptura, quase sempre despropositada. Há dias, o jornal Valor fez pesquisa com 142 empresários, dos mais representativos, com dois questionamentos básicos: como avaliam o governo Lula e quem preferem para sucedê-lo. A maioria (52%) classificou-o como excelente, mas uma maioria ainda mais expressiva (78%) prefere Serra para sucedê-lo. Dilma obteve apenas 9%. O raciocínio é óbvio: se a economia vai bem e a maioria opta por um nome não governista para assumi-la, é porque o vê não só como mais qualificado, mas fiel a seus fundamentos. E esse é apenas um dos múltiplos sinais antiplebiscitários. Plebiscito supõe opção entre antagonismos. E o que a presente eleição coloca é uma escolha bem distinta: quem é o mais qualificado para dar continuidade a um projeto de sustentabilidade econômica eficaz, iniciado com o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Lula teme a resposta e insiste em buscar refúgio num duelo artificial com Fernando Henrique. Falta combinar com o eleitor, que parece mais interessado no futuro que no passado – sobretudo um passado de proveta, em busca de um antagonista, que não há.

Skoob

BBC Brasil Atualidades

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