sábado, setembro 18, 2010

Sistema em falência

Sistema em falência
Claudio Weber Abramo - FOLHA DE S. PAULO
Alta política não existe mais; quase se pode dizer que isso de democracia representativa não funciona no Brasil
O mundo político brasileiro, colocado em natural foco nos dias que correm por causa da época eleitoral, mostra-se, como de hábito, em cores deprimentes.Fora os políticos profissionais, é impossível encontrar alguém que afirme que esse mundo valha um tostão furado.
Não apenas é repleto de aventureiros e aproveitadores, como não diz a que vem e os eleitores não ligam a mínima.
Qual seria, exatamente, o motivo para se depositar um voto por algum candidato ao Legislativo? Todas as pesquisas de boca de urna feitas no Brasil mostram que o eleitor médio nem sequer se lembra em quem votou dois minutos após ter votado.
Mais do que apontar para uma característica do eleitor brasileiro, isso exibe o divórcio existente entre partidos políticos e a sociedade.
O que os partidos dominantes representam são os grupos que os controlam.
Durante muitos anos o PT foi excetuado desse rol, mas mesmo este parece mostrar-se cada vez menos representativo de alguma ideia que faça algum sentido. A única ideia que faz sentido no PT atual é a associação com a figura do presidente da República.
Uma vez eleitos, os representantes desses partidos passarão a integrar Casas legislativas e renunciarão a qualquer veleidade de atuação política de verdade porque terão sido comprados (via distribuição de cargos, promovendo o loteamento da administração) pelos respectivos chefes de Executivo.
A cooptação pelo Executivo, garantida pela Constituição "cidadã", faz com que os parlamentos brasileiros descumpram todos os papéis que o modelo abstrato da democracia representativa lhes reserva: não fiscalizam o Executivo e não legislam.
Uma vez que apenas representam os interesses privados do grupo de seus caciques (em alguns casos, constituindo quadrilhas na acepção completa do termo), grande número de seus integrantes dedica-se a pilhagens e achaques diversos, tudo sob o olhar complacente do governante, seja ele federal, estadual ou municipal.
Como as eleições legislativas brasileiras são essencialmente distritais (candidatos recebem votos em circunscrições muito reduzidas), sem dúvida certo número de representantes é eleito por motivos de baixa política.
Alta política não existe mais.
Mesmo que seja irrealista imaginar que todo político eleito devesse emular Afonso Arinos, o extremo a que chegamos é excessivo.
Trata-se de um quadro institucional que entrou em evidente falência.
Quase se pode dizer que isso de democracia representativa não funciona no Brasil.
Um Judiciário inoperante e um Ministério Público que tudo faz para esconder dados que pudessem iluminar sua eficiência (ou falta dela) completam um quadro de disfuncionalidade que abrange todo o Estado.
Claudio Weber Abramo é diretor-executivo da Transparência Brasil

Leandro, no Diário de Guarulhos


Apenas cálculo eleitoral

Apenas cálculo eleitoral
EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO - 18/09/10
No encontro que tiveram domingo à noite para tratar da revelação de uma pesada operação de traficância na Casa Civil do Planalto, o presidente Lula poderia ter determinado à ainda ministra Erenice Guerra que se licenciasse até o esclarecimento cabal da denúncia que a envolvia por tabela e, diretamente, um de seus filhos, Israel. Por muito menos, afinal, o presidente Itamar Franco afastou o ocupante do mesmo cargo no seu governo, Henrique Hargreaves - para readmiti-lo quando as acusações contra ele não foram comprovadas.
Mas Lula não parece aprender com o exemplo alheio nem com a própria experiência. Com o exemplo, no caso, porque a sua visão da ética pública não é a de princípios, mas a de resultados. E com a experiência porque, ao fim e ao cabo, não precisou pagar o preço devido, fossem outras as circunstâncias e, quem sabe, outro fosse o país, pela relutância em se privar do ministro José Dirceu, também da Casa Civil e pivô do mensalão, e do seu colega da Fazenda, Antonio Palocci, no escândalo da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo.
Erenice Guerra saiu daquela reunião com a cabeça no pescoço não porque o chefe, como diria, se acha "obrigado a acreditar" no que as pessoas lhe falam, e Erenice jurou-lhe por tudo o que é sagrado que era inocente. Mas porque ele avaliou que a reportagem incriminadora da revista Veja não teria o potencial de respingar na candidata Dilma Rousseff - que está para Erenice como Lula está para ela, criadores e criaturas - da mesma forma que não respingaram, a julgar pelas pesquisas, as violações em série do sigilo fiscal de parentes e aliados do opositor José Serra.
Por isso, o que o lulismo se ocupou em fazer nos dias seguintes foi desqualificar o noticiário sobre as movimentações da espaçosa família Guerra pelas pradarias do poder. Nesse exercício de mistificação e cumplicidade, Dilma levou a palma, ao afirmar que tudo se resumia a um "factoide". Sintomaticamente, a soberba de Lula, a certeza de que o seu prestígio garantiria a incolumidade da candidata, desarmou a sua apuradíssima intuição. Ele decidiu manter Erenice no lugar enquanto não surgisse um fato novo que agravasse a crise, mesmo depois de a ministra ter ido além das tamancas ao culpar um "candidato aético e já derrotado" por suas atribulações.
O fato novo não tardou a surgir. Na quinta-feira, a Folha de S.Paulo publicou declarações de um agenciador de negócios, segundo as quais Israel e a sua patota, em troca da obtenção de recursos do BNDES para um bilionário projeto de energia solar, queriam receber R$ 240 mil para acelerar a tramitação do pedido, 5% sobre o valor do financiamento, quando saísse - e, de quebra, um ajutório de R$ 5 milhões para a campanha de Dilma. Decerto achando a conta salgada demais, a firma interessada se recusou a pagar. Por sua vez, o seu agente disparou e-mails para a Casa Civil reclamando das cobranças e fazendo ameaças. Passados mais de 7 meses, falou.
Com incomum rapidez, Lula mandou Erenice se demitir. A segunda denúncia, semelhante à anterior, teria enfim convencido o presidente da responsabilidade da ministra. "Quando a gente está na máquina pública, não tem o direito de errar", proclamou. "E se errar, a gente tem de pagar." Conversa. O que o fez defenestrar Erenice - a quem havia nomeado por insistência de Dilma, quando ela se desincompatibilizou - foi o temor manifestado pela campanha petista, com base em pesquisas, de que desta vez a candidata corria o risco de ser atingida pelos estilhaços das malfeitorias do círculo da amiga em quem apregoava confiar.
A demissão de Erenice não elimina a hipótese. Os episódios expostos aconteceram quando Dilma era ministra e Erenice a sua mais íntima colaboradora. É implausível que ela não lhe tivesse contado nem uma versão sanitizada dessas histórias. Plausível, isso sim, é que Dilma não quisesse saber mais. Como Lula não quis saber detalhes do mensalão para o qual foi alertado duas vezes. A ignorância assumida é um ato de vontade política. Eles olham para o outro lado para não fitar o ambiente propício à corrupção que semearam no Planalto como parte de um projeto de poder.

Impacto imprevisível

Impacto imprevisível
FERNANDO RODRIGUES – Folha de São Paulo
BRASíLIA - Se após o "Receitagate" era fácil prever um impacto eleitoral de tamanho microscópico, agora no "Erenicegate" a análise não é tão simples assim.
Sigilo fiscal violado poucos brasileiros sabem do que se trata. Uma ministra e sua grande família acusados de traficar influência dentro do governo formam uma imagem mais fácil de ser desenhada na cabeça de qualquer um. A dúvida é: existe uma parcela dos eleitores disposta a relacionar a queda de Erenice Guerra da Casa Civil à sua antecessora na cadeira, a candidata petista Dilma Rousseff?
Ninguém tem resposta científica para essa pergunta. O senso comum compele a considerar dados objetivos disponíveis. A lógica das pesquisas e a conjuntura indicam haver uma probabilidade maior de a disputa presidencial ser concluída no primeiro turno, em 3 de outubro, a favor Dilma Rousseff.
Além disso, todos lembram que o cenário hoje é muito mais favorável ao governo do que foi 2006.
Mas, nesta mesma época, há quatro anos, Lula liderava no Datafolha com 50%, contra 29% de Geraldo Alckmin (PSDB) e 9% de Heloísa Helena (PSOL). São percentuais similares aos de Dilma (com 51%), do tucano José Serra (27%) e da verde Marina Silva (11%).
Como se sabe, em 2006, o caso dos "aloprados" eclodiu em 15 de setembro (o "Erenicegate" surge agora, neste mesmo período). Há quatro anos, quando foram tabulados os votos, Lula teve 48,6% dos votos. Faltou 1,4 ponto percentual para ganhar no primeiro turno -a vitória veio em seguida, com votação acachapante (60,8%).
Não há indicações de repetição exata da história neste ano. O escândalo atual tem menos octanagem que aquela foto do dinheiro dos aloprados. A economia está bombando e Lula é o presidente de maior popularidade da história do país. Ainda assim, registradas todas as ressalvas, nunca é demais lembrar: Dilma não é Lula.

Roberta Sá, "Belo estranho dia de amanhã"

J. Bosco para O Liberal


Marido de Erenice negociou com a Defesa

Marido de Erenice negociou com a Defesa
O Globo
José Roberto tentou conseguir no ministério contrato com uma empresa de telefonia
 BRASÍLIA. Além de obter um contrato de trabalho na Eletronorte quando a mulher, Erenice Guerra, era conselheira da estatal, o engenheiro elétrico José Roberto Camargo Campos tentou fechar um contrato com o Ministério da Defesa para uma empresa de telefonia. Em 2004, ele fez gestões para implantar o serviço móvel da Unicel Telecomunicações do Brasil na Defesa, à época comandada pelo ministro José Viegas Filho, conforme reportagem publicada pelo jornal “Correio Braziliense”.
O marido de Erenice trabalhou para a empresa telefônica, que opera no interior de São Paulo. O ministério confirma que a empresa tinha interesse no negócio e chegou até a apresentar um projeto, mas informa que a transação não foi adiante. À época, por ordem de Viegas, um grupo de trabalho avaliou os testes na tecnologia, mas, segundo a Defesa, eles “não prosperaram”.
A Unicel nega que o marido de Erenice tenha intermediado a negociação. Em nota, explicou ontem que ele não estava em seus quadros em 2004 e, quando contratado, teve apenas funções técnicas.
Na telefônica, ele teria sido o responsável por implantar a rede móvel de celular em São Paulo, de 2008 a 2009. A empresa informou que outras pessoas fizeram contato com o ministério.
“Nunca houve negócios (serviços remunerados de qualquer espécie) em discussão com Ministério da Defesa, mas sim testes com soluções tecnológicas inovadoras”, diz a empresa no comunicado, acrescentando que o serviço não teria custo para o ministério e que ainda não obteve a licença comercial da tecnologia na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Procurado ontem, José Roberto Campos desligou o telefone assim que o repórter do GLOBO se identificou.
Atualmente, ele é sócio de Ércio Muniz Lima, gerente da Eletronorte, na Matra Mineração, empresa que faz pesquisas no entorno do Distrito Federal com autorização do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).

Blindando Dilma

Blindando Dilma
Merval Pereira - O Globo
 O Palácio do Planalto está agindo rapidamente para se livrar de todos os traços do esquema de tráfico de influência que a ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra implantou no principal gabinete do Palácio do Planalto, ao lado do do presidente da República.
Desta vez o presidente Lula pode até mesmo dizer, como costuma, que de nada sabia, já que sua ligação com Erenice era apenas administrativa.
Se tivesse colocado, como queria, Miriam Belchior no lugar de Dilma, teria sido uma indicação pessoal baseada numa relação histórica de luta partidária com o próprio presidente.
Miriam seria uma personagem na política palaciana menos importante do que foi José Dirceu, mas, assim como é difícil imaginar que Dirceu montou o esquema do mensalão sem que Lula fizesse a menor ideia do que estava acontecendo, ficaria também difícil a ele se dissociar das ações de Miriam Belchior, viúva do ex-prefeito assassinado Celso Daniel, a quem Lula reservara papel de destaque no seu primeiro mandato.
Os erros de Erenice, amplamente divulgados e comprovados a cada dia, têm apenas uma ligação política possível, e é com Dilma Rousseff.
Já escrevi aqui que a relação de Dilma com Erenice é a mesma de Lula com Dilma: criador e criatura.
 A família de Erenice não atuaria com tamanha desenvoltura em diversas áreas do governo se não tivesse a certeza de que estava segura por laços políticos e, sobretudo, de amizade.
Fica difícil acreditar que, tendo feito tudo o que está relatado nos últimos dias quando era o braço-direito de Dilma na Casa Civil, Erenice Guerra não deixou rastros de sua movimentação e nem dava à sua chefe imediata e amiga informações sobre o que estava fazendo.
Quanto às alegações de que o consultor Rubnei Quícoli, por sua ficha corrida nada exemplar, não teria credibilidade para sustentar as denúncias, é bom lembrar que em todos os casos, em que surgiram os escândalos dos últimos anos, foram justamente pessoas envolvidas nas negociatas que denunciaram seus “cúmplices”.
Pedro Collor não se entendeu com o irmão presidente sobre a partilha do butim e denunciou Fernando Collor. Roberto Jefferson sentiu-se traído em seu esquema montado nos Correios e abriu o bico, denunciando o mensalão.
Quando o empresário e consultor Rubnei Quícoli diz que parte da propina que lhe pediram seria alegadamente para financiar a campanha da ministra Dilma Rousseff à Presidência da República, surge um indício de uso de caixa dois na campanha eleitoral que precisa ser investigado e esclarecido.
Ainda mais porque as demais denúncias feitas acabaram mostrando-se verdadeiras, provocando a saída não apenas da ministra como de vários parentes seus de diversos cargos espalhados pela República.
Ontem, mais um servidor do Palácio do Planalto foi demitido rapidamente. O consultor Rubnei Quícoli apontara em entrevista um tal de Stevan, que descreveu assim: “Ele é um avião, tem uma porta aberta na Casa Civil e outra no BNDES.” Em meio às negociações para aprovação de projeto de energia solar no Nordeste — avaliado em R$ 9 bilhões, que não saiu do papel — surgiu Stevan, que seria a ligação do governo com a Capital Consultoria.
Pois não é que existe mesmo o tal de Stevan? Seu sobrenome é Knezevic, e ele trabalhava no Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), órgão subordinado à Casa Civil.
Ele regressou ao seu órgão de origem, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que, digase de passagem, está transformada em um enorme cabide de empregos para os apaniguados do governo, assim como os Correios, a Receita Federal e outras estatais.
O “aparelhamento” do Estado, que tem um caráter político de controle das atividades por membros dos part i d o s e s i n d i c a t o s q u e apoiam o governo, tem também, ou sobretudo, o seu lado mercantilista.
Vários parentes de Erenice passaram por lá, inclusive o filho Israel Guerra. Não é difícil imaginar que os dois, Stevan e Israel, conheceram-se na Anac e de lá partiram para as ações de lobby no Palácio do Planalto.
Há outro detalhe interessante no episódio da demissão da ministra Erenice Guerra: ao obrigá-la a sair do Gabinete Civil, o presidente Lula está retirando, pelo menos simbolicamente, seu aval às decisões da candidata Dilma Rousseff.
Se, eleita presidente, Dilma pretendia colocar Erenice no Gabinete Civil, contra a vontade de Lula, que quer naquele lugar o ex-ministro Antônio Palocci, que outras escolhas Dilma fará? Sua capacidade de nomear os principais assessores sai do episódio bastante arranhada, além do que persiste uma estranha sensação de que seu eventual futuro governo, pois a eleição para o Palácio do Planalto e seu entorno é tida como uma fatura já liquidada, começou em clima de crise.
O que a família Guerra não poderia fazer num governo da “madrinha” Dilma?
É impressionante como pessoas de bem aceitam participar de um órgão que não tem a menor influência nas decisões do governo.
Presidida pelo ex-ministro do Supremo Tribunal Federal José Paulo Sepúlveda Pertence, a Comissão de Ética Pública decidiu, em meio à crise gerada pela demissão da ministra Erenice Guerra, puni-la com uma advertência porque ela não apresentou documentos com informações sobre a sua evolução patrimonial e relação de parentes ocupando cargos públicos.
Uma punição que deveria ter sido dada em maio, quando expirou o último prazo. E poderia ter evitado que tantos parentes da ministra se espalhassem pelo governo.
A Comissão já havia sofrido uma grande derrota em 2007, quando tentou fazer com que o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, deixasse de acumular o ministério com a presidência do PDT.
A queda de braço levou a que a comissão sugerisse a demissão do ministro, e a solução foi encontrada meses depois: Lupi fingiu que se licenciou da presidência, e a Comissão fingiu que havia vencido a disputa.

Starry Sky, Washington

Fotografia por Rhys Logan

O dia em que suspendemos nosso julgamento

O dia em que suspendemos nosso julgamento
Bernardo Sorj – Site Amai-vos
Rosh Hashana é a experiência coletiva da passagem do tempo e Yom Kippur é o dia que procuramos entender o que esta passagem significa para cada um.
Rosh Hashana é sobre o destino, pois o tempo não para, enquanto Yom Kippur é sobre a liberdade, a possibilidade de exercermos a nossa capacidade de julgar, e de não julgar.
A passagem do tempo, apesar do que ele nos traz de perdas e sofrimento, nos abre a possibilidade de aprender coisas novas e expandir nossos sentimentos, essencial para suportar nossas limitações e criar um mundo melhor para nós mesmos e para os outros.
Somos privilegiados por vivermos uma situação  sem penúria materiais que nos possibilita múltiplas formas de enriquecer nossa percepção do universo: viajando, lendo, amando, comendo coisas gostosas, conhecendo pessoas, ouvindo musica ou olhando uma obra de arte.
Mas todas elas são extremamente limitadas se permanecemos fechados dentro de marcos estreitos de julgamento de nós mesmos e dos outros.
Pois quem julga de forma estreita mal enxerga a si mesmo, pensa que possui a verdade e exclui a possibilidade de outras formas de percepção da realidade.
Na tradição talmúdica o Yom Kippur é o dia em que Deus julga as pessoas, mas para judeus humanistas,  como diz o significado da palavra Kippur, é um dia de reparação e reconciliação.
Reparação e reconciliação somente são possíveis se deixamos de julgar.
Yom Kippur é, portanto,  o dia em que suspendemos nosso julgamento.
Pois nada é mais opressivo do que depender do julgamento do outro.
E nada nos produz mais sofrimento que o julgamento sobre nós mesmos.
Julgar sem antes compreender é a forma mais grave de ignorância, pois, ao ignorar o outro, ficamos fechados no nosso pequeno mundo.
Julgar sem antes refletir é medo de que outro nos mostre aspectos que nos deixam inseguros em relação a nos mesmos.
Yom Kippur é o dia que lembramos que muitas vezes julgamos não em função de valores de justiça, mas porque nos desagrada que o outro seja diferente a nos.
É o dia em que jejuar significa desintoxicar-se de nossos julgamentos apressados.
É o dia em que não precisamos perdoar, pois deixamos de julgar.
É o dia em que não há expiação, pois não há culpa.
É o dia em que não nos deixamos oprimir pela obsessão de dividir entre o certo e o errado e procuramos compreender.
É o dia em que deixamos de culpar e nos culpar para termos mais compaixão conosco e com os que são diferentes a nós.
É o dia em que não nos fechamos em sistemas rígidos que são sempre narcisistas e reconhecemos que vivemos numa  zona cinza,  porque nossos sentimentos são complexos e o ser humano é finito.
É o dia em que aceitamos que não somos onipotentes e devemos fazer escolhas frágeis entre valores, interesses e afetos conflitantes.
É o dia em que não há atos certos ou errados, mas só afirmação de melhorar nossa vida e a dos outros.
 É o dia em que podemos perdoar e nos perdoar porque paramos de julgar. 

Sem prestar contas

Sem prestar contas
Erenice não declarou patrimônio ou parentes no governo ao assumir, mas só agora é punida
Chico de Gois – BRASÍLIA – O Globo
 Um dia depois de deixar a Casa Civil, sob suspeita de participação no suposto esquema de tráfico de influência comandado pelo seu filho Israel Guerra, a ex-ministra Erenice Guerra foi punida pela Comissão de Ética da Presidência porque não apresentou documentos sobre a evolução do seu patrimônio nem a relação de seus parentes que trabalham no serviço público ou fazem negócios com empresas públicas.
A Declaração Confidencial de Informações (DCI), cobrada dela reiteradas vezes, é uma exigência prevista no Código de Conduta da Alta Administração Federal. Por causa da falha, só agora tornada pública, Erenice foi punida ontem com uma “censura ética”, prevista para o caso de ex-autoridades.
A DCI deve ser encaminhada à Comissão de Ética no prazo de até dez dias depois da posse da autoridade.
Apesar de ter enviado a DCI quando assumiu o cargo de secretária executiva da Casa Civil, em 2005, quando Dilma Rousseff tornouse ministra da pasta, Erenice não o fez quando a substituiu, em 31 de março deste ano.
Ao notar, dentro do prazo, que Erenice não enviara o documento, a secretaria da Comissão de Ética lhe enviou ofício solicitando a DCI. Não foi atendida. Trinta dias depois, voltou a cobrar a declaração e, mais uma vez, não houve resposta.
Exigência ignorada várias vezes
Uma segunda reiteração ocorreu — e, de novo, Erenice não atendeu à exigência da Comissão de Ética. Nem explicou a razão por não seguir a norma.
E o assunto também não foi encaminhado pela Comissão ao governo.
Ontem, nem Erenice nem o Planalto se manifestaram sobre a falha.
A DCI serve para que a autoridade — ministros, secretários de Estado, titulares de cargos de natureza especial, secretários-executivos, presidentes e diretores de agências nacionais e autarquias — informe sua variação patrimonial, relacione o nome das empresas das quais é sócia, apresente a relação de parentes que trabalham ou mantêm negócios com o poder público.
Como ficaram evidentes nas denúncias da última semana, Erenice não só tinha parentes trabalhando no governo, mas seu filho e irmãos usaram a influência que tinham no governo para intermediar interesses privados junto a empresas públicas.
Embora não tenha um caráter prático de punição — Erenice poderá, por exemplo, voltar a trabalhar no serviço público —, a censura ética fica registrada na ficha funcional da ex-autoridade por três anos, o que pode dificultar sua contratação em outros órgãos públicos.
Na segunda-feira, a Comissão de Ética resolveu abrir um procedimento preliminar para averiguar a notícia publicada pela revista “Veja”, que acusa o filho de Erenice, Israel Guerra, de praticar lobby em favor de uma empresa de aviação que mantinha negócios com os Correios.
Depois disso, surgiram novas denúncias contra Erenice e seus familiares — a última delas provocou sua queda: o consultor paulista Rubnei Quícoli acusa o filho de Erenice de cobrar R$ 240 mil e mais 5% de comissão de êxito para facilitar um empréstimo de R$ 9 bilhões que pretendia junto ao BNDES.
Ontem, a Comissão de Ética se reuniu em caráter extraordinário.
O relator do processo, Fábio Coutinho, sugeriu, e foi apoiado pelos demais quatro conselheiros, que se transformasse o procedimento inicial em um processo de apuração ética.
— A Comissão deliberou também que, ainda no âmbito do procedimento preliminar, já havia uma falta ética da ex-autoridade — disse Coutinho. — Entendeu-se hoje que a solicitação não atendida e sua reiteração configuraram falta ética pela que agora é ex-autoridade.
Essa falta ética já implicou a sanção de censura ética — complementou, explicando que, se ela ainda estivesse no exercício do cargo, teria recebido uma advertência.
— É uma falta de atendimento a uma determinação que pode prevenir uma série de situações indesejáveis do ponto de vista da autoridade — acrescentou Coutinho.
Erenice será notificada, provavelmente na segunda-feira, e terá dez dias para apresentar sua defesa, por escrito. O relator afirmou que ela também deverá ser ouvida, além de seus parentes. De acordo com Coutinho, dependendo do que for apurado, Erenice poderá receber outra sanção ética. O processo tramitará em sigilo.
O relator declarou que a Comissão de Ética também resolveu modificar o procedimento que era adotado até agora. Antes, como foi o caso de Erenice, mesmo a autoridade não apresentando a Declaração Confidencial de Informações, nada aconteceria se não houvesse algum fato que levasse a Comissão a abrir um procedimento administrativo. A partir de agora, a autoridade que não entregar a DCI no prazo e não atender aos pedidos da Comissão para o fazer, levará uma advertência, se estiver ainda no cargo.
Coutinho disse que, neste momento, a Comissão não vai se dedicar a investigar a conduta do diretor de Operações dos Correios, o coronel Eduardo Artur Rodrigues Silva, ex-consultor da Master Top Airlines (MTA), outro servidor citado nas denúncias de tráfico de influência envolvendo o filho de Erenice. Para Coutinho, essa investigação poderá ocorrer durante o processo aberto contra a ex-ministra.

Skoob

BBC Brasil Atualidades

Visitantes

free counters