terça-feira, agosto 10, 2010

Paixão, em Gazeta do Povo

Especialista critica política de Unidades de Polícia Pacificadora do Rio

Especialista critica política de Unidades de Polícia Pacificadora do Rio
 Uol Notícias
A Polícia Militar iniciou hoje (10) a ocupação de mais uma comunidade do Rio de Janeiro para a implantação do projeto de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). A comunidade escolhida é o morro do Turano, a quinta comunidade da Tijuca. Alguns especialistas, no entanto, veem o projeto das UPP com ressalvas.
É o caso do coordenador do Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana da Universidade Federal Fluminense (UFRJ), Michel Misse - na foto, que lembra que a maioria das unidades de polícia pacificadora está concentrada em áreas mais nobres, como a zona sul da cidade do Rio de Janeiro.
 Ele questiona se as UPP têm o objetivo de proteger os moradores das favelas ou os do “asfalto”. Ele diz, por exemplo, que as comunidades carentes deveriam receber, além da atenção dos órgãos de segurança pública, iniciativas nas áreas de educação, saúde e saneamento básico e, segundo Misse, isso não ocorre na maioria das favelas com UPP.
 O sociólogo também diz que a UPP não conseguiu nem conseguirá acabar com a venda de drogas, já que, segundo ele, enquanto houver demanda por drogas, haverá pessoas vendendo a substância ilegal. “Tem gente vendendo drogas no Santa Marta [primeira comunidade a receber a UPP, no final de 2008], só não tem mais aquele controle de território, ostensivo, armado”, afirma.
 Michel Misse também acredita que a implantação do projeto em comunidades como o Complexo do Alemão, o Complexo da Maré e o Jacarezinho, na zona norte da cidade, será muito mais complicada do que as instalações de UPP feitas até hoje.
O planejamento estratégico da Secretaria de Segurança prevê que o projeto da UPP poderá chegar a até 40 áreas nos próximos quatro anos, o que incluirá 165 comunidades (nos cálculos da secretaria), das mais de mil que hoje estão sob controle de quadrilhas armadas no Estado do Rio de Janeiro.

IQUE - No Jornal do Brasil

A mulher, o amor e a fidelidade

A mulher, o amor e a fidelidade

RUTH DE AQUINO é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br

Mulheres traem pelo mesmo motivo que homens: por desejo, por vontade. A diferença é que elas costumam culpar o marido ou o namorado. “Ele não me dava mais atenção”, dizem. “Não era mais romântico, não me elogiava, nem sexo queria.” O livro mais recente da antropóloga Mirian Goldenberg desfaz o mito de que o homem trai por sexo e a mulher trai por amor ou desamor. Se assim fosse, o homem seria sempre culpado: quando trai e quando é traído. Não é justo com eles.
Homens e mulheres gostam de acreditar que o marido é safado por natureza, e a mulher casada é santa por dedicação. Esses rótulos podem parecer convenientes, mas contaminam as relações amorosas. Trabalhando há 22 anos com dilemas de casais, Mirian diz, em seu livro Por que homens e mulheres traem?, que a maior diferença entre eles e elas não é o comportamento, mas o discurso.
“Em vez de assumirem o desejo, as mulheres preferem se fazer de vítimas. Sentimentalizam o caso extraconjugal e botam a culpa no marido. Os homens assumem ter sido infiéis porque quiseram. Raramente culpam a própria mulher.” Cada vez mais, porém, a infidelidade feminina segue os mesmos padrões da infidelidade masculina. No livro da antropóloga, “Mônica” é uma mulher dos novos tempos. “Ela está muito bem em seu casamento e ama o marido. Mas surge um desejo sexual louco e novo em sua vida e ela se joga nele. Rompe a calmaria porque decide viver seu próprio prazer.”
O desejo de se sentir desejada conduz a pequenas e grandes infidelidades femininas. As mulheres escutaram, quando crianças, que seu maior objetivo na vida seria casar e ter filhos. No futuro, elas teriam um único homem para chamar de seu. E seriam únicas para um homem só. A idealização da monogamia romântica não mudou muito, mas a realidade a longo prazo é bem outra.
Mulheres são um pouco Leila Diniz no exercício da sedução, mas não necessariamente na transgressão. As obrigações sociais jogam sua libido num lugar invisível e inatingível. Várias sublimam o prazer ao assumir o papel de mãe. Isso não significa que abram mão de suas fantasias. Conheci mulheres absolutamente certinhas, monogâmicas, que casaram virgens e têm sonhos delirantemente libertários.
O homem seria sempre culpado? Quando ele
trai, é safado. Quando é traído, é relapso
Algumas não se contentam em fantasiar. Catherine Deneuve, em A bela da tarde, de Buñuel, é uma das personagens mais enigmáticas do cinema. Bem casada, rica, belíssima, ela se entrega a desconhecidos após o almoço como prostituta de luxo. É um exemplo extremo de desvio. Mas, se a infidelidade feminina fosse apenas um fetiche, Nélson Rodrigues não teria tocado com tanta propriedade a alma da classe média brasileira. Novelas como a atual Passione soariam falsas. Ali, as protagonistas traem compulsivamente, das cinquentonas às ninfetas. Traem por desejo, por sexo, por diversão.
O psicanalista Contardo Calligaris acha que as mulheres são tão infiéis quanto os homens. Não vê nisso um problema. “As mulheres só são campeãs na fidelidade companheira e solidária. Em hospitais ou presídios, os visitantes são mulheres. Mas, sexualmente, não vejo diferença. Caso contrário, existiria um problema lógico. Se os homens heterossexuais são infiéis, quem são suas amantes – todas solteiras e livres ou também casadas e namorando outros?”
Contardo acha a palavra infidelidade muito pesada para a traição puramente sexual: “Jamais deixaria minha mulher se ela me contasse algo parecido. Mas sou fiel. Acho um saco trair. Ter outra relação dá um trabalho horroroso”.
Nos tribunais do Rio de Janeiro, recentemente, o juiz Paulo Mello Feijó ignorou o pedido de indenização por danos morais de um marido traído. Para o juiz, marido traído é marido relapso. “Homens de meia-idade, já não tão viris, descarregam suas frustrações nas mulheres, chamando-as de gordas e deixando-lhes toda a culpa por seu pobre desempenho. E elas buscam o prazer em outros olhos, outros braços, outros beijos (...) e traem de coração.”
A ideia de que a mulher só trai por razões sublimes, “de coração”, não corresponde à realidade. Se ela for infiel, será por desejo e por vontade própria. 

PRIMEIROS ANOS Ferreira Gullar

PRIMEIROS ANOS
Ferreira Gullar

Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
Gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas .
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.

(Buenos Aires, 1975)

Disque-ajuda para mulher fez 1 milhão de atendimentos

Disque-ajuda para mulher fez 1 milhão de atendimentos
Call center nacional contra a violência doméstica, que funciona há 4 anos, recebe cada vez mais ligações
Objetivo é informar mulheres agredidas e testemunhas sobre possibilidades da Lei Maria da Penha
JOHANNA NUBLAT - DE BRASÍLIA
"Central de atendimento à mulher, em que posso ajudar?" Essa é a frase que se repete milhares de vezes num único dia no salão de cerca de 200m2 onde funciona o call center nacional contra a violência doméstica.
O espaço, localizado em uma cidade-satélite de Brasília, reúne todas as 150 atendentes que se revezam ao longo de 24 horas e recebem relatos de ameaça, violência física e psicológica, cárcere privado e tráfico de pessoas.
Nos dois últimos casos, a central aciona diretamente as autoridades competentes. Nas demais situações, é necessário uma queixa da parte da mulher e o serviço fornece informações e suporte.
Um dos papéis prioritários da central é explicar os objetivos e as possibilidades da Lei Maria da Penha, que completa hoje quatro anos.
"O Ligue 180 tem o papel importante de orientar a vítima de violência, já que a lei é recente", afirma Ana Cláudia Pereira, consultora do Cfemea (Centro Feminista de Estudos e Assessoria).
Foram 343.063 atendimentos feitos nos seis primeiros meses do ano, mais que o dobro do ocorrido no mesmo período de 2009, segundo a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, responsável pelo serviço.
Nos quatro anos de funcionamento do call center, foram 1,2 milhão de atendimentos. Dados à parte, a central é rodeada de sigilo: não há identificação na fachada do prédio, as atendentes não usam uniforme e os relatos são tratados como segredo.
A reportagem visitou o espaço na manhã da última quinta-feira. Da porta para dentro, a central segue o estereótipo de um call center tradicional: mulheres jovens -em geral abaixo dos 30 anos, segundo a secretaria- munidas com seus fones.
LILÁS E BRANCO
Balões lilás e brancos festejam os quatro anos da citada lei e cartazes motivam o trabalho. "A partir do momento em que lhe pedem ajuda, você tem uma vida nas mãos e seu apoio pode fazer a diferença", afirma um deles.
Imbuída desse espírito, uma atendente ditava ao telefone medidas protetivas quando a Folha iniciou sua visita ao local.
A moça, de 18 anos, fez outros três atendimentos em 20 minutos. "A violência está ocorrendo neste momento? A senhora acredita que sua vizinha está correndo risco? Então ligue para a polícia", orientava, impassível. Um outro relato desperta desconfiança. "A voz parecia de criança, mas a gente não pode tratar esses casos como trote. A minha voz pode parecer de criança também."

Grupo Corpo - Bach (1) - Belo Horizonte

Marco Aurélio para o Zero Hora

Juízes federais de SP usam carro oficial em férias e feriado

Juízes federais de SP usam carro oficial em férias e feriado
Judiciário. Relatório confidencial da Corregedoria Geral da Justiça Federal mostra que desembargadores do TRF da 3ª Região descumprem rotineiramente a resolução pela qual veículos dos tribunais só podem ser usados em situação de serviço
Fausto Macedo

Relatório confidencial da Corregedoria Geral da Justiça Federal aponta uso excessivo de veículos oficiais por desembargadores do Tribunal Regional Federal da 3.ª Região (TRF3) mesmo em período de férias, domingos, feriados e até no recesso da corte.
No topo da carreira, vencimentos de R$ 24 mil mensais e com direito a escolta pessoal - dois seguranças à disposição dia e noite -, desembargadores se deslocam a bordo de modelos Corolla, Peugeot 307 e Santana.
Rodam milhares e milhares de quilômetros, segundo o relatório. Alguns residem fora da Capital e viajam de suas cidades de origem até o prédio-sede do tribunal, na Avenida Paulista, praticamente todos os dias. Ao final do expediente, retornam ao lar.
A corregedoria verificou que é corriqueiro veículos pernoitarem fora do TRF3. "Não existe um controle de veículo, contendo percurso do veículo oficial, nome do solicitante e da autoridade atendida", constata.
Com 261páginas, o documento narra passo a passo a análise de documentos realizada em todas as instalações e gabinetes de magistrados do TRF3. Um capítulo é dedicado aos itinerários dos desembargadores.
Intitulado Relatório Circunstanciado de Inspeção, o dossiê foi concluído em 17 de julho e impõe prazo para apresentação de explicações e justificativas de todos os citados. A varredura ocorreu entre os dias 15 e 24 de março segundo o processo número 2010-180010. A força-tarefa mobilizou 4 juízes federais e 21 servidores.
Na página 197, o dossiê cita o desembargador Paulo Octávio Baptista Pereira, ex-corregedor do TRF3. "Existe uma viagem, em fim de semana, que teve percurso de 1.868 quilômetros tendo sido conduzido o veículo oficial pelo desembargador, que se encontrava de férias."
Deslocamentos. Outro desembargador, Nélson Bernardes, residente em Campinas, é citado. "Existe o registro de aproximadamente 72 deslocamentos de 213 quilômetros cada trecho, em um ano. Há indícios de que o veículo oficial permaneça grande parte da semana na cidade de Campinas, vindo somente algumas tardes ao tribunal. Inclusive nas férias e recesso o veículo oficial fica em Campinas."
Ao mencionar a desembargadora Vera Jucovsky, a corregedoria assinala: "Há indícios de que a viatura oficial pernoitou aproximadamente 35 vezes fora da garagem do tribunal. Em alguns dias, a viatura chega à garagem do tribunal de madrugada. Existem registros de dois deslocamentos de aproximadamente 320 quilômetros e um de 1.010 quilômetros."
A inspeção foi dirigida pelo corregedor geral da Justiça Federal, ministro Francisco Falcão, do Superior Tribunal de Justiça (STJ). O relatório foi aprovado pelo Conselho da Justiça Federal. A Corregedoria solicitou ao presidente do TRF3, desembargador Roberto Haddad, que observe o disposto na Resolução 72/2009 do Conselho da Justiça Federal, "especialmente no que diz respeito à guarda de veículos oficiais na sede do tribunal, à vedação de uso de viaturas para fins particulares e à condução dos veículos pelos próprios magistrados".
A corregedoria quer um rígido controle sobre todos os veículos da frota, sua guarda e documentação e levantamento de itinerários, tempo por percurso, requisitantes e usuários, além de adoção de critérios de inspeção, vistoria, revisão, reparo e conserto. A presidência do TRF3 foi orientada a estabelecer cota-limite de combustível e controle de ocorrências como multas ou sinistros, com ou sem dano ao erário, com a identificação dos responsáveis e eventual reparação.
Norma. O uso de veículos no âmbito do Judiciário é disciplinado pela Resolução 83, de 2009, editada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a quem compete o controle da atuação administrativa e financeira dos tribunais. Dada "a necessidade e conveniência de regras claras e transparentes no uso do patrimônio público por seus agentes", e diante de denúncias recebidas, o CNJ decretou: "Os veículos oficiais destinam-se exclusivamente ao serviço público do órgão a que estejam vinculados."
Maior tribunal federal do País, com jurisdição em São Paulo e Mato Grosso do Sul, o TRF3 conta 43 desembargadores em seus quadros e um acervo de 91.130 processos acumulados - todos relativos a demandas de interesse da União.
A carga de trabalho é de 11.511 processos por magistrado, acima da média nacional federal de 8.660 processos. A taxa de congestionamento do tribunal é de 66%, para a média nacional federal de 59,8%. "A análise dos serviços judiciários em gabinetes de desembargadores revelou as sérias deficiências do controle estatístico", acentua o relatório.

"A quase totalidade dos gabinetes sequer consegue, por deficiências no sistema, aferir com rigor o próprio acervo de processos em tramitação ou de feitos aguardando decisão interlocutória, decisão liminar, de antecipação de tutela ou julgamento", diz o relatório. "Alguns gabinetes chegam a realizar precários controles manuais, sujeitos a falhas e desatualizações."

QUAL É A REGRA
A resolução 83 do Conselho Nacional de Justiça determina: "É vedado o uso dos veículos...
...oficiais, inclusive locados, salvo os de representação, aos sábados, domingos, feriados e recessos forenses ou em horário fora do expediente do tribunal, exceto para os serviços de plantão e para o desempenho de outros serviços inerentes ao exercício da função pública."

SPONHOLZ

Swimming Pool, Afghanistan


Photograph by Casey Johnson

Leia entrevista com o historiador britânico Tony Judt

Leia entrevista com o historiador britânico Tony Judt

O GLOBO / PROSA & VERSO
Leia abaixo a entrevista com o historiador britânico Tony Judt, morto aos 62 anos na último sexta-feira, publicado no Prosa & Verso de 22 de maio. Na conversa com Guilherme Freitas, o pensador - que foi diagnosticado em 2008 com esclerose lateral amiotrófica, a doença neurológica degenerativa que o matou - disse ter encontrado na atividade intelectual incessante a melhor reação ao fato de estar confinado ao que definiu, num ensaio, como "minha prisão corpórea":
— A doença não mudou minhas opiniões, mas agora tenho um senso de urgência mais forte em minha atividade intelectual. Tudo está mais difícil para mim, então sou obrigado a selecionar melhor aquilo em que me engajo — declarou.
O senhor escreve que, embora o século XX tenha sido "o século dos intelectuais", eles praticamente sumiram da esfera pública nas últimas décadas. Como explicar o declínio da figura do intelectual público? TONY JUDT: Boa parte da resposta está nas transformações dos meios de comunicação. Acho também que a grande era da alfabetização em massa — quando muitas pessoas puderam ler pela primeira vez e ganharam acesso a textos e autores pelos quais tinham grande respeito social — ficou para trás. Hoje somos todos letrados, mas não ligamos muito para literatura. A autoridade das antigas gerações de intelectuais vinha precisamente do fato de serem romancistas, filósofos, ou mesmo jornalistas. Hoje, o intelectual tende a ser um acadêmico ou um especialista, o que, ironicamente, reduz seu alcance. E, claro, a cultura das "sound bites" (declarações curtas e impactantes de especialistas e autoridades ouvidos pela imprensa) faz com que o tipo de autoridade associada ao intelectual, ancorada em argumentos e num amplo reconhecimento cultural, esteja em baixa. Não acho que haverá grandes mudanças nesse cenário. A maioria dos "intelectuais" de hoje não se compara a seus predecessores. Ironicamente, a reflexão política inteligente está se retirando para as margens.
Em "Reflexões sobre um século esquecido", o senhor argumenta que um grupo de intelectuais "sem raízes", como Edward Said, Hannah Arendt e Albert Camus, formou a "República das Letras" do século XX. O que distingue este grupo de intelectuais? Como podem servir de exemplo para nós? JUDT: Todos eles estavam enraizados na alta cultura de um país, comunidade ou idioma, mas se consideravam parte de um diálogo necessariamente transnacional, cujos pontos de referência eram os mesmos quer você vivesse no Brasil ou na Estônia. Hoje, o típico "intelectual global" não tem raízes e, portanto, o que ele diz sobre questões globais carece de fundamentação. Também acho que a autoconfiança intelectual das pessoas que você cita — o fato de elas assumirem que ser inteligente e escrever bem constituía a base para sua influência e a justificativa de seu trabalho — não está presente em seus sucessores. Se tivéssemos que tirar um exemplo de todas essas pessoas, seria esse: intelectuais têm que ir contra a corrente em suas próprias comunidades (seja nacional, religiosa, ideológica etc). Intelectuais que apenas fornecem argumentos em favor de um determinado grupo desempenham outro tipo de papel.
Em entrevista recente, o senhor disse que é preciso "redescobrir a linguagem da divergência"? Como defini-la? JUDT: Não tenho um modelo. Mas seria algo como o que disse antes: exercitar o pensamento independente mesmo sob o risco de desaprovação dentro de sua própria comunidade. E, em política, insistir na validade do embate, da discordância e da divisão, onde existirem. A democracia não pode sobreviver numa dieta de consenso.
O senhor dedica seu livro mais recente ("Ill fares the land") "aos jovens" que parecem estar "confusos" sobre como agir contra o que acreditam estar errado no mundo. Que tipo de engajamento político é possível para os jovens hoje? JUDT: Não quis escrever um livro de receitas para os cozinheiros de amanhã. No entanto, acredito que precisamos reaprender o que significa agir politicamente. Movimentos de base que agem pontualmente em nome de uma só causa quase sempre dão em nada — ou desaparecem após o sucesso da causa ou são apropriados por outros interesses e se perdem. Precisamos de um sistema através do qual possamos expressar visões universais sobre como somos governados e como gastamos nossas reservas: para isso precisamos examinar, de uma perspectiva crítica e ética, a forma como fazemos isso. O primeiro desafio é aprender mais uma vez a discordar com confiança daquilo que nos desagrada, em vez de dar as costas à política por desgosto ou desespero. E precisamos falar sobre "nós", não apenas sobre "eu".
Voltando a "Reflexões...", o senhor diz que tendemos a ver a História apenas como triunfos que devem ser recordados ou erros que não podem ser repetidos. Há alternativas a isso? Como lidar com a História, em especial com os eventos mais turbulentos do século XX? JUDT: Não há uma resposta simples. A melhor forma de lidar com a História é entendê-la — o que significa contar verdades desconfortáveis sobre o passado, mesmo que elas sejam socialmente perturbadoras. Para os democráticos vencedores do século XX, não é fácil reconhecer seus próprios crimes políticos — assim como para eles é difícil reconhecer que o inimigo derrotado era mais popular e até mais bem-sucedido do que gostamos de admitir. Acho que a outra metade da resposta é que temos que lutar duro para distinguir comemorações socialmente úteis e alertas politicamente importantes ("Munique") da verdadeira História. Os primeiros estarão sempre conosco; é a última, em toda sua complexidade, que estará sempre ameaçada. O trabalho do historiador é erguer-se cada vez que alguém diz "Munique" ou "Auschwitz" ou "Vencemos a Guerra Fria" e responder: "Sinto muito, mas é mais complicado que isso e você precisa entender por quê". Numa época de esquecimento instantâneo e falsa memória, o historiador se torna uma commodity rara e valiosa.
Por que o período entre a queda do Muro de Berlim e a invasão do Iraque foi "um tempo perdido", como o senhor diz? JUDT: Em primeiro lugar, nos primeiros anos esquecemos tudo que já tínhamos feito de correto. Um Plano Marshall para o Leste da Europa e o Cáucaso teria poupado milhões de dólares, vidas e problemas. Além disso, ao tratarmos a Guerra Fria como um simples conflito entre "nós" e "eles" vencido por nós, ficamos cegos para os conflitos que estiveram presentes antes e durante a Guerra Fria e que são a fonte de muitos de nossos problemas atuais. Em terceiro lugar, os anos 1990 teriam sido o momento ideal para repensar os arranjos econômicos internacionais de 1944. Em vez disso, assumimos que o mercado liberal tinha "vencido" e o Estado forte, "perdido": o resultado foi a crise de 2008 e outras por vir.
O senhor argumenta que, embora a noção de Estado do Bem-Estar Social tenha perdido espaço, temos que aprender a reconhecer suas deficiências e, ao mesmo tempo, defender suas funções. Quais devem ser os limites e funções do Estado do Bem-Estar Social hoje? JUDT: Desconfio que a resposta é óbvia em boa parte da Europa e da América Latina: alguma forma de Estado do Bem-Estar Social é condição necessária para a estabilidade do capitalismo, incluindo serviços básicos suficientes e igualdade para absorver aqueles que sofrem com as inevitáveis injustiças do mercado. Em outras palavras, o Estado do Bem-Estar Social tem o mesmo papel hoje que em seus primeiros tempos: prevenir os erros que o capitalismo comete instintivamente quando é deixado sem regulação. Assim, a única questão é o alcance do Estado e o equilíbrio entre seus gastos em serviços e em bens públicos. Aqui, é preciso ser pragmático. Em países como a Alemanha, até a centro-direita reconhece a necessidade de redes de Bem-Estar Social, fornecimento público, serviços básicos e um alto nível de provisão social a partir de taxação direta. Em outros países, como os EUA, nem a centro-esquerda consegue ver isso. O verdadeiro perigo do gasto estatal excessivo — corrupção, ineficiência etc — tem que ser medido contra os riscos igualmente reais de colapso social na ausência de uma noção clara do coletivo e de sua responsabilidade. A política tem que ser a arena onde debatemos esses temas, em vez de ficarmos gritando "Estado!" ou "Mercado!" um na cara do outro.
A recente crise econômica pode forçar uma revisão do modelo liberal de Estado? JUDT: Temo que não. Mas em combinação com futuras crises parecidas (estamos no meio de uma na Grécia) e decepções com os excessos da globalização, é possível que o pêndulo volte a uma visão do Estado como algo não necessariamente ruim em princípio. Lembre-se que há apenas 30 anos essa era opinião corrente entre a maioria dos políticos e economistas, e não só em social-democracias.
O marxismo enfrenta certo descrédito desde a queda do Muro de Berlim, mas o senhor sugere que temos muito a aprender com "o admirável poder das ideias marxistas". Qual é esse poder e como o marxismo pode ser relevante hoje? JUDT: Eu faria uma distinção entre o poder do pensamento marxista — parte de uma influência mais ampla de ideias e ideologias do período 1870-1970 — e o estrago causado por partidos e Estados marxistas. Foi este último que fez com que o primeiro ficasse muito desacreditado. Não desejo um retorno dos velhos debates ideológicos e dogmáticos, nem das crenças irrefletidas sobre classe e capitalismo. Mas seria bem-vinda uma disposição para reabrir questões sobre conflito social, interesse de classe, divisão econômica e deficiências inerentes ao capitalismo desregulado. Não acho que para fazer isso precisemos ser marxistas, mas os melhores marxistas eram muito bons nisso e seria ótimo para estimular o debate.
O senhor se disse decepcionado com Obama, alegando que ele estaria mais interessado em buscar consensos do que reformas. Como vê os acontecimentos recentes do governo Obama, especialmente a aprovação da reforma da saúde? JUDT: A reforma da saúde quase fracassou. No fim, foi a vitória de um acordo que muitos de seus defensores não aprovaram, mas que aceitaram por falta de alternativa melhor. Temo que Obama tire a lição errada disso e continue buscando consensos e acordos. Mas em certos temas cruciais — Oriente Médio, guerras, gastos públicos em infraestrutura de longo prazo, reforma bancária — não há acordos e o consenso é difícil. (O primeiro-ministro israelense Benjamin) Netanyahu não quer um acordo, nem a direita republicana. Às vezes você tem que lutar pelo que acredita. Se Obama não entender isso, vai continuar a nos desapontar.

Como o "estilo de vida europeu", cujos benefícios sociais o senhor aponta muitas vezes, foi afetado pela crise? Acredita que a União Europeia tem lidado bem com a questão da Grécia? JUDT: A UE tem tratado quase toda crise com total incompetência. Mas tem sorte: assim como os EUA, a UE é muito rica, mas, ao contrário dos EUA, teve o bom senso de aprender com as catástrofes da História. Então, mesmo sendo uma bagunça política e institucional, suas instituições sociais, salvaguardas econômicas e autoridades transnacionais conseguiram criar e preservar um padrão de vida, um nível de segurança e um senso de interesses comuns que o resto do mundo só pode invejar. Mas acho que eles podem arruinar tudo isso — precisamente porque os líderes europeus de hoje têm pouca noção da importância histórica da construção de uma casa institucional comum naquele que já foi o continente mais violento do mundo. Quanto à Grécia, o problema é, em parte, que uma moeda sem Estado tem poucas perspectivas a longo prazo. E os ganhos políticos de permitir que Grécia ou Portugal (ou o Leste da Europa) aderissem à UE e ao euro ofuscaram o planejamento sobre o que fazer numa eventual crise como esta.
Quando jovem, o senhor tomou parte no que mais tarde chamou de "fantasia idealista" da construção do Estado de Israel, mas hoje defende um Estado binacional como a solução para o conflito Israel-Palestina. Em que ponto se deu conta da natureza dessa "fantasia"? Estamos mais próximos hoje de um Estado binacional? JUDT: Acho que enxerguei as falhas morais e práticas do sionismo bem cedo. Mas o salto para o reconhecimento de que um Estado unicamente judeu era o problema e não a solução foi mais difícil por causa da minha formação. Suponho que passei a encarar a questão melhor no fim dos anos 1990. Acho que, graças a Netanyahu e seus partidários, a criação de um Estado binacional não é uma hipótese realista, e a criação de dois Estados é cada vez mais uma ilusão. Temo que continuaremos vivendo com esse dilema irresolvido por uma década ou mais. Só os EUA poderiam forçar um avanço por sua influência econômica ou militar — e por razões tanto domésticas quanto externas, isso não vai acontecer.
Como o senhor vê o governo Lula? O que pensa do papel mais proeminente que o Brasil tem buscado no cenário internacional nos últimos anos? JUDT: Noto que o governo Lula colocou na agenda uma questão — qual deve ser o tamanho do Estado e com que fins? — que a maioria das culturas políticas hoje ignora. No plano internacional, penso que o Brasil foi muito perspicaz ao se aproveitar de uma mudança na hegemonia das potências do pós-Guerra, sem fazer muito barulho sobre seus direitos e reivindicações. Nota-se que, sempre que esses temas são debatidos, a autocracia chinesa, o autoritarismo pós-soviético e a pobreza indiana são evocados como razões para desacreditar o futuro dos "Brics", mas o Brasil sempre escapa ileso! Talvez porque, nessa companhia, o Brasil pareça um futuro bastante respeitável para a comunidade internacional! Não devemos nunca menosprezar o papel da sorte e do senso de oportunidade nas relações internacionais. Ainda assim, o Brasil precisa desses aliados pouco atraentes: mesmo hoje, o país nunca seria suficientemente respeitado por si só — tente acompanhar políticos brasileiros, sem falar em seus colegas sul-americanos, na imprensa europeia e americana...

Alimentando aprendizes de ditadores

Alimentando aprendizes de ditadores
Ives Gandra Martins – Jornal do Brasil

Desde o episódio de Honduras em que o presidente Lula interveio diretamente em assuntos internos daquele país, por ignorar a Constituição hondurenha, mantendo até hoje sob suspeita a validade das eleições absolutamente livres lá ocorridas sua política externa tem prejudicado a imagem do Brasil no exterior, assim como todos os cidadãos brasileiros.
Em relação à imagem que conseguira colocar em patamar elevado até meados de 2008, basta verificar as críticas que vem recebendo de organizações internacionais dedicadas à defesa de direitos humanos e da liberdade de imprensa, por sua postura, absolutamente oposta à adotada quanto à nação hondurenha.
Acaricia o ego de ditadores seus amigos e abstém-se de qualquer manifestação de censura às medidas arbitrárias por eles perpetradas de fraudar eleições, condenar à pena de morte opositores, prender aqueles que não concordam com suas opiniões e perseguir a imprensa, os intelectuais e os empresários , afirmando não lhe caber imisquir-se em assuntos internos dos países por eles governados.
Cuba, a mais antiga ditadura da América Latina, apenas soltou presos políticos, que fizeram duras críticas a Lula, por intervenção da Igreja Católica e da Espanha. O Irã, cujas fraudes eleitorais foram reconhecidas pelo próprio governo, é exaltado pelo Brasil. A Guiné Equatorial, uma das mais antigas ditaduras africanas, merece visitas e declarações conjuntas. Mugabe foi prestigiado por Lula, apesar de assassinar opositores.
Na própria América do Sul, em que os aprendizes de ditador vão se multiplicando, não só prestigia as perseguições a opositores, apropriações indevidas, eliminação da imprensa livre e da livre iniciativa, como auxilia, por outro lado, a manutenção de um quase-ditador, que está destruindo a economia venezuelana e comprometendo o que a sociedade construíra no passado, dando-lhe sobrevida com benesses infraestruturais. A Bolívia, que o desmoralizou com a invasão da Petrobras no dia do trabalho, tem recebido tratamento preferencial e benefícios, entre os quais a revisão de contratos, sempre a favor dos interesses bolivianos e contrários aos brasileiros. O mesmo se diga quanto ao Equador, ao perseguir empresas brasileiras, com tolerância inadmissível por parte do nosso governo. A Argentina é campeã nas discussões comerciais com o Brasil.
Ganha todas, porque Lula sempre desiste de lutar pelos interesses nacionais. E o Paraguai vai agora rever, em 2010 , o Tratado de Itaipu, em cuja usina não colocou absolutamente nada.
O Brasil deverá ter um prejuízo de R$ 5,5 bilhões com a revisão de um tratado, que só deveria ser revisto em 2023! Em Ives Gandra Mar tins PROFESSOR DE DIREITO E ESCRITOR outras palavras, Lula lembra aquele técnico idealizado por Jô Soares (Joca), que perdia todos os jogos, dizendo É a fase.
Esquece-se de que há miséria no Brasil . A educação vai mal em comparação com os padrões internacionais, os investimentos públicos são ínfimos (1% do PIB contra uma carga tributária de 35% ; no tempo do ministro Delfim Netto a carga era de 24% e o investimento público de 4%); o SUS não atende a população dignamente e remunera ridiculamente os profissionais e hospitais. O presidente da República, pois, se compraz em fazer reverências com o chapéu alheio, tomando dinheiro dos contribuintes brasileiros para auxiliar os cinco países, cujos líderes flertam cada dia mais abertamente com a ditadura.
Parece que Lula usa o ditado ao contrário: Mateus, primeiro os outros! É bem verdade que, de um orçamento de aproximadamente R$ 1 trilhão, dedica R$ 12 bilhões para 11 milhões de famílias que integram o Bolsa FaPOLÍTICA mília. Mas quase R$ 200 bilhões são destinados apenas aos servidores da administração federal! Nós, cidadãos, não governamentais ou seja, os de segunda categoria , geraremos este ano um déficit previdenciário de R$ 42,9 bilhões. Somos, entretanto, 27.048.356 trabalhadores aposentados. Já os companheiros do serviço público, que são apenas 937.200, gerarão um déficit de R$ 47 bilhões! Em outras palavras, o déficit relativo aos cidadãos de segunda categoria, per capita, é de R$ 1.586. O déficit dos servidores públicos é de R$ 50.146, ou seja, 31,6 vezes maior! Custa-me a crer que, com tais dados, se possa falar em justiça no Brasil . De nada adianta sua irritação crescente com a mídia, o que levou o presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa a equiparar Lula a Chávez, no que diz respeito ao desapreço pelo direito de livre imprensa. O que ele precisa é mudar de postura e voltar a ser o que foi nos primeiros seis anos de governo.

Amorim

'Então fique com Lula'

'Então fique com Lula'

Jorge Bastos Moreno
É desonestidade intelectual afirmar que o Partido dos Democratas é sucedâneo das legendas que sustentaram a ditadura militar. Melhor dizer que são cacos recolhidos da camisa de força do bipartidarismo e do ajuntamento de experiências que se frustraram no meio do caminho. Oficialmente, o DEM é sucessor do PFL, que foi Frente Liberal extraída da espinha dorsal da ditadura, o PDS, este, sim, sucedâneo da — ufa! — Arena.
Criada pela ditadura, com o MDB, a Arena consolidou-se na presidência de Filinto Müller e ficou famosa na gestão do Francelino "Que país é este?!" Pereira, muso inspirador do Legião Urbana.
Depois veio José Sarney, que foi também o presidente do PDS — até hoje não se sabe ao certo se foi o Sarney que acabou com o PDS, criando a Frente Liberal, ou se foi o PDS que acabou com Sarney, criando a candidatura de Maluf contra Tancredo Neves.
A verdade é que o PFL foi criado e procriou no governo Sarney. Fortaleceu-se, sob o comando de Jorge Bornhausen no governo Fernando Henrique, mas vem definhando no governo Lula e pagando caro pelo que investiu no governo distrital de José Roberto Arruda — foi o primeiro governador a despachar a fórceps de um distrito policial.
José Serra, que chegou a alimentar um namoro impossível com Michel Temer, hoje vice da Dilma, pegou o DEM aos cacos e presidido pelo "aecista" Rodrigo Maia. Na outra candidatura Serra, em 2002, o partido tinha o nome de PFL e era dirigido a manu militari por Jorge Bornhausen.
Rodrigo é o primeiro presidente do DEM e assumiu no embalo da renovação das oligarquias dos próprios Maia ---— êta família grande —, do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Norte; dos Magalhães, da Bahia; e dos Bornhausen, em Santa Catarina. E também na esteira do surgimento de um líder escoteiro em São Paulo, Gilberto Kassab, atualmente mais tucano do que o ex-governador Aécio Neves.
Enfim, é esse o principal partido da aliança do Serra. Só que Serra, por causa da opção "aecista" de Rodrigo Maia, não fala com o presidente do DEM, apesar de ter uma relação cheia de altos e baixos com Cesar Maia, pai do "alevino", que é como ele sempre se referiu a Rodrigo.
É totalmente esquisito um candidato à Presidência da República ter uma aliança com um partido e ser rompido com o presidente desse partido. Em se tratando de Serra, isso é possível porque isso é Serra. "Nada que vem de Serra é esquisito, além dele mesmo", costumava brincar o ex-presidente FH.
Mesmo rompido, Serra, nesta campanha, já falou duas vezes por telefone com Rodrigo Maia. Mas para brigar.
A mais recente aconteceu na quarta-feira da semana passada, quando o candidato exigiu que Rodrigo Maia desmentisse uma declaração publicada na coluna "Painel", da "Folha de S. Paulo", na qual o presidente do DEM afirma que o maltratado Gabeira prometeu dar "banana" para o Serra e não para ele.
A íntegra do diálogo, com impublicáveis trocas de gentilezas, foi passada ao GLOBO por puro acaso e por uma pessoa mais distante da campanha do que Fernando Henrique Cardoso.
Rodrigo Maia nega não só o diálogo como também a existência do próprio telefonema e ameaça divulgar nota oficial desmentindo qualquer publicação a respeito.
O deputado só não explica por que, então, depois de convidado para acompanhar Serra ao debate da Bandeirantes, no dia seguinte, tenha respondido:
— Depois do que ele me fez ontem?
O presidente do DEM só desmente a briga porque está engessado pelo candidato, que, a interlocutores, disse ontem que Rodrigo Maia só fala ... — e aí deu uma lista de nomes de repórteres e colunistas de GLOBO, "Folha" e "Veja". Maia deve pensar que, se confirmar o bate-boca, Serra vai achar que foi ele que vazou a parte publicável da conversa:
Serra: — Sua declaração foi infeliz. Aliás, não é nem declaração, é provocação. Você tem que desmentir o "Painel" da "Folha".
Rodrigo: — Eu não. Eu falei apenas uma verdade. Você prometeu coisas para o Gabeira e não cumpriu.
Serra: — Então, no mínimo, o que você tem que fazer é ligar para o Gabeira.
Rodrigo: — Mas isso é o que não farei de jeito nenhum.
Serra: — Então fique com Lula!
E aí, e aí... a ligação caiu!
Publicado no Globo de hoje.

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