segunda-feira, novembro 15, 2010

Obama e o ódio aos Estados Unidos

Obama e o ódio aos Estados Unidos
Novembro 15, 2010 - Autor: Claudio Mafra
 Quando Obama obteve a nomeação democrata, em junho de 2008, ele disse a uma multidão exultante que: “Poderemos olhar para trás e dizer aos nossos filhos que este foi o momento em que começamos a prover saúde aos doentes e bons empregos aos desempregados; este foi o momento em que a subida dos oceanos começou a desacelerar e nosso planeta começou a sarar; este foi o momento em que terminamos uma guerra, garantimos nossa nação e restauramos nossa imagem como a última e melhor esperança na Terra”. Alguém já viu alguma coisa mais megalômana? Mais doida? É um delírio. O ego do sujeito é assustador. Frases desse tipo – em país civilizado - só foram usadas na Europa, na década de trinta, e nós sabemos quem foram os autores!
Obama apoiar a Índia para o Conselho de Segurança é um erro. O Conselho funciona muito bem com os seus atuais integrantes, EUA, China Rússia, Inglaterra, França. Trazer a Índia é irresponsabilidade, é procurar problemas. Para Obama, trata-se de democratizar, tirar poder dos Estados Unidos, inovar, revolucionar (ele se julga um revolucionário), um desejo absurdo de que o mundo seja simpático aos Estados Unidos, sem ter a menor ideía de que os motivos da aversão aos americanos são muitíssimo mais profundos do que ele imagina.  Em sua ignorância liberal e juvenil, deve achar que os EUA  são prepotentes, imperialistas. Vocês se lembram que logo no início de seu governo ele partiu para fazer o seu ridículo “tour de pedido de desculpas”? Os conservadores ficaram indignados, ultrajados, e com toda a razão. O país que ganhou as duas guerras mundiais que os europeus arrumaram em um espaço de vinte anos, um país que evitou que a URSS tomasse a Europa. O país que evitou que o comunismo dominasse o mundo.
Essa aversão fortíssima, visceral, aos Estados Unidos vem de no mínimo 70 anos e está ligada principalmente ao fascínio do socialismo. No momento em que Stalin derrotou Hitler e se tornou um dos aliados, o delírio socialista explodiu no mundo. Junto com ele veio a lavagem cerebral dirigida por Moscou. Até que era fácil. Se o capitalismo era imoral, perverso, e o seu maior representante eram os EUA, esse país tornou-se instântanemente o alvo de todo o mundo, principalmente das pessoas com maior grau de escolarização, jovens e intelectuais. Nossos pais eram muito mais cautelosos nesse assunto. Eles tinham visto o Stalin de antes da guerra, no tempo em que havia unanimidade mundial em considerá-lo um monstro, e o comunismo um regime de maldade e terror. Os intelectuais, ao contrário, sempre foram simpáticos à novidade redentora.
É rarissimo encontrar uma pessoa isenta desse rancor contra os USA. Quase todo o mundo é anti-americano. Até os nossos militares, tão anti-comunistas, têm grandes reservas quanto aos Estados Unidos. Por difícil que possa parecer também é fruto da lavagem cerebral. Eles nunca aceitaram o socialismo, sempre o tiveram como o inimigo número um, mas foram atingidos pela propaganda que mostrava os USA sedentos de poder, querendo todas as riquezas do mundo. Não vamos entrar no fator psíquico desse ódio universal, que é ocasionado por inveja, complexo de inferioridade e muita coisa mais.
Voltando ao Obama, ele assumiu a presidência achando que com oito anos reverteria esse quadro extraordinariamente complexo, ou deixaria um legado que estabeleceria novos rumos ao relacionamento internacional americano. Bastaria buscar o diálogo, e dizer claramente que os USA se arrependiam de seu passado. Procuraria os pontos nevrálgicos, como a questão palestina, o respeito aos muçulmanos, colocar-se contra as ditaduras de direita (sua gafe em Honduras), e assim por diante. Tudo absolutamente simplório. Um Jimmy Carter negro e modernizado. Esperava também que sua imensa popularidade em todo o mundo, seu carisma, seu entusiasmo, sua bela figura, e a negritude, fizessem a sua parte. Acha (achava?) que Bush tinha uma grande dose de culpa nessa rejeição aos americanos. Profunda ignorância. No seu raciocínio primaríssimo, as duas guerras haviam incendiado a opinião pública contra o seu país. De fato, elas apenas fizeram vir à tona o velho sentimento que o mundo nutre pelos USA. Esse sentimento fica inerte por algum tempo, até que algum acontecimento de relevo o traga de volta. Provavelmente só vai desaparecer daqui há 100 anos, ou quando os Estados Unidos deixarem de ser o país mais importante do mundo. O episódio das torres foi exemplar. As pessoas experimentaram uma ambiguidade: se por um lado ficaram horrorizadas com o crime, havia um sentimento difuso, pouco explicável, algo muito profundo, que foi ficando mais forte à medida que se passaram os dias. Esse sentimento não admitido era:  “até que os Estados Unidos mereceram”.
Obama e os liberais continuam acreditando principalmente que a impopularidade americana vem do problema palestino, e do seu apoio à Israel. Não sabem que se por um passe de magica a questão fosse resolvida, e de forma amplamente favorável aos palestinos, não adiantaria nada, coisa alguma. Os Estados Unidos continuariam sendo detestados do mesmíssimo jeito.
Por último: Obama é bem desonesto. Na Indonésia, outra vez bate na tecla de que no governo anterior não se fazia distinção entre os jihadistas e os muçulmanos em geral. Novamente fala mal de Bush, e insiste em que agora, com ele, é diferente. Essa é uma grande mentira. Bush cansou de dar declarações dizendo que os Estados Unidos não estavam lutando contra o islamismo, mas unicamente contra o terror. Está gravado em mil vídeos.

Pelicano, hoje no Bom Dia (SP)


Entrevista - Alain Touraine:'O perigo de um retrocesso (no Brasil) existe'

Entrevista - Alain Touraine:'O perigo de um retrocesso (no Brasil) existe'
Márcia Abos - O GLOBO
O sociólogo francês Alain Touraine diz que governo Dilma Rousseff é uma incógnita e critica autoritarismo de setores do PT
SÃO PAULO. Um dos mais respeitados intelectuais franceses, o sociólogo Alain Touraine, de 85 anos, diretor da École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, apresenta amanhã, em São Paulo, o seminário “Queda e renascimento das sociedades ocidentais”.
Touraine chegou ontem à capital paulista e, em entrevista ao GLOBO, falou sobre o temor de um retrocesso no Brasil, após a eleição de Dilma Rousseff. Apesar de elogiar os governos Fernando Henrique e Lula, frisou que o país tem um passado marcado pelo populismo e alertou para o autoritarismo de “segmentos do PT”: — A verdade é que não sabemos o que será o governo da nova presidente.
O intelectual também acredita que o tucano José Serra é peça fundamental para a oposição.
O GLOBO: Como o senhor vê as transformações da sociedade brasileira nos últimos 16 anos? Como avalia a vitória de Dilma Rousseff?
ALAIN TOURAINE: Uma coisa é clara. O Brasil tem um sistema político horrível, corrupto. Fernando Henrique Cardoso, em seus oito anos de governo, construiu as instituições. Fez uma transição perfeita para entregar a Presidência a seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva.
Lula, por sua vez, realizou transformações sociais, tirando dezenas de milhões de brasileiros da miséria e da exclusão.
Graças aos dois, em igual importância, o Brasil tem os elementos básicos para desenvolver um novo tipo de sociedade. Mas não sou necessariamente otimista. Não sabemos o que acontecerá daqui para a frente. A nova presidente (Dilma) foi inventada por Lula. O Brasil tem um longo passado de populismo e a ameaça persiste devido ao nível de desigualdade social extremamente elevado. Após 16 anos dos governos FHC e Lula, é impossível questionar o potencial do Brasil. Mas o perigo de um retrocesso existe, até porque o passado do PT está longe de ser perfeito. Lula não foi autoritário, mas segmentos do PT o são. A ideia de Dilma esquentar a cadeira por quatro anos para Lula também me desagrada. Em uma democracia, não pode haver presidente interino. A verdade é que não sabemos o que será o governo da nova presidente, porque ela não tem experiência política. Mas eu acredito que o Brasil tem tudo para ser o lugar em que uma nova sociedade surgirá. Não vejo muitos outros países no mundo que tenham chances tão boas quanto o Brasil. José Serra, candidato derrotado do PSDB, deu a entender que fará com seu partido uma oposição mais dura ao governo Dilma, diferente da postura de seu partido frente a Lula.
Como o senhor vê a polarização entre os dois maiores partidos brasileiros?
TOURAINE: Neste momento, Dilma é Lula. Ninguém sabe nada sobre ela. Ela pode ter tendências populistas ou fazer um fantástico governo, não sabemos. O fato é que, depois de Lula, era impossível para José Serra vencer. Ele é extremamente competente, honesto e sério. Na oposição, é um ativo valioso para o Brasil frente aos riscos de irresponsabilidade e populismo.
Para o senhor, como a globalização transformou a sociedade pós-moderna?
TOURAINE: Globalização significa muito mais que internacionalização.Significa que nenhuma instituição política, social ou religiosa é capaz de controlar um sistema econômico globalizado.
Portanto, minha principal ideia é que a globalização significa o fim da sociedade. A diversidade dos atores é mais importante do que o sistema. O que restou é o mercado puro. Vivemos agora em uma não sociedade, na qual as pessoas estão interessadas em coisas sem significado. Eliminar significados tem sido a aventura da Europa nos últimos 20 anos. Por exemplo, o desenvolvimento industrial sendo eliminado para dar lugar ao mercado financeiro: dinheiro pelo dinheiro. Na vida privada, teorias românticas do século XIX deram lugar ao erotismo, à pornografia, ao sexo sem comunicação, emoção ou intenção. Interesse e desejo são a mesma coisa. Minha pergunta é se é possível reconstruir uma vida social a partir de nenhum elemento social, pois eles despareceram ao longo do caminho.
E é possível? Há esperança para a vida em sociedade?
TOURAINE: O único movimento político realmente forte hoje é a ecologia. Pela primeira vez na História abandonamos a velha filosofia de Descartes ou Bacon de que a cultura domina a natureza. Pela primeira vez estamos preocupados em salvar a natureza sem destruir a civilização e vice-versa. Outra força antropológica pela qual tenho grande interesse é o movimento feminista. Mulheres em geral têm uma visão de sociedade que é o contrário do modelo masculino de tensão extrema, polarização. Mulheres buscam a conciliação em vez da oposição. No entanto, o feminismo ainda não existe como força política. O sexismo domina. Já avançamos, mas as mulheres continuam tratadas como vítimas. Ninguém as menciona como alguém que faz coisas. São mais criativas que os homens, mas, por enquanto, aparecem como vítimas, principalmente da violência doméstica. A terceira força do que seria esta nova sociedade está no indivíduo, no direito a ter direitos, como dizia Hannah Arendt. Ninguém sabe o que democracia significa hoje, cada um tem sua definição. Para mim, democracia é ampliar o acesso de todos a serviços e bens básicos, como educação e saúde, entre outras coisas. É possível reconstruir uma sociedade baseada em termos não sociais universais, tais como a ecologia e os direitos individuais. Sou um grande defensor da ideia de universalização. É fundamental reconhecer e garantir valores universais como, por exemplo, a liberdade religiosa. Recriar formas de vida coletiva e privada baseadas em princípios universais. Se viver mais um ano, penso em escrever um livro com minhas ideias a respeito dessa nova sociedade possível.

J. Bosco para O Liberal


O preconceito (às avessas)

O preconceito (às avessas)
DANUZA LEÃO - Folha de São Paulo
Me parece ultrapassado que a nova presidente queira um ministério com maior número de mulheres
HOMENS E MULHERES são pessoas; umas mais inteligentes, outras menos, algumas mais preparadas, outras nem tanto, mas está escrito na Declaração dos Direitos Humanos, de 1948, que somos todos iguais, independentemente de raça, credo etc. etc. - e sexo, claro.
Pensando nisso, me parece meio ultrapassado que nossa nova presidente queira fazer um ministério com maior número de mulheres, tanto quanto me soa estranho que exista uma Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres; para quê? Já se foi o tempo em que elas precisavam de alguém que lhes desse "uma força", quando eram fraquinhas e indefesas.
Hoje são fortes o suficiente para comandar uma delegacia, pilotar um Boeing ou dirigir uma nação, e não precisam de um homem que passe a mão em suas cabeças para poderem existir. Só precisam deles para serem mais felizes.
As feministas do século passado queimaram seus sutiãs, lutaram e conseguiram: hoje têm todos os direitos, igualzinho a eles, mas se é verdade que o ministério de Dilma terá 1/3 de mulheres, só por serem mulheres, a presidente estará cometendo um erro e se mostrando muito antiquada.
O tempo passou, presidente; ministros devem ser escolhidos por suas capacidades -além de pertencerem a um dos 12 partidos da coligação, é claro-, não por serem homens, mulheres, brancos, amarelos ou negros.
Escolher um homem porque ele é homem, ou uma mulher por ela ser mulher, é preconceituoso, e o preconceito, qualquer que seja ele, deve ser evitado - além de ser crime.
A lei estipula uma cota de 30% de mulheres entre os candidatos de cada partido; mas e se todos forem homens, porque naquele ano as mulheres resolveram não entrar na política, acontece o quê? E se alguém inventar fundar o Partido Feminino do Brasil, só com mulheres, pode? E se for fundado um partido gay, pode? Nossa presidente não foi eleita por levantar a bandeira do feminismo, coisa dos anos 70.
A luta pela igualdade dos sexos foi grande e foi vitoriosa, por isso elas têm o dever de continuar lutando para não serem tratadas como "mulherzinhas" e, sendo assim, jamais assumir um cargo -às vezes com pouca competência- só para provar que chegaram lá.
Será prudente também que a nova presidente, antes de fazer os convites, conheça seus méritos -além do currículo e da folha corrida-, para que o quesito amizade não influencie na escolha (o passado recente aconselha).
Se Dilma for também politicamente correta, talvez queira fazer um ministério idem; nesse caso, terá que nomear mulheres, homens, gays, negros, asiáticos, transexuais, índios, e mais o que exista por aí, em matéria de raças e sexos.
Aliás, se eu for à delegacia e disser que fui assaltada por três crioulos, será que pela Lei Afonso Arinos vou presa? E será que alguém, numa hora dessas, diz que foi assaltada por três afro-brasileiros?
E vamos combinar também que tanto o feminismo como o politicamente correto estão mais do que ultrapassados, e que se as mulheres lutaram tanto para serem iguais aos homens -e provaram que podem ser-, deveriam lutar também para mudar a regra da aposentadoria: mulheres aos 55 anos, homens aos 60. Apenas uma questão de coerência, e também de orgulho e brio, para mostrar que não precisamos nem de privilégios nem de favores.

A realidade é como percebemos

A realidade é como percebemos
MARCELO GLEISER
Einstein e a física quântica derrubaram a objetividade imparcial: a mente e a realidade são inseparáveis
SEMANA PASSADA, DESCREVI como a física moderna vê a realidade como sendo composta de várias camadas, cada qual com seus princípios e leis.
Isso vai contra o reducionismo mais radical, que diz que tudo pode ser compreendido partindo do comportamento das entidades fundamentais da matéria. Segundo esse prima, existem apenas algumas leis fundamentais. Delas, todo o resto pode ser determinado. Gostaria de retornar ao tema hoje, mas focando num outro aspecto dessa questão que é bem complicado: o que é realidade e como sabemos.
Começo contrastando os filósofos Hume e Kant. Para Hume, o conhecimento vem apenas do que captamos com nossos sentidos. Baseados nesta informação, construímos a noção de realidade. Portanto, uma pessoa que cresceu sem qualquer contato com o mundo externo e que é alimentada por soros não seria capaz de reflexão. Kant diria que existem intuições já existentes desde o nascimento, estruturas de pensamento que dão significado à percepção sensorial.
Sem elas, os dados colhidos pelos sentidos não fariam sentido.
Duas dessas intuições são as noções de espaço e de tempo: elas costuram a estrutura da realidade, conectando e dando sentido ao fluxo de informação que vem do mundo exterior. Uma mente com estruturas diferentes, portanto, teria uma noção diferente da realidade.
Kant não diz que o sensório não é importante. Para ele, mesmo que o conhecimento comece com a experiência externa, não significa que venha desta experiência. Precisamos do fluxo de informação sensorial, mas construímos significado partindo de nossas intuições: os dados precisam ser ordenados no tempo e arranjados no espaço.
Durante as primeiras décadas do século 20, duas revoluções forçaram uma reavaliação da ordem kantiana. A relatividade de Einstein combinou espaço e tempo. Deixaram de ser quantidades absolutas, tornando-se dependentes do observador.
O que é real para um pode não ser para outro. A teoria de Einstein restaura uma forma de universalidade, pois provê meios para que observadores diferentes possam comparar suas medidas de espaço e tempo.
A segunda revolução veio com a física quântica. Para nossa discussão hoje, seu aspecto mais importante é a relação entre o observador e o observado. Na época de Kant, a separação entre os dois era absoluta. No mundo quântico dos átomos e partículas, a natureza física de um objeto (se um elétron é uma partícula ou uma onda, por exemplo) depende do ato de observação.
Ou seja, as escolhas feitas pelo observador induzem a natureza física do que é observado: o observador define a realidade. E como a intenção do observador vem de sua mente, a mente define a realidade. A mente precisa ainda das intuições a priori para interpretar o real, mas ela participa desta interpretação.
A objetividade imparcial se torna, então, obsoleta, já que mente e realidade tornam-se inseparáveis. Se essa relação na camada quântica afeta outras camadas é ainda objeto de discussão.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"

Amâncio para o Tribuna do Norte


GIANMARIA TESTA- Seminatori di grano

Telha de Vidro - Rachel de Queiroz

Telha de Vidro
Rachel de Queiroz
Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...

A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que — coitados — tão velhos
só hoje é que conhecem a luz doa dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.

Que linda camarinha! Era tão feia!
— Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão vem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!

Rachel de Queiroz ainda inédita aos 100

Rachel de Queiroz ainda inédita aos 100
O Globo
Livros revelam poemas desconhecidos da escritora, cujo centenário de nascimento é celebrado também com exposições
 Agora pouco lembrados, diante da importância da escritora, os 100 anos de nascimento de Rachel de Queiroz se completam na próxima quarta-feira, dia 17, com lançamentos que podem ser considerados o ponto alto do centenário. “Mandacaru” (Instituto Moreira Salles) e “Serenata” (Armazém da Cultura), respectivamente organizados pela pesquisadora Elvia Bezerra e pela escritora Ana Miranda, reúnem poemas inéditos escritos na adolescência pela autora de “O quinze”, descobertos recentemente em diferentes partes de seu acervo. Eles registram etapas distintas da formação da romancista, que mais tarde reagiria com ironia ao ser chamada de poeta: o primeiro é um conjunto de dez poemas carregados na cor local e na exaltação de figuras nordestinas, que Rachel tentou sem sucesso editar em livro; o segundo, mais lírico, reúne mais de 40 poemas, muitos publicados pela jovem escritora em jornais do Ceará sob o pseudônimo Rita de Queluz. Também nesta semana sai pela José Olympio uma nova edição de “Tantos anos”, o volume de memórias que Rachel “ditou” em longas conversas com a irmã Maria Luiza, responsável por dar forma ao livro, publicado originalmente em 1998.
O lançamento de “Mandacaru” no Instituto Moreira Salles, onde está o acervo com mais de cinco mil itens no qual foi encontrado o livro, marca também a abertura de uma exposição com vários documentos inéditos sobre a vida e obra de Rachel de Queiroz, entre eles fotos, caricaturas e manuscritos. O evento, na quarta-feira, começa às 16h, com a exibição do filme “Cangaceiro”, de Lima Barreto, cujos diálogos foram escritos por Rachel, e termina com uma leitura da peça “A beata Maria do Egito” com direção de Aderbal Freire Filho, às 20h. Estudiosa da obra de Rachel de Queiroz, a crítica Heloisa Buarque de Hollanda fará às 19h uma conferência sobre a autora, que descreve como uma “modernista atípica de enorme importância”.
— Rachel tinha explicitamente como modelo Mario de Andrade e os modernistas paulistas, e se empenhou no trabalho de linguagem de seus romances nesses termos. A obsessão com a economia e com a exatidão em sua escrita é notável — avalia.
Retorno ao estudo da obra O interesse pelo modernismo é claro em “Mandacaru”, diz Elvia Bezerra, citando o texto de apresentação em que Rachel, então com 17 anos, se dirige aos “Novos do Sul” tomando parte em suas “lutas” para despir “o Brasil da velha e surrada casaca europeia” e vesti-lo com “uma roupa mais nossa, feita de algodão e terra”.
— É um livro com que ela pretendia participar do movimento modernista — diz. — Os poemas já têm uma linguagem simples, mas ainda muita eloquência, um arrebatamento que nada tem ver com “O quinze”. Entre os dois livros não há evolução apenas, mas um salto.
Elvia lembra que em sua crítica de “O quinze” Mario de Andrade chama o livro de obra-prima, mas fala mal da “versalhada” de autor não identificado que servia de epígrafe (suprimida em edições posteriores da obra): — Agora pudemos confirmar que esses versos, como Mario desconfiou, eram de Rachel.
Estão em “Mandacaru”.
Já os textos reunidos em “Serenata” foram encontrados em outro arquivo de Rachel, guardado pelo bibliófilo José Augusto Bezerra no Ceará. São várias páginas datilografadas e numeradas, com referência ao local de publicação original, possivelmente organizadas por Alba Frota, amiga de Rachel que se encarregou da RACHEL DE QUEIROZ numa das fotos da mostra que o Instituto Moreira Salles abre na quarta-feira: pesquisa no acervo revelou poemas da adolescência A ESCRITORA ainda jovem no sítio de sua família, perto de Fortaleza A POSSE na ABL, em 1977: primeira mulher eleita imortal preservação de boa parte dos documentos da romancista.
Do conjunto, a escritora Ana Miranda decidiu publicar os “de tom mais sentimental”, explica, deixando de lado os ligados a “questões de brasilidade”.
Os poemas mostram uma autora ainda explorando o próprio talento.
— São lindas as poesias. Ela era muito jovem e realmente não se pode dizer que sejam poesias maduras, mas são obra de uma moça que está descobrindo o mundo e iniciando a sua expressão — diz Ana. — Ela fala de temas como o violão, a serenata, a casa onde ela morava, cantigas de natal, uma costureira que vê passar na rua. São temas mais líricos, mas não de maneira intensa.
A Rachel sempre foi a mesma, com uma voz crítica, irônica, de observação não sentimental do mundo.
Sobre “Tantos anos”, Maria Luiza de Queiroz diz que eram muito divertidas as sessões de recordação, que se dividiam entre o Rio de Janeiro e a fazenda de Rachel em Quixadá: — Foi o Ziraldo, depois de uma conversa, que disse à Rachel para escrever suas memórias.
Eu fiquei com aquilo na cabeça e passei uns cinco anos insistindo para que ela escrevesse. Ela dizia: “Não faço, memória é a coisa mais mentirosa do mundo, ninguém diz a verdade.” Até que chegamos ao acordo de fazer o livro a partir de nossas conversas.
Na edição final, conta, algumas das melhores passagens ficaram de fora: — Tinha muita coisa que não dava para botar no livro. A gente falava mal de muita gente: conhecidos, parentes. Ela falava mal e eu também falava mal. Era muita indiscrição.
Uma outra exposição sobre a escritora está aberta desde 31 de agosto na Academia Brasileira de Letras — Rachel foi a primeira mulher a entrar na ABL, em 1977. O poeta Alexei Bueno organizou a mostra, composta por seis módulos que contam a vida da escritora.
— Rachel de Queiroz foi uma romancista nata — ele diz. — Tinha uma vocação para a narrativa aliada a um domínio estilístico muito precoce.
Para Heloisa Buarque de Hollanda, hoje há um retorno ao estudo da obra de Rachel: — Ela foi muito marginalizada por suas relações com o general Castelo Branco e sua ojeriza ao Jango. Mas, de uns tempos para cá, venho observando um significativo retorno à Rachel, especialmente através de estudos e teses de mulheres.

Skoob

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