quinta-feira, janeiro 06, 2011

Son Salvador, hoje no Estado de Minas


Patrick Poivre d'Arvor é acusado de plágio por uma biografia de Ernest Hemingway

Patrick Poivre d'Arvor é acusado de plágio por uma biografia de Ernest Hemingway
Thomas Wieder – Le Monde
Patrick Poivre d’Arvor 
Patrick Poivre d’Arvor escreveu um livro desnecessário? Para isso seria preciso que ele o tivesse escrito. Segundo Jérôme Dupuis, jornalista do “L’Express”, o ex-apresentador do jornal das 20h da TF1, em sua biografia de Ernest Hemingway a ser publicada pela editora Arthaud, no dia 19 de janeiro, “pura e simplesmente copiou passagens inteiras” de um livro publicado em 1985 nos Estados Unidos.
Em um artigo publicado na terça-feira (4) no site L’Express.fr, Jérôme Dupuis faz uma demonstração exemplar. À esquerda, três excertos da biografia assinada por Peter Griffin (já falecido) e traduzida pela editora Gallimard em 1989. À direita, três passagens de “Hemingway, la vie jusqu’à l’excès”, de Patrick Poivre d’Arvor.
Ernest Hemingway 
Entre o original e a cópia, a diferença é tênue. Exemplo: “Quando as noites de agosto eram particularmente quentes, ela molhava a testa de Ernest com um lenço úmido, passava água fria em seu pescoço e seu peito”, lê-se na obra de Griffin. Sob a pena de Patrick Poivre d’Arvor, virou: “Durante as noites quentes que o deixavam melado de suor, ela passava um lenço úmido em sua testa, refrescava seu pescoço e seu peito”.
Contatado pelo “Le Monde”, Jérôme Dupuis foi categórico: “No total, dezenas de parágrafos foram copiados”. Claro, cá e lá “foram utilizados sinônimos, inverteram a ordem das palavras”. Segundo Jérôme Dupuis, é a “própria estrutura” do livro de Griffin, centrado na juventude de Hemingway, inclusive  “a ordem na qual as histórias se encadeavam”, que Patrick Poivre d’Arvor teria plagiado. “Da página 25 à página 143 (de 414 no total), a biografia de D’Arvor se calcou inteiramente na de Griffin”, afirma o jornalista.
Na terça-feira (4), o celular de Patrick Poivre d’Arvor tocou e tocou. No final da tarde, em compensação, o “Le Monde” conseguiu ter uma longa conversa com sua editora, Noëlle Meimaroglou, da casa Arthaud, que pertence ao grupo Flammarion.
Esta se diz “envergonhada” e “ultrajada”. Sim, reconhece, “a primeira parte que foi impressa é de uma paráfrase grosseira, uma espécie de ficha de leitura gigante do livro de Griffin”. Mas, continua, “não se trata absolutamente de plágio”. Por uma simples razão: “A versão citada por Jérôme Dupuis é somente uma versão de trabalho. A versão definitiva, que será publicada em 19 de janeiro, é muito diferente”.
Uma versão de trabalho? A explicação poderia convencer se Jérôme Dupuis tivesse citado um manuscrito em um estado ainda largamente provisório. Ora, não é esse o caso, pois foi o próprio livro, com capa, preço, caderno de fotos, código de barras e número de edição que o jornalista teve em suas mãos. Uma versão que tem toda a cara de ser definitiva, idêntica àquela recebida há alguns dias pelo “Le Monde”, e que por tantas vezes Patrick Poivre d’Arvor autografou.
Um autor autografando uma versão de trabalho: Noëlle Meimaroglou admite que o costume é no mínimo pouco habitual. E com razão: Patrick Poivre d’Arvor teria “ignorado” que o texto que ele autografava não era o certo.  Tudo isso, garante a editora, em razão de um “erro técnico grosseiro”.
O suposto erro teria se originado no início de dezembro de 2010. A editora está agora “de férias, longe de Paris”. Ela explica que “no serviço de impressão eles pegaram no servidor o arquivo errado, e foi esse que imprimiram”. Ora, esse arquivo, explica, era constituído de “notas de leitura” que não eram “destinadas a serem publicadas”. “É documentação, como qualquer autor de biografia faz”, acrescenta Noëlle Meimaroglou.
Como pode a documentação de um autor se encontrar no sistema de sua editora e, de lá, chegar até a gráfica sem que ninguém se dê conta? Além disso, como se explica que a obra de Peter Griffin não figure entre os estudos citados por Patrick Poivre d’Arvor em sua bibliografia, no fim da obra? Noëlle Meimaroglou responde: “Tudo aconteceu rápido demais, é nossa culpa, Patrick está furioso, com razão, e assumo nossa responsabilidade".
Em 1991, uma falsa entrevista de Fidel Castro, transmitida pela TF1, já havia colocado Patrick Poivre d’Arvor no centro de uma polêmica. “Tem gente que quer ser como Patrick Poivre d’Arvor”, deduz sua editora, a respeito desse novo caso.
Jérôme Dupuis, que conversou com Patrick Poivre d’Arvor pelo telefone, na segunda-feira (3), comenta: “Ele me passou a impressão de assumir aquilo que estava escrito, me explicando que havia passado um ano e meio trabalhando, que ele não ia reinventar a vida de Hemingway sob pretexto de que outras biografias haviam sido escritas antes da sua, obstinando-se a negar todas as acusações de plágio. Mas em nenhum momento ele falou de uma versão errada. Ele não me disse que se tratava de uma ficha de leitura que havia sido impressa. Tudo isso me parece uma grande fábula”.
Tradução: Lana Lim

(In)feliz ano novo

(In)feliz ano novo
Francisco Bosco – O Globo
Neste réveillon, em meio à confraternização generalizada, à rara abertura que se coloca entre amigos e até desconhecidos, em meio à euforia também generalizada, através da qual aqui e ali se percebe um ricto revelador, em meio a tanta festa vi alguns casais brigarem, e brigarem feio. Nada de surpreendente: o réveillon é o momento mais perigoso do ano na vida de um casal. Vou tentar compreender aqui por que os casais estão especialmente propensos a se desamar na noite do 31 de dezembro.
O réveillon é um evento cósmico: aniversaria a Terra.
E, com a renovação da Terra, com o recomeço de suas estações, aniversariamos também nós, humanos, para quem tudo recomeça uma vez mais. O réveillon é o aniversário da Humanidade inteira, independente de credo, cor e classe social. Daí a confraternização irrestrita que se instaura: nessa noite, todos são irmãos, é um evento comum da Humanidade o que se comemora. Simbolicamente, trata-se, portanto de um renascimento. Esse sentido de renascimento, entretanto, quando misturado a outros ingredientes, típicos do tempo em que vivemos, forma com esses um coquetel explosivo.
É sabido que, hoje, um imperativo cultural implacável ordena que todos devem gozar.
Gozar sem parar, quanto mais melhor. Promove-se a sensação difusa de que todos estão gozando loucamente — menos nós. E então temos que nos esforçar para gozar à altura do suposto gozo dos outros. Essa situação produz uma inversão paradoxal no campo da culpa: não nos culpamos mais apenas por realizar ou desejarmos realizar algo que entra em conflito com os ideais culturais, mas também, e talvez, sobretudo, por não realizarmos os imperativos de gozo do ideal cultural.
Somos culpados por não gozar. Essa mudança radical corresponde às transformações do capitalismo. Na sociedade de consumo, gozar é uma condição capital do capitalismo.
Gozar perdeu em grande parte seu poder subversivo e virou uma engrenagem fundamental para a manutenção do status quo. Assim, como sintetiza Maria Rita Kehl, em seu livro “O tempo e o cão: a atualidade das depressões”, esse “imperativo do gozo se articula aos ideais de eficácia econômica.
Tal articulação subverteu os ideais de renúncia pulsional que oprimiam os contemporâneos de Freud, convocados a sacrificar suas modestas possibilidades de prazer em favor da produtividade, no período de consolidação do capitalismo industrial”.
Pois esse imperativo de gozo é um dos ingredientes do coquetel molotov que está prestes a explodir no réveillon.
Acrescente-se que a exigência de gozar é também a exigência de determinadas formas de gozo, correspondentes aos ideais do capitalismo de consumo. Aqui, pelo menos sob certos aspectos, o casamento aparece como uma forma anacrônica, um obstáculo aos modos de gozar do ideal cultural. O capitalismo de consumo requer substituição, acumulação, novidade. O casamento é, por definição, o avesso disso tudo. Pois bem, junte-se então o imperativo de gozar intensamente, mais os modos de gozar cujos ideais são os de novidade e substituição, mais o sentido de renovação inscrito na simbologia do réveillon, misture-se tudo e dê na mão do primeiro casal que passar todo de branco à sua frente: ele explodirá. A galopante expectativa de gozo já é um erro por si só, pois o acaso ainda é o regente imponderável da alegria humana.

A decepção provável com o acontecimento — como um gozo pode estar à altura dos fogos magníficos explodindo sobre nossas cabeças? — tem tudo para acabar na velha fórmula acusativa, típica da dinâmica de frustrações do casamento: “Todo mundo gozou, só eu não gozei, e por culpa sua.” Assim, não é que só os casais estejam expostos à exigência desmedida de gozo no réveillon, e à sua decepção provável: é que só alguém casado pode culpar o parceiro por não gozar como acha que deveria.
De minha parte, fui duplamente agraciado pelo acaso neste réveillon. Enquanto pensava em economizar minhas energias para gastá-las todas de noite, com os convidados, eu e Antonia, para um almoço na casa de nossos amigos Plínio e Paula.
De início evitei beber, para não queimar a largada, mas o almoço foi se tornando tão alegre, tão delicioso, que todo mundo deixou de calcular o gozo. Abriram-se garrafas, um peixe magnífico surgiu da cozinha pelas mãos de Karine e Juliana, a alegria se instalou a seu modo único: inesperada. O almoço virou festa, o cálculo foi pras cucuias e a largada virou o caminho, e ao caminho não importa a chegada.
Plínio colocava canções maravilhosas (é um DJ dos que eu gosto: só toca músicas que têm alma), todos dançavam, chegaram outros amigos. Saímos de lá faltando só duas horas para a meia-noite.
Mais tarde, a segunda obra do acaso. Fomos para a praia, na companhia de outros queridos amigos: Claudio, Renato, Isa, Luisa, Karla. O Arpoador, antes da meia-noite, estava ainda agradável, sem tanta gente.
Na hora da virada, brindamos e nos confraternizamos.
Meia hora depois, a praia já começava a lotar. Combináramos de ir a uma festa, mas as amigas que iam conosco se perderam de nós e estavam sem celular.
Assim, já de alma lavada e cansados pelo longo dia, eu e Antonia fomos para casa, felizes, com os votos mais do que nunca renovados, renascidos.
À minha família, aos meus amigos, a todos que eu amo, e aos leitores que me têm acompanhado nesse espaço ,um feliz ano novo.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Nunca

Nunca
Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar...
Por isso o meu verso tem
esse quase imperceptível tremor...
A vida é triste, o mundo é louco!
Nem vale a pena matar-se por isso.
Nem por ninguém.
Por nenhum amor...
A vida continua, indiferente.

Mario Quintana
(1906-1994)

Guarda-chuvas coloridos, Laos

Fotografia por Koutroumpas Dimitris 

Lila Downs - Perhaps Perhaps Perhaps

Amorim, para o Correio do Povo


De Roosevelt@edu para Lula@gov

De Roosevelt@edu para Lula@gov
ELIO GASPARI
Parabéns presidente, se o Brasil é uma Belíndia, o senhor levou 13 milhões para a Bélgica
CARO LULA, Há oito anos, quando o senhor foi eleito presidente do Brasil, eu lhe mandei uma mensagem torcendo pelo seu sucesso e lembrando-lhe a essência do meu êxito.
Governei os Estados Unidos de 1933 a 1945, ganhei a maior guerra de nossa história, mas de Franklin Roosevelt ficou a lembrança de um presidente que mudou a vida do seu povo, criando uma América onde ninguém ficasse de fora.
O mundo aprendeu que ou haveria capitalismo para todos ou não haveria para ninguém. O senhor fez o mesmo no Brasil. Para quem dizia que seu país era uma Belíndia, o senhor tirou da Índia brasileira o equivalente à população de toda uma Bélgica.
Entre 2003 e 2009, o número de pobres passou de 30,4 milhões para 17 milhões. O desemprego caiu a níveis históricos, e pela primeira vez em muitos anos a maioria dos trabalhadores está no mercado formal. O crédito chegou a casas onde a pobreza era um estigma financeiro. Os plutocratas do seu país compreenderam que o acesso dos pobres aos instrumentos do capitalismo é a garantia de sua longevidade.
De tudo o que o senhor conseguiu, o que mais me comove é o resultado desse programa chamado ProUni, que coloca nas universidades jovens de famílias pobres com bom desempenho escolar. Eu fiz coisa parecida, abrindo o ensino superior para os soldados que voltavam da guerra.
Em cinco anos, o seu programa atendeu 540 mil jovens. O meu matriculou 2,2 milhões entre 1944 e 1949. Inicialmente, pensávamos apenas em proteger os veteranos da guerra. Trinta anos depois, verificou-se que a GI Bill foi um dos fatores determinantes para o surgimento de uma nova classe média.
Quando o Juscelino Kubitschek me contou que a oposição foi à Suprema Corte para destruir seu programa, percebi que o Padre Eterno fez pelo senhor o que fez por mim: presenteou-nos com uma oposição que assegura nosso lugar na história.
Antes de lhe escrever jantei com Getúlio Vargas, JK e Ernesto Geisel. Em graus variáveis, os três torciam pelo seu sucesso. Getúlio e JK invejaram sua capacidade de sobreviver ao mandato e eleger a sucessora.
Já o Geisel teme que esse sucesso traga um risco. Com a experiência de quem foi escolhido pelo antecessor (um general introvertido chamado Médici) e escolheu o sucessor (outro general, não sei se Figueiredo é o nome dele ou do cavalo que monta), pede que lhe avise: cuidado com a turma da copa e cozinha. É de lá que saem as intrigas. Um deles brigou por causa de uma irrelevância na Previdência do Rio Grande do Sul.
Parte de seu sucesso o senhor deve ao professor Cardoso. Não faz bem à sua biografia negar-lhe o crédito. Estive com Ruth, mulher dele, mas não posso contar o que ela me disse a respeito da última campanha eleitoral brasileira.
Senhor Silva, repito o que escrevi em 2002. Pouco temos em comum, eu vim de Harvard e de uma família que já havia dado aos Estados Unidos um presidente (que por pouco não morreu na floresta brasileira). O senhor veio de lugar nenhum. Dizem que fui o traidor da minha classe. Felicito-o por não ter traído a sua.
Despeço-me registrando que a admiração de Eleanor, minha mulher, pelo senhor é muito maior do que a minha.
Parabéns,
Franklin Roosevelt

EXPANSÃO ACELERADA DO CRÉDITO INSPIRA CUIDADOS

EXPANSÃO ACELERADA DO CRÉDITO INSPIRA CUIDADOS
EDITORIAL - VALOR ECONÔMICO
O Banco para Compensações Internacionais (BIS), o banco central dos bancos centrais, sediado na Basileia, Suíça, alertou que o Brasil passa por um período de explosão do crédito, que pode se transformar em uma bolha. A constatação nasceu de um estudo que examinou as 26 principais economias globais e concluiu que o Brasil é um dos países com maior aquecimento do crédito, ao lado da Coreia do Sul e Cingapura. O diagnóstico levou o BIS a recomendar o reforço do capital dos bancos brasileiros.
O Banco Central (BC) não gostou da intromissão do BIS. "A consolidação da estabilidade macroeconômica e as reformas microeconômicas representam mudanças estruturais, que permitiram que o mercado de crédito brasileiro se desenvolvesse nos últimos anos", foi a resposta do BC à avaliação do BIS.
No entanto, o BIS tem razão ao constatar o forte crescimento recente dos empréstimos no Brasil. Nos últimos dez anos, o crédito cresceu a uma taxa média nominal de 15,7% ao ano, tendo como pico 2007, quando houve um salto de 31,2%. Mesmo em plena crise internacional, em 2008, o aumento foi de 15,2% no Brasil, sobre a base exuberante do ano anterior. E, neste ano, a expansão acumulada até novembro é de 18,6% com a perspectiva de fechar dezembro com 20% de crescimento sobre 2009.
Mas é preciso levar em conta que o crédito sempre foi acanhado no Brasil e, apesar do crescimento dos últimos anos, ainda está distante do patamar de outras economias. No início do século, por exemplo, o crédito era equivalente a 25% do Produto Interno Bruto (PIB). Somente mudou de patamar, na segunda metade da década, passando para por volta de um terço do PIB. Nos últimos três anos, a arrancada foi mais significativa, chegando a 47,2% do PIB em novembro. Outros países da América Latina, como o Chile e México, têm um volume de crédito bancário superior a 60% do PIB. Em algumas linhas de crédito, o Brasil está ainda mais defasado. É o caso do crédito imobiliário, que representa apenas 3,5% do PIB.
O mais surpreendente é que o crédito tem crescido sem sinais de deterioração. A inadimplência, na verdade, vem até caindo, tanto nas operações com pessoas físicas quanto nas realizadas com empresas.
O Banco Central argumenta que algumas mudanças estruturais garantiram o crescimento do crédito em bases mais seguras. Uma delas foi o desenvolvimento do crédito consignado, em que os pagamentos são debitados na folha de salários e a inadimplência só ocorre em casos de fraudes e falecimentos. Contribuiram também para melhorar a performance das carteiras as novas garantias do financiamento imobiliário e o aperfeiçoamento da lei de falências.
Um risco ao se olhar dados consolidados, como fez o BIS, é perder os detalhes. É inegável, por exemplo, que a expansão do crédito brasileiro nos dois últimos anos tem sido rebocada pelo crédito direcionado, notadamente pelas operações feitas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) . Neste ano, por exemplo, os empréstimos concedidos pelo BNDES cresceram 31,3% até novembro, 50% a mais do que a média do sistema e o dobro dos créditos feitos com recursos livres. Pode-se dizer que a forte expansão do BNDES vai redundar na deterioração da dívida pública, porque está sendo sustentada pelos reforços de capital feitos pelo Tesouro. Mas não representam ameaça de risco ao resto do sistema financeiro.
Provavelmente o argumento mais forte do Banco Central contra a avaliação do BIS é o fato de ter sido sempre mais rigoroso na exigência de capital dos bancos. Enquanto o BC exige dos bancos brasileiros um capital equivalente a 11% dos ativos ponderados pelo risco, a regra atual de Basileia estabelece 8% - número que está sendo revisto dentro do novo acordo, chamado de Basileia 3.
Como se isso não bastasse, no início do mês, o Banco Central aumentou as exigências do crédito de longo prazo (mais de 24 meses) para pessoas físicas. Na prática, os requisitos de capital para essas operações subiu de 11% para 16,5%. Uma das linhas mais penalizadas foi o financiamento de automóveis. O Banco Central também ampliou o recolhimento compulsório, enxugando R$ 61 bilhões do mercado, o que já está encarecendo o crédito para a pessoa física.
Caso o BIS não tivesse alguma razão, o BC não teria tomado essas medidas. Resta saber se serão eficientes.

Jorge Braga, para O Popular


NOVO PATAMAR PARA A SEGURANÇA PÚBLICA

NOVO PATAMAR PARA A SEGURANÇA PÚBLICA
EDITORIAL - O GLOBO
 O governo estadual fecha o ano com um balanço positivo na área de segurança pública. Obviamente, ainda há muito o que fazer para reduzir os indicadores da violência no estado - particularmente na região metropolitana do Rio - a níveis compatíveis com os de uma sociedade em que a criminalidade esteja sob efetivo controle. Mas são inegáveis os avanços obtidos. Isso pode ser medido pela curva descendente de alguns tipos de crimes (como homicídios e assalto) e pelo apoio da população às ações de pacificação de comunidades que estavam subjugadas pelo crime organizado - notadamente após a bem-sucedida ocupação do Complexo do Alemão.
A instalação das Unidades de Polícia Pacificadora em favelas (13, de um total previsto de 40) onde traficantes tinham poder de vida e morte sobre os moradores mudou, nestes dois anos desde o início do programa, o perfil da força coercitiva do estado no combate ao crime organizado, elevando o aparato de segurança a novo e mais poderoso patamar. O sucesso desta iniciativa se reflete nos índices de aprovação: nas comunidades já pacificadas, o aquartelamento permanente de efetivos da Polícia Militar é bem recebido por 92% dos moradores; nas áreas que ainda não foram beneficiadas, o percentual de aceitação, embora um pouco menor, alcança significativos 77% - reflexo do estado de ânimo dessa parte da população, favorável à política de ocupação como alternativa ao cruento domínio de traficantes e milicianos.
As UPPs são uma parte pontual, mas com desdobramentos estratégicos, de um planejamento que visa a devolver a cidadania a moradores de comunidades dela deixadas à parte pelo crime organizado. No final de novembro, a agenda desse programa de ação foi atropelada em razão de um erro de avaliação dos chefes do tráfico no Rio: após uma série de ações terroristas encetadas por bandidos, em clara tentativa de intimidação do poder constituído, o dispositivo de segurança do estado reagiu e, com o apoio de tropas e equipamentos das Forças Armadas, acabou obtendo expressiva vitória sobre a criminalidade, que culminou com a ocupação do Alemão.
A operação cacifou o governo estadual para avançar ainda mais no combate à violência. E, principalmente, deixou claro que nenhum plano de ação que procure sufocar o crime organizado pode prescindir da efetiva integração dos três níveis de poder da Federação. Graças à ocupação do até então tido como inexpugnável bunker do tráfico, as forças de segurança ganharam confiança para impor um irremediável refluxo às facções que dominam o tráfico no estado. E, desse privilegiado patamar, enfrentar também os grupos paramilitares, cuja influência vem aumentando em diversas comunidades do Rio.
Por óbvio, os movimentos do poder público contra a violência não podem se limitar ao viés policial. Mas a consolidação - como se pode projetar a partir deste novo ponto do front conquistado pelo governo - de um plano de ação na área de segurança é condição imperiosa para o Estado cumprir a outra parte de um programa mais geral de reinserção social dessas comunidades, com serviços e uma política de investimento em áreas como educação, saúde e urbanização.

Índice que reajusta contratos de aluguel teve alta de 11,32% em 2010

Índice que reajusta contratos de aluguel teve alta de 11,32% em 2010
O GLOBO REUTERS/ BRASIL ONLINE
SÃO PAULO (Reuters) - O Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), adotado para reajustar contratos de aluguel e tarifas de energia elétrica, subiu 0,69% em dezembro, em uma forte desaceleração após a alta de 1,45% em novembro, informou a Fundação Getúlio Vargas (FGV) nesta quarta-feira. Em 2010, o IGP-M registrou alta de 11,32%. Em 2009, o IGP-M ficou negativo em -1,71%.
Analistas consultados pela Reuters esperavam avanço de 0,78%, segundo a mediana de projeções que oscilaram de 0,55% a 0,89%. O IGP-M é calculado com base nos preços coletados entre os dias 21 do mês anterior e 20 do mês de referência.
O Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) teve alta de 0,63%. No mês anterior, a taxa foi de 1,84%. O índice relativo aos Bens Finais caiu 0,46% em dezembro, frente a uma alta de 1,34% em novembro. Contribuiu para a desaceleração do índice o subgrupo alimentos processados, cuja taxa de variação passou de 5,58% para 0,63%. O índice referente ao grupo Bens Intermediários variou 0,83%, frente a 0,76% em novembro, puxado pela alta de preços de materiais e componentes para a manufatura, que passou de 0,92% para 1,18%. Já o índice de Matérias-Primas Brutas subiu 1,66% em dezembro, contra uma aceleração de 3,92% em novembro. Os principais responsáveis pela desaceleração do grupo foram os itens: bovinos (11,42% para -1,62%), soja (em grão) (9,72% para 2,58%) e milho (em grão) (9,54% para 4,41%). Ao mesmo tempo, registraram-se acelerações em itens como: minério de ferro (-8,13% para -2,24%), aves (0,97% para 8,02%) e mandioca (aipim) (0,64% para 1,86%).
O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) registrou alta de 0,92% em dezembro, contra 0,81% em novembro. Cinco dos sete grupos componentes do índice apresentaram acréscimos em suas taxas de variação, com destaque para Habitação (0,27% para 0,43%). Nesta classe de despesa, vale mencionar os itens: aluguel residencial (0,49% para 1,03%) e condomínio residencial (0,11% para 1,10%). Também apresentaram aceleração os grupos Saúde e Cuidados Pessoais (0,19% para 0,48%), Educação, Leitura e Recreação (0,20% para 0,42%), Despesas Diversas (0,25% para 0,44%) e Alimentação (1,91% para 1,96%). As maiores contribuições foram dos itens artigos de higiene e cuidado pessoal (-0,35% para 0,58%), passagem aérea (-0,20% para 15,00%), cerveja (2,18% para 3,48%) e frutas (2,04% para 3,84%), respectivamente. Na outra ponta, apresentaram desaceleração os grupos Transportes (0,72% para 0,57%) e Vestuário (0,96% para 0,87%), com queda nos preços da gasolina (1,59% para 0,61%) e dos calçados (1,17% para 0,33%).
O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) registrou, em dezembro, variação de 0,59%, acima do resultado de novembro, de 0,36%. Dois dos três grupos componentes do índice apresentaram aceleração: Materiais e Equipamentos, de 0,07% para 0,09%, e Mão de Obra, de 0,59% para 1,08%. Já o índice relativo ao grupo Serviços passou de 0,48%, no mês anterior, para 0,25%, nesta apuração.

O AJUSTE CHINÊS E O BRASIL

O AJUSTE CHINÊS E O BRASIL
EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO
O governo da China, principal destino das exportações brasileiras, decidiu frear o crescimento econômico para conter a alta do custo de vida. Se o plano der certo, a inflação dos alimentos e de outros produtos básicos poderá arrefecer em 2011 no mercado internacional. Isso contribuirá para a contenção dos preços também no Brasil, facilitando o trabalho do novo governo. Mas em contrapartida prejudicará a receita comercial brasileira e tornará mais complicado o ajuste das contas externas. Economistas do setor financeiro e de consultorias independentes projetam para o próximo ano um déficit em conta corrente de US$ 69 bilhões, segundo a pesquisa Focus do Banco Central (BC). A deterioração do balanço de pagamentos só não tem sido maior graças às boas cotações das commodities.

As autoridades chinesas vêm apertando a política monetária há vários meses para frear a inflação. Não tiveram sucesso até a semana passada. Em novembro os preços ao consumidor foram 5,1% mais altos do que um ano antes, segundo os dados oficiais. Foi a maior variação observada em 28 meses. O aumento acumulado em 12 meses havia chegado a 3,6%, em setembro, e 4,4%, em outubro. As maiores altas têm ocorrido nos preços dos alimentos e no custo da habitação e por isso as famílias de baixa renda são as mais sacrificadas.
O mais novo lance da política anti-inflacionária ocorreu no dia 25, quando o Banco do Povo, o BC chinês, aumentou os juros de depósito para 2,75% e a taxa referencial de empréstimos para 5,81%, com perspectiva de elevação para 6,56% no fim de 2011. Nos dois casos o ajuste foi de 0,25 ponto porcentual. O novo aumento dos juros foi o segundo em dois meses. As taxas haviam caído em 2008, quando o governo tomou as primeiras medidas para combater os efeitos da crise internacional.
Segundo pesquisa recente do BC chinês, os consumidores estão mais preocupados com a inflação do que em qualquer outro momento dos últimos dez anos. Com a nova alta de juros - depois de ações mais suaves, como a elevação dos depósitos compulsórios -, as autoridades tentam influir no humor dos consumidores e dos demais agentes. "A expectativa de inflação é mais ameaçadora que a própria inflação", disse o primeiro-ministro Wen Jiabao.
Há mais de um ano especialistas têm apontado a formação de bolhas no mercado imobiliário e sinais de desajuste nos preços de outros ativos, mas o governo demorou a tomar medidas severas para afastar o perigo. A alta de preços dos alimentos acelerou-se neste ano e deu um forte impulso no índice de inflação.
Autoridades chinesas têm responsabilizado o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) pelo aumento dos preços internacionais. Segundo uma publicação chinesa, o ministro do Comércio, Chen Deming, chamou a atenção recentemente para o risco da inflação importada. Segundo ele, a oferta de dólares cresce de forma descontrolada no mercado internacional e isso contribuiu para o aumento de cotações das commodities.
A referência à inundação de dólares é bem fundada. Sobra dinheiro no mercado internacional, os juros no mundo rico são muito baixos. Isso favorece a especulação com os produtos agrícolas e reforça o efeito das quebras de safras em vários países. Mas a política monetária chinesa também foi muito frouxa por muitos anos, como observou o editor-chefe da publicação China Affairs, Wu Fan. Entre 2000 e 2009 o PIB medido em dólares cresceu cerca de 285%, enquanto a moeda em circulação aumentou cerca de 350%.
O governo chinês deve reduzir a meta anual de crescimento econômico para 7% nos próximos cinco anos. Nos últimos cinco a meta oficial era de 7,5%, mas a expansão média até o ano passado foi de 9,8%. Esse crescimento, o maior do mundo, favoreceu os exportadores de commodities. Neste ano, até o mês passado, o Brasil vendeu para a China mercadorias no valor de US$ 28,2 bilhões, 15,6% da receita de exportações. Sem o mercado chinês e sem a inflação dos produtos básicos, o desempenho comercial do País teria sido muito pior, por causa da valorização cambial e do baixo crescimento dos mercados mais desenvolvidos.  

Nuvens de tempestade, Utah

Fotografia por Steven Besserman

Menos férias

Menos férias
VINICIUS MOTA - FOLHA DE SÃO PAULO - 29/12/10
A minha geração, que entrou na escola entre o final da década de 1970 e o início da seguinte, gozava férias intermináveis de verão. O ano letivo mal entrava em dezembro e só se reiniciava de fato após o Carnaval. Quando, como neste ano, o feriado caía em março, era a glória suprema.
Mesmo no período de aulas, o tempo livre à disposição da criança era monumental. Tínhamos uma manhã ou uma tarde, sem falar da noite, livre para criar raízes diante da TV, brincar, aprontar e até resolver o dever de casa.
Um pensamento preguiçoso ajudava a justificar tanto tempo de ócio. A criança, dizia-se, precisava de espaço para desenvolver a criatividade e interagir na comunidade. O contato com a realidade extraescolar nas camadas mais pobres era mitificado em pedagogias da moda: aí estaria o substrato que, retrabalhado, revolucionaria a nação.
Quem mediu a resultante dessa combinação de descaso, escassez de investimento e fabulação teórica encontrou resposta atordoante. Fora da escola, o desempenho evolui de fato -mas o das crianças mais ricas, que têm estrutura familiar e pais com recursos e disposição para investir em atividades que ocupem o tempo.
O sociólogo Karl Alexander comparou provas aplicadas no fim do período letivo com testes feitos no início do ano escolar subsequente em Baltimore (costa leste dos EUA).
Enquanto alunos mais ricos melhoraram nitidamente nas férias, os mais pobres rondaram a estagnação, quando não pioraram. Já durante as aulas, a evolução foi homogênea entre as classes de renda.
O estudo concluiu que o deficit de desempenho de pobres em relação a ricos nos primeiros anos de ensino formal é explicado não pelo período em classe, mas pelo tempo fora da escola. Em vez de ajudar na emancipação dos pobres, férias longas -e tardes inteiras sem atividade escolar- ampliam as diferenças sociais.
Em 1990, havia quase 25 milhões de brasileiros até 6 anos de idade. Essa população já caiu para 22 milhões e será de 19 milhões em meados da próxima década. O Brasil universalizou o ensino fundamental no auge da demanda pelo serviço. Daqui por diante haverá desafogo para adaptar a estrutura existente a um programa que aumente o tempo de presença dos alunos na escola.
Não chega a 5% a fatia de estudantes da rede pública que ficam ao menos sete horas por dia na escola. Para cada 10 crianças no regime integral, ainda há 17 cuja carga diária é inferior às quatro horas legais.
Quanto aos dias letivos, hoje de 200 por ano, se não é preciso almejar os 243 dias dos japoneses, os 220 dos sul-coreanos configuram alvo razoável, a ser atingido, por que não, em quatro anos. Eis uma meta para Dilma Rousseff, que não esconde a simpatia pelo desenvolvimento da Coreia do Sul.
VINICIUS MOTA é secretário de Redação.

Felicidade - Marcelo Jeneci (Feito pra Acabar)

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