domingo, setembro 26, 2010

Semana histórica na política

Eleições 2010
Semana histórica na política
Correio Braziliense - Julgamento do recurso de Roriz no Supremo Tribunal Federal abriu a discussão sobre a Lei da Ficha Lima na mais alta Corte do país, dividiu os magistrados, provocou a renúncia do ex-governador e mudou os rumos da eleição na capital a apenas 10 dias do pleito
  Palco de diversos episódios pitorescos e escândalos de repercussão nacional em apenas 50 anos de vida, Brasília foi mais uma vez o centro das atenções ao ter um dos candidatos ao GDF como protagonista da discussão sobre a constitucionalidade da aplicação da Lei da Ficha Limpa. Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se debruçaram por dois dias, quase 14 horas ao total, para discutir se Joaquim Roriz (PSC) poderia concorrer ao quinto mandato de governador do Distrito Federal ou se deveria ter a candidatura barrada por ter renunciado ao cargo de Senador em 2007. O julgamento mobilizou a militância rorizista e também os opositores, que mantiveram vigília em frente ao prédio do Supremo à espera do pronunciamento dos juízes. Depois de um intenso debate, porém, os magistrados da mais alta Corte do país não conseguiram chegar a um consenso. Com a votação empatada em 5 x 5, os ministros saíram de cena sem tomar uma decisão.
Descontente com o impasse no STF, sem poder dizer à população que era candidato de fato e correndo o risco de ter a impugnação confirmada, Roriz decidiu renunciar pela segunda vez em quatro anos, desta vez, abriu mão da condição de postulante. Buscou uma solução caseira para resolver o problema, colocando a própria mulher, Weslian Roriz (PSC), para concorrer ao principal cargo do Executivo brasiliense. “Até hoje, não conheci o sabor da derrota, mas estavam me ameaçando com uma. Aí busquei outra alternativa”, disse o ex-governador, na sexta-feira, durante o anúncio oficial da substituição, feito em entrevista coletiva na residência do casal localizada no Setor de Mansões Park Way (SMPW).
Às 14h30 de quarta-feira, os ministros começaram o julgamento do Recurso Extraordinário nº 630147, interposto pelos advogados de Roriz contra a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de 29 de agosto, que confirmou a impugnação do registro de candidatura imposta pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do DF, em 4 de agosto. Segundo a defesa, a Lei Complementar nº 135, de 4 de junho, não poderia ser aplicada neste ano, uma vez que o artigo 16 da Constituição Federal determina a vigência de um ano para a aplicação de toda norma que alterar o processo eleitoral. “Não somos contra a Lei da Ficha Limpa, ela é uma boa iniciativa e veio sanear o processo eleitoral, mas a aplicação dela neste ano é inconstitucional”, argumentou Pedro Gordilho, advogado de Roriz.
Além disso, também foram alegados os princípios constitucionais da irretroatividade e a da presunção de inocência. Como Roriz renunciou ao mandato em 2007, a norma não poderia retroagir para prejudicá-lo, já que ele teria cumprido todas as exigências legais vigentes na época ao sair do cargo, o denominado ato jurídico perfeito. “Três anos depois, surge uma lei que passa a valer a um caso do passado. É a situação mais típica de retroatividade que vi em toda a minha vida profissional”, disse o defensor.
Contra a tese da defesa se pronunciou o relator do caso, Carlos Ayres Britto. Para o ministro, é preciso aplicar a Lei da Ficha Limpa para assegurar a moralidade e a probidade administrativa e, ao renunciar, Roriz teria traído “o cargo, o partido político e o eleitorado”. Segundo ele, a lei complementar não alterou o processo eleitoral, muitos menos criou sanções, apenas condições de elegibilidade. A presunção de inocência valeria apenas para casos que envolvem direito penal, não para matérias eleitorais. “Vamos segurar pela cauda uma lei concretizadora da moralidade?”, questionou o relator.
Além disso, disse Britto, a lei foi publicada antes das convenções regionais e impostas a todos os candidatos e partidos de forma igualitária. O momento para aferir as condições seria na validação dos pedidos de candidatura pelos partidos, por isso não se poderia falar em retroatividade. Seguindo o voto do relator, a favor da Lei da Ficha Limpa, se manifestaram Cármem Lúcia, Joaquim Barbosa, Ricardo Lewandowski e Ellen Gracie. Contra a aplicação imediata votaram José Antonio Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello, Celso de Mello e o presidente do STF, Cezar Peluso.
Impasse e renúncia
Empatado o julgamento em cinco a cinco, os ministros passaram a discutir, já na madrugada de quinta-feira, a melhor solução para resolver o impasse. Mais uma vez, eles se dividiram em dois grupos. O primeiro, formado por aqueles que tinham votado a favor da norma, defendeu a aplicação do artigo 173 do regimento interno, que exige seis votos para proclamar a inconstitucionalidade do ato impugnado. O outro grupo, no entanto, sugeriu que a decisão permanecesse em suspenso até a nomeação de um ministro para a vaga aberta com a aposentadoria do ministro Eros Grau, ocorrida em 2 de agosto. O problema é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, responsável pela indicação, disse que só tratará do assunto depois das eleições. Ainda foi levantada a possibilidade de Peluso usar o voto de qualidade para desempatar. “Não tenho vocação para déspota nem acho que o meu voto vale mais do que o de outro ministro”, afirmou o presidente do Supremo.
Sem nenhuma previsão de solução para o caso, Roriz adiantou, anunciando na tarde de sexta-feira, sua desistência e apresentando a própria mulher como substituta. Segundo ele, houve uma “orquestração bem elaborada” para prejudicá-lo nos tribunais. “O meu marido vai me ajudar (no próximo governo, caso seja eleita), porque ele tem coragem. Ele vai me dar muito conselho para que a gente administre essa cidade da melhor forma possível”, afirmou Weslian.

Um mundo novo - J.Roberto Guzzo - Veja

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Entrevista - Hélio Bicudo, jurista e presidente da Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos

Entrevista - Hélio Bicudo, jurista e presidente da Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos
A GAZETA
A exemplo do que fazia nos distantes e duros tempos da ditadura, às vésperas das eleições, em companhia de outros juristas e personalidades, ele ergue sua voz em defesa da democracia no país. Na semana passada, Hélio Bicudo, 88 anos, liderou um manifesto também pela liberdade de imprensa, segundo ele, ameaçada pelo governo Lula. O mesmo Lula com quem Bicudo, que foi ministro interino da Fazenda no governo João Goulart, deputado federal e vice-prefeito de São Paulo, durante a gestão de Marta Suplicy (PT), na condição de vice, disputou o governo de São Paulo e conviveu durante os 25 anos em que militou no PT.
Nossa democracia está mesmo ameaçada? Acho que sim, porque o presidente da República ignora a Constituição, se acha acima do bem e do mal, e, com uma vitória que está delineada em favor da sua candidata, concentrará todos os poderes da República em suas mãos, além do apoio da maioria dos Estados e da população em geral. Com uma pessoa com esse potencial, e que não vê no ordenamento jurídico do país a maneira de estabilizar as discussões e debates, o Brasil pode caminhar para uma ditadura civil, sem dúvida.
O senhor, que ficou no PT por mais de 20 anos, imaginou que isso pudesse acontecer? De início, não, mas no final, achava que aconteceria essa reviravolta. Foi marcante aquela carta aos brasileiros que Lula escreveu antes da sua primeira eleição, demarcando uma posição muito mais para o neoliberalismo do que para o socialismo.
O mesmo neoliberalismo tão criticado pelo PT, no governo de Fernando Henrique Cardoso. O senhor vê diferença nas práticas de ambos? Não há nenhuma diferença, porque quem comanda as decisões políticas hoje, como ontem, é o próprio capital.
O PT indicava uma prática diferente... O PT fazia uma oposição bastante forte nos governos Sarney e Fernando Henrique. A partir do governo Lula, a unanimidade popular que ele foi conquistando afastou a oposição do seu caminho. E o que aconteceu? Sobre o mensalão e os outros atos de corrupção apontados, nada se fez. Quando Lula diz que é presidente da República até sexta-feira à noite, e depois fecha a gaveta e só volta na segunda-feira, pratica crime de responsabilidade. Afinal, como presidente ele jurou obedecer às leis do país. E a Constituição não permite que um presidente da República participe da campanha eleitoral como ele está participando. É crime que leva ao impeachment, mas nem os partidos políticos, nem a sociedade civil movem nenhuma pedra contra isso.
Antes do primeiro governo Lula, falava-se do desejo do PT de ficar no poder por pelo menos 30 anos. Não havia essa ideia, pelo menos no meu tempo. Pensava-se que o PT era um partido de massa, e iria trazer para os mais humildes uma estabilidade econômica.
Houve uma inclusão.  Ele trouxe em parte, porque a Bolsa-Família é mais um colaborador eleitoreiro. Apenas dá dinheiro, mas não dá nenhum estímulo para que a pessoa possa galgar outro patamar na estrutura da sociedade.
Pesquisas indicam que Dilma Rousseff seria eleita, hoje, presidenta da República. O que podemos esperar dela? Quem continuará mandando no país vai ser Lula. Dilma diz que ela é o Lula. Então as coisas continuarão como estão, com a mesma corrupção, o mesmo manejo da coisa pública.
Como militante político, imaginava voltar às ruas em defesa da democracia e da liberdade de imprensa? A gente fica frustrado, depois de uma longa luta em prol da democracia, ver o que estamos vendo. E acho que não temos democracia, até pela maneira pela qual se conduz a vida pública, onde um grupelho toma conta do governo, pondo nele seus parentes, seus amigos... Não é o governo do povo. Veja a própria constituição do Supremo Tribunal Federal, onde não se fez uma consulta maior para a escolha dos ministros. Ela foi pessoal, feita pelo próprio presidente. Leis passam na Câmara e no Senado, por atuação da presidência da República, que transformou o Legislativo em algo sem a menor expressão.
O senhor faz a descrição de um poder quase totalitário... E é isso. Quem manda no país, passa por cima das leis é ele, Lula. Vai eleger a presidenta que fará o que ele quiser.
Como o senhor vê Lula? Um homem inteligente, que poderia usar essa inteligência para implementar e fortalecer a democracia no país, mas optou por incrementar o poder pessoal.
Trata-se de um traço de personalidade?  Sim, com certeza. Ele sempre mandou no partido, afastou as lideranças que pudessem competir com ele. É o dono, sente-se acima do bem e do mal.
Em relação às denúncias de irregularidades no governo, sempre alegou nada saber. Ele sabia de tudo, deixou as coisas escaparem. A oposição não atuou e, hoje, chegamos onde estamos.
Incompetência da oposição? Foi inexistência de oposição.
Como o senhor deixou o PT, em 2005? Saí porque achei que o partido não estava trilhando a estrada que havia traçado no seu nascedouro. Ele deixou de representar o povo. Pode até ter o voto do povo, mas representa os interesses daqueles que o comandam.
As muitas denúncias de irregularidades no governo Lula parecem não impactar a campanha de Dilma Rousseff. Olha, Lula vive dizendo que a imprensa o prejudica. Eu acho que é o contrário.
Como?  A imprensa tem ajudado Lula e seus candidatos. Você não pega um jornal, um programa de televisão, que não exiba um retrato dele. O povo não vê o que está escrito além dá manchete. Funciona como propaganda.
Deixá-lo fora das páginas e fora das telas é quase impossível. Ele tem popularidade e peculiaridades. É "o cara", pelo menos para o presidente Obama... Mis-en-scène... Pergunto: com tudo isso, o que o Brasil conseguiu, do ponto de vista internacional? Zero. A questão da popularidade não tem relação com a eficiência. Olha o caso do Irã. Tem maior vergonha do que isso? Nossa política externa é péssima. O Brasil não conseguiu colocar uma pessoa em cargo relevante no conceito internacional. Em matéria de Direitos Humanos, botaram lá em Genebra uma pessoa que jejuna nessa área. E onde estão os direitos humanos no Brasil, onde o presidente aceita que a Lei de Anistia contemple também torturadores? E a compra de 36 aviões de caça? Uma brincadeira, desperdício de dinheiro público. Outra vergonha é essa movimentação toda pela Copa de 2014.
Por quê? O dinheiro da construção de estádios poderia ser usado na Saúde, na Educação. Lula deu ao povo o que se dava durante o Império Romano: pão e circo. Ele dá Bolsa-Família, dá o futebol, shows, o povo vai se divertindo e vai votar em quem ele manda. Uma coisa é o Bolsa-Família eleitoreiro, a outra é dar o dinheiro e responsabilidade, Educação às pessoas.
Como viu o "ato contra o golpismo midiático", contrário ao que revelou o "manifesto em defesa da democracia e da liberdade de imprensa e de expressão", do qual o senhor participou, ambos em São Paulo?  Lula sempre diz que há uma revolução midiática para retirá-lo do poder. Os pelegos dele é que fizeram o movimento em contrário ao nosso.
Seu grupo conseguiu sensibilizar a opinião pública? Acho que sim. Ontem, mais de 20 mil pessoas já tinham assinado o nosso documento. A semente foi plantada, e agora depende da sociedade. Porque o problema é também de pós-eleição. Repetindo o que já foi dito: se você não vigia, não tem democracia. Deve-se vigiar permanentemente quem governa o país, para que não haja desvios. Seja quem for eleito, independentemente do partido político.
Vê méritos neste governo? A questão é: o que o governo pretende com sua atuação? Para mim, só autoritarismo.
O senhor foi candidato a vice de Lula, na disputa pelo governo de São Paulo. Conviveu com ele e o admirou num determinado momento. Sim, mas os tempos mudaram completamente. Ele acabou com as lideranças do partido, e lançou uma pessoa que nem era do partido, tradicionalmente, à presidente. Hoje o PT não tem diferença nenhuma dos outros partidos.
Mas o senhor declarou voto para Marina, do PSol... Sim, porque entre os candidatos que estão aí, é ela quem tem as melhores condições, do ponto de vista de sua vida, do trabalho que já fez e se propõe a fazer. Plínio de Arruda Sampaio tem um discurso muito bom, mas não teria condições. Ele se propôs a fazer uma campanha para mostrar que a democracia não se exerce como o que se vê hoje no país. Presidente não se mete em eleição. Não pode praticar atos eleitorais em favor do seu candidato. Essa é a posição de um chefe de Estado.
O que o senhor diria para o eleitor que ainda está indeciso? Ele tem que pensar: nós queremos democracia ou não queremos? Ninguém lembra mais do regime militar, da ditadura do Getúlio. E a ditadura civil é um risco. Veja a questão do sigilo fiscal, que é um direito individual, e que foi aberto em alguns casos por motivos políticos. Mal usado, o poder que a máquina pública tem é capaz de acabar com uma pessoa.
Mesmo com de tudo isso, votar continua sendo importante.  Claro! Existe uma corrente grande que defende o voto nulo como uma rebelião. Mas a omissão não é a melhor solução. Temos que mostrar o que pensamos através do voto.
Relação conflituosa do presidente com a imprensa levou à realização de manifestações públicas
Má-fé. Nos últimos dias, Lula afirmou que a imprensa atua de má-fé e que os jornais e revistas agem como se fossem partido.
Opinião pública. Durante comício realizado neste mês, em Campinas (SP), ele declarou: "Tem dias em que alguns setores da imprensa são uma vergonha. Os donos de jornais deviam ter vergonha. Nós vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como partidos políticos. Nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública".
Manifesto. Por causa dessa postura do presidente, na semana passada, em São Paulo, houve um ato público onde foi lido um manifesto em defesa da democracia e da liberdade de imprensa e de expressão, assinado por juristas, entre os quais Hélio Bicudo, e personalidades como o Cardeal Arcebispo Emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Carlos Velloso, atores e intelectuais como Ferreira Gullar.
Reação. Um dia depois, o PT e centrais sindicais como a CUT fizeram um "ato contra a mídia golpista". O presidente do PCdoB, Renato Rabelo, teria dito que grandes veículos de comunicação brasileiros organizaram uma "conspiração" contra Dilma Rousseff.

nadaver.com


Indecisão cria ''instabilidade jurídica''

Indecisão cria ''instabilidade jurídica''
Para especialistas, empate no Supremo sobre a Ficha Limpa cria exército de eleitos que podem ser cassados no futuro
Lucas de Abreu Maia - O Estado de S. Paulo
 Juristas ouvidos pelo Estado são unânimes em afirmar que o adiamento, para depois das eleições, da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) acerca da Lei da Ficha Limpa cria um ambiente de instabilidade jurídica.
Com a renúncia de Joaquim Roriz (PSC) à candidatura ao governo do Distrito Federal, o julgamento da semana passada perdeu validade, o que permitirá a políticos de "ficha suja" continuar fazendo campanha. Caso eleitos, eles poderão ter os cargos cassados. No caso das eleições proporcionais (para deputados federais e estaduais), isso poderá alterar até mesmo as bancadas dos partidos.
"A indecisão cria instabilidade jurídica porque você terá uma série de políticos que vão ser eleitos e não poderão assumir. Isso implica redistribuição das bancadas dos partidos, que é uma coisa complicadíssima", avalia Teresa Ainda Sadek, professora do departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Supremo.
Para ela, a divisão do STF - evidente no empate na votação de quinta-feira - já "vem sendo observada há um tempo". "Temas políticos geram essa divisão que observamos ontem, mas outros temas geram outras divisões", afirma.
Individualista. Elival da Silva Ramos, professor de direito constitucional na USP, explica que "o Supremo Tribunal do Brasil é muito individualista". "Ao contrário de outros países, no Brasil não há tradição de que os ministros discutam seus votos entre si", afirmou.
Para ele, a votação da Lei da Ficha Limpa foi impactada pela pressão popular em torno do projeto. "Eu não tenho dúvida, sem individualizar a afirmação, de que a pressão popular interferiu na votação", avaliou.
De acordo com Ramos, há três questões polêmicas a respeito da lei que deverão voltar a ser discutidas quando um novo ministro for apontado para o tribunal: a validade nestas eleições e a retroatividade - tanto para os casos de renúncia quanto para políticos já condenados em segunda instância.
Ele explica que na quinta-feira o STF debateu a retroatividade apenas em caso de renúncia. Para Ramos, o voto do ministro Celso de Mello, o penúltimo a votar, criou a argumentação jurídica contrária à retroatividade. "Renunciar era um ato lícito e, agora, está se criando uma pena contra isso. Então não pode retroagir", afirma o jurista, que também é contrário à validade da lei para este ano. "A elegibilidade é uma das coisas que mais alteram o processo eleitoral."
De acordo com o Artigo 16 da Constituição, normas que alteram as eleições devem ser aprovadas um ano antes do pleito. Os defensores da Ficha Limpa, contudo, alegam que a lei apenas amplia os critérios de elegibilidade, sem mudar o processo eleitoral.
O advogado especialista em direito eleitoral Alberto Rollo compartilha da posição de Ramos. Para ele, a retroatividade da lei é "uma indecência". "Punir a renúncia é muito bom, só que não dá para fazer sem avisar. Vamos fazer daqui para diante", defende.
Em sua opinião, a Ficha Limpa não deveria valer nestas eleições. Ele apoia, contudo, a constitucionalidade da norma a partir do ano que vem.
Interesse público. Para Adriano Pilatti, diretor do departamento de Direito da PUC-Rio e professor de direito constitucional, a Lei da Ficha Limpa deveria retroagir e valer para este ano. Ele afirma que a norma não ameaça os direitos individuais, garantidos pela Constituição, mas diz respeito ao "interesse público". "Esta é uma questão que não foi abordada."
Segundo ele, ainda que o Supremo eventualmente decida contrariamente à lei, seus efeitos para o futuro estão garantidos. "De uma coisa podemos estar certos: esta lei veio para ficar e, se não alcançar o Roriz agora, alcançará os "rorizes" do futuro. A médio prazo podemos respirar um pouco mais tranquilos."

Julgamento do mérito é aguardado com ansiedade

Julgamento do mérito é aguardado com ansiedade
Análise: Luiz Flávio Gomes - O Estado de S. Paulo
 Logo no princípio do julgamento do famoso caso Ficha Limpa, pelo plenário do Supremo Tribunal Federal, o seu presidente, ministro Cezar Peluso, levantou uma questão preliminar no sentido de que a lei não tem nenhum valor jurídico em razão da existência de vícios formais no momento da sua tramitação pelo Senado. O projeto foi aprovado inicialmente na Câmara e sua redação tornava inelegíveis os candidatos que "tenham sido condenados" por uma das infrações e na forma descrita na referida lei. Esse texto foi modificado pelo Senado, por proposta do senador Francisco Dornelles (PP-RJ), e a redação final transformou-se para "os que forem condenados".
Pelo ponto de vista do presidente do STF, teria havido uma modificação radical no projeto de lei e isso, de acordo com o processo legislativo constitucional vigente, exigiria o seu retorno para a Câmara. Não teria ocorrido um mero ajuste de redação, sim, uma alteração essencial no projeto.
Dois motivos nos levam a adotar posição contrária à do ministro Peluso. Em primeiro lugar, a alteração da redação foi puramente formal. No ordenamento jurídico brasileiro, nós encontramos incontáveis dispositivos legais que ora dizem "os que tenham sido condenados" e ora dizem os "que forem condenados". Trata-se de questão estritamente formal, que não chega a permitir nenhum questionamento de inconstitucionalidade da lei, por essa razão. Acrescente-se que qualquer que tivesse sido a redação sempre seria exigível uma interpretação por parte do Judiciário. Portanto, não parece acertado que o Supremo deixe de analisar o mérito da ação em julgamento, prendendo-se a aspectos formais. O que todos estamos aguardando é a sua interpretação final, que deve ser conforme a Constituição.
Em segundo lugar, no modelo processual brasileiro o juiz não pode atuar de ofício, salvo em situações extremamente peculiares e devidamente contempladas na lei, como é o caso da concessão de habeas corpus de ofício, em favor do réu, em casos de patente constrangimento ilegal contra a liberdade do indivíduo. Por força do sistema acusatório, que faz parte da essência do nosso estado de direito, o juiz somente pode atuar quando devidamente provocado. As partes, neste caso ficha limpa, não arguiram absolutamente nada relacionado à inconstitucionalidade formal. Logo, não nos parece acertado o argumento do ministro Peluso no sentido de que todos os ministros deveriam votar antes de tudo sobre a validade formal da lei.
O que mais importa e o que todo o País está esperando é o julgamento do mérito da questão, ou seja, saber se a Lei da Ficha Limpa é ou não aplicável às eleições deste ano. É isso que conta com grande repercussão nacional, porque muitos candidatos podem ser eleitos no próximo dia 3 e depois não terem condições de tomarem posse em seus cargos. A decisão do Supremo, de outro lado, pode também interferir no voto dos eleitores e no resultado das eleições. É por isso que a decisão de mérito do STF está sendo aguardada, até mesmo, com muita ansiedade por todos os que participamos do processo democrático.
É JURISTA

UTE LEMPER ~ "La Vie En Rose" & "Non, Je Ne Regrette Rien" (1992 live)

Strike

Strike
Eliane Cantanhêde - FOLHA DE S. PAULO
BRASÍLIA - Sinuosamente, é verdade, mas o fato é que a decisão final sobre a vigência da Ficha Limpa pode ter caído no colo de Lula.
Explica-se: com o empate de 5 a 5 no Supremo Tribunal Federal e a decisão do ministro Cezar Peluso de não dar o voto de Minerva na condição de presidente, tudo ficou pairando no ar à espera da indicação do novo ministro, o 11º. E quem indica é o presidente da República. Logo, Lula pode escolher um ministro disposto a dar um voto para um lado ou para o outro.
A situação é esdrúxula na origem, no desenrolar e no desfecho no DF. Na origem, porque o Congresso produziu uma lei capenga que não explicita se a Ficha Limpa vale ou não para esta eleição. No desenrolar, porque o impasse no STF cria um vácuo jurídico. E no desfecho, porque a renúncia de Joaquim Roriz para colocar a mulher como candidata é chocante.
Com o intenso noticiário sobre a Ficha Limpa e a Ficha Suja, Roriz já tinha sido derrubado da liderança por Agnelo Queiroz, do PT, mas ele deixa a mulher como sucessora e duas filhas candidatas e herdeiras -não apenas de votos. Ou seja: Roriz se vai, o "rorizismo" fica.
O golpe da família Roriz é uma pancada e tanto na já combalida política do DF, que teve uma bonita história até o então presidente José Sarney nomear indiretamente Roriz para o governo local e ele se transformar no "pai dos pobres", com uma popularidade que ao longo de muitos anos resiste a tudo, a todos, à ética e ao bom senso.
O efeito mais desastroso da incapacidade do Supremo em julgar, porém, não é sobre a eleição majoritária (onde sai um, entra outro), mas sim sobre a proporcional (porque mexe em um, mexe em todos). Os votos em Tiririca, por exemplo, definem o tamanho das bancadas não apenas do partido dele na Câmara, mas de todos os demais.
A omissão do Judiciário joga partidos, candidatos e eleitores num limbo nunca visto antes neste país.

Martha Medeiros: Um amor asfixiado

Martha Medeiros: Um amor asfixiado
Caderno Donna – Jornal Zero Hora - RS
Muitas pessoas me pedem para escrever sobre o amor entre amantes, quando um deles, ou ambos, são comprometidos e estabelecem uma relação clandestina que se alimenta do próprio sentimento e de mais nada. Pode durar? Deve terminar?
Pode tudo, como qualquer história de amor, e não é fácil, nenhuma relação é.
Amantes vivem uma paixão temperada pelo anonimato. Os encontros escondidos, o segredo unindo os dois, o receio de um flagra, a excitação de estar fazendo algo oficialmente ilegítimo: uma aventura. É como ser personagem de um filme B, a luxúria assumindo o comando, a vida privada ainda mais privada do que normalmente costuma ser. A coragem de abraçar o pecado, desafiando uma sociedade que adora apontar o dedo para aqueles que ousam mais do que outros.
A despeito do que possa haver de culpa numa relação assim e de toda a logística para colocar em prática a operação semanal, para eles compensa. Até que um dia os encontros se banalizam, como tudo que sofre a ação do tempo. O que era excitante passa a entrar para a rotina, e o sexo, estrela principal desse espetáculo, já não basta. Passa-se a requerer o que se requer em todas as relações: a confirmação pública de sua existência.
A ideia de um amor e uma cabana é uma idealização que não se sustenta. Queremos o ninho, mas também queremos voar juntos. Sempre que saímos pra rua, nós conhecemos novas pessoas, lugares, sensações. Tem graça estando sozinho? Podemos compartilhar nossas descobertas com nosso amor através do telefone, mas muito melhor é quando a pessoa que diz estar ao nosso lado está de fato ao nosso lado, não apenas metaforicamente.
Quando dizemos "tenho alguém", não se está propagando o sentimento de posse como quando dizemos "tenho um carro" ou "tenho um iPod". Ter alguém significa ter companhia para o teatro, o cinema, os jantares entre amigos, as caminhadas de sábado. Ter com quem desabafar quando a angústia aperta, ter com quem dançar, ter com quem viajar, ter com quem dividir os momentos de prazer e também as indiadas, ter com quem trocar um olhar cúmplice em meio à multidão, ter com quem praticar um esporte, comprar condimentos para cozinhar à noite, escolher um DVD, reclamar das coisas que não deram certo, pedir uma carona no final do expediente, fazer uma surpresa. Por mais que se diga que a tecnologia aproxima as pessoas, você não exercita a convivência por e-mail ou qualquer outra ferramenta virtual, e mesmo o telefone é paliativo: minimiza a distância, mas não reforça o vínculo. Viver junto é junto mesmo.
Não estou levantando a bandeira do grude, bem sei como é importante uma área de respiro, mas está-se falando de ligações em que a presença física é raridade, daqueles casais que só frequentam endereços secretos, uma ou duas vezes por semana. Que não conhecem os amigos e o local de trabalho de quem dizem amar. Que reservam para seus raros encontros a lingerie mais bonita e as palavras mais doces, mas que não abrem janelas, desligam o celular, deixam a porta trancada. Um caso. Um affair. Um microcosmo onde só cabem dois habitantes.
Romântico, pulsante, febril, mas chega uma hora que asfixia. Sair do casulo, namorar ao ar livre, testemunhar as reações um do outro diante dos acontecimentos mundanos, tudo isso me parece mais divertido: uma relação a dois e múltipla ao mesmo tempo. O que reforça a intimidade é ter o que compartilhar, não o que esconder.

Amorim


Às vésperas do pleito

Às vésperas do pleito
Ferreira Gullar - FOLHA DE S. PAULO /ILUSTRADA
Situo-me no polo oposto àqueles que aspiram chegar a uma sociedade de uma opinião só.
A proximidade do dia das eleições, quando iremos às seções eleitorais exercer nossa cidadania, votando nos candidatos de nossa preferência, tem inevitavelmente acirrado os ânimos, não só dos candidatos, como os nossos, de eleitores.
Isso pode ser bom ou mau. É bom quando indica empenho em escolher os melhores para legislarem e governarem -e é mau quando nos leva a perder a capacidade de discernir o certo do errado, a mudar a convicção política ou ideológica em fanatismo.
Sem pretender me dar como exemplo de isenção, verifico, não obstante, como algumas pessoas passam dos argumentos objetivos -ainda que impregnados de paixão- a afirmações que mitificam a personalidade deste ou daquele candidato.
Como já escrevi aqui, repito agora que não pertenço a partido político nem tampouco estou engajado na campanha de nenhum candidato. Ao opinar sobre qualquer deles, faço-o na condição de articulista que, assim como discute questões culturais e sociais (arte, política psiquiátrica, inoperância da Justiça, ficha suja etc.), discute também a conjuntura política que, neste momento, interessa à maioria dos leitores.
Podem meus comentários, eventualmente, influir na decisão de um ou outro leitor, mas não é essa minha intenção prioritária e, sim, contribuir para que sua escolha se faça da maneira mais lúcida e autônoma possível. Acresce o fato de que outros comentaristas opinarão em sentido diverso, trazendo à baila outros argumentos e, com isso, contribuindo para que o debate se amplie e se aprofunde. Situo-me no polo oposto àqueles que aspiram chegar a uma sociedade de uma opinião só.
É com esse propósito que tenho abordado aqui alguns aspectos polêmicos da conjuntura eleitoral e política. Procuro, igualmente, refletir a preocupação de outras pessoas que, mantendo-se à margem da disputa eleitoral, manifestam preocupação com o rumo que as coisas estão tomando, sendo que alguns deles temem pelo futuro da própria democracia brasileira.
Para estes, a vitória de Dilma Rousseff, por implicar o prosseguimento no poder do mesmo partido, poderia ter consequências imprevisíveis, dado o crescente aparelhamento da máquina do Estado por petistas e sindicalistas, que a utilizam partidariamente.
Isso poderia levar à crescente privatização do Estado, em benefício de um mesmo grupo político e, em última instância, ao cerceamento da ação política divergente.
Faz parte deste processo a mitificação da figura de Lula que, no curso de sua história pessoal, passou de líder raivoso a Lulinha paz e amor e agora -para meu espanto- à categoria de grande estadista, que teria mudado a face do Brasil.
Nessa linha de raciocínio, vem se formando a teoria segundo a qual quem se opõe a Lula opõe-se na verdade ao povo brasileiro, uma vez que ele é o primeiro presidente, "que veio do seio do povo".
Trata-se de um argumento curioso, que busca qualificar o indivíduo -no caso, um líder político- por sua origem social de classe. Digo curioso porque os que assim argumentam consideram-se obviamente de esquerda, mas não se dão conta de que, com esta postura, repetem as elites do passado, que também qualificavam os indivíduos por sua classe social de origem.
Naquela visão - que a esquerda definia como reacionária-, quem tivesse origem nobre era tacitamente superior a quem não o tivesse. Agora, na sua inusitada avaliação, superior é quem nasce do "seio do povo" e, por isso, quem critica Lula coloca-se, na verdade, contra o povo. E povo - entenda-se - é só quem for pobre.
Mas atrevo-me a pergunta: e quem não recebe Bolsa Família é o que?
Não resta dúvida de que a ascensão de um operário à Presidência da República brasileira é uma importante conquista de nossa democracia, mas não porque quem nasce no seio do povo venha impregnado de virtudes próprias aos salvadores da pátria. Do seio do povo também veio Fernandinho Beira-mar.
Lula chegou onde chegou não por sua origem e, sim, por sua capacidade de liderança e sua sagacidade política; a origem social e a condição de operário, que certamente influíram na decisão do eleitor, não devem servir de pretexto para transformá-lo num líder a quem tudo é permitido, acima de qualquer juízo crítico.

Forças e fraquezas

Forças e fraquezas
Miriam Leitão - O GLOBO - 26/09/10
Dilma Rousseff construiu uma versão para a história econômica recente e é protegida de si mesma pela armadura do marketing. José Serra abandonou a identidade que poderia ter e se debate num projeto sem rosto. Marina Silva tem a cara do novo, mas se perde na ambiguidade em relação ao seu antigo partido. Os três têm também forças. Eles nos levarão às urnas em uma semana
No período em que o Brasil se debateu contra a ditadura, Dilma e Serra se perfilaram no grupo que ficou contra o autoritarismo. Lutaram de forma diferente, mas foram contra o arbítrio e ambos pagaram um preço por isso. Marina, mais nova que os dois, também entrou na vida política pela oposição ao regime, e ingressou na vereda que virou o grande caminho do futuro: o do respeito aos limites do planeta.
Nenhum dos três é filho de oligarquias. A situação social em que Dilma nasceu foi melhor do que a de Serra, mas Marina é que cumpriu o mais espantoso roteiro de superação: da pobreza do Seringal Bagaço à senadora mais jovem da República.
Expulsa do paraíso petista, não por seus pecados, mas por suas virtudes, Marina comemorou num fiapo de resposta de Dilma, num debate recente, ter sido reconhecida como parte do governo Lula.
Aceita dividir com Dilma os louros de sua maior vitória pelo meio ambiente: a queda do desmatamento.
Os bancos oficiais continuam financiando as atividades que abatem árvores e esperanças; as grandes obras, que sua adversária brande como eixo do seu projeto, para a alegria das empreiteiras, ferem o coração da Amazônia; o modelo energético de Dilma aumentou a presença da energia fóssil na economia. As duas têm visões opostas sobre a questão ambiental e climática, mas Marina nunca foi capaz de confrontar sua adversária e revelar os conflitos entre elas.
O governo criou uma fábrica de números falsos em seus bem-aparelhados órgãos oficiais e reescreveu a história recente do país. Como a memória sempre foi fraca por aqui, fica-se assim entendido o falso como verdadeiro. Brigar com cada número resultaria numa discussão enfadonha, mas basta dizer que, em sete anos de governo e quatro de PAC, o saneamento básico saiu de 56% para 59%.
Ou seja, nada aconteceu no que há de mais intestino da qualidade dos serviços públicos, raiz da saúde e do meio ambiente urbano. Diante do falso brilhante dos trilhões que ela declama, o investimento público é de apenas 1,3% do PIB.
A verdade, para além do aborrecido traçar de números, é que, há décadas, o governo investe pouco e tira da sociedade cada vez mais impostos.
A carga tributária sobe constantemente, o governo tem déficit nominal, o rombo da previdência avança.
Mas Dilma repete a todos que ajuste fiscal é burrice. Anestesiados, os contribuintes continuarão pagando a conta sem sequer entendê-las.
Pela distorcida história oficial, a inflação não foi vencida no Plano Real, quando estava em 5.000%, tinha derrotado cinco planos, engolido décadas e arruinado famílias e empresas. A versão da campanha é que Lula recebeu um país em destroços.
Quem repõe a verdade vivida há tão pouco tempo? Deveria ter sido José Serra, mas ele não quis ou não soube.
Dissidente da política econômica que nos trouxe a tão sonhada estabilidade, ele ainda se pega em minúcias das discordâncias. Não conseguiu mostrar para o eleitor que, pela ação da privatização, um povo que tinha telefone em 19% das casas, hoje tem em 85% delas. Um país que vivia o tormento hiperinflacionário teve em Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, o líder que convocou os especialistas e arquitetou o plano que iniciou o novo Brasil. Só Marina tenta repor a verdade, ao lembrar fatos e distribuir méritos com sua serenidade destoante.
Serra não resgata o passado prisioneiro dos mitos do marketing petista; não consegue dizer o que fará de novo, se for eleito. O "pode mais" vazio acabou virando uma oferta de mais salário mínimo e mais aposentadoria. Com a eloquência do passado real e uma proposta consistente para o futuro, Serra poderia mais, mas sua campanha ficou sem rosto e projeto.
Marina tem a força de propor o novo. Tão novo que nem é entendido. Propõe uma revisão do conjunto dos estímulos e pesos tributários para crescer e incentivar a transição para a economia de baixo carbono. Hoje, carvão colombiano recebe redução de impostos para entrar no país, alimentar termelétrica financiada com dinheiro subsidiado do BNDES. E o país acha normal. O banco financia frigoríficos que compram carne de área desmatada. E o país acha normal. Uma farra com dinheiro público é montada para liquidar a grande volta do Xingu, num crime duplo: ambiental e fiscal. E o país acha normal.
Dilma tirou o máximo de proveito da segunda etapa do processo de criação do mercado de consumo de massas.
A primeira etapa foi o Plano Real. A segunda, no governo Lula, foi possível com a oferta de crédito e a ampliação dos programas de transferência de renda. Dos três candidatos, é a mais desconhecida dos eleitores. Eles votam numa miragem construída pela popularidade do Lula e pela propaganda.
Foi enclausurada pelo marketing por medo de que seu temperamento pusesse tudo a perder.
Os três têm forças e fraquezas, mas as distorções da campanha mostram que o país está desperdiçando o melhor momento de pensar estrategicamente seu futuro.

Skoob

BBC Brasil Atualidades

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