sexta-feira, outubro 01, 2010
Os passos miúdos da dança global
Os passos miúdos da dança global
Washington Novaes - O Estado de S. Paulo - 01/10/2010
Durante a Rio 92 - que levou à aprovação das Convenções do Clima e da Diversidade Biológica - o secretário-geral do encontro, Maurice Strong, foi dramático: disse que era a última oportunidade de os governos encaminharem soluções para os gravíssimos problemas naquelas duas áreas e para a questão da miséria no mundo. Por isso, além de criarem as duas convenções, os chefes de Estado aprovaram a Agenda 21 Global. E ela fornecia um roteiro para enfrentar os dramas do subdesenvolvimento e da pobreza. Incluía a decisão de os países industrializados aumentarem de 0,36% para 0,70% de seu produto interno bruto (PIB) a contribuição anual para os países mais pobres. Com isso, doariam US$ 120 bilhões anuais, a que se somariam US$ 480 bilhões em recursos dos países receptores. E com US$ 600 bilhões anuais seria possível avançar em todas as áreas.
Só a Suécia cumpriu a sua parte. Os demais países industrializados reduziram porcentualmente sua contribuição média para uns 0,3% do PIB anual. E passadas duas décadas, ao fazer a avaliação dos Objetivos do Milênio, diz a ONU que, embora tenha havido progresso, é "um escândalo" que 952 milhões de pessoas no mundo continuem a enfrentar a miséria e que morra uma criança a cada oito segundos por problemas relacionados com a desnutrição. Um quadro ainda tão grave que levou o presidente da França, Nicolas Sarkozy, a ressuscitar outra proposta da década de 90, do economista James Tobin, que sugeria criar uma taxa mundial sobre transações financeiras e destinar o resultado ao combate à pobreza. Porque esta ainda atinge 19% da população mundial, segundo a ONU; 1 bilhão de pessoas vive com menos de US$ 1,25 (pouco mais de R$ 2,10) por dia.
Mesmo nos Estados Unidos, onde a crise econômica eliminou 5 milhões de empregos (a taxa de desemprego está em 14,3%), há 43,6 milhões de pobres, considerado o padrão de lá, que classifica como pobre quem tenha renda anual bruta de até US$ 10.830 (uns R$ 18,5 mil, pouco mais de R$ 1.500 mensais, mais do que a renda média de quem trabalha no Brasil, quase três salários mínimos nossos). Por aqui, a renda média do trabalho chegou a R$ 1.472. Ainda temos 28,8% dos que trabalham recebendo até meio salário mínimo mensal - sem considerar as graves condições de moradia e saneamento dos lugares que habitam.
Sobre a situação da biodiversidade no mundo e no País duas décadas depois, este espaço já foi ocupado na semana passada com números estarrecedores. E quanto ao clima, avança-se para a reunião da convenção, daqui a poucas semanas, no México, sem vislumbrar acordo algum. Numa reunião preliminar de 17 países, em Nova York, o delegado norte-americano, Todd Stern, foi claro: sem a adesão da China, da Índia e de outros países "em desenvolvimento" (o Brasil incluído), não haverá, nem em Cancún nem depois, nenhum acordo "vinculante", que obrigue as nações a reduzir suas emissões de poluentes. Já o delegado russo deixou claro que, se Estados Unidos e China não aderirem a uma nova etapa do Protocolo de Kyoto, este expirará.
Nos mesmos dias, numa reunião da Clinton Global Initiative - que tenta romper impasses nessa área -, a nova secretária da Convenção do Clima, a costa-riquenha Christiana Figueres, foi surpreendentemente direta. As negociações não avançam por dois motivos, disse ela: 1) Tensões e desacordos entre países desenvolvidos e em desenvolvimento; e 2) "business" (UN Dispatch, 22/9). O "business" porque fica à espera de que os governos criem marcos regulatórios. E os governos, "enquanto olham nervosos para os próprios pés, dizem que o business não os está pressionando. É uma espécie de dança, em que cada um diz: "Você primeiro! Você primeiro!"" Na opinião dela, as áreas de negócios deveriam assumir a iniciativa e a liderança, porque têm muito a perder.
Não é muito diferente em qualquer lugar, inclusive no Brasil. Em meio ao fogo que tomou conta de metade do País, em meio à estiagem que secou rios na Amazônia, em meio à perda de parte das colheitas, continua-se a olhar passivamente o panorama. No lançamento de um programa de emergência para o fogo no Cerrado, na presença do presidente da República e da ministra do Meio Ambiente, por três vezes faltou energia no recinto, com os incêndios no Cerrado do Distrito Federal interferindo nas linhas de transmissão. Enquanto isso, dizia o boletim do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) (23/9) que desmatamentos e queimadas causam 75% das emissões de carbono no País. Que os problemas nessa área poderão levar a perdas consideráveis no produto bruto nacional. E que o aquecimento global "poderá elevar a temperatura no Norte e Nordeste até 8 graus, em consequência do desmatamento da floresta amazônica".
Há quem esteja perdendo a esperança. Um deles é o famoso cientista James Lovelock, autor da "Teoria de Gaia". Há algum tempo, afirmou ele que não haveria tempo para esperar que acordos entre países levassem a uma redução de emissões, dada a gravidade da situação. Por isso, ele, que durante décadas se opusera à utilização da energia nuclear, passou a defendê-la, por não emitir poluentes que se concentram na atmosfera e por entender que o problema de resíduos por ela gerados é menor. Os resíduos de uma usina cabem num pequeno veículo, passou a dizer.
Agora, Lovelock vai, perigosamente, ainda mais fundo. Como cita o ex-secretário do Meio Ambiente do Espírito Santo Luiz Prado (Portal do Meio Ambiente, 18/9), Lovelock agora diz: "Eu tenho a sensação de que mudanças climáticas são um evento tão grave quanto uma guerra; talvez seja necessário suspender a democracia por algum tempo."
Certamente não é o caso de concordar. Mas é preciso ter urgência, antes que a tese ganhe muitos defensores. Nunca faltam partidários da força.
Um canal transformador
Um canal transformador
Marcel Fukayama - VALOR ECONÔMICO - 01/10/10
O Brasil possui mais de 100 mil centros públicos de acesso pago à internet, também conhecidos como lan houses. É um fenômeno iniciado no final da década de 90 em bairros nobres da capital paulista e que hoje se estende desde as periferias dos grandes centros urbanos até regiões isoladas com carência básica de infraestrutura, correspondendo a 45% do acesso à internet no país e conectando 30 milhões de brasileiros predominantemente de comunidades de baixa renda.
O modelo de negócio surgiu do outro lado do mundo, mais precisamente na Coreia do Sul, um dos países mais conectados atualmente. Os PC Bangs, como são conhecidas as lan houses por lá, fizeram parte do programa de investimentos do governo, que em 1995 lançou um plano para conectar a população, semelhante ao Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), ainda em fase de amadurecimento no Brasil. Fortemente impactada pela crise dos tigres asiáticos em 1997, a Coreia apoiou o desenvolvimento desses empreendimentos como uma das saídas para massificar a internet de alta velocidade.
Hoje, além de ter um dos maiores índices de cidadãos conectados no mundo, a Coreia do Sul gerou uma indústria de entretenimento digital que tem nas lan houses pontos de encontros e disputas, e inovou ao profissionalizar os "gamers". Lembra, em muito, o início do setor no Brasil, quando os "games" eram a principal atração do público desses estabelecimentos. Porém, ao contrário da Coreia do Sul, houve poucos e concentrados investimentos por parte do governo brasileiro e da indústria na conectividade e, desse modo, as lan houses têm desempenhado um papel fundamental na inclusão digital no Brasil.
De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil tem mais de 19 milhões de microempreendedores, sendo que 60% o são por vocação e não apenas por necessidade. Em geral, as lan houses são estabelecimentos criados e gerenciados por microempreendedores comunitários, líderes e referências nas comunidades onde atuam, prestando um serviço público de valor e alto impacto.
Tirando uma radiografia do setor no país, pode-se destacar alguns desafios a serem superados. O alto índice de informalidade exclui esses microempreendimentos de uma série de possibilidades de expansão e amadurecimento de seus negócios. A pouca educação desses estabelecimentos se traduz em um modelo de gestão ineficiente e quase amador, o que aumenta o risco da sustentabilidade financeira dos mesmos pela limitação do portfólio de serviços. Além disso, existe uma imagem rotulada de casas de jogos eletrônicos e pontos de crimes na internet.
Uma iniciativa do Comitê para Democratização da Informática (CDI), organização social pioneira na área de inclusão digital na América Latina, tem as lan houses como canal de atuação. O CDI Lan, criado há um ano, já conta com mais de 2.800 estabelecimentos afiliados com base em um código de conduta, e tem como visão transformar os integrantes deste setor em centros de distribuição de produtos e serviços para a base da pirâmide, com foco em educação e microfinanças.
Por meio do ensino à distância, o Brasil tem a chance de democratizar o acesso a um conteúdo de alta qualidade e possibilitar, além da transformação de regiões hoje carentes de investimentos em educação básica e média, a disponibilização das mesmas ferramentas encontradas em escolas de alto nível.
É possível ver laboratórios de informática fechados em muitas escolas. Para algumas instituições de ensino, o ambiente é perigoso para os alunos e há riscos de danificar os equipamentos. A internet e a tecnologia revolucionaram o mundo, a comunicação e as formas de aprendizado e devem mudar o modo como a educação é realizada. As lan houses, portanto, devem ser uma extensão das escolas e podem atuar como ponto de encontro e estudo, uma espécie de centro de acesso a conteúdos que, em vias tradicionais, seriam limitados às classes mais favorecidas.
Apesar de ter um dos sistemas bancários mais sofisticados do mundo, o Brasil ainda tem milhões de cidadãos excluídos dessa realidade ou com atendimento precário em milhares de municípios. Considerando a penetração e vocação das lan houses, esses estabelecimentos podem ser uma tecnologia social para inclusão financeira e, como correspondentes bancários, apoiar a operação nas comunidades aonde atuam, auxiliando por exemplo na concessão de microcrédito, crédito consignado, abertura e movimentação de contas correntes etc.
Outra iniciativa de valor para o canal é realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Com o objetivo de descentralizar o atendimento, a organização tem como meta tornar 400 lan houses em Pontos de Acesso Sebrae. Para isso, através de um social game - o Desafio Lan Sebrae -, atividades de capacitação e formalização devem ser cumpridas pelo microempreendedor. Uma vez certificada, a lan house está apta a disponibilizar seu espaço para atendimentos online do Sebrae à comunidade e, com isso, atuar como um agente de transformação e multiplicador.
Desse modo, pode-se compreender o futuro do setor de uma maneira mais ampla do que a atual, que é subexplorada e se limita ao acesso à internet. O canal já tem uma intimidade única com a base da pirâmide e, além de ter seu uso potencializado, está vocacionado a ser um centro de distribuição de produtos e serviços sociais, podendo ser aliado às ferramentas de mídias sociais, um meio de mobilização de alto impacto e escala.
Marcel Fukayama é "chief operating officer" (COO) do CDI Lan, iniciativa do Comitê para Democratização da Informática (CDI) para lan houses.
Xeretando
Xeretando
Eliane Cantanhêde - FOLHA DE S. PAULO
BRASÍLIA - Flagrado ao celular com o ministro Gilmar Mendes, supostamente para virar no tapetão um placar de 7 a 0 no Supremo, Serra provocou os jornalistas: "O que vocês estão xeretando?".
Pois é, xeretar faz parte da natureza do jornalismo (e do jornalista), e foi xeretando que a imprensa livre e crítica descobriu as maracutaias de Collor, a venda de votos da reeleição de FHC, o mensalão da era Lula e o festival de nepotismo, negociatas e caixinhas de Erenice, braço direito de Dilma.
Assim, o que impressiona na história é a sem cerimônia de Serra ao pedir para falar com o ministro e depois chamá-lo de "presidente", justamente em meio ao julgamento de uma ação proposta pelos adversários -contra a exigência de dois documentos para votar. É o cúmulo da imprudência e da arrogância. É por essas e outras que, na hora de arrancar, Serra engasga.
Aliás, quando duas rodadas do Datafolha acusaram uma nítida tendência de queda de Dilma, abrindo uma real perspectiva de segundo turno, os governistas reagiram à la PT, e a oposição, à la PSDB.
Um se rearticulou, neutralizou a boataria da internet contra Dilma e botou no colo dela as cúpulas evangélicas, que conduzem milhões de votos. O outro perdeu o prumo. Nem só por inocência ou por acaso.
Aécio Neves correu a se posicionar na "sucessão geracional" tucana, o que correspondeu a enterrar Serra (quase literalmente); o afilhado Gilberto Kassab (DEM) anunciou aumento da passagem de ônibus em São Paulo a quatro dias da eleição; Serra escorregou numa resposta sobre aposentadorias que deveria estar na ponta da língua.
Enfim, o telefonema a céu aberto para Gilmar Mendes apenas coroa o esforço antissegundo turno.
Escrevo antes do debate da TV Globo, mas não será surpresa se, no último e decisivo confronto, quem mais precisava brilhar esmaecer. Se isso ocorrer, a eleição acaba no domingo. A ver e conferir.
Atos erráticos
Atos erráticos
Dora Kramer - O ESTADO DE S. PAULO
Em 1986, um pouco antes do lançamento do Plano Cruzado, que daria ao então presidente José Sarney um ano de alta popularidade e ao fim dele uma vitória eleitoral espetacular na eleição de governadores do PMDB em quase todos os Estados, Fernando Lyra (ex-ministro da Justiça) e Fernando Henrique Cardoso (senador) fizeram duras críticas a Sarney. A de FH bem mais contundente, em longa entrevista ao Jornal do Brasil.
Comentário de Lyra entrou para os anais das melhores tiradas da política: "Eu pisei no tomate, mas Fernando Henrique pisou no tomateiro."
Entre o ministro e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes e o candidato do PSDB à Presidência, José Serra, difícil distinguir quem pisou no tomate e quem esmagou o tomateiro.
Impossível decidir quem teve o pior desempenho na história exposta ontem pelo jornal Folha de S. Paulo sobre um telefonema entre Serra e Mendes, ao que tudo indica, ocorrido pouco antes de o ministro pedir vista da ação direta de inconstitucionalidade do PT contra a lei que exige do eleitor apresentação de dois documentos para votar.
Segundo o relato da Folha de S. Paulo, um profissional do jornal estava presente quando Serra pediu para que fosse feita a ligação. Testemunhou quando um assessor passou o telefone dizendo quem era do outro lado da linha e ouviu quando o candidato atendeu dizendo "meu presidente!".
O candidato e o magistrado erraram feio. Um por telefonar, outro por atender. Isso na hipótese de que não tenham conversado sobre o julgamento que transcorria no STF, coisa que jamais se saberá com certeza.
Não conspira a favor do exigido de um magistrado que no curso do julgamento esteja a conversar com uma das partes.
Sim, porque da forma errática como foi posta em debate essa questão da exigência do título de eleitor e mais um documento oficial com fotografia, ficou convencionado que a lei desfavoreceria o PT e, consequentemente, favoreceria o PSDB.
Da parte do candidato, o gesto de telefonar para o ministro durante a sessão é de uma inconveniência ímpar. Até porque dá margem a comentários, interpretações e suposições que de fato foram feitas a respeito do telefonema e obrigaram o ministro a se justificar várias vezes por meio de indiretas na sessão de ontem.
Serra e Mendes foram mal, mas se lhes serve de conforto, não estão sozinhos no que tange à falta de apreço à melhor conduta.
Deixemos de lado o comportamento do presidente da República, por já exaustivamente comentado, e passemos direto aos votos do restante do colegiado no momento em que Gilmar Mendes interrompeu o julgamento: sete votos em favor da ação indireta de inconstitucionalidade.
Todos absolutamente lógicos no tocante à dificuldade que sem dúvida alguma a exigência impõe ao eleitor. Mas naquela sessão não houve a decretação da inconstitucionalidade da legislação. Tampouco isso ocorreu na sessão do dia seguinte (ontem) que concluiu a votação com o resultado de 8 a 2 em favor da não-obrigatoriedade da apresentação do título de eleitor.
Os magistrados recorreram a critérios de "proporcionalidade" e "razoabilidade" - e não a normas constitucionais - para atender ao que pedia a ação direta de inconstitucionalidade.
Aos partidários que se revoltam ou comemoram a decisão do tribunal convém lembrar que em tese não estava em jogo uma questão eleitoral.
Tanto que no ano passado quando o Congresso votou a emenda à legislação eleitoral nenhum líder partidário discordou e, depois disso, o presidente Lula sancionou a lei.
Só ocorreu ao PT que ela poderia ser prejudicial ao eleitor quando teve certeza de que seria maléfica para a candidatura Dilma. Antes de essa hipótese ser aventada com rigor, até a semana passada não havia reparos a serem impostos à legislação.
Ao Supremo realmente não cabe examinar a motivação, embora coubesse analisar a constitucionalidade e não a conveniência, de todo modo muito pertinente quanto ao mérito da questão.
Confuso? Pois é, como tudo o mais nesta brasileira República federativa.
A hora e a vez de Sua Excelência
A hora e a vez de Sua Excelência
Maria Cristina Fernandes - VALOR ECONÔMICO
Oito em cada dez eleitores que vão às urnas neste domingo nunca foram privados de seu direito de escolher, pelo voto, todos os dirigentes do país. E já votaram para presidente da República mais vezes do que os brasileiros de qualquer outra época da história. A maioria vai acordar no domingo, pegar a cola de candidatos e seus documentos - todos que encontrar pela frente, já que essa gente não se entende -, antes de se dirigir, pela sexta vez consecutiva, ao mesmo local de votação desde que se cadastrou como eleitor.
A rotina parece banal, mas não há feito maior, quando se trata de mediar conflitos pelo voto, do que uma eleição depois da outra. Esse eleitor que começou a votar em 1989 pode não mais se demorar na escolha da cor da roupa, nem fazer o V de vitória para as charangas dos simpatizantes que avistar pelo caminho. Talvez tenha atravessado toda a campanha sem levantar uma única vez a voz em discussão sobre os melhores e maiores de 3 de outubro. Melhor assim. A paixão talvez nem combine mesmo com esse enredo.
De cada dez brasileiros, sete votam. É a maior proporção de eleitores de uma história que, há apenas uma geração, excluía a leva de analfabetos. A maioria deste colégio eleitoral expandiu seus ganhos em ritmo chinês nos últimos anos, mas teve um salto de escolaridade superior ao de renda. Quatro, em cada dez eleitores que vão às urnas neste domingo têm mais de oito anos de bancos escolares.
É um eleitor que consome mais informação e, potencialmente, demanda mais do poder público. Paradoxalmente, o ingresso desses emergentes à informação e ao consumo também aumenta a ansiedade em relação à manutenção dos seus ganhos e os torna suscetíveis à volatilidade eleitoral, como demonstram as planilhas das últimas semanas.
São esses eleitores que carregarão, para uma eleição futura, o que Wanderley Guilherme dos Santos em artigo neste Valor (29/09) definiu como o germe do conservadorismo: dada a percepção de que mobilidade social pode estar se aproximando de seu limite, a preservação das conquistas pode acabar sendo a barganha eleitoral mais atraente.
O eleitor aprendeu a votar por cálculo porque nesse amadurecimento das eleições consecutivas já viu de tudo. Acreditou no voluntarismo de punhos cerrados, na moeda que redimiria o país e naquele que viria de baixo para passar a história a limpo. Deu-se conta de que seu voto construiu aventureiros, prorrogou ilusões e varreu para baixo do tapete verdades inconvenientes. Mas descobriu também que votando ajudou a derrotar a inflação e fomentar políticas públicas pela melhor distribuição de renda.
Nesta campanha, viu o candidato do PSDB elogiar o presidente de dia e malhá-lo à noite; foi testemunha da incapacidade da candidata do PT de dizer como será capaz de atender aos deuses e diabos que infestam seu entorno; e foi incapaz de colher da candidata do PV uma explicação por que, desta vez, o voto num presidente sem partido não redundará em nova tragédia. Foi obrigado até a assistir o candidato do PSOL defender a previdência complementar para o funcionalismo público sem que ninguém lhe lembrasse que foi esta reforma que levou ao êxodo do PT dos seus atuais correligionários.
Mas esta campanha também levou cada um dos principais candidatos a compromissos históricos. Se Dilma Rousseff cumprir o que acenou no programa de combate ao crack exporá o raquitismo dos recursos destinados ao tema pelos oito anos do governo Lula. Se José Serra imprimir à política de reajuste do salário mínimo a velocidade prometida também terá rompido com o viés fiscalista que pautou sua carreira de gestor público e o histórico de seu partido no poder. Se Marina Silva chegar nos 7% do PIB com educação e ainda conseguir restringir o aumento da despesa em relação ao PIB, como promete, nunca na história desse país se terá visto igual façanha.
Mas em matéria de prodígio, não há competidor nesta disputa para a justiça eleitoral. No varejo, é orgulho nacional. Coloca na rua uma das maiores estruturas eleitorais do mundo sem que os resultados sejam passíveis de contestação. No atacado, a toga deixou para definir as vésperas da votação com quantos documentos se faz um eleitor, quais candidatos, se eleitos, poderão tomar posse e por que um candidato pode apelar à censura num Estado (Paraná) e não pode noutro (Tocantins). A partida só caiu no colo do juiz porque assim quiseram os partidos e seus representantes no Congresso. Só o voto deste domingo pode colocar novamente a bola em campo.
Planilhas, quando torturadas, dizem quase tudo. Às vésperas de uma eleição presidencial tão radicalizada, o risco que essa tortura produza desinformação é grande. Em comum, a última leva de pesquisas mostra ascendência de Marina Silva (PV), ainda que nenhuma delas ateste potencial para transformá-la em segunda colocada em curto espaço de tempo. As pesquisas também convergem para a inércia de José Serra. A discrepância se dá em relação ao desempenho de Dilma Rousseff (PT). O Datafolha de ontem convergiu para a tendência de estabilidade apontada por Vox Populi e CNI/Ibope, e em todos os institutos há tendência de estreitamento da folga para uma disputa definida em primeiro turno, mas a margem varia de quatro a 11 pontos.
É esperado que o líder nas pesquisas se desidrate na reta final. Se lidera é porque tem a preferência das camadas de baixa renda, mais numerosa do eleitorado. E é nessa faixa que está o eleitor mais suscetível à abstenção, tanto pela locomoção, agravadas em condições climáticas desfavoráveis, quanto pelas agruras da documentação. É nesse eleitorado também que se concentra o risco de voto nulo pelo desconhecimento do número dos candidatos e pelo manuseio da urna eletrônica. E, finalmente, é esse o eleitor alvo das investidas da indústria de boatos de cunho moral e religioso da saideira da campanha. Depois dos eventos derradeiros - o programa do horário gratuito e o debate da noite de ontem - o barulho ficará por conta da internet e dos exércitos de cabos eleitorais com e sem bíblia. Ainda bem que não dá para prever resultado.
Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras
Documento único
Documento único
O Título de Eleitor nacional com foto fecharia essas brechas. Aliás, o que resolveria mesmo seria o tal documento único de identificação. Uma boa ideia, nunca implementada
Por Alon Feuerwerker – Correio Braziliense
De tudo se aproveita algo. As turbulências no julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a exigência de dois documentos do eleitor produziram a constatação lógica: o Título é dispensável. Se o sujeito pode votar só com a Carteira de Identidade (ou outro documento oficial com foto), para que mesmo o Título de Eleitor?
Mas há outro debate, tão urgente quanto. O Brasil precisa de um recadastramento eleitoral, como aconteceu um quarto de século atrás, no nascimento da Nova República. Antes, para quem não lembra, não tinha nascido ou não ouviu falar, o Título era um papel com foto, para o mesário anotar o comparecimento.
No recadastramento dos anos 1980 tiraram a foto, reduziram o tamanho e agora a ideia é implantar universalmente a verificação digital.
A infraestrutura eleitoral brasileira é boa, mas poderia melhorar. Uma providência desejável seria imprimir todos os votos, para a possível checagem. O eleitor veria o voto impresso antes do “confirma”. Seria possível recorrer de um resultado e haveria meios práticos — os votos impressos — para tirar as dúvidas.
Hoje não tem válvula de escape. Como fazer uma recontagem dos votos eletrônicos? E se houver fraude no recolhimento dos votos? E se houver fraude na totalização?
O tribunal garante que essas coisas são impossíveis de acontecer, que nosso sistema é inviolável. Não existe sistema 100% inviolável, existem os sistemas extremamente difíceis de violar. Os que ainda não foram violados.
Quem brigava muito pela implantação de backup impresso do voto eletrônico era Leonel Brizola. Quando morreu, a bandeira foi herdada pelo seu PDT. Nunca nenhum dos grandes partidos se entusiasmou pela ideia.
E será assim, até o dia em que houver uma crise real, com dúvidas razoáveis sobre o resultado da eleição e sem instrumentos para pacificar definitivamente a pendenga.
Mas importante mesmo é o recadastramento eleitoral. Na prática começou ontem no STF, quando os juízes decretaram informalmente a desimportância do atual título de eleitor. Qual o problema? O tribunal decidiu também que o eleitor pode usar qualquer documento oficial com foto, o que permite alguma margem de insegurança.
Ideal seria então um título de eleitor com foto, mas se todo mundo no Brasil precisa ter Carteira de Identidade, para que mesmo a duplicação de esforços? Será porque as cédulas de identidade regulares são estaduais? E não é que eu achei uma brecha na decisão do STF?
E se a pessoa tiver várias cédulas de identidade, emitidas por diferentes estados, não haverá o risco de votar mais de uma vez? Alguém explica?
O título de eleitor nacional com foto fecharia essas brechas. Aliás, o que resolveria mesmo seria o tal documento único de identificação. Uma boa ideia, nunca implementada.
Controle
De tudo o que se previu sobre a importância da internet nestas eleições, o resultado final ficou bem aquém.
Mas para uma coisa a internet funcionou. Como ferramenta de controle de qualidade sobre o discurso dos candidatos e o trabalho jornalístico.
São os freios e contrapesos em ação. Pode parecer pouco, mas já é muito.
Normalidade
Um impasse em torno de salários e benefícios de policiais desencadeou grave crise no Equador. O razoável é que a coisa acabe rapidamente, com a total prevalência da normalidade democrática.
A América Latina tem mostrado boa resiliência quando confrontada com tentativas de ruptura da ordem institucional, vindas da oposição ou do governo. Que o Equador siga o bom caminho.
Não há mesmo clima para golpes por aqui. Não têm apoio regional, nem em Washington. Quando a situação desanda, como em Honduras, a tendência das forças é recompor a normalidade em prazos curtos.
Uma revolução intelectual
Uma revolução intelectual
30/9/2010 22h28min - Por José Luís Fiori, do Rio de Janeiro - Jornal Correio do Brasil
| Sartre: “era mais fácil ser escravo do que senhor” |
“Enquanto se pensava que com as leis de Newton e as que lhe sucederam podíamos compreender o universo, o diálogo com as outras civilizações era um diálogo de professor e aluno, aluno primário.” Ilya Prigogine, Nome de Deuses, Ed. UNESP, 2002, p:64
Na segunda metade do Século XX, o físico norte-americano, Thomas Kuhn, e o químico russo, Ilya Prigogine, revolucionaram a epistemologia e a história da ciência, colocando uma pá de cal sobre a visão positivista do conhecimento, e colocando um ponto de interrogação definitivo sobre todas as teorias mecanicistas e deterministas, a respeito do mundo físico, do cosmos e das sociedades humanas.
Para Thomas Kuhn, o avanço da ciência não é acumulativo, nem se dá de forma linear e contínua. Pelo contrário, se dá de forma descontínua e através de grandes rupturas, ou “revoluções científicas”, que assinalam um momento de “mudança de paradigmas”, que são definidos por Kuhn, como uma maneira particular de olhar o mundo, que articula de forma coerente, problemas, conceitos, métodos de pesquisa e critérios de verdade, que só são válidos dentro de determinadas comunidades específicas, e durante períodos determinados de tempo.
Por outro lado, Ilya Prigogine se rebelou contra o determinismo e o mecanicismo das teorias de Isaac Newton e Albert Einstein, e demonstrou que a irreversibilidade do tempo, a desordem e a incerteza são elementos essenciais e construtivos, do mundo físico e biológico. Ou seja: Kuhn defende a historicidade da ciência e dos seus critérios de verdade; e Prigogine defende a importância da “flecha do tempo” e das “escolhas”, para a construção do futuro de um universo físico e de uma sociedade humana, que são rigorosamente imprevisíveis.
Por analogia, também é possível falar da existência de “paradigmas”, e de “revoluções intelectuais”, no campo do pensamento social, onde se formam e se transformam os valores, conceitos e critérios de verdade, que as sociedades humanas utilizam para interpretar o seu passado e o seu presente, e para descodificar e responder às incertezas do seu futuro. São modelos, enfoques e crenças que atravessam o pensamento acadêmico e o pensamento político – de esquerda e de direita – e também fazem parte do senso comum e da formação da opinião publica.
Estes “paradigmas sociais”, também são válidos apenas para certas comunidades específicas, e durante um certo período, por mais longo que ele possa vir a ser. Com o passar do tempo e das mudanças sociais, entretanto, estes paradigmas “societários” perdem fôlego, se esclerosam, e acabam sendo superados por novas “visões do mundo”, mais capazes de compreender e enfrentar os desafios criados pela chegada do futuro.
Pois bem: tudo indica que a América Latina e o Brasil estão vivendo um destes momentos de “revolução intelectual”, e de mudança da sua forma de olhar para si mesmo e para o mundo. De um lado, o que se vê, é um “paradigma intelectual” em franco declínio, incluindo algumas idéias e teorias de esquerda e de direita, que já não dão conta das transformações do continente, e do Brasil, em particular. Seus conceitos e seus debates parecem velhos e repetitivos, e por isto, filtram as novidades trazidas pelo futuro, de forma extremamente reativa, defensiva e medrosa.
Alguns “intelectuais orgânicos” deste velho paradigma vivem fascinados pela idéia do “fim”, seja da democracia, do capitalismo, das espécies, ou da própria terra; outros, estão sempre lamentando as “imperfeições constitutivas” da sociedade latino-americana, tão distantes dos seus modelos ideais de sociedade civil, de classe social, de partido político, ou mesmo, de estado e de capitalismo, E quase todos vivem atormentados com medo do populismo, do corporativismo, do nacional-desenvolvimentismo, do estatismo, entre tantos outros fantasmas do passado. Sem se dar conta que este conceitos e algumas de suas velhas teorias sociológicas e econômicas perderam aderência aos fatos, e já não demonstram nenhuma eficácia como ferramentas analíticas, e como instrumentos estratégicas, voltados para a construção do futuro.
Apesar disto, entretanto, ainda não se pode falar do aparecimento e da existência de novas teorias consistentes, e o próprio continente latino-americano ainda não superou alguns de seus grandes desafios sociais e econômicos. Mas com certeza já se pode falar de uma “revolução intelectual” e de um novo “paradigma”, porque já se consolidou uma nova maneira do continente olhar para si mesmo, para o mundo e para os seus desafios, assumidos como oportunidades e como escolhas, que devem ser feitas, a partir de sua própria identidade, e de seus próprios interesses.
Certa vez, Jean Paul Sartre disse que “era mais fácil ser escravo do que senhor”, e talvez, de fato, seja mais fácil pensar como escravo, do que como senhor. Mas depois desta “revolução intelectual” da America Latina, já não há mais necessidade de ninguém seguir pensando como escravo, ou mesmo, como aluno primário das “civilizações superiores”.
José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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