quarta-feira, setembro 29, 2010
O tom do recado
O tom do recado
Miriam Leitão - O Globo - 29/09/2010
A pergunta feita a um empresário, numa conversa com várias pessoas, foi: “É verdade que emissários do PT telefonam para empresas avisando que sabem quem não está fazendo doações para a campanha?” O empresário respondeu: “Para mim, telefonaram e foram pessoalmente dizer que notaram que eu não tinha feito doação na última eleição nem tinha feito ainda nesta.”
Eu ouvi essa conversa estarrecedora.
Esse tipo de encaminhamento do pedido de doação, se estiver generalizado, é uma forma de ameaça.
A frase: “Notamos que você não fez doação na última eleição e ainda não fez nesta” pode ser entendida pelo que está embutido: estamos de olho em você.
O Estado, hoje, é quem concede a maioria do crédito; o BNDES aumentou de forma extravagante suas concessões de empréstimo subsidiado e a arbitrariedade de suas escolhas dos “campeões”, que o faz negar créditos a alguns e conceder em excesso a outros que, na visão do banco, estão mais aptos a vencer a competição global. A mistura é explosiva: de um lado, um Estado com poder de vida e morte sobre as empresas; de outro, emissários do partido do governo com uma ameaça embutida na formulação do pedido.
Hoje, um dos grandes riscos que a sociedade brasileira corre é exatamente esse poder excessivo do Estado, controlado como donataria pelo partido do governo. O Estado é o grande comprador, o grande financiador, o grande sócio em qualquer empreendimento. Como ficar contra ele? Por outro lado: ficando a favor dele, que grandes vantagens se pode ter! Os empresários só falam mal do governo se seus nomes não aparecerem; todos eles estão sendo beneficiados por alguma grande obra, algum grande contrato, alguma licença; ou sonham ser beneficiados no futuro.
Um dos maiores empresários do país foi chamado para uma conversa cheia de ameaças indiretas por ele ter feito declarações contra uma das polêmicas obras que promete ser sorvedouro de dinheiro público.
O governo cooptou movimentos sociais, sindicalistas, parte do movimento cultural, através da distribuição de benesses, patrocínios, contratos e financiamentos.
Mas a cooptação dos empresários é mais direta.
Algumas empresas não têm capacidade alguma de bancar os empréstimos que recebem, ou outras são viabilizadas por aderirem aos grandes projetos em que todo o risco é público.
Nas sombras de um Estado gigante, tudo viceja, como os intermediários de negócios, mesmo que eles não tenham delegação para entregar o que prometem. Com um Estado todo poderoso, qualquer espertalhão pode dizer que é a ligação direta com quem decide e pedir uma comissão para isso.
Mesmo que não houvesse casos de corrupção, comprovadamente ligados ao governo, ainda assim, seria o ambiente certo para a propagação dos casos nebulosos de pedidos de propina.
A redução do tamanho do Estado faz esse favor ao país: diminui os guichês nos quais se oferecem favores com dinheiro público e se pedem em troca comissões para enriquecimento pessoal ou para o partido que está no poder. A privatização tirou do Estado um sem número de cargos de distribuição política em empresas siderúrgicas, concessionárias de serviços de energia e de telefonia.
As empresas que o país decidiu manter estatais deveriam ser isoladas das pressões políticas e concederem mais acesso às suas contas e aos critérios de decisão.
Essa seria uma forma de reduzir o risco que o contribuinte e o consumidor dos serviços correm hoje com problemas como os dos Correios.
Já houve tantos casos nebulosos nos Correios no governo Lula — dos indicados do ex-aliado Roberto Jefferson até os indicados da ex-primeira-amiga Erenice Guerra — que não resta dúvida a esta altura: a melhor forma de produzir um colapso postal no país é continuar entregando os cargos de direção da estatal na mão dos políticos e seus afilhados e evitar a administração profissional da empresa. É um espanto que se consiga em tão pouco tempo provocar tanto extravio numa empresa centenária e que sempre teve reputação de eficiência.
Há quem considere que a melhor forma de evitar constrangimentos como o vivido pelo empresário que cito no começo dessa coluna é o financiamento público exclusivo de campanha. Como ser ingênuo a ponto de achar que, se o Estado der ainda mais dinheiro para os partidos, os que estão hoje viciados em caixa dois fecharão o balcão de pedidos impróprios aos empresários? O que ajuda a resolver o problema é, como tenho escrito aqui, a trindade: punição, fiscalização, transparência.
Nada é panaceia contra a corrupção, mas há formas de reduzi-la e outras de aumentá-la. O gigantismo do Estado é o caminho mais curto para aumentar a corrupção.
Quando ele se torna o parceiro inevitável em qualquer negócio, tudo pode acontecer.
Quando seu poder é usado para amedrontar as empresas, qualquer doação para campanhas políticas pode ser extorquida. E o que houve nos últimos anos no Brasil foi o crescimento descomunal do Estado, primeiro, à sombra do Plano de Aceleração do Crescimento e, depois, sob o pretexto de que era preciso evitar a crise econômica mundial. Conter esse gigantismo é fundamental hoje, não apenas por razões econômicas, mas para melhorar a qualidade da democracia brasileira.
PF reforça ação contra crimes
PF reforça ação contra crimes
Correio Braziliense
O crescimento assustador dos crimes eleitorais obrigou a Polícia Federal (PF) a enviar um grande efetivo para o Rio Grande do Norte.
Cerca de 100 agentes do Distrito Federal (DF) e de outros estados vão fiscalizar várias cidades potiguares, consideradas áreas com histórico de compra de votos.
Além de homens, a PF poderá deslocar um helicóptero de Brasília para Natal a fim de ajudar no deslocamento rápido dos policiais.
Ontem, alguns estados começaram a proibir saques superiores a R$ 10 mil para evitar o uso indevido do dinheiro durante a eleição do próximo domingo.
Segundo a PF, em número de crimes eleitorais, o Rio Grande do Norte ocupa hoje a quarta colocação entre todos os estados brasileiros e o DF, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais. De acordo com o superintendente da corporação em Natal,Marcelo Morese, além do aumento do efetivo, que foi pedido pelo procurador regional eleitoral Ronaldo Pinheiro, a própria PF viu a necessidade de requisitar mais policiais.
Não está descartada a hipótese de emprego de um helicóptero para dar maior mobilidade de atuação, afirmou Morese.
As atenções da PF têm sido centralizadas principalmente no Nordeste e no Norte do país. Segundo o superintendente da corporação no Rio Grande do Norte, se for necessário, será requisitado um novo contingente de policiais.
Também é possível que ocorra o retorno do jato da Polícia Federal que está se deslocando de Brasília para a capital ou para o interior com mais reforço.
Tudo vai depender do desenrolar da operação que ora se inicia, explicou o chefe da instituição no estado.
No Norte, ontem, a PF fez nova apreensão de dinheiro. O vereador Siríaco Silva Gomes foi detido com R$ 88 mil quando esperava um barco para Amaturá, a 910 quilômetros da capital amazonense, onde preside a Câmara Municipal. Aos agentes ele afirmou que os recursos seriam usados na folha de pagamento da instituição que dirige. Foi uma denúncia anônima e, como estamos às vésperas de uma eleição, é necessária uma investigação sobre o destino desse dinheiro, ainda mais com notas de menor valor, disse o delegado Roberto Câmara.
Segundo a PF, os salários dos servidores do Legislativo de Amaturá não chegam a R$ 30 mil.
Além do dinheiro, foram encontrados carteiras de identidade, uma relação com nomes de pessoas e valores relacionados, e material de campanha.
Desde a semana passada, a PF vem realizando operações para combater os crimes eleitorais, principalmente a compra de votos.
Além disso, a corporação quer rastrear o uso de recursos de campanha pelos candidatos em regiões onde foram registradas grandes movimentações. Assim, pode ser possível constatar se há crimes de lavagem de dinheiro.
Segundo o Ministério da Justiça, esse tipo de delito pode ser notado nos pagamentos de material de campanha, em aluguéis de veículos, entre outros meios de burlar o uso de dinheiro sem origem declarada.Em todos os estados, agentes trabalham de forma ostensiva e disfarçados para poder chegar aos criminosos
Por que os escândalos não tiram Dilma do topo
Por que os escândalos não tiram Dilma do topo
José Nêumanne - O Estado de S. Paulo - 29/09/10
Causa perplexidade geral ter a chefe da Casa Civil da Presidência da República sido demitida na reta final da campanha eleitoral sem que isso haja produzido a consequência natural de um escândalo dessas proporções na popularidade do presidente, que a nomeou, nem feito cair do topo da preferência eleitoral sua candidata, que a patrocinou. A falta de proporção de causa e efeito em episódio dessa relevância não se deve apenas à credulidade popular, capaz de aceitar que Lula não assuma a responsabilidade dos atos de sua principal assessora e que Dilma Rousseff se exima de culpa pela ascensão de uma funcionária incapaz de subir na vida por méritos próprios, que ninguém imagina quais possam ser.
É o caso de buscar outras razões para a baixa interferência na preferência do eleitor de notícias de recebimento de propinas ("taxas de sucesso") pelo filho de Erenice Guerra em gabinete a poucos metros do de Dilma, no Palácio do Planalto, onde o chefão dá expediente. Será o caso de admitir que o pleito de 2010 esteja decidido há muito tempo e que será quase impossível mudar tais desígnios? Afinal, a gravidade das acusações que emergiram contra o clã Guerra, que não teriam como não macular a imagem da favorita, supera, com larga vantagem, a das que derrubaram Richard Nixon nos Estados Unidos e Fernando Collor no Brasil e levaram à prisão José Roberto Arruda, que ainda provocou o naufrágio de seu partido, o DEM, da aliança de oposição.
Se assim for, isso se deverá à percepção de Luiz Inácio Lula da Silva sobre a realidade social e o panorama eleitoral no Brasil real, que domina. Ele mesmo foi a primeira vítima de uma avalanche que, em 1989, se identificou nos dois eles de Collor em verde e amarelo e inverteu as ancestrais relações de hierarquia da política nacional, ao promover aquilo que o último coronel mineiro, Chichico Cambraia, definiu como "estouro da boiada": ao votar no "caçador de marajás", o rebanho pulou cerca e porteira do curral e, para não perdê-lo de vista, os "pastores" saíram correndo atrás. Nesta e em mais duas eleições seguidas perdidas depois, Lula aprendeu que é quase impossível ser eleito presidente da República brasileira sem alianças de peso. E, se extraordinariamente isso ocorrer, nunca será possível governar sem a adesão de grupos poderosos que mandam desde antanho e para sempre nos hoje repovoados currais de votos. Prova-o a defenestração de um dos raros que realizaram a proeza: Collor tentou presidir sem o Congresso, que logo reagiu depondo-o.
Tendo participado da derrubada do adversário que o derrotara, o presidente foi aprendendo ao longo dos anos que ganhar e governar um país deste tamanho exige partilha do butim. Tentou, antes, sem sair da própria esquerda, ao atrair Leonel Brizola para sua chapa, mas deu com os burros n"água. Aceitou, em 2002, por sugestão de José Dirceu, aliar-se a gatos gulosos do PMDB que traíram Serra, cuja vice, Rita Camata, era do partido. Depois, em nome da "governabilidade", loteou o governo para não ser mais um a ganhar e não levar. Como o Fausto da lenda, vendeu a alma aos diabos que antes exorcizava e se deu muito bem. Foi aí que aprendeu a vencer a disputa eleitoral de baixo para cima: abrigou no ninho do poder lideranças locais, prefeitos municipais, deputados estaduais e federais, senadores e governadores. Aí, quando resolveu lançar o "poste" Dilma por achar mais fácil manipulá-la do que se desgastar na luta pelo terceiro mandato, já tinha as bases todas sob controle.
Muita gente boa percebeu a jogada genial do uso eleitoral da Bolsa-Família. Mas nem todos enxergaram o simultâneo fechamento de cofres que irrigam as campanhas políticas com os recursos necessários, favorecendo de banqueiros a empreiteiros de obras públicas, que passaram a ter nele o novo Messias. E ninguém observou que ele tirou do caminho para o palanque adversários que incomodavam. Foram os casos de Cássio Cunha Lima, o tucano da Paraíba, e Jackson Lago, o pedetista do Maranhão, que perderam seu mandato, condenados por crime similar ao de que foi acusado o petista Marcelo Déda, governador de Sergipe, que, no poder, é favorito na disputa por sua sucessão.
Ao contrário de Lula, seu principal adversário, José Serra, não deu sinais de ter aprendido as lições da derrota de 2002. Ao se negar a disputar a indicação em prévias, como pretendia o ex-governador mineiro Aécio Neves, deu-lhe a justificativa de que este precisava para ficar fora da ingrata rinha presidencial. A não insistir com o partido e o próprio Aécio para formar chapa com este, deu outra mostra de que pretendia alcançar o inalcançável: ganhar a disputa pela Presidência sem dever favores. Ao manter fora da campanha um tucano que vencera duas vezes a eleição federal sem disputar segundo turno, Fernando Henrique, emitiu, a quem fosse capaz de entender, o sinal de que não se dispunha a buscar ajuda nem mesmo do próprio passado, e o renegou.
Dilma, cujo currículo desautorizava a aventura de disputar contra um político bafejado pela vitória nas urnas nos maiores município e Estado do País, contou com a ajuda esperada, embora absurda, do adversário. Onze entre dez interlocutores alertaram Serra de que a chave para sua vitória seria manter o presidente popular fora da campanha. Mas ele expôs o retrato de Lula em seu primeiro programa de propaganda na TV e apelidou-se de Zé chamando-o de Silva (de quem terá sido a ideia tola?) no primeiro jingle para rádio. Fez ainda aos adversários o favor de deixar que o atrapalhado presidente nacional de seu partido, Sérgio Guerra (PE), pedisse a impugnação da adversária porque a Receita havia quebrado o sigilo fiscal da filha Verônica.
A possibilidade, aventada pelo Datafolha, do segundo turno pode abalar a empáfia palaciana, mas em nada alterará os fundamentos das evidências citadas. A experiência de 2006 deve ter ensinado aos tucanos que provocar o segundo turno é uma coisa. Mas vencê-lo é outra!
Marina fala em 'Silva contra a Rousseff'
Marina fala em 'Silva contra a Rousseff'
Verde acentua críticas a petistas e tucanos e volta a dizer que estará no 2º turno: 'O Brasil vai ter uma surpresa'
Miguel Caballero – O Globo - Enviado especial
JUIZ DE FORA (MG). Animada com as pesquisas que demonstram seu crescimento na conquista de eleitores, a candidata do PV à Presidência, Marina Silva, acentuou as críticas contra petistas e tucanos — postura recente que deverá manter no debate na Rede Globo, amanhã — e elegeu uma nova palavra de ordem, pedindo o confronto “Silva contra a Rousseff” no segundo turno. E voltou a afirmar que já conquistou a preferência de mais eleitores do que mostram as pesquisas.
Em encontro com evangélicos do Conselho de Pastores de Juiz de Fora (MG), no início da noite de ontem, ela disse que as pesquisas subestimam seu crescimento e afirmou não ter dúvidas de que estará no 2º turno: — As pesquisas estão indicando tendência de alta, mas o que eu encontro nas ruas é muito maior do que aparece nas pesquisas. Elas não estão conseguindo alcançar a mobilização que existe nas ruas do país. No dia 3 de outubro, o Brasil vai ter uma grande surpresa, porque aí não será mais possível não alcançar aquilo que os brasileiros democraticamente depositaram na urna — afirmou a candidata, para em seguida listar três capitais e um estado em que, segundo ela, a ultrapassagem sobre o tucano José Serra (PSDB) já se confirmaria em números.
— No Rio de Janeiro, já estamos em segundo lugar. Na cidade do Rio, em Brasília, em Salvador e no estado do Amazonas, também estamos em segundo.
Pelo que vi no Pará, pela manhã, não vai ser diferente.
Tem uma onda verde no Brasil se agigantando — disse.
Na entrevista em um hotel de Juiz de Fora, Marina usou três vezes a expressão “Silva contra Rousseff”, cunhada por ela mesma horas mais cedo, em Belém. Ela, porém, negou que a frase seja uma tática para se aproximar da popularidade do presidente Lula, que tem o mesmo sobrenome.
— Não formulei dessa forma.
O que eu disse é que no segundo turno as pessoas conhecerão melhor as propostas e poderão decidir democraticamente entre a Silva e a Rousseff. Sinto que a sociedade brasileira está preparada para ter uma mulher na Presidência.
Depois de conversar com jornalistas, Marina falou para uma plateia formada por pastores e fiéis de diversas igrejas evangélicas.
Participou de uma oração comandada por um pastor e, após iniciar seu discurso lembrando que é “cristã evangélica da Assembleia de Deus”, afirmou que “somos um Estado laico” e prometeu “governar para todos os brasileiros”.
Precisando tirar votos de Dilma, para garantir a realização de um segundo turno, e de Serra, para chegar até ele, Marina voltou a criticar o PT e o PSDB.
Afirmou ter certeza de que há pessoas insatisfeitas dentro dos dois partidos. No PT, por conta do “vale-tudo eleitoral e das alianças incoerentes”, e no PSDB, “pelo promessômetro” de final de campanha. Hoje e amanhã, Marina ficará em São Paulo se preparando para o debate da Globo, a última vez em que estará frente a frente com os adversários.
Dilma apela à militância Petista cai no Datafolha, e aumenta a possibilidade de haver segundo turno
Dilma apela à militância
Petista cai no Datafolha, e aumenta a possibilidade de haver segundo turno
Gerson Camarotti – O Globo - BRASÍLIA
Diante da crescente possibilidade de a disputa presidencial ser decidida no segundo turno, como indica a pesquisa do Datafolha divulgada ontem, a candidata do PT, Dilma Rousseff, e seu partido apelaram ontem aos militantes para não esmorecer e ir às ruas pedir votos. Pela pesquisa, Dilma, que tinha 54% dos votos válidos na sondagem anterior, caiu para 51%. Como a margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos, ela poderia estar com 49%, o que forçaria a realização de um segundo turno. Para ganhar neste domingo, Dilma precisa ter 50% dos votos válidos mais um. A petista perdeu votos em todas as regiões e segmentos do eleitorado.
Em duas semanas, desde o início do escândalo de tráfico de influência que derrubou Erenice Guerra do comando da Casa Civil, a diferença entre Dilma e os demais candidatos caiu 12 pontos, considerando-se apenas os votos válidos. A diferença entre ela e a soma de todos os adversários caiu para dois pontos, o que está dentro da margem de erro. Por isso, não é possível afirmar hoje se haverá ou não segundo turno.
Logo de manhã, durante um corpo a corpo na rodoviária central de Brasília, Dilma foi cautelosa sobre a possibilidade de vencer no primeiro turno. Afirmou que é impossível dizer se a eleição terminará domingo ou em 31 de outubro: — Queria fazer um apelo à minha militância para não esmorecer, ir para a rua e disputar voto a voto. Peço três coisas. Primeiro, serenidade, porque a gente está no rumo certo, ninguém precisa perder o rumo nem o prumo. Temos que continuar tendo uma atitude serena diante de todo esse processo eleitoral e manter o nível, não brigar, não ter baixaria. A segunda é determinação de buscar o voto e não achar jamais que a gente resolve as coisas antes da hora. E tem uma terceira coisa muito importante: ter no coração amor pelo Brasil.
Dilma: ‘Não pode subir no salto’
Na mesma estratégia, o presidente do PT, José Eduardo Dutra, divulgou carta conclamando a militância petista a ir às ruas para assegurar a vitória em 3 de outubro. “É a nossa militância que vai fazer a diferença na reta final. Vamos para as ruas, vamos para decidir. Vamos fazer História mais uma vez”, escreveu Dutra.
Perguntada por uma repórter se preferia disputar o segundo turno com o tucano José Serra ou a verde Marina Silva, Dilma afirmou: — Minha querida, só se for completamente louca respondo a uma pergunta dessas.
Durante a rápida entrevista, a petista evitou fazer previsões: — Qualquer um de nós vai ter que esperar a urna (ser) fechada, ter respeito pelo eleitor, contar os votos e discutir daqui para a frente.
Mesmo assim, Dilma minimizou o resultado da pesquisa Datafolha.
Lembrou que, até domingo, haverá pesquisas diariamente, com “subidas” e “descidas” nos números: — Nunca comentei pesquisa, nem para cima, nem para baixo. Vai ter pesquisa quarta, quinta, sexta e sábado.
E vai ter um grande encontro com a democracia no domingo. Vocês não gastem todas as emoções hoje — ironizou Dilma. — Estamos no momento da eleição em que é normal que haja subidas e descidas.
Dilma afirmou que está preparada para ser o principal alvo dos demais candidatos no debate da TV Globo, amanhã, e disse que manterá o tom de propostas. Após o evento de rua, acompanhada do candidato do PT ao governo do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, ela gravou sua participação para o último programa de TV do horário eleitoral gratuito e se preparou para o debate na Globo.
Mais uma obra
Nas Entrelinhas
Mais uma obra
Alon Feuerwerker – Correio Braziliense
Foi o presidente da República quem introduziu a polêmica sobre liberdade de imprensa neste desfecho de primeiro turno. Luiz Inácio Lula da Silva explodiu contra a mídia num comício em Campinas (SP).Depois aparentemente acalmou-se e procurou acalmar os companheiros, noutro comício em Porto Alegre (RS).
A discussão sobre a liberdade de imprensa matou aquela mais complicada, sobre corrupção na Casa Civil.Mas Lula teve algum azar (coisa rara). Avaliou mal a reação que viria. E em seguida ao desconforto causado pelo discurso agressivo contra a mídia veio a censura já derrubada que a Justiça de Tocantins impôs à divulgação das acusações contra o governador do estado, candidato à reeleição apoiado pelo PT.
Houve também uma manifestação de entidades favoráveis às teses do Lula de Campinas, e outra de gente que rechaçou essa linha presidencial. Aconteceu ainda um debate no Clube Militar, com a participação de jornalistas críticos do governo. Agora vem a público, a favor de Lula,um manifesto de advogados.
Nem consigo me lembrar da última vez que assisti a tamanha movimentação na assim chamada sociedade civil, expressão bem usada até a queda da ditadura e depois repaginada para atuar no impeachment de Fernando Collor. A palavra civil dava antigamente certo glamour à expressão, pela oposição semântica a militar.
Ainda que, conceitualmente, o alho nada tenha a ver com o bugalho. Como se notou no debate do Clube Militar.
Coma ascensão e a hegemonia do petismo, o termo sociedade civil caiu em desuso, substituído por movimentos sociais.
Pode-se dizer que os movimentos sociais são a sociedade civil do PT. Uma acusação feita sistematicamente ao partido é que ele gostaria de reduzir a segunda à primeira.
Nota-se um certo cansaço da sociedade civil com os movimentos sociais, que justa ou injustamente vão levando o rótulo de movimentos estatais. E, como o curso do rio não pode ser simplesmente interrompido, a multiplicidade característica de uma formação complexa como a brasileira encontra novos caminhos, novas formas de expressão.
Eis mais uma realização do governo Lula. Conseguiu, à custa de muita saliva, muita fé na luta política, muita agressividade verbal e muita exibição de poder (e de disposição de exercer o poder), reabilitar a expressão sociedade civil.
Em boa medida contra ele, Lula, o que é um fenômeno novo.
Por muito tempo, criticar o líder do PTera a senha para o sujeito ser apontado como elitista, preconceituoso, inimigo dos pobres e outras coisinhas mais.
A turma mais progressista preferia não se expor.
Esse tempo acabou.
Boxeando Tal como Rocky, o lutador, o Datafolha reagiu na reta final do primeiro turno e foi pioneiro ao apontar vazamento nas intenções de voto da candidata do PT,Dilma Rousseff.
Se a tendência for mesmo essa, especialmente se houver segundo turno, a corrida particular entre as empresas que fazem pesquisas eleitorais terá registrado nesta etapa um empate técnico.
Recapitulando. O Datafolha vinha de dois knockdowns (não confundir com knockout, o nocaute). Chegou atrasado à constatação de que Dilma tinha empatado com José Serra (PSDB). E chegou também com atraso à verificação de que a petista tinha disparado à frente.
Assim como para os candidatos, a disputa entre os institutos só acabará quando terminar. Diria Abelardo Barbosa, se vivo estivesse.
Aplaudido O candidato do PSol, Plínio Sampaio, arrancou surpreendentes aplausos domingo do auditório no debate presidencial da TV Record, quando defendeu, entre outras coisas, que o Irã deve ter o direito de construir sua bomba nuclear e que os Estado Unidos são uma ditadura feroz.
Foi mesmo bastante aplaudido. O que é sintomático de um estado de espírito, que entretanto prefere ficar na moita, escondido atrás de platitudes e generalidades.
Se não houver segundo turno, terá feito falta nesta campanha presidencial uma discussão mais detalhada sobre política externa. Entre outras.
Mudança de vento
Mudança de vento
Merval Pereira – O Globo
As atitudes erráticas do presidente Lula nesses últimos dias de campanha eleitoral denotam que os estrategistas da candidata Dilma Rousseff estão tentando digerir as informações contraditórias que chegam com as últimas pesquisas, mostrando uma perda contínua de votos em 15 dias. Ao mesmo tempo em que recuou nos seus ataques à imprensa em determinado momento, diante da constatação de que o clima de animosidade por ele deflagrado estava provocando reações negativas em setores da sociedade, o presidente retornou ao início da campanha, quando valorizar o passado de guerrilheira de Dilma era importante para garantir o apoio da esquerda do partido à neófita política escolhida para ser a “laranja” eleitoral de Lula.
Se os ataques aos meios de comunicação para tentar desqualificar as denúncias que provocaram a demissão da chefe do Gabinete Civil Erenice Guerra produziram inicialmente efeito negativo no eleitorado mais escolarizado e de maior renda, esse efeito hoje já se espalha por todos os setores da sociedade, segundo a mais recente pesquisa do Datafolha, demonstrando que as questões morais e a radicalização política afetam diretamente o setor do eleitorado mais preocupado com o equilíbrio institucional do país.
O elogio da radicalização política que Lula fez no comício de segunda-feira em São Paulo, exaltando o lado guerrilheiro de sua candidata, também incomoda essa classe média, especialmente a ascendente.
O objetivo imediato do presidente parece ser conter uma debandada de parte do eleitorado de esquerda que, desiludido com mais uma leva de escândalos envolvendo a gestão do PT, e mais uma vez no Gabinete Civil no Palácio do Planalto, estaria engrossando as fileiras da candidata verde Marina Silva.
É interessante constatar como a questão moral, que parece nunca atingir o presidente Lula diretamente, alcança inapelavelmente o PT nas últimas campanhas eleitorais.
Em 2006, quase que Lula não encontra ambiente político para se recandidatar por conta do mensalão. No auge do caso, em 2005, a popularidade do presidente caiu vertiginosamente, e as repercussões chegaram até a campanha no ano seguinte.
O caso dos “aloprados” veio apenas relembrar o escândalo do mensalão na reta final da campanha de 2006, provocando a ida da disputa para o segundo turno. Mais uma vez Lula recuperou-se do baque e conseguiu levar sua campanha a uma vitória vigorosa, ainda mais que o candidato tucano Geraldo Alckmin acabou tendo menos votos no segundo que no primeiro turno.
Agora, quando o marasmo da campanha eleitoral parecia levar a uma vitória tranquila no primeiro turno de Dilma Rousseff, dois novos escândalos trouxeram os debates políticos para um campo menos amorfo, fazendo com que setores da sociedade acordassem para o debate político. O presidente Lula escolheu a maneira errada de tentar desqualificar as denúncias contra Erenice Guerra, que pegam diretamente em Dilma Rousseff, sua protetora.
Ao levar para os palanques críticas aos meios de comunicação e garantir à população que as acusações eram mentirosas, Lula incentivou seus “aloprados” a desferir uma guerra contra a imprensa dita tradicional, e uma resposta imediata a favor da liberdade de expressão e da democracia foi articulada por representantes da sociedade civil do calibre de D. Paulo Evaristo Arns e Hélio Bicudo.
O manifesto, que protesta contra diversos indícios de autoritarismo do governo, inclusive a quebra de sigilos fiscais de pessoas ligadas ao candidato oposicionista José Serra, teve uma aceitação alta da sociedade e já tem mais de 50 mil assinaturas pela internet.
A confirmação, ontem, de que também o sigilo bancário do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas, foi quebrado no Banco do Brasil remete a métodos utilizados anteriormente por membros do governo contra o caseiro Francenildo Pereira, que teve seu sigilo bancário na Caixa Econômica violado a mando do presidente da instituição na ocasião, Jorge Matoso, para conseguir dados que, supunha, poderiam ajudar na defesa do então ministro da Fazenda Antonio Palocci.
O conjunto da obra é nada edificante para o PT e demonstra publicamente como o aparelhamento da máquina estatal por sindicalistas e filiados ao PT e a partidos aliados ao governo significa, na prática, muito mais que a simples ineficiência do Estado, uma ameaça para os cidadãos. É esse quadro que está mexendo com os votos do eleitorado, em todas as regiões do país e em todas as estruturas sociais.
A candidata oficial, Dilma Rousseff, ainda vence, mas está vendo sua vantagem sobre a soma dos dois outros concorrentes ser reduzida a cada dia nas últimas duas semanas.
Já está caracterizada uma tendência de queda de sua candidatura, ao mesmo tempo em que a candidata do Partido Verde, Marina Silva, tem uma ascensão na mesma proporção, começando a ganhar a simpatia dos indecisos e partindo para ganhar fatias do eleitorado que hoje está com Dilma.
Marina acredita que a onda verde seja forte o suficiente para levá-la para o segundo turno, superando o candidato tucano José Serra.
Para tanto, porém, terá que arrancar do eleitorado de Dilma os pontos necessários, o que a levará a atacar mais fortemente a candidata oficial no último debate, amanhã, na TV Globo.
A reta final de uma eleição que até agora é a mais modorrenta dos últimos tempos tem ingredientes para ser muito excitante.
A diferença de Dilma para Serra ainda é muito grande, mas a subida de Marina pode levar o tucano ao segundo turno, frustrando o eleitorado que a escolheu.
Parte desse grupo é de petistas desgostosos que podem, porém, retornar ao seio governista, como aconteceu em 2006.
Se realmente conseguir ir para o segundo turno nessas condições, Serra terá que fazer um amplo acordo com o Partido Verde para viabilizar a vitória.
Terá ainda a seu favor uma mudança de situação nos dois maiores colégios eleitorais, São Paulo e Minas.
Se, como tudo indica, a eleição para governador se resolver no primeiro turno a favor dos tucanos nos dois estados, a máquina governamental dos estados não terá constrangimentos para ajudar o candidato do PSDB, ao contrário do que acontece neste momento
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