sexta-feira, outubro 08, 2010
Pressão sobre a China
Pressão sobre a China
Celso Ming - O Estado de S. Paulo - 08/10/2010
As pressões sobre a China estão cada vez mais fortes. Anteontem fora o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Tim Geithner. Ontem foi a vez do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, e do vice-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), John Lipsky, baterem por uma forte revalorização do yuan, a moeda chinesa.
Os Estados Unidos insinuam que a atual política da China não passa de manipulação cambial. Dois dos mais lidos analistas internacionais, Paul Krugman, do New York Times, e Martin Wolf, do Financial Times, também sustentam que é isso mesmo, é pura manipulação passível de punição, como se fosse um jogo sujo comercial qualquer. "Se investir metade do produto bruto do país em reservas não for manipulação do câmbio, então o que é?", escreveu Wolf anteontem.
Manipulação é uma expressão com forte conotação política, cujo objetivo é aplicação de represálias. Pela argumentação de Martin Wolf, Japão, Suíça, Índia, Japão e Brasil também estão manipulando seu câmbio, porque estão empilhando reservas. E, por outros critérios, o comentarista do New York Times Anatole Kaletsky avisou que manipulação é coisa que faz parte da política cambial, tanto que o presidente americano Ronald Reagan manipulou o câmbio quando fechou o acordo de Plaza, em 1985, que desvalorizou o dólar, e o acordo do Louvre, que em 1987 pôs um fim na desvalorização.
O fato é que a China não faz outra coisa senão colocar em prática, desde a década de 70, a política de seus interesses. Até recentemente, todos os governos, especialmente os dos países ricos, saudavam a disposição de Pequim em seguir comprando títulos do Tesouro dos Estados Unidos e, assim, de contribuir para a derrubada da inflação global.
No âmbito do Bank for International Settlements (BIS), que opera como banco central dos bancos centrais, a política cambial chinesa foi amplamente sabatinada pelos maiores entendidos do assunto do mundo. A China sempre argumentou que pratica um câmbio administrado por meio da compra de todo excesso de moeda estrangeira que pudesse derrubar a cotação do yuan em dólares. Repisa que essas compras são feitas com poupança do povo chinês, que é de 51% do PIB, o que lhe dá condições de esterilizar (por meio de lançamento de títulos) todo volume de moeda nacional usado para adquirir dólares, ou seja, a execução de sua política não produz inflação.
Até agora, nenhuma sumidade em política monetária conseguiu apontar procedimento tecnicamente condenável por parte da China. O que dizem muitas delas é que, a longo prazo, essa atitude não convém à China porque vai matar seu mercado externo. Mas, decididamente, não é o que pensam as autoridades chinesas do alto dos seus US$ 2,5 trilhões em reservas externas. É mais fácil sustentar que o país não está disposto, neste momento, a fazer o jogo das grandes potências. Nem estas parecem à vontade para levar as ameaças de represália às últimas consequências.
Em todo o caso, a questão de fundo não é técnica; é política. Está em saber até quando o governo da China vai suportar as pressões. E até que ponto as autoridades do Ocidente serão capazes de assistir à prostração de suas economias e ao aumento do desemprego sem decretar uma guerra, comercial ou financeira, contra as políticas de Pequim, focadas na exportação de manufaturados.
Confira
A esticada de setembro Precisa acontecer algo muito fora do padrão para que a inflação deste ano escape da meta de 4,5% e exija ação contundente do Banco Central por meio de sua política de juros.
Selic parada O esticão de setembro ainda vai aparecer nos próximos dois ou três meses, mas é improvável que a disparada dos preços dos alimentos, que começou com a alta do trigo, se mantenha por mais tempo. O Banco Central deverá manter até o final deste ano o atual nível dos juros básicos (Selic), de 10,75% ao ano.
O futuro agora!
O futuro agora!
Roberto Freire - BRASIL ECONÔMICO
O segundo turno foi uma conquista da cidadania que não se deixou envolver pela propaganda oficial e os artificiosos números dos institutos de pesquisa. Como já tínhamos observado, na semana passada a necessidade do segundo turno se impunha, entre outras coisas, para que pudéssemos saber que resposta nos dará o próximo presidente sobre questões essenciais.
Quaisquer que sejam essas propostas, uma urge por sua relevância e importância estratégica: o país está maduro para uma efetiva revolução cultural, a ser atingida mediante a transformação do atual processo educativo. Trata-se de um processo longo e difícil, já que o Brasil é um país de cultura participativa recente e, por que não dizer, incipiente.
No entanto tal transformação, mesmo lenta, é essencial para as modificações de fundo de nossa realidade política e social.
Por que defendemos este ponto específico como a chave para uma efetiva transformação de nossa realidade social?
Por estarmos convictos que é radical a transformação de nosso superado sistema educativo, o elemento estratégico que nos garantirá, no decurso de uma década, a base para criarmos uma efetiva sociedade de cidadãos e cidadãos.
Por que a difusão do conhecimento, fruto da melhoria da qualidade do ensino, do básico ao médio, com uma oferta ampla de escolas técnicas e tecnológicas para nossa juventude, em um primeiro momento, tornando a educação uma política de Estado - e não meramente de governo, como hoje - imantará todas as políticas sociais dirigidas para o resgate da cidadania, e não para a formação de clientelas.
Não é o cidadão que deve estar a serviço do Estado, mas o Estado que deve servir ao cidadão. Dessa forma, o Estado e a máquina serão tão úteis e eficazes quanto mais atuante e organizada a cidadania que os sustentam.
No que diz respeito às políticas públicas, nossa contribuição ao programa de um futuro governo Serra tem na educação a pedra de toque das futuras transformações que almejamos para nossa sociedade. Por isso defendemos que façamos de 2011 a 2021 a década da educação.
Isso no exato momento em que nosso maior desafio, enquanto nação, é o de acompanhar as transformações globais que estão ocorrendo agora na superação da sociedade industrial pela sociedade do conhecimento.
Uma política de inclusão e de combate às nossas históricas desigualdades sociais, se não tiver a educação como centro da ação coordenada do Estado, não logrará êxito.
Estamos sendo desafiados a responder a essas questões e garantir a ampliação e aprofundamento do processo democrático, com a efetiva constituição de uma sociedade onde vigoram os direitos e deveres da cidadania. O futuro é agora!
Roberto Freire é presidente do PPS
Canastrice
Canastrice
Nelson Motta - O Globo - 08/10/2010
Na novela "Passione", Gerson é um personagem que tem um vício secreto e se trata com um terapeuta, interpretado não por um ator, mas por um terapeuta de verdade. O Dr. Flávio Gikovate tem um sólido conceito profissional, mas como não é ator e nem tem técnica de interpretação, não está conseguindo convencer como? O que realmente é: um terapeuta competente. Qualquer ator competente, sem entender nada de terapia, mas bem dirigido, seria mais convincente. Às vezes, a tentativa de dar "mais verdade" às cenas pode levar o público a acreditar menos.
Alguns profissionais vitoriosos em outras áreas têm também um talento natural para a interpretação. Entres eles, o diretor de cinema e publicidade Fernando Meirelles destaca Lula como o maior ator em atividade. Mesmo exagerando e sentimentalizando o seu personagem, Lula consegue convencer o público interpretando-o com emoção e eficiência. Pode-se gostar dele ou não, mas Lula raramente é canastrão. Mesmo quando finge acreditar em suas próprias mentiras.
Mas são casos raros, a maioria dos políticos, ao interpretar os seus próprios personagens, revela sua irremediável canastrice. Mas mesmo assim, e por outros meios, vão em frente e conseguem fazer carreiras, apesar da canastrice. Como galãs ou vilões, canastrões têm sempre o seu lugar no cinema e na televisão, porque divertem as massas como caricaturas, e, por contraste, valorizam os atores de verdade. Canastrões fazem história, desde o bíblico Victor Mature de "Sansão e Dalila" ao caubói Ronald Reagan, que canastrava na tela, mas não como presidente dos Estados Unidos, seu melhor papel, que interpretou tão bem que se tornou um grande presidente de verdade.
Dilma e Serra podem ser bons gerentes, ministros ou presidentes, mas interpretando eles mesmos, com script dos marqueteiros, são dois canastrões. Os piores momentos são quando eles tentam parecer mais simpáticos, doces e afetuosos do que são. Pior, só se chorassem. Mas agora a novela acabou e começa o Big Brother.
Uma das vitórias de Marina foi expor essa canastrice, sendo e convencendo como intérprete - e autora - de si mesma.
O fim de um tabu
O fim de um tabu
EDITORIAL - O Estado de S. Paulo - 08/10/2010
A partir de hoje, quando recomeça a propaganda eleitoral na televisão e no rádio, se saberá de que forma e com que intensidade a campanha do tucano José Serra assumirá o legado do governo Fernando Henrique, aceitando enfim, à sua maneira, o desafio da candidata Dilma Rousseff e do seu mentor, o presidente Lula, de confrontar o atual período com o que o antecedeu.
Foi o que os seus principais aliados - a começar do ex-governador mineiro e senador eleito Aécio Neves - defenderam enfaticamente no encontro que marcou a largada para o segundo turno, anteontem em Brasília, com a presença dos governadores e parlamentares eleitos pela coligação oposicionista. Na primeira fase da disputa, pôde-se contar nos dedos de uma mão quantas vezes Serra mencionou o ex-presidente. O seu nome e o termo privatizações eram considerados venenosos. O candidato acusava a rival de ter "duas caras". Ele próprio, porém, tinha uma cara ao sol e outra à sombra.
O mantra de Serra era discutir quem tinha de fato visão, experiência e capacidade para "fazer mais" no pós-Lula. Não funcionou. Se dependesse exclusivamente disso, Dilma seria a esta altura a presidente eleita do Brasil, graças ao seu patrono. Os resultados do 3 de outubro representaram para o tucano, mais do que uma derrota eleitoral, uma derrota política. Ou seja, como diria Marina Silva, "perdeu perdendo". É verdade que também Dilma saiu derrotada politicamente, por ter embarcado na canoa da invencibilidade que o seu chefe conduzia.
Salvo na 25.ª hora por mudanças para as quais não contribuiu - a migração de votos dilmistas para Marina Silva e a preferência pela candidata verde de muitos dos até então indecisos -, Serra acabou premiado com a chance de, na pior das hipóteses, perder ganhando no tira-teima do dia 31. Até hoje, nenhum candidato a presidente e raros candidatos a governador conseguiram virar o jogo no segundo turno. Ainda que o retrospecto se confirme, a oposição pelo menos sairá da peleja com a coluna vertebral no lugar se fizer com que a coerência prevaleça sobre a conveniência.
Se não exatamente com essas palavras, foi seguramente com esse espírito de catar o touro à unha que os serristas partiram para a nova empreitada. "Seja mais Serra do que marketing", exortou, sob intensos aplausos, o ex-presidente e senador eleito, Itamar Franco. Trata-se de adaptar a estratégia de comunicação ao foco político da campanha - e não o contrário. E esse foco só se firmará se o candidato se dispuser a ir além da rememoração das realizações de sua trajetória para encaixá-las na moldura da ideologia que as inspirou - e que chegou ao poder com Fernando Henrique. "Não precisa esconder ninguém", aconselhou Itamar.
"Devemos defender isso com altivez e iniciar o segundo turno falando dele", apontou por sua vez Aécio Neves, credenciado por seu sucesso nas eleições mineiras a ocupar um lugar central na campanha pelo Planalto. O ex-governador mostrou, ele próprio, o que isso significa - e o que Serra não disse no horário eleitoral. "Não teria havido o governo Lula se não tivesse havido o governo Itamar, com a coragem política de lançar o real, e se não tivesse havido o governo FHC, que consolidou e abriu a economia", começou, antes de encarar a questão até aqui tabu.
"Se querem condenar as privatizações, estão dizendo a cada cidadão brasileiro que pegue o celular no seu bolso, na sua bolsa e jogue na lata de lixo mais próxima", provocou. "Foi a privatização do setor que permitiu a universalização de acesso da população, por exemplo, à telefonia celular." Abertas as comportas, Serra lembrou que "o governo Lula continuou a privatizar", citando os casos do Banco do Estado do Maranhão e do Banco do Estado do Ceará, no primeiro mandato. "Se privatizou, não era tão contra."
Ao devolver a bola para o campo do adversário, o PSDB finalmente virou a página da equivocada conduta no segundo turno de 2006, quando o então candidato Geraldo Alckmin ficou na defensiva diante da propaganda lulista que o acusava de desejar a privatização da Petrobrás e do Banco do Brasil. Nesse sentido, o segundo turno de agora é, sim, uma nova eleição.
Tensão e Apreensão no ar
Tensão e Apreensão no ar
Fernando de Barros e Silva - FOLHA DE SÃO PAULO - 08/10/10
Na prancheta, como dizem os boleiros, Dilma Rousseff larga na frente no segundo turno. Isso por vários e bons motivos: o resultado obtido nas urnas (46,9% a 32,6% de Serra), a prosperidade econômica, a popularidade de Lula, a força da máquina federal etc.
Em campo, porém, as coisas não começam bem para Dilma. Surpreendida pelo revés, sua campanha buscou, como em 2006, com Lula, reunir logo aliados eleitos em torno da candidata. O que seria uma demonstração de força acabou lembrando um velório, no qual sobressaía a expressão derrotada (e o rosto muito inchado) da petista.
O QG dilmista procura agora tirar a polêmica do aborto da pauta. Mas de pouco adianta Ciro Gomes dizer que os tucanos propõem o tema "em termos calhordas e desonestos" se Dilma não consegue ser honesta consigo mesma. Seu contorcionismo é tanto nessa matéria que ela se arrisca a enrolar a língua.
A de Ciro, que volta à cena, sempre foi solta. Meses atrás, ao ser alijado por Lula da disputa, ele chamava o PMDB de "roçado de escândalos". Dizia também que "Dilma é melhor do que o Serra como pessoa, mas Serra é mais preparado, mais legítimo, mais capaz. Mais capaz, inclusive, de trair o conservadorismo e enfrentar a crise que conheceremos em um ou dois anos".
Até o PMDB, sempre ciente do seu papel "nesse negócio da governabilidade" (definição impagável de Renan Calheiros), decidiu exibir suas asinhas. Reunido com Michel Temer, o partido reclamou do "anonimato" a que foi relegado e aproveitou para cobrar do PT as derrotas de Geddel e de Hélio Costa.
Tudo isso seria só espuma retórica se todos já não tivessem percebido que o roteiro do segundo turno tende a ser distinto daquele de 2006, onde o PT busca inspiração.
Lá, 15 dias após o primeiro turno, Lula abriu 20 pontos sobre Geraldo Alckmin. Agora, se Dilma tiver metade disso de vantagem, os petistas estarão agradecendo ao Senhor de joelhos - quem sabe até em latim.
Câmbio, Uma guerra silenciosa e cruel
Câmbio, Uma guerra silenciosa e cruel
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - FOLHA DE SÃO PAULO - 08/10/10
O MINISTRO da Fazenda, Guido Mantega, acertou em cheio ao declarar publicamente que vivemos uma verdadeira guerra monetária mundial. Para que sua imagem fosse perfeita, faltou apenas que adicionasse um adjetivo -não declarado- para descrevê-la.
O ministro foi a única autoridade internacional a ter coragem de denunciar a tentativa de usar as taxas de câmbio desvalorizadas como instrumento de estímulo ao crescimento. Fica fácil entender a ousadia do ministro brasileiro: nosso país é um dos que mais vêm sofrendo as consequências negativas dessa guerra escondida.
Mas, se o ministro acertou em cheio em sua denúncia, a decisão de dobrar o valor do IOF, cobrado na entrada de dólares para aplicação nos gordos juros pagos pelo Tesouro brasileiro, mostra que ele ainda não entendeu a dinâmica atual dos mercados de câmbio.
Foi importante dar nome aos bois no momento em que as lideranças mundiais evitam falar publicamente sobre essa questão. Mas o próximo passo será discutir a questão de forma clara e abrangente nos fóruns internacionais, como os próximos encontros do FMI e do grupo dos 20.
O leitor da Folha precisa entender que a guerra de moedas ocorre já há muito tempo e o que estamos vendo agora é uma situação extrema devido à forte recessão econômica no mundo desenvolvido.
Várias economias importantes, como o Japão e a Coreia, e, mais recentemente, a China, usaram de forma sistemática a arma de moedas desvalorizadas em relação às dos países mais ricos -principalmente em relação ao dólar americano- para crescer de forma sustentada.
Mesmo o Brasil usou em seu passado de crises a arma da moeda fraca para dar sustentação às nossas exportações, principalmente as de produtos industriais.
Mas, como a história nunca se repete da mesma forma, a crise bancária nas nações desenvolvidas mudou o cenário mundial e fez com que a política cambial dos países asiáticos ganhasse outra dimensão. Com o crescimento chinês sustentando as economias emergentes e os EUA e a Europa lutando para sair da recessão, a equação do câmbio desvalorizado mudou de sinal.
Em outras palavras, são agora os EUA, a Alemanha e a Itália que precisam exportar para o mundo em desenvolvimento e tentar reverter o quadro recessivo e de altos índices de desemprego em que estão mergulhados. Para tanto, o dólar e o euro precisam se desvalorizar em relação às moedas das nações emergentes para viabilizar o crescimento.
Mas, como sempre acontece nos momentos mais difíceis da economia mundial, não há ainda condições políticas para fazer esse movimento de forma coordenada. E, sem uma atuação conjunta dos bancos centrais no processo de corrigir e de estabilizar as taxas de câmbio, a probabilidade de sucesso de iniciativas isoladas, como a do governo brasileiro, é muito baixa.
O caso do Japão talvez seja mais representativo dessa afirmação de que o ativismo isolado do ministro Mantega está fadado ao insucesso.
Recentemente, o governo japonês mobilizou quase US$ 30 bilhões para tentar trazer o iene para um nível menos destruidor da indústria japonesa e, menos de um mês após esse movimento agressivo, a moeda está mais forte do que antes.
Se o Japão, com juros de 0% ao ano e com uma capacidade de intervenção nos mercados muito maior do que a nossa, não consegue isoladamente evitar o fortalecimento de sua moeda, imagine o Brasil. Com os juros de longo prazo dos títulos emitidos pelo governo brasileiro próximos de 12% ao ano, a decisão de agir isoladamente me parece algo semelhante a "enxugar gelo".
Enquanto escrevia esta coluna, o secretário do Tesouro norte-americano, Timothy Geithner, veio a público propor uma discussão séria e articulada para pôr fim a essa guerra surda.
Os EUA foram parte fundamental para viabilizar a política de moedas fracas adotadas pelas economias da Ásia até hoje, mas já não têm mais condições financeiras e econômicas de continuar com esse papel.
Vacas gordas, vacas magras
Vacas gordas, vacas magras
Eliane Cantanhêde - FOLHA DE S. PAULO
BRASÍLIA - "Tudo o que é bom foi o Lula quem fez, tudo o que dá errado a culpa é dos outros."
A frase, do senador reeleito e ex-governador Cristovam Buarque, depois de trocar o PT pelo PDT, está atualíssima -apesar de seu autor ter recapitulado e caído de volta nos braços de Lula, que o demitiu por telefone, e de Dilma, a melhor aposta de poder.
Esse traço da personalidade -ou da esperteza- de Lula ficou evidente nestas eleições. Quando todo mundo já dava como certo que Dilma não apenas ganharia mas daria um banho histórico, Lula assumiu a dianteira nos palanques e nas manchetes, deixando a própria candidata em segundo plano. Mas, confirmado o segundo turno, o que Lula fez? Não só saiu da linha de frente como sumiu durante dias.
Palanque bom era aquele em que ele podia brilhar, primeiro para deslanchar a candidatura que tirou da cartola, depois para comemorar a "sua" vitória inquestionável e tripudiar sobre os adversários. Ali, valia tudo, até dar de ombros para a compostura de presidente e para a Justiça Eleitoral.
Palanque para admitir a reversão de expectativas, aí já não é com Lula. Foi Dilma quem enfrentou as feras, ladeada por Michel Temer, resgatado pela campanha, e por José Eduardo Dutra, sócio do fiasco de não vencer no primeiro turno. As caras estavam de dar dó.
Lula adora holofotes, discursos e metáforas, mas, depois da apuração (que em nenhum momento passou dos 47%), enfurnou-se no Alvorada para "articulações de bastidores", deixando a Dilma a tarefa de enfrentar a realidade, a irreverência dos jornalistas e a divisão da opinião pública. Ele se exibiu na virtual vitória. Ela botou a cara na hora da "derrota".
Com o reinício da propaganda eleitoral hoje, vamos saber qual dos Lulas ressurgirá na campanha, assim como até que ponto era real o frisson tucano para retirar Fernando Henrique da geladeira.
Guerra insana
Guerra insana
Dora Kramer - O ESTADO DE S. PAULO
Com tanto assunto para ser discutido, a curta campanha para o segundo turno da eleição presidencial começa dominada por uma agenda de caráter religioso e irrelevante do ponto de vista das preocupações nacionais.
Evidente que não há assunto proibido nem momento inadequado para se discutir o que for, inclusive aborto. Mas convenhamos que o tempo é exíguo para que se dê atenção quase exclusiva a um assunto que pode até apaixonar, mas não faz parte da pauta de prioridades do brasileiro.
Não há forças em choque querendo mudar a lei atual e, portanto, trava-se uma discussão sobre teses. Muito justo como parte do debate, mas é totalmente fora do contexto ocupação do espaço todo com a discussão sobre filosofias de vida e concepções religiosas.
E já que o tema surgiu como uma das explicações para que Dilma Rousseff não tenha conseguido se eleger no primeiro turno - por causa de uma campanha de padres e pastores nas respectivas igrejas -, caberia ao PT encerrar o assunto o quanto antes para que o baile prossiga ao som de outras melodias.
Por causa dessa (falsa) celeuma passou quase em branco a conclusão da Receita Federal de que o acesso aos dados do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas, em Minas Gerais foi ilegal e feito por um petista.
O silêncio dos filhos de Erenice Guerra na Polícia Federal, contrastando com o barulhento tom da primeira nota oficial da mãe chamando a todos de caluniadores, mereceu canto de página e nem parece que outro dia mesmo se descobriu uma central de corrupção funcionando a partir da Casa Civil da Presidência da República.
Essa questão também não causou desconforto no eleitor e não fez Dilma perder votos? Ao menos foi essa a avaliação do PT no dia seguinte.
O PT gostaria e o presidente Luiz Inácio da Silva já "ordenou" que a candidata fuja do assunto aborto. O problema é que não é assim que se vira a página. Só será possível fazê-lo mediante uma tomada definitiva de posição por parte de Dilma Rousseff.
Senão, ganha enorme relevância outro aspecto: a mudança de opinião para atender a uma conveniência eleitoral.
Dilma ao que se saiba nunca se pronunciou a favor do aborto. Ninguém é favorável à interrupção da gravidez. Apenas umas pessoas acham que quando isso acontece por alguma circunstância não pode ser punido como crime; outras consideram que equivale a assassinato e um terceiro grupo admite o aborto sob determinadas condições.
O que deu para entender até agora sobre a posição da candidata é que é favorável à descriminalização. Ela e muitas mulheres no Brasil e no mundo.
Por que, então, o escarcéu? Porque o PT resolveu incluir o assunto em seu programa de governo e porque grupos religiosos radicalmente contrários ao aborto fizeram campanha anti-Dilma.
Detectado o movimento, tentou-se contornar o problema com um remendo mal costurado, um gesto artificial, imaginando que a parada estaria ganha em 3 de outubro.
Não estava. O passivo acumulou-se e explodiu quando institutos de pesquisas atribuíram o segundo turno à pregação religiosa.
A saída seria uma manifestação coerente e convincente da candidata. Mas aí é que está o xis da questão: do modo como estão as coisas, Dilma não pode ser ao mesmo tempo coerente e convincente. Ou consegue conciliar as duas posições ou não vai superar esse insano impasse.
De uma vez. Assim que o próximo recurso de candidato ficha-suja chegar ao Supremo Tribunal Federal entidades que se organizaram em favor da Lei da Ficha Limpa pedirão que o desempate não espere o preenchimento da vaga do ministro Eros Grau.
Segundo o presidente da OAB, Ophir Cavalcanti, isso "politizaria" a nomeação.
Na prática deixaria o desempate nas mãos do presidente da República, criaria um debate político na sabatina do Senado e também abriria uma brecha para que, dependendo da escolha, favoráveis ou contrários à aplicação imediata da lei contestassem a imparcialidade do nomeado para julgar.
As marcas eternas do Holocausto. Três depoimentos
As marcas eternas do Holocausto. Três depoimentos
Na manhã de primavera do dia 28 de setembro, jovens de 13 e 14 anos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Profªa Maria Gusmão Britto de São Leopoldo tiveram a oportunidade de sentir de perto os dramas e as dificuldades vividas por milhões de pessoas durante a Segunda Guerra Mundial. O encontro foi organizado pelo Instituto Cultural Judaico Marc Chagal, pela Associação Beneficente e Cultural B’nai B’rith do Brasil Região Sul e pela E.M.E.F.
O painel “Holocausto. Compromisso moral e lições de solidariedade” foi um evento não obrigatório para os alunos, entretanto, todos estiveram presentes, tendo a oportunidade de escutar depoimentos de sobreviventes da guerra. Os palestrantes foram Max Wachsman Schanzer, Johannes Melis e Bernard Kats, que sofreram de formas diferentes o drama da perseguição e da morte.
Confira os depoimentos.
Em 1939 foi quando tudo começou.
Nascido em 1928 na Polônia, Max Wachsman Schanzer, vivia com seus pais, dois irmãos e três irmãs. Com o início da guerra, Max e sua família foram confinados. Ele, sua família e mais 40 mil pessoas dividiam um pequeno espaço de trabalho, vivendo em condições desumanas. “Muitas pessoas morreram de fome e de doenças”, conta. Em 1943 os judeus foram convocados para uma seleção pelos nazistas. A família Schanzer não foi. “Os policiais alemães descobriram o nosso esconderijo e separaram minha família. Meus pais foram levados direto para câmaras de gás e eu e meus irmãos para campos de concentração diferentes”, lembra Max.
O trabalho era escravo. Eram mais de 14 horas por dia de labuta e a alimentação consistia em pão e água. “Não sei como sobrevivi. Aquilo lá era uma fábrica de escravos”, conta. Além disto, em 1944, Max foi levado para outro campo de concentração onde eram fabricados tanques e armamentos. Max sofreu. “Eu trabalhava na rua passando um frio brutal. Foi quando resolvi fugir”.
A primeira tentativa de Max foi esconder-se embaixo de um colchão. Foi descoberto. Como forma de punição levou 50 chicotadas, desmaiando na chicotada número 35. No último ano de guerra, 1945, a Alemanha já estava prestes a perder e milhares de pessoas já procuravam formas de fugir, entre eles, Max. “Caminhamos dia e noite sem comida, doentes, fracos e tínhamos que escapar dos bombardeios dos americanos. Éramos 500, sobraram 80. Graças a Deus o inferno estava terminando”. No dia 07 de maio de 1945, data em que foi assinada a rendição da Alemanha, Max foi libertado pelo exército Russo.
Encerrada a guerra Max queria recomeçar sua vida. Iniciou procurando a sua família, encontrando seus irmãos. Com a tensão da Guerra Fria, em 1950, e com o temor de que todo o terror recomeçaria os europeus passaram a migrar para as Américas. “Eu escolhi como destino o Brasil. Em 1953 desembarquei em São Paulo e então viajei para o Rio Grande do Sul onde havia predominância alemã”, conta. Em 1954, Max se mudou para Porto Alegre, onde casou e teve filhos e netos. “Só tenho que agradecer ao Brasil que me acolheu com seu clima tropical e com sua paz. O Brasil é melhor país do mundo, vocês não tem ideia. Aqui é maravilhoso”, finaliza Max.
Um exemplo de solidariedade.
O segundo depoimento foi de Johannes Melis que nasceu na Holanda, país invadido em 1940 pelos nazistas. “Por ter sido invadido posteriormente, nós conseguimos nos preparar. Meu pai fez diversos esconderijos pela casa, no sótão, jardim, na despensa de batatas e embaixo da pia da cozinha. Já minha mãe fez compotas e guardou muitos alimentos”, revela Melis. Seriam necessários muitos esconderijos e muito alimento.
No decorrer da guerra, a família de Melis passou a refugiar judeus e soldados em sua casa. “Eu tremia de medo quando os soldados alemães revistavam nossa casa, pois estávamos dando refugio para muitas pessoas”, conta. Quando os aliados começaram a invadir a Europa foi quando a guerra realmente começou de verdade. Fugindo dos cada vez mais freqüentes embates, Mélis e sua família se esconderam e, descobertos pelo exército aliado, foram salvos. “Viemos então para o Brasil, onde ficamos no Rio de Janeiro e depois fomos para o sul. Não há país como o Brasil”, ressalta. Após a guerra, o pai de Johannes recebeu inúmeras homenagens de autoridades e das famílias das pessoas que a família auxiliou durante a guerra.
As marcas da guerra.
“Durante mais de 50 anos não consegui superar minhas memórias”, inicia Bernard Kats. Holandês e judeu, Bernard tinha somente quatro anos quando a guerra iniciou. Com cinco anos viu seu pai sendo arrancado de casa pelo exército nazista. “Poucas semanas depois uma carta da Cruz Vermelha chegou a nossa casa. Ela dizia que meu pai havia morrido. Até hoje vejo minha mãe na frente de casa com aquela carta na mão. Ela ficou grisalha da noite para o dia”, relembra Bernard.
Bernard teve sete endereços diferentes durante a guerra, tendo sido acolhido junto com sua irmã por uma família protestante. Todas as noites ele falava alguns ensinamentos em hebraico que foram se perdendo com o tempo. “Contudo, a família nos ensinou como agradecer e pedir amparo durante a noite”, conta. Durante o tempo em que ficou escondido na casa dos seus “pais adotivos”, como ele mesmo os trata, Berdard criou laços afetivos com a família. “Eles tinham uma filha e até hoje tenho contato muito forte ela”, revela Bernard, que após o fim da guerra conseguiu migrar para o Brasil. Hoje ele mora com sua família em Porto Alegre.
“Até hoje tenho um sentimento de culpa muito grande dentro de mim. Milhões de pessoas morreram, inclusive parte da minha família. Porque sobrevivi? As marcas da guerra seguem no meu cotidiano, desde a forma como estaciono o meu carro até a necessidade de fechar todas as janelas e persianas no chegar da noite. O nervosismo da guerra ficará para a vida inteira. Para aceitar certas coisas na vida só mesmo com o tempo”, finaliza.
As reflexões.
Questionados se contavam para seus filhos as histórias vividas na Segunda Guerra Mundial, Max Schanzer foi enfático em sua resposta. “É uma obrigação que temos em passar isso para os mais jovens. Precisamos evitar que cresçam ditadores e pensamentos ditatoriais. Não podemos reviver aquele momento da história”, ressalta.
As histórias mexeram com os jovens e adultos que acompanharam as falas com olhos vidrados e respirações silenciosas. Bastava olhar para os lados para perceber que a dor permanecia nos olhos de muitas pessoas ligadas as famílias dos palestrantes, ou então as lágrimas de jovens que não conseguiam medir a intensidade daquelas vivências. “É através deste momento que temos que refletir sobre a tolerância, sobre a aceitação, sem priorizar questões como religião ou raça. Precisamos fazer o mundo mais humano”, ressalta Ieda Gutfreind, presidente do ICJMC.
A troca de experiências entre os alunos e os palestrantes iniciou com uma apresentação de um vídeo sobre o conhecimento dos estudantes sobre o holocausto e foi encerrada com uma apresentação teatral dos alunos, que retratava as dores e a esperança de quem viveu essa terrível parte da história.
Era uma simples manhã nublada que, com certeza, ficará na memória de todos.
Fonte: Unisinos
FMI quer solução conjunta para guerra cambial
FMI quer solução conjunta para guerra cambial
Strauss-Kahn afirma ao "Le Monde" que "baixo valor do yuan está na raiz das tensões da economia mundial"
Fernando Eichenberg* - O Globo
O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, defendeu ontem medidas para que se encontre uma solução coordenada para acabar com a atual "guerra cambial", em que a China é acusada de produzir um efeito dominó ao manter sua moeda, o yuan, artificialmente desvalorizada frente ao dólar. No mês passado, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, dissera haver uma guerra cambial no mundo.
- Eu mesmo tenho usado esse termo (guerra cambial), que é talvez demasiado militar, mas é verdade dizer que muitos consideram sua moeda uma arma, e isso não é certamente bom para a economia mundial - disse Strauss-Kahn na abertura do encontro anual de FMI e Banco Mundial (Bird), em Washington.
Para Stiglitz, EUA fazem "desvalorização competitiva"
O diretor do Fundo sublinhou que "não há solução doméstica" para a crise e reafirmou a necessidade de iniciativas internacionais conjuntas para consolidar a retomada do crescimento econômico. Perguntado sobre as exigências da China em ter maior poder decisório no FMI e, ao mesmo tempo, agir de forma unilateral contra os interesses da estabilidade econômica mundial, Strauss-Kahn respondeu:
- Mais os mercados emergentes terão voz e representação no Fundo, mais terão responsabilidade na estabilidade do sistema. Estar no centro do sistema requer mais responsabilidade em relação ao que se faz e às consequências do que se faz na economia global.
Em entrevista ao jornal francês "Le Monde", o número um do FMI foi bem mais direto. "O baixo valor do yuan está na raiz das tensões da economia mundial que estão se transformando em ameaças. Se quisermos evitar a criação de condições para uma nova crise, a China precisa acelerar o processo de valorização da moeda".
Strauss-Kahn, no entanto, descartou uma reprise do Acordo de Plaza, fechado em 1985 por Japão, Alemanha, Grã-Bretanha e Estados Unidos para desvalorizar o dólar. Ele afirmou que a recuperação econômica mundial ainda é "muito frágil", principalmente em Europa e EUA, e destacou o forte crescimento registrado em países da América do Sul e da Ásia, regiões em que "a crise acabou". Mas ele não acredita na possibilidade de uma nova recessão.
Mas nem todos concordam com o FMI. O prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz afirmou que os EUA têm sua parcela de culpa, revelou em seu blog Chrystia Freeland, editora da Reuters. Em evento promovido pelo consulado do Canadá em Nova York na noite de quarta-feira, ele disse que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) promove uma "desvalorização competitiva" do câmbio.
"Nós dizemos, "Não estamos engajados em uma desvalorização competitiva. Isso é o que a China faz. Não manipulamos nossa moeda. Tudo o que fazemos é política monetária comum". Mas a consequência da política monetária comum é a desvalorização competitiva", afirmou Stiglitz.
Já o presidente do Banco Mundial (Bird), Robert Zoellick, disse que os líderes mundiais precisam acalmar as tensões globais - o que inclui o problema do câmbio - para evitar uma repetição dos erros da Grande Depressão.
- Se cairmos em um conflito ou em formas de protecionismo, corremos o risco de repetir os erros da década de 1930 - afirmou Zoellick.
Número 2 do Fundo elogia Brasil e receita ajuste fiscal
Strauss-Kahn ainda voltou a defender um tipo de taxação sobre o sistema financeiro, que alimentaria um fundo de socorro para futuras crises mundiais. E se disse otimista sobre a possibilidade de se chegar a um acordo, até janeiro de 2011, em relação à reforma das cotas de representação dos membros do FMI. Ele acredita que pelo menos 5% das cotas dos países ricos sejam transferidas para os emergentes.
O vice-diretor-gerente do FMI, John Lipsky, por sua vez, elogiou o desempenho da economia brasileira, mas recomendou maior controle dos gastos públicos e ajustes fiscais:
- Este é um momento muito favorável para a economia brasileira e para as novas autoridades brasileiras aproveitarem para estabelecer as bases de um crescimento forte e sustentável.
Para o representante brasileiro no Bird, Rogério Studart, enquanto não houver uma solução coordenada para tratar dos efeitos da crise - como o fluxo de capital e a tensão cambial -, os países terão de tomar medidas individuais:
- O que não é o ideal. Mas se não tivéssemos tomado medidas, poderia ser pior. Enquanto não houver uma solução coordenada, cabe às economias nacionais tomarem medidas necessárias. E cabe aos órgãos internacionais apoiarem os países na proteção dos seus interesses.
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