quinta-feira, setembro 30, 2010
Outra jabuticaba
Outra jabuticaba
Brasil Econômico - 30/09/10 07h13min | Adriano Pires - Diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura
Com o término do processo de capitalização da Petrobras e com a possível aprovação na Câmara dos Deputados do projeto que institui o modelo jurídico da partilha e cria o Fundo Social, estão concluídas as modificações no atual marco regulatório da indústria do petróleo e do gás natural no Brasil.
O governo conseguiu aprovar com total êxito tudo o que propôs e a principal consequência dessas alterações será uma maior intervenção do Estado no setor e na Petrobras.
O ato final contou com a presença na Bovespa do presidente Lula e de outros ministros no lançamento das novas ações da empresa.
A oferta foi a maior já realizada no Brasil e no mundo, atendendo tanto os interesses da estatal, com a entrada de dinheiro novo e a possibilidade de contrair novos empréstimos, como do governo, que aumentou a sua participação acionária na empresa.
O governo e o BNDES, que tinham 39,2% das ações, passaram para 47,3%, a Petrus ficou com 0,8% e a Previ com 2,9%. A oferta pública dos papéis totalizou, com a provável colocação de lote suplementar, R$ 120 bilhões.
Desse total, a União entrará com R$ 76,8 bilhões, montante R$ 2 bilhões superiores ao previsto. Dos R$ 76,8 bilhões, R$ 49,3 bilhões são do Tesouro Nacional, R$ 22,4 bilhões representam a participação do BNDES e R$ 5 bilhões do Fundo Soberano do Brasil. Chamou a atenção a forma como o BNDES vai pagar a ampliação da sua fatia na Petrobras de 7,7% para 11,6%.
Os recursos virão através de um novo empréstimo do Tesouro Nacional de até R$ 30 bilhões. Com mais esse aporte, os financiamentos do Tesouro ao BNDES, desde 2009, saltam de R$ 180 bilhões para R$ 210 bilhões.
Esse empréstimo foi formalizado através de mais uma medida provisória, publicada na sexta-feira, dia 24 de setembro. A MP especifica que a transferência dos R$ 30 bilhões será feita por meio de títulos públicos a serem emitidos pelo Tesouro.
O financiamento está vinculado à compra das ações da Petrobras e, portanto, não irá para o orçamento do BNDES. Um dos objetivos dessa operação é o de elevar o superávit primário do governo.
A capitalização é essencial para a Petrobras fazer face aos investimentos de US$ 224 bilhões previstos para os próximos 5 anos, sem incluir os investimentos nas áreas do pré-sal da cessão onerosa.
Com uma dívida total de R$ 100 bilhões, a estatal estava próxima do seu limite máximo de endividamento. No final do ano passado, a taxa de alavancagem da empresa era de 31%, a maior desde 2004.
Para manter a classificação de investment grade, a empresa deve manter a sua alavancagem abaixo do teto de 35%, grau imposto pela sua política financeira. Sem a capitalização, a captação de empréstimos comprometeria esta política e encareceria o custo dos empréstimos.
A capitalização é mais uma jabuticaba. Foi a maior do mundo, porém sem nenhum risco de não ter sucesso, já que no limite o governo compraria todas as novas ações. Além do mais, é uma capitalização com cara de estatização, dado que um terço da oferta total foi adquirida com dinheiro público.
Adriano Pires é diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura
Aperto rotineiro
Aperto rotineiro
Alon Feuerwerker – Correio Braziliense
A movimentação do governismo nesta reta final é sintomática da estreiteza das margens.Há pesquisas para todos os gostos, mas todas dizem que será apertada a decisão entre haver ou não segundo turno na eleição presidencial de domingo.
Não haveria porque ser diferente.Tem sido assim desde 1994.
Em 1989 houvera grande pulverização, mas cinco anos depois (o mandato ainda era de cinco anos sem reeleição) Fernando Henrique Cardoso raspou na trave (pelo lado de dentro) no primeiro turno, com 55% dos votos válidos.
Luiz Inácio Lula da Silva quase chegou aos 40%. Enéas Carneiro, Orestes Quércia, Leonel Brizola e Esperidião Amin empacaram cada um no patamar de 1-2%.Não tiveram peso decisivo.
Em 1998 FHC abocanhou 53%, Lula recuou para 32% e Ciro Gomes resvalou nos 11%. Enéas ficou com 2%. Eram os únicos expressivos.
Em 2002 Lula teve que ir ao segundo turno com 46%. José Serra passou com 23%, Anthony Garotinho ameaçou com 18% e Ciro Gomes terminouem12% Em 2006 Lula voltou a raspar a trave, mas pelo lado de fora, com 49%. Geraldo Alckmin pegou 42%. Heloísa Helena roçou os 7% e Cristovam Buarque, os 3%.
O que dizem os números? Primeiro turno para presidente no Brasil é apertado, na alegria ou na tristeza, na bonança ou na escassez.
A fórmula para evitar a segunda rodada é sempre a mesma: combater ferozmente a pulverização do seu próprio campo.
Foi o que fez Lula agora, quando em parceria com a cúpula do PSB detonou a candidatura de Ciro Gomes.Quis chegar à situação atual, Dilma Rousseff com chance real de matar o assunto logo de cara.
Copiou,também aqui, a carnificina promovida por FHC no PMDB para evitar que Itamar Franco conseguisse em 1998 a legenda para buscar uma nova temporada no Palácio do Planalto.
Qual o obstáculo ao plano original de Lula/ Dilma? Marina Silva não confirmou, até agora, os repetidos prognósticos de desidratação.
A candidata verde superou o maior desafio, sair do cercadinho, deixar de ser uma candidata só verde.
Há um único método infalível para aferir que pesquisas de intenção de voto estão mais certas a esta altura. Infelizmente, o método exige esperar a contagem das urnas eletrônicas no domingo.
De todo modo, o governo/ PT parece mais incomodado este ano com a possibilidade de um anova rodada, na comparaçãocom2006.
A explicação fácil é que agora a candidata é Dilma, e não Lula.
O desafio maior, entretanto, está em outro aspecto.
Em grandes linhas, Lula já conseguiu reunir para Dilma tudo o que havia para juntar. Num eventual segundo turno, não haverá migração natural em bloco dos votos de Marina Silva (se ela ficar fora).
Já em 2006 o caminho óbvio dos eleitores de Cristovam Buarque e, principalmente, Heloísa Helena era o PT. Isso mais as alianças rápida e eficazmente costuradas por Lula levaram Alckmin a ter menos votos na rodada decisiva do que tivera na anterior.
Bombando Entre os erros políticos deste governo, o Programa Nacional de Direitos Humanos, na sua terceira versão (PNDH-3), tem tudo para brilhar além na galeria.
De lá para cá, só o que o PT e sua candidata fazem é correr atrás do prejuízo, dizer a cada dia que o ali escrito não é para valer, é de mentirinha.
Agora Dilma compromete-se a não impulsionar mudanças legislativas para ampliar o direito ao aborto. Faz parte da estratégia de controle de danos do governo/PT nesta reta final.
Talvez devessem cobrar o sujeito que teve a ideia genial de mandar o presidente da República assinar um papel que classifica a defesa do aborto como uma linha a separar quem defende os direitos humanos e quem não.
No YouTube, a polêmica sobre o tema é um sucesso estrondoso.
Acho que nunca os pastores e os padres bombaram como estão bombando com seus vídeos na net. Talvez só os cantores tenham antes conseguido a façanha.
O que dizem os números? Que primeiro turno para presidente no Brasil é apertado, na alegria ou na tristeza, na bonança ou na escassez. E a fórmula para evitar a segunda rodada é sempre a mesma: combater ferozmente a pulverização do seu próprio campo
Liberdade na internet também
Liberdade na internet também
Alexandre Barros O Estado de S. Paulo - 30/09/10
A discussão sobre a liberdade de informação é ótima, mas está centrada na mídia tradicional. Sem liberdade de circulação de ideias tudo para, dos pequenos prazeres às grandes inovações.
Mas pouco espaço tem sido dedicado à manutenção da liberdade na internet. Como ela é livre, poucos se lembram da importância de preservá-la assim.
Quem cresceu sem internet acha-a interessante, mas a maioria não explora todas as suas virtudes e liberdades. Quem cresceu com ela é mais audaz em buscar seus meandros mais interessantes e ousados, mas a estes falta a noção de como era o mundo sem internet.
A internet livre é o que mais se aproxima do mercado perfeito de Adam Smith, John Stuart Mill e Milton Friedman. Na internet você acha tudo o que quiser e faz praticamente o que bem entender, do mais interessante ao mais enjoativo. Se todos concordassem a respeito do que é interessante ou enjoativo, não teríamos apostas nem discussões.
Há muitas gente poderosa que quer censurar a internet. O controle pode ocorrer, acabando com a neutralidade da rede (que permite que todas as ideias circulem com a mesma velocidade e amplitude) ou censurando-a por acharem que ela é um depósito de informações perigosas.
Mas perigosas para quem? Se levarmos em conta as diversidades culturais, a internet serve tanto para defender o direito de Sakineh de não ser apedrejada quanto para defender a cultura que acredita que ela deva ser apedrejada.
Da diversidade e do embate das ideias é que surgem novidades criativas. Com censura as pessoas não podem informar-se sobre alternativas nem discuti-las.
Muitos acham inútil e perigoso que adolescentes passem horas sem fim navegando ou jogando com alguém do outro lado do mundo. Quem inventou a internet não pensou nisso, nem em que as pessoas poderiam comprar, vender, discutir, debater, namorar, casar ou encontrar almas irmãs para compartilhar os mais esdrúxulos (não necessariamente malévolos) gostos e preferências.
Dito assim parece chocante, mas a diversidade dos interesses humanos é muito maior do que imaginamos. Pessoas que visitam países "exóticos" porque tiveram dinheiro e interesse em lá ir comentam achar estranho que na Coreia se coma carne de cachorro ou que na China se cozinhe com gordura de iaque.
A internet permite-nos tudo isso de graça. Mais importante do que apenas preferências, a internet oferece a oportunidade a um enorme número de pessoas, que nunca teriam acesso a mais informações do que seus cinco sentidos e seus recursos econômicos permitem, de andar por caminhos impensados há 30 anos.
Nos início da internet a coleção de artes do Vaticano ficou famosa e competia em pé de igualdade com receitas para fazer bombas, como uma vez disse um senador da República, justificando a necessidade de censurar a internet.
Mas não nos esqueçamos de que a excentricidade tem livre trânsito na internet e dela surgem grandes invenções.
Foi preciso que Ford e outros excêntricos atinassem com a solução de colocar um motor na carruagem para as pessoas pararem de pensar que a solução para transportes mais rápidos seriam cavalos mais rápidos.
Outro excêntrico, menos conhecido porque muitas de suas ideias circularam limitadamente num mundo que ainda não estava pronto para elas, foi Nikola Tesla. Ele foi o inventor da corrente alternada que sai da sua tomada e alimenta todos os seus eletrodomésticos, das lâmpadas aos computadores. Tesla ficaria no anonimato, restrito a poucos entusiastas, se não fosse pela internet. Interrompi este artigo e busquei Tesla no Google: 14,7 milhões de referências. Sem ela poucos saberíamos que Tesla sequer existiu.
Prepare-se para as invenções dele. Estão sendo aplicadas no carro elétrico da marca Tesla, já lançado em mercado restrito. Tem a performance de uma Ferrari, sem consumir combustível fóssil. Daqui a alguns anos a sua tomada elétrica ficará obsoleta porque a transmissão da eletricidade se dará sem fios. Adeus àquela confusão das casas nas quais os fios se embaraçam pelo chão e dão choques nos cachorros (que retornaram, no Google, 37 milhões de resultados).
Falei só do pitoresco, mas quem gosta de ir ao cinema e pouco se interessa por internet não imagina que os jogos de internet já faturam mais do que a indústria cinematográfica.
Precisamos incluir a preservação da liberdade na internet quando nos queixarmos dos ataques do governo à mídia.
A internet, do ponto de vista da mídia, permite até que a mídia impressa, falada e televisiva multiplique seu alcance muitas vezes. Este artigo que você pode estar lendo aqui, no Estadão impresso, está disponível na internet inteiramente grátis. Milhões de pessoas têm acesso a ele. Diariamente, em torno de 1 milhão de pessoas acessam o estadao.com.br, sem precisar gastar papel ou dinheiro.
A internet merece respeito, carinho e proteção. Boa parte das coisas que você estará consumindo daqui a 25 anos ainda não foi inventada e a internet é o principal ambiente em que essas ideias e invenções serão compartilhadas, difundidas e aperfeiçoadas. Sem liberdade na internet os benefícios do progresso científico demorarão muito mais tempo.
E o que um censor proíbe hoje pode ser a salvação de milhares ou milhões, ali na esquina ou espalhados pelo mundo.
A aids, nos seus primórdios, não tinha financiamento de pesquisa do governo americano por ser considerada castigo divino para comportamento sexual inadequado ou pecaminoso.
A hepatite C assola 170 milhões de pessoas no mundo (e mata anualmente mais de 10 mil) e se transmite de maneira parecida com a aids. O desenvolvimento de remédios para ela pode ser muito mais rápido com liberdade na internet.
CIENTISTA POLÍTICO, É DIRETOR-GERENTE DA EARLY WARNING: OPORTUNIDADE E RISCO POLÍTICO (BRASÍLIA)
Ueba! Dona Roriz bombou!
Ueba! Dona Roriz bombou!
JOSÉ SIMÃO - FOLHA DE SÃO PAULO - 30/09/10
Coitada, devia estar vendo novela e o Roriz falou: arruma o cabelo que tem debate e você é candidata!
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador-Geral da República! Ereções 2010! Chega de debate! Eu quero sexo, sangue e Baconzitos com Coca-Cola. Eu quero saber quem comeu quem! Eu quero debate com o Plínio, o Tiririca e a dona Weslian. A mulher do Roriz!
Ela bombou no debate em Brasília. Já começou desorientada: "Eu quero toda essa corrupção que está aí". Rarará! Ato falho! E aí perguntaram: transporte público. E ela: "Tudo tem sua hora e seu lugar". Principalmente com ÔNIBUS LOTADO! Rarará. E essa: "Eu não quero responder, quero perguntar".
Também, coitada, ela devia estar assistindo à novela e o Roriz falou: arruma o cabelo que tem debate e você é candidata. Rarará! Parecia que ela tava vendendo produtos Avon e Jequiti! E falava que nem guia de Ouro Preto papapapapa. E a mediadora: "Mas ainda faltam 57 segundos". E ela: "Terminei!" Rarará! E diz que ela vai fazer escova progressiva nas estátuas do Niemeyer! A Ana Maria Braga do Cerrado!
E sabe em quem eu vou votar? No Valdir Virgens. Candidato de Pau Grande, no Rio. VALDIR VIRGENS DE PAU GRANDE! Ou então no André Esqueleto do PV. Sendo que o único esqueleto do PV que eu conheço é a Marina! Que vai lançar o projeto Minha Casa! Minha Árvore! E ainda vai trocar o Aerolula pelo AEROCIPÓ! E acaba de sair o novo slogan da Marta: "Botox não é pecado! Marta no Senado". Rarará!
E um militante petista estava no restaurante, pediu a conta e a caixa gritou: "Encerra?" "Não! Em Dilma!" Rarará! E faltam quatro dias pra eleição e eu ainda não sei o que é "aparelhamento do Estado". E eu acho que que vivi nos últimos dez anos num universo paralelo: aborto ainda é tema de campanha? É! Por isso que os candidatos tão virando carola na última hora. O Serra virou beato, a Dilma virou barata de igreja e a Marina? A Marina virou uma iguana. Rarará!
A Galera Medonha! A Turma da Tarja Preta! Agora eu não sei se voto no Valdir Virgens de Pau Grande, no Porreta da Mata Escura, na Shana Dias, no Bombom, no Edicles o Transformista, na Maria Chupetinha, no André Sacco, no Ivan Sai da Fila, no Keith Marrone ou vou pro Havaí e voto no Bobby Bunda. E ainda reclamam de falta de opção! Rarará! A situação tá ficando psicodélica. Ainda bem que nóis sofre, mas nóis goza.
No foco, o câmbio
No foco, o câmbio
Celso Ming O Estado de S. Paulo - 30/09/2010
Em quase oito anos de mandato na presidência do Banco Central, é a primeira vez que Henrique Meirelles admite que há um problema grave no câmbio que não seja apenas volatilidade.
Nem precisou ser mais explícito. Meirelles está admitindo a existência de uma excessiva valorização do real que precisa ser revertida, numa situação em que alguns países, como Estados Unidos e Japão, estão manobrando para desvalorizar suas moedas. Por isso é que Meirelles passou a falar em um aumento da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), hoje de 2%, na entrada de capitais.
Até agora, Meirelles vinha batendo no seu tambor que, num regime de câmbio flutuante, a intervenção do Banco Central se limitava a impedir esses trancos episódicos; que o Banco Central não tem nem piso nem teto para cotação e muito menos meta cambial.
A partir do momento em que admite que o setor produtivo brasileiro vai perdendo competitividade e que é preciso mais intervenção no câmbio (desta vez por meio da elevação do IOF), terá também de aceitar a existência de um piso, ainda que móvel, que servirá de referência não só para definir o que seja valorização excessiva, mas também para construir mecanismos de defesa do real contra a ação dos predadores.
Parece improvável que apenas apelos aos senhores do mundo no âmbito do Grupo dos 20 (G-20) mais aumento de dose do IOF na entrada de capitais que aqui desembarquem para ganhar com especulação com juros sejam providências suficientes para reverter "o problema" a que Meirelles esteja se referindo.
Na coluna de ontem ficou dito que a especulação com a diferença entre juros internos e externos (arbitragem) não se faz somente com entrada de capitais. Faz-se também com capitais que deixam de sair. Talvez seja preciso mostrar melhor como isso acontece.
Qualquer importador, por exemplo, pode deixar de remeter dólares ao exterior para pagar seu fornecedor. Poderá, por exemplo, levantar um financiamento lá fora a juros camaradas (operação relativamente comum quando se trata de dar cobertura a exportações), usá-lo para saldar seus compromissos com o fornecedor e, enquanto isso, aplicar os reais do seu caixa no mercado financeiro interno e tirar proveito da diferença entre os juros.
Ou seja, nesse caso, a procura de dólares também será menor e contribuirá para a derrubada das cotações no câmbio, com efeito semelhante ao provocado pela entrada de capitais. Só que o IOF não incide sobre a falta de saída de moeda estrangeira. Daí a limitação do uso desse mecanismo de controle.
Afora isso, também o cacife enorme em reservas internacionais do Brasil contribui para trazer mais dólares e, consequentemente, para valorizar o real, porque solidifica a percepção de que a economia brasileira está blindada contra crises.
Assim, novo aumento do IOF deverá produzir efeitos limitados na sua função de evitar a valorização do real. Para que o País possa ter maior capacidade de intervenção no câmbio e reduzir substancialmente a especulação com juros não há saída senão melhorar as finanças públicas. No dia em que as autoridades proclamarem, de maneira crível e consistente, que em três ou quatro anos será obtido o déficit nominal zero das contas públicas, os juros despencarão quase espontaneamente e a especulação com juros será fortemente desestimulada.
Uma democracia sem adjetivos vai às urnas
Uma democracia sem adjetivos vai às urnas
Maria Inês Nassif - VALOR ECONÔMICO
"Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa." Esta é uma das mais repetidas afirmações do filósofo alemão Karl Marx, que abre "O 18 Brumário", talvez porque a realidade sempre se confronte com formas de farsas saudosas de tragédias.
O clima criado nestas eleições foi uma farsa inspirada na tragédia de 1964. Chegou-se ao grotesco. A guerra eleitoral ressuscitou de um passado que merece ser deixado para trás teses paranoicas de implantação de uma república sindicalista ou do comunismo totalitário, e acusou e pintou de tintas fortes supostos algozes da democracia. É uma situação irreal, pois o cenário dessa batalha é uma campanha eleitoral onde todas as instituições democráticas estão a postos e operantes: partidos legalmente constituídos apresentam seus candidatos aos eleitores e pedem seus votos; o acesso ao eleitor é democraticamente garantido por leis estáveis; uma Justiça que bate a cabeça, mas julga, mantém-se como poder independente; um governo eleito e reeleito pelo voto direto governa; o Congresso faz leis; a polícia investiga, criminosos vão para a cadeia. O país tem um presidente que, a despeito da alta popularidade, rejeitou artifícios constitucionais comuns no continente para concorrer a um terceiro mandato, afastando os exemplos de Hugo Chávez, da Venezuela, e Álvaro Uribe, da Colômbia. A oposição fala o que quer - e raras vezes na história falou tantos desaforos contra autoridades elevadas ao poder pelo voto popular. Aliás, não disse um centésimo deles a militares eleitos por Colégios Eleitorais, na ditadura militar.
Enfrentar a candidata de um presidente com 79,4% de aprovação, segundo o CNT/Sensus divulgado ontem, não é uma tarefa fácil, mas a disputa democrática em nenhum momento deve usar de qualquer meio para chegar a um fim. A mobilização de setores conservadores, a ida à caserna com discursos de "denúncia" de supostos atentados à democracia, o insuflamento do clima de Guerra Fria 20 anos depois da queda do Muro de Berlim, o terror à mobilidade social - tudo isso traz do passado o que o Brasil não gostaria de recriar para o seu futuro. Os velhos medos conservadores não cabem no novo mundo. Nem no Brasil de 2010. E são eles que estão sendo chamados às urnas, na impossibilidade de interlocução com setores que fogem ao controle da política tradicional.
Esse clima tirou do eleitor oportunidades preciosas. Como, por exemplo, a de ouvir do candidato do PSDB, José Serra, algum projeto coerente de Brasil para um eventual governo tucano. A campanha de Serra voltou ao período pré-governos FHC, onde as promessas surgiam do nada e visavam atingir um público sem discernimento. As campanhas eleitorais pós-Collor - que deram dois governos a Fernando Henrique Cardoso e dois a Luiz Inácio Lula da Silva - introduziram no linguajar de campanha a promessa responsável, que tinha que vir com a devida prova de que o Orçamento permitiria seu cumprimento. Serra vai asfaltar a Transamazônica, aumentar o salário mínimo para R$ 600 e dar 10% de aumento para os aposentados no ano que vem - e vai prometer o que mais vier à cabeça com o fim de suplantar o apelo popular de Dilma Rousseff (PT), a candidata que vem com o carimbo de Lula.
Dilma, por sua vez, ao se colocar na defensiva e grudar a sua imagem no governo de Lula, deixou de dizer muito. "Estamos no meio de uma guerra cambial internacional", constatou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Os EUA e a China protagonizam a guerra. "Quando dois elefantes deste porte lutam, os espectadores podem ser pisoteados", alerta Martin Wolf, do Financial Times, no artigo "Guerras cambiais e demanda fraca", publicado no Valor de ontem. O eleitor vai para as urnas sem saber o que a candidata favorita da disputa fará para desarmar a armadilha cambial, como ela vê a política de juros de Lula e como conduziria a política monetária, antes que as patas dos elefantes repousem num país que vive o seu maior período de estabilidade, e gostaria de aproveitá-lo para vencer a desigualdade e a pobreza.
Do debate eleitoral, também escapou o que pensa Marina Silva (PV), que cresceu nos últimos dias de campanha e tende a se consolidar como uma nova e bem-vinda liderança no cenário nacional. Para não ser acusada de candidata de uma nota só, engrossou o seu programa com vários outros temas, mas sem conseguir vencer a contradição de ser uma candidata que veio da esquerda e se encontrou no centro com outras pessoas - pessoas de bem, que se diga. Um programa bem intencionado não revela, todavia, uma proposta que transcenda a ideia central da sustentabilidade.
Vamos para as urnas no domingo. Faltou informação relevante para a decisão do voto, sobraram boatos e vitupérios. Ainda assim, vamos votar num país governado por um presidente eleito pelo voto popular, com um Congresso funcionando e uma Justiça atuante. Nosso voto será direto e secreto. Os eleitos serão empossados. Os derrotados à Presidência farão oposição; os vencedores serão legítimos governantes. Assim é a democracia. Que o bom senso dos atores políticos não a levem de novo para dentro dos quartéis. Deixem o país fora disso. O voto direto e secreto tem que ser capaz de resolver as diferenças políticas entre os brasileiros.
Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras
Cientistas conseguem mover objetos por 1,5 m apenas com luz
Cientistas conseguem mover objetos por 1,5 m apenas com luz
Terra Portal - 30 de setembro de 2010 • atualizado às 14h10min
| Pequena partícula (ponto verde) foi movida por 1,5 m com raio laserFoto: Universidade Nacional da Austrália/Divulgação |
Cientistas desenvolveram método para mover apenas com o uso de luz partículas por distâncias nunca conseguidas anteriormente. Foi usado um raio laser especialmente criado para a pesquisa. As informações são do site Physorg.
Equipe do Centro de Física a Laser, da Universidade Nacional da Austrália, conseguiu mover partículas extremamente pequenas por 1,5 m usando apenas a força do raio laser. O tamanho das microesferas variava entre 60 e 100 micrometros.
Por 40 anos, cientistas usaram radiação de luz para mover e manipular pequenos objetos. Até agora, os movimentos eram restritos a pequenas escalas, por não mais que milhares de micrometros - e a maioria em líquidos. Manipulação óptica de partículas por grandes distâncias podem ter várias aplicações, como permitir o transporte de contêineres com substâncias perigosas sem a necessidade de toque.
O laser não funciona no vácuo, então seu uso é de grande importância na Terra, como na montagem de micro máquinas e componentes eletrônicos.
Pesquisa eleitoral e 'opinião pública'
Pesquisa eleitoral e 'opinião pública'
Editorial – Jornal O Globo
Mesmo que a candidata Dilma Rousseff ganhe a eleição no primeiro turno, como confirmado pela pesquisa Ibope/CNI divulgada na manhã de ontem, a sinalização dada por sondagens anteriores de que a fatura poderá não ser liquidada no domingo merece uma reflexão sobre a democracia brasileira.
E ela deve ser feita à luz dos recentes arroubos do presidente Lula, cabo eleitoral-chefe da candidata, em relação à imprensa profissional e ao que ele entende sobre opinião pública.
Parece claro que, mais uma vez, como em 2006, quando os aloprados petistas assustaram eleitores, a questão moral surge como fantasma para o candidato oficial. Em 2006, era Lula em busca da reeleição. Agora, Dilma é atingida, em alguma medida, por estilhaços da implosão de sua ex-braço direito Erenice Guerra junto com uma casamata de lobby edificada na Casa Civil. Se a comprovada invasão criminosa de arquivos fiscais de tucanos e cidadãos comuns na Receita, área da máquina pública em que se abrigam aparelhos sindicalistas ligados ao PT, parece não ter sido compreendida pela população, o uso da Casa Civil para a venda de facilidades a empresários teve, pelo menos num primeiro momento, algum impacto no eleitorado.
Mesmo que o prejuízo para a candidata Dilma seja absorvido até domingo, fica a conclusão que mesmo o presidente mais popular da História republicana do Brasil não pode tudo, felizmente.
É preocupante que na esteira da campanha eleitoral, em que Lula se joga por inteiro, sem maiores cuidados com limites institucionais e leis, surja a ideia inaceitável de que o apoio popular dá sinal verde ao poderoso de turno.
De visível contaminação chavista, esta percepção do poder do homem público de alta popularidade é perigoso e crasso equívoco.
Sem respeito à Carta e instituições, resvala-se para a barbárie, o regime da lei do mais forte nas ruas. Se assim fosse, teríamos de nos curvar a Hitler e Mussolini apenas porque chegaram ao poder nos braços do povo.
Há no Brasil de hoje, além de instituições que dão mostras de solidez Poder Judiciário, Ministério Público, por exemplo , uma classe média em fase de expansão que serve de suporte para estas mesmas instituições.
Arroubos como o do presidente ao se declarar dono da opinião pública rendem dividendos negativos. A opinião pública não tem donos, ela se forma à medida que se informa e das mais diversas maneiras, inclusive pela imprensa profissional, cujo coração é a credibilidade construída, em alguns casos, em mais de um século de atuação. É por isso que o discurso ameaçador da estabilidade, capaz de projetar nuvens negras no futuro, é logo rejeitado pelas faixas mais instruídas e de renda mais elevada da população.
Alvejar a imprensa independente, defender o radicalismo da época de resistência à ditadura não é discurso de fácil trânsito junto às classes médias. Elas sabem que Dilma não é a mulher de Lula, querem tranquilidade e crescimento econômico para continuar a ascender na escala social. Portanto, não importa se vença Dilma, Serra ou Marina, a sociedade está madura para rejeitar salvadores da pátria, hipnotizadores de rebanhos sem opinião própria. O clima de bem-estar econômico se revela cabo eleitoral poderoso.
Mas daí a se projetar um Brasil dominado pelo cesarismo, vai grande distância.
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