| RENDIÇÃO Dilma e Serra com auréolas de santidade. Os candidatos se curvam ao voto religioso e põem Deus no discurso |
quarta-feira, outubro 13, 2010
BRASIL - A fé entrou na campanha
BRASIL
A fé entrou na campanha
Como o debate sobre Deus e o aborto interfere no segundo turno das eleições – e pode inaugurar uma nova fase na política brasileira
Ivan Martins e Leonel Rocha. Com Kátia Melo, Martha Mendonça, Nelito Fernandes, José Alberto Bombig e Guilherme Evelin – REVISTA ÉPOCA
A religião não é um tema estranho às campanhas políticas no Brasil. A cada par de eleições, o assunto emerge da vida privada e chega aos debates eleitorais em favor de um ou outro candidato, contra ou a favor de determinado partido. Em 1985, o então senador Fernando Henrique Cardoso perdeu uma eleição para prefeito de São Paulo depois de um debate na televisão em que não respondeu com clareza quando lhe perguntaram se acreditava em Deus. Seu adversário, Jânio Quadros, reverteu a seu favor uma eleição que parecia perdida. Quatro anos depois, na campanha presidencial que opôs Fernando Collor de Mello a Lula no segundo turno, a ligação do PT com a Igreja Católica, somada a seu discurso de cores socialistas, fez com que as lideranças evangélicas passassem a recomendar o voto em Collor – que, como todos sabem, acabou vencendo a eleição.
Esses dois episódios bastariam para deixar escaldado qualquer candidato a um cargo majoritário no país. Diante de questões como a fé em Deus, a posição diante da legalização do aborto ou a eutanásia, ou o casamento gay, o candidato precisa se preparar não apenas para dizer o que pensa e o que fará em relação ao assunto se eleito – mas também para o efeito que suas palavras podem ter diante dos eleitores religiosos. Menosprezar esse efeito foi um dos erros cometidos pela campanha da candidata Dilma Rousseff, do PT. Nos últimos dias antes da eleição, grupos de católicos e evangélicos se mobilizaram contra sua candidatura por causa de várias declarações dela em defesa da legalização do aborto. Numa sabatina promovida pelo jornal Folha de S.Paulo, em 2007, Dilma dissera: “Olha, eu acho que tem de haver a descriminalização do aborto”. Em 2009, questionada sobre o tema em entrevista à revista Marie Claire, ela afirmou: “Abortar não é fácil pra mulher alguma. Duvido que alguém se sinta confortável em fazer um aborto. Agora, isso não pode ser justificativa para que não haja a legalização. O aborto é uma questão de saúde pública”. Finalmente, em sua primeira entrevista como candidata, concedida a ÉPOCA em fevereiro passado, Dilma disse: “Sou a favor de que haja uma política que trate o aborto como uma questão de saúde pública. As mulheres que não têm acesso a uma clínica particular e moram na periferia tomam uma porção de chá, usam aquelas agulhas de tricô, se submetem a uma violência inimaginável. Por isso, sou a favor de uma política de saúde pública para o aborto”.
Tais declarações forneceram munição para uma campanha contra Dilma que começou nas igrejas, agigantou-se na internet e emergiu nos jornais e na televisão às vésperas do primeiro turno. Foi como se um imperceptível rio de opinião subterrâneo se movesse contra Dilma. Esse rio tirou milhões de votos dela e os lançou na praia de Marina Silva, a candidata evangélica do PV. Segundo pesquisas feitas pela campanha de Marina, aqueles que desistiram de votar em Dilma na reta final do primeiro turno – sobretudo evangélicos – equivaleriam a 1% dos votos válidos. Embora pequeno, foi um porcentual que ajudou a empurrar a eleição para o segundo turno, entre Dilma e o candidato José Serra, do PSDB. Mais que isso, a discussão sobre a fé e o aborto se tornou um dos temas centrais na campanha eleitoral.
A polêmica religiosa deu à oposição a oportunidade de tomar a iniciativa na campanha política, pôs Dilma e o PT na defensiva e redefiniu o segundo turno. Na sexta-feira, quando foram ao ar as primeiras peças de propaganda eleitoral gratuita, o uso da carta religiosa ficou claro. Dilma agradeceu a Deus, se declarou “a favor da vida” e disse que é vítima de uma “campanha de calúnias”, como ocorreu com Lula no passado. O programa mencionou a existência de “uma corrente do mal na internet” contra ela. Serra se apresentou como temente a Deus, defensor da vida e inimigo do aborto (apesar de seu partido, o PSDB, ter apresentado nos anos 90 um projeto de legalização do aborto no Senado). Pôs seis grávidas em cena e prometeu programas federais para “cuidar dos bebês mesmo antes que eles nasçam”.
Agora, atônito, o mundo político discute que tipo de efeito a discussão sobre valores religiosos terá sobre a votação de 31 de outubro. E como ela afetará o Brasil no futuro. Tradicionalmente, o cenário político brasileiro tem sido dominado por temas de fundo econômico – como inflação, desemprego, previdência e salário mínimo – ou social – como pobreza, segurança, educação e saúde. Mas a elevação do padrão de vida dos pobres e a superação das necessidades elementares de sobrevivência podem ter começado a abrir espaço para aquilo que, em democracias mais maduras, é conhecido como “agenda de valores”. Ela reúne temas como fé, aborto, eutanásia, ensino religioso, casamento entre homossexuais ou pesquisas com manipulação genética. “Ninguém mais vai se eleger para um cargo executivo facilmente com um programa que prevê a legalização do aborto”, afirma Ary Oro, estudioso de religião e política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “É impossível ignorar a força numérica, demográfica e eleitoral da religião.”
A onda emocional que Dilma está enfrentando pode ser avaliada pelo depoimento do evangélico carioca Otacílio Galdino Soares, de 34 anos. Ele diz que planejava votar em Dilma no primeiro turno – “por causa de Lula” –, mas mudou de ideia. “Ouvi na igreja que ela é a favor do casamento gay, isso é uma coisa abominável aos olhos de Deus”, diz Galdino. Frequentador da igreja Casa da Bênção e morador de Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, ele está desempregado. Diz-se satisfeito com o governo, mas começou a ter informações ruins sobre Dilma com o pastor e outros fiéis. “A notícia corre, o boca a boca é forte”, afirma. “Ouvi que ela disse que nem Jesus Cristo tirava essa eleição dela. Como alguém pode achar que é maior do que Deus?” Dilma nega ter dito essa frase infeliz, mas o boato, alimentado pelo jogo sujo da política, prevaleceu.
A reação defensiva da campanha de Dilma revela que ela não estava preparada para esse embate. Isso já era perceptível na entrevista que concedeu a ÉPOCA em fevereiro. Por três vezes, a reportagem perguntou se ela acreditava em Deus. Até que, enfim, se deu o seguinte diálogo:
– A senhora acredita em Deus?
– Não sei se é o seu Deus, mas eu acredito numa força maior do que a gente.
– Mas uma religião específica, a senhora não tem?
– Não, mas respeito. Você tem de respeitar todas as religiões.
Diante da mesma questão, eis como Serra reagiu:
– O senhor acredita em Deus?
– Acredito.
– Pratica alguma religião?
– Eu sou católico. Não sou militante, digamos assim, mas sou católico.
Respondendo sobre a legalização do aborto a ÉPOCA, Serra disse: “Se eu vier a ser presidente da República, não vou propor mudança na lei atual, mas vou permitir que essa discussão se tenha amplamente no Brasil, no âmbito do Congresso, eventualmente até por meio de consulta à população”. Marina, evangélica da Assembleia de Deus, foi ainda mais clara sobre o assunto: “Eu não sou a favor. E eu defendo um plebiscito para isso. Não é uma questão fácil e deve ser debatida pela sociedade.”
Na semana passada, durante uma entrevista em Belo Horizonte, Dilma voltou a falar em aborto. Disse que o assunto tem de ser tratado como “questão de saúde pública” em benefício das mulheres pobres que recorrem a tratamentos clandestinos e perigosos feitos à margem da lei. “Como presidente da República, não posso deixar de encarar essa questão.” Dilma não explicou como pretende “encarar” o problema, mas afirma que a descriminalização do aborto não constará de seu programa de governo e que não vai mexer na lei que limita a pratica aos casos de estupro e de risco à saúde da mãe.
Para religiosos como o padre Berardo Graz, coordenador do Movimento em Defesa da Vida da diocese de Guarulhos, na Grande São Paulo, a garantia não é suficiente. “Só o PT coloca a legalização do aborto em seu estatuto”, diz. A rigor, o programa do Partido Verde também defende a “legalização da interrupção voluntária da gravidez”. Serra, quando ministro da Saúde, também incorreu na ira dos religiosos ao regulamentar, em 1998, os procedimentos técnicos que permitiram a prática do aborto nos casos previstos pela lei. “Serra cometeu um pecado mortal, mas o PT cometeu uns 12”, diz Graz.
Os religiosos também protestam contra o tratamento liberal que o PT dispensa à homossexualidade. Muitos pastores evangélicos e padres católicos percebem nos movimentos em defesa dos direitos homossexuais uma ameaça direta à família. Eles reagem visceralmente aos planos de legalização do casamento gay e à adoção de crianças por casais do mesmo sexo. Sobretudo, sentem-se ameaçados pelo que está sendo chamado nos templos evangélicos de “lei da mordaça” – o Projeto de Lei no 122, aprovado na Câmara em 2006, mas ainda em tramitação no Senado, que tipifica como crime qualquer tipo de preconceito contra homossexuais. Padres e pastores que fazem discursos agressivos contra os homossexuais poderão ser considerados criminosos se a lei for aprovada. Os pentecostais consideram o homossexualismo como pecado e há pastores que prometem eliminá-lo pela fé.
No meio evangélico confunde-se esse Projeto de Lei com o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH), uma peça polêmica sem poder legal que usa expressões estranhas como “desconstrução da heteronormatividade” (que significa, em bom português, acabar com a ideia de que apenas o heterossexualismo é normal). O PNDH foi percebido nos templos como um ataque à família e aos valores religiosos. “No PNDH há uma cláusula que proíbe criticar os homossexuais. Isso causou muita revolta. É um ataque a nossa liberdade de expressão”, diz o pastor Adarlei Martins, da Assembleia de Deus de São Paulo.
A emergência dessas questões na campanha surpreendeu quem não acompanha o debate religioso. Mas os sinais de que essa onda viria estavam disponíveis. Ao vasculhar a internet ou conversar com líderes católicos e evangélicos, percebe-se que as discussões em torno do aborto e dos direitos homossexuais estão em fermentação nos bastidores há meses, senão anos. No meio católico, um documento de 3 de julho, intitulado Apelo a todos os brasileiros e brasileiras, enumerava dez razões para que o PT seja considerado pró-aborto – e recomendava que os fiéis votassem noutro partido. No final de agosto, o Apelo foi distribuído por três bispos da Regional Sul da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e causou um racha na Igreja. A CNBB desautorizou o documento. Ainda assim, o texto circulou nas igrejas. Em meio aos debates, ganharam visibilidade os críticos católicos mais veementes de Dilma, como o bispo de Guarulhos, Luiz Gonzaga Bergonzini. Desde julho, ele tem falado e escrito contra Dilma – e promete prosseguir com sua pregação no segundo turno. “Da minha parte, não muda absolutamente nada”, disse. “Ela tem declarações claríssimas a respeito do aborto. Ou ela não falava com sinceridade naquela época ou não está falando agora.”
Do lado evangélico, mais pulverizado, um dos maiores agitadores tem sido Paschoal Piragine Junior, o carismático pastor da Primeira Igreja Batista de Curitiba. No culto de 3 de setembro, ele decidiu orientar os fiéis sobre o voto com um vídeo emocional e confuso, em que abusa de imagens chocantes e mistura aborto, drogas, pedofilia e homossexualismo. Ao final da exibição, Piragine conclama o eleitor a votar contra Dilma. O vídeo, de 11 minutos, ganhou a internet e foi visto por 2,9 milhões de pessoas. Acabou exibido e discutido em templos de todo o país, por seguidores de outras denominações evangélicas. Piragine foi criticado por líderes batistas, cuja igreja tem uma longa tradição de isenção política. Assim como o bispo de Guarulhos, mantém sua posição. “Nunca havia feito uma orientação tão direta aos fiéis da minha igreja, mas se tratava de uma questão urgente”, diz. “Se eu me calasse, estaria sendo omisso.”
Estaríamos diante da primeira eleição brasileira dominada por temas de fé? Na eleição presidencial de 2002, o voto atribuído ao candidato Anthony Garotinho já estava associado à presença evangélica (leia no quadro abaixo). Uma pesquisa feita naquele ano pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) mostrou que os templos e as igrejas são os principais pontos de informação sobre a política para muitos evangélicos. Mas é preciso saber relativizar essa força e tomar cuidado para não superestimar a agenda religiosa. Entre os católicos, as defecções que podem ser atribuídas à questão do aborto não chegaram a influenciar no resultado final obtido por Dilma. Segundo o sociólogo Ricardo Mariano, da PUC do Rio Grande do Sul, especialista no estudo de influência da religião no voto e na política no Brasil, uma explicação para isso é que os evangélicos têm escolaridade e renda mais baixa e estão menos expostos à mídia que os católicos e, portanto, mais sujeitos à influência das lideranças religiosas.
“A religião nesta eleição tem sido apenas um pretexto para atacar um dos candidatos”, diz Edin Abumanssur, do Departamento de Ciências Religiosas da PUC de São Paulo. Ele duvida que uma discussão semelhante se repita no futuro próximo. “A religião no Brasil não pesa de forma permanente na política como acontece nos Estados Unidos, onde isso é cultural.” Outro estudioso, Antônio Flávio Pierucci, da Universidade de São Paulo (USP), um dos maiores especialistas brasileiros em sociologia da religião, diz que não estamos diante de um autêntico movimento “de baixo para cima”, em que os valores dos fiéis se impõem às lideranças políticas. “Não são os fiéis que estão levantando a questão do aborto, mas os líderes religiosos. São pastores, padres, bispos”, diz. “Estamos falando de religiosos politicamente conservadores, de movimentos religiosos de direita.”
Embora no início restrito, esse movimento atendeu perfeitamente às necessidades da oposição. O PSDB identificou uma fraqueza na adversária e não vai mudar de assunto enquanto ele reverberar. Os cálculos do partido sugerem que ainda é possível ganhar 5% a mais de votos no universo do eleitorado religioso. Para isso, Serra aposta no contato com líderes carismáticos e em reforçar o discurso do candidato pelos valores cristãos (leia a reportagem). Integrantes do PSDB e da campanha acham que Dilma poderá cair numa armadilha parecida com a que capturou Geraldo Alckmin em 2006. No segundo turno daquela eleição, o PT acusou Alckmin de “privatista”, sem que houvesse nenhuma declaração dele que sustentasse a afirmação. Alckmin, adversário de Lula, reagiu vestindo uma jaqueta com a logomarca de todas as empresas estatais brasileiras e negando com veemência a intenção de vender o patrimônio público. Não funcionou. Ele adotou a agenda imposta pelos adversários e perdeu.
Para tentar neutralizar a onda religiosa anti-Dilma, a coordenação petista passou a usar depoimentos de líderes católicos e evangélicos no site da candidata. Os primeiros cinco depoimentos foram ao ar na quinta-feira. Entre os líderes, o bispo Manoel Ferreira, líder de uma das duas grandes correntes da Assembleia de Deus, e o professor Gabriel Chalita, deputado federal eleito por São Paulo. Ex-tucano até o ano passado, Chalita é um dos pregadores da TV Canção Nova, dirigida por bispos da corrente católica Renovação Carismática, que promoveu os ataques mais duros a Dilma nos últimos dias, em missas ao vivo pela TV. “A ministra disse que é contra o aborto, que defende a vida”, diz Chalita. “Dilma foi clara em dizer que é contra o aborto”, afirma Manoel Ferreira.
Além dos depoimentos, os líderes religiosos formaram um grupo para correr o país e tentar reduzir o estrago causado pelos boatos contra Dilma. Além de Chalita e Ferreira, fazem parte da equipe os senadores eleitos Magno Malta (PR-ES), da Igreja Batista de Vitória, Marcelo Crivella (PRB-RJ), ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, e Walter Pinheiro (PT-BA), da Igreja Batista tradicional. Todos se comprometeram a pregar a favor de Dilma. Foi incorporado ao grupo o deputado Bispo Rodovalho (PP-DF), líder da igreja Saara Nossa Terra. “A mentira não tem sustentação. Dilma tem compromisso público em defesa da família, da vida e contra o aborto”, diz Rodovalho.
Na quinta-feira, a coordenação da campanha de Dilma divulgou um manifesto com função parecida à da Carta aos Brasileiros, lançada em 2002. Na ocasião, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva se comprometia a manter a estabilidade da moeda pública e mecanismos como as metas de inflação e a lei de responsabilidade fiscal. Agora, tenta-se blindar Dilma da polêmica religiosa. “Tentar introduzir o ódio entre as comunidades religiosas é um crime. Viola as melhores tradições de tolerância do povo brasileiro, admiradas em todo o mundo”, diz o manifesto. “O Brasil republicano é um Estado laico que respeita todas as convicções religiosas.” O presidente do PT, José Eduardo Dutra, pediu também à Polícia Federal a abertura de um inquérito para investigar a distribuição de um panfleto apócrifo, num encontro de PSDB e DEM na quarta-feira passada, com acusações contra Dilma.
A propaganda política da sexta-feira deixa claro que a onda religiosa se impôs aos candidatos. O horário eleitoral transformou-se, de uma hora para outra, num espaço de louvação a Deus – por gente que, no passado, nunca fora vista usando linguagem religiosa em público. Isso pode ser interpretado como hipocrisia ou pode ser visto como uma saudável imposição dos valores dos crentes a suas lideranças. Mas mostra a força da religião, e como ela avançou sobre o espaço político.
Privatização da Vale e aparelhamento de fundos confrontam Dilma e Serra
Privatização da Vale e aparelhamento de fundos confrontam Dilma e Serra
Chico Otavio - O GLOBO
Empresa cresceu, está em mais de 40 países e fatura quase R$ 50 bi
A privatização da Vale, ocorrida há mais de 13 anos, também opôs, na noite de domingo, José Serra e Dilma Rousseff no debate da Band. A candidata do PT, para associar o candidato à venda de empresas públicas, disse que Serra foi um dos tucanos que mais lutaram pela desnacionalização da Vale. Serra, em resposta, disse que a empresa de mineração continua em poder do setor público, representado pelos fundos de pensão das estatais, e que o PT “está tirando casquinha” da situação.
Hoje, a Vale é um conglomerado atuando em mais de 40 países. De 2002 a 2009, seu faturamento saltou de R$ 15,2 bilhões para quase R$ 49,8 bilhões — mas o número do ano passado ainda foi afetado pela crise, pois em 2008 ela teve receita de R$ 72,7 bilhões.
Vendida em maio de 1997, no governo do tucano Fernando Henrique Cardoso, a Vale é hoje controlada pela Valepar, holding que detém 53,5% das ações ordinárias da empresa (com direito a voto). Com 21,21% da Valepar, a Bradespar é a responsável pela indicação do presidente, Roger Agnelli, que ocupa o cargo desde 2001.
Os outros acionistas são a japonesa Mitsui (18,24%), a BNDESpar (11,51%) e a Litel Participações (49%), um fundo de investimentos que reúne as fundações Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras), Funcef (Caixa Econômica Federal) e Fundação Cesp.
Opositores acusam o governo, como fez Serra no debate, de aparelhamento político dos fundos de pensão. No escândalo do mensalão, por exemplo, um dos alvos das investigações foi Luiz Gushiken, então ministro da Secretaria de Comunicação, que seria sócio oculto de uma empresa de assessoria de fundos de pensão, a Globalprev.
No ano passado, em meio à crise econômica, os fundos de pensão voltaram ao centro da polêmica. Supostamente disposto a remover Agnelli do cargo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria pressionado os fundos a construir um cenário para a substituição do presidente, que fica até 2011.
Na ocasião, Lula ficou sabendo da demissão de dois mil trabalhadores da Vale pela imprensa. Se irritou ainda mais com a demissão de Demian Fiocca, ex-braço direito do ministro Guido Mantega, da diretoria da empresa. O Planalto também se incomodou com a presença de tucanos em cargos de comando.
Mas a soma da participação do BNDESpar com a Litel (62%) não é suficiente para garantir uma mudança. O Bradesco quer manter Agnelli.
Fé foi essencial para resgate, diz presidente do Chile
Fé foi essencial para resgate, diz presidente do Chile
12/10/2010 22h40 - Por Efe
Desemprego cresce entre os mais pobres
Desemprego cresce entre os mais pobres
Segundo estudo do Ipea, taxa na classe baixa subiu de 20% para 26% de 2004 para cá. Entre os mais ricos caiu de 4% para 1,4%
Marcelo Rehder - O Estado de S. Paulo
A parcela mais pobre da população desempregada não foi beneficiada pela reativação do mercado de trabalho nas seis principais regiões metropolitanas do Brasil. Entre agosto de 2004 e agosto deste ano, a taxa de desemprego dos 20% mais pobres (com renda per capita domiciliar inferior a R$ 203,3 por mês) saltou de 20,7% para 26,27%, enquanto o desemprego total caiu de 11,4% para 6,7%.
Entre os 20% mais ricos (com renda per capita domiciliar superior a R$ 812,3 mensais) a taxa de desocupação despencou de 4,04% para 1,4% nesse mesmo período.
As informações são de levantamento inédito feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com base nos dados da pesquisa mensal de emprego do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Os números apontam para uma realidade mais dramática. Por si só, o forte crescimento da economia e do emprego formal não está sendo suficiente para fazer com que os mais pobres possam ter as mesmas oportunidades que as pessoas com maior renda têm de encontrar uma ocupação.
"As dificuldades enfrentadas por essas pessoas estão diretamente relacionadas com a baixa escolaridade", afirma o presidente do Ipea, Márcio Pochmann.
A questão é que o crescimento do emprego veio acompanhado de uma competição muito grande entre as empresas por trabalhadores qualificados. Quem não está preparado geralmente fica de fora.
De acordo com o levantamento do Ipea, apenas 41,8% dos desempregados mais pobres frequentaram bancos escolares por período de 11 anos ou mais. Entre os mais ricos, o número sobe para 86,1%.
Discriminação. Outro fator que também pesa contra os mais pobres é a discriminação racial, tratamento injusto que ainda persiste em alguns setores do mercado de trabalho, mesmo que de forma velada. Os dados levantados pelo Ipea indicam que só 23,3% dos desempregados pertencentes a famílias de baixa renda são brancos. Já a parcela dos desempregados de famílias mais abastadas é composta por 72,5% de brancos.
Nos últimos seis anos, o número de desempregados no chamado Brasil metropolitano caiu de 2,442 milhões para 1,6 milhão. Mas, a quantidade de desempregados de baixa renda aumentou de 652,1 mil para 667,7 mil.
"A persistir essa desigualdade, o que se pode esperar é que a distribuição dos salários vai voltar a ficar mais desigual", diz o economista José Márcio Camargo, da PUC-Rio. Os salários dos mais ricos vão crescer mais rapidamente do que os salários dos mais pobres. "Vai ter menos gente qualificada se oferecendo no mercado de trabalho, porque está todo mundo empregado, e as empresas vão disputar esse tipo de profissional, que é cada vez mais raro, e mais c aro, no mercado", avalia.
As pérolas do meu pai
As pérolas do meu pai
MICHAEL KEPP - Folha de São Paulo - mkepp@terra.com.br
Ele sabia e adorava provocar risos: o do filho ou o de qualquer outra plateia, porque assim sentia-se amado
MEU PAI era uma figura cujo charme cômico transformava qualquer reunião em um coro de gargalhadas. Seu lado paterno igualmente cativante destilava o que aprendeu na vida em sábios conselhos - óbvios, na maioria. Mas ele tornava tudo memorável com seu fraseado. O riso, meu ou de qualquer plateia, fazia com que se sentisse amado.
Nos meus 20 anos, eu tinha uma namorada que vivia na fossa. Ele pediu que eu fosse mais seletivo: "Nunca se envolva com uma mulher mais deprimida do que você!".
Quando fiz 30, pedi a ele que, ao menos uma vez, me desse um presente que não fosse dinheiro. À noite, ao chegar, dei de cara com uma velha cadeira de barbeiro na minha sala. Depois, papai veio com um sorriso travesso: "Espero que aprenda a não me pedir mais presente".
Também me deu dinheiro, e me disse para eu não menosprezar, afinal, era mais duro de conseguir do que a cadeira. "Dinheiro é só outra forma de energia", disse. E, como não guardava, morreu com pouco no banco.
Depois que fiz 40 anos, meu pai me visitou no Rio.
Em uma festa, cativou amigos cariocas bilíngues, contando histórias reais de suas desventuras sexuais.
Numa delas, estava na cama com a namorada quando uma tempestade causou um pico de energia que passou pelo vibrador (ligado à tomada), dando nela um tremendo choque. No dia seguinte, comprou um vibrador a pilha para reconquistar a namorada ainda traumatizada.
Então descreveu uma perua desconhecida, sentada ao seu lado num banquete, que avançou o sinal, subindo o pé pela perna dele. Para evitar que ela chegasse ao alvo, disse: "Devo avisar que uma disfunção sexual me obrigou a implantar uma prótese, e você está quase apertando o botão de inflar".
As duas histórias deixaram meus amigos gargalhando e me fizeram corar. Meu pai disse: "Não tenha vergonha do que eu faço ou digo.
Tenho muito a ver com quem você é, mas você não tem nada a ver com quem eu sou".
Precisava desse conselho 30 anos antes. Estava num acampamento, e três dos 1.500 escoteiros se afogaram.
Meu pai ouviu pelo radio a notícia das mortes não identificadas. Dirigiu quatro horas até a tenda principal e mais meia hora pela trilha escura até a clareira onde minha tropa acampara. Saiu do carro, veio até a fogueira, piscou para mim e trocou umas palavras com o chefe da tropa. Depois, falou sobre o que um filho significa para um pai.
Enquanto todos os olhos se viravam para mim, eu queria me enfiar debaixo da pedra em que me sentara. Depois do desabafo, papai me abraçou e foi para casa. "Por que meu pai tinha de vir aqui?", choraminguei a um amigo.
Ele respondeu: "Essa é a questão, seu pai foi o único a vir". Ali a ficha caiu. Papai, sem conselho ou comédia, tinha tomado o caminho mais curto até o meu coração.
MICHAEL KEPP , jornalista norte-americano radicado há 27 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas "Sonhando com Sotaque - Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro" (ed. Record)
Marina Silva chora ao lembrar do seringal no Acre
Marina Silva chora ao lembrar do seringal no Acre
Terceira colocada na disputa presidencial no primeiro turno, a senadora Marina Silva (PV-AC), se tornou o centro das atenções do País porque uma decisão dela em relação aos candidatos que disputam o segundo turno é capaz de influir no destino eleitoral de José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT).
Por Redação OGalileo
Após 16 anos morando em Brasília, a senadora abriu pela primeira vez as portas do apartamento funcional onde vive com a família para atender a um pedido de entrevista. O Terra presenciou-a lendo a Bíblia, arrumando gavetas, vasculhando estantes com livros e ouvindo o marido Fábio Vaz fazer a leitura de revistas e jornais.
Marina Silva não conseguiu conter a emoção e o choro ao lembrar dos ensinamentos da avó no Seringal Bagaço, no Acre, de onde saiu apenas com um saco de pano nas costas e poucas mudas de roupas dentro, para começar a sua trajetória como empregada doméstica em Rio Branco, a capital do Acre. Após controlar o choro, a ex-seringueira assinalou que "a inteligência não pode ser desperdiçada em maquinar o mal, ainda que ele esteja presente e faça parte de nossa natureza".
"Eu fui fazendo escolhas aparentemente impossíveis. Você me pegou de surpresa ao fazer me lembrar disso e agora eu respondo: valeu a pena ter deixado aquela família, sem conseguir olhar para trás, adiando o choro dentro do ônibus até que ficasse escuro para que eu pudesse chorar e ninguém me visse chorando. Tudo valeu a pena porque hoje eu posso sorrir e dizer que aquelas lágrimas semearem muita esperança para mim, para minha família e para os ideais que eu acredito", acrescentou.
No momento da entrevista, Marina Silva estava particularmente saudosa de um pequeno tabuleiro com milhares de sementes da Amazônia, principalmente de açaí, mulungu e jarina, que usa para confeccionar as bijuterias que adornam seu corpo franzino mundo afora. Ela desenha cada "biojóia" e depois as executa num ateliê improvisado, que não permitiu que fosse fotografado sob a alegação de que "está muito abandonado por causa da campanha".
Mas mesmo quando tenta voltar à rotina caseira e descansar dos estafantes meses de campanha, ela continua a refletir sobre a surpreendente virada política que a deixou com quase 20 milhões de votos no final do primeiro turno. "Agora é o momento de fazer uma espécie de desaceleração e de criar um espaço de reflexão, de conversas, de escutar e também de me escutar. O desafio é não sofrer de ansiedade tóxica, de querer puxar pra si, como se tudo isso pudesse ser privatizado ou particularizado. O desafio é ver tudo isso que aconteceu como algo grandioso, que precisa ser investido, trabalhado, para que, de fato, esse embrião possa se estabelecer como uma terceira via", afirmou.
Leia a entrevista, gravada enquanto a menina do Seringal Bagaço ajustava colares usados durante a campanha eleitoral:
Terra - Você gosta mesmo de fazer essas joias? Marina Silva - Isso para mim é uma terapia. Estou deixando você me fotografar nessa terapia porque muita gente nem acredita que faço isso. Essa tarefa me permite fazer profundas reflexões. O pensamento voa. Eu estava com saudade disso e não encontrei no apartamento todos os desenhos que procurei e gostaria de mostrar a você.
Terra - A mídia quase sempre a apresentou como mulher frágil, debilitada por doenças como malárias e hepatites. Onde encontrou força para enfrentar uma campanha presidencial? Marina Silva - Primeiro, graças a Deus, consegui recuperar a minha saúde. Tenho que ter cuidado com a minha alimentação, evitando principalmente os alimentos aos quais eu tenho intolerância em função da alergia. Durante toda a campanha e agora, num processo de desaceleração, sempre tive uma energia muito forte para percorrer o País. A prova disso é que minha equipe de trabalho era sempre dupla, pois as pessoas necessitavam se revezar. A única que não se revezava era eu.
Terra - Lúcia, sua irmã, não poderia? Marina Silva - Ela é minha sósia, parece muito comigo, mas não tinha mesmo como me substituir. Muitas vezes até brinquei com ela sobre essa possibilidade. Mas quando a gente está bem, fazendo aquilo no qual acredita, que gosta, sem a ansiedade tóxica de que tem que ganhar a qualquer custo, os resultados surgem como consequência. Fizemos a opção de nos orientarmos por programa e não pelo velho pragmatismo que leva muitas vezes às alianças e companhias inconvenientes.
Terra - Durante encontro com militantes brasilienses de sua campanha, a certa altura você disse a si mesma: "Marina, desce do palanque". Por quê? Marina Silva - Eu já estava falando de propostas e de plataforma de uma forma tão empolgada que parecia continuar em campanha. Agora é o momento de fazer uma espécie de desaceleração e de criar um espaço de reflexão, de conversas, de escutar e também de me escutar. Estou num processo muito intenso de decisão até o dia 17 de outubro. Quero que a minha decisão seja a melhor possível para o Brasil, para as pessoas que se referenciaram no projeto que representei, juntamente com o Guilherme Leal, e nos ideais que tenho, que o segundo turno eleitoral de fato favoreça à democracia, o aprofundamento das questões importantes para o País, que não resvale de novo para o vale-tudo eleitoral e que a gente tenha uma atitude à altura do que o Brasil exige que tenhamos.
Terra - É desconfortável ou não esse momento, quando o País inteiro indaga sobre qual será a sua posição no segundo turno? Marina Silva - Não é desconfortável. É até muito instigante. Geralmente, na forma antiga e velha da política, a liderança sempre tem aquela ideia de que deve convocar e os seguidores irem após a liderança. Não vejo um grupo de seguidores, mas um contingente de parceiros que estão preocupados em trocar comigo o que eles acham que é melhor para minha contribuição nesse segundo turno. Esses parceiros estão interessados, ainda, em saber qual é a contribuição que eu, o PV e todos aqueles que estavam dando suporte programático e político à candidatura, podemos aportar para eles. Há uma sensação de troca e isso faz com que o processo seja vivo e muito interessante do ponto de vista político e pessoal. Eu sempre defendo que os processos se dêem em co-autoria, e a ideia de responsabilidade de cada sujeito com a sua atitude. Tem uma frase que diz que tudo o que uma liderança democrática pode fazer é acenar com a possibilidade de um mundo melhor. Só os déspotas oferecem um destino para as pessoas. O destino não é oferecido por ninguém. Somos nós que temos que construir a nossa história. Somos nós que podemos nos dispor a sustentar o outro e a ser sustentado, a escutar e a ser escutado, a perceber e a ser percebido.
Terra - Não se sente no dever de dizer o que o seu eleitorado deve fazer? Marina Silva - Como dever, não. Tem que dizer no sentido de contribuir para que as pessoas possam escolher. E a escolha ocorre em cima de algo que cada um elabora. Às vezes você diz 100%, mas alguém ouve e é capaz de acrescentar mais ou pode tirar. Deve ser sempre uma oferta generosa disposta a dar e a receber.
Terra - O que a senhora prefere que aconteça em relação a tudo de positivo que aconteceu para o País com a sua candidatura? Marina Silva - Eu prefiro ter milhões de parceiros, o que faz com que a relação seja muito mais sólida e rica. Tem algo que foi construído coletivamente, que é a base dessa relação: as propostas que foram apresentadas; a forma como o processo foi vivenciado; as atitudes; a linguagem, que não é apenas daquilo que se diz, mas da forma como você se comporta e se dispõe a escutar mesmo em meio a um turbilhão de vozes; a não se perder na gesticulação; saber que mais vale um gesto limpo do que uma gesticulação que, de alguma forma, polui a imagem na tentativa de seduzir.
Terra - Algo a entristeceu durante a campanha? Marina Silva - Sim, mas as alegrias foram infinitamente maiores.
Terra - O que mais a entristeceu? Marina Silva - Uma tristeza lá no Acre, em frente ao Parque Chico Mendes, em Rio Branco, no Dia da Amazônia.
Terra - Por quê? Marina Silva - Eu queria muito que a carta que as crianças escreveram e queriam me entregar, pudesse ser entregue dentro do Parque Chico Mendes. Não entrei nele após ter sido reformado, disseram que estava muito bonito, que a visitação era grande. E era Dia da Amazônia. O parque tem o nome do Chico Mendes, a netinha do Chico Mendes iria entregar a carta. Havia muita expectativa, mas veio o aviso de que havia uma recomendação do prefeito Raimundo Angelim (do PT) e do desembargador Arquilau de Castro Melo, presidente do Tribunal Regional Eleitoral, no sentido que o ato não poderia ser realizado dentro do Parque Chico Mendes. Tivemos que improvisar aquele ato tão simbólico no gramado do acostamento de uma estrada estadual. Eu fiquei muito triste realmente. Imaginei: "Poxa vida! Se eu fizesse um ato desse lá no Parque Ibirapuera, em São Paulo, com certeza ninguém diria que eu estava violando a lei eleitoral". Tive que fazer um esforço muito grande para perceber que o Acre é um estado diferente, pequeno, a terra onde nasci. Lembrei que Angelim e Arquilau são meus amigos. Tenho que entender que quanto mais amigo do rei, mais alta deve ser a forca. Mas senti uma sensação de estranhamento na minha terra. As pessoas dentro do Parque Chico Mendes, separadas pela cerca, tentando se aproximar, falar com a gente. Entendi que aquilo acontecia porque era no Acre e no Acre a gente não podia facilitar o entendimento equivocado das coisas. Prevaleceu o meu entendimento de que não basta ser honesto, mas é necessário parecer honesto e ainda tem que provar na justiça que é honesto mesmo sendo honesto.
Terra - Valeu a pena sair do Seringal Bagaço apenas com um saco de pano nas costas e poucas mudas de roupas dentro, controlando-se para não chorar, para começar a sua trajetória como empregada doméstica? Marina Silva - Eu sinto gratidão a Deus e a todas as pessoas que me ajudaram, a todas as pessoas que encontrei e que me encontraram, que formei e que me formaram. Eu sabia que não podia brincar em serviço nas oportunidades que me foram dadas. Eu sabia que as oportunidades não poderiam ser desperdiçadas com coisas que não valem a pena. Hoje, quando olho para aquela menininha do Seringal Bagaço, lembro da vertente onde eu e minha avó, por volta das 16h, íamos encher nossas bilhas e tomar banho em água gelada e cristalina, embaixo da sombra de um pé de pama, de um pé de toari que tinha mais adiante, de uma castanheira, de uma aquariquara, de uma biorana e de uma maçaranduba. Lembro delas como se fosse hoje. Minha avó me banhava, penteava meus cabelos... Aí uma pama caía bem no meio da minha cabeça sujando tudo. Ela lavava de novo meus cabelos e eu reclamava do frio. Aí a gente voltava pra casa. Às 18h eu já estava pronta para dormir com uma camisolinha que ela mesmo fazia para mim, de tecido morim. Ela me botava de joelhos, com as mãozinhas postas, e me ensinava a fazer uma oração que eu nunca esqueço, que era mais ou menos assim: pedir a Deus pela minha família, pelo meu pai, pelas minhas irmãs. Depois eu rezava o Pai Nosso. A oração terminava assim: "Papai do céu, abençoai a minha família e me dai inteligência para o bem. Em nome de Jesus, amém". (Pausa e choro). Isso ficou e é fonte de força, de uma profunda convicção de que essa coisa maravilhosa que Deus nos deu, chamada de inteligência, não pode ser desperdiçada em maquinar o mal, ainda que ele esteja presente e faça parte de nossa natureza. O bem é um investimento, uma prioridade, uma afirmação, uma escolha, o que pressupõe trabalhar para construir aquilo que você escolheu. Eu fui fazendo escolhas aparentemente impossíveis. Você me pegou de surpresa ao fazer me lembrar disso e agora eu respondo: valeu a pena ter deixado aquela família, sem conseguir olhar para trás, adiando o choro dentro do ônibus até que ficasse escuro para que eu pudesse chorar e ninguém me visse chorando. Tudo valeu a pena porque hoje eu posso sorrir e dizer que aquelas lágrimas semearem muita esperança para mim, para minha família e para os ideais que eu acredito.
Terra - O que você pretende com a experiência acumulada na vida e que culminou com os seus 20 milhões de votos? Marina Silva - O mais importante é não querer privatizar tudo isso, como se fosse algo meu, mas democratizar ao máximo como sendo algo nosso. Passa por minha cabeça algo a ser pensado na relação com o partido, com a sociedade, com os formadores de opinião, com os agentes governamentais, empresariais, da academia e dos movimentos sociais. O desafio é não sofrer de ansiedade tóxica, de querer puxar pra si, como se tudo isso pudesse ser privatizado ou particularizado. O desafio é ver tudo isso que aconteceu como algo grandioso, que precisa ser investido, trabalhado, para que, de fato, esse embrião possa se estabelecer como uma terceira via. Tenho muita clareza de que essa utopia, de uma terceira via, é apenas um começo, como diz Edgar Morin. Mas ele diz também que no começo a mudança é apenas um desvio e que a gente tem que trabalhar para fazer o desvio prosperar. A eleição de 2010 fez esse pequeno desvio. Caberá a todos, de forma coletiva, fazê-lo prosperar.
Terra - Além de querer saber qual será a sua decisão em relação ao segundo turno, as pessoas já manifestam intenção de vê-la novamente candidata à presidência da República. Já imaginou os Silva, Lula e Marina, se enfrentando algum dia? Marina Silva - É profundamente sincero o que sempre digo: nunca fiquei me preparando para o próximo passo na política. Simplesmente fui trabalhando, fazendo o que precisava ser feito. Os resultados surgem como acréscimo quando você faz de forma justa, legítima, transparente e democrática. Sou uma mulher de fé e gosto muito quando Jesus diz: "buscai em primeiro lugar o meu Reino e a minha Justiça e todas as demais coisas vos serão acrescentadas". Acredito nesse acréscimo quando você busca a Justiça, mas uma Justiça que não se move por um fim em si mesma, mas que se move por amor. Alguém também já disse que toda justiça que não se move por amor não é justiça, é vingança. Acredito nesses valores e vou continuar assim, trabalhando, estudando, sem dúvida. Mesmo quando estava no Ministério do Meio Ambiente não parei de estudar. Eu só parei por causa deste ano de intensa atividade eleitoral e nunca estudei tanto e aprendi tanto como estudei e aprendi agora.
Terra - Pra finalizar, gostaria de sua explicação sobre o Acre, onde José Serra venceu e a sua candidatura empatou com a de Dilma Rousseff. Marina Silva - O Acre é um estado politizado e ao mesmo tempo dividido entre dois projetos. O projeto referenciado no Chico Mendes e o projeto referenciado no velho modelo de desenvolvimento, de substituição da floresta por outras atividades, da estrada pela estrada, da falta de respeito às populações locais. Essa divisão, desde 1991, foi ficando muito clara. Nas demais eleições já era difícil para todos nós quando estávamos juntos. Ficou mais difícil com nós divididos. A Dilma contava com a estrutura de prefeituras, do Estado, dos meios de comunicação. Fiz uma campanha muito modesta em Rio Branco, a capital, que é o maior colégio eleitoral e que me deu o segundo lugar. Não dispúnhamos da menor estrutura para fazer a campanha, mas ainda assim conseguimos reeleger o deputado federal do PV Henrique Afonso. Não reclamo. Só tenho a agradecer. Estou neste lugar graças ao povo do Acre. Quem votou no Serra ou na Dilma, claro, não votou em mim, mas me respeita. Tenho esse legado generoso do povo acreano que me trouxe aqui. Não faço exigências. Só tenho gratidão.
Terra - E o revés eleitoral sofrido pela coligação Frente Popular do Acre, liderada pelo PT e da qual o PV faz parte?
Marina Silva - Tem uma mensagem dada pelo povo acreano a nós da Frente Popular. Temos que ter humildade e sabedoria para fazer essa leitura. Sem humildade e sabedoria, vamos tentar arranjar algum meio para explicar ou consolar a forma enfática como a sociedade sinalizou, que não está tudo bem. Se a gente tentar se explicar ou se consolar dessa maneira, não vamos tirar a aprendizagem correta, ou seja, se não mudarmos o caminho, podemos mudar a maneira de caminhar. É preciso que a gente tenha uma abertura maior para a diversidade, para a crítica, para o processo, para dividir a autoria, a realização e o reconhecimento das coisas. Se a gente continuar pondo o talento de todos em apenas alguns, daqui a pouco cada um vai reivindicar o seu talento com justa razão ou vai colocar suas insígnias em outras lideranças que imaginam possam ser mais horizontais.
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