terça-feira, setembro 07, 2010

As cotas na UFRJ

As cotas na UFRJ

RENATO LESSA - Publicada em 06/09/2010 às 16h52m – O Globo

O Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em decisão de há poucos dias, aprovou a adoção de cotas sociais para a definição de vagas para ingresso de novos estudantes. O critério social contempla estudantes matriculados na rede pública e provenientes de famílias de baixa renda. Trata-se de uma combinação entre experiência escolar e renda como critérios compensadores de desvantagens presentes na estrutura da sociedade. A decisão da UFRJ - defendida abertamente pelo reitor Aloísio Teixeira - impõe-se como alternativa à adoção de cotas raciais. Nessa orientação, a UFRJ soma-se à USP no que diz respeito à criação de sistemas alternativos de acesso à vida universitária, que não se rendem ao racialismo em curso.
Pelo desenho adotado pela UFRJ, parte das vagas para ingresso na universidade será atribuída a estudantes pobres e egressos do sistema de ensino secundário público. A política em vigor na USP tem características distintas, porém parte do mesmo fundamento, qual seja o de privilegiar dimensões sociais e não marcas "étnicas" ou "raciais". O Inclusp - sigla que designa o programa da USP - confere a alunos provenientes de escolas públicas um acréscimo de 3% na nota do exame de vestibular. O modelo uspiano não considera renda ou "raça", pois parte da premissa de bom senso que há forte concentração de estudantes pobres e negros no ensino público secundário. Tanto que as avaliações feitas a respeito do programa reconhecem o aumento no número de negros e índios entre os novos estudantes, a despeito da não consideração desses aspectos na definição da política de inclusão.
O critério adotado pela UFRJ combina de forma engenhosa dois marcadores importantes: origem da escolaridade e renda. Ambos terão como efeito uma vigorosa entrada de estudantes negros e pardos na vida universitária, a despeito da não consideração explícita desse critério. Vejamos: segundo os dados da PNAD de 2007, entre os estudantes pobres do ensino médio, com renda familiar abaixo de 1,5 salário mínimo, cerca de 56% são negros ou pardos, e 44%, brancos. Ignoro qual o corte de renda a ser adotado pela UFRJ, mas é de se imaginar que uma política de inclusão que se oriente por critério de renda terá como efeito a maior inclusão do segmento mais excluído. O mesmo raciocínio pode ser aplicado à origem da escolaridade. Esmagadora maioria dos estudantes pobres está na rede pública de ensino (92%). Logo, o foco na rede pública beneficiará inequivocamente os estudantes pobres. Se considerarmos variáveis de "raça", teremos que 95% dos estudantes pobres negros e respectivamente 94% e 86,6% dos seus equivalentes pardos e brancos estão na rede pública. Dada maior presença dos negros e pardos no contingente da pobreza, é imperativo concluir que a maior parte dos estudantes pobres da rede pública é negra e parda. Se a origem escolar na rede pública for considerada, por simples ilação lógica, os estudantes negros, que são a maior parte dos estudantes pobres, serão o principal contingente incluído.
Duas questões mais gerais devem ser consideradas a partir do importante gesto de democratização de acesso produzido pela UFRJ.
Parece ser indisputado o fato de que uma política que inclua pobres - negros e brancos - é dotada de critério de justiça mais robusto e abrangente do que outra que inclua apenas negros, pobres e não pobres. O contingente prioritário pretendido pelo segundo recorte é coberto, com vantagens, pelo primeiro critério, que aos negros pobres acrescenta os brancos pobres. Em nome de que reduzir o alcance da inclusão a definições "raciais"? O vastíssimo contingente da destituição social de pele clara não merece reparações?
E este é um ponto fundamental, critérios raciais e critérios sociais não são variantes de um mesmo vetor, voltado para generosa inclusão dos barrados estruturais da sociedade brasileira. Há uma distinção fundamental. O corte social associado à pobreza designa um contingente móvel: trata-se de aplicar critérios de justiça que impliquem a sua erradicação. Em outros termos, a ideia é a de incluir pobres para que eles deixem sua condição originária. O critério "raça", ao contrário, é fixo. Trata-se aqui de incluir para reconhecer uma diferença permanente e, por essa via, de reinventar a história do país como constituída por inapelável "luta de raças".
RENATO LESSA é professor da Universidade Federal Fluminense e diretor-presidente do Instituto Ciência Hoje.

Brasil supera EUA como prioridade para investimentos, diz ONU

Brasil supera EUA como prioridade para investimentos, diz ONU

BBC Brasil

O Brasil superou os Estados Unidos é ocupa agora o terceiro lugar em um ranking de países prioritários para investimentos estrangeiros no período entre 2010 e 2012, segundo um levantamento anual divulgado pela Unctad (agência das Nações Unidas para o comércio e o desenvolvimento).
O Brasil pulou do 4º lugar, no ano passado, para o 3º lugar no ranking.
A China se manteve no topo, seguida pela Índia, que passou da 3ª para a 2ª posição.
No ano passado, quando subiu de 5º para 4º lugar, o Brasil já havia ultrapassado a Rússia.
Impacto da crise
A pesquisa anual da Unctad, realizada desde 1995, ouviu 236 companhias transnacionais e 116 agências de promoção de investimentos para perguntar sobre suas perspectivas em relação aos investimentos entre 2010 e 2012.
Os dados mostram que o impacto da crise econômica global foi maior sobre os investimentos programados para os países desenvolvidos do que para os países em desenvolvimento.
Nove dos 15 países apontados no ranking dos destinos prioritários dos investimentos nos próximos anos são nações em desenvolvimento. Os países do grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China, os grandes países em desenvolvimento) ocupam quatro dos cinco primeiros lugares do ranking.
A China, que era apontada no ano passado como destino prioritário por 98 entrevistados no ano passado, foi citada por 107 neste ano. O número de citações da Índia aumentou no mesmo período de 59 para 72.
O Brasil pulou de 44 citações como destino prioritário em 2009 para 70 neste ano, enquanto a Rússia manteve o mesmo número de um ano para outro – 36.
No mesmo período, as citações aos Estados Unidos caíram de 81 para 69, as da Grã-Bretanha caíram de 31 para 27 e da Alemanha de 28 para 24.
Apesar disso, os países desenvolvidos ainda deverão ser a principal origem esperada dos investimentos no período entre 2010 e 2012.
Segundo o levantamento, as principais origens dos investimentos no período deverão ser os Estados Unidos, seguidos de China, Alemanha, Grã-Bretanha e França.
Otimismo
A maioria das companhias e agências ouvidas no levantamento se disse otimista em relação à recuperação mundial e ao crescimento dos investimentos no período – 58% disseram esperar um crescimento nos investimentos até 2012 em relação ao nível de 2009.
Questionados sobre o nível de pessimismo ou otimismo em relação ao ambiente para investimentos, apenas 13% dos entrevistados se disseram otimistas para 2010, mas 47% se disseram otimistas para 2011 e 62% para 2012.
Apenas 4% dos entrevistados se disseram pessimistas para 2012. Para 2010, 36% se disseram pessimistas. No ano passado, 47% dos entrevistados se diziam pessimistas com o ambiente para investimentos em 2010.
A Unctad estima que o montante de investimentos externos diretos deve chegar a US$ 1,2 trilhão neste ano, a entre US$ 1,3 trilhão e US$ 1,5 trilhão no ano que vem e de US$ 1,6 trilhão a US$ 2 trilhões em 2012.

RANKING DE PRIORIDADE DE INVESTIMENTOS 2010-2012

  1. China
  2. Índia
  3. Brasil
  4. Estados Unidos
  5. Rússia
Fonte: Unctad

O Google hoje, dia 7 de setembro

CLAYTON, em O Povo

Ai de mim, ai de ti, Haiti

Ai de mim, ai de ti, Haiti

CÁRMEN LÚCIA ANTUNES ROCHA - Publicada em 06/09/2010 às 16h56m – O Globo

“Somos todos irmãos
Não porque seja o mesmo o sangue
Que no corpo levamos.
O que é o mesmo
É o modo como o derramamos”
Ferreira Gullar

Nenhum homem é uma ilha, repete-se. Mesmo uma ilha pode não ser uma ilha, digo. O ilhamento de um homem é tristeza; o de um povo, um perigo. A onda que arrasta o outro pode ser a mesma que me afogará amanhã. O que derruba alguém pode ser o anúncio do terremoto que me abaterá amanhã. O outro é aquele que passa antes, às vezes, o que poderá ser meu sofrimento depois. E, se assim não for, o sofrimento mesmo dele já é uma ferida que me dói.
O Haiti não é apenas uma ilha, linda ilha que, ao olhar que deito do sobrevoo em sua proximidade, me faz pensar que o céu derramou-se naquela amplidão. O Haiti é um povo em permanente estado de luta contra adversidades impostas pelos colonizadores de antes, o descaso, depois, e um certo sentido de comiseração, mais que de compaixão. É desse, no entanto, que todos nós precisamos.
Os revolucionários oitocentistas fizeram do azul a cor-símbolo da liberdade, ausência de limites. No azul intensíssimo do Caribe, a experiência haitiana mostra sinais de limites de variado matiz. Parece que ali o mar é sussurro permanente a lembrar que viver é preciso, navegar...
E segue o mundo surfando em águas nem sempre amenas, deslembrando-se de que a internacionalização das relações políticas põe à vista que estamos todos no mesmo barco. Não há sobreviventes isolados, ou, pelo menos, não há garantia de que, se uma parte do mundo for bem, obrigada, a outra pode ser desprezada.
Na mundialização econômica e política atual, nem ao menos uma ilha é uma ilha. Os que não sucumbimos em terremotos, nem dormimos sob o signo do medo dos ventos, somos iguais aos que não podem adormecer com calma. Como diria Sartre, como toda a humanidade, somos metade vítimas, metade culpados.
O Haiti é um povo ferido pela ganância insensata dos homens e pela revolta incompreensível da natureza. Melhor é saber que, mesmo poucos, muitos dos quais brasileiros, há quem esteja a ajudar, quando a solidariedade nem sempre atravessa a soleira da porta da maioria.
Os haitianos não parecem cansados de lutar. Seguem varrendo os destroços de construções arrasadas como quem ara a terra do que passou para dar espaço à semeadura nova. Parecem cultivar a certeza de que serão os jardineiros da safra que os alimentará no futuro.
Aprendi que, pessoal ou socialmente, felicidade não é destino, é construção. Se um homem não é uma ilha e uma ilha não é um isolamento humano, é imperioso que a construção ou a reconstrução seja plural. Se não for por benquerença, seja por sensatez: de mãos dadas a caminhada é mais fácil, mesmo quando os pés se esfolam pela aridez da trilha. E ai de mim, ai de ti, Haiti, se não estivermos juntos para construir o que queremos que venha. Pode ser, então, que a sorte afunde no azul intenso de um mar qualquer e que, assim afogada, ela faça-nos náufragos da aventura humana mais benfazeja.
CÁRMEN LÚCIA ANTUNES ROCHA é ministra do Supremo Tribunal Federal.

O futuro é a educação

O futuro é a educação

Paulo Guedes - Artigo publicado em 6/9/2010 no jornal O GLOBO

Um engenheiro construiu aquedutos e catapultas na antiga Roma, castelos e catedrais na Idade Média, como constrói nos dias de hoje foguetes espaciais e plataformas marítimas para exploração de petróleo. Um exemplo de como o conhecimento transforma as profissões através dos séculos.
De carroças puxadas por bois às ferrovias, de caminhões a diesel aos aviões de carga, mesmo o passado recente registra o extraordinário impacto das inovações sobre os meios de transporte. Um exemplo de como o conhecimento também transforma de modo radical nossas atividades produtivas.
A verdade é que a educação, ao possibilitar a evolução e a transmissão do conhecimento ao longo da história humana, modificou profissões, trouxe novas tecnologias e transformou atividades produtivas, mas recebeu relativamente pouco em troca. Seus métodos de transmissão permaneceram os mesmos por milênios.
Não me refiro evidentemente ao conteúdo educacional ou à qualidade dos métodos científicos modernos em comparação às investigações filosóficas dos antigos. E sim à "tecnologia de transmissão", com alguns tutores e muita saliva.
Os ensinamentos de Aristóteles para o jovem Alexandre da Macedônia foram transmitidos por aulas expositivas, diálogos e estímulo à leitura, técnicas que em pouco diferiam das atuais.
É com essa perspectiva que avaliamos o impacto das novas tecnologias sobre a educação.
Desde a revolução de Gutenberg, não ocorria nada igual à chegada da internet, a globalização efetiva da informação.
A onda de inovações aplicáveis à transmissão do conhecimento está causando uma revolução no setor. Há uma convergência de novas tecnologias que permitirá a superação do maior de todos os desafios: a universalização do ensino de qualidade.
A oportunidade de criação de valor na moderna sociedade do conhecimento por meio dessa universalização de um conteúdo antes acessível a poucos, com uma dramática redução de custos pela aplicação das novas tecnologias, está produzindo, por sua vez, uma onda de fusões, aquisições e associações entre empresas de internet, da indústria de telecomunicações, da mídia convencional e do setor de educação propriamente dito.
A convergência das novas tecnologias está derrubando as muralhas antes existentes entre esses diversos setores, redefinindo fronteiras e criando novas oportunidades de investimento. E, pela primeira vez, o maior beneficiário será a educação.
Paulo Guedes é economista.

Los Hermanos - Veja Bem, Meu Bem!

Cláudio, para o Agora São Paulo

Quando o passado não absolve as digitais do presente

Quando o passado não absolve as digitais do presente
Análise - Rui Nogueira - Estadão
 No bastidor das conversas sobre o escândalo das violações do sigilo fiscal dos tucanos, dirigentes do PT e assessores do presidente Lula costumam soprar uma versão dos fatos que ninguém tem coragem de debater em público. Uma versão surrada, de natureza semelhante à que foi fartamente usada para "explicar", por exemplo, os escândalos do mensalão (2005) e dos aloprados (2006).
Em síntese, se alguém ou algum partido que antecedeu o PT no poder fez algo semelhante de errado, então o erro "é velho" e está no DNA do processo político. Em vez de responder pelo erro do presente, os dirigentes do PT buscam a desculpa e a absolvição nos erros do passado.
O que o PT e o Planalto dizem agora, à boca pequena, é que a coleta dos dados sigilosos dos tucanos teria começado com uma equipe de jornalistas, em Belo Horizonte, uma espécie de tropa de choque mobilizada para bisbilhotar a vida e as decisões públicas do pré-candidato José Serra. Estocado na forma de dossiê, o material seria usado para facilitar o caminho do mineiro Aécio Neves na disputa com Serra pela indicação do nome tucano a concorrer ao Planalto.
Assim sendo, com algum regozijo e ironia, os líderes petistas concluem: "Não temos nada a ver com o dossiê e os dados sigilosos dos tucanos porque o assunto começou lá entre eles, é velho, anterior à existência da candidatura Dilma."
Em primeiro lugar, não consta que Aécio tenha contratado um grupo de jornalistas para fazer esse serviço sujo. Então, se a tropa da imprensa existe, é preciso explicar direito a sua origem, em vez de jogá-la no colo de Aécio.
Segundo: o dossiê com informações dos tucanos existe e os dados foram coletados por meio de violações do sigilo fiscal.
Terceiro: em maio deste ano o dossiê estava nas mãos de pessoas contratadas para assessorar a campanha de Dilma, a "equipe de inteligência".
Quarto: em junho deste ano as declarações de IR de 2008 e 2009 do tucano Eduardo Jorge estavam no dossiê.
Quinto: nem tudo é "coisa velha" no dossiê e anterior à certeza de que Dilma seria a candidata. Dados da movimentação bancária de EJ estavam no dossiê. E são de janeiro e março... deste ano. Em fevereiro, no encontro nacional do PT, em Brasília, Dilma foi aclamada como candidata.
Sexto: por que a "equipe de inteligência" de Dilma se interessou por algo que, supostamente, não era seu, mas está cheio de digitais petistas?
Sétimo: se a origem do dossiê absolve o PT e Dilma, por que o Planalto é parte integrante da operação abafa em curso?

Girafa, Zâmbia


Fotografia de Frans Lanting, National Geographic

''Me diziam que o computador ligava sozinho'', afirma suspeita

''Me diziam que o computador ligava sozinho'', afirma suspeita
Fausto Macedo e Bruno Tavares - O ESTADO DE S. PAULO
Dados de tucano foram acessados na máquina de Adeildda Leão; ela diz que quem tem que responder é escalão superior
Adeildda Leão dos Santos, servidora do Serpro sob suspeita de participação no vazamento de dados do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, e de outros políticos tucanos, disse que seu computador na agência da Receita em Mauá "era acessado também por outros funcionários". Em nota oficial, onde apresenta sua versão em 27 linhas, Adeildda relata que a senha da máquina ficava anotada em sua agenda que deixava sobre a mesa ou na gaveta com o cartão da certificação digital.
"Não via problema em outras pessoas usarem o computador pois confiava e não consigo enxergar maldade em meus colegas", assinala. "Muitas vezes chegava para trabalhar e via que meu computador estava ligado, muito embora tenha desligado no dia anterior antes de sair. Quando questionava, meus colegas me diziam que o computador ligava sozinho."
Ela diz que comunicou o fato à Corregedoria da Receita. "O corregedor me disse que isso é normal."
A investigação da Receita indica que o acesso aos dados de Eduardo Jorge ocorreu no computador de Adeildda, com uso da senha da analista tributária Antônia Aparecida Neves Silva. As duas trabalhavam na Agência Mauá, foco do escândalo.
"Tenho consciência que fui descuidada com meu computador, esse foi meu erro", admite Adeildda. "Quanto a imprimir declarações de forma imotivada, se foram mesmo imotivadas, quem tem que responder sobre isto são os funcionários do escalão superior. Eu somente seguia ordens. Sou mera auxiliar e não tenho como saber o que se passa com a chefia."
Há 23 anos na carreira Adeildda afirma que "jamais agiu ou contribuiu para a quebra de sigilo fiscal de nenhum contribuinte, seja ele político, famoso ou não".
Diz que nunca foi filiada a nenhum partido político e nem a nenhuma entidade sindical. "Não tenho predileção partidária. Até ser intimada não sabia quem era o senhor Eduardo Jorge."
Adeildda explica que para acessar uma declaração recebia o CPF. "Eu fazia o acesso, a impressão e entregava a quem me solicitou. O que a pessoa fazia com a cópia da declaração eu não sei. Como funcionária rasa não me cabia interferir no trabalho da chefia."
Disposta a colaborar com as investigações ela abriu mão de seu próprio sigilo.
"Coloco desde já minhas contas bancárias à disposição da Polícia Federal, abro meu sigilo fiscal e telefônico."

Ricardo, para O Popular

Falta de chuva isola municípios na Floresta Amazônica e castiga Pantanal

Falta de chuva isola municípios na Floresta Amazônica e castiga Pantanal
Ambiente. Seca de rios amazônicos deixa 4 cidades isoladas e sob risco de desabastecimento; cerca de 70 comunidades rurais estão sem água potável. Em Mato Grosso, a 3ª maior baía do País em volume de água está com o nível mais baixo dos últimos 40 anos
Liège Albuquerque CORRESPONDENTE / MANAUS,Fátima Lessa ESPECIAL PARA O ESTADO / CUIABÁ
 Duas regiões que abrigam importantes biomas do País - a Floresta Amazônica e o Pantanal - sofrem com a estiagem. A seca do Rio Solimões e seus afluentes Purus e Juruá deixou quatro municípios do Amazonas isolados por via fluvial. Em Mato Grosso, a ação do homem aliada à seca prolongada afetam a Baía de Chacororé, a 130 km de Cuiabá.
No Amazonas, quatro municípios - Envira, Benjamim Constant, Itamarati e Canutama, na região oeste do Estado - têm estoque de alimentos, água e gasolina para só mais 15 dias. Mas pelo menos 70 comunidades rurais desses municípios se encontram sem água potável - e sem chuvas - desde o mês passado.
Esses municípios decretaram estado de emergência. A Defesa Civil estadual, contudo, emitiu um estado de alerta para a seca que atinge severamente, além desses 4, outros 25 municípios. O governo deve iniciar nesta semana o envio de alimentos e água para as cidades atingidas.
"Nós temos 36 comunidades rurais já completamente isoladas; a água e a comida estão sendo levadas pela prefeitura a pé, pela mata", explicou a coordenadora da Defesa Civil de Benjamim Constant (a 1.118 quilômetros de Manaus), Gleissimar Castelo Branco.
De acordo com o superintendente do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Marco Oliveira, ainda é cedo para dizer se essa pode ser uma estiagem igual à de 2005. "A vazante dos rios é expressiva, mas ainda está a pelo menos 6 metros acima do mesmo nível atingido pelos rios no início de setembro daquele ano", disse.
O prefeito de Itamarati (a 987 quilômetros de Manaus), João Campelo, afirmou que as embarcações de baixo calado não estão parando no porto. "Também sofremos muito com as queimadas", completou.
Pantanal. Em Mato Grosso, além da seca, a ação do homem ameaça provocar um desastre ecológico na Baía de Chacororé. O volume de água nunca esteve tão baixo. A medição que vem sendo realizada desde 1969 mostra que na pior seca, registrada em novembro de 1973, o nível chegou a 1,33 metro na régua linimétrica. Desde agosto, o volume está em torno de 85 centímetros.
Para Rubem Mauro Palma de Moura, professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a situação estava prevista desde 1997, quando foi feita a primeira denúncia. "Naquela época, houve um aprofundamento do canal que liga Chacororé à Baia de Siá Mariana, provocando a seca", disse. Em 2000, foi construída uma barragem.
A Baia de Chacororé - a terceira em volume de água do País - espalha-se, na seca, por 11 mil hectares. Na cheia, junta-se à baía vizinha de Siá Mariana e atinge 45 mil hectares, superando em tamanho a Baía de Guanabara, no Rio.
A situação crítica sensibilizou a Promotoria de Justiça da Comarca de Santo Antonio do Leverger, que entrou com uma ação civil de responsabilidade por danos ambientais contra a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e a prefeitura de Barão do Melgaço, com pedido de liminar para que fossem adotadas medidas urgentes para evitar danos irreparáveis.
Segundo o professor Palma de Moura, os problemas se agravaram nos últimos anos, quando foram erguidas barreiras às margens do Rio Cuiabá. Além disso, houve o entupimento de cinco corixos - canais naturais que ligam o rio à baía.
O especialista afirma que os corixos têm importância fundamental na regulação dos períodos de cheia e de seca da planície pantaneira. "Impedir essa inundação natural é matar o Pantanal, pois todo o bioma pantaneiro é vinculado a esse ciclo."
Várias medidas equivocadas das autoridades ajudaram a complicar a situação. Uma delas foi a construção de uma estrada para conter a inundação. Em vez do uso de manilhas ou pontes, foi adotado o aterramento, que acabou por entupir os corixos.
Na ação proposta pelo Ministério Público Estadual, a promotora Julieta do Nascimento requer a desobstrução dos corixos tampados pela construção da estrada que liga Barão de Melgaço à comunidade de Estirão Comprido e Porto Brandão; reconstrução da barragem do Corixo do Mato e remoção do material usado como aterro na obstrução do Rio Chacororé e dois corixos.
Ela pleiteia ainda a realização de limpeza dentro das baías e elaboração de estudo técnico para subsidiar a abertura das bocas dos corixos da Uva e Caiçara, no Rio Cuiabá.
Na quarta-feira, num acordo entre a promotoria e o governo do Estado, ficou decidido que a Secretaria do Meio Ambiente recuperaria a barragem e desentupiria os corixos.

Skoob

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