quinta-feira, setembro 16, 2010

Dólar ladeira abaixo aqui e no mundo

Dólar ladeira abaixo aqui e no mundo
Moeda tem 10ª- queda, a R$ 1,708, e perde para euro e iene
Emanuel Alencar e Bruno Villas Bôas* RIO e NOVA YORK – O Globo
Em mais um dia marcado pela forte intervenção do Banco Central (BC) no mercado à vista — foram retirados de circulação de US$ 1 bilhão a US$ 1,1 bilhão —, o dólar comercial caiu ontem frente ao real pelo 10opregão consecutivo. Lá fora, a moeda americana também teve queda em relação às principais divisas, como iene e euro, enquanto o euro registrou um novo recorde. No Brasil, o dólar recuou 0,46%, a R$ 1,708 na venda, a menor cotação desde novembro de 2009. Os dez dias seguidos de queda da moeda americana representam a maior sequência negativa desde novembro de 2005. Nesse período, o dólar já recuou 2,95% diante do real.
O maior fator continua a ser a oferta de ações da Petrobras, que deve trazer para o país de US$ 20 bilhões a US$ 30 bilhões, de estrangeiros interessados em participar da operação. Pelas estimativas do mercado, o BC já comprou mais de US$ 4 bilhões em leilões nos últimos quatro dias.
Cotação do ouro atinge recorde Para analistas de câmbio, o dólar se aproxima de uma barreira psicológica importante: R$ 1,70. Avaliase que, se esse limite for rompido, o governo pode lançar mão do swap cambial reverso — que, na prática, funciona como uma compra de dólares no mercado futuro — para frear o avanço do real. Outra opção seria o uso do Fundo Soberano para comprar dólares.
Operador de renda fixa e câmbio do Banco Modal, Luiz Eduardo Portella avalia que só resta ao BC atenuar a desvalorização do dólar.
— O BC pode, somente com os leilões no mercado à vista, suavizar essa queda. Não dá para reverter uma tendência. Há uma avaliação de que, caso o dólar rompa a barreira de R$ 1,70, o governo poderá lançar mão do swap cambial reverso para segurar a moeda — afirmou.
Um estrategista de uma corretora nacional, que preferiu não ser identificado, foi na mesma linha: — Como se trata de um fenômeno global, o BC pode fazer um monte de pirueta, mas provavelmente vai acabar engolindo um real mais forte mesmo.
Economistas do Goldman Sachs acreditam que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) pode anunciar em novembro uma nova série de recompra de ativos para estimular a economia americana, informou ontem a agência Bloomberg News. Segundo Jan Hatzius, economistachefe do banco de investimentos para os EUA, o Fed compraria US$ 1 trilhão em papéis do Tesouro.
Essa expectativa, somada a um resultado eleitoral positivo para o governo japonês, fez com que o dólar atingisse seu menor patamar frente ao iene em 15 anos: 82,93 ienes. A moeda americana também perdeu 1,3% em relação ao franco suíço, enquanto o euro avançou 1,1% frente ao dólar, a US$ 1,3019.
E o ouro, considerado um refúgio em tempos de incertezas, marcou um novo recorde histórico: US$ 1.271,70 em Nova York, com avanço de 2%. Esta foi a maior alta diária desde 16 de fevereiro.
— As pessoas estão indo para o ouro por pura confusão — disse à Bloomberg Matthew Zeman, operador do LaSalle Futures Group.
Cresce procura nas casas de câmbio
O tombo da cotação do dólar aumentou a procura da moeda nas casas de câmbio brasileiras. Nos últimos dez dias úteis, o dólar turismo (vendido em espécie no mercado oficial) recuou 3,19%, para R$ 1,82. No mercado paralelo (fora dos meios oficiais), a queda foi mais tímida: de 0,51%, para R$ 1,93 de acordo com dados da CMA.
Segundo vendedores, os clientes estão antecipando compras, mesmo sem ter viagem marcada. E quem volta do exterior prefere guardar as sobras do que revendê-las a um preço baixo.
— A procura está alta, mas não falta moeda nas casas de câmbio. Os bancos estão aumentando a importação de dólares para mentar a oferta — afirma José Roberto Carreira, gerente da Fair Corretora.
Analistas observam que a desvalorização da moeda costuma ser mais lenta nos mercados turismo e paralelo que no dólar comercial, usado em grandes transações entre bancos.
(*) Com agências internacionais

Paco de Lucía Concierto de Aranjuez Part2

Newton Silva, para O Jangadeiro Online


A encenação de sempre

A encenação de sempre
Editorial - O Estado de S. Paulo - 15/09/2010
 Um assessor de segundo escalão da Casa Civil, Vinícius de Oliveira Castro, foi o bode expiatório encontrado pelo governo para encenar uma resposta à revelação de que o filho da ministra Erenice Guerra, Israel, foi pago para ajudar uma empresa de transporte aéreo a regularizar a sua situação na agência federal do setor e, em seguida, conseguir um contrato de R$ 84 milhões, sem licitação, junto aos Correios. O assessor demitido, chamado por Erenice no ano passado para um cargo de confiança, foi apontado como parceiro de Israel na operação.
O afastamento de Castro - cuja mãe figura como titular de uma firma de lobby, juntamente com outro filho da ministra - é menos do que um paliativo diante do escândalo dentro do escândalo: a decisão do presidente Lula de manter Erenice Guerra na Pasta que ela transformou numa espécie de puxadinho da família e onde, ainda sob a guarida da então ministra Dilma Rousseff, se notabilizou pela crise do dossiê com gastos sigilosos da Presidência Fernando Henrique. Dilma, por sinal, já lançou a amiga ao mar, chamando-a de "uma ex-assessora".
A grande farsa - procedimento-padrão de Lula quando confrontado com grossas irregularidades no seu entorno - incluiu, por enquanto, o anúncio de que ele teria cobrado de Erenice uma "reação rápida". Ela rapidamente disparou uma série de notas para protestar inocência. Numa delas, anunciou a intenção de processar a revista Veja, que expôs o caso.
Mas a encenação mais característica do Planalto, quando finge que quer apurar os malfeitos da casa, foi o pedido de abertura de investigação pela Comissão de Ética Pública sobre a participação da ministra nos desenvoltos negócios do filho.
Para os menos avisados, uma providência contundente. Depois da reunião das segundas-feiras do colegiado, o seu presidente, José Sepúlveda Pertence, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, anunciou a abertura do procedimento. O relator designado, Fabio Coutinho, que tem o prazo prorrogável de 10 dias para apresentar o seu parecer, prometeu fazê-lo antes das eleições. A partir daí, a comissão ou arquiva o assunto ou instaura inquérito. Na realidade, sem prejuízo da retidão dos seus membros, o órgão não tem nenhum poder para punir as autoridades que tenham transgredido o Código de Conduta da Alta Administração Federal.
A comissão pode fazer recomendações ou advertências, e os advertidos podem ignorá-las. Basta lembrar o caso do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, que acumulava a função pública com a de presidente de seu partido, o PDT. Embora, como não poderia deixar de ser, isso tenha sido considerado eticamente inaceitável pela comissão - que em 2007 fixou prazo para o ministro renunciar ao comando partidário -, só em março do ano seguinte ele o fez, depois de se entender com Lula. Com o seu escárnio, o político demonstrou que a comissão, além de não ter poderes de sanção, tampouco exerce alguma forma de coação moral sobre os figurões do Planalto.
Tudo indica, portanto, que o único efeito prático do escândalo do dia nas hostes do lulismo será o fim das chances de Erenice de continuar ministra no eventual governo de sua ex-madrinha Dilma. Salvo fatos novos ainda mais comprometedores sobre o tráfico de influência e outros crimes continuados no núcleo central da Presidência, Lula tratará de empurrar com a barriga mais essa lambança. O essencial, para ele, é reforçar a couraça em volta da sua escolhida. E a mesma candidata cuja propaganda apregoa os feitos do governo "de Lula e Dilma" diz que o affair Erenice é "um problema de governo".
Em resumo, até a eleição, pelo menos, Erenice fica. Depois, se verá...
Nada disso sairia de graça para o lulismo se a maioria do eleitorado brasileiro não tivesse trocado as demandas éticas pelo proverbial prato de lentilhas. A efetiva melhora na condição de vida dos segmentos mais pobres da população como que os anestesiou para o exercício da cidadania. Parecem achar que, sendo os governos inevitavelmente corruptos ou coniventes com a corrupção, por que indignar-se logo com este que tanto bem lhes faz?

A falta dos “porquês”

A falta dos “porquês”
O jornalista contemporâneo não necessariamente está em busca de uma explicação para a essência dos fenômenos. Basta-lhe o lide. De preferência entre aspas. Forneça um e o saciará
Por Alon Feuerwerker – Correio Braziliense
 Os jornalistas não terem direito de réplica em debates eleitorais é um problema. Basta o candidato estar bem treinado e oferecer uma resposta não comprometedora à questão inicial. Pronto, o assunto foi contornado.
Menos mal que ainda não tenham abolido a réplica e a tréplica nas perguntas de candidato para candidato. Mas mesmo aqui as regras são restritivas. O sujeito tem um minuto, ou um minuto e meio, para desenvolver o raciocínio. Não é trivial.
Os políticos reclamam muito da imprensa, mas aprenderam a lidar com ela bastante bem. Alguém explicou a eles que o jornalista contemporâneo não necessariamente está em busca de uma explicação para a essência dos fenômenos, dos acontecimentos. Basta-lhe o lide. De preferência entre aspas. Forneça um e o saciará.
Uso intensivo do senso comum e fornecimento regular de lides, eis uma fórmula.
Mas sempre existe quem deseje ir além. Uma saída engenhosa do entrevistador ou debatedor chato é fazer a pergunta como se já fosse a réplica, para evitar desperdício. Usar a técnica bem desenvolvida por Luiz Inácio Lula da Silva, o estado da arte em comunicação, a referência para qualquer um que deseje se aventurar no ramo.
O estratagema é atribuir algo ruim — ou desagradável — ao adversário (o entrevistado). Nem precisa ser verdadeiro, basta a verossimilhança. Com uma vantagem. Não restará ao atacado nem a saída habitual de mudar de assunto, pois isso se voltaria contra ele. “Não conseguiu explicar.”
Acuse alguém de alguma coisa, e o dito cujo terá alguma dificuldade para se desvencilhar da nhaca da pauta negativa. Terá que se justificar.
De volta ao senso comum. Ele é como a matéria: parece contínuo e consistente, mas visto bem de pertinho é um tanto vazio.
Evite-o. Você pode até perguntar a um político da oposição se ele vai manter o Bolsa Família. Seria mais esperto perguntar por que no governo do PSDB o benefício era tão mais magrinho e chegava a tão menos gente do que no governo do PT.
A resposta à primeira pergunta é trivial. O PSDB está entre os fundadores da prática de distribuir dinheiro público para os mais pobres no Brasil. Já a segunda é mais complicada, pois embute juízo de valor sobre prioridades de governo.
Você pode perguntar a um político governista se ele acredita que a atual chefe da Casa Civil deve permanecer no cargo. Ou então indagar por que é aceitável o filho de um ministro intermediar negócios no governo, especialmente em áreas onde o ministro tem poder de decisão.
A resposta à primeira pergunta é trivial. Ninguém deve ser prejulgado, uma acusação não tem por si o efeito de condenar. Já a segunda é mais complicada de escapar.
O senso comum não costuma resistir a um “por quê?”. Infelizmente, o jornalismo recente estimulou a amputação de duas das seis perguntas do instrumental de construção do lide. Vão bem obrigado o “quem”, o “o quê”, o “quando” e o “onde”. Mas andam esquecidos o “como” e o nosso importantíssimo “por quê”.
Se a economia vai tão bem, e os bancos estão saudáveis além da conta, por que o usuário do cheque especial paga no governo Lula, em ordem de grandeza, o mesmo tanto que pagava no governo de Fernando Henrique Cardoso? E por que as tarifas escorchantes? Por que o spread indecente?
Se as privatizaçoes foram tão boas para o Brasil, por que não privatizar as demais estatais? Se foram tão ruins, por que não reestatizar as empresas já privatizadas?
Por que a oposição derrubou a CPMF depois que o governo já havia aceitado a proposta, vinda da própria oposição, de destinar todo o dinheiro para a Saúde?
Por que o Brasil está ajudando o Irã a ganhar tempo para construir uma bomba atômica?
Se os governantes dizem que fazem tanto pela escola pública, e garantem que elas estão ficando muito boas, por que os filhos deles estudam em escolas privadas?
Há “por que” para todos os gostos e posições. Basta querer usar.  

Waldez, no Amazônia Jornal


As elites e a antidemocracia

As elites e a antidemocracia
Rolf Kuntz - O Estado de S.Paulo - 15/09/10
O presidente Lula tem razão: as elites são perigosas, mas não tanto por negarem aos pobres o acesso à escola. Esse tipo de elite já não existe nos Estados mais desenvolvidos. Sobrevive, ainda vigorosa, nos fundões do País, nas áreas controladas pelos velhos condôminos do poder. É quase toda vinculada ao governo petista, sócio das oligarquias mais atrasadas e corruptas. Vejam, por exemplo, quem é governo e quem é oposição no Congresso e como se negociam e se distribuem cargos na administração, direta e indireta. Essa gente é sem dúvida perigosa. Mas a mais temível é provavelmente a outra elite, a do Brasil industrializado, emergente e candidato a potência econômica internacional.
Essa classe não se opõe à educação para todos, até porque depende, cada vez mais, de mão de obra qualificada ou pelo menos em condições de receber treinamento. Diplomados, pós-graduados, poliglotas e cada vez mais integrados no mercado internacional, líderes desse grupo têm exibido uma assustadora semelhança com os novos integrantes da classe média e com os beneficiários da Bolsa Família e de programas afins: mostram-se encantados com a prosperidade presente, otimistas em relação ao curto prazo e nem um pouco preocupados com a centralização do poder e com o risco, cada vez mais evidente, de um mergulho num autoritarismo de recorte populista.
Alguns dos melhores comentaristas políticos do Brasil têm exibido um espantoso otimismo. Segundo sua análise, lambanças no governo, como a violação de sigilo fiscal, pouco significam para a maioria dos eleitores, por causa do peso de suas preocupações imediatas. A explicação parece bem fundada. Os mais pobres continuam batalhando pela sobrevivência. Outros procuram consolidar a condição de recém-egressos da pobreza. Outros, ainda, estão satisfeitos porque a economia cresce, há mais empregos e a combinação de salários e crédito facilita o acesso a um padrão mais alto de consumo.
Essa interpretação pode ser sustentável, mas conta apenas uma parte da história. A indiferença mais notável não é a desses grupos pobres, egressos da pobreza ou mesmo de uma classe média pouco atenta a questões institucionais e pouco preocupada com as liberdades democráticas. A indiferença escandalosa é a da elite econômica das áreas mais industrializadas do País.
Porta-vozes desse grupo se mexeram recentemente. Mas não para protestar contra o uso partidário de órgãos do Estado, não para denunciar o voluntarismo da política econômica, nem para criticar o presidente Lula, cada vez mais enrolado na confusão de seu cargo com a condição de líder petista.
Mexeram-se para apoiar as operações parafiscais do BNDES e seus padrões muito discutíveis de seleção dos beneficiários. Alguns o defenderam como se alguém houvesse proposto sua extinção. Mas ninguém havia apresentado essa tolice. Da mesma forma, nenhuma pessoa razoavelmente informada negaria a necessidade de mais financiamentos de longo prazo. Os alvos da crítica eram outros: a promiscuidade entre o Tesouro e o banco, a concentração das aplicações, a obscuridade dos critérios e o uso de meios públicos para objetivos definidos de forma nada transparente.
Essa é uma elite estranha. Sustenta bandeiras com ar de modernidade, pregando a reforma tributária, a segurança jurídica, a redução dos entraves burocráticos e a expansão dos investimentos em educação e pesquisa. Propõe a adoção de uma política de competitividade. Mas defende, ao mesmo tempo, um câmbio administrado para sua conveniência, uma política monetária feita sob medida e, de vez em quando, intervenções protecionistas, sem o cuidado, sequer, de examinar as várias ações permitidas pelas normas internacionais.
A maior parte dessa elite permaneceu silenciosa quando o governo apresentou o famigerado Decreto dos Direitos Humanos. Quando interveio, limitou-se a discutir um ou dois tópicos, sem dar sinais de haver notado a extensão das barbaridades propostas naquele documento de 92 páginas - quase um esboço de uma constituição autoritária, com propostas de "democracia direta", sujeição da pesquisa e do investimento a sindicatos e ONGs e controle dos meios de comunicação.
As ameaças contidas nesse documento não estão superadas. Serão retomadas, porque são essenciais para o projeto de poder de seus autores. Mas quem se interessa por isso? Não, certamente, os beneficiários atuais e potenciais de todas as bolsas - não só aquelas destinadas aos pobres, mas também as oferecidas à elite, como a Bolsa Subsídio, a Bolsa Conteúdo Nacional e tantas outras.

Comparado com isso aí, Watergate foi bolinho

Comparado com isso aí, Watergate foi bolinho
José Nêumanne - O Estado de S.Paulo
Em junho de 1972, um bando de cinco aloprados invadiu um escritório da campanha do candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, George McGovern, para fotografar documentos e instalar microfones de escuta, a mando de uma gentalha instalada em gabinetes próximos do Salão Oval, no qual despachava o presidente Richard Nixon. O evento, aparentemente um incidente corriqueiro a ser noticiado nas páginas policiais, terminou levando a dupla de repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do jornal The Washington Post, a uma das maiores reportagens da História: a descoberta de que o chefe do Executivo mais poderoso do mundo tomara conhecimento do episódio e participara da conspiração para esconder provas da Justiça, o que o levou à renúncia dois anos e dois meses depois do fato. O episódio ilustrou dois aspectos da política. O primeiro deles, mesquinho, é a cegueira produzida pelo poder, capaz de levar quem o disputa a excessos desnecessários do gênero: no fim do processo eleitoral, Nixon aplicou uma das maiores sovas em eleições presidenciais americanas no adversário, vencendo-o em 48 dos 50 Estados da Federação. O outro, nobre, foi a demonstração do triunfo das instituições sobre as ambições quando funciona de verdade o tal do Estado Democrático de Direito.
Comparado com o que tem acontecido na atual sucessão presidencial em nossos trágicos trópicos, Watergate foi pinto, foi bolinho de bacalhau. Dificilmente o homem mais poderoso do mundo se teria mantido tanto tempo no poder, e talvez não houvesse tido sequer a possibilidade de renunciar, se tivesse devassado a contabilidade sigilosa de filha, genro e aliados do democrata derrotado. Ou se algum parente do secretário de Estado (apesar do crédito histórico de haver tirado a maior potência militar do mundo do atoleiro da guerra no Vietnã) Henry Kissinger fosse acusado de haver recebido "taxa de sucesso" de empresários envolvidos em negócios com a Casa Branca. Agentes da Receita Federal devassaram a contabilidade sigilosa da filha do candidato oposicionista à Presidência, Verônica Serra, de seu marido, Alexandre Bourgeois, e de quatro tucanos de alta plumagem, um dos quais, Eduardo Jorge Caldas Pereira, é vice-presidente do PSDB, o maior partido da oposição. Até agora todas as cabeças coroadas da Receita continuam sobre seu pescoço. E mais: a revista Veja reproduziu depoimento do empresário paulistano Fábio Baracat, revelando as circunstâncias do envolvimento de Israel Guerra, filho da chefe da Casa Civil, Erenice Guerra, na cobrança de comissão por contratos que ajudou a firmar com a Empresa de Correios e Telégrafos (EBCT), antes dada como estatal exemplar em eficiência de funcionamento e agora, lembrada pela corrupção desde a denúncia de recebimento de propina por um funcionário dela, o que detonou o escândalo batizado de "mensalão".
De fato, nem os Estados Unidos são o Brasil nem Nixon, mesmo tendo trazido dos pântanos da Indochina os jovens americanos de volta ao lar, jamais gozou de popularidade que pudesse ser comparada com a usufruída hoje pelo chefe do governo brasileiro. Tudo isso é verdadeiro. Mas, então, podemos cruzar o Rio Grande ao sul e encontrar outro exemplo bem mais próximo: o caso Collor. Eleito presidente da República, em 1989, na primeira disputa direta depois da que fora vencida por Jânio Quadros, em 1960, o carioca das Alagoas teve de renunciar ao mandato porque uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada no Congresso para investigar o "caixa 2" administrado por seu tesoureiro informal, Paulo César (PC) Farias, descobriu que a reforma de sua residência particular (a "Casa da Dinda") e um Fiat Elba (que qualquer "mensaleiro" que se preze se recusaria a usar por ser um carro modesto demais) haviam sido pagos pela contabilidade heterodoxa administrada por um empresário que, por sinal, não tinha cargo algum no governo. Então, qualquer brasileiro despido de preconceito ideológico e munido da mais elementar imparcialidade verá que o "carcará sanguinolento" pagou uma pena (fim do mandato legítimo conferido por 49,94% do eleitorado, 5,71 pontos porcentuais a mais que seu adversário, o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva) por um dolo que nem pode ser enquadrado na ordem de grandeza de um escândalo como este que acaba de ser divulgado.
O protagonista do impedimento frustrado pela renúncia do presidente hoje faz parte do sesquipedal esquema de poder montado pelo adversário que derrotou há 21 anos. Isso basta para explicar por que ele caiu à época, defenestrado pelo Congresso, que desprezou. Collor, senador da base de apoio do governo petista, tem chance de voltar ao governo de Alagoas, mercê do apoio que dá a Luiz Inácio Lula da Silva e à sua candidata à sucessão, Dilma Rousseff. A popularidade de um - de 79%, segundo pesquisas de opinião confiáveis - e o favoritismo da outra - 50% a 23% sobre o adversário, conforme o levantamento mais recente de intenções de voto que pode ser levado a sério - dão uma boa mão ao sucesso delle, apesar do apoio de Lula ao oponente Ronaldo Lessa (PDT). Da mesma forma, levam a crer que absolutamente nada acontecerá com o clã Guerra, por cuja eventual culpa já respondeu o bagrinho Vinicius de Oliveira Castro, assessor de Erenice, que ocupou na Casa Civil o lugar que foi da candidata Dilma, a quem os filhos dela chamam de "tia".
Vinicius é o Gordon Liddy de Lula. A diferença é que o chefe dele teve de sair do governo por ter tentado protegê-lo. Aqui, o superior de Erenice jurou que, em seu governo, "bandido só não é preso quando não é bandido". Será mesmo, hein? No começo de 2008, em plena divulgação da farra dos cartões corporativos dos palacianos, Erenice Guerra foi acusada de ter preparado dossiê falso contra Ruth Cardoso, mulher do ex-presidente Fernando Henrique. A acusação não foi apurada e Erenice não foi demitida: foi promovida.
JORNALISTA E ESCRITOR, É EDITORIALISTA DO "JORNAL DA TARDE"

Marisa Monte e Paulinho da Viola - Dança da Solidão

SPONHOLZ


Forças Armadas e civilização brasileira

Forças Armadas e civilização brasileira
Carlos Lessa – Valor Online
Tendo sido exilado e discriminado durante os anos da ditadura militar, militei contra o terrorismo de Estado e me esforcei - e continuo me esforçando - pela via democrática de construção de uma civilização brasileira. Assim, sinto-me inteiramente à vontade para afirmar ser indispensável o fortalecimento das Forças Armadas brasileiras para que venhamos a construir um Brasil justo, integrado e com escassas diferenças de padrão de vida.
A pressão internacional sobre a Amazônia é direcionada pela ideologia neoliberal da globalização. A definição do Brasil como o "celeiro do mundo" ameaça o patrimônio biológico da Amazônia. Carne de boi e soja baratas exigem capim e desmatamentos, porém a pressão internacional se alimenta de outra vertente. O Brasil, retornando ao padrão da República Velha e sendo exportador de alimentos e matérias-primas, fornece munição aos ideólogos, ecologistas e quintas colunas ecológicas para propor - em nome da defesa da humanidade - a preservação do ecúmeno amazônico. Essas forças conseguem paralisar projetos hidrelétricos e logísticos de imensa importância para o país.
De longa data, Arthur César Reis escreveu o livro "A Amazônia e a cobiça internacional". Nele reconstruiu, com precisão, as múltiplas tentativas de diversas potências de abocanharem pedaços da Amazônia brasileira. Nas últimas décadas, é visível e pérfida a atuação de potências estrangeiras em busca do domínio da Amazônia, nosso Eldorado verde.
A Marinha brasileira sempre falou da Amazônia azul. Hoje, com o pré-sal, nosso Eldorado azul é objeto de cobiça provavelmente superior à provocada pelo Eldorado verde. A Amazônia verde é compartilhada com diversos países latino-americanos, e sempre existe a possibilidade de conflito entre irmãos, mas a Amazônia azul vai muito além das 200 milhas de costa marítima soberana e é possível uma controvérsia internacional nas jazidas de pré-sal que estão fora dos limites brasileiros. Obviamente, quanto mais efetiva for a integração sul-americana e a combinação finada de interesses, mais fácil será para o Brasil preservar, para gerações futuras, nossos Eldorados. Claro está, também, que as chances de integração dependem do dinamismo da economia brasileira. A mediocridade macroeconômica abre a região às piores projeções da globalização e multiplica riscos de conflitos regionais.
Creio que os brasileiros deveriam ver, na atuação militar em defesa da Amazônia, uma continuação da obra de Rondon: "Integrar para não entregar". Aumentar o recrutamento de profissionais militares nas etnias amazônicas é uma prioridade pedagógica nacional. O Brasil deveria incluir o Programa Calha Norte no PAC, e a universidade brasileira deveria ser convocada para o estudo exaustivo das potencialidades da Amazônia e conhecimento das realidades antropológicas dos amazônicos. Acredito que as Forças naval e aérea têm de ser modernizadas e ampliadas. O Brasil precisa dessas forças para dissuadir e retardar pressões em relação ao Eldorado azul. É evidente que a logística de nosso EXÉRCITO, na Amazônia, depende de sofisticado sistema de transporte de tropas, equipamentos e munição. É fundamental uma flotilha do Amazonas. No Projeto Calha Norte, deveriam ser multiplicadas as bases aéreas.
O Brasil não tem um projeto nacional de desenvolvimento. Adotou a consigna de "exportar é a solução" e pretendeu "integrar-se competitivamente", com bens industrializados e serviços sofisticados, num mundo globalizado. Essa diretiva pró-globalização está desenvolvendo comportamentos de retrocesso: cresce, sem parar, a participação da agropecuária e declina a exportação industrial. É visível a timidez empresarial para a multiplicação de investimentos internos, se bem que nossos grandes grupos sobreviventes estejam investindo fora do Brasil. Deixamos de ser um país receptor de mão de obra para exportar jovens.
O Itamaraty calcula que 3.300 mil brasileiros tenham migrado definitivamente para o exterior. Essa é uma das piores manifestações de pouco dinamismo em países periféricos. Sem dúvida, a crise mundial e as barreiras à imigração devem reduzir essa tendência.
O Brasil precisa elevar a taxa de investimentos dos atuais 18% do PIB para 21%, 22%, se tivermos a pretensão de crescer 5% ao ano. Para esse resultado, é necessário elevar o investimento público para um padrão entre 6% e 7% do PIB (praticamente o dobro da participação atual).
Temos, hoje, na economia do petróleo, uma fonte de esperança e de medo. Se a economia do petróleo se apoiar integralmente no desenvolvimento brasileiro industrial e de serviços, se a economia do petróleo não cair no "canto da sereia" da exportação de óleo cru, se mantivermos a prioridade de fontes energéticas renováveis e adotarmos uma política de não desperdício de derivados de petróleo, temos, próximo à nossa mão, um projeto nacional de desenvolvimento que exige Forças Armadas modernizadas e com poder dissuasivo: precisamos de submarinos caçadores de submarinos atômicos de outros países, precisamos evoluir rapidamente na tecnologia de mísseis, fortalecer a indústria de produtos de defesa. É necessário que utilizemos os ganhos da economia do petróleo na rápida evolução das políticas sociais, a começar pela educação.
É necessário perceber que o mercado não substitui a Nação, para que nossa juventude confie numa futura civilização brasileira e possa ser mobilizada em seus sentimentos patrióticos e de identidade nacional. Sei que o simples alistamento militar (Tiro de Guerra) não substitui o profissional operador de modernas tecnologias, porém o Serviço Militar obrigatório deve ser restaurado, pois é um momento privilegiado de percepção da existência da Pátria.
Finalmente, ressalto que é necessário repudiar qualquer sugestão de utilizar as Forças Armadas como instituições policiais internas, por múltiplas razões. Quero destacar que, à exceção da Convenção de Genebra, as Forças Armadas não podem ser limitadas em suas ações, ao passo que a polícia deve partir do bom comportamento do cidadão e, se dele suspeitar, respeitar regras definidas. Uma maneira de destruir a capacidade das Forças Armadas é desperdiçá-la no combate a qualquer desvio comportamental civil interno.
Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa, professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ, foi presidente do BNDES. Escreve mensalmente às quartas-feiras.

Solução final

Solução final
Dora Kramer - O Estado de S. Paulo - 15/09/2010
A alternância está fora dos planos de poder do cidadão Luiz Inácio da Silva, atual e em breve ex-presidente da República Federativa do Brasil.
Há muito isso é uma suspeita, mas a partir desta campanha eleitoral tornou-se mera constatação. Inebriado pelo sucesso, Lula deixa à mostra sua grande fera: a obsessão pela unanimidade que se traduz em vocação para o totalitarismo.
Quem diz isso é o próprio Lula. Quando prega a destruição de um partido de oposição, como fez em relação ao DEM em cima de um palanque em Santa Catarina, e quando manda sua tropa investir forças na eleição de um Senado "mais amigo" para a possível sucessora, Dilma Rousseff.
Lula pretende que o eleitorado "extirpe" o DEM da política brasileira porque o partido fez oposição cerrada a ele. Note-se que não fala em derrota eleitoral nem política, mas em extinção, destruição, aniquilamento.
Quer dizer, assim como imprensa boa é imprensa inerte, na visão dele oposição boa é oposição morta.
Quanto ao Senado, note-se que o presidente não deseja para o País um Parlamento de melhor qualidade, mas um Poder Legislativo mais dócil ao Poder Executivo. A falta de preocupação com a qualificação de cada um ficou patente quando da prisão do candidato ao Senado pelo Amapá, Waldez de Góes, no dia seguinte ao presidente ter aparecido no horário eleitoral pedindo votos para ele.
Para que Lula necessita de um Senado "amigo", qual o projeto inovador, de fundamental importância que seu grupo político está pensando em apresentar ao Congresso que é repudiado pela oposição, que esteja acima de qualquer possibilidade de negociação política e, portanto, que precise de um batalhão de obedientes?
Especula-se que sem entraves na Casa revisora teria caminho livre para aprovar plebiscitos e alterações na Constituição que de outro modo não passariam, mas de concreto ninguém sabe de coisa alguma e de objetivo nada que seja benéfico para o conjunto da sociedade está fora do alcance da articulação política entre a base do governo e a oposição.
Sobram duas hipóteses: ou está sendo engendrado algo inegociável e que teria o repúdio da opinião pública, ou Lula quer construir uma maioria política acachapante para o deleite de exercitar a hegemonia de maneira absoluta, sem nunca mais precisar disputar coisa alguma de verdade, podendo entrar nas contendas com a parada ganha por antecipação.
De certo modo isso já mais ou menos acontece porque, se o detentor do poder não respeita a regra do jogo, tem dupla vantagem: os instrumentos e a falta de escrúpulos. E é exatamente assim que Lula se conduz na Presidência, usando a máquina e passando por cima da lei.
Nesse patamar de autoencantamento o risco é a pessoa perder de vez o senso de que o mundo não obedece a ordens dos homens e comece a atuar na lógica da insensatez, construindo um processo de dilapidação do próprio patrimônio.
Lula está no ápice e ficará no ápice e meio se conseguir eleger no primeiro turno uma pessoa sobre a qual pouquíssimo se sabe e sobre quem há mais referências negativas que positivas.
Significará que nem o céu é o limite.
Ocorre, porém, conforme a História nos conta, que ninguém pode tudo acima de tudo o tempo todo e o excesso dá expediente na antessala dos erros fatais.
Por um fio. Basta uma vírgula a mais no caso da ministra da Casa Civil que abria o governo aos negócios da família, para Erenice Guerra ser demitida ou pedir demissão do cargo.
Mineiro. Correligionários de Aécio Neves mostram pesquisas para argumentar que não teria efeito prático a exibição de José Serra na propaganda do ex-governador.
Da mesma forma, as pesquisas provavam que Aécio ajudaria muito mais sendo candidato ao Senado do que integrando a chapa presidencial.
Pesquisas do Instituto Vox Populi, que trabalha para os dois palácios: do Planalto e da Liberdade.

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