quarta-feira, setembro 29, 2010

Lula é 'candidato' no Brasil, diz El Mundo

Lula é 'candidato' no Brasil, diz El Mundo
BBC – Brasil - Plantão | Publicada em 29/09/2010 às 09h29m
Jornal espanhol disse que Lula foi estrela no comício de Dilma
Uma reportagem da edição desta quarta-feira do jornal El Mundo afirma que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é "tão candidato quanto os demais" políticos que concorrem nas eleições brasileiras.
O texto é assinado pelo enviado especial do jornal ao Brasil, Luis Tejero, que acompanhou um comício da candidata apoiada por Lula, Dilma Rousseff, em São Paulo.
O jornal compara os candidatos nas eleições brasileiras a ciclistas, já que ambos costumam "carregar nas suas costas" os seus números de inscrição.
Segundo o jornalista, o único que não carrega nenhum número nas suas costas é Lula.
"A exceção que confirma a regra é Luiz Inácio Lula da Silva; não leva nas costas nenhum número, mas é mais candidato do que ninguém nestas eleições", escreve o jornal. "Pelo visto na campanha, parece que Lula se apresenta no lugar de Dilma."
O El Mundo destaca que foi o presidente, e não a ex-ministra, quem encerrou o último grande ato da esquerda antes do primeiro turno.
O jornal afirma que Lula é "o único capaz de inflamar os militantes após décadas de batalhas nas urnas".
O enviado especial do jornal assina também uma entrevista feita com o candidato a vice-presidente na chapa de José Serra (PSDB), Índio da Costa.
O candidato diz ao jornal que se inspira na democracia espanhola, enquanto o modelo de gestão seguido por Dilma seria o mesmo do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.
'New York Times'
As eleições brasileiras também foram tema de reportagem desta quarta-feira do jornal americano New York Times.
Em um texto intitulado "Uma Mulher Surge no Brasil" - assinado de Nova York - a jornalista Luisita Lopez Torregrosa diz que uma eventual vitória de Dilma seria "histórica".
"Subestimada no mundo majoritariamente masculino da política eleitoral brasileira, Rousseff decolou no ano passado", afirma o jornal.
"Uma vitória colocaria Rousseff em uma galeria de mulheres líderes na América Latina."
O jornal traça um perfil de outras políticas sul-americanas, como a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, a ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, e a filha do ex-presidente peruano Alberto Fujimori, Keiko Fujimori, que vem se destacando no país.
O jornal fala sobre a trajetória de Dilma - desde os tempos de guerrilheira até sua luta contra um linfoma - e cita o escândalo recente envolvendo a ex-ministra Erenice Guerra.
'Berliner Zeitung'
O jornal alemão Berliner Zeitung traz uma reportagem nesta quarta-feira sobre o crescimento econômico do Nordeste.
O repórter Wolfgang Kunath viajou para Quixadá, no Ceará, para visitar famílias cujos padrões de vida melhoraram ao longo dos últimos anos.
O jornalista destaca que o Nordeste não foi muito visitado por candidatos à Presidência na atual eleição, devido à alta popularidade de Lula na região.
"Na disputa eleitoral para a sucessão de Lula acontece algo que parece paradoxal à primeira vista: há várias semanas nenhum candidato é visto por aqui", diz o Berliner Zeitung.
"O candidato conservador José Serra não vem porque já perdeu o [voto do] Nordeste há muito tempo. E a candidata de Lula, Dilma Rousseff, continua longe, porque ela já ganhou no Nordeste há muito tempo."
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A laranja madura independente

M. Jacobsen para Charge Online


A chance de o STF manter a Ficha Limpa

A chance de o STF manter a Ficha Limpa
O Globo
No final da contagem regressiva para o primeiro turno das eleições, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem hoje a última chance, antes das urnas, de, em sessão plenária, encerrar como a sociedade espera a histórica tramitação do projeto da Lei da Ficha Limpa. Ou manter um indesejável clima de incerteza, por ter terminado num empate em cinco votos o julgamento do recurso impetrado pelo candidato Joaquim Roriz (PSC) contra a rejeição ao seu pedido de registro de candidatura ao governo de Brasília pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), enquadrado que foi como “ficha suja”.
Devido ao fato de Roriz ter renunciado à candidatura, diante da decisão da Corte de reconhecer a constitucionalidade da lei, e do risco que passara a correr, alguns argumentam que se arquive o processo, por “perda de objeto”. Será grave erro, pois a indefinição permanecerá sobre o futuro de dezenas de candidatos, à espera do próximo julgamento de um outro recurso contra a Ficha Limpa. Além disso, ao renunciar e ungir a mulher, Weslian, uma espécie de laranja eleitoral, Roriz se valeu da mesma manobra que executou em 2007 para se livrar da cassação no Senado. E foi por haver renunciado naquela ocasião que terminou condenado no TSE com base na Ficha Limpa. A malandragem vencerá o espírito da lei.
Como deixar em brancas nuvens um golpe de esperteza da baixa política idêntico, na essência, ao que gerou o processo encalhado no empate da semana passada? Mais ainda, como argumenta, com acerto, o ministro Ricardo Lewandowski, também presidente do TSE: se o Supremo decidiu que o processo de Roriz teria “repercussão geral” — ou seja, valeria para todos os demais recursos —, há mais um forte motivo para haver um desfecho hoje. Menos em função do populista Joaquim Roriz, mas principalmente pela necessidade de se definir o futuro de candidatos dependentes de uma decisão do Supremo. Que se esclareça hoje o destino destes políticos até em respeito ao eleitorado.
O ministro Cezar Peluzo agiu com sensatez ao deixar de acionar um dispositivo do regimento do STF pelo qual, em casos de empate, ele, como presidente do Supremo, poderia votar uma segunda vez. “Não tenho vocação para déspota”, declarou com apoio geral.
Há, porém, outra alternativa prevista pelo regimento, no artigo 146, adequado ao impasse criado pelo empate, devido à falta de um ministro, o 11o a ser indicado pelo presidente Lula — ou seu sucessor — para a vaga de Eros Grau, recém-aposentado. Estabelece o artigo que, nestas circunstâncias, “considerar-se a acute; julgada a questão proclamando-se a solução contrária à pretendida ou à proposta”. Ou seja, fica como decisão final o veredicto do TSE, contra o qual Joaquim Roriz recorreu ao STF. E assim a lei estará em vigor para estas eleições. Esta alternativa, a melhor de todas, já fora proposta pelo próprio Lewandowski, quando ocorreu o empate e Peluzo abriu mão do voto de Minerva. Não se trata de qualquer pirueta jurídica, mas uma saída sustentada no próprio regimento da Corte, protegida de qualquer crítica fundamentada.
Tribunais não devem mesmo decidir influenciados pelas ruas. Mas, neste caso, há uma feliz coincidência entre a voz das ruas e o conteúdo da Lei.

Balanço de campanhas

Balanço de campanhas
ARTUR XEXÉO – O Globo
O clima é de fim de festa. Ainda faltam dois dias para acabar o horário eleitoral, mas os candidatos já estão se despedindo, agradecendo ao eleitorado pelo “crescimento da campanha”, fazendo um balanço de suas trajetórias nas últimas semanas. E exibem jingles novos. Não é nada, não é nada, ainda dá tempo, em dois dias, de conquistar um ou outro voto.
O candidato do PSDB apareceu com uma versão muito particular do “Brasil pandeiro”: “Brasil, pra cuidar da nossa gente/ Vou de Serra presidente/ A gente só tem a ganhar/ Ô, ô, Brasil.” Agora, já dá para dizer: a turma do Serra não foi boa de jingle. Não emplacou um só durante toda a temporada da propaganda gratuita.
Dilma nos mostrou um sambinha de autoria da própria equipe: “Hoje eu tô mais feliz/ Melhorei de vida/ Hoje eu tô no batente/ Salário decente/ Posso viajar.” É animado.
Marina trouxe Adriana Calcanhotto para acompanhar ao violão o coro que cantava “Gente, gente, gente/Marina presidente.” Não sei, não, mas acho que a campanha da candidata do PV já teve momentos mais criativos.
Ontem, não houve acusações, baixarias, denúncias. Essa fase já passou. Na reta final, os programas do horário eleitoral se parecem com propaganda de margarina. Tudo azul! Com exceção dos partidos nanicos, é claro.
O PCO, o partido do candidato Rui Costa Pimenta, continua pregando a revolução e reclamando “contra a falta de democracia nas eleições”. O PSTU nem mostrou o candidato Zé Maria, mas prometeu a estatização do ensino (a campanha do partido para governador é mais leve). Em seu balanço, Ivan Pinheiro, do PCB, acredita que sua campanha foi “um contraponto ao consenso burguês”.
Mas a piada do dia veio de Eymael, aquele que se apresenta como “um democratacristão”. Ele botou um sorriso no rosto e afirmou, com a maior cara de pau: “Podemos virar esse jogo, chegar ao segundo turno e ganhar a eleição Programa com jeito de balanço, despedida da campanha, e qual é a primeira frase de José Serra? “Não tem como negar, a saúde hoje é o problema n° 1 no Brasil inteiro.” Serra só pensa naquilo.
Foi tanto tempo de horário eleitoral que o colunista está cada vez mais confundindo tudo. O Coronel Paúl — aquele do “Paúl neles!” — é candidato a deputado federal pelo DEM, e não a deputado estadual pelo PR, como saiu na coluna de ontem. Paúl no colunista!
Tem o Lico Tonelada, o Jorge Bombril, o Coronel Edson do Forte, o Marquinho do Turiaçu, a Benny Guerreira... vocês não querem que eu vote.
E-mail para esta coluna: Axexeo@oglobo.com.br

Tiago Recchia, para Gazeta do Povo


Entre mais instruídos, Dilma fica em 3º

Entre mais instruídos, Dilma fica em 3º
O GLOBO
Petista caiu em todas as regiões do país e, entre as mulheres, perdeu cinco pontos
SÃO PAULO. A queda dos índices de intenção de voto da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, registrada na pesquisa Datafolha, foi mais acentuada em algumas parcelas do eleitorado. Entre os que declaram ter curso superior, por exemplo, a petista perdeu dez pontos em duas semanas, caindo de 38% para 28%. Nessa faixa, ela está em terceiro, atrás do tucano José Serra, com 34%, e da verde Marina Silva, com 30%. Entre os que ganham de dois a cinco salários mínimos (cerca de 33% do eleitorado), Dilma perdeu sete pontos no período, passando de 49% para 42%.
No segmento do eleitorado que ganha acima de dez salários mínimos, a candidato do PT perdeu seis pontos em duas semanas, e hoje tem 30%. Está atrás de Serra que, nesse período, ganhou sete pontos e tem 41%. Marina cresceu sete pontos e passou de 19% para 26%.
Nessa última pesquisa, realizada segunda-feira, Dilma tem 46%, uma queda de três pontos em relação à sondagem anterior, semana passada. Serra se manteve estável com 28% e Marina subiu de 13% para 14%. O número de indecisos passou de 5% para 7% e os de que votam em branco ou nulo, de 3% para 4%. A diferença entre o índice de Dilma e o os demais candidatos somados (44%) é hoje de dois pontos. Considerando-se apenas os votos válidos (sem votos nulos, em branco e indecisos) é de 51% para 49%.
No Norte e no Cento-Oeste, a maior queda de Dilma por região
A pesquisa Datafolha ouviu 3.180 eleitores em 202 municípios, com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos. Está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o número 32.913/2010.
Dilma perdeu pontos em todas as regiões do país. Nas nas áreas metropolitanas foi registrada uma diminuição de quatro pontos da preferência do eleitor pela candidata petista. Por regiões, a maior queda de Dilma foi registrada no Norte e Centro-Oeste onde, em uma semana, Dilma perdeu seis pontos (50% para 44%), enquanto Serra cresceu um ponto (29% para 30%) e Marina mais do que dobrou seu índice, passando de 8% para 17%.
A candidata verde também teve um crescimento expressivo na Região Sudeste, subindo de 11% para 17%; Dilma perdeu três pontos (44% par 41%) e Serra perdeu um ponto (32% para 31%). Na Região Sul, Dilma está agora em situação de empate técnico com Serra. A petista caiu de 43% para 39%, enquanto Serra caiu um ponto e hoje tem 35%. Marina, que cresceu em todas as regiões, passou de 7% para 10%.
A queda de Dilma também é expressiva entre as mulheres (cinco pontos). Ela caiu também entre na parcela de eleitores entre 35 a e 59 anos (quatro pontos). Considerando o total de votos, cada ponto representa cerca de 1,38 milhão de eleitores.
Dilma chegou a ter 12 pontos percentuais a mais que a soma das intenções de voto de todos os candidatos, há duas semanas. A petista não havia sofrido qualquer abalo de popularidade por conta do escândalo do vazamento de sigilo fiscal de tucanos e de Verônica Serra, filha do candidato do PSDB. Pelo contrário. Chegou a subir um ponto naquela época. Mas, a partir do caso Erenice, a vantagem para os demais adversários somados acabou reduzida para dois pontos, no intervalo de duas semanas.
O Datafolha também simulou um confronto direto entre Dilma e Serra num eventual segundo turno. A vantagem da petista caiu três pontos nesse cenário, em relação à sondagem anterior, semana passada. Passou de 55% para 52% das intenções de votos, enquanto o tucano oscilou um ponto para cima, e alcançou 39%.
Dilma: 27% de rejeição, seu pior índice registrado no Datafolha
A petista também conheceu nesta pesquisa sua maior taxa de rejeição, desde o início das sondagens do Datafolha. Nos últimos cinco dias, o índice de eleitores que não votam em Dilma de jeito nenhum subiu três pontos percentuais, de 24% a 27%. No entanto, Serra continua sendo o candidato mais rejeitado pelos eleitores. O Datafolha registrou oscilação de 31% a para 32%. Marina permaneceu estável em 17%.
O Datafolha também verificou a intenção de voto espontânea (sem apresentação de nomes ao eleitor), na qual Dilma continua à frente, mas oscila negativamente dois pontos percentuais, de 39% para 37%. Já Serra ficou estável em 21%, e Marina ganhou dois pontos, passando de 9% para 11%.

Inexistente estatístico

Inexistente estatístico
Ruy Castro - FOLHA DE SÃO PAULO - 29/09/10
Ouço pelo rádio do táxi que falta ao IBGE ouvir 20% da população para completar o recenseamento. Ótimo. Como estou nesses 20% que ainda não foram ouvidos ou cheirados pelos recenseadores, talvez ainda tenha uma chance de ser incorporado à dita população, reforçando com isso meu senso de identidade.
O repórter fala de outras façanhas do IBGE: já foram recenseados 17 mil e quebrados de brasileiros com mais de cem anos; viajando de bote, caiaque e piroga, conseguiram levantar a população das mais remotas comunidades indígenas de Roraima; e, agora, já sabem não apenas o número de dentes na boca do brasileiro mas o de sisos sobreviventes.
Parabéns, parabéns. Mas o fato é que, ainda longe dos cem anos e morando no Leblon – que os recenseadores podem alcançar até de helicóptero, asa delta e windsurf –, continuo a ser ignorado pelo IBGE. E como eles têm certeza sobre o número de sisos restantes do brasileiro se ainda não contaram os meus?
Na verdade, já estou habituado. Desde que saí da casa de meus pais, no Flamengo, aos 19 anos, e fui morar sozinho – ou, casado, na condição de impoluto chefe de família –, nunca fui recenseado. Não é que não me lembre. Posso garantir que, nos últimos cinco censos, jamais um recenseador se apresentou a mim e perguntou sobre estado civil, renda familiar, preferência clubística ou número de pessoas em casa, incluindo os gatos.
Pelo menos, o fato de estar vivendo uma longa vida à margem das estatísticas não me tornou mais ectoplásmico ou menos brasileiro. Em 1970, o Brasil tinha 90 milhões em ação, e eu era um deles. A 31 de dezembro de 1999, 3 milhões de pessoas foram saudar em Copacabana a chegada do ano 2000, e eu estava lá. Hoje, sou um dos 3% de brasileiros que não usam celular. À falta do IBGE, tudo isso me leva a crer que eu sou eu.

Pastores, Bispos e Apóstolos!!! por Jasiel Botelho


A via sindical para o poder

A via sindical para o poder
Leôncio Martins Rodrigues - O Estado de S. Paulo - 29/09/10
"Eu sou torneiro mecânico e é a única coisa que eu sei fazer... Não tenho pretensões políticas; não sou filiado a partido político e tenho certeza de que jamais participaria da vida política porque eu não sirvo para político." Essas frases são de Lula e foram pronunciadas numa entrevista ao Programa Vox Populi, da TV Cultura, de maio de 1978, quando era ainda presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. O presidente estava sendo modesto na avaliação de sua capacidade para a política. Para a sorte de alguns e azar de outros, não voltou para a fábrica nem para o sindicato.
A trajetória de Lula não é incomum na história do sindicalismo mundial. Quando os sindicatos eram frágeis e frequentemente clandestinos, a atividade sindical era mais uma missão do que uma profissão, missão que poderia dar cadeia e perda do emprego. Mas, na maioria dos países capitalistas, os sindicatos transformaram-se em poderosas, ricas e complexas organizações de massa. Como uma das mais bem-sucedidas instituições das sociedades capitalistas, transformaram-se numa via de ascensão social e econômica e, em alguns casos, de ascensão política para seus dirigentes.
No Brasil, antes de Lula, outros sindicalistas haviam tentado entrar para a classe política. A maioria o fazia pela via do PTB ou do PCB, portanto, de um modo subordinado às chefias partidárias. O caso do PT inverteu o processo: foram os sindicalistas que criaram o partido. Apesar da presença de outros segmentos sociais que ajudaram a viabilizar o PT - como a ala progressista da Igreja Católica e da intelligentsia de esquerda -, os sindicalistas constituíram sempre a facção dominante do partido. Controlavam a Articulação, considerada de direita pela esquerda petista. Dessa facção, à qual Lula pertencia, saíram os principais dirigentes do PT para as diferentes instâncias da estrutura de poder: Presidência da República, Ministérios, governadores, prefeitos e os vários níveis do Poder Legislativo.
Tomemos como exemplo a Câmara dos Deputados. Refletindo o fortalecimento do sindicalismo e dos partidos de esquerda, a bancada sindical cresceu. Na legislatura de 1991-1995 (pelos dados do Diap) havia 25 ex-diretores de sindicatos no Congresso. Na legislatura seguinte, o número foi para 36. Passou em seguida para 44. Na legislatura que resultou da eleição de 2002 (primeira eleição de Lula) chegou a 74. Para o Senado da República, cinco sindicalistas foram eleitos, todos do PT. Pode-se, de outro ângulo, perceber a forte vinculação do PT e do PCdoB com a estrutura sindical no fato de metade dos deputados desses dois partidos ter sido de diretores de sindicatos (53.ª legislatura, 2007-2010).
Mas na eleição de 2006, contrariando a tendência até então observada, nenhum sindicalista foi eleito para o Senado. Para a Câmara o número caiu para 56: 41 eram do PT, seis do PCdoB e três do PDT. Os demais dividiram-se entre PPS, PV (dois cada), PMDB e PSB (um cada). Um dos fatores que explicam esse declínio da bancada sindical foi a queda da votação no PT. Na eleição anterior, 91 petistas tinham sido eleitos. O PT transformara-se no maior partido da Câmara. Contudo, na legislatura seguinte, o PMDB, com 89 deputados, ultrapassou o PT, que ficou com 83. Uma vez que o PMDB está longe de ser um partido de sindicalistas, seu crescimento, acompanhado do pequeno declínio do PT, provavelmente foi uma das razões da diminuição da bancada sindical.
A manutenção da estrutura corporativa, juntamente com o fim dos controles antes exercidos pelo Ministério do Trabalho, transformou a instituição sindical numa via de entrada "por cima" na classe política. Na 53.ª legislatura (eleição de 2006), quase a metade dos parlamentares do PT e do PCdoB que foram diretores sindicais começou a carreira política elegendo-se diretamente para a Câmara. Apenas cerca de um terço teve uma trajetória mais sofrida, começando pela vereança.
Em princípio, a considerar a denominação oficial dos sindicatos brasileiros, além de representantes do povo, todos os ex-sindicalistas seriam representantes dos "trabalhadores". O termo comumente leva a pensar no operário manual. Na década de 1960, a figura que mais comumente o representava era o João Ferrador, que trazia estampada em sua camisa a frase ameaçadora: "Hoje eu não tô bom."
Mas a composição social das classes assalariadas mudou. E também a do sindicalismo. Os sindicatos em que predominavam trabalhadores manuais do setor privado perderam força. Os sindicalistas na Câmara são em sua ampla maioria de classe média, não manuais, do setor público, em que se destacam professores e bancários. Quase 70% dos membros da bancada sindicalista têm curso superior completo.
Não seria possível analisar mais detidamente a influência desse "fator sindical" na política brasileira, mas avancemos sumariamente duas observações. De um lado, ele aumenta o peso político dos segmentos assalariados das classes médias sindicalizáveis, que no momento, em aliança com o PT, empreendem a colonização do aparelho de Estado. Pode, desse ângulo, ser entendido como um fator de democratização social relacionado a uma mudança na elite política e social e na popularização da classe dos políticos profissionais. De outro lado, uma vez que os ex-sindicalistas vêm das estruturas corporativas, num movimento de retroação, a bancada sindical tende a reforçar o peso das instituições, dos interesses e valores corporativos na sociedade brasileira. Ao fim e ao cabo, se todos os demais fatores permanecerem iguais, o fator sindical tende a enfraquecer a democracia representativa, que sempre convive mal com a política de massas e os impulsos populistas que nela despontam.
EX-PROFESSOR TITULAR DOS DEPARTAMENTOS DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP E DA UNICAMP, É AUTOR DE "DESTINO DO SINDICALISMO"

Meu pai - Ferreira Gullar

Meu pai
Ferreira Gullar

meu pai foi
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem

quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro
De Muitas Vozes (1999)

Grãos da Terra - "Ruma em Frente" e "Bendita Toada"

Marolinha vermelha

Marolinha vermelha
Marco Antonio Villa - FOLHA DE S. PAULO
Campanha sem ideologia é o que sempre quis o governo; caso ocorra segundo turno, o artifício deverá ter vida curta
A soberba faz mal a política. A eleição não está decidida. A onda vermelha, parece, não passou de uma marolinha.
A avidez dos apoiadores, que já estavam dividindo os cargos do futuro governo, foi contida. A comemoração da vitória, antes do apito final do juiz, pode explicar a violência dos ataques à liberdade de imprensa e à oposição em geral.
É importante para o país uma discussão de programas e propostas. Até o momento, a campanha ficou resumida ao protagonismo de Lula e às graves denúncias envolvendo ministros e aliados do governo. É preciso muito mais que isso.
Os debates entre os presidenciáveis foram inúteis. Viraram monólogos. O enfrentamento democrático entre candidatos acabou se transformando numa repetição enfadonha de promessas, recheadas de números, sem sentido algum.
Ninguém aguenta mais debates que não são debates, onde as grandes questões nacionais são ignoradas. Até os ataques aos adversários são mal elaborados. O cronômetro, indicando que o tempo para a resposta do candidato está terminando, é o melhor aliado do telespectador.
O desinteresse popular é evidente. A ausência de política empobreceu a eleição. A repetição das velhas fórmulas esgotou a paciência do eleitor.
A falsa euforia do corpo a corpo nas ruas, que serve simplesmente para obter imagens para a TV, é a melhor representação de uma campanha pobre de ideias e recheada de marketing vazio.
Para a estratégia do governo é essencial despolitizar a eleição. Transforma-la em um plebiscito. As diferenças políticas devem ser diluídas.
Daí que não causa estranheza a aliança oficial combinar o apoio do empresariado, com os beneficiados pelos programas assistencialistas e os dirigentes sindicais amarelos.
Nesse coquetel infernal deve ser acrescentado o apoio dos oligarcas estaduais. Barbalho, Sarney, Calheiros e Collor servem para obter votos nos burgos podres. Mas é o típico apoio envergonhado: nos grandes centros seriam hostilizados.
Uma campanha sem ideologia sempre foi o desejo do governo. Até este momento conseguiu o seu intento. Caso ocorra um segundo turno, o artifício deverá ter vida curta.
A polarização, com a apresentação de dois projetos para o país, é tudo o que Lula não quer. Os candidatos terão tempos iguais na televisão. E nos debates o confronto será inevitável.
A oposição vai ter um teste de fogo. Terá de apresentar um programa de governo. Mostrar unidade e combatividade. E realizar algo que tinha esquecido nos últimos tempos: fazer política.
Marco Antonio Villa é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar

Newton Silva, para O Jangadeiro Online


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