sábado, outubro 16, 2010
Carta aos mortos Affonso Romano de Sant'Anna
Carta aos mortos
Amigos, nada mudou
em essência.
Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há récordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.
Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.
Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.
Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.
Nada mudou em essência.
Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração, insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.
Affonso Romano de Sant'Anna
( 1937)
Vale a pena ver de novo: Marina diz por que deixou o governo
Vale a pena ver de novo: Marina diz por que deixou o governo
Ela disse (no vídeo acima, a partir de 3 minutos e 15 segundos) que deixou o Ministério do Meio Ambiente em 2008 após Mangabeira Unger, então à frente da SAE, e Reinhold Stephanes, na época no comando do Ministério da Agricultura, pressionarem o presidente Lula para revogar medidas contra o desmatamento na Amazônia.
Marina isentou Dilma Rousseff (PT) de participação no episódio. "Quando eu percebi que eles [Stephanes e Unger] estavam induzindo o presidente ao erro de revogar as medidas baseados em dados de uma secretaria de meio ambiente do Estado de Mato Grosso [então na liderança do desmatamento], eu pedi para sair", disse.
"Nesse aspecto, por uma questão de Justiça, a ministra da Casa Civil [na época Dilma] nem estava participando diretamente deste processo", acrescentou.
Dois irmãos
Dois irmãos
Marcelo Coelho – Folha de São Paulo
| Cena do filme |
A velhice, ou, se preferirmos, a madurez, está se tornando especialidade do cinema argentino, o que não é um fenômeno criticável por si mesmo. Dá ocasião a filmes sensíveis, algo melancólicos mas afinal de contas conciliadores, hábeis ao tratar de emoções em meio tom.
"Dois Irmãos", de Daniel Burman, tem bem esse espírito, pelo menos no encaminhamento geral do roteiro. Mas o espírito ameno contrasta com a caracterização das personagens principais. Antonio Gasalla e Graciela Borges vivem o par, nada fraternal, do título. Ela é uma arrivista trambiqueira, que oprime e explora o irmão, sujeito tímido e passivo, que com seus sessenta anos se dedica a cuidar da mãe doente.
Tem-se a impressão de que o filme tenta transpor, sem muitos desastres, alguma peça de teatro que terá servido como veículo para o talento inegável dos dois atores principais. No palco, a presença de Graciela Borges, com seus figurinos impagáveis e mesquinharias espantosas, serviria àquela função, tão necessária ao público, da personagem que se gostaria de esganar ao vivo.
Espera-se o tempo todo a reação, o grande momento explosivo pelo qual Antonio Gasalla haverá de dizer à irmã “um monte de verdades”. O teatro pode viver dessa tensão - como é, vai ter briga ou não vai ter?—sem que as personagens precisem se transformar muito ao longo da peça.
No cinema, isso funciona menos: as tiradas repetidas, as cenas mais ou menos equivalentes que se sucedem, não contam com aquele espaço vazio, aquele oco, aquele intervalo de ar que existe entre o público e os atores. A película “adere” mais ao rosto dos atores, o cenário é mais fluido, há menos máscara e mais interiorização. O talento de Gasalla e Graciela Borges não deixa margem a dúvidas; mas não constitui um triunfo, e o filme inspira mais carinho do que admiração.
Amnésia
Amnésia
Eis a explicação para certas sinuosidades nas falas de Lula.
Bolívar Lamounier – Portal Exame
Estou caminhando para uma centena de artigos aqui no blog, mas ainda não consegui me livrar de um velho cacoete acadêmico: o de escrever textos muito longos.
Como hoje é sexta-feira, vou fazer o possível para escrever menos. Só não prometo reduzir a quantidade de abobrinhas.
Umas três semanas atrás eu fiz um comentário bem inocente sobre as pesquisas: escrevi que Dilma Rousseff estava com tendência de queda. Um velho amigo petista (sim, tenho vários!) contestou-me (não aqui, pelo Facebook) e me fez severa ponderação contra o que lhe pareceu ser uma leitura tucana das estatísticas.
Conversa vai, conversa vem, Dilma caiu mais um pouco e deu segundo turno. Ontem, espiando de novo as pesquisas, observei que ela havia caído mais um pouco. Eu, não, todo mundo. A começar pelos próprios integrantes da campanha governista.
Diante do que agora lhes pareceu uma situação “problemática”, o que foi que eles decidiram?
Está na imprensa de hoje. Mandaram chamar o Lula. Querem que ele apareça mais na televisão e em eventos de rua. Problemas – como escrevi outro dia – são em geral causados por soluções. Primeiro eles resolveram amoitar um pouco o Lula, para a candidata poder aparecer mais. Esta solução já pautou o debate da Band no último domingo. A candidata fez e aconteceu.
Consta que a reação popular foi boa. Boa, mas insuficiente, do contrário não teriam ido buscar o Lula.
Hoje de manhã, Lula não foi ao Planalto. Estava gravando para o horário eleitoral da candidata. Algo de errado nisso?
Sim, claro. Há muito de errado. E de ilegal. Ilegalidade não só à luz da Constituição e das leis do país, mas até aos olhos do jurista Luís Inácio Lula da Silva.
Foi ele que inventou (ou encomendou, sei lá) a teoria segundo a qual o presidente deixa de ser presidente depois do expediente. Desculpem a rima pobre, mas nesta história é tudo pobre.
Hoje o jornalista Josias de Souza postou em seu blog algumas observações preciosas sobre duas viagens eleitorais de Lula, uma ao Piauí e outra ao Pará.
Ao Piauí, Lula foi sozinho, quer dizer, sem Dilma. A certa altura – aqui eu passo a palavra ao Josias: “… a atmosfera de campanha levou a plateia a gritar o nome de Dilma, que não estava presente. E Lula: ‘vocês sosseguem o facho, apaguem o fogo, porque aqui é um evento oficial da Presidência da República’”.
Ainda no Piauí, Lula caprichou em suas fábulas de auto-vitimização. Falou dos sofrimentos que padeceu nas mãos de adversários etc etc e, lá pelas tantas, comparou-se a Jesus Cristo.
De maneira sutil, é óbvio. Disse que o acusavam de comunista por usar barba e aproveitou para meter Jesus Cristo na história. Assuntinho irrelevante, não é? Resolvi mencioná-lo só porque me lembrei do Luís Nassif, que ontem fez em seu blog uma douta peroração sob o título de ”Psicologia de massas do fascismo”.
Nassif precisou se contorcer um pouco, isto é verdade, mas “conseguiu” responsabilizar Fernando Henrique e a mídia pela disseminação do que lhe parece ser um clima de pré-fascismo no país. Para isso eles teriam inclusive – atenção, atenção – explorado a religiosidade singela das classes mais pobres. Esta é ou não é de cabo-de-esquadra?
No Pará, com Dilma a tiracolo, Lula foi didático, explicando aos presentes que adversários malevolentes fazem acusações infundadas não só contra ele e ela. Lembrou-o que outros grandes políticos do passado, como Getúlio, Juscelino, João Goulart, também foram duramente atacados.
“Uma parte da elite fazia essas acusações também a Ulysses Guimarães, em 1974, quando ele foi candidato da oposição [contra o general Ernesto Geisel]”.
E aí Lula soltou esta pérola:
[Fizeram] “… o mesmo discurso contra Tancredo Neves, quando [ele] foi para o Colégio Eleitoral [contra Paulo Maluf]…”.
Lula, como se vê, tem prerrogativas que os mortais comuns não possuem. Prerrogativas não é bem o termo. Tem características que nós, mortais comuns, não possuímos. Uma delas é o que se poderia chamar de amnésia presidencial.
É um tipo raro de amnésia, que ataca forte e subitamente se esvai, e que às vezes o faz esquecer posições que ele mesmo enfaticamente assumiu no passado.
No Piauí, como vimos, ele se esqueceu mas repentinamente se lembrou de que “estava” presidente e não cabo eleitoral. Só despertou para o fato quando a plateia gritou Dilma, Dilma.
No Pará, ele se esqueceu de posições que assumiu e impôs ao PT. Contou as críticas endereçadas a Tancredo Neves, na fase final da redemocratização, sem se dar conta de que os críticos mais ferozes foram justamente ele e o PT.
No calor paraense, Lula deve ter sofrido um tilt, um branco qualquer, ou, se preferem, um surto de amnésia presidencial. E deve ter sido um surto forte. Lá ele esqueceu, nada mais e nada menos, que o PT se recusou a apoiar a eleição de Tancredo Neves e até expulsou três deputados federais que não se conformaram com tamanho facciosismo.
Rússia e Venezuela selam acordo nuclear
Rússia e Venezuela selam acordo nuclear
Medvedev ajudará Chávez a construir reatores.
No Brasil, especialistas não veem problemas
Evelyn Soares – Jornal do Brasil Online
Foi em Moscou a primeira parada da viagem que Hugo Chávez, presidente da Venezuela, faz por países do Oriente Médio e do Leste Europeu para estabelecer bases de cooperação.
Em reunião, em clima amigável, com Dmitri Medvedev, presidente da Rússia, acordos bilaterais foram ampliados no setor petrolífero e na área nuclear.
Um plano de construção de dois reatores nucleares de 1.200 megawatts foi selado.
A Rússia deseja que a Venezuela disponha de toda sorte de possibilidades energéticas declarou Medvedev. Chávez me assegurou que isto provocará reações diferentes em alguns Estados, mas quero dizer que nossas intenções são absolutamente claras e transparentes.
E Chávez reforçou: A Venezuela caminha para a energia nuclear. É desnecessário dizer, mas prefiro falar: com fins pacíficos, é claro.
O venezuelano informou ainda que não pretende fabricar uma bomba atômica com a transferência de tecnologia nuclear da Rússia.
A primeira desconfiança já veio dos Estados Unidos. P.J.
Crowley, porta-voz do Departamento de Estado, disse que a situação será vigiada muito, muito de perto: Esperamos da Venezuela, Rússia ou qualquer outro país que busque este tipo de tecnologia, mas que assuma suas obrigações internacionais.
O alarde feito pelos Estados Unidos é apenas marketing político, critica Manuel Sanches, professor de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Isso tudo é propaganda política, tanto dos americanos como de Hugo Chávez. Hoje, ele não precisa da energia nuclear e não tem competitividade para enfrentar a Argentina e o Brasil, que têm mais conhecimento desta área na América Latina.
Amado Cervo, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), enxerga o acordo como uma possibilidade de suprir, futuramente, o uso do petróleo, fonte esgotável de energia, que é base da economia venezuelana.
O modelo bolivarista-socialista de Chávez faz com que, aos poucos, a economia vá à falência.
Este é o único país da América Latina com declínio no crescimento econômico. Então, a produção de energia nuclear é alentadora também para o futuro da economia de lá.
Tanto Cervo como Sanches acreditam que não há razão para imaginar que Chávez possa se tornar o Ahmadinejad da América Latina. O Tratado de Tlatelolco, firmado em 1967 entre os países latino-americanos e o Caribe, estabelece a desnuclearização militar na região.
Chávez precisaria ter um conjunto de equipamentos para lançar bombas nucleares e, além disso, necessitaria de mais ou menos 20 anos para usar urânio enriquecido para fins militares argumenta Sanches.
O acordo não deve inquietar ninguém acalma Cervo. Será apenas mais um país com energia nuclear que, futuramente, pode criar com Argentina e Brasil uma cooperação para o desenvolvimento nuclear do continente.
E-mail da Petrobras é usado para a campanha de Dilma
E-mail da Petrobras é usado para a campanha de Dilma
Flávio Freire - O GLOBO
Coordenador de Patrocínio convocou fornecedores para ato no Rio segunda-feira
SÃO PAULO. Mecanismos de comunicação da Petrobras continuam sendo usados em apoio à candidatura de Dilma Rousseff (PT) à Presidência. Segundo email enviado da caixa postal do coordenador de Patrocínio à Música e Patrimônio da estatal, Claudio Jorge Oliveira, ao qual O GLOBO teve acesso, fornecedores estão sendo convocados para participar de ato político a favor da campanha petista marcado para acontecer no Rio, na próxima segunda-feira.
Com título em letras maiúsculas, o funcionário convida os “caros amigos” a participar do evento. No corpo do documento, destaca a participação de artistas e intelectuais, liderados pelo cantor e compositor Chico Buarque, além dos escritores Leonardo Boff, Eric Nepomuceno e Fernando Morais e do sociólogo Emir Sader. Na ocasião, como destacado em negrito no e-mail, será entregue à candidata um manifesto de artistas e intelectuais pró-Dilma.
No e-mail, o funcionário pede a adesão à campanha do PT e faz um apelo: “Se você puder, divulgue o evento junto a seus amigos do Rio de Janeiro”.
Petrobras diz que prática é proibida A Petrobras informou que essa prática não é autorizada pela empresa: “O uso do correio eletrônico corporativo da Petrobras em atividades de caráter político-partidário é proibido por norma interna. O correio encaminhado pelo jornal foi repassado à área competente, que vai apurar o caso”.
O advogado Ricardo Penteado, que representa a candidatura presidencial do tucano José Serra, pretende entrar na Justiça contra o uso da estatal “para objetivos eleitorais”. Em relação à Petrobras, a guerra entre tucanos e petistas foi acentuada depois que Dilma acusou publicamente dirigentes do PSDB de quererem privatizar a empresa.
O presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, também usando o sistema interno de comunicação, entrou na campanha pró-Dilma para dizer que, se dependesse da gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, a companhia “morreria de inanição”.
Um dos coordenadores de campanha do PSDB, senador Álvaro Dias (PR), disse que a estatal está sendo usada como “patrimônio dos petistas”.
O humor do Nobel
O humor do Nobel
Menos de uma semana após vencer o prêmio, Mario Vargas Llosa dá palestras em SP e Porto Alegre, distribui autógrafo e faz piada ao dizer que gostaria de causar nas próximas gerações o impacto de Victor Hugo e Flaubert
SYLVIA COLOMBO - ENVIADA ESPECIAL A PORTO ALEGRE
| Vargas Llosa palestra em Porto Alegre |
Mario Vargas Llosa, 74, tem vivido dias de um legítimo popstar. Entre flashes de fotógrafos e assédio de fãs e jornalistas, o peruano passou dias intensos no Brasil.
Há pouco mais de uma semana, o autor de "Conversa na Catedral" foi agraciado com um Nobel de Literatura que havia muito ansiava, mas que já não imaginava mais receber.
Inquieto e ocupado como sempre, decidiu não mudar nada do que tinha na agenda. Na segunda, já estava de volta às aulas que ministra em Princeton (Nova Jersey).
Dois dias depois, começou uma intensa maratona por aqui. "Me perguntaram por que eu não suspendi a viagem, mas era um compromisso marcado havia muito tempo e eu não costumo cancelar coisas."
Em São Paulo, deu duas palestras (uma na Folha) e participou de um jantar. No dia seguinte, voou para Porto Alegre, onde concedeu uma entrevista para 60 veículos e fez uma conferência para mil pessoas no ciclo Fronteiras do Pensamento.
Em todos esses compromissos, apresentou-se galante, sorriu e distribuiu autógrafos. "Li quase todos os seus livros", disse a fã que o abordou já dentro da aeronave que o levou ao Sul. Vargas Llosa agradeceu o elogio e conversou brevemente com a moça.
No palco do Fronteiras, foi questionado sobre o que poderia desejar agora, depois do prêmio máximo das letras. "Gostaria de causar em futuras gerações o que Victor Hugo, Faulkner ou Flaubert causaram em mim. Ou seja, seguirei frustrado", disse, fazendo o auditório rir e, na sequência, aplaudi-lo de pé.
Pouco antes, Vargas Llosa conversou com a Folha sobre literatura latino-americana, o romance que está por lançar ("O Sonho do Celta") e a coletânea de ensaios "Sabres & Utopias", recém-editada aqui pela Objetiva.
Folha - O sr. diz que tem vontade de transformar tudo o que acontece em sua vida em ficção. No ensaio sobre Borges que está em "Sabres & Utopias", analisa como o argentino baseou sua obra mais naquilo que leu do que no que viveu. Seria essa a principal diferença entre os trabalhos dos dois?
Mario Vargas Llosa - Para Borges a matéria-prima sempre foi a literatura. Ele costumava dizer que lera muitas coisas, mas que vivera poucas. No meu caso, a leitura me apaixona, mas a matéria-prima do que escrevo são as experiências vividas, as pessoas que conheci, as coisas que ouvi. Minha obra está muito mais baseada em experiências vitais.
Em outro dos ensaios, o sr. fala do impacto causado por uma viagem que fez à região de Alto Marañon, na Amazônia peruana, no final dos anos 50. Esta o inspirou a escrever livros importantes, como "Pantaleão e as Visitadoras". Também está por trás do romance que está por lançar, "O Sonho do Celta" [sobre Roger Casement (1864-1916), diplomático inglês que atuou no Congo Belga e na América do Sul]?
Aquela foi uma viagem muito importante, eu tinha 21 anos, pude encontrar diferentes caras do meu país e também voltar ao passado e encontrar tribos que poderiam estar na Idade da Pedra. Foi a viagem mais fértil da minha vida. Durou poucas semanas, mas inspirou "Pantaleão", "A Casa Verde" e me fez carregar referências da selva para sempre. Também está no "Sonho do Celta". Mas eu voltei depois à floresta várias vezes, ela me ensina coisas importantes sobre o Peru.
Se pudesse sintetizar a ideia que Casement teve da América Latina, como o faria?
Da América Latina, Casement conheceu apenas a barbárie, a cobiça e a crueldade. Ele esteve na Amazônia visitando os lugares onde havia a exploração da borracha. Seus textos ajudaram a denunciar os horrores e injustiças terríveis que se cometiam lá naquele tempo. Descrevem de forma muito minuciosa um mundo que fomos escondendo, por vergonha.
No passado, o Peru teve um grande autor na figura de José María Arguedas ("Os Rios Profundos", 1958). Hoje, aparecem nomes como os de Daniel Alarcón e Santiago Roncagliolo. Como o sr. se relaciona com essa tradição e esse presente da literatura peruana?
Eu venho desse passado, inegavelmente. "Os Rios Profundos" é um livro belíssimo e essencial para entender o Peru. Com os autores do presente, tenho diálogo e os sigo com muito interesse. Sinto que há uma conexão entre as gerações.
O Nobel se caracterizou, nos últimos tempos, por fazer escolhas políticas, geralmente de autores mais esquerdistas. Muitos se surpreenderam que dessem o prêmio ao sr. Como vê isso?
Eu também me surpreendi [risos]. Não exagero em dizer que estava totalmente convencido de que nunca me dariam o prêmio. Minha surpresa foi total, mas me alegro. E, afinal, seria de muito mau gosto se eu me pusesse a criticar o Nobel justo agora, não acha? [risos]
Porto Alegre deu sorte. Exatamente uma semana após Mario Vargas Llosa ter recebido o prêmio Nobel de Literatura, o escritor peruano veio palestrar justamente na capital gaúcha, no ciclo Fronteiras do Pensamento, na quinta-feira (14). A plateia o recebeu com aplausos em pé no auditório da reitoria da Ufrgs, que estava lotado. Durante a conferência, mediada por Sergius Gonzaga, Llosa discursou sobre o papel e o conceito de cultura ao longo da história e mostrou preocupação com a banalização do conhecimento nos dias de hoje. Após terminar sua palestra, respondeu perguntas do mediador e da plateia sobre assuntos como literatura e política. Disse que o panorama político latino-americano melhorou muito nas últimas décadas, lembrando que na sua juventude o continente era dominado por ditaduras. Também comentou que a América Latina ainda está descobrindo a sua própria literatura. Ao final, perguntado sobre o que faria com o dinheiro do prêmio Nobel, respondeu que a decisão ficaria a cargo da sua mulher, Patricia, e que ele só queria que ela lhe deixasse o suficiente para comprar alguns livros. Acrescentou que ela é muito generosa e certamente o fará, mostrando o bom humor de um prêmio Nobel. JORNAL DO COMÉRCIO - Porto Alegre - 16/10/2010
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