domingo, setembro 12, 2010

Dessemelhanças

Dessemelhanças
Merval Pereira - O GLOBO
Na sabatina do GLOBO com o candidato tucano José Serra, uma pergunta de Arnaldo Bloch levantou um tema que tem predominado no debate político nos últimos anos: quão realmente semelhantes são os projetos de PT e PSDB e, na atual conjuntura eleitoral, se realmente tanto faz votar em Dilma ou Serra para presidente.
Serra pareceu genuinamente espantado com a comparação, como se o ofendesse, e definiu com sarcasmo as opiniões de dois ícones da cultura moderna brasileira.
Chico Buarque dizer que tanto faz se vencer Dilma ou Serra seria positivo para ele, Serra, já que Chico Buarque apoia declaradamente Lula e diz que votará em Dilma por causa dele.
Já o cineasta Cacá Diegues dizer que Serra e Dilma representam a mesma coisa é um mau sinal para Serra, que foi companheiro dele na UNE e esperava que tivesse uma opinião mais favorável a seu respeito.
Serra ainda alfinetou tucanos que defendem a aproximação com o PT, classificando-os de animais mais exóticos do que o normal.
Claro que Serra está sob o fogo cerrado de uma campanha que luta desesperadamente para não naufragar já no primeiro turno e não está disposto a abrir a guarda para o adversário, mas o fato é que existem tucanos de alta plumagem, como o ex-governador de Minas Aécio Neves, que trabalham com a ideia de uma aproximação com o PT num eventual governo Dilma.
E existem governistas importantes, como o governador de Pernambuco Eduardo Campos, do PSB, que defendem essa aproximação como maneira de neutralizar a força que o PMDB terá.
A decisão da Executiva Nacional do PT de proibir a coligação com o PSDB em Belo Horizonte, quando Aécio e Fernando Pimentel negociaram o apoio conjunto a uma candidatura do PSB à prefeitura em 2008, mostrou, porém, como é difícil esta aproximação.
Quando pensou em fundar um partido político, Fernando Henrique Cardoso procurou Frei Betto, ex-assessor especial do presidente Lula. Pensava utilizar a experiência com as Comissões Eclesiais de Base (CEBs) para fundar um partido socialista.
Frei Betto não se interessou pelo projeto, que considerou elitista, e se engajou mais tarde na criação do Partido dos Trabalhadores.
O PSDB nasceu assim sem as bases operárias que caracterizam os partidos socialdemocratas europeus. E o PT, visto por muitos como tendo evoluído para um partido socialdemocrata, nos últimos anos do segundo governo Lula viu crescer novamente a força do grupo que ainda defende uma utopia socialista como o objetivo final.
O PT tem uma antiga diferença com a Internacional Socialista, que reúne os maiores partidos da socialdemocracia do mundo, que apostou no PDT de Leonel Brizola como seu representante no Brasil.
Por influência de Brizola, o PSDB foi rejeitado na Internacional, sob a alegação de que se aliara à direita para governar, mas o crescimento da importância do PT com Lula, e o declínio do PDT com a morte de Brizola fazem com que Lula seja reconhecido como o principal líder da esquerda brasileira.
Mas o PT precisará definir-se ideologicamente entre o papel que o mundo vê para Lula, de representante de uma esquerda socialdemocrata, e a guinada socialista defendida por setores importantes do partido.
PT e PSDB, de tantas características comuns, repartem nos últimos anos também a mesma acusação, a de serem udenistas, o que, no jargão político, significa moralista, golpista.
O PT, apelidado de UDN de macacão por Leonel Brizola, durante os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso viveu atrás de escândalos e até o impeachment do presidente pedia.
Chegando ao governo, sofreu com o próprio veneno e acusa o PSDB de golpismo.
Serra relembrou na sabatina do GLOBO que, ao contrário, o PSDB, procurado por emissários petistas para negociar na crise do mensalão, em 2005, aceitou não pedir o impeachment de Lula.
São tortuosos os caminhos que levam a uma união, e muitos os obstáculos que se opõem a ela, sendo PT e PSDB partidos que têm origem semelhante, mas que foram se distanciando nas práticas.
Serra hoje tem razão ao dizer que os partidos são muito diferentes, embora já tenham sido mais próximos em alguns momentos do próprio governo Lula. Fernando Henrique surpreendeu quando revelou que, fazendo a transição para o governo Lula de maneira republicana reconhecida pelo próprio presidente eleito em 2002, esperava que o PT chamasse o PSDB para governarem juntos.
Lula, no início do governo, chegou a acenar com essa possibilidade, mas há obstáculos importantes dentro dos partidos, a começar pelas brigas internas em São Paulo, onde estão os principais líderes políticos dos dois lados.
Mas há principalmente a visão do papel do Estado de cada um, que é fundamentalmente diferente, embora os dois sejam favoráveis a uma atuação direta nos setores sociais, como a formação da rede de proteção social que começou com o PSDB e foi ampliada pelo Bolsa Família do PT.
Uma das diferenças é exatamente essa: o PSDB acha que programa social bom é o que diminui a cada ano, e não o que aumenta.
Reduzir o número de famílias abrangidas pelo Bolsa Família significaria que muitas delas teriam sido incluídas no mercado de trabalho, o que significaria o sucesso do programa.
O governo Lula, ao contrário, festeja o aumento para 11 milhões dos bolsistas, numa visão assistencialista, na opinião dos tucanos.
O aumento da máquina estatal, e seu aparelhamento pelos militantes petistas, é outro ponto fundamental de discordância entre os dois grupos políticos, com o PT dizendo que apenas fortalece a máquina estatal que a visão neoliberal do PSDB desmontou, e os tucanos acusando os petistas de usarem politicamente o Estado, abrindo mão da eficiência e não evitando desperdícios do dinheiro público.
Nessa campanha eleitoral, com a quebra dos sigilos fiscais de pessoas ligadas ao PSDB e parentes do candidato José Serra, essa desavença chegou a seu ponto máximo.

Miguel, hoje no Jornal do Commercio (Recife/PE)

Dois pontos e uma dúvida

Dois pontos e uma dúvida
Míriam Leitão - O GLOBO – 11/09/10
As duas propostas de oposição foram discutidas no GLOBO nas sabatinas da candidata Marina Silva, do PV, e do candidato José Serra, do PSDB. Elas são diferentes. Serra acha que o país corre risco de desindustrialização. Marina teme o desenvolvimento que não veja a urgência da questão climática. A ausência da candidata Dilma Rousseff é um espantoso desrespeito ao debate democrático.
Em duas horas de conversa com cada um dos candidatos de oposição deu para falar de vários pontos de suas ideias e projetos, mas um fato inevitavelmente dominou a conversa: o escândalo da quebra sequencial de sigilos de contribuintes em geral, e de pessoas ligadas ao candidato José Serra, em particular.
Marina foi até mais direta e assertiva sobre o tema: a sociedade ficou desamparada pelo presidente da República, que, quando vem a público falar do assunto, não defende as vítimas, apenas a sua candidata, disse ela. Pelo fato de ser mulher, Marina tem até mais naturalidade para desmanchar a tese de machismo defendido pelo presidente Lula. De acordo com o tortuoso pensamento, que Lula defendeu em palanque, exigir esclarecimento do assunto é um ataque à mulher. O que o assunto encerra é outro tipo de questão: agressão aos direitos dos cidadãos.
- No primeiro momento foi indignação, e agora o sentimento é de impotência. O secretário, o ministro e o presidente da República esqueceram que temos duas mil pessoas com sigilo violado e ele saiu em defesa de quem não teve o sigilo violado - disse Marina, defendendo em seguida sua tese da "banalização do dolo".
Serra ao falar do assunto elabora menos e fala mais do fato em si que o atingiu diretamente. Repetiu que avisou ao presidente Lula, quando disse a ele que seria candidato, que informações que constavam apenas das declarações de renda da sua filha estavam circulando por blogs ligados ao governo. Rechaçou a tese presente em algumas declarações de autoridades de que se "quebrou de todo mundo" então "não tem importância".
A candidata Dilma Rousseff, se tivesse vindo, poderia ter explicado melhor todo esse nebuloso episódio. De preferência, se saísse do script que tem repetido que é se apresentar como vítima no episódio, quando as vítimas são, obviamente, as pessoas espionadas.
José Serra usou a expressão "envelope fechado" para se referir ao pensamento de Dilma Rousseff. O país não a conhece, na opinião dele, e votar nela é como escolher um envelope fechado. Marina acha que Dilma aposentou o eleitor e só se preocupa com o "anfitrião".
O país, de fato, vive uma anomalia nesta eleição: o mais empenhado dos políticos em campanha não é candidato, está no cargo da Presidência, usa todos os poderes, facilidades e simbologia do cargo para defender uma candidatura. A candidata mais bem posicionada nas pesquisas é pouco conhecida, foge, sempre que pode, de debates, entrevistas e sabatinas. Desta forma, realimenta o problema de ser a interposta pessoa em sua própria candidatura.
Para piorar, Marina passou a maior parte de sua vida política no partido do governo e carrega ainda as marcas dessa ambiguidade de ser e não ser do grupo que controla o governo atualmente; Serra, de oposição, não defende os feitos do seu próprio partido quando estava no poder e ainda usou a foto do presidente Lula em sua campanha. Estão todos amedrontados diante do tamanho da popularidade do presidente e achando que qualquer palavra em falso pode tirar votos.
Marina acha que Dilma e Serra são muito parecidos na visão de mundo, no estilo e na proposta de se oferecerem como gerentes. No que se refere ao assunto que lhe é mais caro, o da sustentabilidade, Marina afirma que os dois representam risco ambiental para o país, a ameaça de um desenvolvimento desatualizado com as exigências do século XXI e a falta de um pensamento estratégico sobre o assunto.
- Por isso me coloquei como candidata, para mostrar que o meio ambiente não é a disputa do verde pelo verde, é uma forma de criar novos negócios, novos materiais, nova base de conhecimento, produzir mais com menos recursos naturais - disse.
Marina acha que nenhum dos dois oponentes entendeu esse mundo novo.
Serra também disse que se apresentou como candidato para preparar o Brasil para o século XXI.
- Hoje, não temos fundamentos sólidos para o desenvolvimento sustentado. Essa eleição vai decidir o que vai acontecer com o país, com a sociedade e a economia neste século. Foi essa percepção que me levou a ser candidato.
Ele acha que o modelo econômico do governo Lula está esgotado. Que ele teve a chance de uma situação extremamente favorável e não aproveitou para criar as bases desse crescimento sustentado.
- No governo anterior, os preços dos produtos de exportação caíram 10%, no governo Lula subiram 110%. É uma situação inédita desde os anos 30. Mas o país está se desindustrializando, está dependendo mais da exportação de matérias-primas e está aumentando o déficit externo.
O "desenvolvimento sustentável", para Marina, significa incluir a variável ambiental e climática dentro de uma estratégia de crescimento. O "desenvolvimento sustentado", para Serra, significa ter uma política de juros mais baixos, câmbio mais valorizado, maior poupança interna, menor déficit em transações correntes.
São dois pontos. A dúvida é o que realmente pensa Dilma Rousseff. Seus silêncios e suas contradições deixam um vazio no ar.

Deixa “a mulher" falar, presidente!

Deixa “a mulher" falar, presidente!
RUTH DE AQUINO - é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro - raquino@edglobo.com.br
Lula é hoje talvez o brasileiro que menos confia na capacidade de Dilma Rousseff de andar com os próprios pés, falar com a própria boca, pensar com a própria cabeça. O rompante demagógico e sentimental do presidente no dia 7 de setembro atropelou sua candidata. Na TV, Lula afirmou que associar o PT à quebra de sigilo fiscal de parentes de José Serra é “um crime contra a mulher brasileira”. Não, presidente, a violação do sigilo é um crime contra a Constituição. Crime contra a mulher é outra história.
Mais chato e pernicioso que o jogo de empurra entre personagens menores na Receita com nomes mirabolantes como Adeildda, que fuçam como tatus a vida de milhares de cidadãos e falsificam assinaturas, é esse discurso sobre a mulher intocável e santa. Quando os debates começaram, Lula disse que esperava de concorrentes e entrevistadores “mais delicadeza” com Dilma, por ser ela do sexo feminino. Também afirmou que “finalmente o país está preparado para ter uma mulher como presidente”. Como se antes não estivesse. E como se ser mulher fosse pré-requisito para uma boa Presidência. A vizinha Cristina Kirchner não nos deixa mentir.
Agora, o paternalismo do presidente tornou-se patético. Dilma foi jogada para escanteio, numa rouquidão providencial, seguida do nascimento tuitado do primeiro neto. Lula deu uma de macho, falando por uma ex-ministra que nada tem de frágil, conhecida pelo temperamento forte e por um passado de luta contra a ditadura. Em seu ufanismo pontuado pelo Hino Nacional, de terno e broche da Presidência, Lula fez-se de vítima e infantilizou seus eleitores, tratando-os como analfabetos desprovidos de raciocínio.
Como chamar a oposição de “turma do contra”, sem amor pelo país, que “quer destruir tudo o que foi feito”, se o adversário José Serra, à revelia ou não do PSDB, adotou um discurso atabalhoado de continuidade e quis pegar carona nas conquistas sociais do presidente? Lula não tentou destruir tudo o que foi feito por FHC. Ao contrário, manteve a política econômica do governo anterior e caiu de amores por impostos que considerava “assalto ao povo”, como a CPMF. Quando fala da “zelite” para o povão, Lula omite que os banqueiros estão entre os mais satisfeitos com o governo do PT. Esse é o maniqueísmo favorito do ex-sindicalista. Ricos contra pobres. Doutores contra operários. Uma dicotomia falsa no Brasil de hoje, felizmente.
Nenhum presidente de outro partido ousaria mexer no que está dando certo. Um exemplo positivo, a comemorar, é a contínua redução da desigualdade. Apesar da crise internacional, 1 milhão de brasileiros deixaram de ser pobres no ano passado, nos cálculos da Fundação Getulio Vargas.
O paternalismo de Lula é patético. Ele é quem menos confia na capacidade de Dilma andar sozinha
A atitude intempestiva de Lula não é novidade para quem acompanha seus oito anos de mandato. Sua incontinência verbal se aprofundou e hoje resvala no vulgar. Chamar os Estados Unidos de “elefante que se borra para o rato” é uma expressão não apenas gratuita e ofensiva. Ela não faz jus ao relacionamento adulto entre os dois países. Lula tem dito impropérios, mas pede “equilíbrio”. A baixaria é de quem?
Dilma era considerada pelo próprio PT um poste, por jamais ter disputado uma eleição. Hoje é favorita, pelo milagre da transferência de votos, mas também por seus próprios méritos. Dificilmente esse escândalo obscuro pode mudar o panorama. Os números explicam isso. Somente 40 milhões no Brasil declaram Imposto de Renda. Mas, dos 130 milhões de eleitores, 54% são analfabetos, analfabetos funcionais ou não terminaram o ensino fundamental. E a maioria deles idolatra Lula.
Sob pressão de seu mentor, Dilma disse em comício em Goiás que “eles (os tucanos) estão com medo de uma mulher dar certo”.
Governar não é uma questão de gênero. Ser presidente da República é o desafio de uma vida. Se eleita, Dilma vai querer imprimir sua marca e não se conformará em ser vista como interina, esquentando cadeira para a volta de Lula após quatro anos sabáticos.
Conseguirá o “pai dos pobres” calar-se e deixar o país em suas mãos de mulher? Ou exigirá guarda compartilhada?

sábado, setembro 11, 2010

O que é a natureza... #fotografia #photography #fojornalismo #photog Litoral sul RN #botequimtuitajoaquim by Johnguardacosta

Receita orientou fraude em procurações, diz servidora

Receita orientou fraude em procurações, diz servidora
Bruno Tavares e Roberto Almeida O ESTADO DE S. PAULO
A servidora da Receita Federal Ana Maria Caroto Cano, investigada pela quebra de sigilo fiscal de cinco pessoas ligadas ao candidato José Serra (PSDB), afirmou à Polícia Civil de São Paulo que foi orientada pela Corregedoria do Fisco para "encobrir" violações de dados fiscais. O corregedor-geral da Receita, Antonio Carlos Costa d"Ávila, nega. A servidora foi levada a prestar depoimento sobre as quebras de sigilo após denúncia do aposentado Edson Pedro dos Santos. Ele acusou o marido da servidora, José Carlos Cano Larios, de tentar fazer com que assinasse uma procuração em seu nome para acessar dados da Receita. Segundo o depoimento de Santos, o marido de Ana Maria bateu à porta de sua casa há cinco dias e disse: "Minha mulher é funcionária da Receita, eu preciso que o senhor assine aqui dando autorização para que ela acesse suas declarações de renda dos exercícios 2007 e 2008."
Receita orientou fraude, diz servidora
Funcionária afirma em depoimento à Polícia Civil que foi orientada pela corregedoria do Fisco para "encobrir" violações de dados fiscais
Ana Maria Caroto Cano, servidora da Receita investigada pela violação de sigilo fiscal de cinco pessoas ligadas ao presidenciável José Serra (PSDB), afirmou em depoimento à Polícia Civil de São Paulo que foi orientada pela corregedoria do Fisco para "encobrir" violações de dados fiscais.
A servidora foi levada a prestar depoimento sobre as quebras de sigilo no 1º Distrito Policial de Mauá (SP) após denúncia do metalúrgico aposentado Edson Pedro dos Santos. Ele acusou o marido da servidora, José Carlos Cano Larios, de tentar fazer com que assinasse uma procuração em seu nome para acessar dados da Receita.
Segundo o depoimento de Santos obtido pelo Estado, o marido de Ana Maria bateu à porta da casa dele na última segunda-feira e declarou: "Minha mulher é funcionária da Receita, eu preciso que o senhor assine aqui dando autorização para que ela acesses suas declarações de renda exercícios 2007 e 2008. Quem fez esse pedido é o contador que fez suas declarações."
Santos pegou a procuração, mas não assinou. No dia 7 de setembro ele procurou seu contador e o indagou sobre o caso. "Você pediu acesso ao meu Imposto de Renda?" O contador negou e o aconselhou a procurar a polícia. No dia 8 o aposentado deixou uma carta no 1.º Distrito Policial de Mauá narrando o que tinha acontecido.
Ontem, ele disse que não imaginava que seu caso tivesse relação com o escândalo de violações de sigilo na Receita. Em 2008 ele foi candidato a vereador de Mauá pelo PPS. "Fiquei na dúvida. Ainda bem que meu contador me alertou para procurar a polícia. Até agora mão sei explicar por que queriam acessar meus dados."
Segundo o delegado Marcos Carneiro, chefe do Departamento de Polícia Judiciária da Macro São Paulo (Demacro), Ana Maria e seu marido afirmaram que as assinaturas começaram a ser colhidas a pedido da corregedoria do Fisco, após a série de reportagens sobre o escândalo.
O objetivo, segundo a funcionária da Receita, seria o de "justificar" acessos ilegais a declarações de Imposto de Renda. Segundo a polícia, Ana Maria foi indagada sobre quem na corregedoria a teria orientado a "encobrir" as violações de dados fiscais, mas não citou nomes.
"Segundo ela, (as autorizações) são de pessoas que pediram favores e ela teria feito o acesso", afirmou o chefe da Demacro. "Quando começou a reportagem maciça, Ana Maria foi orientada, segundo ela, por funcionários da corregedoria da Receita, para que declarassem que o acesso aos dados foi por vontade própria. Isso não corresponde. Esse cidadão (o metalúrgico aposentado) foi o primeiro que achou estranho", afirmou Carneiro.
Ana Maria Caroto Cano é filiada ao PMDB-SP desde setembro de 1981. Segundo a corregedoria do Fisco, que a investiga, partiram do computador dela acessos supostamente imotivados a 114 CPFs.
Reação. O corregedor-geral da Receita, Antonio Carlos Costa D"Avila, reagiu, em nota, à declaração de Ana Maria sobre a "orientação" do órgão . "A Corregedoria-Geral da Receita Federal do Brasil contesta e repudia a informação divulgada pela imprensa de que haveria orientado a servidora Ana Maria Rodrigues Caroto Cano, que está sob investigação, a providenciar qualquer documento para encobrir ou justificar irregularidades cometidas."

Milágrimas | Ná Ozzetti


Amâncio, para Tribuna do Norte

Bebê a bordo

Bebê a bordo
Fernando de Barros e Silva FOLHA DE S. PAULO
SÃO PAULO - A pequena Dilma está sentada na sua cadeirinha, os pezinhos soltos no ar, no banco traseiro do carrão de Lula. Supomos que o carrão seja de Lula (só pode ser), uma vez que no banco da frente tudo o que conseguimos divisar são dois vultos engravatados, atrás do vidro escurecido pelo insufilm.
Dilminha tem a expressão assustadiça e os bracinhos esticados, segurando firme na proteção da cadeirinha. Poder e desamparo, tutela e dependência estão contrastados, entre o banco da frente e o banco de trás, na charge histórica que Angeli publicou aqui ontem.
Nela não há nenhuma palavra, apenas a inscrição "Lei da Cadeirinha". A condição infantilizada, ou lulo-dependente da candidata, fica ainda mais exposta porque a criança retratada pelo artista tem feições de uma senhorinha convencional. (Veja: www.folha.com/102539).
Quando começou a campanha na TV, Marina Silva disse, com razão, que estavam "querendo infantilizar a sociedade brasileira com essa história de pai e de mãe". Este tem sido um dos traços definidores da sucessão, recorrente nas falas de Lula e na propaganda de Dilma.
Mas também a campanha de José Serra é muito infantilizante. A escolha de Indio da Costa como vice e tudo o que veio depois dela transformaram a candidatura tucana numa espécie de berçário da UDN. Entre o que Serra imaginava ser e o que se tornou o tombo é imenso.
Dilma, porém, é imbatível em matéria de festa infantil. Mãe do povo ou filha de Lula, tanto faz, o que importa é que ela permaneça protegida na sua "cadeirinha".
Nunca um presidenciável foi tão blindado.
Até mesmo nas entrevistas, a petista se preserva cuidadosamente distante da imprensa. É comum vê-la no "JN" caminhando até um púlpito, atrás do qual fala a um buquê de microfones, sem repórteres por perto, o que -conforme observou Renata Lo Prete - dificulta muito réplicas ou questões embaraçosas e lhe confere desde já ar presidencial. Dilma já sentou na cadeirinha.

ANIVERSÁRIO DE ÓDIOS E PAIXÕES

ANIVERSÁRIO DE ÓDIOS E PAIXÕES
EDITORIAL - O GLOBO - 11/9/2010
Como nos anos anteriores, haverá cerimônias oficiais nos três locais onde os terroristas atacaram: no Pentágono, onde estará o presidente Obama; no Marco Zero, para onde vai o vice Joe Biden; e em Shanksville (Pensilvânia), onde caiu o quarto avião sequestrado, com a presença da primeira dama, Michelle Obama, e de sua antecessora, Laura Bush.
Mas o nono aniversário do 11 de Setembro não é como os anteriores. O clima de homenagens à memória dos 3 mil mortos nos atentados foi contaminado por ódios e paixões depois de dois episódios: a proposta de um imã nova-iorquino para construir uma mesquita a duas quadras de onde ficavam as Torres Gêmeas; e a decisão de um obscuro pastor evangélico da Flórida de queimar o maior número possível de alcorões (livro sagrado dos muçulmanos) - decisão suspensa até segunda ordem, depois de pressões de Washington.
São testes extremos para as liberdades religiosa e de expressão nos EUA. A primeira permite a construção de um templo muçulmano em Manhattan (ou em qualquer outro lugar dos EUA). Mas não deveria pelo menos ficar mais longe do local da tragédia maior de 11/9? - perguntam muitos americanos, completamente divididos a respeito. Mas que tipo de mensagem enviaria aos países islâmicos qualquer manobra que obstruísse a construção?
Já a liberdade de expressão permite ao pastor Terry Jones levar adiante seu plano macabro de queimar alcorões. Os mais altos escalões do governo americano imploraram-lhe que atentasse para os efeitos sobre a segurança do país. Quantos homens-bomba se ofereceriam para vingar a infâmia? O pastor, que tem (ou tinha) apenas 50 fiéis, parece ter adiado seu intento, exigindo um encontro com o imã que promove a mesquita em Nova York.
O presidente Barack Obama está no meio do tiroteio político-religioso, ainda mais que ambas as questões são exploradas pelas forças em luta na campanha para as eleições de meio de mandato (Câmara, Senado e governos estaduais), em novembro. Conservadores de todos os matizes aproveitam que Obama teve de fazer uma intervenção maciça na economia em crise para chamá-lo de "socialista". Incendiários da direita aloprada pregam-lhe o rótulo de "muçulmano", por ele ter nome árabe e vivido na Indonésia. Obama mantém o sangue frio e a moderação que o caracterizam. Na Casa Branca, disse que o 11/9 seria "uma excelente ocasião" para o país refletir sobre o fato de que há milhões de muçulmanos cidadãos americanos.
O nono aniversário do 11/9 é muito diferente dos anteriores. Um ano e oito meses depois da posse, o clima no governo Obama também. Herdeiro de uma guerra inútil (Iraque), de outra desastrosa (Afeganistão), da maior crise econômica desde a Grande Depressão e confrontado pelo maior desastre ambiental do mundo, sua popularidade despenca. Mas ele tem também muito a mostrar: a histórica reforma do sistema de saúde; a ação que evitou o colapso da economia em 2008/2009; a retirada das tropas de combate do Iraque, como prometera; o necessário reforço da presença americana no Afeganistão; uma eficiente iniciativa para melhorar o ensino nos EUA.
Infelizmente, o país está ainda mais dividido pela velha política obstrucionista em Washington, que Obama sonhou superar, e pelas forças obscurantistas que se agitam em datas como o 11/9.

PF prende cúpula política do Amapá

PF prende cúpula política do Amapá
Entre os presos estão governador, ex-governador, empresários e servidores. Operação apreendeu R$1 milhão e 5 carros
Fábio Fabrini e Jailton de Carvalho – O Globo
 BRASÍLIA. A Polícia Federal prendeu ontem o governador do Amapá, Pedro Paulo Dias (PP), o ex-governador Waldez Góes (PDT) e 16 empresários, servidores públicos e políticos, acusados de desviar R$300 milhões em recursos das áreas de educação, saúde, assistência social, entre outras. Na operação Mãos Limpas, a PF também obteve autorização judicial para conduzir à força para depor o presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Amanajás (PSDB), o prefeito de Macapá, Roberto Góes (PDT), e 85 suspeitos de envolvimentos com corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, entre outros crimes.
Entre os presos estão o presidente do Tribunal de Contas do Amapá (TCE-AP), José Júlio de Miranda Coelho; o secretário de Segurança, Aldo Alves Ferreira, delegado da PF; a ex-primeira-dama Marília Brito Xavier (mulher de Waldez); e Ruy Santos Carvalho, chefe da Superintendência de Agricultura, vinculada ao Ministério da Agricultura.
Durante as buscas, a PF apreendeu R$1 milhão em espécie, duas armas e cinco carros de luxo das marcas Ferrari, Masserati, Mercedes-Benz e Mini Cooper.
Fraudes em licitações em troca de propina
Os veículos foram apreendidos na casa de praia do presidente do TCE em João Pessoa. A maior parte do dinheiro (R$540 mil) foi recolhida na casa do secretário de Segurança. Outros R$250 mil estavam na casa do deputado estadual Edinho Duarte.
Depois das prisões, o presidente do Tribunal de Justiça do Amapá, desembargador Dôglas Evangelista Ramos, de 67 anos, assumiu o governo do estado. A operação deverá ter forte impacto na corrida eleitoral. Os principais candidatos majoritários foram atingidos pelas investigações. O governador Pedro Paulo Dias concorre à reeleição, assim como o presidente da Assembleia. O ex-governador Waldez Góes, que deixou o cargo em abril para disputar o Senado, lidera as pesquisas.
Na noite de ontem, os acusados foram levados a Brasília, onde devem ficar presos ao menos até quarta-feira, quando expira o prazo da prisão temporária, decretada pelo ministro João Otávio de Noronha, que preside o inquérito sigiloso no Superior Tribunal de Justiça. O governador e o presidente do TCE, que têm foro privilegiado, vão ficar em sala de Estado Maior na Superintendência da PF. São as mesmas instalações que abrigaram o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda (ex-DEM, sem partido).
Os demais presos seriam transferidos de madrugada para a Penitenciária da Papuda, em Brasília. Ontem, O GLOBO não conseguiu contato com advogados dos acusados. As investigações, que envolveram PF, Receita Federal e Controladoria Geral da União (CGU), começaram em agosto. Revelaram um esquema de desvio dos fundos de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) e do Ensino Fundamental (Fundef), do governo federal, repassados à Secretaria da Educação. Conforme a PF, empresas eram contratadas mediante fraudes em licitações, sem formalidades legais. Em troca, integrantes do governo recebiam propina.
Apenas uma empresa de segurança, com contrato emergencial de três anos, recebia R$2,5 milhões mensais do estado. Levantamento da CGU mostra que, em 2009 e 2010, os órgãos atingidos pelas fraudes receberam R$800 milhões da União.

Waldez, para o Amazônia Jornal

Legislativo não é apêndice do governo

Legislativo não é apêndice do governo
Arnaldo Jardim FOLHA DE S. PAULO
Ainda há muita água para rolar, mas, por hipótese - e não mais que por hipótese -, admitamos que a atual aliança governista eleja maioria expressiva nas duas Casas do Congresso. A primeira pergunta a fazer é: qual a consistência político-ideológica dessa maioria?
Sabemos que o partido lulista tentará usar tal maioria para avançar em mudanças constitucionais e legais ditas "de esquerda". Sabemos, também, que a outra metade (possivelmente majoritária no bloco), representada pelo PMDB de face mais liberal, quererá não mais que usufruir sua parcela de poder.
A segunda pergunta é: a que se prestaria essa aliança? Ela serviria para uma sustentação convencional do governo, não para grandes arroubos políticos. Não teria, por exemplo, homogeneidade para aprovar as inadiáveis reformas tributária e previdenciária, que o governo Lula postergou.
Tramada sobre circunstâncias, e não sobre programas, essa aliança teria uma consistência debilitada e uma convivência sempre atritada.
Portanto, uma eventual maioria da atual base governamental na Câmara e no Senado significaria, sim, uma excessiva concentração de poder, mas relativizada pelos objetivos políticos transversos de cada facção situacionista.
Duvido que ela se prestaria a validar o sonho autoritário do partido lulista, impondo modificações exóticas à legislação. Já no governo Lula existiu enorme distanciamento entre o que os ideólogos do partido pregavam e a prática política.
Os sonhos do partido sempre foram contornados no discurso que Lula faz à sociedade, operando o convencimento popular por prática populista frequentemente demagógica. Lula sempre esteve longe, muito longe, de aderir ao ideal de uma revolução transformadora.
Já o cerne da "intelligentsia" do partido lulista sonha usar o processo democrático -um tanto pateticamente, reconheçamos- para fazer a revolução que ainda não aconteceu. Mantém a visão da "tomada do palácio" para, a partir do governo, "moldar a sociedade".
Na Presidência, Lula ignorou essa visão com sua implacável hegemonia política sobre o partido; mas, quando ele não estiver mais lá -admitamos, por hipótese-, o PMDB teria muito mais cuidados com o destino do governo e das leis, estou certo? Não é novidade para o PMDB que o núcleo ideologizado do partido lulista sonha afastá-lo das decisões reais do poder.
A contínua pregação da hegemonia esquerdista -algo que não se concretizará tão cedo- deixa claro que o acolhimento do PMDB nas hostes lulistas é meramente oportunista e que o nível de confiabilidade da aliança é precário. Ao PMDB, definitivamente, não interessa contribuir para um modelo autoritário.
Mas há outra hipótese a considerar: no caso de vitória do candidato de oposição José Serra, como espero e aposto, a questão da maioria parlamentar se inverteria, posto que a adesão do PMDB a um eventual governo Serra seria lógica.
Isso não só pelo vínculo natural que o candidato tem com as frações históricas do partido como também pelo peristaltismo usual da sua parcela mais, digamos, pragmática. Na sua passagem pelo Ministério da Saúde, a aprovação da emenda nº 29 já demonstrou isso.
E não é só. É evidente que uma eventual bancada diminuta e os efeitos da cooptação do governo -o governo lulista nunca se inibiu com isso- podem criar dificuldades eventuais à resistência oposicionista. Mas isso já aconteceu num Brasil relativamente recente e o país se redemocratizou.
O que engrandece a resistência não é o número de parlamentares, mas a capacidade de luta democrática e articulação política da bancada oposicionista, inclusive aproveitando as contradições do bloco adversário.
Arnaldo Jardim, engenheiro, é deputado federal pelo PPS-SP e candidato a novo mandato.

Somewhere | trailer US (2010) Sofia Coppola winner Venice Film Festival

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