quarta-feira, setembro 29, 2010
Convergência e afirmação de Minas
Convergência e afirmação de Minas
ANTONIO ANASTASIA - FOLHA DE SÃO PAULO - 29/09/10
No centro da inovação do nosso modelo está a ideia-força da gestão de qualidade, com planejamento rigoroso e qualidade nos gastos públicos.
A ampla aliança que se formou em Minas em apoio ao nosso projeto político não nasceu ontem, apenas para atender a urgência ou as circunstâncias da disputa eleitoral em curso. Não é fruto de intervenções de cúpula, vetos partidários ou imposições travestidas de entendimento, para atender a interesses estranhos a Minas e que nada têm a ver com a vida dos mineiros.
A nossa aliança resulta de grande convergência em torno de um governo sério, solidário, ousado e transformador, que conquistou, nesses últimos anos, com Aécio Neves à frente, a maior aprovação de toda a nossa história, e que agora, se assim os mineiros decidirem nas urnas, terei o desafio de continuar e fazer avançar ainda mais.
Nesse tempo, firmamos parcerias com todos os governos, principalmente com o governo federal, sem qualquer constrangimento político; governamos com todas as prefeituras, mesmo as que estão sob a responsabilidade de prefeitos de oposição; e soubemos compartilhar trabalho, recursos e esforços com múltiplos segmentos da nossa sociedade organizada.
Por isso avançamos tanto.
O amplo reconhecimento sobre a gestão de Minas é ainda mais substantivo porque está respaldado por instituições e autoridades que não estão no nosso campo político. O governo federal, por exemplo, reconheceu a excelência da educação pública de Minas, quando posicionou o Estado em 1º lugar em educação básica, segundo o Ideb.
Na área de assistência social, o ministério de Patrus Ananias apontou Minas como o Estado líder na implantação do Sistema Único de Assistência Social, enquanto o ranking nacional existiu.
Diversas unidades da Federação buscaram aqui ideias e projetos inovadores, testados e aprovados, como solução para antigos problemas ainda renitentes Brasil afora.
No plano internacional, fomos o único Estado subnacional do mundo convidado a apresentar o nosso modelo de gestão na reunião anual de governança do Banco Mundial.
No centro da inovação do nosso modelo está a ideia-força da gestão de qualidade, com planejamento rigoroso, austeridade fiscal, qualidade nos gastos públicos; ação integrada e efetivo controle de resultados. O ponto de chegada nunca foi outro se não o de governar para melhorar a vida das pessoas.
Por isso, nesse período, tiramos o compromisso com a equidade do papel e do discurso e investimos três vezes mais por habitante nas regiões mais pobres. Os investimentos em educação cresceram 277%; em segurança, 500%; em saúde, 732%. A pobreza caiu 46%; a mortalidade infantil, 22%; e a desnutrição caiu pela metade.
Estamos tirando do isolamento mais de 200 cidades ainda ligadas por estradas de terra; o saneamento subsidiado alcança comunidades que nunca contaram com a efetiva presença do Estado; a energia alcança todo o interior, as localidades mais distantes; a telefonia celular não é mais privilégio apenas das grandes cidades.
A economia mineira cresceu quase sempre acima da média nacional e geramos proporcionalmente mais empregos que a média brasileira. Já alcançamos cinco das oito metas do milênio. E o Ipea projeta que vamos erradicar, três anos antes do país, a pobreza extrema.
Esses são resultados de governo e projeto que têm os pés no presente e preparam o futuro sem se afastar, um só instante sequer, dos nossos valores e da nossa história. Tenho convicção de que esta Minas autônoma, altiva e próspera, senhora do seu destino, pode contribuir muito mais com a construção do Brasil do nosso tempo.
ANTONIO ANASTASIA, 49, advogado, é governador de Minas Gerais e candidato à reeleição pelo PSDB.
O custo da arrumação
O custo da arrumação
Rolf Kuntz - O ESTADO DE SÃO PAULO
Alguém vai ter de arrumar a casa depois da festa, e o trabalho vai sobrar para o próximo governo. Até lá, o discurso triunfal continuará no ar: a economia cresce, o emprego aumenta, os consumidores vão às compras, a inflação está perto da meta e não falta dinheiro de fora para fechar as contas. Mas a festa é cara, tanto em reais quanto em dólares, e não será possível engavetar a fatura por muito tempo. Vista de perto, a cena é muito menos bonita. Basta examinar três detalhes com um pouco de atenção.
Em primeiro lugar, o governo central precisou de R$ 6,8 bilhões de dividendos para fechar o mês de agosto com um superávit primário de R$ 4 bilhões. Em outras palavras, o Tesouro gastou mais do que arrecadou de tributos. Só conseguiu uma sobra, destinada ao pagamento de juros, graças à contribuição das estatais. Neste ano, até agosto, a receita bruta do Tesouro Nacional foi 16,3% maior que a de um ano antes. Mas as despesas ficaram 19,6% acima das contabilizadas no mesmo período de 2009. Com a economia em rápido crescimento, já não se poderia falar de política antirrecessiva.
Para alcançar a meta global de superávit primário de 3,3% do PIB, o governo vai recorrer a truques contábeis. Até a capitalização da Petrobrás será aproveitada e o Tesouro poderá registrar uma receita extra de cerca de R$ 30 bilhões. A operação foi explicada mais uma vez na edição de ontem. Enquanto isso, cresce a dívida bruta, com a emissão de papéis do Tesouro para financiar bancos estatais. Esse é o dado importante para os credores. Eles querem receber seus créditos e raramente se deixam enganar pela contabilidade criativa. O próximo governo terá de levar isso em conta.
Em segundo lugar, as pressões inflacionárias têm sido amortecidas pelo dólar barato e pelo aumento das compras externas. Neste ano, até agosto, os gastos com importação de bens de consumo foram 50,7% maiores que os de um ano antes. As despesas com matérias-primas e bens intermediários – insumos incorporados, na maior parte, em artigos destinados ao consumidor – ficaram 43,7% acima daquelas contabilizadas nos meses correspondentes de 2009. As compras de todos esses itens equivaleram a 63,4% do valor das importações totais. Não há nada de errado no aumento do consumo, nem na compra de produtos estrangeiros. O dado preocupante é o descompasso entre o crescimento das importações – 45,7% maiores que as de um ano antes – e o das exportações – 28% superiores às de janeiro-agosto do ano anterior. O saldo comercial foi 41,6% menor. Essa tem sido uma das causas do aumento do buraco nas transações correntes com o exterior. O déficit está projetado em cerca de US$ 50 bilhões neste ano e US$ 60 bilhões no próximo. Crise à vista? Não por enquanto. Mas o novo governo terá de pensar também nisso, porque o balanço de pagamentos se deteriora rapidamente e seu financiamento depende, cada vez mais, de dinheiro volátil.
Em terceiro lugar, o próximo governo terá de enfrentar ao mesmo tempo dois desafios. Precisará equacionar esses problemas: contas públicas mais desequilibradas, contas externas mais vulneráveis e demanda interna em crescimento mais veloz que a produção de bens e serviços. Esse desequilíbrio se reflete no balanço de pagamentos e só não causa uma inflação maior graças ao crescimento das importações. O outro desafio será promover as mudanças necessárias a ajustes duradouros sem se deixar deter pelos obstáculos políticos.
Haverá resistência a qualquer esforço de arrumação das contas públicas. Será duro negociar as mudanças tributárias indispensáveis a qualquer política decente de competitividade. É fácil, agradável e muito rendoso eleitoralmente praticar populismo com recursos públicos. A história é outra, quando se passa a avaliar com maior rigor o custo e o benefício de cada programa e de cada projeto.
A era dos truques e das promessas fáceis não terminará de um dia para outro. Até o fim do ano o governo usará a contabilidade criativa para embelezar as suas finanças. O ministro da Fazenda continuará prometendo ações prontas e eficientes para conter a valorização cambial, como se tivesse armas e munição para isso. Os desajustes crescentes continuarão sendo apresentados como efeitos da prosperidade. São mesmo, em alguns casos, mas não deixam de ser desajustes nem crescentes.
O Brasil tem sido apontado como um candidato respeitável ao status de potência. Poderá alcançar essa condição, dentro de alguns anos, se não afundar de novo no atoleiro das políticas irresponsáveis. O risco é concreto e não será eliminado com truques contábeis.
Programa eleitoral na TV é ficção
Programa eleitoral na TV é ficção
Rosângela Bittar - VALOR ECONÔMICO
Se há marca do primeiro turno, foi a ausência da política.
Por mais que se procure nos discursos, nos programas de governo, nas entrevistas, nas reuniões partidárias e nas exibições de televisão do horário eleitoral gratuito, desta campanha eleitoral que se encerra em primeiro turno esta semana, não se encontra a política. Foi uma campanha de pouca, ou nenhuma política.
Dos três principais candidatos a presidente foi José Serra (PSDB) quem mais cuidou de lançar ao seu eleitorado algumas ideias - começou em março - sobre o que vem pensando ser importante hoje, para o Brasil. Aí apareceram, antes de outros, considerações em torno de uma política sobre uso drogas e atenção a deficientes físicos, uma reflexão mais abrangente sobre a segurança pública, indicações de programas específicos para melhorar a qualidade dos serviços públicos no país, da educação à saúde, alguns dos flagelos nacionais que persistem. Entre outros.
Foi o primeiro a propor - lá naqueles idos - e insistir, até para viabilizar sua candidatura, que a campanha se desse em torno da discussão de propostas e soluções. Queria que o eleitor comparasse a qualificação dos candidatos. Não encontrou eco, e recuou quando a campanha entrou na sua fase formal.
A candidata Marina Silva (PV) quis tanto fugir das críticas sobre o fato de ser monotemática que fez sumir de seu discurso as questões de fundo relacionadas ao ambiente. Repetir exaustivamente a palavra prioridade, tudo sendo prioritário, nada é, e a divulgar, ela sim, a única, um programa de governo completo e extenso com avalanches de prioridades, ao TSE. Quando mencionou uma preocupação específica, com o uso abusivo do crack no país, e o governo Lula lançou imediamente um programa nessa área, no afogadilho da campanha, recolheu suas ideias para evitar plágio.
A candidata favorita, em primeiro lugar em todas as pesquisas de intenção de voto, Dilma Rousseff (PT), defendeu, em síntese, a continuidade. O governo Lula é bem avaliado, popular, e quer continuá-lo. Continuar o quê? Preferiu não entrar em detalhes certamente por ser óbvio que, como candidata do presidente, continuaria tudo que o eleitor aprova, mas não poderia anunciar descontinuidade do que pretende corrigir para não ser indelicada com seu criador.
Aí chegaram os programas de televisão no horário eleitoral gratuito e, neles, salpicados aqui e acolá, uma rede de creches, duas de ambulatórios, o aumento do percentual do PIB para uma área, ou outra. Relevância e credibilidade zero.
A política se esgotou nas preliminares, a formação das coligações. Que resultaram em definição do tempo de propaganda na televisão. Onde a política não apareceu.
Nesta campanha, se houve, ninguém percebeu uma discussão sobre o assunto mais momentoso do país, há dois anos na agenda, a nova proposta de exploração do petróleo. Ou se a capitalização da Petrobras deveria ter sido feita em um momento difícil como este, de campanha e a empresa perdendo parte do seu valor. Não se trata de não fazer, mas de discutir.
Onde se deu a discussão sobre o modelo de energia do país, que ainda submete o eleitorado a apagões sucessivos como nos últimos dez anos? E as medidas provisórias, que viraram instrumentos únicos de governo, distorcendo a relação entre os poderes? As reformas são assunto vetado em campanha eleitoral porque incomodam corporações, que têm e puxam voto, ficaram de bom grado ausentes.
O mesmo se dá com a criação de impostos, que oneram a classe média assalariada e nenhum candidato quer assumir sua intenção de recorrer a esta arrecadação fácil, subentendida na pseudo defesa de mais verbas para a saúde. Deixam o dilema na mão do eleitor. A corrupção política, um tema forte sempre presente até em sociedades mais desenvolvidas, foi agora atropelado pela interdição do debate, pela intimidação promovida por quem se sentiu mais atingido em suas perspectivas eleitorais.
Nem a internet, que ensaiou ser uma presença inovadora no início, principalmente pela repercussão em noticiários de meios de maior alcance, e poderia ser o veículo para a política, vingou até o fim. A campanha de primeiro turno, em 2010, foi o programa de TV, e, esse, tem sido ficção quase pura, até para ter alguma audiência.
Em seu livro "Emoções Ocultas - Estratégias Eleitorais", o sociólogo Antonio Lavareda havia previsto que neste, e nos próximos ciclos eleitorais, a televisão continuaria jogando as principais cartas. Hoje constata que no primeiro turno de 2010 foi mesmo absolutamente preponderante.
Mas acha que o bom senso dos envolvidos vai levar à mudança, numa reforma das normas de campanhas eleitorais, desses programas em bloco, por serem inócuos. "A audiência diminui sensivelmente quando entram na programação, são um transtorno para as pessoas, um estorvo para as campanhas porque constituem o principal item do seu orçamento e o menos útil". A audiência medida em pesquisas, diz Lavareda, anota as pessoas que estão com a TV ligada, sem prestar atenção, porque na verdade não chegam a 15% os que estão vendo, de verdade.
"Em grande medida essa audiência é composta de aficionados, assim como quem assiste jogo de futebol é torcedor de futebol. Não se conhece ninguém que tenha mudado de time assistindo o jogo de futebol pela TV". Em sua opinião, uma reforma simples das normas de campanha poderia fragmentar esses blocos, diluir a propaganda nos comerciais, que teriam ampliado o tempo de sua exibição, inclusive para durar todo o período de campanha legal, que começa em julho. Como os comerciais são mais frequentes, o registro de memória é maior. As campanhas seriam não só menos caras, mas mais úteis.
Profissionais que trabalham em campanha adversária à do ex-presidente Fernando Collor, em Alagoas, que disputa o governo, estão impressionados com o percentual de jovens entre seus seguidores. São pessoas que, em 1991, tinham acabado de nascer, e para quem, hoje, com o título de eleitor em mãos, um Fiat Alba é o carro da namorada. Collor, como fez quando candidato a presidente, trabalha orientado por pesquisas, e apostou nesta faixa etária. O Rap pontua toda a sua propaganda.
Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras
Notas de um marciano
Notas de um marciano
Roberto DaMatta - O Globo - 29/09/2010
Cheguei ontem à região tropical da Terra. Curiosamente, o planeta é recortado num conjunto do que eles chamam de países: agrupamentos com histórias ridiculamente parecidas, encapsulados por territórios vistos como autônomos, dotados de leis próprias e norteados por um dogma chamado de soberania. Diferentemente de nós que nos sabemos ligados a todos os seres vivos e a todo o universo, pois nele estamos e a ele retornamos depois dos nossos bem vividos 500 anos com vida sexual plena e ativa, eles têm uma aguda consciência do diferente. Embora vizinhos e separados por marcos arbitrários, eles vivem como se fossem estrangeiros. Estão convencidos que são compartimentos coletivos singulares, capazes de praticar e fazer o que quiserem, mas sabem que são parte de um conjunto maior, conforme é claro ao nosso olhar marcianamente distanciado.
O resultado desta concepção individualista é o constante confronto com o bem-estar geral e coletivo; e um conjunto de dualidades que tem sido a tônica de sua visão de mundo. Pois, para eles, tudo se reduz a oposições do tipo real/ideal, nós/eles, humanidade/animalidade, vida/morte, pobres/ricos... quando - na verdade - sabemos que, quanto mais um lado engloba e recalca o outro, mais esse outro lado retorna assombrosamente fortalecido. Engolfados nessas oposições, os terráqueos tudo pressentem, mas nada podem fazer porque não têm como desmontar o seu sistema e a si mesmos de um golpe. É possível que venham a liquidar-se. De fato, os países que chamam de "mais adiantados" e que consideram superiores são os que mais poluem e destroem e, não obstante, são os que mais exportam o seu modelo de exploração do planeta. Mesmo agora, quando uma consciência planetária os atingiu, eles continuam imitando esse modelo que tem como base uma suposta ilimitada riqueza do que enganadoramente chamam de "natureza". Ademais, começam igualmente a descobrir que tudo tem relação com tudo, pois deles é uma coisa única e milagrosa: o seu planeta é vivo. Nele, conforme observamos há milênios com a nossa marciana inveja, tudo tem um ciclo e esses ciclos vitais se entrelaçam em circuitos complexos, de modo que há sempre um jogo milagroso e comovente entre a vida e a morte.
Ao chegar num país em forma de presunto, chamado Brasil, observo que estão em tempos eleitorais. Curioso que nem o presidente desta república tenta agir como árbitro, muito pelo contrário, sua visão é primariamente partidária, apaixonada e totalmente centrada no desejo de vencer a eleição a qualquer preço. O que ele aceita na vida (perder e ganhar) ele não aceita na Presidência. Li sua furiosa entrevista no meu computador telepático e fiquei estarrecido porque ele fala do papel dos jornais no Brasil, mas todo mundo sabe que ele próprio não lê. Pior: diz que tem azia quando lê algum jornal. Dei um giro pelo país e constatei que, mesmo tendo proclamado uma república em 1889, os brasileiros ainda não têm noção do que seja uma sociedade democrática. Pois confundem individualismo com egoísmo, e egoísmo com altruísmo. Assim, fazem suas falcatruas em nome do que chamam de "povo"; e mesmo tendo uma visão partidária exclusiva e um tanto fascistoide, a faceta pessoal de suas vidas - seus laços com parentes e amigos - está sempre pronta a vir à tona nas situações nas quais bens coletivos estejam em jogo. Por isso, os brasileiros adoram "coisas públicas", espaços públicos e, acima de tudo, dinheiro público, que para eles pode ser apropriado como se não fosse de ninguém. Como tiveram escravos até um ano antes de proclamarem a república, tudo o que é público é da elite política. O processo eleitoral mostra isso claramente, pois os candidatos não apresentam programas, mas rezam ladainhas e repetem fórmulas mágicas denominadas "promessas eleitorais". Meros engodos para que o candidato seja eleito. Na realidade, hoje em dia eles não têm representantes, mas mediadores - ou padrinhos. Candidatos cuja distinção (como a dos santos) é o acesso que teriam ao presidente, tomado como um Deus nesta terra cheia de papagaios da espécie galvão.
Quando estava de partida, assisti a um evento notável. Uma reunião de sua Corte Suprema discutindo um projeto de lei que existe em toda e qualquer sociedade civilizada. Trata-se de uma regra que impediria ladrões e corruptos de serem candidatos a cargos públicos e usarem a legislação nacional que lhes permite escapar de tudo em nome de imunidade política definida com má-fé. Fiquei alarmado porque, mesmo diante da obviedade da causa, os magistrados se dividiram. Metade apoiava a lei; uma outra, arguia filigranas legais contra ela. Discutiram por mais de dez horas. Não conseguiram decidir. Repetiram, reiteraram e reafirmaram o que foi chamado de "dilema brasileiro" por um tal de DaMatta, dos mais medíocres estudiosos locais. Aquela indecisão estrutural constitutiva do Brasil que até hoje o faz oscilar entre seguir o caminho da igualdade ou o da aristocracia e da desigualdade. A via habitual que garante aos superiores não cumprir as leis. Devo ainda chamar atenção para...
A essa altura, leitor, eu perdi a comunicação mediúnica com o espírito desse marciano. Sinto muito, mas aqui fico com a depressão e a indignação de um velho brasileiro.
A derrota de Chávez
A derrota de Chávez
EDITORIAL - O Estado de S. Paulo - 29/09/2010
O autocrata venezuelano Hugo Chávez havia definido a eleição legislativa do último domingo em seu país como um "plebiscito" sobre o seu governo e prólogo do pleito presidencial de 2012, quando disputará o quarto mandato desde 1998. Ele prometeu "massacrar" a oposição e "ganhar por nocaute". Não só não conseguiu nada disso, como sofreu um estrondoso revés político.
É verdade que a legenda chavista, o Partido Socialista Unificado de Venezuela (PSUV), obteve 98 das 165 cadeiras da Assembleia Nacional, ao passo que a oposição, a Mesa de Unidade Democrática (MUD) constituída por 18 partidos, ficou com 65. Mas esse resultado privou Chávez da maioria de 2/3 que lhe permitiria aprovar leis orgânicas e mudanças constitucionais - e, no limite, governar por decreto.
Era o que vinha fazendo com incontestada desenvoltura desde que a oposição cometeu o erro histórico de boicotar a eleição parlamentar de 2005, para não legitimar o que previa ser uma fraude. Sem adversários - e com um comparecimento às urnas de ridículos 25% -, o caudilho teve às suas ordens um Legislativo 100% chavista, reduzido a uma repartição do Palácio Miraflores, a sede do Executivo. Com o tempo, 10 deputados formaram uma dissidência que, evidentemente, não freou a descida da Venezuela para o regime liberticida do "socialismo do século 21".
Quando se deu conta de que não teria a mesma sorte no pleito seguinte, Chávez preparou uma cama de gato para os adversários. Fez aprovar uma nova demarcação dos distritos eleitorais - o sistema venezuelano é o distrital -, para aumentar a representação das áreas chavistas e vice-versa. Para se ter uma ideia, num Estado rarefeito, de maioria governista, passaram a bastar 20 mil votos para eleger um congressista, ante 400 mil num Estado populoso, simpático à oposição. A mudança nas regras do jogo não foi tudo.
O governo reteve o repasse de verbas para as regiões governadas por oposicionistas, transformou legiões de servidores públicos em cabos eleitorais, com abundante infraestrutura, e deu aos candidatos de seu partido praticamente o monopólio da propaganda nas emissoras estatais. Sem falar na multiplicação de sua presença nos comícios do PSUV, religiosamente reproduzida na TV chavista. Chega a ser uma proeza, portanto, o desempenho eleitoral da oposição, refletindo a erosão do prestígio de Chávez.
Com uma taxa de comparecimento de 67% - um indicador do ânimo mudancista do eleitorado em países, como a Venezuela, onde o voto é facultativo -, a frente de oposição obteve, segundo uma contagem extraoficial, 5,4 milhões dos votos válidos, cerca de 190 mil a mais do que a situação. A manipulação das regras eleitorais explica por que os 46% de votos populares pró-Chávez se transfiguraram em 59% das cadeiras na Assembleia e por que os 48% conquistados pela oposição nas urnas não lhe deram mais de 39% das vagas. Estima-se que apenas a remarcação dos distritos adicionou à bancada chavista 30 deputados.
Não há muito mistério no avanço oposicionista. O governo é um rematado desastre. Na contramão da América Latina, a Venezuela está há 15 meses em recessão. A inflação anual é da ordem de 30% e a acumulada nos 11 anos de chavismo chega a 733%, o desemprego é descomunal (cresceu 42% no último ano e meio) e a desigualdade voltou a se agravar. Faltam energia e alimentos. Sobram corrupção e incompetência: 130 mil toneladas de gêneros importados apodreceram nos portos do país. Por fim, a criminalidade atinge níveis aterrorizantes. A violência mata uma pessoa a cada meia hora.
O que não está claro é o que Chávez vai fazer de sua derrota política. Ele tem uma janela de oportunidade de 3 meses - a nova Assembleia só assumirá em janeiro - para se conter ou desembestar de vez, fazendo aprovar nesse período o que queira. Notadamente, a Lei das Comunas, unidades administrativas ditas autônomas, porém diretamente ligadas ao Executivo. Além da reorganização político-territorial do país, poderá surgir uma "assembleia comunal" para retirar poderes do Legislativo. "Chávez é hoje uma fera acuada", compara um observador estrangeiro em Caracas. "Nessas condições, é ainda mais imprevisível."
Que lição tirar?
Que lição tirar?
Zuenir Ventura - O GLOBO - 29/09/10
Se Dilma Rousseff for eleita presidente da República, como as pesquisas ainda indicam, muitas crenças sobre comportamento e tomada de decisão dos eleitores terão que ser reavaliadas.
A primeira é se é possível saber o que leva alguém a escolher um candidato e de que é feita essa fidelidade - se é um processo exclusivamente emocional ou se a racionalidade tem também um peso na escolha.
O que faz a nossa cabeça: imprensa, família, amigos ou um pouco de tudo? Ou, em vez disso, é o bolso, ou seja, o acesso ao consumo? Em matéria de entretenimento cultural - filmes, peças, livros, shows - parece que o boca-a-boca funciona mais do que a crítica impressa. Mas em meio às paixões de uma campanha eleitoral não é fácil entender a situação, mesmo quando se pretenda ser mais testemunha do que juiz e se persiga uma posição de equilíbrio e equidistância.
Aparentemente, a principal formadora de opinião de um país é a chamada mídia: jornais, revistas, TV, rádio, internet. Mas se é assim, como é que a candidata do PT mantém seu favoritismo, ainda que em queda, quando a maioria dos veículos está contra ela? E se não é assim, se a imprensa não tem todo esse poder de influenciar, por que Lula se revoltou tanto, desqualificando o seu papel? Quais são as razões pelas quais um líder esperto como ele, no auge da popularidade, capaz de transferir votos e eleger a sucessora, desnorteou-se na reta de chegada e iniciou uma desenfreada escalada de ataques? Por desconhecimento é que não foi. Uma das melhores explicações para a relação poder x imprensa, é dele: "Notícia é o que o governo quer esconder; o resto é propaganda." Pode-se alegar que é da natureza de todos os governantes maldizer a mídia e tentar controlá-la quando são contrariados.
Inclusive os mais liberais. Até o tolerante JK, que aboliu a censura logo após chegar à presidência ("Quero a imprensa desatada, mesmo para ser injusta comigo"), proibiu Carlos Lacerda de falar no rádio. O próprio FHC, também um democrata, saiu do governo queixando-se e insinuando que um ou outro jornal queria o seu impeachment.
Lula talvez tenha sido o que mais xingou e foi xingado pelos jornais e revistas (é impressionante o ódio que desperta em algumas pessoas). O presidente cometeu a besteira de acusar a imprensa de golpista e recebeu a classificação, também injusta, de fascista, quando na verdade falou mais bobagem do que fez - até porque nessa matéria, quando pensou fazer, com o "controle social", a sociedade reagiu.
Não se sabe se alguma lição vai ser tirada dessas eleições. Especialistas em pesquisa disseram que o eleitor não gosta de tiroteio, de troca de acusações. Se isso é verdade, há o que aprender com essa campanha
Marina x Dilma! LUTA NO GEL!
Marina x Dilma! LUTA NO GEL!
JOSÉ SIMÃO - FOLHA DE SÃO PAULO - 29/09/10
E tem mulher fruta em Brasília. A Mulher Laranja! A mulher do Roriz. Laranja, não. Bagaço
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador-Geral da República! Ereções 2010! Vai dar JACARÉ! Briga de muié! A Marina tá comendo os votos da Dilma! Vai dar jacaré! Muié x Muié! Luta no gel com Marina e Dilma! Hipopótamo x Ema!
E se a Marina ganhar, ela vai ter que pedir autorização pro Ibama pra viajar pro exterior? Rarará. E o Serra devia comprar um estacionamento, só fica estacionado mesmo. E o Plínio tá parecendo o avô do Dom Quixote. E diz que ele vai fazer o remake de Cocoon! Rarará!
E eu vou votar naquele candidato do PP: MAGAL EXTERMINADOR DE INSETOS! Pra exterminar todos os candidatos! Rarará! Indecisos e Indecentes! Votem em mim pra presidente! HOJE: CORPO A CORPO COM A CLEO PIRES!
E se me virem fazendo corpo a corpo com o Serra, pode chamar a polícia que é sequestro. Se me virem fazendo corpo a corpo com a Dilma, pode chamar a policia que é briga. Se me virem fazendo corpo a corpo com a Marina, chama o Ibama! E corpo a corpo com o Plínio, chama o medico que é Alzheimer! Rarará!
E vai ter segundo turno? Petistas histéricos! Tucanos descontrolados! Uma senhora tucana me assediou no supermercado: "Dê uma forcinha! Dê uma forcinha". "Minha amiga, eu não sou VITASAY pra ficar dando forcinha." Rarará!
E vocês já viram as caras dos candidatos? Eles estão esgotados. Eu digo esgotados em todos os sentidos! E eu tô achando que essa Marina tem uma treta antiga com essa Dilma. Tipo a vingança será maligna! E essa: "67% do eleitorado de Marina não sabe seu número". Nem ela sabe! E a Dilma não caiu da esteira, caiu numa areia movediça! E no dia do debate da Record, o Palocci escorregou no palco e caiu. DE NOVO?! Rarará!
A Galera Medonha! A Turma da Tarja Preta! E tem mulher fruta em Brasília. A Mulher Laranja! A mulher do Roriz. Laranja, não. Bagaço. E diz que o Roriz é o Maluf do cerrado! O Maluf do cerrado e a Mulher Bagaço! Rarará!
E tinha um programa bem antigo de televisão chamado "Almoço com as Estrelas". E a avó dum amigo vendo o otário eleitoral: "Isso tá parecendo o "Almoço com as Estrelas": Agnaldo Timóteo, Moacir Franco, Juca Chaves, tem até o Nelson Gonçalves". "Vó, esse não é o Nelson Gonçalves, é o Aloysio Nunes." Rarará! A situação tá ficando psicodélica. Ainda bem que nóis sofre, mas nóis goza.
DECLARAÇÃO DE VOTO Estatura moral e simbólica é justamente o que Marina me parece ter de sobra
Declaração de voto
Estatura moral e simbólica é justamente o que Marina me parece ter de sobra
Francisco Bosco – O Globo
F. Scott Fitzgerald, o autor de “O grande Gatsby”, pensava que “uma inteligência de primeira linha” deveria ter “a habilidade de sustentar duas ideias opostas na mente, ao mesmo tempo, e ser capaz de operar desse modo”. Concordo. Procuro ter uma visão ambivalente e complexa da realidade; desconfio das perspectivas demasiadamente seguras e unilaterais. O cenário político brasileiro, às vésperas das eleições, exige um modo de pensar fitzgeraldiano. Tentarei exercê-lo aqui, apesar do pouco repertório que tenho nesse campo.
De início, o que caracterizou o governo Lula, no conjunto de seus dois mandatos? A referência à tese de André Singer, ex-porta-voz do presidente Lula, me parece incontornável.
Para ele, houve, nesse período, um realinhamento do eleitorado brasileiro: a classe média afastou-se do PT, cuja base de votos passou a ser a classe mais baixa, grande maioria do eleitorado.
Parte da esquerda não suportou a decepção com o alinhamento de Lula às diretrizes principais da macroeconomia no período FHC: altos superávits primários, juros elevados, autonomia do Banco Central. Ao final de 2003, os dissidentes fundaram o PSOL. O escândalo do “mensalão”, em 2005, acrescento eu, terá contribuído para afastar do PT eleitores de sensibilidade republicana, e foi uma ferida até hoje não cicatrizada na estrutura moral do partido.
Entretanto, segundo Singer, desde o final de 2003 o governo Lula lançava as bases do que futuramente lhe asseguraria altíssimos índices de aprovação junto às classes mais baixas: o Bolsa Família, um vasto programa de crédito e, em seguida, um aumento progressivo e significativo do salário mínimo. O conjunto de medidas elevou bastante o poder aquisitivo dos mais pobres, fazendo surgir um poderoso mercado interno de massas, movimentando a economia brasileira.
Assim, ao final do mandato, apesar do mensalão, Lula sagrou-se reeleito. De lá para cá, a economia tem crescido com constância, milhões de empregos foram gerados e o Brasil atravessou sem maiores turbulências a crise sistêmica do capitalismo em 2008. Tudo isso me parece irrefutável.
Mas o lulismo segundo Singer tem seu outro lado da moeda. É o lulismo da condescendência ao velho fisiologismo da política brasileira, da omissão diante de questões morais que exigem uma postura clara e inflexível, do culto à personalidade, das tentações autoritárias de controle da imprensa e das artes. Além disso, há ainda o tão propalado aparelhamento do Estado, que parece ser a versão petista, mais ideológica, do tradicional “Estado patrimonial de estamento”, como diria Raymundo Faoro.
Tudo isso vem sendo compendiado, com exatidão e clareza, nas colunas de Merval Pereira, desde 2002, e agora reunidas no livro “O lulismo no poder”. Merval me parece imprescindível, mas discordo quando ele afirma que não houve reformas estruturais no governo Lula: não consigo ver uma reforma mais fundamental que a diminuição drástica da pobreza.
Acredito que o governo Dilma manteria as virtudes principais do governo Lula, mas temo pelo agravamento dos seus defeitos, dadas as condições de alta popularidade e ampla aliança política.
Tenho pavor de totalitarismos.
Uma das frases-guias da minha vida é aquela de Thomas Jefferson: “Prefiro as inconveniências decorrentes do excesso de liberdade às decorrentes de um grau pequeno dela.” Por isso, penso que a alternância de poder é importante para a democracia.
O que fazer, então? Aqui devo dizer que estou entre aqueles para os quais o Brasil fez progressos extraordinários no período FHC-Lula. Sou democrata convicto e de forte tendência reformista. Reconheço que a perspectiva reformista é facilitada numa situação, como a minha, de classe média (embora, segundo Singer, o eleitorado de baixíssima renda também deseja que as mudanças se deem sem ameaça à ordem). E reconheço ainda que parte da esquerda encara o reformismo lulista como uma decepção diante do sonho de justiça social mais rápida e igualitária.
O que fazer? A candidatura de Serra padece de uma dificuldade que o psicanalista Tales Ab’Sáber descreveu com exatidão: Lula, ao realizar um governo “de grande liberdade liberal”, ao seguir, e talvez aperfeiçoar, a linha macroeconômica do governo FHC, “roubou a verdadeira base social tucana”.
Não vejo, com efeito, em que a candidatura Serra se diferencia fundamentalmente da de Dilma.
Marina Silva, entretanto, sinaliza com uma diferença importante. Se o governo Lula se definiu por uma profunda transformação material, sobretudo entre as classes mais baixas, definiuse também, pelas razões já expostas e ainda outras, por certa precariedade moral e simbólica. Estatura moral e simbólica é justamente o que Marina me parece ter de sobra. Não apenas pela centralidade da questão ambiental, mas por sua altivez e elegância e pelas declarações tão equilibradas como incisivas. É óbvio que sem uma base material digna, sem justiça social econômica mais profunda, não se pode pleitear um enriquecimento simbólico.
Mas esse rumo acredito que o país não perderá, seja com quem for.
Tudo somado, então, apesar de reconhecer os feitos, notáveis, da gestão Lula, e enxergar virtudes na figura política de Serra, meu voto vai para a candidata que me parece sinalizar para um projeto civilizatório que ultrapasse o desejo, humanamente acanhado, de comprar um iPhone ou uma TV de plasma de 30 polegadas.
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