sábado, outubro 30, 2010
Cláudio Humberto
Cláudio Humberto
“É preciso que órgãos federais sirvam ao povo e não a um grupo”
CANDIDATO DO PSDB JOSÉ SERRA, AO DEFENDER A “DESPRIVATIZAÇÃO” DO ESTADO
ALOPRADOS DO PT TENTAM AFASTAR PMDB DE DILMA Confiantes na vitória de domingo, dirigentes do PT ligados ao comando da campanha presidencial, articularam o vazamento para a imprensa de falsa “pressão” por cargos, exercida pelos partidos aliados, como o PMDB para ocupar no eventual governo de Dilma Rousseff. O objetivo seria constranger a candidata a reduzir os espaços desses partidos na aliança, mas ela própria se encarregou de desautorizar a operação.
BRIGA FISIOLÓGICA Petistas como o paulista Rui Falcão, ligado a Marta Suplicy, temem que partidos como o PMDB ocupem cargos que interessam ao PT.
SÓ ELOGIOS Apesar da má fama do seu partido, a conduta do vice de Dilma na campanha, Michel Temer (PMDB), tem sido elogiada pela candidata.
SAUDADES DO FUTURO Fazer 65 anos tem lá suas vantagens: ex-presidente, Lula também vai viajar de graça no metrô e ter fila especial nos supermercados...
ABSTENÇÃO ELEVADA O PT estima que a abstenção na eleição de domingo será superior a 20%. No primeiro turno, foi de 18%.
LULA DECIDIU DAR ASILO A TERRORISTA DESDE 2009 Lula está decidido desde 2009 a conceder asilo ao terrorista italiano Cesare Battisti, e o fará antes do Natal. A colaboração do Supremo Tribunal Federal, conferindo-lhe poder de decisão, facilitou o caminho. Ele não anunciou antes para não atrapalhar a campanha do PT e “não constranger o sucessor”. O bandido terá asilo “humanitário”, mas ao executar suas vítimas, ele gargalhava ao vê-las ensanguentadas.
MISSÃO CUMPRIDA Lula livrou de “constrangimento” também o padrinho do bandidão, o ex-ministro Tarso Genro (Justiça), que disputava o governo gaúcho.
BUONA GENTE Cesare Battisti foi condenado duas vezes a prisão perpétua por quatro assassinatos a sangue frio, pelas costas. Um menino ficou tetraplégico.
MENTES CONFUSAS José Serra evita o tema Cesare Battisti nos debates porque também está entre os que confundem terrorismo com “heroísmo” político.
INGRATOS Os sites com o manifesto de artistas e intelectuais pró-Dilma não exibem o nome do genial cartunista Jaguar, beneficiário da bolsa-ditadura, nem de Ziraldo, habitué de boquinhas culturais do governo.
A CASA CAIU A Justiça Criminal de São Paulo aceitou a denúncia do promotor José Carlos Blat, e quebrou os sigilos fiscal e bancário do tesoureiro do PT e ex-presidente da Bancoop João Vaccari Neto e da diretora Ana Érnica, como revelou em primeira mão o site claudiohumberto.com.br.
O MAU MOCINHO Um sucesso o recém-lançado blog “Nas veredas do Vereza”, do ator Carlos Vereza, esplêndido em “Bezerra de Menezes”, crítico do PT e do governo e “nauseado com o bom mocismo de parte da imprensa”.
IMPRENSA DE LADO Curioso o protesto da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), quarta (27), no centro de São Paulo, pela “liberdade de expressão” do Jornal da CUT, de uma revista pró-PT e de uma colunista demitida do Estadão. Contra os 455 dias de censura ao jornal, nadica.
CANDIDATO ALEMÃO O papa Bento XVI só é candidato a santo, mas entrou em campanha quando a polêmica parecia serenada: pediu aos bispos do Brasil que orientem os fiéis contra o aborto. Tudo de novo parece penitência...
LOROTAS DE OCASIÃO Moisés Tolentino, diretor do DER-DF, e publicitário Haroldo Meira (com seu parceiro Welinton Moraes, ex-secretário de Arruda) espalham em Brasília que vão comandar essas áreas, em eventual governo Agnelo Queiroz, no DF. Mas é mentira, garante a campanha petista.
NOME EM VÃO O ex-ministro José Dirceu não está comprando a Universidade Santo Amaro e atribui aos dois interessados o uso de seu nome como forma de mostrar “prestígio” no governo, para fechar o negócio.
TÔ FORA O ex-senador Luiz Estevão tem suas relações de amizade com o ex-governador do DF Joaquim Roriz, mas nega que participe da campanha da mulher dele. E garante: jamais voltará à política.
PENSANDO BEM......o “pior que está não fica” é a versão Tiririca da Lei de Murphy.
PODER SEM PUDOR PRESIDENTE CARANGUEJO
Fazendo oposição ao então presidente Fernando Henrique Cardoso, o senador Antônio Carlos Valadares (PSB) participava de uma concentração no interior de Sergipe e resolveu criticar as promessas do tucano:
- É hora de cobrar as promessas desse presidente que saiu por aí mostrando as cinco mãos!...
Enquanto imaginava uma maneira de corrigir a confusão que fez, trocando dedos por mãos, ouviu o grito de um gaiato:
- Senador, isso é um presidente ou um caranguejo?...
Muro intransponível
Muro intransponível
ELIANE CANTANHÊDE
BRASÍLIA - O tempo corre a favor do governo e contra a oposição, que deve estar para lá de aflita com a cristalização de uma diferença de 12 pontos nos votos válidos, conforme apurou o Datafolha.
É como se José Serra tivesse batido num muro de concreto, sem instrumentos para ultrapassá-lo. Sua grande chance seria buscar o eleitor indeciso, que nunca foi de ninguém, ou que já foi de um, foi de outro e não sabe para onde correr. Mas desse mato praticamente não sai mais cachorro - ou voto.
Os indecisos caíram de 8% para 4%, e de forma homogênea em todos os estratos, apesar de levemente mais nítida no Sudeste, de 9% para 4%. Desses cinco pontos, três foram para Dilma (47% na região) e dois para Serra (42%).
Um forte bloco que ainda poderia sacudir certezas é o do eleitorado de Marina Silva no primeiro turno, que também está se definindo claramente na reta final. Os 14% de indecisos nesse grupo caíram para 8%. Serra lucrou mais quatro pontos e foi para 48%. Dilma perdeu três e está com 27%.
Mas os "marineiros" ainda refratários à polarização PT-PSDB -e, portanto, decididos a votar branco/nulo- subiram seis pontos, de 12% para 18%. Um índice alto, e não se pode descartar que muitos mudem de ideia na última hora, seja para ratificar a vitória de Dilma, seja para reequilibrar a disputa.
O debate de hoje à noite na Rede Globo, o último e mais importante de toda a eleição, deixa os dois lados em polvorosa. Dilma e Serra têm de chegar passando segurança, com as respostas na ponta da língua e, mais do que isso, sabendo para quem estarão falando. Debates são para indecisos e para o eleitor não muito convicto. Servem ainda como derradeiro recurso para chacoalhar votos brancos e nulos.
Com 12 pontos de diferença, porém, não dá para dizer que o debate de hoje será "decisivo". É imperdível e pode até mudar votos, mas dificilmente mudará o resultado.
elianec@uol.com.br
O Brasil, além do domingo
O Brasil, além do domingo
Coisas da Política
Mauro Santayana – Jornal do Brasil Online
Na antevéspera eleitoral, peço permissão aos leitores para voltar ao tema de uma coluna publicada, neste mesmo espaço, em abril do ano passado. No Ensaio para uma Teoria do Brasil, redigido em 1966, em pleno governo militar (reeditado pela Fundação Alexandre de Gusmão), o filósofo português Agostinho da Silva revê a velha profecia de que somos o país do futuro. Stefan Zweig partia da suposição de que esse futuro seria atingir os módulos de civilização dos pases ricos e centrais. Agostinho entendeu que a civilização europeia, com sua projeção atlântica, já entrara em decadência. O Brasil é sim, o país do futuro, mas do futuro que a sua sociedade criará, com liberdade, tolerância e fraternidade. Volto a citá-lo:
O que nos interessa, agora, é realmente o problema do Brasil e da sua capacidade de liderar o futuro humano, quando se desembaraçar de tudo quanto lhe foi inútil na educação européia e exercer, com o esplendor e a vigorosa força de criação que pode demonstrar, as suas capacidades de simpatia humana, de imaginação artística, de sincretismo religioso, de calma aceitação do destino, da inteligência psicológica, de ironia, de apetência de viver, de sentido da contemplação e do tempo.
Embora com todas as dificuldades que enfrentamos, o Brasil parece voltar a ser o país do futuro, não o futuro que então, e aqui, se imaginava. O texto de Agostinho é mais atual do que antes. Nós nos desviamos de nosso destino quando deixamos de inventá-lo. O culto à Europa e aos Estados Unidos, que teve o seu momento mais caricatural na passagem do século 19 para o 20, e se exacerbou grotescamente com o neoliberalismo das últimas décadas, vem resistindo à lógica. Passamos a importar todos os modelos de fora, dos automóveis de luxo aos processos de administração pública, neles incluídas as leis; do sistema universitário às crises bancárias; da euforia dos cartões de crédito ao consumo de drogas.
Estamos, com todas as dificuldades, construindo um caminho próprio. O conceito do Brasil cresce no mundo, também porque talvez seja, no imaginário da inteligência, o terreno físico e espiritual destinado a nova revolução histórica. Para isso, ele está sendo obrigado a fortalecer sua economia. O Brasil, com sua biodiversidade, é o mais importante espaço para as pesquisas que contenham o aquecimento global e permitam o usufruto da natureza, sem lhe causar dano. A comunidade científica brasileira será capaz de responder a esse e a outros desafios da preservação da espécie.
A expressão maior da soberania de um povo é a independência mental. Não podemos, a pretexto de que já se inventou a roda, deixar de buscar outros meios de deslocamento. Somos chamados a ousar, se queremos aproveitar a oportunidade histórica. Ousar na reinvenção do Estado, nas pesquisas científicas e na criação de novos modos de convivência social, que sejam solidários e dinâmicos. Chegou o momento de romper com esse modelo de civilização que já se esgotou na História. O Brasil e os outros países que sofreram a opressão do sistema, se souberem unir-se, poderão mudar o mundo. Nossa diplomacia, ao respeitar a autodeterminação dos outros, conquista amigos e não causa ressentimentos.
O passado é uma referência, mas não pode ser fardo a ser arrastado na escalada do tempo. Apesar do negativismo de alguns, o Brasil está em seu grande momento, e não pode perdê-lo. Daí a importância da reflexão de Agostinho da Silva: para fazer o futuro, devemos inventá-lo, com a alegria, o espírito universal de solidariedade, a inteligência criadora e a necessária consciência de que todos os brasileiros têm direito aos mesmos benefícios da civilização.
Não nos faltam inteligência e coragem para, além do próximo domingo, criar o nosso destino, que não pode ser o passado dos outros
A variável do ambiente
A variável do ambiente
Nas entrelinhas
Alon Feuerwerker – Correio Braziliense
Um dado curioso neste fim de era Lula: ao impulsionar a transformação do pobre em classe média, o PT ajuda a desenhar um país teoricamente menos permeável às ideias remanescentes do PT original.
Passada a eleição, haverá inevitável louvação aos vencedores e igualmente esperadas críticas aos derrotados. É da natureza humana. Quem vencer terá feito tudo certo. E quem perder deverá receber em silêncio a batelada de laudos dos engenheiros de obra feita.
Mas a verdade é que o homem interpreta um papel no teatro da história a partir de enredo constrangido. Não há improvisos sem limite, ninguém é livre para fazer o que bem entende.
A ação política é em larga medida delimitada pelo ambiente, pelo espírito predominante na época. Um exemplo é o debate atual sobre as privatizações.
No começo dos anos 90, o cansaço era com o Estado ineficaz e perdulário. Duas décadas e algumas crises financeiras depois, o Estado é visto pela maioria como a reserva de segurança contra as incertezas do capitalismo.
Eis uma vantagem comparativa e competitiva do PT nestes dias. Ele rema a favor do espírito do tempo numa época em que o vento estatista ainda não encontrou entre nós seu limite. Já o PSDB carrega os bônus e os ônus de ter ajudado a arrastar o país pelos cabelos para um capitalismo mais merecedor do nome.
Mas os tempos dão sinais de esgotamento e um sintoma foram os vinte milhões de votos recebidos por Marina Silva no primeiro turno. O eleitor está à cata de alternativas. Além disso, o Brasil que chamarei de moderno na falta de nome melhor anda em relativo descompasso com o país ainda hegemônico.
O equilíbrio político que vai resultar da eleição, se confirmados os prognósticos, será resultado dessa contradição entre os vetores da hegemonia e do cansaço com ela.
E o equilíbrio, disfarçado pela maioria ilusória que qualquer governo alcançará no Congresso, exigirá em teoria uma grande reserva de paciência do presidente para negociar num regime de 24x7x365.
O Brasil que vai sair das eleições terá dado o recado sobre seu perfil plural e contraditório. E aqui desempenha um fator: o crescimento acelerado da classe média, cujos valores tendem a mimetizar o pensamento do topo social.
Um dado curioso neste fim de era Lula: ao impulsionar a transformação do pobre em classe média, o PT ajuda a desenhar um país teoricamente menos permeável às ideias remanescentes do PT original.
Com o tempo, vai crescer a importância de temas como o direito à propriedade. Será função da democratização da propriedade. Quem passa a ter algo de seu fica menos permeável à pregação de que os que têm precisam transferir uma parte para os que não têm.
Se o altruísmo fosse natural no homem não precisaríamos das leis terrenas, nem das divinas.
Celebração
Como não basta botar ovos, e informar tê-los posto é prudente, o Papa Bento XVI celebrou, ontem, com bispos brasileiros no Vaticano, a vitória da Igreja Católica neste segundo turno, quando ajudou a impor à candidata do PT o recuo no tema da legalização do aborto.
Fica a lição, em particular para o governo. Popularidade não é tudo. Se desejam introduzir assuntos polêmicos na pauta para faturarem em nichos, melhor preparar-se para o contraditório.
Ou então preparar antecipadamente a retirada. Que poderá ser embalada em cores de indignação, mágoa e revolta contra a injustiça, mas será sempre uma retirada.
UnB
Participo, hoje pela manhã, na Faculdade de Comunicação da UnB, do seminário Democracia e Jornalismo na Era Digital, uma parceria com a Associação Nacional de Jornais (ANJ). Vou dividir a mesa com o professor Luiz Gonzaga Motta.
O debate será às 11h, no auditório da faculdade.
Cientistas pedem mais investimentos em educação
Cientistas pedem mais investimentos em educação
Há avanços no setor, mas representantes das instituições de pesquisa no Brasil fazem cobranças a Dilma e Serra
Ana Paula Siqueira – Jornal do Brasil Online
Os cientistas brasileiros tem se movimentando em busca de maiores investimentos para a produção científica e tecnológica no país. E aproveitam o embalo da campanha para apresentar as reivindicações para o setor que, quase sempre, são claramente refletidas na vida do cidadão comum. Em documento intitulado Agenda de ciência, tecnologia e inovação para o Brasil, membros da Academia Brasileira de Ciência (ABC) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) mostram que a educação é fundamental se o país quiser se tornar, de fato, uma nação desenvolvida.
O Brasil avançou qualitativamente e quantitativamente na produção científica e tecnológica, quando comparado às últimas décadas. Os cientistas brasileiros são citados cerca de 20% mais em estudos em todo o mundo do que nas últimas décadas. O que representa avanços na qualidade da produção nacional.
A agenda de ciência foi entregue aos candidatos à Presidência Dilma Rousseff (PT), em julho, e José Serra (PSDB), nesta semana. Ambos se mostraram dispostos a tirar as propostas dos cientistas do papel. O documento enumera os principais desafios do próximo governante no setor. E em todos eles o investimento na educação do ensino fundamental às mais altas graduações é apontado como determinante.
O avanço acelerado da ciência brasileira é tido como um dos pilares do desenvolvimento científico. O primeiro passo é aumentar o investimento do Produto Interno Bruto (PIB) dos atuais 1,3% para 2% até 2020.
De acordo com o presidente da ABC, o matemático Jacob Palis, há forte correlação entre o desempenho científico e tecnológico e sua riqueza econômica com o bem estar da sociedade. E afirma que a ciência é a verdadeira diplomacia do bem. E defende que estreitar os laços entre os pesquisadores e as empresas é fundamental.
Quando o país é respeitado cientificamente abre as portas para outras áreas afirma o matemático.
E lembra que os grandes avanços de descoberta de vacinas ao bom desempenho na economia vem exatamente da produção científica.
Há uma correlação muito forte entre uma ótima ciência e tecnologia e um país desenvolvido e economicamente robusto.
O físico Ennio Candotti, ex-presidente da SBPC e diretor geral do Museu da Amazônia (Musa), a aplicação dos conhecimentos científicos é fundamental para que o país se torne mais justo e que a ciência não seja um mero instrumento a serviço da manutenção do status quo social.
Deve contribuir para melhorar a produção e a rentabilidade dos investimentos. Mas, também, aumentar os salários e melhor distribuí-los. Avanço cientifico que beneficie toda a sociedade afirma.
O nosso Muro de Berlim
O nosso Muro de Berlim
Sandra Cavalcanti - O Estado de S. Paulo - 29/10/10
Na vida dos países, como na nossa, é fundamental a presença de lideranças formadoras do caráter dos cidadãos: a família, os professores, os religiosos, os governantes, os representantes no Legislativo e nos sindicatos, os dirigentes de empresas, os companheiros de trabalho. Enfim, o ambiente que nos cerca durante nossa existência. Nesse ambiente o que vale, principalmente, são os exemplos, o testemunho de vida, o temor a Deus e à Justiça. Só assim o ser humano aperfeiçoa a sua alma, pauta o seu comportamento, distingue entre o certo e o errado e, com sabedoria, guarda esses valores. A palavra só tem força quando é a expressão de tais valores.
A História oferece-nos muitos exemplos de lideranças extraordinárias. Algumas até foram capazes de ressuscitar a alma de um povo, como foi o caso de Konrad Adenauer, o grande líder da resistência alemã ao nazismo. Sua presença na vida alemã foi decisiva. Uma vez derrotado Hitler, era preciso reconstruir a Alemanha. Dezenas de cidades tinham sido reduzidas a escombros. O país vencido viu seu território ser vingativamente dividido em duas partes. E o pior era a alma do povo, ainda muito doente, após anos de inacreditável submissão e da perda dos valores do ser humano.
Enquanto refazia a parte material do país, o grande estadista lançava-se ao desafio de devolver aos alemães a esperança, a alegria e a fé. Era preciso ensinar aos corações, treinados na arrogância e na submissão cega, os valores da verdade e da liberdade. Nos longos anos em que foi primeiro-ministro, Adenauer formou uma plêiade de excelentes políticos, até em áreas programaticamente diferentes das dele. Implantou um regime de total austeridade para os ocupantes do poder e suas equipes ficaram famosas pela seriedade e pelos êxitos.
Mas a alma alemã ainda vivia uma tristeza: irmãos separados pelo Muro de Berlim. Um muro que não era só de pedras e trincheiras de arame, com guardas implacáveis. Era, acima de tudo, um muro que separava os cidadãos livres dos infelizes súditos da tirania soviética.
O sonho alemão de derrubá-lo só se realizou em 1989, quando o mundo pôde acompanhar sua heroica demolição. Adenauer não estava lá, mas sua obra de estadista havia preparado a alma dos alemães livres para receber, generosamente, a chegada dos libertados. A Carta Fundamental, que rege o regime parlamentarista alemão, previa todos os direitos para os irmãos do lado oriental.
Nós aqui, no Brasil, temos um "Muro de Berlim" a derrubar: nosso sistema eleitoral. Esse muro da vergonha, herdado do ditador Vargas, continua a envergonhar o País e impede o aperfeiçoamento do caráter dos nossos políticos. Na realidade, mesmo nos períodos ditos democráticos, o voto proporcional é uma vergonha.
Sem a adoção do voto distrital vamos continuar com a proliferação insensata de partidos de aluguel, partidos sindicais, partidos fundamentalistas, partidos ditos nacionais, partidos "internacionais", partidos ligados a movimentos subversivos, enfim, uma geleia geral! A maioria deles existe apenas para ganhar preciosos minutos de rádio e TV, pagos com o dinheiro do povo e apelidados de gratuitos.
Sem a adoção do voto distrital os custos das campanhas continuarão exorbitantes, jogando todo o processo eleitoral na vala enlameada do uso vexaminoso do dinheiro público. O voto é obrigatório, livre e secreto. Mas com o voto proporcional o caixa 2 também é obrigatório e secreto. E quando alguém fala, hoje, em financiamento público de campanha, é de apavorar!
Faço estas considerações no momento em que se aproxima o dia D do segundo turno. Qualquer resultado, para mim, vai significar dias muito difíceis para todos nós.
O Senado (já quase todo composto), a Câmara dos Deputados e as Assembleias Legislativas que emergiram das votações no dia 3 de outubro, tudo leva a crer que em matéria de qualidade a piora foi muito acentuada. É o voto proporcional.
Em toda a minha vida de cidadã, esta foi a mais desalentadora de todas as eleições. A mão pesada do Estado está comandando tudo. O presidente transformou-se em artista de palanques. A candidata que ele impôs a seu próprio partido oferece um espetáculo doloroso de arrogante submissão. A oposição, por sua vez, confusa e sem garra, apresenta apenas a biografia de um político muito sério, mas não de um estadista. É pouco para os anseios brasileiros. Chega a ser frustrante.
O que salta aos olhos é que o Brasil está sem valores! A avaliação internacional do povo brasileiro, na questão de ser capaz de perceber a corrupção, e de se insurgir contra ela, chega a ser constrangedora! Figurar entre os povos mais corruptos do planeta é de chorar de vergonha.
Em momento algum qualquer dos candidatos assumiu compromisso quanto à reforma do sistema eleitoral. É tabu! O voto proporcional é a garantia dos caudilhos enrustidos, dos ditadores potenciais, dos que aspiram mandar sem ter de dar satisfações. É a mais feroz distorção do sistema democrático de representação da vontade do eleitor. Por isso mesmo será mantido. O uso da urna eletrônica dá a muita gente a impressão de que nossas eleições são corretíssimas e a vontade dos eleitores é respeitada. Mentira! Embuste!
Enquanto vivermos neste presidencialismo quase caudilhesco, com um titular que, com sua caneta mágica, nomeia da noite para o dia mais de 30 mil funcionários; enquanto Brasília estiver livre da vigilância próxima de um povo atento; enquanto a criação de partidos não depender, de fato, da presença ativa de filiados; enquanto o senador for escolhido juntamente com um vice que ninguém sabe quem é; enquanto a infidelidade partidária não for objeto de punição real; e, principalmente, enquanto votar num candidato, pelo voto proporcional, significar eleger outro e os partidos tiverem direito a horários gratuitos - nosso Muro de Berlim ainda estará de pé.
PROFESSORA, JORNALISTA, FOI DEPUTADA FEDERAL CONSTITUINTE, FUNDOU E PRESIDIU O BNH
NO GOVERNO CASTELO BRANCO
Vilmar não vai votar
Vilmar não vai votar
FERNANDO DE BARROS E SILVA – Folha de São Paulo
SÃO PAULO - Falou-se muito em direito à vida neste segundo turno. Quase sempre de modo oportunista ou com propósitos obscurantistas.
Dilma Rousseff e José Serra gostam de enfatizar que o objetivo final de seus governos é "cuidar das pessoas". As propagandas insistem em nos mostrar personagens pobres, emocionados diante daquele a quem atribuem alguma conquista.
O núcleo da mensagem é arcaico -o que deveria ser um direito aparece como bondade e favor. Sem contar o apelo novelesco, melodramático, à custa da miséria.
Pois bem. Vilmar Camargo dos Santos não vai votar. Tinha 47 anos e era pedreiro. Morreu na terça-feira, depois de agonizar numa calçada na região central de São Paulo.
Com dor no peito, procurou um posto de saúde (uma UBS/AMA, onde, em tese, há consultas agendadas e atendimento ambulatorial de emergência). Na recepção, no entanto, indicaram-lhe o pronto-socorro na quadra ao lado. Vilmar morreu no meio do caminho, em frente a uma escola. Estava, segundo a reportagem, "a 20 passos de uma Unidade Básica de Saúde e a 40 passos de um pronto-socorro municipal". Ninguém se mexeu, nem na UBS nem no hospital, para salvar sua vida. O IML levou quatro horas para remover o corpo.
Alguém ousaria dizer que Vilmar é "um caso isolado"? Parece, antes, um caso exemplar do que ainda significa ser pobre no Brasil.
Duas semanas atrás, noticiou-se a morte da aposentada Magda dos Santos, de 61 anos, que esperou em vão durante cinco dias por atendimento adequado num posto de saúde da Baixada Fluminense depois de ter sofrido um AVC.
Vilmar e Magda são vítimas do sistema público de saúde, a cuja precariedade estão condenadas 150 milhões de pessoas sem condições de pagar plano privado. Direito à vida? Comecemos por essa tragédia social sem rosto, estampada no destino desses dois personagens acidentais da campanha eleitoral.
Crianças desta terra
Crianças desta terra
Miltom Hatoum - o Estado de São Paulo
Do balcão do sobrado vi bolas e bonecas de plástico cobrindo a rua de pedras da minha infância. E quase ao mesmo tempo vi crianças da minha idade disputando esses dois brinquedos universais. Brinquedos de graça, que alegravam também as mães pobres da cidade.
Na manhã amarela ouvi pela primeira vez a palavra "eleições". Não sabia o significado exato dessa palavra; sabia que o candidato ao governo distribuía milhares de brinquedos às crianças, depois ele as abraçava, beijava mães, tias e avós, era uma festa colorida num novembro distante, que agora recordo sem nostalgia.
Depois o candidato continuou sua campanha festiva e caridosa em outros bairros... Não o vi naquela manhã, apenas divisei, de relance, um bigode espesso, como se vê o desenho de um urubu minúsculo no canto de um mural colorido. Foi o primeiro bigode político que vi na infância, um bigode jovem, que já era um líder regional, quase tão onipresente quanto um pequeno deus, pois ouvíamos sua voz no rádio e víamos seu rosto em cartazes pregados em muros, fachadas e cercas.
Quatro anos depois vi de novo bolas e bonecas na carroceria de um caminhão, e outras crianças disputando esses brinquedos, e o mesmo bigode beijando e abraçando mães, tias, avós. Em 1964, um parente me disse que esse líder tinha sido cassado, embora não fosse de esquerda, nem de direita. Afirmar que era um homem de centro é apenas um culto à simetria. Outras vozes comentaram: foi cassado por corrupção. E mesmo aos 12 anos de idade, essas palavras ainda não tinham um significado claro para mim. O fato é que todos nós perdemos o bigode de vista. Não foi exilado, mas viveu no ostracismo, que é uma espécie de exílio na própria pátria.
Quando ele voltou à cidade, dizem que foi recebido com júbilo pelas crianças que agora eram filhos das crianças que eu tinha visto na minha infância. Não o vi depois desse retorno glorioso, porque eu já morava muito longe da cidade. Parece que era vingativo e cruel com inimigos, terrível com amigos que o traíam e com desconhecidos que flertavam com as mulheres de seu harém: as meninas que tinham recebido bonecas das mãos dele e agora eram moças feitas. Mas esse homem, que destruía seus inimigos, também erguia grandes obras. Construiu na floresta uma central elétrica movida a óleo diesel, um desastre ambiental e um fiasco energético; construiu maternidades onde as mães recebiam afagos e os recém-nascidos ganhavam bolas e bonecas com as quais brincariam nos próximos anos; construiu escolas e hospitais, pavimentou ruas, e cada obra pública inaugurada por ele recebia seu próprio nome, seguido de um algarismo romano, como se fosse um rei. E como fazia um dos reis de Shakespeare - que se disfarçava de soldado para conhecer de perto seu exército -, ele se disfarçava de enfermeiro, de professor, de carcereiro e andava por escolas, hospitais e presídios; depois advertia funcionários incompetentes, faltosos, levianos, e demitia os que falavam mal dele.
Também demitia os líderes grevistas, os diretores de escolas que não o bajulavam, os funcionários que o desprezavam, todos ingratos, ele dizia. Por tudo isso, ele se considerava um democrata exemplar.
Mesmo de longe, eu acompanhava sua gloriosa ascensão política. Anos depois, ao visitar minha cidade, andei por bairros que desconhecia, onde vi casebres à margem de rios com cor de ferrugem, e crianças brincando com bolas e bonecas de plástico em imensas crateras de aspecto lunar; vi fileiras de casinhas de alvenaria construídas em áreas desmatadas, pareciam casas de boneca ou canis que brilhavam ao sol como buquês de fogo. Vi escolas mal ventiladas, sem biblioteca, cujas fachadas feias tinham sido apedrejadas por vândalos. Nenhuma creche. E mesmo assim, ele era reeleito e idolatrado...
Às vezes a passagem do tempo é imperceptível como uma distração. Quando me dei conta, tinham passado mais de 40 anos. E quando voltava à cidade, lá estavam os cartazes e outdoors com o rosto dele, e em qualquer estação de rádio a mesma voz com o tom assertivo e triunfante de um animal político que ignora a dúvida e o diálogo.
Durante quase meio século nunca vi o rosto dele, só via as imagens e me lembrava do bigode: o diminuto urubu acenando de algum mural do passado, que agora parecia um pesadelo da infância.
Há pouco tempo soube que ele estava num hospital de São Paulo, onde se internam os grandes líderes doentes da minha cidade. Foi um encontro breve, e talvez seja exagero dizer que foi um verdadeiro encontro. Parei na porta do quarto e divisei o homem deitado, olhando vagamente para a tela de um aparelho de tevê silencioso. Das quatro gerações de mulheres de seu harém, nenhuma estava ao lado dele. Vi, enfim, o rosto que não me viu nem podia me ver. Não usava mais bigode, e no olhar perdido na tela muda, não havia mais fulgor nem ambição nem ódio.
Dizem que foi enterrado com pompa na nossa cidade, e que em sua lápide está gravada esta frase singela: Nenhum outro homem público amou tanto as crianças desta terra.
Mania de grandeza
Mania de grandeza
TIM WEGENAST - O GLOBO - 29/10/10
Tudo indica que o progresso está logo ali, a aproximadamente sete mil metros abaixo do nível do mar. Finalmente o país poderá livrar-se do carma de eterno "país do futuro", tornandose um verdadeiro global player. A euforia é tamanha que o governo liberou o fundo de garantia para a capitalização da Petrobras. O diretorfinanceiro da empresa, Almir Barbassa, evoca o nirvana desenvolvimentista, prevendo a industrialização brasileira no encalço do petróleo.
Enfático, o presidente Lula pede mania de grandeza à população.
Não pretendo ser estraga-prazer. No entanto, observa-se que a maior parte dos membros da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) é mais pobre hoje que há trinta anos. As causas para essa chamada "maldição do óleo" são distintas. Petróleo, gás natural ou diamantes podem instigar a violência interna e gerar guerras civis.
Além disso, os mencionados recursos naturais são empregados para legitimar regimes autoritários, a exemplo do Irã, além de debilitarem as democracias novas, caso da Rússia e da Venezuela.
Estamos muito longe de um conflito armado. O retorno ao autoritarismo também é pouco provável. No entanto, o risco de outras mazelas pós-sal é latente. O vírus da "doença holandesa", por exemplo, representa uma real ameaça ao país. Inicialmente observado na Holanda dos anos 60, o termo designa a relação entre a crescente exportação de recursos naturais e a sobrevalorização da moeda local, ocasionando um declínio nos setores manufatureiros e agrícolas, entre outros.
Para os mais otimistas, convencidos de que "pior do que está não fica", vale lembrar duas constantes da história nacional: a (falta de) educação e a corrupção.
Às portas do jardim pré-salino, o governo não depende de uma ampla mão de obra qualificada, servindo uma economia dinâmica e diversificada, para usufruir de farta renda. É mais simples extrair a riqueza nacional do fundo do oceano que das mentes da população. Pesquisas desenvolvidas por mim e por outros colegas corroboram a ideia de que exportadores de matérias-primas investem menos em ensino.
Conhecendo certas fragilidades institucionais do sistema político brasileiro, é de se temer, também, que o abastecimento dos cofres públicos através da fortuna petrolífera solidifique o fundamento de práticas clientelistas.
A famigerada corrupção política contará com um novo patrocinador que poderá estimular a troca de privilégios privados por lealdade partidária.
Imagine o leitor um mensalão em plena era pós-sal. A Petrobras anda mais capitalizada que nunca...
Como se tudo isso não bastasse, ainda há a preocupação com o meio ambiente.
De acordo com um estudo da Universidade de Adelaide, na Austrália, o Brasil conta com o pior impacto ambiental entre os 179 países analisados. Não é de se esperar que o governo sofra um repentino surto de consciência ecológica ao explorar a Bacia de Santos. As recentes imagens da catástrofe causada pela BP no Golfo do México trazem mau agouro.
Se me perguntassem, diria para deixarem o petróleo onde está, no fundo do mar. Entretanto, reconhecendo a ingenuidade de um apelo que está muito aquém da realidade nacional, contento-me em listar algumas poucas providências cabíveis. Uma reforma política que reforçasse a accountability dos governantes, por exemplo, ajudaria a conter uma corrupção ainda mais grassante. Para tentar promover o mínimo de transparência no gerenciamento do petróleo, o governo deveria intensificar a participação em iniciativas internacionais como a Extractive Industries Transperancy Initiative.
A criação de um fundo nacional que atenue os riscos macroeconômicos causados pela volatilidade do petróleo nos mercados internacionais e proteja o real de uma possível sobrevalorização seria igualmente importante. O Fundo Soberano do Brasil, fundado em 2008, pode ser um começo. Porém, precisa incorporar outras funções, como a regularização da distribuição indireta da renda petrolífera para a população ou a garantia de um fluxo sustentável para gerações futuras.
Frente às ambições do pré-sal, tenho as minhas dúvidas de que as medidas apontadas possam garantir um desenvolvimento economicamente viável, ecologicamente equilibrado, justo do ponto de vista social e intergeneracional.
Contudo, ainda distante da vacilante ilusão petrolífera, gostaria de pedir ao futuro presidente da República que cultive suficiente mania de grandeza para melhorar o ensino, reduzir a pobreza, combater a corrupção e conservar o meio ambiente.
Imagine um mensalão pós-sal. A Petrobras anda mais capitalizada do que nunca...
TIM WEGENAST é doutor em Ciências Políticas.
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