domingo, outubro 03, 2010
Entre a obrigação e a devoção
Entre a obrigação e a devoção
Maria Helena Rubinato de Sousa - Blog do Noblat
Sou grata ao presidente Fernando Henrique Cardoso por ele ter sabido escolher um time de primeira linha para dar ao Brasil o que nunca tivemos: o real, enfim uma moeda.
Acabar com a inflação indecente e cruel de tantos anos foi, depois das leis sociais de Getúlio Vargas, o melhor que nos aconteceu.
Sou grata a ele por ter escolhido um excelente ministério, formado por pessoas de qualidade. Sou grata a ele pelos celulares e telefones que hoje são arroz de festa na casa dos brasileiros. Sou grata a ele pela demonstração que deu ao passar a faixa ao Lula e pelo respeito ao processo democrático, coisa ainda rara entre nós. Pena que o PSDB não lhe tenha sido grato.
Assim como não posso deixar de ser grata aos militares por terem nos proporcionado a possibilidade de falar ao telefone entre os estados sem ter que marcar dia e hora... pegar o telefone e discar do Rio para São Paulo ou Recife assim como quem ligava do Centro para Copacabana, só quem experimentou o drama que eram as comunicações nas décadas anteriores, pode compreender.
Ou como deixar de ser grata ao governador Carlos Lacerda por ter resolvido o gravíssimo problema da falta d' água no Rio? Ou por ter ligado a Zona Norte à Zona Sul? Só quem viveu no Rio onde de dia faltava água e de noite luz e onde, para ir do Maracanã ao Leblon, era uma longa excursão, se solidarizará comigo.
Todos esses foram perfeitos governantes? Não, longe disso. Alguns até pelo contrário, como os militares ou Lacerda, francamente, que Deus os tenha em sua santa misericórdia.
Como em tudo mais, no comando da nação nem todos foram inteiramente maus, nem inteiramente bons. Todos fizeram algum bem e algum mal ao Brasil. Houve erros e acertos. Outro exemplo: a um grande democrata que nos governou, Juscelino, devemos Brasília. Pois é.
O presidente Lula, por sua vez, acertou ao manter a política econômica do governo anterior. Foi bem sucedido ao adotar os programas sociais que encontrou e vitaminá-los. Foi parte do que prometeu, e cumpriu. Mas, e as outras promessas? O tal país do futuro? Cadê?
Em seu governo camadas inteiras da sociedade brasileira, antes excluídas do mercado consumidor, passaram a ter acesso a bens de consumo como equipamentos eletrônicos, TVs de alta tecnologia, carros, viagens, etc.
Através da concessão de linhas de crédito e de programas sociais que ele só fez ampliar, mas não controlou, o governo Lula criou também uma ilusão coletiva de falsa prosperidade.
Com isso, a nova classe média, a quem falta o principal, educação, passou a acreditar que ascendeu socialmente. A casa pode não ter esgoto, a rua estar um caco, a escola não ensinar, o hospital, quando existe, não ter médicos, "mas eu posso entrar nas Casas Trololó e comprar uma TV de 42 polegadas e por isso amo o Lula!"...
O mais grave é que a nenhuma dessas pessoas, nessas condições, ocorre que, de uma maneira geral, sem saneamento básico, saúde e educação, sua vida não melhorou de forma substantiva.
A ninguém parece ocorrer, também, que um dia a conta disso tudo vai chegar. A verdadeira herança maldita que o Brasil vai receber é essa: o simulacro de prosperidade, sem lastro em um verdadeiro progresso.
Acresce que outro mal maior nos sucedeu: o presidente Lula está convencido que fez o Brasil. Ele se acha a oitava maravilha do mundo, acima do bem e do mal e portanto no direito de nos impingir o que quer. O país é dele e ele nomeia quem quer para tomar conta de seu feudo por breves instantes.
"Eu, ao eleger a presidenta Dilma"! Essa frase diz tudo. É quase um tratado do que é o Lula.
Não vai ser você, nem o Joaquim, nem o João. Quem vai eleger a Dilma vai ser ele. Melhor assim. Quando a conta chegar, e vai chegar, quem vai pagar é ele.
A foto do fim de festa, na Passarela Adoniran Barbosa, em São Paulo, no comício de domingo passado, mostra bem a nossa situação: os olhares, as poses, os pares a bailar e o povaréu lá em baixo, hipnotizado, encantado.
Primeiro a devoção, depois a obrigação, parece ser o lema dos três governos Lula. E que Deus proteja Michel Temer, são meus votos.
Democracia consolidada
Democracia consolidada
Merval Pereira - O GLOBO
O Brasil que vai às urnas hoje completou 25 anos de democracia, o mais longo período consecutivo na história política do país. Passou também, nesse período, por testes de consolidação democrática, com duas alternâncias de poder na presidência da República feitas com sucesso, como definido pelo cientista político americano Samuel Huntington, e tendo todos os atores relevantes da cena política aceitado a tese de que o único modelo possível para o país é a democracia, como os cientistas políticos Juan Liz e Alfred Stepan definem um país com democracia consolidada.
Como nossa experiência política é relativamente recente, esses testes foram ultrapassados não sem alguns percalços.
A primeira alternância de poder de um presidente eleito diretamente foi feita de maneira indireta, com o vice-presidente Itamar Franco assumindo o lugar do presidente impedido Fernando Collor, e passando a faixa para seu Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso.
E a aceitação da democracia como única escolha admissível, se por um lado é feita formalmente por todos os atores da cena política, volta e meia é posta em dúvida por tentativas de aprovação de leis autoritárias que colocam em risco a liberdade de expressão, um dos pilares da democracia.
Ou por abusos do poder político ou econômico, como no caso da quebra de sigilos fiscais e bancários de pessoas ligadas ao PSDB, uma conseqüência do aparelhamento do estado operado pelo governo petista.
O brasilianista Timothy J. Power, diretor do Centro Latino-Americano da Universidade de Oxford, na Inglaterra, em um trabalho publicado recentemente na Latin American Research Review, salienta que o país nesses 25 anos, conseguiu evitar “algumas das mais espetaculares doenças que afligem os países vizinhos, como crise financeira, colapso do sistema partidário, populismo, separatismo, e troca de presidentes por meios constitucionais dúbios”.
Para ele, o Brasil pós 1985 deve ser definido não pelo que ele é, mas o que ele “não é”. Deste ponto de vista, assim como o resultado eleitoral de hoje parece estar para ser decidido dentro da margem de erro dos institutos de pesquisa, também nossa jovem democracia caminha no fio da navalha, mostrando força em uma eleição nacional que caminha para ser mais uma grande festa cívica, mas que teve momentos em que flertou com a ilegalidade, a começar pelo próprio presidente da República que, na disposição de eleger sua candidata a qualquer custo, não hesitou em burlar a legislação eleitoral.
Entre tantos feitos “inaugurais” de que se gaba, ter sido multado várias vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral durante a campanha por abuso de poder político será certamente uma recordação negativa no seu currículo político, fato que a provável eleição de sua escolhida hoje no primeiro turno certamente tornará irrelevante para seus critérios pragmáticos, onde o que importa é a vitória.
Também a atuação do Supremo Tribunal Federal na indefinição de regras para a eleição, deixando num limbo os votos dos candidatos Ficha-Suja e mudando a regra de procedimentos eleitorais às vésperas de sua realização mostram bem as incertezas que ainda temos que transpor para termos uma democracia sem o risco de inseguranças jurídicas e políticas.
O Supremo viu-se ainda às voltas com o episódio nebuloso de um telefonema dado pelo candidato tucano José Serra ao ministro Gilmar Mendes, supostamente para tentar manter a exigência de dois documentos para votar, o que teoricamente porejudicaria os eleitores de Dilma Rousseff. Mendes, além de negar a conversa, retrucou insinuando que o ex-Ministro da Justiça Marcio Thomaz Bastos interferiu na votação.
O processo eleitoral, assim como já acontecera em 2006, foi pontuado por críticas a supostas tentativas de golpe, acusação de que o PT e o governo se utilizam com freqüência quando acuados por denúncias de corrupção que podem influir no ânimo do eleitorado.
Mas sempre que os limites da democracia são testados por setores mais radicais da cena política, a sociedade reage de maneira vigorosa e as coisas voltam ao lugar.
A reafirmação, por parte da candidata oficial e de seu patrono, da absoluta imprescindibilidade da liberdade de imprensa marca o compromisso com a democracia que prevalece nesses 25 anos.
Como ressalta Timothy J. Power em seu estudo, um dos mais importantes destaques da democracia brasileira hoje é a ausência absoluta de atores de importância que sejam contra o sistema, e talvez o mais emblemático acontecimento recente tenha sido a promoção pelo Clube Militar do Rio de Janeiro de um painel para discutir justamente o apoio à liberdade de imprensa.
Apesar desses avanços, ressalta Power, ainda persistem problemas que podem minar nossa democracia, como a enorme desigualdade social que somente com o Plano Real começou a ser combatida efetivamente, dando margem a que os programas assistencialistas aprofundados pelo governo Lula pudessem iniciar uma lenta reversão da pobreza absoluta.
O sucesso dessas políticas de transferência de rendas, seja através do Bolsa-Família, seja por outros programas sociais ou o aumento do salário-mínimo, criou uma nova classe média marcada mais pelo consumo de bens do que por uma efetiva mudança estrutural da sociedade brasileira, que ainda carece de uma revolução educacional que transforme essa mobilidade social em um fenômeno permanente e consolidado nas futuras gerações.
Timothy Power ressalta em seu trabalho que a democracia brasileira é mais política do que econômica, cultural ou social.
Desse ponto de vista, temos mecanismos que permitem “robusta contestação política e ampla participação, com eleições competitivas que permitem a alternância de poder”, além de presença de instrumentos legais e garantias constitucionais que permitem o funcionamento das instituições.
O importante não é que haja obrigatoriamente a alternância no poder, e sim que exista, apesar de constrangimentos já tratados aqui, a possibilidade dessa alternância, sem contestações.
Mundos paralelos
Mundos paralelos
Merval Pereira - O GLOBO
O debate da TV Globo foi tão modorrento quanto uma partida de final de campeonato em que o empate desse a vitória aos dois times, se isso fosse possível. Nenhum dos dois principais concorrentes quis arriscar as posições já conquistadas. O tucano José Serra está convencido de que irá para o segundo turno no vácuo do crescimento da candidata do Partido Verde, Marina Silva, enquanto a candidata petista, Dilma Rousseff, considera que a fatura será liquidada já no primeiro turno.
Dois mundos paralelos que no domingo se encontrarão com a realidade das urnas.
Por isso, os dois não se confrontaram.
Só quem precisava manter o espírito competitivo em busca de aumentar sua penetração no eleitorado era Marina, não em busca de um utópico segundo lugar que levasse ao turno final “duas mulheres”, mas atrás do maior índice possível para ter poder de barganha num eventual segundo turno entre Serra e Dilma.
Entre os assessores do Partido Verde, a conta que se faz é que qualquer resultado que dê a ela entre 15% e 20% de votos válidos terá sido uma vitória.
Marina, levando a disputa para o segundo turno, terá quebrado a lógica da disputa plebiscitária planejada pelo presidente Lula, que demonstrou nessa eleição ser um grande estrategista político, mesmo que tenha reforçado esse seu pendor com o abuso do poder político que o cargo lhe confere e a leniência que o Tribunal Superior Eleitoral admite.
O decorrer da campanha eleitoral demonstrou que ele estava absolutamente certo ao não querer uma segunda candidatura do campo governista, como pretendia o deputado federal Ciro Gomes do PSB.
Além de ter provado que não precisava de um reforço para vencer o candidato tucano, Lula ainda se livrou de uma boa dor de cabeça ao escantear Ciro, pois com um aliado desses não é preciso adversário para criar problemas.
O deputado cearense foi dispensado por Lula com requintes de crueldade e, tendo transferido seu título eleitoral para São Paulo, não pode se candidatar nem a deputado federal.
O plano de Lula só teria tido um êxito mais completo se Ciro se dispusesse a disputar uma vaga de deputado federal por São Paulo e fosse traído pelo petismo paulista, como fatalmente ocorreria.
O que não estava nos planos do estrategista Lula era a possibilidade de Marina Silva se lançar candidata com chances reais de se tornar um fator decisivo na definição da eleição.
Ela caminha para assumir esse papel, podendo levar a eleição para o segundo turno ou, mesmo que Dilma se eleja amanhã, comandando uma força política que não poderá ser menosprezada nas negociações de um futuro governo petista.
No último debate da TV Globo houve um detalhe adicional que refreou o ânimo dos dois principais contendores.
Assim como em todos os demais debates, quem faz a pergunta fica à mercê do adversário, pois o sistema prevê uma tréplica que dá ao perguntado a última palavra.
Essa seria a explicação técnica para que nem Serra nem Dilma tenham querido fazer perguntas diretas um ao outro em temas que pudessem criar problemas, como corrupção ou aborto. A palavra final ficaria sempre com o adversário, que teria assim condições de fixar sua posição diante do eleitorado.
Na vez em que Marina perguntou a Serra, ele ficou com a palavra final, quando a comparou a Dilma por causa do mensalão.
Paradoxalmente, o debate que mais permitiu aos candidatos falarem sobre temas específicos de governo, como segurança, habitação, transportes, superando assim a superficialidade dos debates acontecidos até aquele momento, foi o momento em que o eleitorado telespectador aguardava a confrontação dos dois mais votados.
Também Marina parece que esperava por esse ambiente mais tenso para tirar proveito dele, mostrando-se como a única que trata de programas sem se entregar aos factoides políticos.
Como, no entanto, nem Serra nem Dilma estavam dispostos a se enfrentar, o primeiro guardando energias para um segundo turno que considera certo, a segunda por se considerar já eleita no primeiro turno, Marina ficou meio deslocada.
Talvez tenha sido essa a razão para seu desempenho medíocre, surpreendida pela falta de agressividade dos seus adversários, ela que não tem o espírito agressivo ao fazer política.
Teve que partir para o ataque aos dois, a fim de roubar votos que aumentassem seu cacife eleitoral, e às vezes pareceu fora de tom.
Não houve escorregões dignos de nota, a não ser a confusão frasística de Dilma que trouxe à tona a lembrança das famosas contribuições não contabilizadas de Delúbio Soares no mensalão, provocando risos na plateia, e ninguém se sobressaiu no que foi o último embate da campanha eleitoral.
As posições ficaram congeladas, e domingo saberemos quem estava com a razão, se Dilma ou Serra.
O Supremo Tribunal Federal acabou tendo uma influência maléfica no processo eleitoral quando decidiu desqualificar o título eleitoral e ao não conseguir decidir sobre a lei da Ficha Limpa.
Depois de anos, suas excelências descobriram que falta uma fotografia no título eleitoral, o que podia propiciar que fosse usado por outra pessoa que não o titular.
Essa “descoberta” do Supremo leva a crer que muitos políticos foram eleitos irregularmente por causa da falta de uma fotografia no título eleitoral.
Ao mesmo tempo, mesmo preservando o espírito da lei que foi aprovada no Congresso com o apoio de todos os partidos políticos, inclusive o PT, e sancionada pelo presidente da República, o Supremo substituiu o Congresso na definição de que documento serve para coibir a fraude eleitoral, o que seria no mínimo desnecessário.
Já a não-decisão sobre a Ficha Limpa coloca no limbo milhões de votos, que poderão simplesmente ser anulados se a decisão final for a favor da aplicação imediata da lei, como, aliás, já decidiu o Tribunal Superior Eleitoral.
Para culminar a semana “horribilis” do Supremo, houve o caso do genro do Ministro Ayres Britto, que enquanto estiver à solta no mercado advocatício prejudica a atuação do sogro, um ministro que tem dado provas de integridade e espírito público.
sábado, outubro 02, 2010
Campanha eleitoral, o fim
Campanha eleitoral, o fim
Termina a campanha mais personalista, despolitizada e burra em um quarto de século de democracia
VINICIUS TORRES FREIRE - Folha de São Paulo
CHEGOU AO fim a campanha eleitoral mais vazia, burra, mesquinha, odienta e personalista desde que o país voltava à democracia, história que, com alguma boa vontade, pode se dizer que começou na eleição para governadores de 1982. Lula estava lá - era candidato ao governo de São Paulo. Foi então que o agora presidente de saída disse, num famoso debate, que não era nem marxista, nem comunista ou socialista, mas apenas um torneiro mecânico, sendo aplaudido pela plateia. Mais tarde, saber-se-ia que falava a verdade - Lula era apenas uma "metamorfose ambulante".
Lula perdeu a eleição para Franco Montoro (1916-1999), então no PMDB, um dos líderes do bloco que viria a ser o PSDB, no final dos anos 1980. Montoro nomeou José Serra seu secretário do Planejamento, na prática um premiê. Foi o primeiro cargo público de Serra. Foi quando Serra se lançou na política nacional e tornou-se, desde então, candidato eterno a ser ministro da Fazenda, posição que jamais ocupou, e aí começou seu sonho presidencial.
Quase 30 anos depois, Lula e Serra estão no centro do palco, embora de saída. Mas a política, quanta diferença...
Pouco antes de 1982, futuros petistas e tucanos ainda se misturavam no MDB, na frente contra a ditadura. Então se discutia seriamente se deveria ser formado um partido operário ou socialista ou se a "frente democrática popular" deveria continuar unida. A querela, basicamente paulista, resultou na formação do PT e na ala tucana do PMDB. Talvez hoje se lamente ou se repudie aquele tipo de debate, feito de ideias com prazo de validade vencido ao menos desde o início dos anos 1970. Mas passemos. Pelo menos havia ideias, alguma grandeza, projetos políticos coletivos, programas partidários e até alguma paixão admirável.
No entanto, o país está hoje muito melhor que nos anos 1980 ou 1990. Mas é possível que continue a melhorar tendo a política chegado a um nível ainda tão mais baixo?
A política partidária se degradou no Brasil, e perdeu importância no mundo dito "globalizado". Políticos se tornaram monstros que, em sua perfeição, existem apenas na teoria microeconômica, maximizadores do seu interesse, para dizê-lo de forma sarcástica. Grandes conversas fiadas ideológicas caíram em desuso. O melhor debate político se tornou a discussão de reformas modestas, localizadas, discutidas o quanto possível de modo racional e democrático, sem ambição maior.
Mas até essa política modesta desapareceu, nos partidos, ao menos, e o debate é ainda mais degradado que em outras democracias maiores, porém também na lama.
Serra nem se amolou de apresentar um programa, um grupo político, um grupo de pensadores. Dilma Rousseff tratou o programa de seu PT como um desses atestados inúteis de cartório. Serra renegou o governo FHC, e o PSDB se desfez. Lula desfez o PT para se fazer presidente e governar, e escolheu com um dedaço sua candidata. Mais do que nunca, a campanha presidencial foi feita de populismos e palanquismos municipais, personalismo, truques, pegadinhas e imagens. De concreto sobre o futuro do país, sabe-se que há um cada vez mais vago consenso econômico, já insuficiente para dar conta de futuros problemas, e que uma caixa-preta voluntarista tomará posse em janeiro.
vinit@uol.com.br
LIMITES ESTREITOS DA ÉTICA EVANGÉLICA BRASILEIRA
LIMITES ESTREITOS DA ÉTICA EVANGÉLICA BRASILEIRA
Antônio Carlos Costa - 01/10/2010
Há certos temas que são recorrentes na maior parte dos púlpitos brasileiros. Percebe-se a igreja, por exemplo, bastante preocupada com a pedofilia, a lei da homofobia, o aborto, a pornografia, o divórcio. Por motivo de integridade intelectual, não se pode crer no Novo Testamento e menosprezar esses assuntos. A liberdade de expressão, os direitos da criança, a santidade da vida humana, a pureza sexual e a importância do matrimônio são valores inegociáveis do cristianismo. Teme-se que - se essas iniquidades não forem combatidas pela igreja-, Deus julgará o seu povo.
Temos motivos, de fato, para nos preocupar. Porém, muito mais amplos do que o que inquieta a maior parte da igreja. Por que? Porque essas não são as únicas transgressões que a Bíblia denuncia e condena. Há iniquidades, tão graves quanto as supramencionadas - que passam despercebidas por aqueles cujos nomes constam no rol de membros das igrejas brasileiras-, e presentes de modo histórico, disseminado e crônico no Brasil.
Não se menciona nos nossos púlpitos a desigualdade social, o homicídio, as péssimas condições de moradia do pobre, a superlotação dos presídios, os salários baixos, a fome, a condição precária dos nossos hospitais, a falta de acesso a educação de qualidade. Como pensar que seremos julgados por Deus pela prática daqueles pecados e não destes? O fato de uns estarem em vias de ser institucionalizados e outros não, não faz diferença, pois jamais houve o caso de um povo ser justificado diante de Deus pela beleza da sua legislação. A lei sem obras é morta.
Tem que ser igualmente enfatizado que - o juízo de Deus começa pela sua casa. O que falar dos que dizem representar os interesses da igreja nas assembleias legislativas estaduais e Congresso Nacional, eleitos com o voto do crente, em campanhas realizadas no horário do culto a Deus? Alguns são reputados como os mais reacionários, vaidosos, alienados, corruptos que se tem notícia. Como deixar de fazer menção das igrejas que lavam dinheiro? Como não mencionar os pastores que deixam suas congregações se transformarem em currais eleitorais de canalhas, em troca de concessão de rádio, aparelhagem de som, legalização de propriedade e tijolo para construir templo? Não podemos deixar de deplorar as grandes mobilizações -passeatas ufanistas-, capazes de levar milhares para as ruas para nada, absolutamente nada. Pessoas são assassinadas aos milhares nas cidades brasileiras, dinheiro público escoa pelo bueiro da corrupção, metade da população habita em bairros sem rede de esgoto, e a igreja se reúne em número incontável, nas principais cidades do Brasil, sem anunciar que está indo para as ruas a fim de combater esses pecados, e isso porque, a preocupação com a miséria não está presente no corações dos seus membros, completamente alheios à obscenidade da violação dos direitos humanos, muitas vezes perpetrada pelo próprio Estado.
Deixaremos de denunciar as nossas instituições de ensino teológico, muitas das quais ensinam o exato oposto proclamado pelas Escrituras Sagradas, sem ter quem faça oposição? De igual modo, muitos dos nossos pastores terão antes que aprender a se desfazer das joias de ouro que ostentam, dos seus ternos caríssimos, dos carros luxuosos e padrão de vida endossado por uma teologia que só serve para justificar a riqueza dos profetas da causa própria, enquanto uma massa de crentes é mantida no padrão social mais baixo do país. Envergonham os céus, campanhas para levantamento de ofertas, que fazem tropeçar todo e qualquer brasileiro que tem cérebro, capazes de apelar para a ignorância e crendice, num contexto de total falta de transparência da administração financeira das contas de suas instituições.
As afrontas a Deus em nossa nação e na igreja são mais amplas e sérias do que pensamos. Temos provocado a Deus. Por isso p desrespeito da população brasileira pela igreja, o menosprezo à função do pastor, a falta de interesse dos meios de comunicação pelo que essa igreja ensina. Perdemos a credibilidade. Setores inteiros da nossa sociedade não conseguem se imaginar presentes em cultos barulhentos, onde não se fala coisa com coisa e dirigidos por homens de vida dúbia.
As maiores ofensas a Deus que ocorrem na nossa nação, só serão combatidas pela igreja, quando esta deixar de agir de modo espasmódico, ingênuo, estreito e superficial. Esses batalhas não se vencem sem evangelização que prega arrependimento para com Deus e fé em Jesus Cristo, oração, protesto nas ruas, busca de informação, pressão sobre as três esferas de poder da república, entre outras ações mais, tão ausentes da praxis das igrejas do nosso país. Somos protestantes. Atrás de nós, há uma multidão, que selou seu testemunho com sangue ao longo da história, por protestar.
Enquanto nossa mensagem for determinada por uma pregação estranha às reais demandas morais e espirituais do Brasil, carente de relevância, pobre de pertinência histórica, falta de discernimento dos tempos e privada de fidelidade às Escrituras, continuaremos a deixar de pregar sobre aquilo que tão extensamente encontramos nos textos proféticos da Bíblia, e que seria proclamado com clareza, paixão e ousadia por qualquer profeta do passado que estivesse em nosso lugar, homens que costumavam ser valentes não apenas dentro do templo, mas nos locais onde a verdade referente às demandas do direito e da justiça tinham que fluir como um grande e caudaloso rio.
Antônio Carlos Costa – Blog Palavra Plena
Política externa
Política externa
EDITORIAL - FOLHA DE SÃO PAULO
Objetivos do Itamaraty estão corretos, mas sua execução perdeu-se em maniqueísmos, contradições e exibicionismo que é necessário superar
Toda política de um Estado em face dos demais países implica conciliar duas vertentes nem sempre acordes. De um lado, o interesse nacional, manifesto em necessidades de ordem econômica e apoiado, em última análise, na capacidade militar. De outro, o respeito a princípios que deveriam valer para todos os Estados.
No âmbito da civilização ocidental, a que bem ou mal pertencemos, esses princípios são os direitos humanos, a autodeterminação dos povos e a resolução negociada, pacífica até o limite extremo, dos conflitos internacionais.
Quanto mais harmônica for a relação entre os dois termos daquele dilema, mais eficaz será a política externa que a expressa e mais promissora a contribuição do Estado que a adota para a humanidade. É sob esse prisma que se deve avaliar a administração das relações exteriores do Brasil.
O Itamaraty tem acertado, na gestão petista como na tucana, ao enfatizar que o mundo evolui para uma dinâmica multipolar de poder, e ao aproveitar oportunidades que propiciem a países em desenvolvimento maior peso nos rumos da política internacional.
Se os objetivos estão corretos, o mesmo não se pode dizer do modo de alcançá-los durante o período Lula. Desvirtuou-se nossa política externa ao ser empregada para aplacar frustrações da militância partidária doméstica, erro acentuado pelo maniqueísmo tosco que tantas vezes prevaleceu nas decisões do presidente e de seus auxiliares.
Poucas vezes fomos tão incongruentes. Adotamos petulante rigor democrático, por exemplo, na crise de Honduras, mesmo depois de o país centro-americano realizar eleições livres, ao passo que festejamos ditaduras repulsivas como a teocracia do Irã e cultivamos, por sentimentalismo ideológico, não apenas o regime fossilizado de Cuba como seus imitadores autoritários na América do Sul.
O acervo de votos do Brasil nos foros internacionais que tratam de direitos humanos acumula equívocos, omissões e derrotas.
Temos um contencioso amplo e inevitável com os Estados Unidos, que só tende a crescer conforme o Brasil ganha dimensão comercial e geopolítica. Nenhum motivo recomenda incrementar artificialmente, por mero exibicionismo diplomático, uma frente de atritos já em si considerável.
Em relação ao Oriente Médio, a presença de expressivas comunidades de origem judaica e árabe em nossa sociedade, conjugada à distância que nos aparta daquela área conflagrada, deveria ditar uma política isenta, limitada a apoiar a negociação entre as partes. Depois de frenéticas e fúteis gestões numa região onde não temos interesse, perdemos isenção e credibilidade.
Tais percalços foram compensados pelo prestígio internacional que apesar deles continua a cercar o presidente Lula, com base no forte simbolismo de sua trajetória pessoal. Um(a) novo(a) presidente terá ocasião de corrigir os rumos de nossa diplomacia, que precisa ser mais eficiente no apoio à expansão comercial do país e menos contraditória na aplicação de princípios universais.
O político e o cozinheiro
O político e o cozinheiro
Jorge Bastos Moreno – O Globo
O restaurante Piantella, em Brasília, já não é nem mais estabelecimento comercial. É quase um patrimônio público. Está incluído no roteiro de todo turista que visita os pontos políticos mais importantes da cidade. Era a “casa” de Ulysses Guimarães.
A intimidade de Ulysses Guimarães com o restaurante sempre foi tão grande que, na sua campanha de candidato à Presidência da República, poderia faltar vaga para o vice Waldir Pires e até para o presidente do PMDB, Jarbas Vasconcelos, menos para Marco Aurélio Costa, o dono do Piantella.
Os momentos mais importantes do PMDB foram comemorados lá, inclusive a volta de Tancredo ao partido, depois da malsucedida criação do PP — Partido Popular.
Certa vez, o PMDB fechou a parte superior da casa para um jantar de Ulysses com todos os candidatos do partido à primeira eleição direta de governadores.
À tarde, no encontro formal dos candidatos, o fotógrafo do GLOBO flagrara Ulysses às gargalhadas com Tancredo e me pediu para apurar o motivo de tanta descontração.
No jantar perguntei aos dois. Um empurrou a resposta para o outro, até que o próprio Tancredo contou: — Quando chegou a hora do padre Raimundo Pombo (candidato ao governo de Mato Grosso) falar, ele contou que o Júlio Campos, seu opositor, anda dizendo que ele é muito velho e...
Aí, Ulysses socorreu Tancredo: — O padre, para provar sua vitalidade, começou a nos dizer que corre dez quilômetros por dia, nada cem metros de manhã, de tarde e de noite. E aí o nosso amigo aqui me cochichou no ouvido: “Ulysses, segura esse padre, se não, ele desafia nós dois a darmos três, sem tirar de dentro”.
Voltando ao nosso tema, Marco Aurélio sempre teve o defeito de todo dono de restaurante: sentarse à mesa do cliente assíduo, não importa se o sujeito está acompanhado de outras pessoas, e até dar palpites.
Cena rara, mas acontecia: Ulysses e Tancredo, juntos, num cantinho. Ninguém ousava aproximar-se deles. Nem os garçons. Só Marco Aurélio.
E foi aí que a amizade de Ulysses com Marco Aurélio começou a ficar abalada.
Mineiro, Marco Aurélio, com a perspectiva da derrota das Diretas, queria participar da conspiração próTancredo. E começou a tentar amolecer o coração de pedra do velho Ulysses.
— Dr. Ulysses, como vai o nosso grande homem? — Quem? — O dr. Tancredo, quem mais poderia ser?— respondeu Marco Aurélio.
O velho não gostou nada do que ouviu no almoço.
Não voltou para jantar.
Optou por outra casa.
Mas a greve não durou 24 horas. No dia seguinte, lá estava ele de novo. Ulysses era extremamente formal, mas delicado no trato com as pessoas, e avisou seu “maître”: — Francisco, meu maître d’hôtel preferido, avise ao restauranter Marco Aurélio que, se ele vier novamente com essa história de “nosso grande homem”, eu não piso mais os pés aqui.
Chico, naturalmente, não avisou ao patrão. E Marco Aurélio, mais uma vez: — Dr. Ulysses, o senhor precisa conversar mais com o nosso grande homem.
Ele fica em Minas isolado, coitado. Vamos fazer uma reunião com ele aqui? E foi aí que Ulysses proferiu uma das suas frases antológicas, valendo-se do prato preferido na casa: — Marco Aurélio, meu caro, vamos fazer um trato: você vai lá presidir o PMDB e eu venho fazer Manicotti aqui no Piantella!
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