segunda-feira, outubro 04, 2010

O calendário e a coluna

O calendário e a coluna
Luiz Werneck Vianna - VALOR ECONÔMICO
A eleição já passou e o leitor já conhece o seu resultado, mas esta coluna, necessariamente escrita antes dela, foi condenada pelo calendário a desconhecê-lo. Resta a ela cogitar sobre o processo - ainda em curso? - de uma das sucessões mais frias da história da moderna democracia brasileira, vale dizer, das que se realizaram a partir de 1989. E sobre isso há muito do que cogitar, muito joio a separar do trigo, muita suspicácia contra o plano liso das aparências e das pretensões do senso comum.
A começar pela constatação de que as práticas da vida política democrática se vêm constituindo em rotina, uma segunda pele no cidadão brasileiro, que já as compreendem como a via real para a realização de seus interesses e de suas expectativas por direitos, deixando para trás o tempo em que aguardava intervenções providenciais. Dilma, Serra, Marina distam anos-luz de qualquer veleidade providencial.
Nessa sucessão, não houve quem ameaçasse, em atos ou palavras, as instituições. Um dos melhores exemplos desse novo estado de coisas se encontra na iniciativa da sociedade civil, chancelada pelo parlamento, e que se converteu na chamada lei da ficha-limpa, cujo impacto benfazejo no processo eleitoral foi, agora, experimentado pela primeira vez.
Essa é uma inovação de não pequena monta, e, na esteira dela reforçaram-se tanto os instrumentos como os procedimentos criados pelo legislador para zelar pelo caráter republicano da administração pública, em particular a Justiça Eleitoral, o Ministério Público e a Controladoria-Geral da União. E nunca é demais lembrar que a moralidade pública é um princípio constitucional da república brasileira, e não um atavismo cediço de combates eleitorais de tempos de antanho.
De outra parte, contrariando o diagnóstico de que nada teria mudado na cena política, uma vez que, nessas eleições, ter-se-ia reiterado a polarização entre o PT e o PSDB, está aí a emergência do PV, que foi representado por uma candidatura competitiva, possui quadros qualificados e uma liderança nacional, Marina Silva, cuja presença política certamente não se limitará a esse episódio eleitoral. Os verdes têm audiência internacional, e, a essa altura, como se fez demonstrar nessa campanha, estão conscientes de que seu programa e discurso necessitam se ancorar em temas e projetos de alcance geral, fundamentalmente traduzindo em linguagem corrente o que compreendem como desenvolvimento sustentável, lema forte da sigla. Desde logo, pode-se arriscar, que, no novo governo, inclusive na próxima disputa presidencial, Marina, seus temas e o seu partido serão peças importantes no tabuleiro.
Maior importância ainda terá o PMDB, com a vice-presidência - no caso da eleição de Dilma -, seus governadores, prefeitos e sua poderosa bancada congressual. Sem Lula para mediar a relação difícil desse partido com o PT, os custos de transação entre eles não serão pequenos, em especial se a agenda presidencial se fixar em questões altamente controversas, tais como as da reforma política, da previdência, da trabalhista e tributária. Em qualquer caso, a linha de governo de Dilma, que deverá evitar rotas de conflagração, não será a do seu partido, mas o da sua coalizão. A oposição estará fincada nos governos dos dois principais estados de federação, São Paulo e Minas Gerais, mais uma circunstância a reforçar o papel do PMDB no futuro governo.
Os partidos ditos nanicos da esquerda, que não foram tão mal como se alega - basta ver o desempenho da candidatura Plínio e sua audiência na juventude universitária -, se tiveram poucos votos, souberam aproveitar o horário eleitoral a fim de marcar posições, e alguns deles saem da campanha com seus quadros renovados. Outro sintoma de que à esquerda sopram ventos de mudança está na vitória da central Conlutas, vinculada ao PSTU, sobre a CUT na disputa eleitoral recente travada no estratégico sindicato dos metroviários de São Paulo.
Esse lugar da política, até há pouco um monopólio do PT, hoje à deriva em razão do posicionamento ao centro do espectro político por parte desse partido, diante das grandes transformações sociais em curso, não deve permanecer vazio. Especialmente, como se espera, se os imperativos de racionalidade da moderna ordem burguesa brasileira impelirem o governo no sentido das reformas trabalhistas e previdenciárias, as duas já presentes, às vezes apenas em registro subliminar, nos discursos de Dilma.
Do mundo agrário, por sua vez, são claros os novos sinais de mudanças a que o processo político não poderá ser indiferente. Desde as discussões sobre a reforma do Código Florestal, tendo como referência a questão nacional, testemunha-se uma imprevista aproximação entre o agronegócio e setores da esquerda, no caso representada por um parlamentar do PCdoB, Aldo Rabelo, que se tem traduzido em apoio de certos círculos do capitalismo agrário brasileiro à sua reeleição.
O fenômeno não é nada trivial, uma vez que, tradicionalmente, é dessa região do mundo que provém, à direita e à esquerda, expressões de radicalização política. O alinhamento ao centro dos nossos culaques, caso as tendências atuais se afirmem, não condiz com as previsões de imutabilidade do nosso sistema político. A ver, ainda, o que o MST tem a dizer sobre isso, dado que essa reviravolta lhe tira um bom pedaço de chão.
É enganosa, então, essa placidez de águas paradas, percepção equívoca a que fomos levados pela modorrenta sucessão de que acabamos de sair. A vida está à espreita esperando sua boa hora.

O grosso e o fino

O grosso e o fino
RUY CASTRO - FOLHA DE SÃO PAULO - 04/10/10
RIO DE JANEIRO - Fred Flintstone, criação da dupla William Hanna e Joseph Barbera nos quadrinhos e nos desenhos animados, acaba de fazer 50 anos. Todo mundo conhece. A graça dessa saga é que ela se passa na pré-história, mas eles já têm os nossos confortos do século 20: automóvel, televisão, geladeira, telefone, cinema, elevador, batedeira de bolo etc. A diferença é que é tudo movido a lenha.
Antes dele, outro herói das cavernas era Brucutu, criado em 1932 por V. T. Hamlin e também até hoje na praça. Graças à máquina do tempo do Professor Papanatas, Brucutu tem livre trânsito de antes a depois de Cristo e vice-versa, e já fez de tudo, desde imprimir um jornal na Idade da Pedra até chegar de dinossauro para embarcar num foguete. Em Brucutu, impera a alta tecnologia; em Flintstone, a baixa.
O Brasil poderia ser cenário dessas duas sagas simultaneamente. Aqui, o avanço e a modernidade convivem tão bem com o atraso que poucos se dão conta da esquizofrenia que isso envolve. Por exemplo: tem o sistema de votação e apuração de votos mais confiável do mundo -para eleger certos políticos em que ninguém, em sã consciência, confiaria o cachorro para passear na rua. E há uma evidente contradição em entrar naquela cabine do século 21 e fazer surgir na tela o nome e a imagem do Tiririca, não? (Não que ele seja o pior.)
O país tem recursos inimagináveis em energia e ferramentas de última geração para explorá-los. Mas os ministérios a que tais riquezas se subordinam, de alta especialidade, são entregues a políticos profissionais de quem se duvida que saibam extrair uma raiz quadrada. Nossas favelas têm computadores, TVs de plasma, gatonet e microondas, mas não têm esgoto -os apartamentos de luxo da Barra da Tijuca também não. E por aí vai.
É Flintstone e Brucutu no mesmo quadrinho, o grosso e o fino no mesmo Brasil profundo.

Bennet, na Gazeta do Povo


De novo o inesperado

De novo o inesperado
Dora Kramer - O Estado de S. Paulo - 04/10/2010
Para o PT o segundo turno tem um travo de derrota, por dois motivos: primeiro porque a vitória no primeiro começou a ser cantada antes mesmo de a candidata Dilma Rousseff ultrapassar o adversário José Serra nas pesquisas e a realidade não foi tão generosa.
Além disso, é a quinta eleição que Luiz Inácio da Silva não consegue ganhar no primeiro turno. Duas ele ganhou no segundo, duas perdeu no primeiro e o desempate será visto em 31 de outubro.
Apesar do baque, não convém imaginar que o PT se deixará abater. Ao contrário. Em 2006 houve também o inesperado - o segundo turno entre Lula e Alckmin - e o partido já no primeiro dia foi à luta com entusiasmo redobrado, a campanha rapidamente reformulada e adaptada à emergência.
O PSDB agora não quer repetir o erro da época e anuncia que a campanha recomeça hoje e totalmente mudada.
E Serra vai aceitar?
"Ele não está mais em condição de querer nada: precisa aceitar o que precisa ser feito e ponto", dizia Aécio Neves na noite de quinta-feira no intervalo do debate da TV Globo.
Qual a mudança crucial?
"É preciso abrir a campanha, as decisões não podem ser solitárias", acrescentava o agora senador eleito que dois dias antes havia dado entrevista falando longamente sobre a necessidade de um "freio de arrumação" na seara oposicionista para enfrentar um segundo turno.
Mesmo assim, é raríssimo o tucano que manifesta esperança de vitória na etapa final. Entre eles a unanimidade são as críticas ao marqueteiro Luiz Gonzalez, mas todos concordam que tentar mudar agora seria pior.
Já o PT por motivos óbvios não quer mudança alguma. Nos bastidores os petistas tratavam o segundo turno como uma possibilidade muito mais real do que diziam em público.
"Espero estar exausto de tanto comemorar", respondia José Eduardo Martins Cardozo no estúdio da TV Globo a quem lhe perguntava onde estaria na segunda-feira (hoje). E se não der para ganhar de primeira?
"Paciência, vamos tocar exatamente como fizemos até agora, está tudo perfeito e funcionando bem", respondia.
Mais resistente a pensar alto sobre o segundo turno, o PV oficialmente prefere assistir de camarote por alguns dias. "Só há uma decisão tomada: não tomaremos uma decisão de imediato", dizia Alfredo Sirkis.
A aposta geral, no entanto, é que Marina Silva optará pela neutralidade e o PV apoie Serra. A questão é para onde irá o eleitorado que deu a ela um resultado surpreendentemente positivo.

Se Serra fosse Marina...

Se Serra fosse Marina...
Ricardo Noblat - O GLOBO
"Em suas mãos entrego o destino do meu povo"
(Trecho de um jingles da campanha de Dima, ungida por Lula para suceder-lhe)

Lula ficou rouco de tanto garantir a vitória de Dilma Rousseff no primeiro turno. Na véspera da eleição, o Vox Populi conferiu a Dilma seis pontos percentuais a mais do que a soma dos votos dos seus adversários. O Datafolha e o Ibope cravaram que a eleição estava empatada. Na pesquisa boca de urna, o Ibope deu dois pontos a mais para Dilma.
Com 96% das urnas apuradas, Dilma reunia 46% dos votos válidos, José Serra 33% e Marina Silva, 20%. Lula errou feio. Os institutos de pesquisa foram incapazes de antecipar o tamanho que ganharia a “onda verde”. Não enxergaram também que Serra crescera na reta final da campanha.
Segundo turno não é uma segunda eleição. Quem votou em Dilma, por exemplo, não tem motivos para votar em Serra no segundo turno. A recíproca também é verdadeira. São raros os casos de candidatos que chegam atrás no primeiro turno e na frente no segundo. É natural, pois, que Dilma continue como favorita para suceder Lula.
O apoio de Marina será disputado no tapa por Serra e Dilma. O PV está mais inclinado a apoiar Serra. Mas de que valerá o apoio dele se Marina preferir apoiar Dilma ou ninguém? O PV é um partido cartorial. Que cede sua legenda sem cobrar em troca o mínimo de fidelidade aos seus princípios.
Marina sabe o que quer para apoiar Dilma ou Serra: o compromisso de um deles com uma espécie de programa de governo que em breve lhe será apresentada. O programa deverá condensar os principais pontos do discurso que rendeu a Marina quase 20 milhões de votos. Ciro Gomes (PSB) está com inveja...
Mesmo que Marina apoie Serra ou Dilma isso não será nenhuma garantia de transferência automática de votos. Longe disso. Lula só existe um. Nenhum presidente da República jamais transferiu tantos votos para seu candidato. E Marina nada tem a ver com o tipo de chefe político que manda e que é obedecido.
Pelo menos três tipos de voto se juntaram para favorecer Dilma — e eles não se extinguem por encanto. O primeiro voto: o que emana do bolso do eleitor. Esse voto é importante, mas não é o mais importante. Ele, sozinho, não garantiria para Dilma a vaga de Lula. É o voto dos satisfeitos com o aumento do seu nível de rendar.
Serra tentou conquistar parte do voto do bolso acenando com o 13º salário para os que recebem o Bolsa Família, um salário mínimo maior do que o anunciado pelo governo, e um reajuste de 10% para os aposentados. Tais promessas foram insuficientes para catapultálo nas pesquisas. E por quê? Por causa dos outros dois votos.
O segundo voto que beneficiou Dilma: o do coração que bate forte por Lula. Pois é. Antes temido, depois tolerado, Lula caiu no gosto dos brasileiros de todas as faixas de renda e de escolaridade. Foi isso o que o salvou dos efeitos perversos dos escândalos que abalaram seu governo — e não foram poucos.
Lula fez do combate à corrupção um dos motes de sua campanha em 2002. A corrupção pregou-lhe boas peças. Não é injusto afirmar que ele conviveu com corruptos porque quis, fingiu não ver o que armavam e empenhou-se em livrar a cara de muitos deles. Mas seus antecessores não agiram assim? — se indagam os de bom coração.
O terceiro tipo de voto que empurrou Dilma para o alto: o racional. Os titulares desse voto não acreditavam que um ex-operário, inteligente, mas inculto, acabasse dando certo como presidente. O voto racional é um reconhecimento de que Lula e a sua turma governaram melhor do que a turma do PSDB. Então por que trocar de turma?
Lula deu-se ao luxo de escolher para sucedê-lo quem não seria eleita nem síndica de prédio porque identificou com bastante antecedência os fatores destinados a selar a sorte das eleições deste ano — no primeiro ou no segundo turno. E também porque soube agir em perfeita consonância com eles, mandando às favas interesses alheios.
A receita deu certo. Para que desande, precisaria que Serra fosse menos Serra e mais Marina.

Pelicano, hoje no Bom Dia (SP)


Serra enfrentará Dilma e Lula no segundo turno

Serra enfrentará Dilma e Lula no segundo turno
Marina surpreende, tira votos da petista e ajuda tucano a garantir novo round
Gerson Camarotti, Cristiane Jungblut e Carolina Brígido – O Globo
 Os eleitores brasileiros terão mais tempo para decidir. Empurrada pela “onda verde”, que deu à ex-ministra Marina Silva (PV) surpreendentes 19,4% dos votos válidos, a escolha do futuro presidente do Brasil ficou para o dia 31 deste mês. O segundo turno será disputado pela petista Dilma Rousseff, que somou 46,8% (abaixo do que previam as pesquisas eleitorais), e pelo tucano José Serra, com 32,6% (mais do que davam as pesquisas). A grande eleitora será Marina, com seus 19 milhões de votos, já disputados por PSDB e PT. Diante do resultado menor do que o esperado para Dilma, o presidente Lula vai mergulhar ainda mais na campanha da petista no segundo turno.
O resultado foi recebido com surpresa tanto no Planalto como no PSDB. Nos dois lados, duas certezas: será necessário fazer ajustes significativos nas campanhas. O segundo turno só foi possível por causa de Marina, que tirou votos de Dilma, e a ordem dos dois lados agora é atrair esse eleitorado.
Recados discretos já foram enviados por PT e PSDB para Marina e dirigentes do PV. No PV, há simpatizantes dos dois candidatos, mas, segundo pesquisas, Serra seria beneficiado por 50% dos votos de Marina; Dilma herdaria 30%.
O PT sabe que ainda há muita mágoa com Dilma e o partido desde a época em que as duas foram ministras, e que isso pode favorecer Serra.
Portanto, uma postura de neutralidade dela já seria uma vitória. No PV, ontem, o clima era de cautela, até porque muitos petistas admitem que Marina sai das urnas bem maior que o partido.
Logo, a decisão passará necessariamente por ela.
Aparentemente consciente de que recebeu votos de parcela do eleitorado na qual se destacam desde evangélicos conservadores a militantes ecológicos e de movimentos a favor de legalização das drogas, aborto e casamento gay, Marina propôs ontem que, antes da abertura de negociações sobre o segundo turno, seja feita “uma plenária” do PV “com todos os movimentos que nos apoiaram”.
Mas integrantes da cúpula do partido admitem que “a correlação de forças internas” tende ao apoio a Serra.
Um dos líderes do partido, Fernando Gabeira, candidato derrotado para o governo do Rio, disse que já decidiu: — Meu caso é específico dentro do partido, e vou honrar o compromisso de apoiar Serra no segundo turno.
Ontem, apesar de todas as queixas contra os erros da campanha de oposição, a ordem era não expor Serra agora. O presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, disse que os líderes regionais, em especial os eleitos em primeiro turno, como o senador eleito Aécio Neves (PSDB-MG), já estão mostrando interesse em “inflar a campanha”.
— O segundo turno virou uma realidade e, já na terça-feira, haverá muita coisa sendo feita. Dilma não suporta o confronto — disse Guerra.
No PT, o discurso ficou mais cauteloso: — É hora de ter humildade. E temos humildade.
Dilma começou com 5% das intenções e cresceu.
Teve um momento em que a Dilma subiu muito. E havia expectativa de vitória em primeiro turno quando ela passou muito o Serra. Mas isso não aconteceu. Ainda é cedo para avaliar o que aconteceu — disse o líder do governo e um dos coordenadores da campanha de Dilma, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP).
O DEM apresentará já hoje a “fatura” sobre as vitórias que obteve, em especial conquistando bom desempenho para Serra em estados como Santa Catarina.
— A campanha de Serra terá de incluir (os vencedores) para ganhar. Em Santa Catarina, conseguimos 45% dos votos válidos para ele — disse o líder do DEM na Câmara, Paulo Bornhausen.

Votos de Marina põem Serra no 2º turno contra Dilma

Votos de Marina põem Serra no 2º turno contra Dilma
De olho em 19,6 milhões de eleitores, PSDB negocia apoio do PV na próxima etapa
O Globo
Graças à onda verde que rendeu à candidata Marina Silva quase 20 milhões de votos (19,3%), o tucano José Serra irá disputar, em 31 de outubro, o segundo turno da eleição presidencial contra a ex-ministra Dilma Rousseff, do PT. Com 47 milhões de votos (46,8%), menos que os 48,6% obtidos pelo seu padrinho, o presidente Lula, no primeiro turno da reeleição em 2006, e bem abaixo dos índices apontados pelos institutos de pesquisa, Dilma venceu em 18 estados, incluindo Minas Gerais e Rio.
Mas só conseguiu superar a soma de seus adversários em 10 deles, concentrados nas regiões Norte e Nordeste. Em nenhum do Sul e do Sudeste atingiu mais de 50%.
Com 33 milhões de votos (32,6%), o candidato do PSDB venceu em oito estados, inclusive São Paulo, também contrariando as últimas pesquisas. Marina venceu apenas no Distrito Federal. As duas campanhas preparam agora ajustes para a segunda fase da disputa. PT e PSDB já enviaram recados para o PV — que integrou o governo tucano em São Paulo — pedindo apoio do partido daqui para a frente. Dona do melhor terceiro lugar de todas as disputas presidenciais desde a redemocratização, em 1989, Marina se tornou a grande eleitora do segundo turno e conseguiu, como previra, “perder ganhando”.
Sobre apoio ao PT ou ao PSDB, disse que decidirá a partir das propostas de governo. “Será uma decisão que nada tem a ver com a velha política”, afirmou a verde, que sugeriu uma plenária com participantes do PV para decidir o rumo a seguir. Dilma prometeu “garra e energia” no segundo turno. Serra, em São Paulo, participou de uma festa com tucanos.

Amâncio para o Tribuna do Norte


O meu português ruim

O meu português ruim
Caetano Veloso – O Globo
É inacreditável que Barbara Heliodora tenha escrito que um autor teatral não pode usar o tratamento na segunda pessoa. E muito significativo que ela tenha lançado esse anátema como condição para que uma peça se considere brasileira. É a mesma mentalidade que leva um tradutor de Proust a evitar a palavra “raparigas” e tradutores de textos complexos a correrem da tmese como o diabo da cruz. Até parece que estilos nascidos desse tipo de pânico primam pela clareza e pela elegância.
Mas não. Leem-se textos onde o único mérito parece ser o do esforço para evitar mesóclises e segundas pessoas. Erros variados e escorregadelas para a pedanteria não são sequer notados por muitos dos que se contorcem nesses dribles. Outro dia, por causa de meus protestos contra o medo da mesóclise, recebi alguns e-mails corrigindo minha suposição de que talvez algo do problema se devesse às campanhas dos sociolinguistas. Dei razão aos que me corrigiram. Mas a verdade é que esse à vontade com que Barbara Heliodora proíbe o uso do tratamento em segunda pessoa não pode deixar de se dever, em parte, a tal campanha. É difícil que simplesmente coincida com ela.
Quando eu mantinha um blog para acompanhar a feitura do projeto “Zii e Zie”, disco e show, escrevi, em tom ainda mais apressado e irresponsável do que o faço aqui, sobre as perguntas que me fiz ao ler um bom livro sobre tendências do português brasileiro.
Como a descrição da frequência do uso do “você” levava a autora a expor os pronomes pessoais sujeitos como sendo “eu, você, ele, ela, nós, vocês, eles, elas”, em vez de “eu, tu, eles, nós, vós, eles”, fiquei com a impressão de que se sugeria que passássemos a ensinar nas escolas esses pronomes mais usuais — e as variações verbais que os acompanham — e abandonássemos o “tu” e o “vós”, que não usamos na conversa.
Descrevi o mal-estar que isso me provocava e enumerei as várias formas conversacionais em que a segunda pessoa do singular é usada comumente.
Do “tás me estranhando” carioca ao “viste” (ou “visse”) pernambucano; do “tu é mesmo mané”, também do Rio, ao “tu fala demais” dos gaúchos. Lembrei que em Belém do Pará se flexiona o verbo para a segunda pessoa com considerável frequência.
E mencionei o fato de que as crianças entendem perfeitamente bem o que quer dizer um samba-canção ou um rock-balada em que o cantor se dirige à amada na segunda pessoa. Isso sem falar nos textos eruditos.
Por causa da reação de alguns comentaristas do blog, fui ler os sociolinguistas militantes — esses que odeiam os professores que ensinam regras de português em jornais ou na TV. Percebi que há uma confusão entre observar como a língua muda e querer desfazer toda a normatividade já consagrada. A explicação era sempre que a norma culta é uma espécie de ideologia da classe dominante que oprime os desassistidos.
Nunca passava pela cabeça desses heróis que essa norma tinha se desenvolvido pelo mesmo processo para o qual eles querem chamar a atenção no presente. O povo é o inventa-línguas. A contribuição milionária de todos os erros. Sim. Mas desde sempre. Por que desqualificar a contribuição de milhões de falantes do português que, através dos séculos, nos trouxeram até onde a língua se encontra agora? Então a ideia é que só valerão as regras que se criarem a partir do surgimento de uma sociedade justa e sem classes? Quando é mesmo que vai ser isso? É simplesmente ruim desistir de adestrar nosso povo para o entendimento da nossa língua em todos os seus registros. O português lusitano e o africano, o do sertanejo iletrado e o do doutor em sociologia, o do poeta renascentista e o do teatrólogo moderno, o do cientista e o do sacerdote.
Eu próprio não me sinto seguro ao escrever. Cometo erros de ortografia. (Numa resposta a Xexéo — cujo nome já está quase passando o de Liv Sovik em frequência aqui nesta coluna — na época do réveillon em que, no “JB”, eles criaram uma maluquice envolvendo Paulinho da Viola, escrevi “analizar” — ou algo equivalente.
Sem memória visual de como era a palavra, segui ( s e m p e n s a r ) uma regra abstrata (isso acontece menos em inglês ou em francês, mas não vou explicar agora por quê). Xexéo, mais uma vez, zombou de mim. Bem feito. E muitas vezes me vejo enrolado na construção de uma frase.
Mas amava meu professor de português do Ginásio Teodoro Sampaio, Nestor Oliveira (poeta de olhos azuis e voz bonita) e Dona Candolina (preta gorda competentíssima e energética), do Severino Vieira. E gosto de literatura e de que o acaso tenha feito com que falemos português.
Em Londres, quando chegou o disco de Roberto Carlos que tinha “Detalhes”, ouvi a canção com respeito e frieza.
Mas quando veio o verso “E até os erros do meu português ruim” eu caí no pranto.
Alguém dirá que tenho chorado demais aqui — e sempre por causa de música.
Mas é assim. Não quero entrar no mérito da crítica de Barbara Heliodora aos arranjos que Jaques Morelenbaum e Jaime Alem fizeram para as música de Tom: não vi o “Orfeu” no Canecão (estou em São Paulo), de modo que não sei se a shakespeariana crítica sentou-se perto de algum alto-falante rachado.
Nem quero pensar nisso para não chorar de novo.
Mas o “tu” dos versos e das canções não pode ser anatemizado por um preconceito mais idiota e opressivo do que o que pareceu ser o meu quando disse, numa entrevista até bem razoável, que Lula é analfabeto.

Samuca, no Diário de Pernambuco


Nem sinhá nem dama de ferro

Nem sinhá nem dama de ferro
O 'lobby do batom', que obteve avanços notáveis na Constituinte de 1988, refluiu. E, hoje, embora as mulheres estejam na política, há pouca política para mulheres
 O Estado de São Paulo
 Apesar de Dilma Rousseff e Marina Silva dividirem com José Serra o lugar de protagonistas da eleição presidencial que hoje vai levar 135 milhões de brasileiros às urnas, ainda é cedo para festejar uma vitória dos valores femininos. Por um lado, as mulheres são 51,82% do colégio eleitoral e, pela primeira vez, duas mulheres disputam a Presidência; por outro, surge a inexperiente Weslian Roriz, que concorre ao governo do Distrito Federal empurrada pelo marido, Joaquim Roriz. Barrado pelo Tribunal Superior Eleitoral com base na Lei da Ficha Limpa, o ex-governador saiu do páreo e convocou a mulher para tentar manter a família no poder. Os extremos expõem a fragilidade da participação feminina na política brasileira.
Paulo Pinto/AE
A historiadora Mary Del Priore, autora de História das Mulheres no Brasil (Contexto, 1997), acredita que as brasileiras ainda precisem evoluir muito no cenário político. "Continuamos sem ações eficientes que atendam direta e majoritariamente os problemas femininos, seja creche, gravidez na adolescência, aborto." Nesta entrevista, a historiadora lamenta que, duas décadas depois de promulgada a Constituição de 1988, as mulheres constituam o maior contingente eleitoral do País, mas não pareçam muito interessadas em ter atuação direta na política.
Duas mulheres disputam a Presidência da República. Sinal de que a política brasileira está melhorando? Ou o fato de Dilma Rousseff ser uma escolha pessoal de Lula reforça o papel feminino de coadjuvante no processo?
Significa que temos mais mulheres concorrendo por projetos de poder. A 4ª Conferência Mundial sobre as Mulheres, realizada em Pequim em 1995, cunhou o termo empowerment (apropriação do poder ou "empoderamento") das mulheres. Hoje, em plena democracia, não há mais obstáculos para a representação feminina no Congresso e as brasileiras já estão devidamente "empoderadas". Nossas mulheres na política fazem campanha e são eleitas, sem as perseguições movidas no passado, como, por exemplo, a que atingiu a cientista e feminista Bertha Lutz - acusada de fraude eleitoral. E a igualdade com os políticos é real: elas têm isonomia no horário político eleitoral e não encontram barreiras para o financiamento de suas campanhas. Mas também há informações sobre outra forma de igualdade: as eleitas roubam, esbulham e mentem como seus pares do sexo masculino. Algumas parecem ter se esquecido da agenda arduamente amadurecida durante a redemocratização do País.
Quer dizer que na política elas são iguais aos homens? E uma mulher que faça má política, choca mais a sociedade? Sem dúvida. Refiro-me a igualdade no apetite pela roubalheira. Eu sei, isso choca, pois ainda convivemos com a ideia de que a mulher é a responsável pelo bom funcionamento da casa. Tal ideia paternalista, muito viva até os anos 60 e 70, associava imagens como "a rainha do lar", "a abelhinha trabalhadeira", assegurando o papel feminino de gestão do privado, algo diametralmente oposto ao papel masculino, que deveria se consumar fora do lar. Apesar das conquistas recentes, inclusive no campo político, continuamos sem ações específicas que atendam direta e majoritariamente os problemas femininos, como gravidez na adolescência, aumento de creches e aborto - que só entrou na pauta, e de forma oportunista, no final dos debates. Marina Silva, até agora uma espécie de reserva ética de nossa vida política, não assumiu nenhuma posição polêmica em relação ao tema. Afinal, para que brigar com a bancada evangélica ou católica às vésperas das eleições? Quanto a Dilma, ela representa a continuidade de um ciclo virtuoso da economia, que teve início no governo FHC. Os eleitores votam na permanência de um programa econômico que deu a 90% dos pobres do País a possibilidade de consumir e a 0,1% de ricos a garantia de continuar a enriquecer. E não num projeto político em que valores femininos estejam em alta.
Não é contraditório termos duas candidatas à Presidência e, ao mesmo tempo, mulheres sendo conduzidas ao poder pelo marido, como Weslian Roriz, no Distrito Federal? Infelizmente, clientelismo e voto de cabresto fazem parte de nossa história, e pior, inscreveram-se oficialmente na Constituição de 1988. Normalmente, tais leis não fazem parte de nenhuma Constituição em nenhum lugar do mundo. Mas entre nós o voto proporcional, garantido entre outros 250 artigos, incentiva toda sorte de acordos com corporações e sindicatos. Nossos deputados são eleitos pelos serviços prestados a grupos de pressão. E logo se tornam coniventes com permutas e trocas inadmissíveis na vida democrática. A fragmentação dos partidos incentiva somente consórcios de nomes que, por sua vez, escondem interesses privados. O mais vergonhoso é que nossos presidentes são reféns de um sistema que os ameaça, pois só tais alianças garantem o funcionamento do País. Para não continuarmos a viver nessa meia democracia seria preciso mudar o sistema eleitoral - mas isso nem FHC nem Lula conseguiram.
Mãos de marido. Barrado pela Lei da Ficha Limpa, o ex-governador Joaquim Roriz conduz a esposa, Weslian, para a disputa no DF
O fato de Joaquim Roriz ter recorrido à mulher e não a outro aliado para representá-lo, assim como Anthony Garotinho fez no Rio com a mulher Rosinha, comprovaria esse atraso da representação política das mulheres, como a senhora argumenta? Essas são figuras políticas associadas a todo tipo de comprovadas falcatruas e sujeiras das quais procuram "limpar-se" usando a figura da mulher e o que ela significa no imaginário da sociedade. Nas classes médias e desfavorecidas, nas quais se encontra o grosso de seus eleitores, os papéis sociais mantêm a tradição. Portanto, o feminino é o da "mulher que cuida". Cuida limpando e arrumando a casa. Recorrer às esposas e filhas é uma forma de apropriação do capital simbólico representado pelo sexo feminino no imaginário de nossa sociedade. A identificação da "esposa" com a "santa" que, malgrado sacrifício e sofrimentos tudo suporta, alimenta a mesma representação.
De onde vem essa percepção da mulher como tapa-buraco na política? É algo que acontece no plano internacional e varia de acordo com os contextos culturais de cada país. Na França, onde a questão já foi estudada, as diferenças entre os candidatos masculinos e femininos apontam para a tese de que a mulher tem uma natureza conservadora. Tal tese incentiva candidaturas específicas ou a colocação de mulheres em determinados postos de poder: saúde, educação, ecologia, para atender aos interesses dos partidos. Por outro lado, na Índia e Paquistão as mulheres chegam à vida política obedecendo a uma tradição familiar. Há também casos em que a crise coloca em cena o mito da mulher salvadora. Tal "síndrome de Joana D'Arc" promove "damas de ferro", como Margareth Thatcher ou Angela Merkel, capazes de fazer frente às tempestades da vida política e econômica. Na Noruega, onde a ideia de política soma-se àquela da administração, não há diferença entre vida pública e vida privada, e a primeira-ministra Gro Brundtland renunciou por razões familiares. É importante lembrar que o acesso da mulher à vida política sempre foi difícil. A cidade grega, primeiro modelo de democracia, as excluía radicalmente.
O arranjo do casal Roriz acentua a subalternidade feminina na política? O casal Roriz representa a derrota da mobilização cidadã contra a roubalheira que gangrena a vida pública. Consagra a impunidade que campeia em Brasília revelando uma realidade pior: a maioria de nossos políticos não vive para a política, mas sim da política. Tais sanguessugas custam ao País centenas de milhões por ano. São eles que freiam o crescimento, entravam a produtividade e envenenam o clima dos negócios. Não existe pior subalternidade do que a praticada frente ao dinheiro.
Há uma tendência a colocar a mulher em cena porque à princípio ela passaria a imagem de 'ficha limpa', de pessoa honesta. Ética não é uma questão de gênero. Nem a eficiência política pode ser sinônimo de feminilidade: em Ruanda, a Câmara de Deputados é constituída por 48% de mulheres - mais do que na Suécia - e nem por isso a situação política e econômica mudou. Na Espanha, o governo Zapatero tem 47% de mulheres e nem por isso escapou da crise. A África do Sul tem 40% e o Chile, 50% de representação feminina e em nenhum desses países a presença da mulher mudou radicalmente o cenário social ou político. As mulheres estão, sim, representadas no poder, mas falta-lhes liderança diferenciada. Liderança entendida não como a autoridade que emana de um posto ou de uma estrutura, mas como a capacidade de fazer as pessoas participarem de objetivos definidos a partir de critérios de gênero. Isso não é fácil. Afinal, produzir coesão social e cidadania, reduzir a exclusão graças à educação e saúde é, "apenas", atualizar uma agenda de mais de 200 anos.
O Brasil já teve mulheres protagonistas? A luta por representação política vem de longa data. Uma das pioneiras foi Nísia Floresta, que, em 1832, publicou Direitos das Mulheres e Injustiças dos Homens, opúsculo em que enfrentava os preconceitos da sociedade patriarcal. A segunda metade do século 19 assistiu também à participação de muitas na luta pela Abolição. Adelina, a charuteira, escrava do próprio pai, participou de comícios abolicionistas em São Luís do Maranhão. O Partido Republicano Feminino abriu suas portas a 23 de dezembro de 1910. Os objetivos eram promover a cooperação feminina para o progresso do País, combater a exploração relativa ao sexo e o mais importante: o direito ao voto. Depois, foi a vez da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, sob a liderança da bióloga Bertha Lutz. Só em fevereiro de 1932 Getúlio Vargas assinou o tão esperado direito de voto. Bertha tentou ocupar cargos em vários pleitos, elegendo-se deputada federal em 1936. Durante o governo militar, uma importante educadora se tornou a primeira ministra de Estado: Ester de Figueiredo Ferraz. Do outro lado do espectro político, mulheres entraram na clandestinidade, lutando contra o regime: Elza Monnerat, Clara Charf, entre outras, algumas das quais morreram em combate contra a repressão. Com a redemocratização, o então presidente Sarney criou o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. O papel do CNDM foi fundamental durante a Constituinte de 1988. Criou-se o "lobby do batom", como ficou conhecida a atuação da bancada feminina no Congresso. Foram aprovadas mais de 80% das reivindicações encaminhadas na área dos direitos da mulher.
E por que se perdeu o pique dos anos 80? Os últimos 20 anos foram decisivos para as brasileiras. O uso da pílula disseminou-se e o mercado de trabalhou absorveu a mão de obra feminina. Mulheres representam, hoje, 43% da força nacional de trabalho. Com dinheiro, não ficam mais casadas por conveniência ou esforço. Os álbuns de família ganham novos atores: padrastos, meios-irmãos e produção independente. Dos domicílios, 47% têm pai ausente. Um em cada quatro casamentos termina em divórcio e o IBGE prova que homens divorciados têm quatro vezes mais chance de recasar-se do que mulheres em igual condição. E mais: no Nordeste, as migrações masculinas em busca de oportunidades no Sudeste consolidaram o "matriarcado da pobreza". Enfim, com uma agenda recheada por tantas mudanças, as mulheres não parecem interessadas em participar diretamente da política. E, sim, em viver e sobreviver.

Skoob

BBC Brasil Atualidades

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