terça-feira, outubro 12, 2010

Zylbersztajn: acusação é 'má-fé cínica'

Zylbersztajn: acusação é 'má-fé cínica'
O GLOBO
Ex-presidente da ANP, acusado por Dilma de defender privatização do pré-sal, critica é o regime de partilha
SÃO PAULO. A exemplo do escritor português Eça de Queirós, o ex-presidente da Agência Nacional de Petróleo (ANP) David Zylbersztajn — primeiro a comandar a agência reguladora, no governo Fernando Henrique Cardoso — costuma qualificar de “obtusidade córnea ou má-fé cínica” as afirmações da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, de que ele defenderia a privatização do pré-sal. A acusação ao executivo foi feita no debate de domingo, com base em declarações dele durante o fórum sobre energia realizado pela revista “Exame”, no dia 20 de setembro, em São Paulo. Zylbersztajn afirma que defende a manutenção do atual sistema de contratos de concessão no setor de petróleo, em vez da proposta de partilha, que está em discussão no Congresso.
O ex-presidente da ANP, hoje diretor da DZ Negócios com Energia, tem posição diferente da assumida pelo ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, que, em 2001, defendeu, em palestra também em São Paulo, a privatização da Petrobras. “O governo já deveria pensar na privatização da Petrobras, seguindo a mesma lógica adotada no sistema Telebrás, afirmou Mendonça de Barros, na época. Ontem, ele não foi localizado pelo GLOBO.
Pelo atual modelo, criado pelo governo tucano, o petróleo é propriedade da empresa concessionária, que determina como e de que maneira ele será explorado. Mas as empresas, além do bônus de assinatura pelo direito de explorar uma área, pagam ao governo 10% sobre o valor da produção (royalties) e mais a chamada participação especial (PE), no caso de grandes campos. A PE é uma taxa de 40% sobre a receita obtida com o petróleo, mas que pode subir para qualquer nível por determinação do presidente da República.
Arrecadação pode crescer com concessão, diz Zylbersztajn Pelo modelo de partilha proposto pelo governo e em análise no Congresso, o governo não apenas se mantém dono da maior parte das reservas como sua exploração será feita por uma nova estatal (a Pré-Sal Petróleo S.A.). À Petrobras será garantida uma participação mínima de 30% em cada área de produção, querendo a petroleira ou não. Os royalties sobem para 15%.
Para Zylbersztajn, a arrecadação do governo pode crescer sem que seja necessário mudar o regime de concessões. O modelo proposto, de partilha, diz ele, tira a agilidade e a eficiência da produção petrolífera, que passa a ser regulada e controlada pela nova estatal, entidade que será uma nova ANP. Além disso, pondera, o país terá que dobrar a fiscalização sobre a atividade por conta da forte corrupção associada ao setor quando o Estado passa a se ocupar das atividades de compra e venda de petróleo.
— O atual modelo de concessão já gerou dez rodadas de licitação, das quais seis realizadas pelo atual governo, e ninguém nunca disse que o atual governo está privatizando o setor de petróleo, porque concessão é diferente de privatização — afirmou Zylbersztajn ao GLOBO.
— No modelo atual, que garante a lisura, a transparência e a eficiência da exploração da riqueza petrolífera, o petróleo é da empresa concessionária, mas o risco também é. Se a empresa não acha petróleo, ela assume a perda do investimento. E dois terços da riqueza vão para o governo brasileiro sob a forma de arrecadação (royalties e impostos).
É um sistema testado e cujo funcionamento é tão bom que permitiu que a Petrobras fizesse a descoberta do pré-sal.

Cleriston, para a Folha de Pernambuco


Importância do segundo turno

Importância do segundo turno
BENJAMIN STEINBRUCH- FOLHA DE SÃO PAULO - 12/10/10
É preciso saber a opinião dos candidatos sobre a "guerra cambial" a que se refere o ministro Mantega
COSTUMA-SE dizer que o segundo turno das eleições é útil por duas razões: dá oportunidade para se conhecer melhor as propostas dos candidatos e força o entendimento entre as várias facções políticas.
Mais do que nunca, desta vez o segundo turno da eleição presidencial será crucial pela primeira razão.
Passamos a campanha do primeiro turno sem discutir quase nenhum dos graves problemas que a próxima administração terá de enfrentar.
Enquanto os candidatos "candidamente" debatiam questões menos relevantes, corria no mercado global o que o ministro Guido Mantega chamou de "guerra cambial", declaração guindada à manchete do "Financial Times", de Londres, em 28 de setembro.
É espantoso que o assunto não tenha sido levantado em nenhum debate na televisão e em nenhuma proposta partidária, porque ele impacta diretamente o Brasil. O resultado dessa "guerra cambial" é a constante e preocupante alta do real ante o dólar e a outras moedas estrangeiras, que corrói a competitividade brasileira no exterior.
Ao contrário do senso comum, o real forte enfraquece o país, porque reduz a capacidade de exportar das empresas e, no médio prazo, pode levar a profundos desequilíbrios nas contas externas, como já ocorreu várias vezes no passado recente.
Todos os bancos centrais do mundo estão envolvidos nessa batalha.
O americano (Fed), que até março comprou US$ 1,7 trilhão em títulos da dívida dos EUA, deverá retomar essa política. O japonês (Banco do Japão) reduziu os juros a zero e vai comprar US$ 60 bilhões em títulos públicos para conter a alta do iene.
Embora pressionado pelos EUA e pela Europa, o BC chinês se recusa a permitir a valorização do yuan, para manter sua força exportadora.
O problema do câmbio, portanto, está longe de ser uma exclusividade brasileira. Mas é possível tomar medidas por aqui para atenuar seus efeitos, evitando-se que o real continue a ganhar força em relação ao dólar. Na semana passada, o governo aumentou de 2% para 4% o IOF incidente sobre ganhos de investimentos estrangeiros em renda fixa.
O impacto dessa medida, pelo menos no primeiro momento, foi pequeno para conter o grande volume de recursos que entra no país e segurar a queda do dólar. Mas a medida está na direção correta, porque tenta interferir na absurda diferença entre os juros internos e os externos -este também um tema crucial que não mereceu a atenção dos candidatos. Em aplicações pelo prazo de um ano, o investidor estrangeiro pode obter ganhos de mais de 7% no Brasil, enquanto a rentabilidade no exterior beira a zero. Por essa razão, de janeiro até agora já entraram líquidos no país mais de US$ 18 bilhões desses capitais oportunistas, contribuindo para pressionar a cotação do real para cima.
Martin Wolf, experiente editor de economia do "Financial Times", que esteve em São Paulo na semana passada, usou uma figura marcante para comentar a "guerra cambial".
Disse que ela é uma briga entre duas superpotências, a atual, os EUA, e a próxima, a China. "Quando dois elefantes desse porte brigam, os espectadores podem ser pisoteados."
O Brasil, certamente, é um desses "espectadores". Portanto, não é razoável que um tema dessa magnitude fique fora do debate entre aqueles que pretendem governar o país nos próximos quatro anos. É preciso saber a opinião deles sobre isso.
Mais ainda, é preciso saber quem são as pessoas que comporão seu time de auxiliares de primeira linha, que formularão as políticas econômica, monetária e cambial do próximo governo.
Outros temas relevantes exigem debate, como a questão do ritmo de crescimento que se pretende impor ao país. Há um fato novo nesse assunto, a partir de mensagens embutidas nos quase 20 milhões de votos dados no primeiro turno a Marina Silva, cujas propostas incorporam preocupações e proposições para a área ambiental em seus programas de desenvolvimento.
O debate da campanha no segundo turno, sem dúvida, será muito útil, desde que as discussões não descambem novamente para futricas e questões pessoais.
BENJAMIN STEINBRUCH, 56, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp. Escreve às terças, a cada 15 dias, nesta coluna.

Tem referências?

Tem referências?
Luiz Garcia - O GLOBO - 12/10/10
Não foi exatamente uma campanha alegre, esta que está quase no fim. Uma disputa pelo comando do país sem dúvida é coisa séria, sem tempo nem espaço para gaiatices. Mas uma dose de senso de humor não faz mal algum.
E isso faltou.
O Brasil não vive um momento de crise, o que exigiria candidatos permanentemente sisudos. Pelo contrário, o país vai bem, obrigado. Os oito anos de Lula não foram marcados por dificuldades fora do comum, e ele deixa o governo com direito a ser aquilo que lá fora chamam de "estadista mais velho". Não é cargo nem posto, mas simplesmente uma condição.
Implica não se meter a dar palpite sobre o comportamento de quem o suceder, mas estar sempre pronto a dar uma mãozinha em momentos de crise.
O papel nada tem de fácil. Principalmente porque quem define a gravidade da situação é sempre o sucessor, jamais o sucedido. Fernando Henrique Cardoso tem sido um ex-presidente de comportamento exemplar, mas no seu caso tudo era mais fácil: o substituto era adversário, não correligionário, muito menos discípulo.
Na hipótese - que todo mundo, ao que parece, considera altamente provável - de vitória de Dilma, Lula viverá situação bem diferente. Tendo a condição de criador, será natural e, muitos diriam, necessário que se considere um tanto responsável pelo comportamento da criatura. Caso não defina esse "tanto" com bastante cuidado e comedimento, corre o risco de transformar garoa em temporal.
Mudando ligeiramente de assunto, em que medida um governo de Dilma será diferente do que foram os anos de Lula? Não há, ainda, especulações ou previsões a respeito. Talvez por falta de referências: a candidata é virgem em matéria de comandar governos, nunca foi prefeita nem governadora. Tem experiência como ministra - o que conta pontos, mas não é bem a mesma coisa.
Na eleição não há exigência de experiência em cargos executivos. E não é hora de se tratar disso; mais para diante, poderia ser interessante uma discussão a respeito. Se a dona de casa pede referências a uma candidata a cozinheira, por que os cidadãos não podem ou devem fazer o mesmo com quem pretende tomar conta do país inteiro?

Tiago Recchia, para Gazeta do Povo


Para quê?

OPINIÃO
Para quê?
SÉRGIO PAULO MUNIZ COSTA – O Globo - Publicada em 11/10/2010 às 19h22m
No mês de agosto, precisamente no Dia do Soldado, o governo alterou as condições de cumprimento da missão constitucional das Forças Armadas, modificando-a na sua essência. Com a inserção de um político na cadeia de comando e a subordinação do emprego das forças a um oficial-general escolhido segundo critérios políticos, estão dadas as condições para o governo usar - interna ou externamente - os meios militares segundo a hipótese que bem lhe aprouver.
Assim, o aparato institucional das Forças Armadas passou a ficar legalmente sujeito a uma vontade política única centralizada na chefia do Executivo.
Logo depois da Segunda Guerra, os políticos brasileiros souberam usar para seus fins o prestígio das Forças Armadas. Em meio à instabilidade política reinante, um jovem general proferiu em 1957 uma palestra em que concluía: "Forças Armadas, para quê?" Profissional de carreira arraigadamente legalista, oficial de operações da Divisão de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira, culto historiador militar, um ouvinte atento de Fernand Braudel, Castello Branco, como chefe do Estado-Maior, reiteraria no início dos anos 60 o alerta sobre a transformação do Exército em milícia.
Anos depois, como presidente num regime que ele via comprometido com a autoextinção, Castello Branco tomou medidas para afastar as Forças Armadas da política partidária, reforçando o papel dos altos comandos e limitando o tempo de serviço dos oficiais-generais com autoridade de comando. Isso era coerente com a visão de uma revolução para acabar com todas as revoluções. Ingênuo ou não, foi esse ideal que viabilizou um novo regime, de normalidade democrática, sem golpe de Estado, algo inédito na história da República.
Dividem-se hoje os analistas entre os que veem nos acontecimentos no Brasil um risco ao sistema democrático e os que enxergam apenas mais um capítulo da luta pelo poder. Como ambos têm parte da razão, mais útil seria que os atores da cena política assumissem suas posições diante da velha dicotomia que nos assola há décadas: a preservação do sistema democrático plural ou a sua supressão em benefício de um projeto de poder.
Pela prática política em curso e manifestações dos dois candidatos à Presidência, anuncia-se a extinção do regime fundado em 1985-1988, do que estranhamente participam os próprios herdeiros da vontade política que o instituiu - no caso o PMDB das lideranças históricas hoje desaparecidas. Por mais que detestassem (ou detestem) os militares, elas tiveram (e têm) que lidar com a equação militar, porque não há como alijá-la do poder. Se não o fizerem, alguém o fará (e já o fez).
A História não se repete, mas deixa lições. O controle político ilimitado das Forças Armadas permite que um Rumsfeld emita ordens de mobilização e deslocamento a unidades militares para uma guerra a ser precipitada segundo as conveniências do poder e demita preventivamente quem dele discordar por dever funcional. Da caixa de horrores da ascensão nazista nos anos 30 na Alemanha, pode-se tirar a vergonhosa omissão dos seus generais diante do assassinato de políticos e de alguns de seus próprios companheiros, que levou à supressão de toda e qualquer oposição.
Cada um deplore a tragédia que preferir, mas tratemos de evitar a nossa. Diante de tantas mudanças, assumidas ou não, é sempre atual e prudente perguntar: para quê?

SÉRGIO PAULO MUNIZ COSTA é historiador e foi delegado do Brasil na Junta Interamericana de Defesa, órgão de assessoria da OEA para assuntos de segurança hemisférica.

Por que tanto ódio

Por que tanto ódio
Na política, só o verbo importa, a ação é secundária. E o povo espera dos dirigentes uma palavra de sintonia
Michel Maffesoli, Jornal do Brasil - 12/10/2010 06h55
É impossível recusar a dicotomia entre inferno e paraíso? Podemos, como os humanistas do Renascimento, abordar um fenômeno sine ira et odio? Como decifrar o efeito que Sarkozy provoca, em alguns – as elites educadas –, tantas reações histéricas, e em outros (este povo tão preocupante) um acordo explícito ou implícito? Claro, podemos taxar de populismo o fato de suas declarações ultrajantes e aguerridas contra os  Roms ou os “bandidos” reconfortam aqueles que convivem diariamente com eles. De certa forma, é a injúria como catarse da violência.  Mas podemos igualmente observar que estamos diante de um fenômeno de participação mística de um chefe atualizado com as reações populares. Um Sarkozy está lá, atualizado com o lençol freático que são as massas populares, mas que não corresponde em nada ao que as elites. em sua maioria, gostariam de ouvir, de entender, de interpretar.
É preciso retomar aqui a distinção proposta por Auguste Comte, entre “país legal” e “país real”. Oposição frequente nas histórias humanas, sob diferentes nomes: a que sublinha o desacordo profundo entre o povo e os seus representantes. Desacordo ou desamor permitindo a emergência de novos líderes que, por sua vez, “sentem” o que convém dizer e fazer.  Líderes populistas? Carismáticos? Demagógicos? Depende do momento. Em todo caso, são sempre indícios flagrantes de que um ciclo se encerra, e com ele uma maneira de fazer política, de pensar a política. Podemos traduzir em nossos dias a distinção comteana apontando um fóssil intransponível entre opinião “publicada” e opinião pública – esta não se reconhecendo em nada daquilo que é publicado.  
Resulta daí uma pergunta simples: por que tanto ódio em relação ao presidente da República? Talvez porque aquilo que tanto irrita a opinião pública esteja em perfeita congruência com a opinião pública. É verdade que, para dizer em uma expressão mais coloquial, há “altos e baixos” nas pesquisas. E com razão, já que a versatilidade é uma das características essenciais da opinião pública.  Mas, fundamentalmente, Sarkozy, com seus aspectos mutáveis, sua sintaxe aproximativa, sua teatralidade vidente, com seu lado “m’as-tu vu”, através de um desejo de gozo aqui e agora, não faz mais que estender um espelho,  no qual o povo entretido pode ver o reflexo de sua alma coletiva. Ele é, por si só, uma autobiografia do povo!
Este é o segredo de seu magnetismo. Basta que ele se desloque para o interior do país, que visite uma usina, faça de conta que se interessa pelos camponeses ou percorra os corredores de um hospital para que seu carisma funcione.  Sua presença, apesar ou graças a seus defeitos e imperfeições, suscita uma “participação mágica”. É assim que etnólogos, como Lévy-Bruhl, designavam este “não-sei-quê”, esta coisa imaterial, imponderável, que escapa a toda estatística, assegurando a coesão de uma comunidade, o sentimento de pertença,  fazendo de conta que há um vínculo, uma ligadura social.
É preciso, de fato, aproximar o fazer e o dizer de Nicolas Sarkozy dos processos religiosos ou mágicos. A palavra, o verbo, a atitude têm, de certa forma, uma força própria, sejam eles seguidos ou não de decisões. Quando Sarkozy explica que é preciso “limpar a cidade no Kärcher (lavadora de carros)” ou “desmantelar os acampamentos irregulares” ou, ainda, durante o seu discurso de  Grenoble, “declarar guerra aos bandidos”, não se trata de um ato elaborado de agressão aos “viajantes” ou “selvagens”. Trata-se, simplesmente, de uma reação, uma ação de resposta. Ação que se baseia inteiramente na potência do verbo, que faz eco às palavras que gostariam de pronunciar, no mesmo instante, aqueles que não podem mais viver ali. 
Como seria bom se bastasse uma passagem ao Kärcher, ou distribuições de pacotes de 300 euros para resolver as dificuldades do viver-junto cotidiano. A passagem do Kärcher é o que faz eco a essa “preocupação” constante, mesmo que inconsciente, de limpar os grutões, as garagens, os outros lugares sujos. Uma tal limpeza se parece com o esplendor de um ostensório, com o fogo purificador, enfim, com a cerimônia arquétipa de todo exorcismo.  Sabemos que ele só tem realidade no instante da cerimônia.
Assim, pouco importam as promessas ou ameaças. Estas não foram feitas para serem mantidas. Basta, a um homem político, saber servir-se, com força, de uma imagem ou metáfora que qualquer um possa compreender ou gostaria de dizer naquele momento. E sem que isso tenha consequências. Na política, que nada tem a ver com moral (fato que esquecemos frequentemente), apenas o verbo importa, a ação é secundária! É preciso ter a lucidez de reconhecer que o que o povo espera dos dirigentes é uma palavra que esteja em sintonia com o modo como ele vive. Que ele esteja à escuta. Lição fundamental deixada por Heidegger em Ser e tempo: “Compreender é vibrar”.  Trata-se de uma constante antropológica.  A verdadeira potência dos chefes, sejam os das diversas tribos indígenas ou os muitos presidentes da República (De Gaulle ou Mitterrand são exemplos acabados), é antes de tudo a do “verbo”.
Esta é a intuição de um presidente. Desde então, negócios de todos os tipos podem entreter a crônica, artigos vingativos ou arrastar na lama – nada disso tem muita importância, a partir do momento em que, por uma graça misteriosa, a simples existência de um Sarkozy, não tendo que fazer análises muito racionais, é fonte de inspiração para um desejo de gozo, para o hedonismo imediato que, para o melhor e o pior,  caracteriza o espírito do nosso tempo.
Michel Maffesoli* Instituto universitário da França

Don Quixote, no Municipal do Rio

Don Quixote em cena, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro

Xalberto, para a Charge Online


Onda verde na campanha preocupa bancada ruralista

Onda verde na campanha preocupa bancada ruralista
Por Pedro Venceslau e Felipe Peroni* Brasil Econômico 12 de outubro de 2010 às 14:48h
A tentativa de aproximação de Dilma e Serra com os eleitores de Marina Silva na campanha para o segundo turno colocou em estado de alerta as principais lideranças ligadas ao agronegócio no país
Expoentes da chamada “bancada ruralista”, responsável pelo lobby mais organizado e poderoso do Congresso Nacional, temem que a celeuma em torno da ex-ministra do Meio Ambiente imploda conquistas importantes do grupo.
O epicentro das expectativas é a reforma do Código Florestal. “Ela foi aprovada nas comissões, mas ainda não foi votada em plenário.
Isso vai acontecer em 2011. O crescimento da Marina certamente fortalece nossa posição. Vamos derrubar a reforma”, afirma Mario Mantovani, diretor executivo da ONG SOS Mata Atlântica.
“Se não houver a reforma do Código Florestal, o Brasil quebra”, rebate o deputado Valdir Colatto (PMDCSC), vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária.
Apoiador de José Serra, ele revela preocupação com o aumento da influência dos ambientalistas e revela divergências com a maior líder do segmento, Kátia Abreu, presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA).
“Ela defende uma proposta que foi adotada pelo Serra: a moratória do agronegócio e a suspensão do desmatamento por um período que pode chegar a cinco anos. Kátia Abreu acha que isso diminui a ira dos ambientalistas”, diz Colatto.
O deputado afirma que 90% dos agricultores são contra essa ideia. Em relação ao Código Florestal, Colatto é categórico ao afirmar que, se ele não for mudado, o Brasil deixará de produzir vários produtos como arroz, café e soja.
“Praticamente toda produção de arroz de várzea do país está em área de preservação permanente. Se você fizer as contas, vai concluir, ainda, que 71% do território brasileiro é intocável.”
A reportagem do Brasil Econômico não conseguiu falar sobre o assunto com o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra.
Já o senador Sergio Guerra, presidente do PSDB, deixa no ar o suspense. “O partido está aberto para discutir de forma mais ampla a questão ambiental.”
Questionado sobre a possibilidade de negociar um recuo na reforma do código, o tucano é evasivo. “Tudo tem seu tempo.”
Ele afirma, ainda, que “não tem a menor ideia” se a aproximação com Marina está gerando descontentamento com o setor do agronegócio.
“Sobre restrições ambientais, nós temos preocupações dos dois lados, do Serra e da Dilma. Eles sofrem a pressão da opinião pública, um pouco paranoica. Agora cada um quer ser mais verde que o outro. Estão tão verdes que vão virar papagaio”, dispara Normando Corral, vice-presidente da Federação de Agricultura e Pecuária do Mato Grosso.

Ele não esconde que teme o passe inflacionado de Marina Silva. “A gente tem receio de que, na disputa pelos votos da Marina, eles comecem a ficar radicais demais. Nós queremos produzir nas áreas que já estão consolidadas. Agora querem que, mesmo nessas áreas, volte a ter mata nativa.”
A bancada ruralista no Congresso Nacional conseguiu reeleger seus principais nomes em 2010. Entre os que renovaram o mandato estão Luis CarlosHeinze (PP-RS), Abelardo Lupion (DEM-PR), Onyx Lorenzoni (DEM-RS), Moacir Micheletto (PMDB-PR) e Homero Pereira (PR-MT).
O comunista Aldo Rebelo, que esteve na linha de frente da reforma do Código Florestal, também se reelegeu em São Paulo. No Senado os reforços são Ana Amélia Lemos (PP-RS), Blairo Maggi (PMDB), Acir Gurgacz e Waldemir Moka (PMDB-MS).
 * Matéria originalmente publicada no site Brasil Econômico

Dirceu e Ciro passaram a ser mais ouvidos na campanha

Dirceu e Ciro passaram a ser mais ouvidos na campanha
Adriana Vasconcellos e Gerson Camarotti - O GLOBO
Estratégia de Dilma no debate de domingo foi orientada também por Lula
BRASÍLIA. A postura apresentada pela candidata petista, Dilma Rousseff, no debate da TV Bandeirantes, na noite de domingo, foi uma orientação do presidente Lula. Com isso, a mudança de comportamento da petista, abandonando o figurino “Dilminha paz e amor” do primeiro turno, marca uma nova correlação de forças no comando da campanha com a realização inesperada do segundo turno.
Perde força o comando de marketing liderado com autonomia até agora pelo publicitário João Santana. Diferentemente do primeiro turno, o marketing será subordinado às decisões estratégicas.
Em 7 de outubro, Lula discutiu mudanças na campanha com Dilma e a orientou a fazer ajustes em sua imagem, sendo mais espontânea.
Dentro dessa determinação é que a candidata assumiu o figurino “Dilma como ela é”, nas palavras de um petista.
A nova ordem de Lula foi reforçada pela influência de novos membros da coordenação política, principalmente o deputado e ex-ministro Ciro Gomes (PSB/CE).
Numa reunião com Dilma, Ciro foi direto ao afirmar que ela estava muito “engessada” e que neste momento ela deveria falar com mais naturalidade.
Outro que passou a ser mais ouvido nesta fase da campanha foi o deputado cassado José Dirceu.
Muito forte no partido, ele ganhou a tese de que era preciso que Dilma fosse para o ataque para reanimar a militância. Com isso, perdeu força o discurso moderado, defendido pelo deputado Antônio Palocci (PT-SP).
Ontem, numa reunião de coordenação de campanha, a avaliação era de que a participação de Dilma cumpriu três papéis: carimbou em Serra a responsabilidade pela “central de boatos”; resgatou a comparação com o governo FH ao retomar o debate sobre as privatizações; e deu um novo estímulo à militância.
Mesmo assim, segundo um coordenador, a postura mais agressiva pode ser suavizada.
Tudo dependerá das pesquisas quantitativas. Num primeiro momento, os grupos aprovaram o desempenho de Dilma.
Os tucanos viram no gesto de Dilma uma demonstração explícita de desespero de quem está querendo recuperar terreno na disputa. O deputado Jutahy Júnior (PSDB-BA) salientou que a nova postura de Dilma confirma o que as pesquisas diárias encomendadas pela oposição (o chamado tracking) já estariam mostrando: que ela já teria perdido a dianteira da disputa para Serra.
— O debate foi ótimo para a gente. A postura de Dilma foi agressiva, ansiosa e dispersiva.
Ela se colocou como alguém que foi para o tudo ou nada.
Para o líder do governo, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), a candidata petista dominou o debate ao impor os principais temas da noite: — O que Dilma fez foi desmascarar a baixaria, colocando nas cordas José Serra.

Desfile Kenzo, Paris Fashion Week

Pelicano, para Bom Dia (SP)


Caetano Veloso - Começando a pensar

Caetano Veloso - Começando a pensar
No camarim, um fã que é economista me disse que eu estou liberal demais
 Terríveis as coisas que a gente pode encontrar na internet. Alguns exemplos dados por Aldir Blanc de agressões a Dilma Rousseff postadas por apoiadores do seu opositor são de meter medo.
Outros que amigos me mandaram por e-mail, vindos de ambos os lados, dão a impressão de que a violência covarde é um traço estimulado pelo aparecimento da www. Desanimamos de partilhar o otimismo dos amantes da rede. Recebi a denúncia de um panfleto da TFP que teria sido distribuído na reunião do PSDB para a campanha do Serra. Foi postado num blog. Mas o blog estava evidentemente empenhado em fazer crer que PSDB e TFP são a mesma coisa. É uma utilização maldosa do esquerdismo superficial de quem pensa que apoia Dilma por ser contra a direita.
Alguém postou um trecho de declaração minha conjugada com palavras ditas por Carlos Lacerda nos anos 50.
Não quero fazer aqui uma revisão da apreciação histórica de Lacerda. Mas é preciso lembrar que não estamos em 1953. Do que eu disse, escolheram a palavra “golpista”, como se eu a tivesse usado diretamente contra Lula, como que para fazer par com o “analfabeto” de um tempo atrás. Bem, já falei demais sobre “analfabeto”, logo depois da entrevista ao “Estadão” (em carta enviada ao jornal), e várias vezes depois, incluindo esta coluna no domingo passado. Em Lisboa, numa palestra na Casa Fernando Pessoa sobre as relações entre o tropicalismo e o livro “Mensagem”, declarei que Lula é um ungido que poderia fazer parte da lista das grandes figuras épicas eleita pelo poeta. “Analfabeto” é contingência miúda diante dessa perspectiva.
Mas “golpista” tange outra nota.
Eu odiaria chamar Lula de golpista exatamente no momento em que ele desfez uma possibilidade de movimento de terceiro mandato.
Para mim iss o t e m m u i t o grande importância: que Lula não tenha embarcado numa onda ChávezUribe, regressiva, de tentar perpetuar-se no poder. Sugeri a semelhança da situação de Dilma com a de Dutra: Lula a poderia estar colocando lá para manter a turma e voltar dentro de quatro anos. Mas mesmo isso seria diferente de continuar no poder. Porque sei que Lula está tão cônscio quanto suponho que se deva estar a respeito das diferenças entre o nosso tempo e os anos 40/50. Lula é esperto e alerta. Não só eu, mas o eleitorado brasileiro deu uma sacudidela nele quando ele passou a dizer coisas como “nós somos a opinião pública” ou “a imprensa age como um partido político”. Odeio ler no Paulo Henrique Amorim aquela sigla PIG significando “Partido da Imprensa Golpista”.
Considero que golpista é querer ter publicações que aplaudam unanimemente o governante. Mas não me sentiria bem chamando Lula de golpista por ter sido autoindulgente e ter-se entregue à euforia maníaca. Se Dilma se elege, agora eles já sabem que o fenômeno populista não é tão dominante assim.
Acabo de sair do palco de um show de grande importância para mim. Escrevo às pressas. Mas tenho a excitação de quem começa a pensar.
Depois do primeiro turno, com a clara lição de Marina, parece que começo a pensar em quem votar. De fato não sei. Talvez não vote em nenhum dos dois. Mas fiquei com muita vontade de ouvir o que eles agora têm a dizer.

No camarim, um fã que é economista me disse que eu estou liberal demais, influenciado por Eduardo Gianetti.
Ele diz que Marina, como eu, está tendendo para o liberalismo por influência desse autor.
Na verdade admiro Gianetti porque sou atraído pelas ideias liberais há muito tempo. Em “Verdade tropical” isso está descrito. E Leminski teve de meu ouvir centenas de vezes dizer que sou liberal (não sou, mas o dizia para fazer contraste com o esquerdismo filo-comunista dele). Li o artigo de Safatle na “Folha” sobre Marina estar, como o PV europeu, tendendo para o centro (direita). Não me convenceu.
Wall Street não vai encontrar-se com Marina por aquelas vias. Terá necessariamente de encontrar-se com quem quer que venha a ser presidente do Brasil. O Brasil hoje é parte grande da conta.
O meu fã economista se vale da minha ignorância na matéria.
Ele diz que o que o Brasil precisa agora é de desenvolvimentismo.
Que ele identifica com Dilma. Mas Serra é igualmente desenvolvimentista. Marina se opõe ao desenvolvimentismo sem os resguardos conservacionistas.
Bem, estou entre a proposta liberal da “The Economist”, de taxar o carbono (os americanos deviam encarar essa), e as rebeldes investidas de Glauber Rocha contra todo o movimento ecológico (“Temos muita terra, mata e água para usar: os países ricos exauriram as suas e agora querem nos impedir de crescer”). Mas o que me orienta é o que li no livro “1822” sobre o documento da Câmara dos Vereadores de Santo Amaro do ano da Independência: “A primeira vila do Recôncavo a se pronunciar foi Santo Amaro da Purificação.
No dia 14 de junho de 1822, a Câmara de Santo Amaro reuniu-se para produzir um documento memorável.
Além de declarar seu apoio a D. Pedro, os vereadores elaboraram um programa de governo para o Brasil independente.
Pediam que o novo país organizasse um exército e uma marinha de guerra, um Tesouro Público e um Tribunal Supremo de Justiça.
Propunham também uma junta de governo eleita pelo povo — novidade extraordinária numa época em que o povo não era ouvido para decidir coisa alguma.
Por fim, defendiam tolerância religiosa, a criação de uma universidade e a atração de investidores e capitais estrangeiros para estimular a indústria nacional.” Meu DNA.
Publicado no O Globo de 10/10/2010

Clip com a música "Não quero ver você triste" - Marisa Monte

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