domingo, junho 19, 2011
Nhenhenhém
Nhenhenhém
JORGE BASTOS MORENO
Dilma e Ellen, a harmonia entre os poderes
● Por pouco, mas por muito pouco mesmo, o ti-ti-ti entre duas amigas não compromete o protocolo do cerimonioso jantar da presidente da República com os ministros do STF.
Afastadas pelos afazeres domésticos e profissionais, Dilma Rousseff e Ellen Gracie se reencontraram no jantar e aproveitaram para colocar a conversa em dia.
Dia seguinte, os jornais destacaram o tête-à-tête entre a presidente da República e a ex-presidente do STF, e até especularam que as duas discutiram a aposentadoria de Ellen.
Realmente, as duas exageraram e não pararam de conversar nem na hora dos discursos.
A coluna apurou e descobriu os nobres motivos que levaram duas autoridades muito ciosas da liturgia do poder a se comportarem daquela forma não muito convencional.
Avós de Gabriel e Helena, nascidos praticamente na mesma data, vovó Dilma e vovó Ellen trocavam informações sobre como cuidar dos netos.
— Gabriel já te reconhece na TV?
— Dá pulinhos quando vovó aparece!
— E a Helena, mama quantas vezes por dia?
— Você sabe, menino mama mais que menina!
— Vamos acabar logo com este jantar? Quero ver Gabriel.
Prêt-à-porter
● A Dilma, depois da crise, tem dado preferência ao uso de saias e vestidos. E com cores vivas. Tudo isso para, como diria Ancelmo, ...não sei!
É só o começo
● Em menos de uma semana no cargo, a minha amiga Ideli Salvatti trouxe à tona a discussão sobre documentos secretos, brigou com os governadores do Nordeste e se indispôs com as lideranças do governo no Congresso. Calma, Ideli. No início é assim. Depois, piora.
Rômulo e Remo
● Parece que toda a confusão sobre documentos secretos deve-se à Guerra do Paraguai. Parece que o Acre não é mesmo nosso. E o problema seria o que fazer com os irmãos Viana. Um, o Jorge, é filho de Lula, criado por FH. Já o Tião é filho de FH, criado por Lula.
Dente quebrado
● Michelzinho, que estava brincando no parquinho do Jaburu, na terça, é trazido pela babá com o rosto todo ensanguentado para dentro do Palácio. Mamãe Marcela liga para a Vice-Presidência, e o pai chega esbaforido, já para levar omenino ao hospital.
Temer já está com a pulga atrás da orelha, já que acabou de ouvir da Dilma, durante um despacho, que Gabrielzinho está de castigo, por causa de peraltices. Por pouco a República não desaba, não fosse o imediato diagnóstico médico: Michelzinho se machucou sozinho, vítima de um tombo.
Guerra dos Meninos
● Não, na política ninguém está podendo se descuidar. Dia desses, não fosse o ministro do STF Marco Aurélio, Chalita teria se envolvido em luta corporal com o prefeito Kassab, numa palestra sobre bullying. A briga nada tinha a ver com o tema.
Na sopa da Dilma
● O Palácio do Planalto, essa figura abstrata que esconde os offs do seu inquilino, já detectou que o governador Eduardo Campos não foi apenas picado pela mosca azul da Presidência da República, mas totalmente contaminado pela doença. Seu dengo hemorrágico com a Ideli, dizendo não precisar dela para falar com a Dilma, foi visto como sintoma de que essa alma quer se desencarnar do governo.
Meia verdade inteira
● Sobre a nota de Zé Dirceu dizendo que Caetano Veloso, por não gostar dele, vira a cara quando o vê, o cantor de “Podres poderes”, às voltas com a produção do CD da Gal, aproveita o intervalo das gravações para esclarecer:
— Só a primeira parte é verdadeira. Realmente, não gosto dele nem da postura assumida quando a Dilma foi eleita, dizendo que, agora, sim, o PT tinha chegado ao poder. Não gostei!
Festa
● A coluna dá a palavra a este incansável brasileiro Carlos Tufvesson:
“O teatro Oi Casa Grande, palco de manifestações históricas, voltará a ser cenário de um grande momento que representa a liberdade de expressão. Dia 28 de junho, será entregue o 1o- Prêmio Rio Sem Preconceito, oferecido pela Prefeitura do Rio. Quanto aos premiados, guardados a sete chaves nos cofres da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual.”
Eu não sou aquele deputado que vive enfurnado nos cofres públicos, mas também tenho meu pé de cabra: um dos agraciados é ministro plus do STF.
Dia de Chico
● Hoje é 80 de FH e dia também de S é r g i o R i c a r d o ( 1 9 3 2 ) , P a u l M c C a r t n e y ( 1 9 4 2 ) e M a r i a B e t h â n i a (1946).
E amanhã, domingo, é dia de descanso, de não fazer nada. É dia de Chico (1944).
A calcinha da Luluzinha
A calcinha da Luluzinha
RUTH DE AQUINO - REVISTA ÉPOCA - É colunista de ÉPOCA raquino@edglobo.com.br
República do salto alto, da saia justa, do gineceu. Bobagem! Homem ou mulher, quem comanda precisa é ser competente e honesto
O foco malicioso na calcinha branca de Gleisi foi o clímax de uma semana de besteirol político. O frenesi pró e contra as mulheres no poder empobreceu o debate de ideias do regoverno Dilma. Nunca li tanta bobagem sobre a decisão de um(a) presidente. República da Luluzinha. Do salto alto. Da saia justa. No Planalto do gineceu, agora, só se contrata quem usa saia. Dilma voltou a usar terninho. Gleisi é normalista com nariz arrebitado. Ideli gosta de cantar e ama sargento triatleta 12 anos mais novo. São duras, mas são mães.
Elas gostam de mandar (é mesmo?). São tratores (é ruim?). Briguentas mas doces. E por aí vai. Gastou-se o verbo para analisar algo que não é substantivo. Não tem a menor importância se quem comanda é homem ou mulher. Precisa ser competente e honesto. Duas qualidades raras em Brasília. Qualquer que seja o sexo.
Uma jornalista escreveu que, “como mulher”, se orgulha de ver três mulheres no poder – mas desconfia que não vai dar certo porque nenhuma delas tem experiência. Elas não passam de “umas coadjuvantes”. Normal, não? Nos jornais diários e nas empresas, mulheres costumam ser coadjuvantes.
Os homens fizeram gozações de botequim sobre o triunvirato feminino. E pontificaram: o matriarcado é alto risco. Como se o patriarcado tivesse resolvido nossas mazelas de corrupção e falta de compromisso com o bem público e o futuro do país.
Abomino cotas sexuais ou raciais. Não acredito que Dilma tenha chamado Gleisi e Ideli por serem mulheres. Lula não chamou Zé Dirceu, Gushiken e Palocci por serem homens. Foram atrás de confiança. Torpedeada, Dilma nomeou fiéis escudeiras. Lula também, mas precisou se livrar dos amigões do peito. Dilma, antes mesmo de assumir, abriu mão de Erenice. Todos os companheiros foram derrubados por acusações de desvio de verba pública e abuso de poder.
Não consigo engolir Ideli. Exatamente por representar a política de sempre no Brasil, o fisiologismo que é coisa nossa no Congresso. Não confio em Ideli por ter defendido Renan Calheiros e Sarney. Por prometer cargos e fundos para aplacar a oposição (o PT e o PMDB). O fato de ser vaidosa não influencia em nada meu julgamento. É mau sinal que a própria Ideli, acusada de arrogante, caia na esparrela de prometer “uma operação limpa prateleira, coisa de mulher” e afirmar que nenhuma das três perderá “o lado mãezona”. Vamos trabalhar, minha gente varonil.
Não tem importância se quem comanda é homem ou mulher – precisa é ser competente e honesto
Há uns 15 anos, uma juíza rigorosa e irônica, minha amiga, comentou que só poderíamos comemorar a igualdade entre os sexos “quando as mulheres incompetentes também fossem promovidas, e não apenas as mulheres três vezes mais competentes”. Espero que não seja o caso porque torço pelo Brasil, pelas reformas, pela estabilidade. E acho um nojo essas disputas palacianas que visam apenas ao bem-estar dos políticos. Não passam de chantagens. Ideli já foi avisada. Se os pedidos de grana não forem atendidos, o governo vai sofrer novas derrotas em votações no Congresso. É o bolso, e não a consciência, que está em jogo.
Criticar as três por não serem políticas profissionais demonstra certa condescendência com o estado de coisas. Estamos todos satisfeitos com o exercício convencional da política em Brasília? O toma lá dá cá. As conspirações, os desmandos e as infidelidades partidárias. A República das gravatas listradas ou vermelhas. Dos mocassins. Dos ternos apertados nas barrigas estufadas. Do suor. Dos cabelos precocemente acajus. Das amantes e filhos bastardos. Dos casados com moças que poderiam ser suas netas. Mas, pensando bem, seria ridículo criticar o vice-presidente e os congressistas apenas por serem homens.
Me cansa esse discurso viciado de que a presidente e as ministras, “apesar de mulheres, têm fogo nas ventas”. É clichê demais. Não me orgulho porque temos três mulheres no poder. Minha torcida é pelo Brasil. Nomear uma ministra só por ser mulher é muita tolice. Menosprezá-la só por ser mulher é mais tolice ainda. É fraqueza. Não faz jus a machos e fêmeas minimamente inteligentes.
Combustão
Combustão
FERNANDA TORRES - REVISTA VEJA - RIO
Sou leitora de orelha dos livros de ciência para milhões: física quântica, teoria do caos, do barbante, da relatividade… diz aí. Sou capaz de formular infinitas bobagens com o apanhado de informações truncadas que mal compreendo.
Já li e reli diversas vezes, por exemplo, os fundamentos da termodinâmica — ciência que estuda a relação entre a energia e o movimento —, mas me parece impossível fixá-los a contento.
A segunda lei da termodinâmica trata da reversibilidade dos fenômenos físicos. Suas implicações são amplas, envolvem conceitos tão poéticos quanto o da entropia e o do sentido único do tempo. É possível observá-las no resfriamento de uma xícara de café, no inexorável envelhecimento da carne ou no descontrole de uma crise social.
A insatisfação dos bombeiros cariocas com as suas condições de trabalho e o próprio soldo foi mantida sob a pressão crescente da falta de interlocução com os seus superiores. Dificilmente um sistema se manterá em equilíbrio debaixo de tamanho stress. A tensão explodiu na desastrosa invasão do quartel central da corporação.
Eu me sinto tão ignorante diante da física quanto perante a política de segurança pública. Não sei até que ponto a revolta foi insuflada por interesses eleitoreiros, não sei quanto os bombeiros deixaram de ser ouvidos, provavelmente tudo isso ocorreu simultaneamente.
A insurreição é uma ameaça imperdoável à ordem, quanto mais em uma cidade como o Rio de Janeiro, que enfrenta o drama dos conflitos armados nas ruas. Tal comportamento, vindo de uma das poucas instituições vistas com traços de heroísmo pela população, causa estupefação e abre precedente para que futuras negociações aconteçam na base da paulada.
Imagine um motim dessa natureza em um setor da polícia…
O estado reagiu duramente. Naquela altura, não havia como ser diferente.
O fato levou um pai de família, como o cabo bombeiro Denílson Fábio da Silva Oliveira, de 36 anos, à prisão. Denílson salvou pessoas e resgatou corpos nas tragédias da Região Serrana e do Morro do Bumba. O que levaria alguém como Denílson a se transformar em um dos chamados vândalos da rebelião? Ingenuidade? Camaradagem? Falta de saída? De dinheiro? Perfil violento?
Como é possível pular da posição de mocinho para a de vilão de maneira tão abrupta?
Existe um monstrengo matemático com a esquisita alcunha de Calabi-Yau. Ele me foi apresentado em um livro sobre a teoria das supercordas. Não entendi nem um centésimo do conceito, mas isso não me impediu de me impressionar com o ser errante.
O Calabi-Yau, entre outras aplicações, lida com a irreversibilidade dos fenômenos e dos acontecimentos.
A geometria algébrica o apresenta como um espaço emaranhado que se dobra sobre si mesmo em incontáveis nós. Lembra uma gravura de Escher elevada à enésima potência.
Quando atiçado por alguma variante numérica, o Calabi-Yau se transmuta em outro novelo, e depois em outro, e em outro, outro, outro… até que interrompe a progressão esperada e, como que rasgando o tecido do qual é feito, salta de um estado para outro, inteiramente desconectado de sua origem. Se fizéssemos o caminho contrário ao do experimento, seríamos incapazes de deduzir a sua configuração primeira devido a esses hiatos de comportamento.
Não se adivinharia o vândalo no Denílson das enchentes. Tachá-lo de marginal é apertar o nó até arrebentá-lo. A única saída é a distensão.
A libertação dos amotinados reverteu o quadro de endurecimento para o qual parecíamos caminhar. Apoiar os bombeiros não implica concordar com atos de vandalismo. É preciso enquadrar o pelotão, mas a sua punição deve levar em conta as possíveis intransigências ocorridas e a dureza do serviço.
É isso, ou assistir a um desdobrar sem fim de Denílsons. Talvez, até, fardados.
Todos nós merecemos uma polícia menos desesperada e uma sociedade menos vulnerável à terrível indiferença das leis da física.
Discos Voadores
Discos voadores
IVAN ANGELO - REVISTA VEJA – SP
Faz tempo que não se ouve falar de aparecimento de novos discos voadores. Passou a moda? Os ETs não nos querem mais? Enjoaram-se de nós? Cansaram-se da paisagem NatGeo do planeta e foram rodopiar em outras galáxias? Ficaram aborrecidos com alguma coisa? Terão achado que os pintamos feios demais? Ou nós é que simplesmente desistimos deles?
Cresci no auge da boataria. Começou com um piloto norte-americano de caças contando que havia visto nove estranhos discos voadores brilhantes evoluindo perto de um monte, no estado de Washington. Era 24 de junho de 1947, Guerra Fria, e a onda começou: seria coisa dos russos ou de outro planeta. Venceu a hipótese de naves vindas do espaço sideral, bem mais sensacional e perturbadora.
Outras formas de objetos voadores não identificados foram engrossando a onda: pratos, charutos, triângulos, esferas... Dois repórteres da revista O Cruzeiro forjaram fotos de discos voadores: um lançou pratos girando no ar na Barra da Tijuca, o outro fotografou, a revista publicou e o Brasil entrou na rota dos tais discos. Eu lá, menino, no meio da boataria. Antes, não se via. Cronistas de reinos passados, gênios das navegações, Leonardos, historiadores, cientistas, malucos beleza, folhetinistas, jornais, cronistas dos primeiros 400 anos da imprensa não falam de discos, pratos ou charutos voadores, nem de pessoas que os tivessem avistado. Ninguém foi abduzido de 1950 para trás.
As religiões não nos deixavam sequer pensar em outros mundos, quanto mais em outros seres. Pois, se Deus houvesse criado outros seres em outros mundos, teria contado para os profetas. Portanto, não havia. Minto. O profeta Ezequiel, de 600 anos antes de Cristo, relata que viu grandes rodas luminosas girando no ar, subindo e descendo, e havia seres lá dentro. Melhor pensar que eram anjos. Antes da boataria, só deuses e anjos desciam até a superfície da Terra; e diabos subiam.
Pouco antes dos discos voadores, éramos nós, terráqueos, que nos aventurávamos pelo espaço, nas histórias em quadrinhos e no cinema dos anos de 1930/40: Buck Rogers, Flash Gordon (desenhado pelo grande Alex Raymond), Brick Bradford. Tão cedo quanto 1902, o cineasta francês Georges Meliès deu um tiro de foguete tripulado no olho da Lua. Mais tarde vieram planetas proibidos, guerras nas estrelas, humanos perdidos no espaço. Nós nos enturmamos na galáxia.
Em obras de ficção, sim, havia ETs na Terra. Raros, na verdade. Voltaire criou um no século XVIII, Micromegas, para dar lições de humildade aos homens. Famosos mesmo ficaram os marcianos do escritor inglês H.G. Wells, de 'A Guerra dos Mundos' (1898), que invadem a Terra em busca de sobrevivência, após exaurir seu planeta. Foi adaptada para o rádio (numa versão assustadora feita por Orson Welles) e para o cinema.
Depois que aquele piloto relatou ter visto discos voando sobre o estado de Washington, pessoas começaram a ver ETs pelo planeta. Diz-se que assombração sabe para quem aparece: extraterrestres também sabem.
O cinema se habituou a representá-los como monstros apavorantes interessados em destruir a humanidade. Que eu me lembre, só recebemos um visitante bonzinho, o Klaatu de 'O Dia em que a Terra Parou', e o tratamos mal. Até que Steven Spielberg nos deu o seu frágil ET queridinho.
O Super-Homem, na minha opinião, é o mais queridinho dos ETs. Tão gente boa que nem é visto como extraterrestre, e sim como um de nós. Profissional sério, namorado fiel, bom filho, discreto, bem-arrumado, incorruptível, da paz... — e pronto para resolver qualquer parada duríssima. Quem nos dera se, no próximo dia mundial dos discos voadores, uma revoada deles deixasse por aqui uma brigada desses ETs do bem. Estamos precisados.
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