sábado, abril 30, 2011
Drogas na esquina
Drogas na esquina
WALCYR CARRASCO - REVISTA VEJA -SP
A maioria dos pais não tem ideia de como seus filhos entram em contato com as drogas. Eles gostam de pensar em traficantes perversos, verdadeiros lobos maus disfarçados de coelhinhos. Bobagem. A garotada experimenta sua primeira droga ilícita através dos coleguinhas de escola, com a turma nas baladas. Ou mesmo dentro da própria família. Nunca me esquecerei do depoimento de um pai em uma palestra que dei no interior de São Paulo. Quando afirmei que as drogas estão mais próximas do que se pensa, o homem se ergueu chorando:
— Meu filho faleceu de aids. Ele contraiu o vírus em seringas compartilhadas. Mais tarde descobri que o meu irmão, seu tio, foi quem o levou ao consumo.
Emudeci. A plateia ficou em silêncio. O que dizer diante do sofrimento daquele homem? Da curiosidade ao vício, o roteiro é conhecido. O adolescente falta às aulas. Fica trancado no quarto ou some com a galera. Pede grana extra. Finalmente, algo de valor desaparece da casa. E aí a família reage... demitindo a empregada! É sempre a primeira suspeita. Uma conhecida cuja filha chegou a ser internada lastimou-se:
— Ainda não entendo como não percebi. Ela mudou de comportamento, rebelava-se o tempo todo, sumia. E eu achava que era uma fase.
Para alguns adolescentes, o uso de drogas parece normal. Seus próprios pais as usam. Principalmente as consideradas leves, como a maconha. O pai do amiguinho muitas vezes oferece o primeiro cigarro ao garoto, como se fosse um ritual de iniciação ao mundo dos adultos. Já ouvi pais como esses argumentar:
— A maconha é menos perigosa que o cigarro.
Pode até ser, embora eu duvide. Nunca vi um fumante convencional se tornar uma pessoa lerda, com pensamentos vagos, como o usuário de maconha. E a maconha vem misturada, ninguém sabe com o quê. E também, se algo é menos perigoso, não significa que seja bom. Também ouço outro tipo de defesa:
— A bebida é muito pior que qualquer droga.
Concordo. O alcoólatra destrói a própria vida. Mas a maioria das pessoas bebe só socialmente. As drogas parecem produzir reações químicas em que a dependência é quase imediata. Mais que isso: drogas são proibidas. Para comprá-las é preciso dialogar com traficantes, entrar no submundo do crime. Quem deve no bar, no máximo ganha um esculacho do gerente. No caso das drogas, leva tiros.
+ Confira o blog do Walcyr no site da VEJA SÃO PAULO
Durante anos conheci um produtor de teatro, sério, competente. Há algum tempo soube que estava nas ruas após cair no crack. Muitas carreiras, inclusive artísticas, são destruídas. A pessoa começa a faltar ao trabalho, a não cumprir compromissos. Torna-se impossível trabalhar com ela. No caso de famosos, a situação é abafada até o possível. Algumas vezes vem à tona, como no caso do cantor que engoliu pilhas.
É óbvio, o viciado começou de algum jeito. Eu garanto: sempre com alguém muito próximo apresentando o primeiro cigarrinho, a dose inicial. Pessoalmente, acho a política de controle das drogas um desastre. A proibição por si só levou ao aumento do poder dos traficantes. Mas adolescentes e jovens continuam mais expostos do que nunca. A estratégia um dia terá de ser repensada. Mas quem sou eu para oferecer uma solução para esse mundo de traficantes e usuários?
Uma coisa eu sei: a educação começa em casa. Pais carinhosos conseguem estabelecer uma relação de amor e confiança com os filhos. E saber o que está acontecendo. Talvez seja impossível resolver a questão da droga no planeta. Mas é dentro de casa que se dá o primeiro passo.
Oração ao frio
Oração ao frio
Arnaldo Bloch – O Globo
Demorou. Mas senti, hoje, pela primeira vez no ano, aquele frio etéreo (com notas brancas de trompas geladas, implícitas, a anunciá-lo) entrar pela janela do banheiro em obras.
A janela fica linda assim crua, sem basculante, provisória como a de uma ruína, ou estilizada como as janelas das casas dos homens livres que não têm que respeitar fachadas. Acho que não vou pôr basculante. Talvez não ponha, tampouco, o revestimento. A carcaça do banheiro será definitiva.
O frio, dizem, está em falta por obra do homem que furou camadas protetoras de ozônio e de clorofila. Ali em cima, a floresta ainda fascina e assombra, alheia aos bois, à soja, às motosserras e às usinas. E beeeeem adiante, o urso a equilibrar-se sobre a calotinha derretida procurando uma rota de fuga e cercado de água dá tristes avisos através do ecomarketing e se transforma em emblema do que nos aguarda, uma das imagens mais dramáticas que povoaram a primeira década de um século árido de ideias e ideais.
Se nos polos o frio está acabando, no Rio, então, já deveria ter acabado, deixando felizes aqueles que morrem congelados quando os termômetros cariocas se aproximam perigosamente da linha abaixo dos 20 graus. “Que friaca, hem?”, assustam-se, nos elevadores, senhorinhas e marmanjos, à espera de que um bafo de Bangu lhes assopre as narinas.
Mesmo assim, ele acaba por vir, cada vez mais raro, e as moças mais desprendidas desse apego ao calor imediatamente põem suas botinhas, seus jeans, seus cintos, seus casacos que compraram da última vez que foram ao Sul ou ao outro hemisfério.
Dizia um tio meu que a única coisa em que não se dá jeito nesta vida é no frio. Que ele penetra nos ossos e paralisa o espírito. Por fim, mata. Entendo-o, pois passou frio de guerra e quase pereceu com a família.
Mas, essencialmente, discordo: do frio, contemporaneamente, ainda se pode fugir com roupas, agasalhos, fogo, calefação, gorro, goró. Só em total abandono se sucumbe a ele. Mas, em total abandono, se sucumbe a tudo, à fome, à sede, ao medo, ao desespero, à selvageria, à falta de amor e de empatia.
Para o calor, sim, não há solução: quando se está na rua, não há um “casaco frio” para amenizá-lo. Leques são patéticos e ilusórios. Sombrinhas são decorativas. E brisas do mar durante o verão só existem, ainda, na Bahia. No Rio não me lembro mais da última que senti. E, sem brisa, a vida não vale a pena.
Por isso dou essa importância tamanha ao primeiro friozinho do ano. Penso que pode ser o último. E, quando ele vem, fecho os olhos e gozo de sua calma, de seu modo de trazer notícias silenciosas de outras terras, noção de que existem vários mundos a trocar ares nos movimentos planetários. O primeiro friozinho do ano é como um sopro de equilíbrio a preencher o corpo.
Ele enseja uma oração: que seja assim o ano inteiro, com o sol outonal que pinta de um azul profundo o céu do Rio e faz com que os poentes ganhem uma variedade maior de cores, como as florestas da Europa antes de perderem as folhas, quando ficam mais coloridas que as florações primaveris.
Que o verão dure só duas semanas, para que se dê ao calor o devido valor, e ao frio sob o sol o devido lugar: sua serena majestade. Como diz o Ed Motta naquele seu lindo fox carioca:
“Há um lugar para ser feliz/ além de abril em Paris:/ Outono, outono/ no Rio.” Eu prefiro até o inverno, quando, ainda que por alguns dias, o frio se aprofunda e encontra, num certo enclave do espaço-tempo, sua expressão mais radical, rasgando os mitos e os ritos tropicalmente corretos.
Quando ouvi, já se vão uns 15 anos, aqueles versos na canção de Adriana & Cícero dizendo que o inverno no Leblon é “quase glacial”, eram princípios de agosto e estava mesmo o chamado frio da porra quando se caminhava, ainda citando Calcanhotto, à beira do canal (o da Visconde de Albuquerque), e o frio se misturava com uma bruma e com pepitas de maresia fazendo as linhas da cidade desaparecerem e aquele espanto e silêncio fellinianos calarem os passantes na contemplação da raridade do momento. Onde estamos?
Nestes dias em que o Botafogo desapareceu na bruma de si mesmo e até o gol de Messi me entedia, esforço-me para me manter afastado dos ares que vêm da Casa de Windsor, que pouco me interessam, ou do bafo cínico de Requião se dizendo vítima de bullying, nova desculpa para toda fraqueza e violência. Dedico o tempo que resta a buscar alguma elevação nas asas do frio sem esquecer que essa promoção é por tempo limitado.
Desejo e amor
Desejo e amor
JOSÉ MIGUEL WISNIK – O GLOBO
“O homem deseja sem amor, a mulher deseja sem amar.” Tive a ocasião de dizer publicamente essa frase, muitas vezes, no contexto de uma aula-show com Arthur Nestrovski, em muitas das capitais brasileiras situadas entre Porto Alegre e Fortaleza. Ela faz parte da última peça de Nelson Rodrigues, chamada “A serpente”, para a qual eu tinha composto uma canção. Antes de cantar a canção, que era baseada na citada frase, e para chegar a elas, à frase e à canção, eu resumia o enredo da peça, não sem explorar certa expectativa que o anúncio de uma história, desembocando numa declaração final, costuma produzir.Duas irmãs, muito unidas, não fazem nada sem a participação uma da outra. Têm aquilo que podemos chamar, tecnicamente, de uma relação “simbiótica”. Mais do que a intimidade que as une, é como se a presença da outra garantisse a cada uma delas a reciprocidade de um espelho (se é possível retomar aqui, à maneira de uma aula, temas das colunas passadas). É claro que, com isso, elas se dão força, mutuamente, em todas as circunstâncias da vida. Mas fica insinuada também, capciosamente, a pergunta pelo preço a pagar por essa dependência figadal, que faz com que uma não possa existir sem a outra.
As duas, que se chamam Guida e Lígia, se casam no mesmo dia, numa cerimônia única, e vão morar juntas, com seus respectivos maridos, no mesmo apartamento. A realidade dos casamentos abre entre elas, no entanto, e no seu desenrolar, o abismo ameaçador de uma diferença: a primeira encontra satisfação no casamento e no sexo, enquanto a segunda só encontra, no casamento e no sexo, insatisfação . Podemos imaginar o perigo íntimo contido nessa ameaçadora não coincidência, não só para Lígia, a irmã infeliz que convive com a felicidade da outra, mas para Guida, a irmã que não encontra, na infelicidade da outra, o espelho da sua própria satisfação, no qual aprendeu a se reconhecer.
É então que Guida tem a ideia de oferecer a Lígia, como reparação dessa falha do destino, e da fenda que se abre entre elas, o seu próprio marido por uma noite, para que a irmã possa conhecer ela também os benefícios do amor e do sexo. É um gesto, pode-se dizer, de caridade extrema, embora a trama especular que o engendra nos faça vê-lo ao mesmo tempo como a surda procura de uma reparação narcísica, graças à qual uma irmã pudesse continuar a se ver na imagem da outra, mantido o pacto simbiótico entre elas.
Chega a hora da frase. Guida faz a oferta, e Lígia se mostra surpreendida, entre desconcertada, atraída e estranhada por aquela brusca perspectiva de intimidade sexual com a figura familiar do cunhado, que se chama Paulo. “Mas como”, pergunta tateando, hesitante, como se pensasse alto, “eu e ele, Paulo, meu cunhado?” Guida parece estar imbuída da certeza trágica e da sabedoria enigmática dos oráculos, quando responde: “O homem deseja sem amor, a mulher deseja sem amar.”
O efeito universal da frase, sobre quase todos os públicos, é de um momento de silêncio mais profundo do que qualquer outro antes ou depois, ali naquele lugar. Há poucos dias pudemos confirmá-lo, eu e Arthur, na Sala São Paulo, quando o efeito atingiu o seu quilate acústico mais puro, sempre como sinal, acho eu, de que a frase, pendulando entre o entendimento e o desentendimento de cada ouvinte, fica ressoando em camadas não verbais da quase-revelação. O que é, aliás, para Jorge Luís Borges, uma definição da arte: “A iminência de uma revelação, que não se dá.”
Uma vez, no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, a plateia, em vez de cair no silêncio, explodiu numa surpreendente e inexplicável aclamação. Caso único de um paradoxal efeito rodriguiano ao sul: o enigma foi ovacionado. Em Pernambucano, ouviu-se a voz de uma senhora dizendo, firme: “Protesto!” Mas as reinvindicações em nome do amor, o silêncio ou o ruído, estão dizendo a seu modo, acho eu, o que eu confessava para o público: eu também não entendo a frase, isto é, não entendo pelos canais comuns da consciência, entendo pelo impacto não inteiramente explicável que ela me produz.
“O homem deseja sem amor” é uma obviedade masculina (o homem é óbvio), enquanto “a mulher deseja sem amar” é um convite ao enigma (a mulher é “enigmática”). É famosa a declaração de Freud, em carta a uma amiga, de que os anos de estudo do assunto não o levaram a saber dizer o que quer uma mulher. A falsa simetria da frase de Guida, contendo um desequilíbrio no seu aparente equilíbrio, acaba sendo a melhor figura da própria simetria desequilibrada da relação de desejo e amor entre homem e mulher. Na canção eu tentava retomá-la numa outra formulação, como se ela seguisse seu caminho através dos elos de uma serpente: “Se o homem ama por amar/ e a mulher ama por amor/ Quem vai poder nos abraçar/ compreender nossa dor?/ Somente a serpente/ e a canção da vida/ em que o homem é o verbo/ e a mulher é substantiva”.
Da Bahia, recebi e-mails preciosos de uma certa Myrna, aliás misterioso pseudônimo feminino de Nelson Rodrigues. Ela dizia que na frase “O homem deseja sem amor” o verbo desejar indica o ato de sentir desejo por alguém; na frase “a mulher deseja sem amar” o mesmo verbo indica o desejo de chegar à impossível ação de amar, que Nelson considera inatingível pela imperfeita dimensão humana. Se o homem, quando deseja, o faz sem amor (já que ele “ama por amar”, o que não é pouco para quem é o verbo), a mulher, que é substantiva, quando deseja, deseja o impossível do amor, “ama por amor”. “Esse desejo de sentir um sentimento inacessível seria o cerne de tudo o que quer uma mulher”, pontua Myrna.
domingo, abril 10, 2011
Quinta-feira
Quinta-feira
JOSÉ MIGUEL WISNIK
Hoje é quinta-feira, dia em que entrego esta coluna.
Tudo o que eu disser estará emudecido pelo silêncio que há em mim diante do que eu vejo na tela da TV. Na cor de cada pele, no ser de cada pessoa, no jeito com que o inominável se expressa nelas em cada poro. Ouço Guingas em cada voz de cada homem do povo. Tudo grita meu amado Rio de Janeiro. Quando eu soube da notícia, por alto, dita por alguém, detestei a sensação de que a imitação de um certo estilo norte-americano de ser, com seu preço armamentista e seu show macabro de assassinato suicida em escola, tivesse feito a sua primeira aparição entre nós. Imagino que essa seja quase a reação padrão. É cruel a ideia de que estamos iniciados nesse mal, que tenhamos que vir a suportar esse modelo de comportamento criminal, e detestável ainda a ideia de que seja de segunda mão.
Leio que o criminoso levava uma vida solitária, sempre na internet, e que, segundo parentes, falava em “muçulmanos”. Passo a imaginar agora uma confusão louca, bem brasileira, de tiros em Columbine com homembomba islâmico, tudo sem a espessura do capitalismo de ponta rombuda nem a dos fundamentos dogmáticos da guerra santa.
Agora vejo o rosto de Wellington Menezes de Oliveira, leio a carta suicida, e a personagem vai ganhando uma figura de literatura russa do subúrbio, de “pobre diabo” maluco dostoievskiano do Realengo, com todos os componentes subterrâneos de terrorismo, niilismo e a tortura infligida à criança como o índice supremo do mal universal.
Vocês veem que estou derivando de hipótese em hipótese, para não ter que suportar o puro horror. Mas prefiro ir assim, tateando a literatura, do que me apegar ao discurso psiquiátrico de plantão policial, onde a palavra psicose é repetida como se ela dissesse muita coisa.
Numa primeira leitura, certamente apressada e impactada pela força dos fatos, o porta-voz da PM terá dito, segundo leio, que a carta confusa do assassino em massa denunciava que ele era portador do vírus HIV e que via as crianças como impuras, indicando-se aí a possível razão mental do extermínio. Lida com frieza a carta se mostra mais articulada que isso em sua articulação louca.
Com a firmeza dos que falam já do ponto de vista da própria morte, ela começa sem rodeios no meio da coisa, tomando o fato consumado como seu ponto de partida: “Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem usar luvas.” Não se trata de uma advertência hospitalar sobre HIV. Num discurso cheio de ressonâncias litúrgicas, o que o sujeito está fazendo é uma espécie de testamento em que entrega seu corpo a um tratamento ritual. Neste, ele não pede, mas ordena, com indicações minuciosas, que seu corpo não seja profanado.
Não são as crianças que são chamadas de impuras. Os impuros para ele são os seres sexuados, os não virgens e não castos, os fornicadores e adúlteros. O vírus do sexo (por isso as luvas) não deve tocá-lo nem morto (ou nem morta — se quisermos jogar mais com os perigos obscuros que o sexo traz em si). A não profanação da suposta virgindade absoluta corresponde a uma sagração do próprio corpo, que o autor da carta pretende impor com a autoridade da morte.
Pelo menos é o que diz a carta maluca. Loucos têm mais fé cênica, isto é, mais crença na força que os comanda, do que nós, os chamados normais. Este não brincava em serviço, porque aprendeu a destreza das armas e construiu a cena da sua sagração em que, para que o mundo e ele mesmo não fossem profanados pelo sexo proibido, profanou o templo maravilhoso da escola pública popular e atirou antes de mais nada nas meninas.
O discurso da criminologia conhece bem o tipo. São fechados, arredios, carregam surdamente o peso de sua não inserção no grupo social e se vingam espetaculosamente, de uma vez só, num salto mortal do anonimato para a eternidade dos 15 dias de fama póstuma. A escola é o teatro preferencial dessa exclusão silenciosa e dessa revanche.
Mas o discurso da criminologia é o discurso tipológico, em busca do padrão psicossocial reconhecível, que quer amarrar as características genéricas para melhor capturar o tipo. Há sempre, não fosse o ser humano “a parte mais complexa de uma organização” (como me disse um empresário desconsolado), a singularidade daquele um.
A loucura desse infanticida em massa foi capaz de inventar o seu próprio estratagema. Se o pária, segundo uma antiga figura do direito romano (ver Agamben, “Homo sacer”), é aquele que pode ser morto impunemente e sem direito a ser celebrado num rito, ou seja, aquele que está fora tanto da esfera jurídica quanto da religiosa, esse pequeno pária do Realengo destruiu mundos na confiança louca de inverter esse mandado, de se matar matando e de ser consagrado num rito fúnebre determinado por ele mesmo.
Para nós que ficamos, é crucial atentar para aquela questão mal resolvida de fundo: a tentação de matar (real ou simbolicamente) ligada à relação complicada com o sexo e seus tabus. Diferentes índices põem esse tema em cena, em diferentes gradações, em acontecimentos que espocaram quase todos juntos nesses últimos tempos, das falas preconceituosas de Bolsonaro às vaias em massa para o jogador de vôlei gay, da ostentação de seus crimes pelo bandido Pimpolho, suspeito de matar travesti, ao da adolescente morta pela família da namorada.
O meu silêncio está dizendo: viva a vida.
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