segunda-feira, março 21, 2011

Vivendo de brisa

Vivendo de brisa
JOÃO UBALDO RIBEIRO - O GLOBO - 20/03/11
Penso em aproveitar minha condição de baiano e montar uns shows casadinhos
Costuma-se pensar que artistas de modo geral, inclusive os escritores, são ricos. Volta e meia sai uma reportagem que diz quanto um astro de TV famoso ganha e daí se difunde a crença de que artista é rico, quando, na verdade, matar cachorro a grito é atividade das mais exercidas pela maioria deles, mundialmente. Os escritores aparecem em notícias sobre como um romancista antes desconhecido vendeu para Hollywood, por zilhões de dólares, seu premiado best-seller. Ai de nós - escritor, quando é pago, recebe entre cinco e doze por cento do preço final do livro. E, não só aqui como no mundo todo, se vira em jornalismo, no ensino, na publicidade e em outros campos, já que de livro mesmo poucos conseguem sobreviver e ainda menos ficar ricos.
Paralelamente, cultiva-se como bela a imagem do artista faminto e penurioso, agasalhando-se do inverno com um casaco puído e esburacado pelas traças, afogando-se em álcool e desprezado por uma musa tão formosa quanto ingrata. Antigamente ele com frequência ficava tuberculoso e morria esquecido, num asilo para indigentes. Para o artista, esse ser privilegiado e superior, não são importantes as preocupações materiais e querer ganhar dinheiro com o que faz beira o sacrilégio, além de mercantilizar odiosamente o talento.
Se é verdade que a maior parte dos artistas é apenas remediada e olhe lá, a batalha por dinheiro sempre foi a regra e não a exceção. A lista é infindável. Balzac, Dickens e Dostoievski, por exemplo, passaram a vida disputando uns trocados e há quem diga que os dois primeiros morreram de trabalhar. A arte da Renascença era toda feita de encomenda. Os dramaturgos gregos escreviam suas peças para ganhar concursos, em meio a generalizada baixaria, como a difamação ou a ridicularização de concorrentes. Mozart era empregado da cozinha imperial e recebia encomendas do tipo "quero um concerto para piano e orquestra daqui a duas semanas e não me venha com repetições". Bach escreveu os concertos de Brandemburgo para adular um governante, que, aliás, parece nunca ter chegado a ouvi-los. Shakespeare vivia catando histórias que dessem público e faturando o que podia como empresário.
E por aí vai, mesmo depois da implantação quase universal do direito autoral. O artista, seja ele escritor, compositor, pintor ou o que lá for, precisa e gosta de dinheiro tanto quanto qualquer outra pessoa. Mas os novos tempos aparentemente querem trazer a eliminação do direito autoral, ou impor-lhe severas restrições. Há muito que meus livros, incluindo versões em áudio abomináveis, estão disponíveis em dezenas de sites da Internet, sem que eu seja nem comunicado, quanto mais pago. Agora também sei que títulos meus estão sendo baixados em leitores eletrônicos, outra vez sem que nem eu nem meus editores tenhamos sido consultados.
Já estava resignado a essa pirataria, mas dizem que vêm mais novidades por aí. Li uma entrevista com um desses gênios da informática em que hoje o mundo abunda, na qual ele previu não somente o inexorável fim do livro impresso como a abolição dos direitos de autor. Perguntado como, neste caso, o escritor viveria, ele a princípio pareceu não saber ou não dar importância a pormenores dessa natureza, mas depois sugeriu que o escritor sobrevivesse fazendo apresentações públicas, leituras, performances pagas e coisas assim.
Não chegou ao ponto de outro, sobre cujas ideias também li não lembro onde, que recomendou que, com suas obras à disposição de graça, os escritores façam voto de pobreza como os franciscanos, ou arranjem, vendendo a alma ao demo como possam, um mecenato que os sustente. Pelo menos o primeiro ainda vê as apresentações como um reduto em que o escritor poderá refugiar-se. Claro, se este for gago ou tímido demais para exibir-se em público, vai ser um problema. Mas há maneiras de superar tais limitações e os escritores, em breve, estabeleceriam animada concorrência, um aprendendo mágicas para alternar com leituras, outro estudando sapateado e ainda outros, como o Verissimo, pegando pesado com seu saxofone. Estou pensando em reagir aproveitando minha condição de baiano e montar uns shows casadinhos. Não conheço Daniela Mercury, Ivete Sangalo ou Margareth Menezes pessoalmente, mas tenho a esperança de que, com jeito, elas aceitem encaixar um número meu em seus shows, na base do "ajuda teu irmão".
Pode ser que se esteja pensando também numa forma de remunerar o escritor que não dependa de vendas. O governo faz uma seleção dos nomes qualificados para receber algum pagamento e dá a eles, por exemplo, uma bolsa romance. Mas receio que para conseguir essa bolsa, ou qualquer outro estipêndio do Estado, será necessário arrumar um pistolão. Ou entrar para um partido político que disponha de quotas da bolsa, como parte do tudo a que tem direito por aderir ao governo. Ou talvez seja melhor a realização de concursos públicos. Quem quiser ganhar alguma coisa como escritor será obrigado a fazer uma espécie de vestibular e os aprovados terão direito a uma carteirinha e a receber dois salários mínimos por mês para seu sustento, além de uma eventual bolsa romance, bolsa poema ou bolsa ensaio.
Seja o que Deus quiser, não se pode deter o progresso. Progresso este que faz um interessante revertério para o tempo em que o artista morria indigente. Ao que tudo indica, a moda está de volta e acho que vou procurar logo uma boa sarjeta e começar a treinar. Tenho, entretanto, um comentário final: tudo bem, são os novos tempos, mas os bens culturais "gratuitos" não são produzidos sem custos, pois não existe produto (ou almoço) de graça. Muita gente ganha dinheiro com essa produção, em todos os seus estágios, muita gente é paga. Por que só quem não deve ser pago é o autor?
JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.

O trinado do passarinho

O trinado do passarinho
FERREIRA GULLAR - FOLHA DE SÃO PAULO - 20/03/11
Ao passar a gravação para o disco, verificou ter captado um passarinho e, então, decidiu destruí-lo
ELE É um excelente e raro poeta, que terá escrito uns 20 poemas em toda a sua vida. Sou certamente o único amigo que possui no mundo. Tem alguns parentes, filhos de uma irmã já falecida.
Como herdou dos pais alguns bens, esses parentes tentaram obter um diagnóstico médico para considerá-lo louco e, portanto, incapacitado para gerir a herança da família. Ele percebeu o golpe, fugiu de casa e nunca mais apareceu. Mudou-se para Lisboa, onde viveu alguns anos, e depois voltou, na moita, de modo que, para os parentes gananciosos, ele deve ter morrido.
Na verdade, reside, faz alguns anos, num pequeno apartamento no centro do Rio, num prédio onde só há escritórios e firmas comerciais. Ninguém sabe quem ele é nem o que faz. Com o resto do dinheiro, comprou um terreno em Magé, no Estado do Rio, e o doou à prefeitura para que instalassem ali um clube esportivo para meninos pobres, com campos de futebol e quadras de tênis.
A prefeitura aceitou a doação e nada fez. Agora ele está tentando anulá-la para entregar o terreno ao governo do Estado, a fim de ali construir escolas e moradias para desabrigados. O processo burocrático está em marcha; marcha lenta, claro.
Quando o conheci, em 1952, na casa de Mário Pedrosa, ele era funcionário do Centro Psiquiátrico Nacional, do Engenho de Dentro, onde ajudou a dra. Nise da Silveira em seus ateliês de terapêutica ocupacional. Se não me enganou, quem o levou a Mário Pedrosa foi Almir Mavignier, braço direito de Nise. Ele escrevera já então os poucos poemas que constituem a sua obra poética.
Tornamo-nos amigos e vagabundávamos pelo centro do Rio, frequentando o Vermelhinho e os botecos da Lapa, em companhia de Oliveira Bastos, Carlinhos de Oliveira e Amelinha, que era pintora e minha namorada. Publicou uma plaqueta de 34 páginas e distribuiu a reduzidíssima edição entre escritores indicados por mim. Um dos poemas dizia:
"Tapei a flor na noite
e os dias se esconderam.
Descabida metade das partes
relâmpago das cores".
Mas eis que ele, dias depois, aparece no Vermelhinho com um exemplar de seu livro, abre-o, estica com a unha da mão a linha que prendia as páginas, e afirma: "Isto vai arrebentar e misturar os poemas, quebrando a ordem em que estão. Vou recolher todos os exemplares e queimá-los. O teu está aí contigo?". Respondi: "O meu você não vai queimar coisa nenhuma". E o tenho guardado até hoje.
Pouco depois, decidiu gravar os poemas num disco. Usou um gravador do Centro Psiquiátrico e, de manhã bem cedo, fez a gravação. Sucedeu que, ao passá-la para o disco, verificou ter o gravador captado o trinado de um passarinho e, então, decidiu destruí-lo. Tentei dissuadi-lo, mas, para minha surpresa, no dia seguinte, ele me procurou para me informar que o trinado do passarinho enriquecera a gravação.
Editou então um álbum com o disco e me deu um exemplar que guardei até que meus filhos, brincando, o inutilizassem. Sobrou o álbum vazio.
Ele tem hoje 84 anos e, de vez em quando, aparece em minha casa. Outro dia, surgiu sem me avisar, sentou-se diante de mim e me perguntou se ainda tinha o disco com o trinado do passarinho. Respondi que tinha apenas o álbum vazio, onde estão impressos os poemas do disco. Ele, então, me informou que viera com o propósito de destruir o disco, mas, como este já não existia, destruiria o álbum. Tomei-o de suas mãos e disse-lhe que não ia destruir álbum nenhum.
Ele empalideceu, me olhou nos olhos e afirmou: "Você não tem o direito de me impedir. Os poemas são meus, o álbum é obra minha. Esses poemas não correspon- dem mais ao que considero minha poesia".
Tentei explicar-lhe que a nova edição que fizera dos poemas, em 1990, já deixava claro que sua visão sobre seus poemas mudara, uma vez que excluíra dela aqueles que não considerava perfeitos, à altura de sua exigência. De nada adiantou. Acusou-me de adotar uma atitude autoritária em vez de agir como amigo e foi embora muito zangado. Essa zanga passa, pensei comigo, sorrindo. Abri o álbum e li:
"O indivíduo estava no chão
e a pose passeava na forma".

Pode ser muito bom

Pode ser muito bom
DANUZA LEÃO - FOLHA DE SÃO PAULO - 20/03/11
Estava fora do alcance de todos, incomunicável; nada poderia me atingir, pensei, e me senti livre
OUTRO DIA, numa dessas conversas sem compromisso, que não levam a nada, inventadas para que se possa fingir que não existem as duras realidades, a brincadeira era cada um contar os melhores momentos que tinha tido na vida.
Quando chegou minha vez, disse que foram muitos, e tantos, que a resposta ia ser grande -e foi. Tive que refrescar a memória, pois dos piores a gente se lembra logo, mas dos melhores é preciso tempo, o que não deixa de ser injusto.
Isso aconteceu depois de um almoço de domingo; não havia pressa alguma, e quando vi, estava contando episódios da infância, outros da vida já adulta, alguns até românticos, veja você. Nenhum deles daria um livro, nem um conto de duas páginas, mas estavam guardados -ou esquecidos- dentro de mim, como uma grande riqueza.
Voltei para casa e, já sozinha, voltei a pensar em minhas horas mais felizes; me surpreendi, lembrando de momentos totalmente diferentes dos que havia contado. Quais seriam os mais verdadeiros? Vou falar de só um deles, até porque os outros, tirando a geografia, o ano em que aconteceram e outros detalhes sem a menor importância, foram absolutamente iguais no seu significado. Entre eles, um grande ponto em comum: eu estava só.
Era verão, eu estava na Europa e decidi ir a Londres, cidade que conheço mal. Não consigo me situar, saber para que lado ir, me acho sempre perdida e, para complicar, falo mal a língua, o que faz com que me sinta, sempre, uma total estrangeira. Nessa viagem houve também o que poderia ter sido um problema, mas não foi, pelo contrário: esqueci o celular em Paris. Talvez tenha sido proposital, penso agora.
Como ia ficar só cinco ou seis dias, e, a rigor, não precisaria ligar para ninguém, relaxei. Relaxei e me dei conta de que ninguém, no mundo inteiro, sabia onde eu estava: nem em que hotel, nem em que cidade, nem em que país.
Estava fora do alcance de tudo e de todos, incomunicável; nada poderia me atingir, pensei, e me senti livre, livre como gosto de me sentir, mas que nem sempre consigo -e olha que nunca fui muito presa às chamadas convenções.
O tamanho da felicidade que senti -não, a palavra felicidade não é suficiente. Foi como uma comunicação profunda comigo mesma, uma liberdade plena e total de existir, sem depender de nada nem de ninguém, uma sensação do poder completo, no mais alto dos níveis.
É claro que isso não aconteceu em todos os momentos de todos os dias que passei lá; acho até que, na hora, nem me dei conta direito do que estava sentindo, só fui perceber depois, só tive consciência mesmo no dia da tal conversa, no tal domingo, já sozinha, já em casa. Quanta loucura: saber que me senti dessa maneira anos depois.
Mas valeu. Tenho o hábito de, nos maus momentos, quando parece que tudo vai dar errado e que não há solução para nada, lembrar de sensações parecidas, passadas numa praia do Ceará ou dentro de um avião, o que me dá a esperança -certeza- de que vai passar.
Agora vou me lembrar também de Londres, pois no fundo tudo é bem parecido. E vou resistir à tentação de voltar em algum outro verão, à procura do que já foi, pois nenhum tipo de volta dá certo.
E sentir-se só no mundo não é tão ruim como dizem; pode ser, até, um grande momento.

Nani, para Charge Online


Conversa Sobre a Fé e a Ciência

Conversa Sobre a Fé e a Ciência
MARCELO GLEISER - FOLHA DE SÃO PAULO - 20/03/11
Os caminhos da razão e do espírito são um só: a busca por significado em um mundo cheio de mistérios
NA SEMANA QUE VEM sai meu novo livro, em parceria com Frei Betto e com intermediação de Waldemar Falcão, "Conversa Sobre a Fé e a Ciência", pela Nova Fronteira. Temos alguns eventos no Rio e em São Paulo, de que espero participar via teleconferência, aproveitando os benefícios de nossa era digital.
Conversas sobre ciência e religião, em geral, terminam em briga. Mas não deveriam. Talvez seja essa uma das lições mais importantes que Frei Betto e eu queremos passar.
Reconheço que somos dois exemplos um pouco alternativos. Eu, como cientista, mantenho uma posição de respeito pela religião. Frei Betto, como pensador político e teólogo cristão, mantém uma posição aberta em relação à ciência. Começamos a conversa sem nos conhecermos e terminamos amigos.
Frei Betto concorda comigo que é absurdo fechar os olhos para os avanços da ciência, negando suas descobertas. Concorda, também, que a religião não deve ser usada fora de seu contexto, especialmente como um substituto da ciência.
Usar a Bíblia como texto científico, tentar extrair de sua narrativa simbólica fatos sobre o surgimento do Universo e da vida, é retornar ao obscurantismo da Idade Média. Por outro lado, concordamos plenamente que a ciência não se propõe a atingir uma verdade "absoluta".
Verdades dependem de quando são formuladas, ou seja, do contexto histórico em que são buscadas. Por exemplo, para os gregos, era "verdade" que a Terra era o centro do Universo; até o fim do século 18, era "verdade" que o Sol era o centro do Universo; até 1924, era "verdade" que a Via Láctea era a única galáxia no Universo. Com o avanço da ciência, essas verdades foram substituídas por outras.
Apesar de não haver dúvida de que certos fatos científicos permanecem inalterados com o passar do tempo (por exemplo, as leis de Newton), chamá-los de "verdades" talvez seja imprudente.
A ciência é uma narrativa que se ocupa do mistério, do não saber. Ela não tem capítulo final. Seu foco não é a busca pela verdade, mas por uma descrição do mundo que esteja de acordo com nossas observações.
Por outro lado, as religiões organizadas, com seu dogmatismo intransigente, distorcem o real sentido da fé. Nisso, Frei Betto e eu também concordamos plenamente (para ver no que mais concordamos e no que discordamos, é preciso ler o livro).
No cerne da religião, no ato de devoção religiosa, encontramos a espiritualidade pura, individual, que tece uma relação profunda entre o homem e o Universo e entre o homem e a sua consciência.
Frei Betto menciona Santa Teresa D'Ávila como alguém que alcançou um nível exemplar de transcendência pessoal e de comunhão com o divino. Aprendi muito durante nossa "conversa" e saí admirando meu interlocutor ainda mais.
Vejo a ciência, no aspecto mais puro e humano, como uma busca por transcendência, em que o espírito humano se une ao mundo natural para criar novas formas de pensar a nossa existência e, por meio da tecnologia, para criar expressões materiais dessa comunhão. Sob esse prisma, os caminhos da razão e do espírito são um só, simbolizando a essência do ser humano, que é a busca por significado num mundo cheio de mistérios.

Obama discursa no Rio de Janeiro e conquista os brasileiros

O pau da barraca

O pau da barraca
MARTHA MEDEIROS – O Globo - Revista
Por mais de bem com a vida que estejamos, tem aqueles dias em que não adianta, a gente se queixa. Queixas miúdas: a empregada que quebrou a tampa do açucareiro, o marido e sua maldita apneia, a filha adolescente que implica com tudo, o carro que está caindo aos pedaços, ou seja, nenhuma tragédia. Dez minutos de papo no telefone com a melhor amiga valem por uma sessão de terapia, e os problemas retornam à sua verdadeira dimensão: mínima.
Só que às vezes não estamos nem um pouco de bem com a vida, nem um pouco. O mundo está desmoronando de verdade: a empregada foi flagrada roubando, o marido parece que vive em outra galáxia, a filha está prestes a levar bomba no colégio e o carro... que carro? Foi vendido para pagar as dívidas, esqueceu? Outro dia, uma amiga desabafou sobre tudo isso: de como a vida dela estava uma M generalizada, e essa letra M não era de magnífica. E se saiu com esta: “Tenho vontade de chutar o pau da barraca, deixar que todo mundo se vire sem mim e sumir. Mas não posso porque o pau da barraca sou eu.”
Quem precisa de Nietzche, Schopenhauer, Sêneca? “O pau da barraca sou eu” foi a coisa mais filosófica que ouvi nos últimos tempos (permita eu exagerar um pouquinho). Entendi com clareza o conceito sofisticadíssimo que minha amiga desenvolveu. Simplesmente não dá para a gente chutar a si próprio, tirar a si mesmo de cena, e eu sei muito bem o que um psiquiatra diria: “Isso é onipotência, meninas. Quem vocês pensam que são? As controladoras universais, as bambambãs do cotidiano, as deusas sagradas do Olimpo?”
Na trave, Freud. Assim como minha amiga, há muita mulher por aí que se ousar ter um piti e chutar o pau da barraca, matará a família inteira de fome, porque é ela que descola o dinheiro, é ela que se divide entre dois empregos, é ela que segue trabalhando no final de semana. Ela é o homem da casa. Tem mulher que se largar os filhos ao deus-dará, eles não saberão o caminho da escola, não lavarão as mãos antes de jantar, não lembrarão de ir ao dentista, esquecerão para que serve um chuveiro. Até de pagar a conta da banda larga é capaz de eles esquecerem, mas isso já não garanto, eles ficam sem mãe, mas não ficam sem computador
A verdade é que a gente assume tantos compromissos e se enreda de um jeito na vida, que depois não consegue mais se desvencilhar sem deixar mortos e feridos. Todo mundo deveria ter o direito de chutar o pau da barraca, mas a responsabilidade impede, mesmo quando não somos o pau da barraca. E sendo, aí é que não dá mesmo para levantar acampamento.
Eu, de vez em quando, sumo dois ou três dias, mas volto. Encontro todo mundo vivo e mais corado. É bem verdade que deixo um dossiê com todas as regras de sobrevivência na selva, os telefones de contato e um dinheirinho guardado na gaveta para o caso de imprevistos. Deixo a barraca aos cuidados de quem fica. E descubro que mamãe chutar o pau da barraca a intervalos regulares é tudo o que os filhotes mais precisam.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Desastres naturais e desastres sociais


Desastres naturais e desastres sociais
OCTAVIO LUIZ MOTTA FERRAZ
Estudos nos mostram que os desastres "naturais" são moldados significativamente pelas mesmas desigualdades sociais que afetam o dia a dia
Desastres "naturais", como o que se abateu recentemente sobre o Rio de Janeiro, produzem reações psicológicas intrigantes.
Esse tipo de evento aguça nossa capacidade de empatizar com os outros e nos move a agir com generosidade ampliada, que outras situações com igual ou maior impacto em termos de sofrimento humano e número de vítimas não fazem.
Doações após o tsunami na Ásia são o exemplo mais claro e emblemático dos últimos anos. Em poucos dias, governos de todo o mundo haviam prometido doar quase US$ 5 bilhões para uma tragédia que, segundo estatísticas da Organização Mundial de Saúde, causou 32 mil mortes e afetou de alguma forma outras 500 mil pessoas.
Já o Fundo Global para o Combate à Aids, Tuberculose e Malária vai gastar esse ano cerca de US$ 20 bilhões (apenas quatro vezes mais), com medidas que beneficiarão 174 milhões de pessoas.
Mas essa reação psicológica diferenciada em face de desastres "naturais" se funda numa premissa enganosa (daí a utilização das aspas).
Embora os gatilhos dos desastres sejam eventos naturais (geralmente condições geológicas e atmosféricas), a magnitude de seus danos varia fortemente com as condições econômicas, sociais e políticas da região afetada.
Um recente estudo da ONU sobre desastres ocorridos no mundo de 1975 a 2007 conclui taxativamente: populações sujeitas a riscos similares em gravidade sofrem danos significativamente mais graves e extensos se morarem em países pobres e com governos corruptos e ineficientes. Japão e Filipinas são bons exemplos.
A probabilidade de mortes decorrentes de tufões nas Filipinas é 17 vezes maior do que no Japão, embora o número de pessoas sujeitas a esse evento natural seja similar!
(conforme "Risk and Poverty in a Changing Climate", 2009).
Como bem apontou a socióloga americana Kathleen Tierney ao analisar o evento do furacão Katrina em Nova Orleans, os desastres "naturais", ao contrário de outras mazelas sociais do dia a dia, geram "crises de consenso" (em oposição às "crises de conflitos"), de onde emergem "comunidades terapêuticas" que dão suporte às vítimas e ampliam o grau de coesão da comunidade ("Social Inequality, Hazards and Disasters", 2006).
Há várias explicações para esse comportamento incoerente. Fazemos distinção moral rígida entre os danos causados por forças naturais e os causados pela ação humana.
Nos primeiros, não temos dúvida de que as vítimas são inocentes e nossa capacidade de empatia é automática. Nos outros, nosso julgamento é ofuscado por dúvidas sobre causalidade e responsabilidade que nos paralisam na ação.
Outro fator explicativo é a frequência com que esses eventos ocorrem. Se desastres "naturais" ocorressem com muita frequência, provavelmente nossa capacidade de empatia com as vítimas diminuiria, em decorrência do fenômeno da "anestesia moral".
Precisamos refinar nossos julgamentos morais à luz dos estudos acima citados, que mostram que os desastres "naturais" são moldados significativamente pelos mesmos fatores de estratificação e desigualdades sociais que influenciam a vida das pessoas no dia a dia.
Se conseguirmos, com isso, responder aos desastres sociais da mesma forma como respondemos aos desastres "naturais", estaremos no caminho certo para a minimização de ambos.
OCTAVIO LUIZ MOTTA FERRAZ, 39, mestre em direito pela USP, doutor em direito pela Universidade de Londres, professor da Escola de Direito da Universidade de Warwick, Reino Unido.

Essa rua


Essa rua
LUIS FERNANDO VERISSIMO - O GLOBO - 03/02/11
Quando Gamal Abdel Nasser e outros jovens oficiais tomaram o poder do rei Farouk em 1952, substituindo uma monarquia teocrática corrupta por uma república laica e progressista, foi com escasso apoio da Irmandade Muçulmana, que acabou rompendo com a revolução. Em vez de uma aliança religiosa na região, Nasser propunha uma pan-Arábia anti-imperialista, e era isso que assustava o Ocidente, então. Hosni Mubarak foi (se é que já se foi) um autocrata, mas seu DNA político vinha direto do Nasser. Era um Nasser despótico, acomodado com o Ocidente, mas um sucessor assim mesmo. E agora o medo do Ocidente é que sua derrubada leve fundamentalistas islâmicos ao poder no Egito, apesar da evidência de que sua participação no levante não é predominante. E o Ocidente sente saudade do Nasser que combateu há quase 60 anos.
Mais uma da velha senhora irônica, a História.
De qualquer maneira, esse negócio vai ficar interessante mesmo quando a revolta chegar ao outro grande centro do poder árabe na região, uma das últimas monarquias absolutas, e certamente a mais repressora do mundo, a Árabia Saudita. Essa “rua” sublevada que começa na Tunísia e passa por Argélia, Egito, etc.
ou também passa pela Arábia Saudita ou não leva a nada muito novo.
BINDU
Se fizessem um plebiscito, você escolheria viver num Universo em expansão ou num Universo em contração? Não faria muita diferença a curto prazo, pois os efeitos das duas possibilidades – um Universo que continuará a se expandir como vem fazendo desde o Grande Pum ou um Universo que começará a se contrair até eventualmente voltar ao ponto de origem – só serão conhecidos daqui a alguns bilhões de anos. São duas possibilidades reais. A expansão provada do Universo significará que eventualmente as galáxias que hoje observamos aqui da nossa desaparecerão, pois a luz das suas estrelas não chegará nem ao melhor telescópio concebível, e os astrônomos do futuro só conhecerão o Universo que hoje vemos de ouvir falar. No caso da contração – bem, todos nos encontraremos de novo no lugar do primeiro estouro, que pode muito bem se repetir e ser a origem de outro Universo.
Na filosofia tântrica existe a palavra “bindu”, o ponto onde o espaço interno e o externo se encontram, onde tudo tem sua origem e tudo termina. O Universo pode ser apenas uma encenação do “bindu”, o que dispensa maiores explicações. Como a linguagem simbólica da Bíblia, o movimento das galáxias também seria simbólico. Ou imaginemos que seja construído um supercomputador capaz de decifrar todos os mistérios do cosmos e que ele seja alimentado com tudo que se sabe e se especula sobre o Universo. No fim de alguns minutos perguntam ao computador se ele chegou a uma resposta. “Sim”, responde o computador.
E qual é? O computador hesita, depois diz:
– Vocês não entenderiam...

Skoob

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