quinta-feira, julho 22, 2010
Os caçadores e o elefante
Os caçadores e o elefante
Demétrio Magnoli
O ESTADO DE S. PAULO
Dois dias atrás, no meio da tarde, em cerimônia no Palácio do Itamaraty, Lula sancionou a primeira lei racial da História do Brasil. São 65 artigos, esparramados em 14 páginas, escritos com o propósito de anular o artigo 5.º da Constituição federal, que começa com as seguintes palavras: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza." O conjunto leva o título de Estatuto da Igualdade Racial, uma construção incongruente na qual se associa o princípio da igualdade ao mito da raça, que veicula a ideia de uma desigualdade essencial e, portanto, insuperável.
O texto anticonstitucional, aprovado em 16 de junho por um acordo no Senado, é uma versão esvaziada do projeto original. No acordo parlamentar suprimiram-se as disposições que instituíam cotas raciais nas universidades, no serviço público, no mercado de trabalho e nas produções audiovisuais. Pateticamente, em todos os lugares, exceto no título, o termo "raça" foi substituído pela palavra "etnia", empregada como sinônimo. Eliminou-se ainda a cláusula que asseguraria participação nos orçamentos públicos para os "conselhos de promoção da igualdade étnica", órgãos a serem constituídos paritariamente nas administrações federal, estaduais e municipais por representantes dos governos e de ONGs do movimento negro.
Mas o que restou é a declaração de princípios do racialismo. A lei define uma coletividade racial estatal: a "população negra", isto é, "o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas ou pardas". Dessa definição decorrem uma descrição racial do Brasil, que se dividiria nos grupos polares "branco" e "negro", e a supressão oficial das múltiplas identidades intermediárias expressas censitariamente na categoria "pardos". Implicitamente, fica cassado o direito de autodeclaração de cor/raça, pois o poder público se arroga a prerrogativa de ignorar a vontade do declarante, colando-lhe um rótulo racial compulsório. O texto funciona como plataforma para a edificação de um Estado racial, uma meta apontada no artigo 4.º, que prevê a adoção de políticas raciais de ação afirmativa e a "modificação das estruturas institucionais do Estado" para a "superação das desigualdades étnicas".
A fantasia que sustenta a nova lei consiste na visão do Brasil como uma confederação de nações-raças. Nessa confederação o princípio da igualdade deixaria de ser aplicado aos indivíduos, convertendo-se numa regra de coexistência entre coletividades raciais. Os cidadãos perdem o estatuto de sujeitos de direitos, transferindo-o para as coletividades raciais. Se o Poder Judiciário se curvar ao esbulho constitucional, estudantes ou trabalhadores da cor "errada" não poderão apelar contra o tratamento desigual no acesso à universidade ou a empregos arguindo o princípio da igualdade perante a lei, pois terão sido rebaixados à condição de componentes de um grupo racial.
Nos termos do estatuto racial, que é um estatuto de desigualdade, a "população negra" emerge como uma nação separada dentro do Brasil. O capítulo I fabrica direitos específicos para essa nação-raça no campo da saúde pública; o capítulo II, nos campos da educação, da cultura, do esporte e do lazer; o capítulo IV, nas esferas do acesso à terra e à moradia; o capítulo V, na esfera do mercado de trabalho; o capítulo VI, no tereno dos meios de comunicação. O pensamento racial imagina a África como pátria da "raça negra". A nova lei enxerga a "população negra" como uma nação diaspórica: um pedaço da África no exílio das Américas. O capítulo III determina uma proteção estatal particular para as "religiões de matriz africana".
A supressão do financiamento público compulsório para os "conselhos de promoção da igualdade étnica" e dos incontáveis programas de cotas raciais na lei aprovada pelo Senado refletiu, limitada e parcialmente, o movimento de opinião pública contra a racialização do Estado brasileiro. Uma vertente das ONGs racialistas interpretou o resultado como uma derrota absoluta - e pediu que o presidente não sancionasse o texto esvaziado. Surgiram até vozes solicitando uma consulta plebiscitária sobre o tema racial, algo que, infelizmente, não se fará.
O Ministério racial, que atende pela sigla enganosa de Seppir, entregou-se à missão de alinhar sua base na defesa do "estatuto possível". Para tanto reuniu pronunciamentos de arautos do racialismo, como o antropólogo Kabengele Munanga, uma figura que chegou a classificar os mulatos como "seres naturalmente ambivalentes", cuja libertação dependeria de uma opção política pelo pertencimento ao grupo dos "brancos" ou ao dos "negros". Na sua manifestação o antropólogo narrou uma fábula sobre os caçadores mbutis, da África Central, denominados pigmeus na época da expansão imperial europeia.
Os caçadores de Munanga almejam abater um elefante, mas voltam para a aldeia com apenas três antílopes, "cuja carne cobriria necessidades de poucos dias". As mulheres e crianças, frustradas, contentam-se com tão pouco e não culpam os caçadores, mas Mulimo, deus da caça, a divindade desse povo monoteísta. Os caçadores voltarão à savana e, um dia, trarão o elefante.
A fábula é apropriada, tanto pelo seu sentido contextual como pelas metáforas que mobiliza. Ela remete a um povo tradicional, fechado nas suas referências culturais, que serviria como inspiração para a imaginária nação-raça diaspórica dos "afro-brasileiros". Os caçadores simbolizam as lideranças racialistas, que já anunciam a intenção de usar o estatuto racial para instituir, por meio de normas infralegais, os programas de cotas rejeitados no Senado. O elefante representa o Estado racial completo, com fartas verbas públicas para sustentar uma burocracia constituída pelos próprios racialistas e dedicada à distribuição de privilégios.
Munanga não falou das guerras étnicas na África Central. É que o assunto perturba Mulimo e prejudica a caçada.
Sociólogo, é doutor em Geografia Humana pela USP
Conferência de Viena apresenta gel que reduz infecções por HIV em 39%
Conferência de Viena apresenta gel que reduz infecções por HIV em 39%
Jornal de Brasília - 21/07/2010
Jornal de Brasília - 21/07/2010
Um gel inodoro, incolor e praticamente insípido se transformou na nova grande esperança na luta contra a Aids, com um poder de prevenção tal que os especialistas consideram que "pode alterar o curso da epidemia de HIV". A apresentação de um estudo que estima em 39% a capacidade deste remédio de reduzir as infecções foi a estrela de hoje da Conferência Internacional Aids 2010, realizada em Viena até sexta-feira.
A eficácia inicial desta nova arma na luta contra a Aids foi demonstrada em um primeiro estudo conduzido por pesquisadores de Caprisa, um centro de pesquisa da universidade sul-africana de Kwazulu-Natal e da americana de Columbia. Este microbicida foi desenvolvido a partir do Tenofovir, um conhecido anti-retroviral já usado por via oral e que em sua nova forma está desenhado para ser aplicado na vagina 12 horas antes e 12 horas depois da relação sexual.
A apresentação dos resultados do estudo foi recebida com uma ovação por centenas de delegados e pelo público que acompanha o encontro, que desde domingo reúne 25 mil especialistas, ativistas e delegados para debater novas estratégias contra o HIV na capital austríaca.
"Esta nova tecnologia tem o potencial de alterar o curso da epidemia do HIV, especialmente na África do Sul, onde as mulheres carregam a maior carga desta devastadora doença", ressaltou Quarraisha Abdool Karim, uma das responsáveis pelo estudo.
A especialista sul-africana insistiu em destacar a importância que esta nova medida de prevenção tem para as mulheres.
"Há mulheres para as quais a abstinência não é uma opção, que são fiéis, mas seus maridos podem não ser, e que não podem convencer seus companheiros a usar preservativo", sentenciou. "É oferecer algo frente a nada", afirmou a cientista. "São necessárias pesquisas adicionais de forma urgente para confirmar e inclusive estender os resultados desta investigação", ressaltou Salim Abdool Karim, co-diretor do estudo.
Por exemplo, ele se referiu à necessidade de estudar o grau de eficácia do gel quando usado somente após as relações sexuais, uma questão importante levando em conta os riscos de infecção após estupro.
O experimento demonstrou também que os resultados melhoravam quanto mais este gel era usado.
Assim, as mulheres que utilizaram o microbicida em 80% de suas relações sexuais, conseguiram uma proteção de 54%, enquanto as que usaram em menos da metade das ocasiões obtiveram uma proteção de 28%.
O estudo com o novo gel, o primeiro microbicida eficaz na prevenção da transmissão do HIV, foi realizado por 30 meses com 899 mulheres; a metade recebeu o gel e o resto um placebo (produto sem efeitos medicinais).
No final do estudo foram registradas 60 infecções de HIV no primeiro grupo (placebo), enquanto no segundo só foram registrados 38 casos, o que representa um índice de proteção de 39%.
O anúncio da eficácia deste gel entrou para a agenda do terceiro dia da conferência Aids 2010, uma reunião com pouco conteúdo científico e um programa focado na defesa dos direitos humanos e na necessidade de desenvolver estratégias novas contra a doença.
Hoje à noite a conferência deve se transferir para as ruas de Viena na forma de uma grande marcha liderada pela cantora Annie Lennox para exigir que os Governos que não diminuam seus esforços para combater esta epidemia. Fonte: EFE
Escolaridade não previne gravidez na adolescência, diz pesquisa da Secretaria da Saúde
Escolaridade não previne gravidez na adolescência, diz pesquisa da Secretaria da Saúde
Agência Estado - 21/07/2010
Agência Estado - 21/07/2010
Metade dos 908 jovens entrevistados que tiveram filhos antes dos 22 anos tinham mais de oito anos de estudo
SÃO PAULO - Metade dos jovens que tiveram filhos antes dos 22 anos tinham mais de oito anos de estudo, ou seja, pelo menos o primeiro grau completo. É o que revela um estudo da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo com informações de 908 adolescentes e seus parceiros atendidos na Casa do adolescente de Pinheiros, na zona oeste da capital, entre agosto de 1997 e janeiro de 2010.
Segundo o levantamento, 54,7% das 454 meninas consultadas completaram pelo menos o primeiro grau. Oito (1,7%) eram universitárias. As jovens mães tinham, em média, 17,5 anos quando engravidaram e iniciaram a vida sexual aos 15. Do total de meninas, só 14%, informaram que tiveram o desejo de engravidar.
Já no caso dos parceiros das adolescentes, 48,4% estudaram por mais de oito anos, dos quais 2% eram universitários. Os pais tinham 22 anos, em média, quando ocorreu a gravidez. Os números da escolaridade contrastam com o fato de que 61% do total de entrevistados não usaram qualquer tipo de método contraceptivo no momento da relação sexual. O anticoncepcional via oral foi usado por 19% das mulheres, enquanto apenas 16% dos rapazes usaram preservativo.
"O dado chama a atenção porque quebra o tabu de relacionar, diretamente, a falta de cuidado com a falta de informação. Por isso, é importante trabalhar outros aspectos, especialmente emoções, sentimentos, medos e angústias desses jovens", afirma a coordenadora do programa Saúde do adolescente da secretaria, Albertina Duarte Takiuti.
Gravidez em queda
O Estado de São Paulo registrou queda de 36,2% no número de adolescentes grávidas em 2008 (último dado disponível), em comparação com 1998. Foram 94.461 jovens com idade até 19 anos grávidas em 2008, contra 148.018 casos em 1998. Os números são menores ano a ano. Atualmente, no Estado, há 23 Casas do adolescente que oferecem atendimento integral e multidisciplinar. Elas seguem o modelo da Casa do adolescente de Pinheiros, na capital, que foi a primeira a ser implantada, em 1993, e oferece atendimento com profissionais de diversas áreas, como médicos, dentistas, fonoaudiólogos, assistentes sociais, enfermeiros, psicólogos e professores, todos especializados em orientação sexual para jovens. Também há cursos, aulas de dança, culinária e artesanato, e terapias em grupo. Os projetos são colocados em prática de acordo com a demanda.
Alpinistas limpam 'zona da morte' no Everest
Alpinistas limpam 'zona da morte' no Everest
A mais de 8 mil metros de altitude, a 'zona da morte' no topo do Everest é o local de uma operação de limpeza fora do comum.
O nível de oxigênio é baixo nessa altitude e o terreno é perigoso.
Mesmo assim, 20 alpinistas nepaleses estão recolhendo o lixo que outros deixaram para trás.
Materiais como cilindros de oxigênio vazios, barracas estragadas e cordas são abandonados por alpinistas cansados na descida da montanha, e ficam cobertos pela neve.
Mas o departamento de turismo do Nepal afirma que, por causa do aquecimento global, o gelo está derretendo e o lixo começa a ficar exposto.
O monte Everest é uma das principais fontes de renda do Nepal, um dos países mais pobres do mundo.
A ciência comprova que mulheres são melhores em fazer várias tarefas ao mesmo tempo
A ciência comprova que mulheres são melhores em fazer várias tarefas ao mesmo tempo
Converse com qualquer mulher que todas elas concordam: homens não conseguem fazer várias tarefas ao mesmo tempo. Pois agora elas têm a ciência a seu favor também. Os pesquisadores decidiram testar a veracidade da crença comum depois de descobrir que nenhuma pesquisa científica havia sido feita sobre esse assunto.
Os pesquisadores enfim descobriram que quando mulheres e homens trabalham em um número de tarefas simples – como procurar uma chave ou resolver contas simples de matemática – ao mesmo tempo, as mulheres superaram os homens significativamente. Os cientistas acreditam que os resultados mostram que as mulheres são mais capazes de refletir sobre um problema, enquanto continuam desempenhando seus outros compromissos rotineiros.
Enquanto as mulheres eram capazes de fazer bem todas as três atividades ao mesmo tempo, os homens se davam pior no planejamento para procurar a chave.
“Espera-se que homens tenham uma melhor consciência espacial do que as mulheres, mas a tarefa da chave também requer planejamento e algum tipo de estratégia”, explica Keith Laws. “E é aí que os homens se atrapalham. Isso mostra que as mulheres são melhores em refletir sobre o problema por um momento e aí sim agir”, completa. [Telegraph]
Contribuição compulsória
Contribuição compulsória
Aposentados são descontados sem saber, e sindicatos faturam milhões por ano
Geralda Doca – BRASÍLIA – O Globo
O desconto da mensalidade sindical sobre a aposentadoria, feito diretamente na fonte pela Previdência Social, virou uma mina de ouro para os sindicatos. Só em junho, 11 entidades conveniadas ao INSS embolsaram R$ 21 milhões (o equivalente a R$ 252 milhões por ano). O montante provém de 2,167 milhões de aposentados que, todo mês, têm até 2% do benefício descontados no contracheque. A lei que trata do pagamento da aposentadoria permite a retenção desses valores desde que expressamente autorizada pelo segurado, o que não está sendo cumprido.
O desconto é acertado com o Ministério da Previdência pelos próprios sindicatos, que enviam a lista de quem deve ter a contribuição deduzida do benefício. Mas boa parte dos segurados sequer sabe que está pagando a mensalidade.
Isso porque os inativos não recebem cópia do contracheque, que só fica disponível na internet. O desconto indevido só é devolvido em caso de reclamação.
Ainda assim, com apoio do governo, as entidades conseguem dificultar a vida dos aposentados que desejam parar de pagar a mensalidade.
Numa visita do ministro da Previdência, Carlos Gabas, à sede da Confederação Brasileira dos Aposentados (Cobap), na última quarta-feira, ficou decidido que o interessado precisa ir até o sindicato ou associação para pedir o cancelamento pessoalmente.
Não poderá mais fazêlo no banco onde recebe o benefício.
Entretanto, o próprio INSS sabe que existem problemas, pois, a cada auditoria realizada semestralmente, 1% das amostras analisadas é irregular.
A constatação dispara o alerta de que milhares de aposentados podem estar sendo lesados. Foi o que aconteceu com o bancário aposentado Carlos Jorge Guimarães. Ao receber a aposentadoria da Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) de fevereiro, ele percebeu que o valor oriundo do INSS estava menor.
Contou que havia dois descontos, de R$ 23 cada, a favor da CUT, referentes a janeiro e fevereiro.
Ao ligar para a Previdência, foi orientado a procurar um posto do INSS. No posto, disseram-lhe para ir até a sede da CUT, onde funciona o Sindicato Nacional dos Trabalhadores Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sintapi), para pedir o reembolso e o cancelamento do desconto.
Mesmo tendo cumprido esse processo, contou, o desconto continuou em março: — Estranhei o desconto, achei que era para campanha política. É uma malandragem, pois muita gente nem percebe porque não recebe o espelho do pagamento — afirmou Guimarães.
O presidente do Sintapi, Epitácio Luiz Epaminondas, o Luizão, alegou que a entidade está em campanha de filiação e atribuiu o desconto indevido a erros de digitação, que prejudicaram 65 aposentados, segundo ele, desde fevereiro.
— Quanto mais rápido digitar, mais cedo chega o desconto. A conferência não foi bem feita, mas devolvemos o dinheiro para quem reclamou, sem nem discutir. Não interessa para nós nem para ninguém que essa história cresça — disse Luizão.
Uma das explicações para o desconto seria a campanha das entidades sindicais pelo reajuste do salário mínimo. O sindicalista nega.
Mas, segundo o INSS, por conta do aumento do mínimo, o valor repassado aos sindicatos aumentou.
Em dezembro de 2008, esse valor foi de R$ 16,720 milhões. Passou para R$ 19,040 milhões em dezembro de 2009.
Sindicalista admite atos de má-fé
João Inocentini, presidente do Sindicato Nacional de Aposentados (Sindinap), ligado à Força Sindical, admitiu que erros acontecem: — Às vezes, o aposentado autoriza o desconto e depois esquece, mas há também atos de má-fé — disse Inocentini, sem dar detalhes.
O presidente da Cobap, Warley Martins, tem a mesma opinião.
Atendentes do próprio INSS parecem estar familiarizados com o problema, como foi constatado pelo GLOBO ao ligar para o número 135. Ao ser informado da queixa, o atendente aconselhou o repórter a procurar um posto de atendimento ou ir até o sindicato para cancelar o “vínculo”.
A mesma orientação foi dada ao se entrar em contato com a OuvidoriaGeral. Gerentes das agências contam que muitos aposentados vão ao INSS com outros tipos de queixa, como empréstimo consignado, e acabam descobrindo o desconto indevido. O problema é maior nas cidades do interior.
— Eles acham que é alguma taxa que vai para o governo — disse um gerente de agência do INSS de Brasília, que preferiu não se identificar.
O presidente do INSS, Valdir Simão, informou que vai investigar as ocorrências envolvendo o Sintapi.
Ele reiterou que os convênios são legais e que são feitas auditorias a cada seis meses para verificar se as entidades têm a ficha assinada pelo associado autorizando o desconto.
Parlamentares que atuam na defesa de aposentados, como o senador Paulo Paim (PT-RS) e o deputado Gilmar Machado (PT-MG), disseram desconhecer o desconto das mensalidades na folha. Paim disse, porém, que convocará as entidades para tratar do assunto em audiência pública.
— A legislação tem que ser cumprida.
A entidade não pode descontar de forma direta e arbitrária — destacou o senador.
— Acho que está se precisando fazer ajustes nessa legislação — emendou o deputado.
Ciência // A revolução da salamandra
Ciência // A revolução da salamandra
Pesquisa // Cientistas descobrem que células-tronco de um pequeno anfíbio são semelhantes às dos mamíferos. Especialistas receberam com entusiasmo a revelação por considerar que isso pode abrir uma série de oportunidades para novos tratamentos de doenças degenerativas
Paloma Oliveto - palomaoliveto.df@dabr.com.br - Diário de Pernambuco
Paloma Oliveto - palomaoliveto.df@dabr.com.br - Diário de Pernambuco
Brasília - Um pequeno anfíbio mexicano conhecido como axolotl (Ambystoma mexicanum) poderá revolucionar os estudos que buscam a cura para doenças degenerativas. A partir de análises feitas para entender a genética e a evolução das células-tronco em uma salamandra de 15cm, um grupo de pesquisadores da Universidade de Nottingham, na Inglaterra, descobriu que as células dos animais são extremamente similares às dos mamíferos.
De acordo com os cientistas, a descoberta possibilita uma oportunidade única para estudar as propriedades das células-tronco embrionárias e das células germinativas. E também lança luz sobre uma nova teoria evolutiva, segundo a qual a diversidade de mecanismos do desenvolvimento animal tem uma única origem, seja para seres primitivos ou mais complexos.
"Conseguimos provas que a pluripotência - a habilidade de uma célula-tronco embrionária transformar-se em qualquer tipo de célula - é, na verdade, muito antiga em termos evolutivos. Apesar de todo o conhecimento que temos sobre elas até agora provir de pesquisas feitas com mamíferos, nosso estudo sugere que elas existem em outros animais, e não apenas naqueles que usamos em laboratório", explicou ao Correio Braziliense/Diario de Pernambuco Andrew Johnson, o principal autor da pesquisa.
Os resultados do estudo, apresentados na semana passada durante a conferência anual sobre células-tronco da Inglaterra, foram recebidos com entusiasmo pela classe científica. "Na realidade, as células-tronco pluripotentes provavelmente existem nos embriões de simples animais, classe da qual os anfíbios fazem parte", disse Johnson.
Diferentemente de sapos, peixes, moscas e minhocas usadas como cobaias de laboratório, a salamandra axolotl, endêmica do México, tem células pluripotentes em seus embriões, equivalentes às encontradas nos embriões de mamíferos. Elas são capazes de se transformar em estruturas germinativas e em células somáticas - aquelas que formam os tecidos e os órgãos do corpo. Numa perspectiva prática, os embriões da salamandra vão fornecer ferramentas úteis para entender como manipular as células-tronco embrionárias humanas, de forma a desenvolver terapias úteis no tratamento de diversas doenças degenerativas.
Segundo Johnson, a axolotl é uma salamandra que conserva as características primitivas dos primeiros anfíbios, os animais descendentes dos peixes que se mudaram do ambiente aquático para o terrestre cerca de 385 milhões de anos atrás. Esses primeiros anfíbios foram os ancestrais de todos os vertebrados que vivem na terra - incluindo os humanos. "Isso coloca a axolotl em uma posição perfeita para entendermos como os vertebrados se desenvolveram no solo", diz o pesquisador.
"Descobrimos que os mecanismos genéticos que controlam o desenvolvimento dos embriões da salamandra não se modificaram à medida que os anfíbios evoluíram para répteis e, depois, mais tarde, para mamíferos", conta Johnson. "Isso explica por que as salamandras, que são anfíbios, se parecem muito mais com os lagartos, que são répteis - e, como os mamíferos evoluíram diretamente dos répteis, faz sentido que o mecanismo genético que controla o desenvolvimento embrionário continuou em grande parte intacto desde as axolotls até os humanos."
A pesquisa mostrou que os embriões da salamandra mexicana são muito mais similares aos dos humanos do que os de sapos e de peixes, os mais estudados pelos pesquisadores. "Recentemente descobrimos que a pluripotência nas axolotls e nos mamíferos depende de um gene chamado nanog, o qual não existe em sapos. Acreditamos que esse gene desapareceu do genoma dos sapos depois que esses animais e as salamandras evoluíram separadamente de seu ancestral comum", diz Jonhson. O cientista explica que esse fato contraria uma ideia há muito tempo circulante de que as células pluripotentes evoluíram apenas com os mamíferos e sugere que essas células podem ser, na verdade, uma das estruturas embrionárias mais antigas.
Evolução - A afirmação do cientista pode gerar uma dúvida pertinente ao que se sabe, até hoje, sobre a evolução. Como o processo evolutivo pressupõe o desenvolvimento de características que beneficiam a perpetuação da espécie, por que os sapos teriam perdido as células pluripotentes, e as salamandras, não? Segundo Johnson, uma teoria desenvolvida por sua equipe há sete anos fornece a prova de que, para os sapos, possuir esse tipo de célula seria, na verdade, uma desvantagem.
Ele explica que a peça-chave na evolução dos vertebrados é a relação entre as células germinativas, que vão se transformar em esperma e óvulos, e o resto do organismo, chamado soma, em referência à palavra grega que significa "corpo". Se possuíssem células pluripotentes que se transformariam, mais tarde, em órgãos e tecidos, os sapos perderiam uma de suas principais características: a grande quantidade de variantes da espécie. Como não são portadores desse tipo de célula, para evoluir, os sapos precisam passar por diversas modificações físicas e fisiológicas. Dessa forma, existem quase 5 mil espécies diferentes. Isso também explica por que, desde o homem de Neandertal, extinto há 30 mil anos, a raça humana é única.
"Essa também é a razão de existirem duas formas diferentes de produzir células germinativas. Os embriões da maioria dos animais usados em laboratório, incluindo os sapos (mas não os ratos), contêm um material chamado plasma germinativo, e esse plasma traz todas as informações necessárias para as células se transformarem em óvulos e espermatozoides", diz Johnson. Na salamandra, porém, ocorre algo diferente. Os embriões deste animal não contêm plasma germinativos e, em vez disso, ele usa um sistema muito similar ao dos ratos e dos humanos. Assim, as axolotls produzem suas células germinativas a partir das células pluripotentes por um processo chamado indução - extremamente semelhante ao que ocorre em humanos.
FOTO: A axolotl de apenas 15cm usada na pesquisa: embriões muito mais similares aos dos humanos do que se pensava Foto: Andrew Johnson/Divulgação
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