terça-feira, maio 25, 2010
A saúde precária de uma Velha Senhora - Parte 1
A saúde precária de uma Velha Senhora - Parte 1
Aos 456 anos a cidade de São Paulo enfrenta problemas que, comparados aos de um organismo vivo, mostram condição próxima à falência múltipla de órgãos
Por Paulo Saldiva e Evangelina Vormittag
ARAQUEM ALCÂNTARA/SAMBAPHOTO/GETTY IMAGES
O caso de São Paulo não é o único entre as metrópoles mundiais, ao menos em relação aos países em desenvolvimento. Mas é grave e não pode continuar ignorado, sob pena de custos crescentes pagos com o comprometimento da vida de seus moradores. Comparadas à situação de uma velha senhora submetida a uma série de exames para revelar a qualidade da saúde urbana, a cidade de São Paulo e toda sua região metropolitana são reprovadas em um conjunto de itens vitais que já afetam o presente e devem tornar-se críticos, se não irreversíveis, no futuro imediato. Com limitações preocupantes em relação a fontes de água potável, São Paulo e seu entorno têm reduzido tratamento de esgotos, poluição atmosférica sobrecarregada por transporte individual, impermeabilidade do solo e, entre outros comprometimentos, ilhas de calor que implicam chuvas destruidoras todo verão.
O mundo passa por uma crise ambiental com raízes localizadas basicamente no excesso de consumo dos recursos naturais. E é nas cidades que se manifesta a maior demanda pela oferta de alimentos, transporte, moradia, recursos hídricos, saneamento básico e energia. No Brasil, em 2000, 81,2% da população já vivia em áreas urbanas. A previsão para 2030 é que cerca de 60% das pessoas viverão em áreas urbanas do planeta. Os impactos da complexidade do metabolismo urbano produzem efeitos dramáticos sobre diversos aspectos da saúde e sustentabilidade, tanto local como regional e mesmo em escala global. A pressão da urbanização sobre o ambiente varia de acordo com o tipo das cidades.
Metrópoles como Londres, Paris e Nova York, que tiveram crescimento gradual, puderam usufruir dos benefícios de um processo de planejamento dinâmico e da consolidação da infraestrutura, incluindo o sistema de transporte público. Em contrapartida, contrapartida, cidades que cresceram rapidamente, principalmente nos países em desenvolvimento, passaram da juventude para a decrepitude e deterioração sem tempo de amadurecer. São Paulo é uma representante típica do segundo grupo, com crescimento veloz e desordenado, ligada a mais 38 cidades que formam sua região metropolitana, numa área de 7.944 km2. Esse processo desordenado, com frequência confundido com desenvolvimento, trouxe problemas ambientais de solução complexa e cara, que afetam negativamente a vida de 20 milhões de habitantes dessa megaconurbação.
PAULO WHITAKER/REUTERS/LATINSTOCK
A cidade pode ser entendida como um organismo vivo, onde os bairros seriam órgãos e os habitantes, células dessa estrutura. A analogia permite que, na análise da saúde desse organismo, seja possível imaginar a cidade de São Paulo como um corpo adoecido, afetando também seus habitantes. A descrição desse caso pode ser feita imaginando-se a cidade como uma velha senhora que terá a sua história clínica relatada por seu médico. Paciente do sexo feminino, com 456 anos, refere que se sentia compelida a ser uma das cidades que mais cresciam no mundo. Olhava com orgulho o brotamento de chaminés fumegantes e sentia prazer ao ver lhe percorrerem as veias minúsculos veículos motorizados e gente trabalhando incessantemente. Com o passar do tempo, e principalmente nos últimos 60 anos, relata ter perdido o controle da situação, engordado em excesso, excedendo seus limites geográficos com aparecimento de áreas de extrema pobreza (loteamentos periféricos e favelas). Isso faz com que despenda enormes quantidades de recursos, redesenhando seus limites e buscando soluções para problemas físicos e psíquicos que atingiram uma escala de difícil tratamento. Queixa-se de febre (aquecimento), calafrios e intensa sudorese (eventos extremos, chuvas, inundações, ventos fortes), falta de ar (poluição), entupimento de suas artérias, que não permitem fruição do trânsito e dificuldade para eliminar urina (filtração – tratamento de água).
Comportamento Bipolar
Exame mais detalhado sugere que se trata de paciente bipolar. Em alguns momentos apresenta-se estressada, deprimida e com baixa autoestima. Em outros, eufórica. Apresenta enorme vazio no centro, principalmente à noite, associado a um sentimento de despopulação central. Confusa, reconhece dependência química de uma droga, o petróleo. Apática, demonstra dificuldade de planejamento, desesperança, desamparo e preocupação com o futuro.
A velha senhora alega ainda episódios agudos de asma e surtos de pneumonia. Já teve alguns episódios de dor precordial (dor no peito) e infarto. Alimenta-se compulsivamente, apresenta má digestão, sensação de empachamento, eructação e flatulência há anos. Vivencia constantemente episódios de evacuação, prejuízo do saneamento básico, grande lançamento de efluentes e esgoto nos rios e disposição de resíduos sem aproveitamento. Acredita que possa ser acometida por vermes pela facilidade com que este quadro acarreta a proliferação de vetores causadores de doenças infecciosas. Sente muita sede, apresenta fraqueza e incapacidade de aproveitar as fontes energéticas de que dispõe. Aponta ainda perdas e desperdício de água.
O exame físico demonstra ser uma paciente obesa, febril, com notável distribuição das células mais pobres na periferia. Apresenta- se extremamente dispneica, com falta de ar e notório escurecimento do ar expirado por fuligem. O ritmo dos batimentos cardíacos mostra diminuição (bradicardia). Apresenta edema generalizado (inchaço), coincidindo com chuvas (congestão arterial). Além disso, observam-se intensas áreas sem pilificação, alopecia (queda de cabelo) crescente, pois sua cobertura vegetal foi parcialmente destruída. A pele está seca, espessa e escura devido ao asfaltamento e à impermeabilização do solo. Constata-se déficit de audição por excesso de ruídos.
Exames laboratoriais complementares foram realizados para auxiliar o diagnóstico da paciente. Dados epidemiológicos e científicos ilustram e elucidam o caso clínico dessa velha senhora. Exames do ar mostram que as fontes móveis (veículos) passaram a ter, a partir da década de 80, maior participação na carga de poluentes emitidos na atmosfera que as fontes industriais e se tornaram a principal causa de poluição na região metropolitana e outros grandes centros urbanos do país. De acordo com estimativas da agência ambiental do estado de São Paulo – Cetesb –, 90% dos poluentes gasosos resultam da queima de combustíveis fósseis nos veículos automotivos (97% das emissões de CO – monóxido de carbono – e 96% de NO2 – dióxido de nitrogênio). Há registros de que tenha a maior concentração de ozônio e material particulado do país. Essa poluição do ar provoca perto de 4 mil mortes prematuras/ ano. Estima-se que os níveis atuais de poluição levem a uma redução da expectativa de vida do habitante em cerca de 1,5 ano, devido a três desfechos: câncer do pulmão e vias aéreas superiores; infarto agudo do miocárdio e arritmias; e bronquite crônica e asma. Viver em São Paulo corresponde a fumar quatro cigarros diariamente em decorrência das partículas em suspensão no ar.
Nuances da postura nuclear do Brasil
Nuances da postura nuclear do Brasil
O Globo – 25/05/2010
O empenho do governo brasileiro na questão do programa nuclear do Irã refletiria, segundo o Itamaraty, a tradicional postura brasileira de dar preferência a esgotar todos os canais de negociação antes de qualquer decisão mais dura, como as sanções que os EUA manobram para impor ao Irã, por descumprir as exigências da comunidade internacional.
Mas não é só isso. Recentemente, o vice-presidente José Alencar voltou a defender a suposta necessidade de o país ter a bomba nuclear como arma dissuasória. Parece estranho que o vice insista numa opção abandonada formalmente quando o Brasil inscreveu, na Constituição de 1988, o uso exclusivo da energia nuclear para fins pacíficos. O próprio presidente Lula afirmou, em 2009, que "o Brasil é o único país do mundo que menciona em sua Carta Magna a proibição de ter uma arma nuclear". Mas quem se lembra da campanha presidencial de 2002 sabe que Lula provocou polêmica ao criticar a adesão do país ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), e depois teve de voltar atrás. Isso explica boa parte do que ocorre hoje.
Na década de 90, o Brasil se manteve firme no rumo fixado na Constituição. Em 1991, assinou com a Argentina um acordo para inspeções bilaterais e recíprocas de seus programas nucleares. Em 1994, promulgou o Tratado de Tlatelolco, para proscrição de armas atômicas na América Latina e no Caribe. E, em 1997, firmou o TNP, ora em revisão.
Mas há setores influentes no atual governo que criticam essas opções. Um deles é capitaneado pelo embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, hoje ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Esses fatos e a posição do Brasil de oposição às sanções ao Irã levantam suspeitas de que o lulismo esteja preparando terreno para investir contra o TNP. Um dos argumentos é que, sem a bomba, o Brasil seria um BRIC de papel, já que tanto Rússia quanto Índia e China, os companheiros de sigla, fazem parte do clube atômico. Outro é que países oficialmente nucleares (EUA, Rússia, China, França e Grã-Bretanha) pouco fazem para destruir seus arsenais, um dos objetivos finais do TNP.
O que se depreende é que o governo brasileiro, em seus cálculos estratégicos para ampliar o raio de ação do país, chegou à conclusão de que é preciso ir contra os interesses dos Estados Unidos, pois as "amarras" contidas em tratados como o TNP representariam uma capitulação diante da potência hegemônica.
Esta é, no mínimo, uma política temerária. Nada contra a posição brasileira de não concordar com inspeções mais detalhadas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) a sua nova geração de centrífugas. Trata-se da preservação de um segredo tecnológico que pode ter bons resultados comerciais. Até porque o programa nuclear do país, como está desenhado, frise-se, já é suficientemente transparente para impedir o aventureirismo nos campos das armas.
O que não faz sentido é mudar, como querem alguns no governo, a essência da postura nuclear do país - fundamental para manter a América Latina a salvo de uma corrida extremamente perigosa neste campo. Não podemos importar para a região a tensão que, por exemplo, Índia e Paquistão plantaram naquela parte do mundo.
De volta para o futuro do Ficha Limpa
De volta para o futuro do Ficha Limpa
Efeitos da mudança no tempo verbal do texto da lei dividem especialistas
Alessandra Duarte
Aqueles que forem afeitos a uma polêmica vão gostar da discussão. No debate em torno da nova redação do projeto Ficha Limpa, recém-aprovado no Congresso, agora há quem diga que a mudança no tempo verbal do projeto - pela nova redação, no lugar de "os que tenham sido condenados" entrou "os que forem condenados" - não exclui do alcance da lei os políticos já condenados. Segundo professores e gramáticos, a palavra "condenados", aqui, teria uma função de adjetivo - o que faria com que a lei incluísse todos os que estão na condição de condenados, assim como a frase no início deste texto inclui todos os afeitos a polêmicas.
Para o professor de língua portuguesa Ozanir Roberti, consultor do GLOBO, o "forem", nesse caso, é verbo de ligação. Isso significa que ele não indicaria ação futura (aqueles que vierem a ser condenados), mas apenas um estado ou uma qualidade do sujeito (o estado de ser condenado).
- Vou dar um exemplo. Alguém chega para um grupo de pessoas e diz: "Apresentem-se os que forem condenados". Se ali estiver uma pessoa que foi condenada no passado, que acabou de sair da prisão, digamos, essa pessoa vai se apresentar, porque ela se encaixa na qualidade de condenado - explica Roberti. - Dizer que essa alteração no tempo verbal excluiu os já condenados é tentar armar uma escapatória para os que têm condenações. O texto, como está, vale para eles também, não tenho a menor dúvida disso. Não me venham com subterfúgios gramaticais.
Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), o filólogo Evanildo Bechara afirma que, enquanto o tempo verbal "tenham sido" é mais claro e aponta para uma só categoria - aqueles que já foram condenados no passado -, a expressão "os que forem condenados" dá margem a duas interpretações:
- Uma dessas interpretações abrange só os que vierem a ser condenados. A outra, porém, abrange todos aqueles na condição de condenados, o que, portanto, inclui os que já tiveram condenações. Do meu ponto de vista, essa segunda interpretação é a mais próxima do espírito inicial do projeto pensado pela sociedade. E eu escolho o que está mais próximo do espírito do projeto - analisa Bechara.
No último sábado, a escritora Ana Maria Machado também defendeu, na coluna de Merval Pereira no GLOBO, a interpretação de que "os que forem condenados" significa todos aqueles na condição de condenados: "Na famosa frase que aprendemos na escola (creio que de Osório), a conclamação era: 'Quem for brasileiro siga-me'. Uma maneira de dizer, no singular: 'Os que forem brasileiros sigam-me'. A urgência era evidente. Não se fazia necessário esperar processos de naturalização ou novos nascimentos".
Já para Sergio Nogueira, professor de Língua Portuguesa, entretanto, a alteração no texto pelo Senado provocou redução do alcance do projeto Ficha Limpa.
- "Tenham sido" é pretérito perfeito do subjuntivo. "Forem" é futuro do subjuntivo. E futuro é futuro, passado é passado. "Forem condenados" é o mesmo que "vierem a ser condenados"; ou seja, é para a frente, é para os que serão condenados no futuro. Não inclui as condenações que já ocorreram. Não dá para discutir com a norma - afirma Nogueira. - Agora, se formos ver por que fizeram essa mudança, e aí já entramos no campo da opinião, para mim tudo leva a crer que foi para livrar aqueles com condenações, sim. Da forma como fizeram, os parlamentares quiseram não deixar de aprovar o projeto, para não ficarem mal com a população, ainda mais em ano eleitoral. Mas, ao mesmo tempo, livraram boa parte dos que poderiam ser atingidos.
Essa extraordinária Lya Luft - Reflexão
"Na arte como nas relações humanas, que incluem os diversos laços amorosos, nadamos contra a correnteza. Tentamos o impossível: a fusão total não existe, o partilhamento completo é inexeqüível. O essencial nem pode ser compartilhado: é descoberta e susto, glória ou danação de cada um - solitariamente.
Porém numa conversa ou num silêncio, num olhar, num gesto de amor como numa obra de arte, pode-se abrir uma fresta. Espiarão juntos, artista e seu espectador ou seu leitor - como dois amantes.
E assim, rasgando joelhos e mãos, a gente afinal vai.
Por isso escrevo e escreverei: para instigar o meu leitor imaginário -substituto dos amigos imaginários da infância? - a buscar em si e compartir comigo tantas inquietações quanto ao que estamos fazendo com o tempo que nos é dado.
Pois viver deveria ser – até o último pensamento e o derradeiro olhar - transformar-se.
O que escrevo aqui não são simples devaneios. Sou uma mulher do meu tempo, e dele quero dar testemunho do jeito que posso: soltando minhas fantasias ou escrevendo sobre dor e perplexidade, contradição e grandeza; sobre doença e morte. Lamentando a palavra na hora errada e o silêncio na hora em que teria sido melhor falar.
Escrevo continuamente sobre sermos responsáveis e inocentes em relação ao que nos acontece.
Somos autores de boa parte de nossas escolhas e omissões, audácia ou acomodação, nossa esperança e fraternidade ou nossa desconfiança. Sobretudo, devemos resolver como empregamos e saboreamos nosso tempo, que é afinal sempre o tempo presente.
Mas somos inocentes das fatalidades e dos acasos brutais que nos roubam amores, pessoas, saúde, emprego, segurança, ideais.
De modo que minha perspectiva do ser humano, de mim mesma, é tão contraditória quanto, instigantemente, somos.
Somos transição, somos processo. E isso nos perturba.
O fluxo de dias e anos, décadas, serve para crescer e acumular, não só perder e limitar.
Dessa perspectiva nos tornaremos senhores, não servos. Pessoas, não pequenos animais atordoados que correm sem saber ao certo por quê.
Se meu leitor e eu acertarmos nosso tom recíproco, este monólogo inicial será um diálogo - ainda que eu jamais venha a contemplar o rosto do outro que afinal se torna parte de mim.
Então a minha arte terá atingido algum tipo de objetivo."
LYA LUFT, em 'Perdas & Ganhos', 32ª edição, Editora Record, 2006, p.p 15/17
Cérebro “avisa” pouco antes de cometermos um erro
Cérebro “avisa” pouco antes de cometermos um erro
Pouco antes de você cometer um erro, seu cérebro dá sinais de alerta, segundo estudo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. De acordo com os autores, essa descoberta poderá levar ao desenvolvimento de aparelhos que avisem aos controladores de trafego aéreo quando eles estão perdendo a atenção. Usando uma técnica não-invasiva – chamada magnetoencefalografia, que é mais sensível que o tradicional eletroencefalograma – os pesquisadores registraram as ondas cerebrais de estudantes durante um teste monótono que exigia atenção. E descobriram que, um segundo antes de os voluntários cometerem erros, suas ondas cerebrais ficavam mais fortes em duas regiões, o que não acontecia com aqueles que completavam a tarefa corretamente. Os pesquisadores descobriram também que os erros causavam mudanças imediatas na atividade das ondas na região frontal do cérebro, que pareceu reduzir a atividade das ondas alfa na parte de trás do cérebro. “É como se o cérebro estivesse falando ‘preste atenção!’, e, então, reduzindo a probabilidade de outro erro”, disse o pesquisador Ali Mazaheri, da Universidade da Califórnia. Os especialistas esperam que os resultados sejam traduzidos rapidamente para a aplicação prática, como um “eletroencefalograma wireless (sem fio)” para profissões ou tarefas que exijam atenção constante, como o controle do tráfego aéreo. Além disso, segundo os autores, os resultados poderiam levar a novas terapias para crianças com déficit de atenção e hiperatividade.
(Human Brain Mapping, 23 de março de 2009) Colaboração: Cláudio Lima
Divagações sobre um quadro de João Uchôa
Divagações sobre um quadro de João Uchôa
Deonísio da Silva, Jornal do Brasil
Só então é que percebemos que em nós também fazem falta certos apoios. No quadro que contemplei, era o lado de baixo do quadrado que estava faltando. Quase disse “no quadro que completei”, e não “no quadro que contemplei”, que seria um mote muito apreciado por aqueles que prestam atenção a detalhes, atos falhos, lapsos. A arte e a literatura chegaram ao inconsciente antes de Sigmund Freud. Elas veem o passado, veem o presente e antecipam o futuro, tornando o tempo como que redondo. Pois é verdade que o futuro, que nos é desconhecido, pode ser antevisto pelo exame do presente e do passado, que nos ajudam a compreender o que virá.
As artes e a literatura são ferramentas para este entendimento. No futuro, ninguém vai ser muito diferente do que está sendo agora, salvo exceções. Mas exceções também confirmam a norma. E a norma é: você está vivendo de modo muito semelhante ao que viveu no passado. E seus próximos anos – de novo, salvo exceções – serão muito semelhantes ao atual.Quando diante de problemas semelhantes, Santo Agostinho disse uma frase que me encanta pela unidade dos universais da condição humana: “Um rosto irado não é latino nem grego”.
Por que, então, tantas angústias rondam o ser humano? Talvez a principal causa seja que não podemos confiar cegamente nos sentidos, pois eles nos enganam. Assim, apelamos para a literatura, para as artes e também para o mágico, para aquilo que pode acontecer fora dos domínios do real e da lógica, de que são exemplos o que nos dizem as cartomantes e as adivinhas, pois essas profissões são preferencialmente exercidas por mulheres, tidas como mais intuitivas do que os homens. No Rio de Janeiro, parecem predominar as adivinhações por búzios, talvez pela proximidade do Oceano Atlântico. Mas longe da costa prevalece leitura das linhas de nossa mão, onde, aliás, não está escrito nada, são linhas vazias. Mas elas veem ali significados ocultos a nosso pobre entendimento.
Vejam só o teste que vale a pena fazer, um exercício criado para mostrar que nosso cérebro tem um bug. O cérebro de escritores e artistas não apenas não tem esse bug, como tem os seus antônimos. E o que dizem de algum modo se aproxima dos diagnósticos de cartomantes e adivinhas, que ali chegaram por outros caminhos.
Faça, de cabeça, como se diz, a seguinte conta: você tem 1000, acrescenta 40, são 1040. Acrescenta mais 1000. São 2040. Acrescenta mais 1000. São 3040. Acrescenta mais 30. São 3070. Acrescenta mais 1000. São 4070. Acrescenta mais 20. São 4090. Acrescenta mais 10. Você chega a 5000. Agora, tome uma calculadora e vá somando, parte por parte. O resultado é 4100. Nosso cérebro fez um erro de 900 em 4100. É um erro de quase 22%. Se nosso cérebro faz um erro tão grande numa conta tão simples, quantos e quão grandes erros não fará em coisas mais complexas?
Você não vê os erros de seu cérebro, mas saiba que eles existem. Preste muita atenção às intuições que você tem ao contemplar ou completar um quadro! Elas te enganam menos!
Foram essas divagações e pensamentos imperfeitos que me vieram à cabeça naquela mesa que discutia a obra de João Uchôa, mas naquela mesa estava faltando ele, embora estivesse ali com seus quadros!
Deonísio da Silva é escritor.
O custo de uma boa relação entre o México e os EUA
O custo de uma boa relação entre o México e os EUA
NYTimes - Marcela Sanchez
Esta semana Washington recebeu o presidente mexicano Felipe Calderón com honras dignas de uma celebridade e a pompa diplomática que só esta cidade pode oferecer. Mas os jantares de Estado, os discursos diante do Congresso e os palcos compartilhados com astros como Obama ou estrelas como Beyoncé não são exatamente do agrado do governante. Como diriam os mexicanos, Calderón não estava “en su mero mole”, ou seja, no seu melhor momento.
Durante os três anos e meio que transcorreram desde que assumiu o cargo em dezembro de 2006, Calderón preferiu não se expor demais nessa capital, por conta de um tipo de relação bilateral muito diferente da estabelecida por seu antecessor, Vicente Fox. Convencido de que prometer e exigir demais não foi bom para nenhum dos dois países nos seis anos anteriores, Calderón optou, em contrapartida, por reduzir as expectativas, concentrando-se em temas de benefício mútuo e que pudessem ser digeridos em Washington e na Cidade do México: a luta contra o crime organizado e o aumento da segurança fronteiriça, ao mesmo tempo que se agilizam os cruzamentos legais.
Esse tipo de diplomacia com luva de pelica surtiu um bom efeito. A cooperação entre ambos os países alcançou níveis históricos de assistência e entendimento. Nos últimos dois anos, mais de US$ 1 bilhão foram designados por Washington para auxiliar Calderón em sua difícil, porém corajosa, luta contra os carteis de drogas.
Esta ajuda está agora se transformando no respaldo às instituições democráticas e comunidades que se encontram no fogo cruzado dos criminosos, o que reflete um entendimento mais preciso por parte dos EUA quanto aos desafios que seu vizinho do sul enfrenta. Funcionários do governo Obama reconheceram, além disso, em várias ocasiões, a responsabilidade norte-americana na luta do México, coisa que os norte-americanos país não quiseram ouvir durante anos.
Os mexicanos, entretanto, desconfiam cada vez mais da estratégia antidrogas de Calderón, que deixou um saldo de quase 23 mil mortos. Seu partido sofreu nas urnas e figuras importantes o criticaram por não ter previsto as consequências de mexer nesse enxame de violência. Diante dessas circunstâncias, parecia que um tapinha no ombro por parte do presidente Obama, transmitido pela televisão internacional, seria bom para o reticente Calderón. Mas os Estados Unidos tinham mais do que afeto a oferecer.
Há menos de um mês, o Arizona adotou a lei mais dura do país contra a imigração ilegal. Embora a norma já tenha recebido algumas emendas e várias demandas legais ainda estejam pendentes, ela desatou uma severa reação no México, o que obrigou seu presidente a falar mais abertamente sobre o tema da migração. Desde sua chegada à Casa Branca, Calderón denunciou a nova lei estadual por ser discriminatória. Posteriormente, confessou ter dito a Obama que o México manterá sua “forte rejeição à criminalização da migração” e que seu governo “fará uma oposição firme” à sua aplicação. Em seu discurso durante uma sessão conjunta do Congresso, ele se referiu à lei como “uma ideia terrível”.
Segundo Andrés Rozental, especialista mexicano em política exterior, Calderón se viu forçado a “defender ou fazer pronunciamentos públicos sobre este tema”, o que havia evitado anteriormente. Não se sabe qual será o efeito do recente estilo apaixonado de Calderón no acalorado debate norte-americano sobre a imigração. Ao lado de seu colega mexicano, Obama reiterou seu compromisso de reformar o deficiente sistema migratório norte-americano, mas reconheceu que não têm os 60 votos que precisa para fazê-lo no Senado.
Existe a possibilidade de que a mudança de tom tenha um resultado contraproducente e torne ainda mais difícil que os republicanos apoiem a reforma. Mas, também, é difícil imaginar que o México não tenha o que falar num debate que afetará milhões de seus compatriotas e exigirá a cooperação deste país, independente da direção que a discussão tome. Rozental está convencido de que o silêncio de Calderón, assim como o de Vicente Fox em seus últimos anos na presidência, foi um erro. “Os norte-americanos – diferentemente de outras culturas – sempre preferiram ouvir as coisas diretamente”, saber o que os mexicanos realmente pensam sobre um tema que tanto os afeta.
Mas os Estados Unidos também querem saber o que o México está fazendo para deter a migração ilegal. Andrew Selee, diretor do Instituto Mexicano do Centro Woodrow Wilson, enfatizou numa entrevista que Calderón “não tem muita autoridade moral para dar sermões sobre a necessidade de mudar a lei migratória dos Estados Unidos, se não os acompanhar com uma mensagem acerca da responsabilidade do México de criar oportunidades para que as pessoas fiquem no país.” O governante pareceu ter escutado o conselho. Em seu discurso de 35 minutos no Congresso, dedicou um bom tempo para descrever seus esforços “para transformar o México numa terra de oportunidades” e assim dar aos mexicanos uma razão a menos para emigrar. “O México está decidido a assumir sua responsabilidade. Para nós a imigração não é um problema só dos Estados Unidos, mas também de nosso país.” Ele também destacou a firmeza de seu governo em combater o crime organizado, apesar do custo tremendo de vidas e recursos e do risco para sua própria posição política.
O líder mexicano não é do tipo que deseja atrair a atenção pública internacional. Mas, talvez, já tenha conseguido mais do que seus antecessores ao chegar a Washington com provas tangíveis de que seu país entende que há um custo a pagar para ter melhores relações com os Estados Unidos. Tradução: Eloise De Vylder
Vulcão entra em erupção na Costa Rica
Vulcão entra em erupção na Costa Rica
Agência AFP
SAN JOSÉ - O vulcão Arenal da Costa Rica, uma das principais atrações turísticas do país, entrou em erupção nesta segunda-feira, derramando lavas, cinzas e gases, o que provocou a evacuação do parque nacional onde ele está localizado. Não há pessoas em risco, informaram vulcanólogos.
A atividade vulcânica foi iniciada às 18h00 GMT (15h00 de Brasília) com a queda de ao menos oito avalanches de lava que saíram ininterruptamente de uma cratera de 1.633 metros de altura, o que levou as autoridades a fechar imediatamente o parque nacional Vulcão Arenal.
"Uma série de avalanches estão ocorrendo", explicou à AFP o vulcanólogo Eliécer Duarte, do Observatório Vulcanológico e Sismológico da Costa Rica, que disse que não há pessoas em risco.
O vulcão, situado a 80 km de San José, é um dos principais destinos turísticos da Costa Rica e em torno dele existem dezenas de hotéis de luxo, restaurantes, discotecas e todo tipo de negócios vinculados ao turismo.
A última grande erupção do Arenal, em 29 de julho de 1968, matou 89 pessoas e deixou 30.000 afetados, causando perdas milionárias.
O vulcão também teve erupções menores em 1973, 1975, 1987, 1988, 1993 e 1999.
Assistência médica - Tribunal só pode julgar o que a ação pede, diz TST
Assistência médica
Tribunal só pode julgar o que a ação pede, diz TST
Por entender que o Tribunal Regional do Trabalho julgou matéria diferente do que a proposta na petição pelo autor da ação, o Tribunal Superior do Trabalho determinou que o TRT-9 (Paraná) reexamine o caso em que o Fundo de Pensão Multipatrocinado (Funbep) foi condenado a devolver a ex-empregado do Banestado os descontos efetuados a título de assistência médica.
Segundo o relator, ministro Barros Levenhagen, o trabalhador sustentou que os descontos ocorreram de forma contrária à legislação (Lei 6.435/77) e ao regulamento do plano de benefícios, mas não que os descontos não poderiam ser efetuados devido à ausência de autorização prévia e por escrito ou que não tivesse aderido ao plano. O empregado limitou-se a questionar a legalidade da norma que estabelecera o custeio parcial pelos empregados, explicou o relator.
Como o TRT determinou a devolução dos descontos com base na Súmula 342 do TST, que trata da necessidade de autorização prévia e por escrito do empregado para ser integrado em planos de saúde e, por consequência, sofrer os respectivos descontos salariais, na opinião do ministro Levenhagen, isso significou a análise da controvérsia sob enfoque diferente da causa de pedir – o que não poderia ter ocorrido, tendo em vista o comando do artigo 128 do CPC.
Ainda de acordo com o relator, na medida em que ficou caracterizado o julgamento extra petita (ou seja, diferente do que foi requerido na petição inicial), cabia ao TRT reexaminar o recurso do Fundo, desta vez à luz das alegações do trabalhador, e não com base na Súmula 342 do TST.
De acordo com os autos, o Fundo de Pensão tentou anular o acórdão do TRT que o condenara à devolução dos descontos por meio de uma ação rescisória no próprio Tribunal, que foi julgada improcedente. No recurso ordinário ao TST, o Funbep insistiu na tese de que o trabalhador não pediu a devolução do que fora pago a título de assistência médica, apesar da decisão do Regional nesse sentido.
Por fim, a Seção II Especializada em Dissídios Individuais anulou a decisão do Regional no ponto referente aos descontos de assistência médica e determinou novo julgamento da matéria. Com informações da Assessoria de Imprensa do TST.
ROAR- 115200-92.2008.5.09.0909
Um começo de reflexão! Pare e pense!
Comece por aqui!
"Você está vivendo na era 'de volta para o futuro', ou talvez esta deva ser a época 'de volta para o passado'. Atualmente as coisas estão como costumavam ser dois mil anos atrás.
Naquela época, se você decidisse tornar-se cristão, aderiria a uma causa que tinha significado, o movimento radical que estava virando o mundo de ponta-cabeça porque era muito diferente e forte. Naquele tempo, tamanha audácia – a profissão de fé – significava viver com um grupo de amigos comprometidos e não apenas a participação da rotina insossa do convencionalismo diário. Ser cristão, lá atrás, faria com que você fosse perseguido e talvez, em alguns casos, até mesmo morto!
Esse tempo está de volta.
Você já deve ter percebido. Hoje, o cristianismo é frequentemente tratado com desprezo. Raramente é visto como um corpo de revolucionários, e infelizmente, nem mesmo é considerado essencial para muitas pessoas. Acadêmicos o ridicularizam. Noticiaristas criam caricaturas. Comediantes distorcem-no. Algumas igrejas tornaram-se os piores inimigos dele. E uma geração cresceu com pouca consciência da coletividade da fé dinâmica que, um dia, permeou cada detalhe do governo, da literatura e a da arte ocidental. Pense sobre isso: o quanto a sua vida foi influenciada por algo que se assemelha à fé comum, culturalmente unificada?
Retirado do livro "A Essência do Cristianismo" de James Berkley, Editora Vida, 1ª edição, 2002, p.p 9/10
Para cima e para baixo
Para cima e para baixo
Por Wilson Figueiredo – Jornal do Brasil - 24/05/2010 -
Mais cedo ou mais tarde (de preferência a segunda hipótese), quem não se deixa ofuscar por pesquisas de opinião vai reconhecer que já deveria ter desconfiado de que o foco da sucessão deste ano realçou com mais tinta o presidente Lula em relação à sucessão em 2014 do que, daqui a quatro meses, a própria candidata Dilma Rousseff. Ouvirá a explicação de que foi razão tática. Até aqui a campanha eleitoral reincidiu exageradamente na embromação do eleitor com elogios que o próprio Luiz Inácio Lula da Silva não se poupa, enquanto a oposição ainda não sabe por onde recomeçar. A campanha empacou, e a Copa do Mundo serve de desculpa esfarrapada para tudo que está em jogo. Quem é de se preocupar com fatos menores tende a se contentar com a aparência, mas nada tem a declarar sobre a candidata Dilma Rousseff, que acaba de pôr os pés no patamar que lhe permite ver de mais perto o parceiro José Serra – dois pontos para cima ou para abaixo não importam – no seu horizonte. Nenhum dos dois quer atirar a primeira pedra. O eleitorado não se recusa a arriscar juízos de valor definitivos sobre os personagens, e seus currículos, mas espera que as respectivas propostas de governo não venham a ser programas de índio.
Há dois anos dona Dilma vinha trotando na trilha presidencial, enquanto Lula se esquivava ao foco do terceiro mandato para não ficar mal com o que o país tem de melhor, que vem a ser a consciência democrática aguçada. Na segunda metade do século passado, a própria eleição indireta tornou-se a saída de emergência para a ditadura. E a oposição, antes de botar para fora a eleição indireta, a utilizou – como última ratio – para a ditadura sair de cena e não mais voltar. Foi a última gentileza e guardou como lembrança a honra de chegar ao poder graças à moral da fábula. As pesquisas de opinião estão sustentando, nas movediças margens de oscilação para mais e para menos, o clima eleitoral, e contribuindo para a normalidade de eleições presidenciais desde que os constituintes de 1986/88, sentindo-se na própria casa da sogra, desataram alguns nós que perturbavam a vida republicana nos períodos legais e hiatos ditatoriais. Eram resultados francamente pífios para um país que se considerava herdeiro do futuro. A temporada democrática anterior (1945-1964) não havia resistido à maioria simples para eleger presidentes. Cada sucessão, uma baixaria golpista Finalmente, a maioria absoluta veio, viu e ficou. As pesquisas também vão para a História do Brasil.
Não foi só a maioria absoluta, cuja sabedoria é exigir do vencedor a metade do total de votos mais um de lambujem, que extirpou pela raiz o golpismo que contaminava a pureza democrática na fonte republicana. Por fora do constitucionalismo fervente, discreta como é da preferência mineira, a pesquisa eleitoral teve função didática que ainda espera o levantamento histórico de sua contribuição – pelo menos no Brasil – para a democracia, finalmente, dizer a que veio. As pesquisas prepararam o brasileiro para aceitar o resultado da eleição sem desatino emocional. O teste foi a eleição de Lula, que veio devagar, pelas bordas, até o mingau esfriar, como preferia Leonel Brizola, mas ficou para ele. Elegeu-se, reelegeu-se e quase conseguia por fora um terceiro mandato. Em conclusão: aquele oposicionismo de chiliques está curado. O acompanhamento das oscilações, pequenas ou grandes, no curso das campanhas eleitorais, neutraliza os desatinos golpistas que privavam da razão a anterior oposição. O custo das pesquisas é muito inferior à farta distribuição de preservativos pelo Ministério da Saúde. E mais barato do que a oferta oficial de tranquilizantes ao eleitor médio, que se desincumbe do ato de votar e não mais quer saber do que será que será. Finalmente, o brasileiro descobriu que uma eleição perdida não é o fim do mundo. Nem sequer paga o custo de uma ditadura a mais ou a menos.
Em vez da criação de dias nacionais disto e daquilo, os legisladores poderiam juntar-se e propor, entre Rio e São Paulo, um monumento imponente às pesquisas de opinião como um dos pilares com que a democracia pode contar no Brasil. Claro, enquanto achar que vale a pena.
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