terça-feira, agosto 24, 2010
O que não fazer
O que não fazer
LUIZ GARCIA O GLOBO - 24/08/10
Policiais chegam ao Hotel Intercontinental para requisitar fitas de vídeos /Foto: Wania Corredo / Extra / Agência Globo
Saudade dos bons tempos em que o Rio tinha apenas favelas.
Hoje, a expressão correta nos morros afastados do Centro da cidade é “complexo”. São vastas áreas de subúrbios em que favelas estão emendadas umas nas outras. Nelas, a polícia pode entrar, mas parece que ainda não sabe como ficar. Nem, pelo visto, como sair. Lá, lei e ordem não têm residência fixa.
A resposta mais eficiente a essa crise urbana permanente tem sido o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora.
Têm funcionado bastante bem em favelas pequenas, como a do Morro Dona Marta, em Botafogo.
Para favelas grandes, ainda não há remédio conhecido. Foi o que se viu no último fim de semana. Numa versão sem confirmação oficial, um grupo de 12 policiais militares teria entrado na Rocinha com o ambicioso objetivo de prender o traficante Nem, chefe do tráfico de drogas na área. Seja verdade ou não, por alguma razão bastante forte os traficantes desceram do morro para enfrentar os PMs. Resultado: uma mulher morta e seis feridos. Além da invasão do Hotel Intercontinental, onde 35 pessoas ficaram durante três horas reféns dos bandidos.
Não fica bem condenar policiais que arriscam a vida para enfrentar traficantes e conseguem prender dez deles. Mas alguma autoridade estadual deve estar avaliando a chamada relação custo-benefício do episódio para uma cidade cuja prosperidade depende consideravelmente do turismo. Leve-se em conta que Nem não está entre os presos.
O episódio reforça a impressão de que a polícia pacificadora — reconheça-se: uma confortadora designação — é solução parcial. Não serve para os tais complexos; infelizmente, é neles que está o grande problema da cidade.
Invasões episódicas, mesmo dando certo, podem ter custo alto demais. E o preço que a cidade pagou pelo episódio de sábado foi esse mesmo: muito risco e alto prejuízo para a imagem da cidade que pretende hospedar uma Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.
A polícia pacificadora é bela ideia, a urbanização de favelas é objetivo obviamente necessário, mas nada disso basta: o problema é maior que essas duas soluções. Para começo de conversa, aprendemos no sábado o que não fazer. Foi lição de alto custo: o mínimo que se espera é que não seja esquecida.
Ficha Limpa tira Maluf da eleição
Ficha Limpa tira Maluf da eleição
O GLOBO
TRE nega registro, mas deputado continua candidato até que TSE julgue recurso
Com base na Lei da Ficha Limpa, o TRE-SP indeferiu o registro da candidatura do deputado Paulo Maluf (PP) à reeleição. Por 4 a 2, os juízes entenderam que Maluf não pode entrar na disputa por causa da condenação no "Frangogate" - escândalo no qual foi punido por comprar, quando prefeito, frango superfaturado para a merenda escolar e contratar uma empresa ligada à sua mulher para fornecer o produto. Para o presidente do TRE-SP, a decisão é histórica. Maluf vai recorrer da impugnação ao TSE e ao STF. Ele continua candidato e, se for eleito sem que o TSE tenha julgado o recurso, pode tomar posse na Câmara. Se o TSE mantiver a decisão, Maluf perde o foro privilegiado.
TRE: Maluf não é ficha limpa
Tribunal barra candidatura de deputado à reeleição; ele, porém, vai recorrer
Tatiana Farah
SÃO PAULO - A candidatura do deputado federal Paulo Maluf (PP-SP) à reeleição foi vetada ontem pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo com base na Lei da Ficha Limpa. Por quatro votos a dois, os juízes indeferiram o registro da candidatura de Maluf por causa de seu envolvimento no chamado Frangogate, o escândalo do fornecimento de frango para a merenda escolar, durante sua gestão à frente da Prefeitura de São Paulo. O presidente do TRE, desembargador Walter de Almeida Guilherme, que votou contra o deputado, disse que a decisão é histórica, e que a lei, aprovada este ano no Congresso, é um marco para a Justiça.
Emblemático é pela situação e, tenho de dizer, pelo próprio candidato.
A Lei da Ficha Limpa é um marco para a Justiça brasileira disse o desembargador. Se não fosse a Ficha Limpa, de fato, nós não teríamos condições de impugnálo, por não termos o trânsito em julgado (quando não cabem recursos da sentença judicial).
Em 1996, Maluf foi acusado de superfaturar a compra de frangos e de contratar uma empresa ligada à sua mulher, Sylvia Maluf, para fornecer a carne de frango na merenda escolar.
O deputado foi condenado pela 7aCâmara de Direito Público do Tribunal de Justiça (TJ), por improbidade administrativa, por dois votos a um, numa sentença que o tornou inelegível por cinco anos.
Segundo a Lei da Ficha Limpa, quando há uma condenação colegiada, o candidato deve ter a candidatura barrada, mesmo que o recurso contra a sentença esteja em instâncias superiores. O deputado recorreu da condenação sobre o superfaturamento de frangos ao Supremo Tribunal Federal (STF). Para o advogado de Maluf Eduardo Nobre, mesmo sob a Lei da Ficha Limpa, o TRE deveria aguardar o julgamento desses recursos para indeferir a candidatura.
Trânsito em julgado não chega nunca
Para o presidente do TRE, aguardar o julgamento do recurso seria um suicídio da Lei Ficha Limpa.
O trânsito em julgado não chega nunca neste país disse Almeida Guilherme, em seu voto.
Semana passada, ele teve entendimento contrário ao julgar o caso do deputado Uebe Rezeck.
A mudança de entendimento é normal entre os juízes. Pensando e repensando, votei em sentido contrário.
Juiz não é obrigado a manter sempre a mesma decisão.
O deputado já anunciou, por meio da assessoria de imprensa, que vai recorrer da decisão junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao STF. Enquanto isso, ele continua candidato.
Mesmo que seja eleito sem que o TSE tenha julgado seu recurso, Maluf poderá tomar posse na Câmara.
Mas, caso o TSE confirme a decisão do TRE, Maluf perderá o direito a foro privilegiado. Maluf responde a processos por improbidade, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e até formação de quadrilha. Seus processos criminais, que durante seu mandato foram enviados ao Supremo, voltariam para os tribunais comuns e ele seria julgado em São Paulo.
Logo depois do indeferimento, a assessoria do deputado enviou uma nota à imprensa: Paulo Maluf teve dois votos a favor, no julgamento do TRE, de dois eminentes juízes. A matéria, portanto, é controversa. Os advogados de Maluf vão recorrer ao TSE, conforme determina a lei. Paulo é candidato a deputado federal.
Dois juízes Galdino Toledo Júnior e Paulo Octávio Baptista Pereira concordaram com o argumento de Maluf, defendendo que seria necessário aguardar o julgamento dos recursos no STF.
Ao lado do presidente, Franklin critica mídia
Ao lado do presidente, Franklin critica mídia
FOLHA DE S. PAULO
Discurso foi feito em lançamento de TV
Discurso foi feito em lançamento de TV
DE SÃO PAULO - Em discurso ao lado do presidente Lula, o ministro Franklin Martins (Comunicação Social) criticou a imprensa e disse que os jornais e emissoras de TV vão perder o controle sobre as notícias levadas à opinião pública.
Eles participaram ontem do lançamento da TVT, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. A cerimônia reuniu cinco ministros em clima de campanha para a presidenciável Dilma Rousseff (PT), que não compareceu.
Franklin disse que o canal ajudará a internet a quebrar o poder dos "aquários", jargão que identifica a chefia das redações dos grandes veículos nacionais. "Isso é uma revolução e incomoda muita gente que ficava no Olimpo. Mas é irreversível, e está apenas começando".
O diretor do sindicato, Valter Sanches, disse ter planos ambiciosos para competir com as grandes redes: "Queremos fazer jornalismo investigativo de fato, sem atender interesses políticos".
O sindicato é filiado à CUT (Central Única dos Trabalhadores), ligada ao PT.
A TVT estreia com uma hora e meia de produção própria no canal 46 UHF na Grande SP, em outros dez Estados e na internet.
Em discurso lido, Lula disse que a emissora evita que os trabalhadores "continuem impedidos de exercer a liberdade de expressão". "O brasileiro sabe distinguir o que é informação e o que é distorção dos fatos", disse.
A 'mexicanização' em marcha
A 'mexicanização' em marcha
BOLÍVAR LAMOUNIER O Estado de S. Paulo - 24/08/10
O processo sucessório presidencial em curso comporta dois cenários marcadamente assimétricos, conforme o vencedor seja José Serra ou Dilma Rousseff. Se for José Serra, não é difícil prever a cerrada oposição que ele sofrerá por parte do PT e dos "movimentos sociais", entidades estudantis e sindicatos controlados por ele - e, provavelmente, do próprio Lula. Se for Dilma Rousseff - como as pesquisas estão indicando -, o cenário provável é a ausência, e não o excesso, de oposição.
Para bem entender esta hipótese convém levar em conta dois fatos adicionais.
Primeiro, o cenário Dilma não se esgota na figura da ex-ministra. Ele inclui, entre os elementos mais relevantes, o controle de ambas as Casas do Congresso Nacional pela dupla PT e PMDB. Inclui também uma entidade institucional inédita, personificada por Lula. Semelhante, neste aspecto, a um aiatolá, atuando de fora para dentro do governo, Lula tentará, como é óbvio, influenciar o conjunto do sistema político no sentido que lhe parecer conveniente ao governo de sua pupila ou a seus próprios interesses. Emitirá juízos positivos ou negativos, em graus variáveis de sutileza, sobre medidas tomadas pelo governo e regulará não só o comportamento da base governista no Congresso, mas também os movimentos de sístole e diástole da "sociedade civil organizada" - entendendo-se por tal os sindicatos, segmentos corporativos e demais organizações sensíveis à sua orientação.
O segundo fato a considerar é a extensão da derrota que Lula terá conseguido impor à oposição. Claro, a eventual derrota será também consequência das ambiguidades, das divisões e dos equívocos da própria oposição, mas o fator determinante será, evidentemente, a ação de Lula e do esquema de forças sob seu comando. Deixo de lado, por óbvio, as condições econômicas extremamente favoráveis, o Bolsa-Família, a popularidade do presidente, etc.
José Serra ficará sem mandato até 2012, pelo menos. No Senado - a menos que sobrevenha alguma reorganização das forças políticas -, Aécio Neves fará parte de uma pequena minoria parlamentar, situação em que ele dificilmente exercerá com desenvoltura as suas habilidades políticas.
Nos Estados, os governadores eventualmente eleitos pelo PSDB, sujeitos ao torniquete financeiro do governo federal, estarão igualmente vulneráveis ao rolo compressor governista. Longe de mim subestimar lideranças novas, como a de Beto Richa, no Paraná, e a de Geraldo Alckmin, em São Paulo. Mas não é por acaso que Lula já se apresta a batalha por São Paulo, indicando claramente a sua disposição de empregar todo o arsenal necessário a fim de reverter o favoritismo tucano neste Estado.
Resumo da ópera: no cenário Dilma, o conjunto de engrenagens que Lula montou ao longo dos últimos sete anos e meio entrará em pleno funcionamento, liquidando por certo período as chances de uma oposição eficaz. A prevalecer tal cenário, parece-me fora de dúvida que a democracia brasileira adentrará uma quadra histórica não isenta de riscos.
É oportuno lembrar que o esquema de poder ora dominante abriga setores não inteiramente devotados à democracia representativa, adeptos seja do populismo que grassa em países vizinhos, seja de uma nebulosa "democracia direta", que de direta não teria nada, pois seus atores seriam, evidentemente, movimentos radicais e organizações corporativas. Claro indício da presença de tais setores é a famigerada tese do "controle social da mídia", eufemismo para intervenção em empresas jornalísticas e imposição de censura prévia.
Na Primeira República (1889-1930), a "situação" - ou seja, os governantes e seus aliados nos planos federal e estadual - esmagava a oposição. Foram poucas e parciais as exceções a essa regra. Mas a estratégia levada a cabo por Lula está indo muito além. É abrangente, notavelmente sagaz e tem um objetivo bem definido: alvejar em cheio a oposição tucana. Para bem compreendê-la seria mister voltar ao primeiro mandato, ao discurso da "herança maldita", sem precedente em nossa História republicana no que se refere ao envenenamento da imagem do antecessor; à anistia, retoricamente construída, a diversos corruptos e até a indivíduos que se aprestavam a cometer um crime - os "aloprados"; e aos primórdios da estratégia especificamente eleitoral, ao chamado confronto plebiscitário, em nome do qual ele liquidou no nascedouro toda veleidade de autonomia por parte de quantos se dispusessem a concorrer paralelamente a Dilma Rousseff. A Ciro Gomes Lula não concedeu sequer a graça de uma "sublegenda", para evocar um termo do período militar.
Para o bem ou para o mal, a única oposição político-eleitoral potencialmente capaz de fazer frente ao rolo compressor lulista é a aliança PSDB-DEM-PPS. No horizonte de tempo em que estou pensando - digamos, os próximos quatro anos -, não há alternativa. Portanto, a operação a que estamos assistindo, com seu claro intento de esterilizar ou virtualmente aniquilar essa aliança, coloca-nos nas cercanias de um regime autoritário.
Sem a esterilização ou o aniquilamento político-eleitoral da mencionada coalizão, não há como cogitar de um projeto de poder hegemônico, de longo prazo e sem real alternância de poder. A esterilização pode resultar de uma estratégia deliberada por parte do comando político existente em dado momento, de uma conjunção de erros, derrotas e até fraquezas das próprias forças oposicionistas - ou de ambas as coisas.
Sociologicamente falando, não há funcionamento efetivo da democracia, quaisquer que sejam os arranjos constitucionais vigentes, num país onde não exista uma oposição eleitoralmente viável. Haverá, na melhor das hipóteses, um autoritarismo disfarçado, um "chavismo branco" ou, se preferem, um regime mexican style - aquele dominado durante seis décadas pelo PRI, o velho Partido Revolucionário Institucional mexicano.
Estou nascendo hoje na internet
Estou nascendo hoje na internet
ARNALDO JABOR - O GLOBO - 24/08/10
Afinal, quem sou eu? Descobri que há vários jabores dando sopa na web. Uma vez, disse aqui que jamais entraria nos Twitters da vida, nos Orkuts do pedaço, nos Facebooks da quebradas...
Claro que dá pra ficar fora dessas "redes sociais", mas sinto-me isolado como aqueles caras que se recusam a ver televisão para defender sua "individualidade". No entanto, que individualidade, que "eu" se manteria "puro" e protegido longe da TV ou fora da web hoje? Que "eu" sobraria? Não há um "eu" sozinho - esse sonho de pureza e originalidade acabou. O "eu" é feito de detritos de lembranças, de sonhos, de traumas, mas também é fabricado pelas coisas. A pílula fez mais pelo feminismo que mil livros de militância. A internet criou um "eu" que muda dia a dia como uma máquina que vai se modernizando, recebendo novas engrenagens. Em vez de aniversários, em breve, vamos comemorar aperfeiçoamentos: "Estou comemorando mais 8 gigabytes em minha alma!"
Aliás, acho bom que a internet acabe com as ilusões individualistas que sempre tivemos - de sermos puros e únicos. A verdade é que somos parte de um processo de mutação permanente, e não por "auto-análise", mas pelos avanços da tecnociência. Assim como a biotecnologia cria seres híbridos, somos cada vez mais híbridos... Somos de carne, osso, chips e tocados por milhões de "outros eus" em rede. Rimbaud escreveu: " O eu é um outro". E o grande Mario de Sá-Carneiro, poeta português melhor do que os uivos lamentosos de Fernando Pessoa, também escreveu:
Aliás, acho bom que a internet acabe com as ilusões individualistas que sempre tivemos - de sermos puros e únicos. A verdade é que somos parte de um processo de mutação permanente, e não por "auto-análise", mas pelos avanços da tecnociência. Assim como a biotecnologia cria seres híbridos, somos cada vez mais híbridos... Somos de carne, osso, chips e tocados por milhões de "outros eus" em rede. Rimbaud escreveu: " O eu é um outro". E o grande Mario de Sá-Carneiro, poeta português melhor do que os uivos lamentosos de Fernando Pessoa, também escreveu:
"Eu não sou eu nem o outro/ sou qualquer coisa de intermédio/ pilar da ponte de tédio/ que vai de mim para o outro." Sujeito e objeto se confundem cada vez mais. Além disso, eu também achava que a cultura humana era uma galáxia infinita de pensamentos e obras. O Google acabou com esse sonho infinito. Tudo se arquiva, se ordena. O futuro, como um lugar a que chegaríamos um dia, também morreu. Só há um presente incessante, um futuro minuto a minuto, e não temos ideia de aonde chegaremos porque não há aonde chegar...
Bem, amigos, todo este "showzinho" de reflexões individualistas é, na verdade, para comunicar que estou entrando no Twitter. Resolvi. "Não quero mais ser eterno, quero ser moderno". Eu, que até pouco tempo só ia até o microondas (que sempre me puniu com apitinhos da porta aberta), eu, que tremo diante de um celular, mudei muito. Saibam que comprei um iPhone e que vou postar coisas no Twitter, que se chamará "realjabor".
O nome será esse porque já existe no Twitter um cara que usa meu nome... Existe um "jabor" imaginário com, pasmem, 121 mil seguidores... Não o digo por gabar-me, mas há um jabor com milhares de amigos que não conheço. E aí, me pergunto: quem sou eu? E esse cara no Twitter - com 121 mil seguidores enganados - por que botou meu nome? Não é por inveja nem tietagem... Ele parece ser um bom sujeito pelas coisas que fala por mim; não há insultos nem frases que possam me incriminar com meus "seguidores"... (Se bem que ele "posta" também bobagens apócrifas que rolam na web, que me matam de vergonha). E ele? Quem será? Será que ele ama alguém? Quem lhe mandará flores se ele morrer de amores? Por que time ele torce? Como é seu rosto?
Vejam meu drama: eu, que não existo, acho boa praça um cara que não sei quem é... Por que ele não se assume? Eu estava nesta dúvida, quando se fez a luz e entendi: tanto faz ele ser ele ou ser eu. Esta terceira pessoa, meio eu, meio ele, existe no espaço virtual, e, assim, não importa o nome, pois, como disse acima, sujeito e objeto se confundem. Ser eu ou ele é um detalhe desprezível.
Bem, amigos, todo este "showzinho" de reflexões individualistas é, na verdade, para comunicar que estou entrando no Twitter. Resolvi. "Não quero mais ser eterno, quero ser moderno". Eu, que até pouco tempo só ia até o microondas (que sempre me puniu com apitinhos da porta aberta), eu, que tremo diante de um celular, mudei muito. Saibam que comprei um iPhone e que vou postar coisas no Twitter, que se chamará "realjabor".
O nome será esse porque já existe no Twitter um cara que usa meu nome... Existe um "jabor" imaginário com, pasmem, 121 mil seguidores... Não o digo por gabar-me, mas há um jabor com milhares de amigos que não conheço. E aí, me pergunto: quem sou eu? E esse cara no Twitter - com 121 mil seguidores enganados - por que botou meu nome? Não é por inveja nem tietagem... Ele parece ser um bom sujeito pelas coisas que fala por mim; não há insultos nem frases que possam me incriminar com meus "seguidores"... (Se bem que ele "posta" também bobagens apócrifas que rolam na web, que me matam de vergonha). E ele? Quem será? Será que ele ama alguém? Quem lhe mandará flores se ele morrer de amores? Por que time ele torce? Como é seu rosto?
Vejam meu drama: eu, que não existo, acho boa praça um cara que não sei quem é... Por que ele não se assume? Eu estava nesta dúvida, quando se fez a luz e entendi: tanto faz ele ser ele ou ser eu. Esta terceira pessoa, meio eu, meio ele, existe no espaço virtual, e, assim, não importa o nome, pois, como disse acima, sujeito e objeto se confundem. Ser eu ou ele é um detalhe desprezível.
Aliás, suponho que esses milhares de seguidores sejam ao menos meus amigos... E aí, me ocorre a pergunta: o que é um amigo hoje? Como posso ser amigo de pessoas que nunca vi? Antes, amigos tomavam chope com a gente, davam conselhos, faziam confidências: "Pô, cara, minha mulher me traiu... Que que eu faço?" Era assim. Hoje, os amigos você não vê, não toca; os amigos são algoritmos.
As redes sociais estão mudando o conceito de amizade, de amor... A pior forma de solidão talvez seja o sexo virtual, a masturbação a longa distância... Nada mais triste que o post-coitum na internet: gozos, escape e "log off", com os orgasmos se esvaindo na velocidade da luz e a realidade manchando o papel higiênico e as mãos pecadoras.
Assim, aprendemos que temos de celebrar as parcialidades; só o fortuito é gozoso. Temos de parar de sofrer por uma plenitude que não chega nunca.
Assim, aprendemos que temos de celebrar as parcialidades; só o fortuito é gozoso. Temos de parar de sofrer por uma plenitude que não chega nunca.
Aceitar a "incompletude" talvez seja a nova forma de felicidade. E isso é bom. A web nos mostra que, enquanto sonharmos com a plenitude, seremos infelizes. Nunca seremos acompanhados nem totalmente amados. As redes nos trazem uma desilusão fecunda. As redes sociais unem os homens em uma grande solidão.
Outra coisa que me intriga: dizer o quê nos tweets? O que é importante? Antigamente, se dizia: este filme é importante, este texto é importante... Mas, hoje, para quê? As revoluções clássicas já não existem, a ideia de reunir objetos para um museu do futuro já era. Não há mais algo a ser preservado para amanhã. A importância do futuro foi substituída pelas "conexões" no presente.
Outra coisa que me intriga: dizer o quê nos tweets? O que é importante? Antigamente, se dizia: este filme é importante, este texto é importante... Mas, hoje, para quê? As revoluções clássicas já não existem, a ideia de reunir objetos para um museu do futuro já era. Não há mais algo a ser preservado para amanhã. A importância do futuro foi substituída pelas "conexões" no presente.
A própria ideia de "profundidade" ficou estranha... O que é profundo? Hegel ou o frisson de informar a 121 mil pessoas que acordei com dor de cabeça ou que detestei "A Origem"? As irrelevâncias em rede ganham uma densidade horizontal, uma superficialidade útil, ao invés de uma grandeza definitiva. Quantidade é qualidade, hoje.
Mas é óbvio que há uma grande vitória para a democracia nas redes sociais. Há pouco, o massacre de dissidentes no Irã escapou pela internet. As redes denunciam crimes, alavancam negócios, expandem a educação política.
Mas é óbvio que há uma grande vitória para a democracia nas redes sociais. Há pouco, o massacre de dissidentes no Irã escapou pela internet. As redes denunciam crimes, alavancam negócios, expandem a educação política.
Por isso, resolvi nascer. Estou nascendo hoje na web. Meus primeiro gemidos de recém-nascido começam hoje.
Chamo-me agora www.twitter.com/realjabor e vou competir com o outro jabor, o falso, que me criou sem me consultar.
Chamo-me agora www.twitter.com/realjabor e vou competir com o outro jabor, o falso, que me criou sem me consultar.
Vaidade- Florbela Espanca
Vaidade
Sonho que sou a poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade !
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo ! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade !
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !
Sonho que sou alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada !
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...
Florbela Espanca
Retrato de um país que pode parar
Retrato de um país que pode parar
O tão falado apagão logístico virou realidade e gargalos na infraestrutura põem em risco a competitividade do País
Renée Pereira - O Estado de S.Paulo
No início deste mês, a fila de navios à espera de autorização para atracar no Porto de Santos, maior da América Latina, bateu novo recorde: o congestionamento chegou a 119 navios parados, enquanto em dias normais esse número não passa de 10. No transporte aéreo, o Aeroporto de Guarulhos, o maior do Brasil, teve de fazer mutirão para liberar cargas que estavam ao relento por falta de áreas para armazenagem. Cenas como essas revelam que o alerta feito por inúmeros especialistas, vistos pelo governo como catastróficas, não era mero achismo. O apagão logístico virou realidade no Brasil e será um dos maiores desafios para o próximo governo.
No ano passado, por causa da crise financeira mundial, os gargalos foram amenizados. Mas bastou o País reagir e crescer acima da média para os problemas voltarem com força. Na área de transporte, falta tudo. As estradas continuam em péssima qualidade, especialmente as que atendem o agronegócio, concentrado no Centro-Oeste. O mais lógico seria escoar a safra pelos portos da Região Norte. Mas grande parte dos grãos exportados sai pelos portos do Sul e do Sudeste, depois de percorrer milhares de quilômetros de estradas.
O caminho para atingir os terminais do Norte é precário, cheio de obstáculos, como é o caso da BR-163, que liga Cuiabá a Santarém. Mas, hoje, mesmo que houvesse rodovias adequadas para escoar a produção pelo Norte, os portos da região não têm capacidade para atender toda a demanda, afirma o diretor-geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais, Sérgio Teixeira Mendes. O resultado é que quase toda a safra vai para Santos e Paranaguá.
Apesar dos investimentos em andamento, os dois portos vivem em constante colapso. Nas últimas semanas, Santos virou um estacionamento de navios que não conseguiam atracar. Mais uma vez a culpa é de São Pedro e do aumento das exportações de açúcar. O porto não tem infraestrutura para embarcar o produto quando chove. Resultado: tudo para.
A degradação da infraestrutura do Brasil não se limita à parte logística. Um dos setores mais atrasados é o de saneamento básico. O País ainda registra números alarmantes de excluídos dos serviços públicos, considerados essenciais para o bem-estar da população. Apesar dos programas de universalização criados pelo governo, milhares de brasileiros ainda não sabem o que é ter luz e água - seja tratada ou não - dentro de casa. Telefone e coleta de esgoto são serviços que nem passam pela cabeça de muitas famílias.
O setor de energia, depois do racionamento de 2001, parece estar entrando nos eixos. Mas a tarifa cobrada do consumidor ainda é uma das maiores do mundo, alerta o diretor da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Carlos Cavalcanti.
1-PORTOS
Responsáveis por 95% do comércio exterior brasileiro, os portos viraram o grande entrave ao crescimento do País. Todo ano a história se repete: basta começar a safra de grãos para os problemas virem à tona, como as gigantescas filas de caminhões nas rodovias e de navios no mar. A situação é decorrente dos longos anos sem investimentos, que condenaram alguns terminais à estagnação e decadência.
Algumas ações tentam recuperar a capacidade dos portos, como o Programa Nacional de Dragagem (PND), mas o resultado ainda é limitado. O objetivo é atacar uma das principais deficiências dos terminais: a baixa profundidade dos canais para receber grandes embarcações. Com as novas gerações de navios, muitos portos já saíram da rota dos armadores.
O resultado foi a maior concentração de escalas no Sul e Sudeste, onde o sistema portuário já está saturado. Em Santos e Paranaguá, os maiores do País, os acessos terrestres são o maior obstáculo. Mas há também carência na infraestrutura de alguns terminais, que não conseguem operar em períodos de chuva, por exemplo.
Apesar de algumas iniciativas, a velocidade de investimentos não tem sido compatível com a demanda. A solução do problema exige atuação mais firme.
2- FERROVIAS
O renascimento da ferrovia no Brasil está diretamente ligado ao avanço do agronegócio e do setor mineral. Seu alcance, no entanto, ainda é muito limitado. A malha nacional tem apenas 28 mil quilômetros (km) de extensão e ainda não consegue atender áreas que se transformaram em grande produtoras de grãos, como Mato Grosso.
Mas a ferrovia brasileira não é apenas pequena. Ela também é muito mal aproveitada. Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), apenas 10% das ferrovias (3 mil km) estão plenamente ocupadas. Outros 7 mil km estão sendo usados abaixo da capacidade e 18 mil km são subutilizados.
Além de pequena, ela atinge poucos setores da economia. Até o ano passado, apenas dez produtos, quase todos granéis para exportação, somavam 91% de tudo que era transportado. Só o carregamento de minério de ferro representou 74,37% da movimentação das ferrovias.
Para completar a lista de problemas, alguns gargalos reduzem a eficiência do transporte, pois diminuem a velocidade do trem. Um deles é a invasão da faixa de domínio, como a construção de casas à beira dos trilhos. No total, são 372 pontos, sendo 183 invasões de moradias. Outro problema são as passagens de nível (cruzamento de carros, por exemplo), que somam 12 mil em todo o País.
3- RODOVIAS
A matriz brasileira de transporte é quase toda baseada em rodovias. Hoje 60% de toda carga movimentada no País é transportada por caminhões. Teoricamente, isso implicaria ter uma malha rodoviária boa para atender à demanda, cada vez mais crescente. Mas essa não é uma realidade no Brasil, que tem apenas 11% da malha nacional pavimentada.
Hoje há estradas de terra batida que fazem parte de importantes corredores de exportação. É o caso, por exemplo, da BR-163, entre Cuiabá e Santarém. Embora pareça mais uma trilha, a rodovia é caminho para o transporte de soja exportada pelos portos do Norte. Parte da estrada está em obras. A previsão para o término é 2012.
Até o ano passado, 69% das estradas pavimentadas no Brasil eram classificadas como ruins, péssimas ou regulares, segundo a Pesquisa Rodoviária 2009, da Confederação Nacional dos Transportes (CNT). Apenas 13,5% das estradas foram considerados ótimos e 17,5%, bons.
De acordo com o estudo, a má qualidade das estradas provoca aumento médio de 28% no custo do transporte rodoviário de carga. Só em relação ao consumo de combustível, o aumento do custo de transporte pode chegar a 5%, comparado aos veículos que trafegam em rodovias com excelente pavimentação, como as de São Paulo.
4 - AEROPORTOS
O setor aéreo foi o último a integrar a lista de gargalos da infraestrutura nacional. No caso do transporte de passageiros, o aumento da demanda evidenciou a falta de planejamento do setor, que a exemplo das outras áreas da infraestrutura também padeceu durante décadas sem investimentos adequados.
Nos últimos anos, viajar de avião virou um teste de paciência para os passageiros, que nunca sabem se chegarão ao seu destino na data prevista. Se nada for feito com urgência, a tendência é piorar ainda mais. De acordo com estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o transporte aéreo de passageiros no Brasil deve triplicar nos próximos 20 anos.
No setor de carga, a situação não é muito diferente. Com o aumento no volume de importações (superior a 40%), os terminais entraram em colapso. Os problemas são iguais aos dos portos: faltam áreas de armazenagem, instalações (câmaras refrigeradas) para produtos especiais e mão de obra suficiente para liberar as mercadorias dentro de padrões internacionais.
Sem áreas suficientes, as cargas são armazenadas ao relento, no pátio, ao lado dos aviões. Ao ficarem expostas ao sol ou à chuva, muitas mercadorias são danificadas, o que complica ainda mais o processo de retirada do produto da área alfandegária.
Em alguns casos, os terminais demoram mais para liberar a mercadoria do que o tempo que ela gastou para sair do país de origem e chegar ao Brasil. O problema também tem afetado o embarque de produtos exportados.
5- ENERGIA
Depois de passar pelo racionamento de 2001, o setor de energia elétrica conseguiu criar uma cultura de planejamento. Pelo menos na área de geração de energia elétrica. Todos os anos, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estatal responsável pelos estudos de novos empreendimentos, põe à disposição projetos para serem leiloados e construídos. O lado negativo é que quando não há projetos hidrelétricos para serem concedidos, a estatal recorre às térmicas movidas a óleo diesel e óleo combustível, mais caras e poluentes. De qualquer forma, o governo tem conseguido afastar o risco de racionamento.
Mas, se na geração os riscos estão mais controlados, a distribuição tem revelado sinais de saturação. No fim do ano passado e início deste ano, os brasileiros enfrentaram uma série de blecautes localizados, além do apagão de novembro, que atingiu 18 Estados. Os desligamentos provocaram a piora na qualidade da energia entregue aos brasileiros.
Em 2009, pela primeira vez desde a privatização, os indicadores superaram as metas estabelecidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), de 17,9 horas. Na avaliação de especialistas, uma das explicações é a falta de manutenção da rede. Outro problema que atormenta os brasileiros é o preço da conta de luz, uma das mais altas do mundo por causa da elevada carga tributária.
6-saneamento
Durante muitos anos, o atraso do Brasil no setor de saneamento básico foi atribuído à falta de um marco regulatório adequado para atrair a iniciativa privada. As novas regras vieram em 2006, depois de 20 anos de atraso, mas até hoje os investimentos não deslancharam. Nos últimos anos, o governo federal reforçou o orçamento para a área por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
O problema, que antes era dinheiro, passou a ser a falta de projetos. Para conseguir o capital, as prefeituras precisavam apresentar o projeto das obras, mas boa parte não conseguiu cumprir o requisito. Resultado: uma parcela significativa da população continua sem os serviços básicos de saneamento.
Um exemplo disso é a capital de Rondônia, Porto Velho. Quase toda a cidade não tem esgoto tratado nem água potável. As obras apenas começaram a sair do papel por causa das hidrelétricas do Rio Madeira, Santo Antônio e Jirau, que tornaram a região mais visível no cenário nacional.
De acordo com os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes a 2008, apenas 52,5% da população brasileira é atendida por rede de esgoto. No caso do abastecimento de água, o número é melhor: 82% da população tem água em suas moradias.
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