domingo, outubro 17, 2010
Sem lógica
Sem lógica
Míriam Leitão - O Globo - 17/10/2010
No primeiro balanço do PAC, o trem-bala não constava, no décimo, ele estava no primeiro lugar absorvendo metade dos investimentos previstos para o setor. Não foram feitos os estudos detalhados necessários para que as construtoras possam calcular suas ofertas, mas a licitação está prevista para o fim do ano. Já foi avaliado em R$18 bilhões, agora em R$34 bi e pode ir a R$70 bi.
Os especialistas em logística não sabem como foi que, de repente, o TAV, Trem de Alta Velocidade, virou a prioridade absoluta do país, e acham que pode custar o dobro do calculado. Enquanto isso, o investimento no Ferroanel de São Paulo caiu de R$528 milhões, na previsão do primeiro balanço do PAC, para R$20 milhões, no décimo balanço.
O professor Paulo Fernando Fleury, do Instituto Ilos de Logística e Supply Chain, fez um estudo sobre as estruturas viárias do país, uma pesquisa junto às grandes empresas consumidoras de serviços logísticos, e uma análise do PAC. Viu o retrato de um país perdido entre prioridades invertidas, decisões confusas das autoridades e muitos gargalos.
- Uma pesquisa do Banco Mundial mostrou que 91% dos empresários brasileiros acham que a logística é uma vantagem competitiva estratégica para as empresas. Num ranking de desempenho logístico em 150 países, o Brasil ficou em 41º em desempenho logístico, mas isso porque a privatização das comunicações melhorou o item infraestrutura. No item "procedimentos alfandegários", o Brasil está em 82º. Existem dez órgãos para carimbar e dar autorização na Alfândega. Em 2008, houve 121 dias em que pelo menos uma das repartições que operam dentro dos portos estava em greve - disse Fleury.
A logística mistura uma série de fatores que vão desde o transporte, armazenamento, gestão de estoques, organização de fluxos de insumos e de entrega do produto final de uma empresa. O conceito era quase desconhecido há alguns anos, hoje está no coração das empresas. Fleury conta que numa pesquisa de 1995 em nenhuma das grandes empresas brasileiras havia um responsável por logística. Em 2003, uma pesquisa sobre o nível hierárquico do principal executivo de logística nas grandes empresas brasileiras não havia uma única empresa em que ele fosse presidente ou vice-presidente, mas em 42% delas o responsável era diretor e em 49% era gerente sênior. Agora, em 23% delas o principal executivo de logística está no nível de presidente ou vice-presidente da empresa e em 37% está na diretoria. O setor privado tem investido cada vez mais em logística, o setor público não consegue remover os gargalos, nem tornar eficiente a malha viária do país.
A demanda por serviços logísticos vem crescendo de forma explosiva. As exportações cresceram 18% ao ano desde 2001, a movimentação nos portos cresce a 7% ao ano. Nas ferrovias, desde a privatização em 1997 houve um aumento de 102% de carga transportada. Em 1997, havia 35 operadores logísticos, hoje existem 165 empresas que fazem esse trabalho e o faturamento delas saiu de R$1 bilhão para R$39 bilhões. O custo logístico no Brasil é de 11,6% do PIB, nos Estados Unidos é de 8,7%. No Brasil é 30% maior.
A comparação com qualquer outro país continental mostra uma enorme disparidade da escolha das formas de transportes, os chamados modais. No Brasil, 62,7% da carga vão por via rodoviária, nos Estados Unidos, 27,7%. Aqui, só 21,7% são por via ferroviária, lá, 41,5%. No Brasil, 3,8% vão por dutos e lá, 19%. No aquaviário estão equivalentes, 11,7% e 11,5%. No aéreo, 0,1% aqui e 0,3% lá. Mas por aviões vai a carga mais valiosa.
- Se aplicássemos no Brasil a proporção da matriz dos Estados Unidos, mantendo os custos brasileiros, a economia seria de R$58 bilhões, 2% do PIB. E reduziríamos 35% das emissões dos gases de efeito estufa no transporte. Há uma correlação direta entre desempenho logístico e competitividade na exportação de produtos de alto valor agregado - diz Fleury.
Olhada pelas autoridades de forma partida, a logística é o nervo exposto da falta de competitividade brasileira. Um exemplo: os portos. Eles têm dificuldades, mas a pesquisa mostrou que para os empresários o principal problema dos portos é a ineficiência do acesso rodoviário até eles. Quando se pergunta às empresas quais são os principais problemas de infraestrutura do país, só 27% registraram o item "poucos portos", mas 95% apontaram "estradas mal conservadas" e 86% apontaram "malha ferroviária insuficiente".
O PAC não melhorou esse quadro, na opinião do especialista. Primeiro, pela falta de visão integrada de logística; segundo, pela falta de sentido de algumas prioridades como a do trem-bala.
- Nem foi citado no primeiro balanço do PAC e no décimo balanço aparece como a maior prioridade nos investimentos logísticos do país. Nem foi estudado e já vai ser licitado. Não faz sentido. Além disso, a comparação entre o PAC-1 e PAC-2 mostra sobreposição de ações. Em um e outro, só nos portos há 17 ações repetidas, que estão no PAC-1 e aparecem como coisa nova no PAC-2. Em rodovias e ferrovias há uma série de trechos repetidos nos dois PACs - explica.
Isso sem falar no fato de que entre os balanços, as ações são subdivididas para parecerem concluídas, e as obras são fracionadas para permitirem inaugurações sucessivas. Com truques como esses e falta de visão sistêmica, a ineficiência logística continua e vai drenando os esforços das empresas para serem mais competitivas.
Quente e frio
Quente e frio
ELIANE CANTANHÊDE – Folha de São Paulo
BRASÍLIA - O Datafolha registrando estabilidade foi um banho de água fria nos tucanos e esquentou os ânimos dos petistas para prosseguir na linha da agressividade.
Há uma pesquisa e dois resultados. Um é que a arriscada tática de bater conseguiu estancar a queda de Dilma. O outro: apesar de todos os seus excessos, Lula continua quebrando recordes de popularidade. Dilma sabe muito bem o que fazer com esses dois sinalizadores. Mas Serra pode fazer o quê?
A estratégia petista será mais e mais de pancada em Serra, no PSDB e em FHC, acusando os adversários de calúnia e de difamação contra Dilma, como se Erenice fosse um mero factoide e a candidata não tivesse mudado de opinião sobre aborto ao sabor das pesquisas.
E ninguém segura Lula. É mais marqueteiro do que o marqueteiro, mais coordenador que os coordenadores, mais candidato que a candidata. Se bobear, demite a maquiadora e cuida ele mesmo do batom da pupila, enquanto se esgoela nos palanques acusando adversários e imprensa de "caluniadores" quando a verdade dói.
A vantagem de Dilma se cristaliza, e os espaços de Serra para crescer se esgotam. Ela mira os artistas, que faziam a festa dos petistas e foram minguando ao longo de mensalões, aloprados e Erenices.
Ele avançou nos votos verdes, em alas religiosas e nos centros urbanos. Agora atrai parte do PMDB e disputa apoios no PV, no PP e no PTB, aguçando o antipetismo ao condenar o aparelhamento e o jeitão do PT de governar "em família". Mas são poucos os outros caminhos a explorar. Cerca de 90% dos eleitores de Dilma dizem que não vão mudar, e os indecisos, por definição, tendem a se dividir.
No mais, o PT costuma ter menos votos e o PSDB mais votos do que as pesquisas indicam. Logo, uma diferença de seis pontos, faltando duas semanas para a eleição, não garante certezas. Dilma está mais aliviada, mas a guerra continua.
elianec@uol.com.br
Chefe de gabinete ligado a Dilma e Erenice teria cobrado R$ 100 mil de deputado, diz 'Veja'
NOVA DENÚNCIA NA CASA CIVIL
Chefe de gabinete ligado a Dilma e Erenice teria cobrado R$ 100 mil de deputado, diz 'Veja'
O Globo
BRASÍLIA - Mais uma denúncia de cobrança de propina envolve a Casa Civil e o atual chefe de gabinete da pasta, Vladimir Muskatirovic, levado ao Palácio do Planalto pela ex-ministra e candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Segundo reportagem da revista "Veja", o deputado Roberto Rocha (PSDB-MA) acusa Vladimir de ter cobrado R$ 100 mil para autorizar uma mudança societária na TV Cidade, afiliada da TV Record no Maranhão. A família do deputado é sócia da emissora.
A "Veja" afirma que Rocha teria pago R$ 20 mil a Vladimir como sinal para resolver o problema, em 2007. Na época, Vladimir era assessor da secretária-executiva Erenice Guerra, depois promovida a ministra e demitida em meio a denúncias de tráfico de influência e corrupção envolvendo seus filhos.
Procurado pelo GLOBO, o deputado negou que tenha pago qualquer valor. Ele disse que a cobrança de propina chegou ao seu conhecimento através de um assessor, Ivo Icó Filho, que teria tido contato com Vladimir.
- Isso foi tratado entre a assessoria da Casa Civil e a minha. Claro que não (paguei nada). Não denunciei o caso na época pois não ia faltar quem dissesse que eu estava usando o mandato parlamentar para resolver problemas de família. Tentei uma solução no Judiciário.
Rocha confirmou que se reuniu com Erenice no Palácio do Planalto, em 2007, na tentativa de regularizar a composição societária da emissora. A cobrança de propina, segundo ele, veio depois. O deputado conta que a pendência não foi resolvida no Executivo nem no Supremo Tribunal Federal, onde um mandado de segurança chegou a ser ajuizado, mas nunca julgado.
O governo chegou a autorizar a mudança societária, em 2004, mas voltou atrás meses depois, anulando ato assinado pelo presidente. A solução, segundo Rocha, veio por um acordo entre sua família e os herdeiros do outro sócio da emissora.
Procurado pelo GLOBO, Vladimir não quis falar. Ivo Icó Filho não foi localizado. Segundo a "Veja", o assessor confirmou a cobrança de propina. "Vladimir deu a garantia de que resolveria tudo, desde que pagássemos R$ 100 mil," teria dito. Ainda segundo a "Veja", o deputado confirmou que pagou R$ 20 mil.
Suspeita de fraude envolve homem de confiança de Dilma, diz 'Época'
SÃO PAULO - O banco público de desenvolvimento da Alemanha, Kreditanstalt fur Wiederaufbau (KfW), ingressou com uma ação de danos materiais e morais no Brasil que envolve um dos homens de confiança da candidata Dilma Rousseff (PT) no setor elétrico, Valter Luiz Cardeal de Souza, presidente de uma subsidiária da Eletrobrás, num escândalo de fraude milionária em empréstimos internacionais de 157 milhões de euros, segundo publicou a revista "Época" neste fim de semana. A ligação de Dilma e Valter vem desde os anos 90. Cardeal chegou à Eletrobrás por indicação de Dilma quando era ministra das Minas e Energia.
Nove pessoas, entre elas quatro militantes do PT gaúcho, respondem a processo na Justiça Federal do Rio Grande do Sul, após a investigação da Polícia Federal que constatou, em 2007, crimes de formação de quadrilha, corrupção passiva e ativa e estelionato. Cardeal e Dilma não são acusados neste processo.
Porém, o KfW decidiu ingressar com outra ação, na 10 Vara Cível de Porto Alegre, para pedir indenização à Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica (CGTEE), que é presidida por Cardeal.
De acordo com "Época", que teve acesso à ação, o banco alemão sustenta, com relatos, fotos e documentos, que Cardeal e Dilma tinham conhecimento da fraude em torno das garantias legais exigidas para o empréstimo, que seria usado para a construção de sete usinas de biomassa que não saíram do papel.
"Até mesmo alguns políticos conheciam os fatos, como a então ministra Dilma Rousseff", diz a ação da KfW, que sustenta que a petista sabia sobre a transação e obtenção das garantias do empréstimo durante um seminário na Alemanha, em 2007.
A CGTEE, como subsidiária de estatal, é vedada pela Lei de Responsabilidade Fiscal de assumir compromissos de fiador para empréstimos internacionais. O caso teria sido apresentado em um dos painéis sobre negócios no Brasil. A assessoria de Dilma confirma a participação no evento, mas nega que o negócio tenha sido discutido.
O banco alemão tenta demonstrar que a oferta da garantia fraudulenta da CGTEE para o empréstimo a duas empresas privadas brasileiras sem patrimônio suficiente eram de amplo conhecimentos das autoridades do setor elétrico do Rio Grande do Sul, como Cardeal e também Carlos Marcelo Cecin, ex-diretor da CGTEE e um dos elaboradores do projeto Luz Para Todos, programa-vedete de Dilma.
Cecin é um dos acusados na Justiça Federal e confirmou na ação cível que os detalhes do empréstimo "eram um assunto de conhecimento de todos", inclusive Cardeal, que esteve na Alemanha com o acusado de ser o mentor do golpe, Erwin Alejandro Jaegger, representante da empresa alemã CCC Machinery, que intermediou os financiamentos das duas empresas brasileiras, Winimport e Hamburgo, com o KfW.
Procurada, a assessoria da Eletrobras não localizou Cardeal para explicar o caso.
Um país pobre
Um país pobre
FERNANDO CANZIAN – FOLHA DE SÃO PAULO
SÃO PAULO - Lula foi o brasileiro que mais concorreu à Presidência. Foram três derrotas. Até 2002, quando mudou e venceu. Depois, se reelegeu em 2006. Pela primeira vez desde a redemocratização, e após cinco eleições, seria agora carta fora do baralho. Nem tanto.
O presidente mais popular do Brasil, com 81% de aprovação, segundo o Datafolha, transmite a uma neófita na política seu maior patrimônio neste 2010: a percepção entre o eleitorado de que Dilma é a mais preparada para defender os pobres. E o real.
Isso em um país pobre. Mas que vem crescendo forte, a despeito dos desequilíbrios. Com distribuição de renda, mais crédito e empregos formais. Segundo o Datafolha, 51% consideram Serra defensor dos ricos. E 61% o veem como o mais experiente para mandar no Brasil. Só 25% enxergam Dilma assim.
No entanto, é a petista quem está na frente: 54% a 46%, considerando os votos válidos. São os pobres que fazem a diferença. Não custa lembrar, em um país ainda repleto de pobres.
Em seus levantamentos, o Datafolha procura espelhar o Brasil real em milhares de questionários. Divide seus entrevistados em cotas semelhantes ao que há circulando de fato pelo país.
Assim, temos que 47% dos eleitores cursaram só o ensino fundamental. Uma parcela quase igual tem renda familiar mensal de até dois salários mínimos.
Isso equivale a R$ 1.020 (lembrando que a renda é familiar, não individual). O valor é inferior à mensalidade de uma boa escola privada paulistana. É entre esse eleitorado, quase majoritário, que Dilma (e a avaliação de Lula) "arrebentam".
A candidata tem a maioria (51%) das intenções de voto para o segundo turno entre os menos escolarizados e mais pobres. Serra, cerca de 37% nessas duas faixas do eleitorado. É isso o que explica, de um modo geral, a eleição em um país pobre. O resto ainda é espuma.
Estresse na escola
Estresse na escola
EDITORIAL – FOLHA DE SÃO PAULO
Excesso de licenças médicas para docentes é sinal de que se deterioram as relações em sala de aula; governo e pais não podem se omitir
A última sexta-feira, Dia do Professor, não foi data para muita comemoração. A educação no Brasil vai mal, já se aprendeu. Mas nem todos sabem, ou querem saber, que os docentes também participam dessa tragédia nacional como vítimas.
Não são apenas os baixos salários. Há indícios de que esteja adquirindo proporções epidêmicas o fenômeno da indisciplina e da violência em salas de aula, com maior gravidade em escolas da rede pública. É patente a necessidade de providências, mas ninguém -poder público, sindicatos, pais ou educadores- sabe ao certo como reagir.
A deterioração dos relacionamentos em classe tem como sintoma mais visível o estresse dos professores -alguns deles submetidos a situações extremas, como ameaças de morte.
Por mais que se imagine a ocorrência de abusos na concessão de licenças médicas por problemas emocionais, os números chamam a atenção. De janeiro a julho deste ano elas chegaram a 19.500 na rede estadual de São Paulo.
A cifra corresponde a 92 afastamentos por dia. Mesmo ponderado como percentual do conjunto de mestres da rede estadual (220 mil), o índice é alto: 8,9% do corpo docente afastado ao longo de sete meses. Pior: a cifra desse período de 2010 representa 70% do total de casos do ano anterior, o que sugere uma aceleração do problema.
O governo estadual precisa fazer algo a respeito, mas o alcance de sua ação é limitado. Seria um bom começo melhorar as condições gerais de trabalho, aprofundando as políticas de reduzir a um mínimo as vagas de professor temporário e de valorizar a função, por meio de aumentos na remuneração básica ou de prêmios por desempenho e requalificação.
No que toca ao problema específico da violência, aberta ou velada, o Estado pode pouco. Já se assinalou, neste espaço, a necessidade de rever gradação, condições e limites das punições aplicáveis a estudantes, além de serviços especializados de assistência ao professor. Cabe reconhecer, no entanto, que o alcance de tais medidas será sempre restrito.
O fenômeno não é só da rede pública, nem exclusivamente paulista, muito menos brasileiro. Por toda parte emergem conflitos entre os muros da escola, mesmo em países ricos, quase sempre em áreas onde algum tipo de iniquidade ou exclusão se torna a regra - como nos subúrbios europeus com predomínio de minorias oriundas de antigas colônias.
Não contribui para melhorar esse quadro a transformação em clichês de conceitos pedagógicos avessos a reprimir ou cobrar desempenho de jovens estudantes. É preocupante também que as famílias tenham se tornado tão disfuncionais. Muitos pais parecem encarar a escola e o professor como responsáveis pela boa educação dos filhos, no sentido tradicional da expressão, que compreende o aprendizado de regras básicas de convívio social.
Já se tornou lugar comum dizer que, sem o envolvimento dos pais, nenhuma escola tem futuro. Antes de participar da vida escolar, contudo, cabe a eles assumir uma responsabilidade mais primária, que é garantir que os próprios filhos reúnam condições de fazê-lo.
Cláudio Humberto
Cláudio Humberto
“Ele (Lula) queria ser um ditador”
SENADOR HERÁCLITO FORTES (DEM-PI), CUJA DERROTA ELEITORAL FOI FESTEJADA POR LULA NO PIAUÍ
REBELIÃO NO PT: LULA JÁ NÃO TEM A ÚLTIMA PALAVRA A coordenação da campanha de Dilma Rousseff adotou nova postura em relação a Lula: recados dele, antes acatados como ordens, agora são recebidos com a consideração habitual, mas só como “sugestões”. Dilma e coordenadores como o presidente do PT, José Eduardo Dutra, Antônio Palocci e deputado José Eduardo Cardozo (SP), já acham que a eleição não foi resolvida no primeiro turno em razão de erros de Lula.
A ORIGEM A nova atitude dos coordenadores de Dilma está na origem do conflito deles com o ministro da Propaganda, ex-jornalista Franklin Martins.
MEIO TERMO A ordem para “abrir fogo” contra Serra foi questionada. Acabou adotada em parte, mas sem a agressividade determinada pelo presidente.
CLIMA RUIM A divergência aos poucos fica clara: no “camarim vip” (montado atrás do palanque) dos últimos comícios, Lula e Dilma mal se falaram.
O CORONEL EM SEU LABIRINTO O senador e “coroné dos zoio azul” Tasso Jereissati (PSDB-CE) ainda não absorveu sua derrota nas urnas. Borocoxô, nem sai de casa.
COORDENADOR DE DILMA ESCAPOU DE ‘CORRETIVO’ Plantado na campanha de Dilma Rousseff pela senadora eleita Marta Suplicy, o petista Rui Falcão bateu em retirada do “wine bar” Expand, de Brasília, quando se deparou com o jornalista Luiz Lanzetta. Mais alto e mais forte, Lanzetta o encarou e xingou: “Traíra f.d.p.! Canalha!” Falcão, que se encontraria com uma jornalista, deixou o local a passos largos, quase correndo, mergulhou num carro e saiu em disparada.
A FOFOCA Petistas atribuem a Rui Falcão a fofoca que afastou de Luiz Lanzetta da campanha, com objetivo de abrir para amigos dele de São Paulo.
INVENÇÃO Segundo petistas, foi Rui Falcão quem inventou que Luiz Lanzetta contratara arapongas para elaborar dossiês contra José Serra.
LÍNGUA DO PT Depois do “peremptório” gaúcho Tarso Genro e do “irrevogável” paulista Mercadante, agora temos a “tergiversante” mineira Dilma.
PROBLEMAS DOMÉSTICOS Se for mesmo eleita, Dilma Roussef terá de acalmar a amiga e braço direito Erenice Guerra: ela anda lembrando que não é Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do PT que aguentou o tranco sem abrir o bico.
O MAIOR ELEITOR Decidido a cuidar da saúde, o senador José Sarney (AP) vai escolher seu substituto na presidência do Senado, entre os colegas do PMDB. O partido de maior bancada tradicionalmente indica o presidente.
RETORNO TRIUNFAL Com votação expressiva, o deputado Pauderney Avelino (DEM) foi o único oposicionista eleito na bancada federal do Amazonas. Os dois senadores e sete dos oito deputados federais são “lulistas”.
ELEITOR PERALTA O ex-jornalista Franklin Martins, ministro da Propaganda, viajou para a Europa à procura de “modelos” para sua obsessão de controlar a imprensa, porque queria ser recebido por lá sob o impacto da vitória de Dilma no primeiro turno. Mas faltou combinar com o zagueiro, o eleitor.
IDENTIFICAÇÃO Um guitarrista da banda de funk, rap e heavy metal Rage Against the Machine pediu votos para Dilma no Twitter. O americano deve ter pensado que ela representa a “Fúria contra a máquina do sistema”.
ROMANCE Sinais impossíveis, romance de Vinícius Castro (Ed. Geração, São Paulo), será lançado no próximo dia 9 em Brasília, onde a história é ambientada. O orgulhoso pai do autor, advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, adorou o livro pela “profundidade, leveza e charme”.
MAIS UM ABUSO A TAM agora cobra taxas adicionais para acomodar seus passageiros nas poltronas que escolhem. Pais não podem viajar com filhos pequenos, a menos, é claro, que paguem. E a Anac, claro, finge que não sabe.
IRMÃOS-PROBLEMA Lula cansou de esperar e já não quer saber do senador eleito Jorge Viana (PT-AC) por que Dilma Rousseff não foi a mais votada no Acre. Nem por que Tião Viana teve tanto trabalho para ser eleito governador.
QUESTÃO CELESTIAL A diferença entre Lula e Deus é que Deus sabe que ele não é Lula.
PODER SEM PUDOR
UM BRIZOLA MINEIRO
Leonel Brizola organizava o PDT no País e o deputado Genival Tourinho se dedicava à mesma tarefa no norte mineiro. Ao chegar no Clube Atlético Operário de São Francisco para uma reunião, Tourinho se deparou com várias faixas “Fora Brizola” e se queixou ao anfitrião, Alican Albernaz:
– Que papelão vocês estão fazendo comigo... Isso é indelicado.
– Genival – explicou-lhe Albernaz – vai haver eleição no clube e os associados querem tirar Antônio Brizola da diretoria...
A prova do líder
A prova do líder
Alon Feuerwerker – Blog do Alon
Se a sucessão nacional tivesse sido liquidada na primeira rodada, o jogo estaria jogado. Só que não foi. E a vida impôs a três personagens da política nacional uma espécie de prova do líder neste segundo turno
A coluna não será sobre o Big Brother Brasil, apesar do título. Será sobre o duelo entre alguns políticos para saber quem possui garrafas para entregar.
Esta disputa eleitoral leva jeito de corrida de automóvel. Vai terminar onde começou.
Se a oposição conseguir produzir uma soma vetorial ótima de dois estados, Minas Gerais e São Paulo, tem chance razoável de levar. Se não, o troféu penderá para o PT.
O novo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, está bem na foto. Elegeu-se em primeiro turno e ainda alavancou a eleição do senador mais votado do país, o também tucano Aloysio Nunes Ferreira.
Luiz Inácio Lula da Silva fez de tudo para levar a disputa ao segundo turno em São Paulo. Montou em torno do PT uma aliança ampla, para os padrões locais. Incentivou a candidatura do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, pelo PSB e viu com bons olhos o pleito de Celso Russomano, do PP.
Skaf e Russomano ajudariam a dispersar uma base tradicionalmente antipetista, na polarizada política paulista. Com Dilma Rousseff eleita em primeiro turno, toda a força política do governo federal seria despejada no segundo na aldeia gaulesa do PSDB.
Como se sabe, deu errado.
Em Minas Gerais, a coisa andou um pouco mais sutil. A candidatura de Hélio Costa ao governo foi praticamente imposta pelo PMDB ao PT, como condição para o acordo nacional. É razoável supor que o pacto com os peemedebistas em torno de Dilma teria saído de qualquer jeito, mas o PT/governo topou pagar essa fatura. Não quis arriscar.
Ali o plano era derrotar politicamente já no primeiro turno o ex-governador Aécio Neves, candidato imbatível ao Senado e concorrente potencial em futuras sucessões presidenciais. A frente política para executar a missão era respeitável.
Além de Lula, tradicional campeão de votos em Minas, havia o vice-presidente, José Alencar, o próprio Costa e os ex-prefeitos petistas de Belo Horizonte, Patrus Ananias e Fernando Pimentel. Além de Dilma, novata mas sempre com o poder projetado da caneta a partir de 2011.
Como se sabe, deu mais errado ainda do que em São Paulo, onde pelo menos Marta Suplicy abocanhou uma cadeira de senadora. Em Minas o PSDB arrastou todas as fichas. Ali a invencível armada de Lula foi a pique, e sem estrondo. Os adversários elegeram o governador Antonio Anastasia em primeiro turno e os dois senadores, Aécio e Itamar Franco.
Se a sucessão nacional tivesse sido liquidada na primeira rodada, o jogo estaria jogado. Só que não foi. E a vida, pelas mãos de Marina Silva, impôs a três personagens da política nacional uma espécie de prova do líder neste segundo turno.
Nas urnas eletrônicas do próximo dia 31 estarão programados os nomes de José Serra e Dilma, com os respectivos vices. Mas a disputa mais feroz será entre outros jogadores.
Lula, com sua popularidade e seu apetite de poder, enfrentará um desafiante que pretendia ver liquidado, Alckmin, e outro que nunca conseguiu cooptar, Aécio.
É mesmo hora de ver quem tem garrafas para entregar.
Pensando bem, não deixa de ser um Big Brother.
Nuvens carregadas
O Brasil parece despertar e começa a levantar de seu berço esplêndido. Até os ortodoxos do câmbio flutuante já pedem que o real deixe de flutuar para cima, pelo efeito mortal nas exportações e, portanto, nos empregos.
Desenha-se um cenário comum em eleições brasileiras, nos períodos em que as coisas parecem caminhar bem. Louva-se a intocabilidade do arcabouço econômico-financeiro exatamente quando se sabe que precisará ser tocado.
O dólar ladeira abaixo, infelizmente, não quer nem saber se “no tempo do Fernando Henrique o juro real era maior”. Ou baixa-se o juro no Brasil, para valer, ou nossas exportações, especialmente das não commodities, vão definhar. Com todas as consequências.
Alguma coisa séria vem aí. Pena que ninguém queira tocar no assunto.
sábado, outubro 16, 2010
Raízes do voto em Tiririca
Raízes do voto em Tiririca
Fabio Gomes – O Globo
| Tiririca, em vestes civis. |
A sociedade está distante da política. A frieza da relação do público com o processo eleitoral é sintomática de algumas evidências claras da cisão que se estabeleceu entre o público e o poder político. Dois aspectos fundamentais da democracia representativa estão ausentes na relação do meio político com a sociedade. Em primeiro lugar, há ausência do aspecto representativo na visão que os eleitores têm dos cargos legislativos. Os eleitores não percebem no Congresso e nas Assembleias Legislativas a essência representativa do interesse público. O segundo aspecto é a cisão que ocorre na comunicação dos eleitos com a sociedade: ausência do aspecto deliberativo, o diálogo dos representantes com os representados.
As ausências dos aspectos fundamentais produzem sintomas variados.
Cerca de 24 milhões de eleitores não compareceram às urnas, 18 em cada cem eleitores se abstiveram.
A ausência pode traduzir sentimentos variados. O eleitor se ausenta por não considerar seu voto um valor determinante para o processo democrático, uma vez que o impacto representativo de sua participação é irrisório. Assim, não participa esperando que os outros eleitores o façam.
O eleitor não comparece por não enxergar benefício direto em sua ação, uma vez que a possibilidade dos benefícios será alimentada pela participação dos demais. O eleitor pode se ausentar se outros compromissos forem priorizados, como viagens e férias.
Porém, o mais grave de uma ausência do eleitor é a não observância do dever cívico na ação de votar. Não percebendo os aspectos deliberativos e representativos, o eleitor não enxerga o seu papel social no arranjo democrático do processo eleitoral.
A cisão entre representantes e representados produz um campo de total desconhecimento do público sobre as funções de deputados e senadores.
Não conhecendo a função do cargo disputado, como o eleitor pode estabelecer critérios para escolha? O percentual dos votos não válidos traduz essa dissonância quando comparados entre os cargos. Na média nacional, o percentual de votos em branco e nulos para deputado estadual e distrital foi de 11,4%; para deputado federal, chegou a 12,2% — os votos nulos para deputados contemplam ainda os candidatos impugnados.
Para governador, o índice foi de 12,4%. Já para senador, função sobre a qual as p e s q u i s a s m o s t r a m maior desconhecimento dos eleitores, o índice de votos não válidos no Brasil foi de 23,8% — deve ser considerado aqui também o desconhecimento sobre a escolha de dois candidatos, que pode ter afetado os índices. Para presidente, o índice foi menor, 8,7% de votos não válidos.
Na disputa presidencial, os debates são mais claros, a dramaticidade da escolha mais presente, enfim, o conhecimento do eleitor sobre as razões do voto é mais elaborado por intermédio de informações mais sólidas que envolvem o cargo disputado.
A compreensão do sistema democrático como um arranjo de comportamentos, que envolve a percepção do público e as intervenções políticas, lança luz à relação fria do eleitorado com o processo eleitoral. A situação é preocupante. Não é raro observar um comportamento com indiferença dos eleitores quando se deparam com escândalos de corrupção envolvendo políticos. A pauta negativa da política e a ausência de comunicação positiva transformam o comportamento do cidadão em apatia no que se refere ao mundo político. O eleitor brasileiro entende a política como um espaço de convivência em que a corrupção é cotidianamente praticada sem pudor. Diante de um novo escândalo, a tendência do eleitor é dizer: “Política é assim mesmo.” Nesta eleição, chamou muito a atenção a votação expressiva do palhaço Tiririca, eleito deputado federal por São Paulo. Como se outros Tiriricas não tivessem já sido eleitos. O contingente eleitoral deu relevo ao caso.
Como se um Tiririca com 1,3 milhão de votos fosse mais grave do que 25 Tiriricas com 50 mil votos. Os críticos culpam os eleitores. Mas a culpa é dos políticos que não mostram seu valor. Que não se mostram como elementos cruciais da democracia. A culpa é da cisão comunicativa, da ausência da consciência de representatividade.
A lamentável eleição de Tiririca não foi fruto de um embuste eleitoral.
O candidato tocou na ferida dos políticos ao conquistar votos com um discurso que contorna o que representam os políticos no imaginário popular.
Mensagens do tipo “pior do que está não fica” traduzem a cisão entre eleitos e representados, dramatizada pela pauta negativa dos políticos.
Uma vez não enxergada a solução para o cenário que se estabeleceu, parte dos eleitores busca o voto-protesto, sem dimensionar as consequências de uma escolha mal feita. Afinal, sem a noção de representação e com a comunicação falha com os representantes, pior não fica.
Fabio Gomes é sociólogo
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