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quarta-feira, junho 22, 2011

O perigo da guerra bacteriológica - Lázaro Guimarães


O perigo da guerra bacteriológica - Lázaro Guimarães
A rápida propagação da grave enfermidade causada pela bactéria e-coli nas últimas semanas, na Europa e nos Estados Unidos, com mais de 30 casos fatais, revela claramente a característica principal da sociedade do risco, sistema social decorrente das deformações da sociedade de massa: as ameaças à vida e à integridade do ser humano ganham contornos globais, já não afetam áreas específicas, mas se espalham rapidamente pelos continentes.
Os alemães atribuíram, apressadamente, como depois reconheceram, aos pepinos oriundos da região de Andaluzia, na Espanha, a origem da epidemia, que apresentou os primeiros sinais na cidade portuária de Hamburgo, onde milhares de pessoas sofreram de diarreias seguidas de lesões nos rins, com registro de 22 mortes, nas duas primeiras semanas.
Mais tarde, os exames bacteriológicos indicaram o alojamento de cepas transformadas da bactéria e-coli em brotos de feijão como a possível causa da doença, mas já se travava virulenta batalha verbal entre os governantes europeus acerca da responsabilidade pela contaminação dos alimentos.
Além da perda de vidas e do comprometimento da saúde de inúmeras pessoas na Alemanha, Espanha, Suécia, França e Estados Unidos, a epidemia provocou prejuízos inestimáveis aos agricultores europeus, obrigados a destruir frutos e plantações, fora as consequências do impacto nos mercados, com forte redução da procura de vegetais.
Duas são as constatações que resultam desse episódio: 1. A humanidade não dispõe ainda de meios eficazes de conter a propagação de bactérias resistentes a antibióticos; 2. A contaminação de fontes de fornecimento de água e de cultivo de alimentos é cada vez mais uma arma poderosa ao alcance de grupos fanáticos e de dirigentes políticos insensatos.
Uma visita à Rússia de hoje, onde convivem os arroubos ditatoriais de Putin com as aspirações libertárias da grande maioria da população, as riquezas naturais, a arte, os monumentos suntuosos, com a falta de perspectiva econômica de amplos setores da sociedade, como os professores, os médicos, os engenheiros, relegados a baixíssima remuneração, serve para mostrar a extrema necessidade de mudança radical nas estruturas em que se baseia a ordem econômica mundial.
Lênin pregou, no famoso discurso da sacada do prédio em que hoje se instala o Museu de História Política, em São Petersburgo, o combate à fome, o fim da guerra e a estatização da produção para levar ao poder, em 1917, o Partido Bolchevique. Morreu em 1927, sem cumprir a promessa, porque 50 milhões de russos morreram na guerra civil ou de fome, e o seu sucessor, Stalin, criou um estado totalitário que conquistou a industrialização e ajudou a abater o nazismo à custa de outras dezenas de milhões de mortes.
A queda do Muro de Berlim, em 1989, parecia significar o fim dos governos totalitários e das ideologias extremistas, mas os dados mais recentes indicam que o perigo persiste; a liberdade e o convívio social harmônico necessitam de cuidados redobrados dos povos de todo o mundo.

sexta-feira, setembro 17, 2010

Um novo sucesso recupera as esperanças na terapia genética

Um novo sucesso recupera as esperanças na terapia genética
Emilio de Benito - Em Madri (Espanha) – El País
A terapia genética demora a ganhar credibilidade. Em 20 anos, houve apenas um caso de sucesso - na Alemanha em 2006, com uma rara doença do sangue. Por isso a notícia de que funcionou outra vez é um sopro de ar fresco para os milhares de pesquisadores - e milhões de pacientes - que esperam que nela esteja a solução para muitas doenças. Desta vez a boa notícia vem de Harvard, e é a cura de um jovem de 18 anos que tem talassemia beta, uma anemia de causa genética, que conseguiu passar 21 meses sem precisar de transfusões. O processo foi tentado dezenas de vezes e não funcionou. Trata-se de introduzir um gene nas células hematopoiéticas (as que geram os glóbulos vermelhos do sangue) para que produzam hemácias saudáveis.
Para tanto, células doentes foram extraídas da medula óssea do paciente e cultivadas junto a um vírus que tinha o gene necessário. Ao produzir-se a infecção, o microrganismo transfere seu material genético para as células-tronco do sistema sanguíneo, e com isso estas adquirem as instruções para fabricar glóbulos vermelhos que funcionem. Concretamente, a informação que se colocou foi a necessária para produzir uma proteína, a betaglobulina, chave para levar oxigênio aos tecidos. Depois essas células foram injetadas no paciente para colonizar a medula e produzir glóbulos vermelhos.
Esse passo não é novo, já que é semelhante ao que se faz nos transplantes de medula óssea. Dentro desse protocolo conhecido existe uma etapa anterior, de submeter o paciente a uma intensa sessão de quimioterapia. Nesse caso, procura-se que as células defeituosas da medula óssea sejam destruídas. Dessa maneira, quando se injeta o material geneticamente modificado não encontra concorrência.
O trabalho consolida uma linha de pesquisa na qual os cientistas tiveram até agora mais más notícias que boas. E é uma chamada de esperança para os pacientes. Essa doença só pode ser tratada com um transplante de medula, o que se choca com a falta de doadores compatíveis, ou, sendo mais radical, evitá-la com um diagnóstico pré-implantacional que descarte os embriões afetados pela anomalia.
O teste só funcionou em um dos dois pacientes que o iniciaram (a talassemia beta é uma enfermidade rara, e calcula-se que afete cerca de 1 mil pessoas nos EUA e uma centena na Espanha, por isso encontrar voluntários é muito difícil). Um deles abandonou o teste porque as células tratadas não conseguiram se implantar; o outro, que começou o tratamento em 2007, precisou da última transfusão em junho de 2008. Desde então é seu próprio organismo que se encarrega de produzir os glóbulos vermelhos de que necessita.
Os pesquisadores destacam um dos aspectos que mais preocupam nesse tipo de terapia: como os genes são implantados ao acaso (quem faz isso é o vírus, de uma maneira não dirigida), não há um controle sobre outro fator: o que regula o número de cópias do gene ou o número de vezes que atua. Em outros casos de terapia genética, como o famoso em que se tentou tratar crianças-bolhas nos anos 1990, o gene saudável - o que solucionava o defeito em seu sistema imunológico - foi introduzido em uma área onde havia oncogenes, e os tumores que apareceram obrigaram a suspendê-lo.
Desta vez também se viu que há um certo grau de atuação excessiva, a etapa anterior a um câncer. Isso pode ter ajudado, no princípio, a fazer a terapia funcionar (mais glóbulos vermelhos são produzidos), mas tem o risco potencial de derivar em câncer. Por isso os pesquisadores afirmam que há necessidade de mais testes.
 Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

sábado, julho 31, 2010

Sinal verde para testar embriões

Sinal verde para testar embriões
EUA aprovam primeira experiência em seres humanos. Meta é terapia para lesão na medula
Roberta Jansen - O Globo

A Administração de Drogas e Alimentos dos EUA (FDA, na sigla em inglês) deu sinal verde ontem para a realização do primeiro teste com células tronco embrionárias em seres humanos, num ato que promete ser um divisor de águas das terapias celulares.
A experiência pioneira usará células desenvolvidas pela Universidade da Califórnia e a Geron Corporation em pacientes com lesão medular causadora de paralisia.
Cientistas brasileiros consideraram a autorização um marco que abre caminho para, a médio prazo, termos estudos semelhantes no país.
 O teste em seres humanos já tinha sido autorizado para o mesmo grupo em janeiro do ano passado.
Antes que o estudo começasse, no entanto, a própria administração o suspendeu porque cientistas constataram o crescimento de cistos em camundongos que haviam recebido células similares. A Geron teve então que desenvolver novas formas de garantir a pureza das células a serem injetadas e realizar um novo teste com roedores. Mediante resultados positivos, a FDA derrubou a suspensão.

Preocupação com a segurança
As células-tronco embrionárias têm a capacidade de originar qualquer outra célula do organismo. O grande objetivo dos cientistas é induzir o desenvolvimento de tecidos para substituir aqueles lesionados ou doentes. A terapia abre caminho para o tratamento de uma ampla gama de problemas, de lesão na medula a mal de Alzheimer.
Até hoje, no entanto, as células só foram testadas em animais. Embora cientistas tenham obtido resultados promissores, um teste em seres humanos nunca foi feito. O grande temor é que as células pluripotentes (com capacidade para se transformar em qualquer tecido) não se comportem exatamente como esperado e acabem gerando tecidos diferentes ou, pior ainda, tumores cancerígenos.
— Eles devem ter conseguido selecionar as células certas para que o teste seja mais seguro — explicou a geneticista Mayana Zatz, especialista em células-tronco do Instituto de Biociências da USP. — Numa população de células, há subpopulações.
Se conseguirmos isolar as que formam cistos e retirá-las do processo, o teste fica mais seguro.
Este primeiro teste em humanos, de fase 1, tem por objetivo principal testar, justamente, a segurança do procedimento. Garantida a segurança do processo, novas fases checarão a sua eficácia. Anos de testes ainda serão necessários para que uma terapia possa ser aprovada e usada em grande escala em seres humanos.
— É importante deixar claro que se trata de um teste, é experimental — frisou Mayana, que estuda a aplicação de células-tronco em doenças neuromusculares.
— Nesta primeira fase, em que se testa a segurança, não há grande expectativa de resultado.
Cientistas da Geron e da Universidade da Califórnia induziram as células embrionárias a se diferenciarem em células chamadas oligodendrócitos.
E as usaram como base de um composto chamado GRNOPC1. Esse composto será injetado na medula espinhal do paciente, no local da lesão.
— Quando há uma lesão medular, o neurônio perde sua capa de mielinização, que permite a transmissão da informação nervosa — explica o coordenador do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (Lance) da UFRJ, Stevens Rehen. — Sem a mielina, é como se o neurônio não tivesse força para passar informações para os músculos nem receber informações sensoriais. Essas células que eles vão injetar, os oligodendrócitos, são responsáveis pela formação dessa capa de mielina. Os resultados em animais são impressionantes.
Serão selecionados em todos os EUA de oito a dez pacientes que tenham sofrido uma lesão entre a terceira e a décima vértebra — mais ou menos na metade superior das costas — há menos de 15 dias. A ideia é que o teste comece até o fim deste ano. A experiência levará dois anos para ser concluida, com cada paciente sendo estudado por 12 meses. Por razões de segurança, os pacientes serão monitorados pelos próximos 15 anos. Embora o objetivo seja testar a segurança, os cientistas estarão atentos a sinais de resultados promissores.
— Eles vão avaliar se houve aumento de sensibilidade e outras coisas, mas, como a lesão é muito recente, será difícil avaliar se alguma melhora detectada seria por causa do tratamento ou um processo natural — pondera Mayana. — Mas se trata de um primeiro passo muito importante. Há um limite com os modelos animais, chega a um ponto em que precisamos passar para testes em seres humanos.
Stevens Rehen se mostra um pouco mais otimista sobre os resultados a serem alcançados.
— Eles devem ter um grupo de controle, pacientes que sofreram lesões parecidas, no mesmo período, e que não vão receber as células — pondera o especialista, que já testou outro tipo de células para recuperar camundongos paralisados. — Se for possível identificar alguma melhora no controle da postura ou tronco, alguma sensação, já vai ser um grande avanço.
Para Rehen, é uma questão de tempo até o mesmo teste poder ser feito no Lance.
— Se tivermos um teste bem-sucedido, o laboratório terá subsídio para começar a trabalhar assim.

terça-feira, julho 20, 2010

Aproveitamento econômico da microbiologia

Aproveitamento econômico da microbiologia

Wanderley de Souza, Jornal do Brasil
RIO - Os micróbios constituem o grupo quantitativamente mais importante da terra, correspondendo a cerca de 60% da biomassa existente. Estima-se a presença de 5 x 1.030 e de 3,6 x 1.029 células microbianas no solo e nos oceanos, respectivamente. A sua diversidade é também muito elevada, o que vem sendo mostrado pelas chamadas análises metagenômicas onde o sequenciamento de parte do DNA dos microorganismos encontrados em uma amostra permite estimar o número de espécies diferentes nela existente. As estimativas atuais indicam que menos de 1% do total de microorganismos identificados pode ser mantido em cultura pelos métodos atualmente conhecidos e consequentemente aproveitados para o uso industrial. Tal fato deverá exigir que nos próximos anos novos métodos de cultivo sejam desenvolvidos, visando um melhor aproveitamento industrial de organismos ainda pouco conhecidos e que, possivelmente, sintetizam moléculas ainda não caracterizadas e cujas propriedades ainda não foram identificadas. A diversidade dos microorganismos abre perspectivas importantes na área da biotecnologia básica e industrial. Afinal, estes organismos produzem uma grande variedade de compostos de primeira linha na área industrial, movimentando cerca de US$ 100 bilhões por ano, em todo o mundo. As principais áreas industriais incluem: 1) a indústria de enzimas produzidas por bactérias e fungos produtores de amilase, lipase e proteases; 2) fungos produtores de ácidos orgânicos, como ácido cítrico e ácido láctico; 3) bactérias produtoras de compostos da chamada química fina; 4) bactérias e fungos produtores de antibióticos, como a estreptomicina e a ampicilina; 5) bactérias com ação inseticida, como é o caso da proteína produzida pelo Bacillus thuringiensis; 6) bactérias produtoras de aminoácidos, como glutamato e lisina e de vitaminas, como a riboflavina, entre outros. Apenas a indústria farmacêutica, com a produção de antibióticos, substâncias imunorreguladoras e com ação antitumoral, biopesticidas, etc, movimenta cerca de US$ 25 bilhões por ano. No mundo da indústria química os microrganismos estão envolvidos na produção de aminoácidos, vitaminas, ácidos orgânicos, detergentes, bem como bioconversores e biocatalizadores, com amplo emprego em processos relacionados com a produção de energia e a recuperação de danos ambientais. Por outro lado, a cada dia aumenta o número de enzimas utilizadas em vários processos industriais, criando assim um mercado que movimenta cerca de US$ 2,3 bilhões por ano. Estas enzimas são usadas principalmente em processos industriais relacionados à produção de alimentos, detergentes, material têxtil, couro e papel, para mencionar alguns exemplos importantes. Na área da chamada química fina, sobretudo no que se refere à produção de medicamentos e no setor agroindustrial, o chamado mundo microbiológico movimenta cerca de US$ 55 bilhões por ano. Todas as análises prospectivas apontam no sentido do crescimento desta área.
  No Brasil dispomos de uma grande variedade de biomas com uma rica densidade de microorganismos, como já indicado nos primeiros estudos realizados no país utilizando uma abordagem metagenômica. Aprofundar estes estudos, ampliando-os para todos os ambientes terrestres e aquáticos, é um projeto que deve ser priorizado pelas instituições brasileiras responsáveis pela formação de recursos humanos e pela atividade de pesquisa científica e tecnológica. Certamente novos microrganismos com propriedades especiais, bem como novos produtos de importância industrial produzidos por microorganismos, surgirão. A infraestrutura hoje existente, tanto no que se refere ao sequenciamento de DNA como no que se refere às análises de bioinformática, permite ao Brasil assumir uma posição de liderança nesta área.
Wanderley de Souza é professor titular da UFRJ, diretor de programas do Inmetro, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Medicina, ex-secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia e ex-secretário estadual de Ciência e  Tecnologia do Rio.
00:03 - 20/07/2010

Aproveitamento econômico da microbiologia

Aproveitamento econômico da microbiologia

Wanderley de Souza, Jornal do Brasil
RIO - Os micróbios constituem o grupo quantitativamente mais importante da terra, correspondendo a cerca de 60% da biomassa existente. Estima-se a presença de 5 x 1.030 e de 3,6 x 1.029 células microbianas no solo e nos oceanos, respectivamente. A sua diversidade é também muito elevada, o que vem sendo mostrado pelas chamadas análises metagenômicas onde o sequenciamento de parte do DNA dos microorganismos encontrados em uma amostra permite estimar o número de espécies diferentes nela existente. As estimativas atuais indicam que menos de 1% do total de microorganismos identificados pode ser mantido em cultura pelos métodos atualmente conhecidos e consequentemente aproveitados para o uso industrial. Tal fato deverá exigir que nos próximos anos novos métodos de cultivo sejam desenvolvidos, visando um melhor aproveitamento industrial de organismos ainda pouco conhecidos e que, possivelmente, sintetizam moléculas ainda não caracterizadas e cujas propriedades ainda não foram identificadas. A diversidade dos microorganismos abre perspectivas importantes na área da biotecnologia básica e industrial. Afinal, estes organismos produzem uma grande variedade de compostos de primeira linha na área industrial, movimentando cerca de US$ 100 bilhões por ano, em todo o mundo. As principais áreas industriais incluem: 1) a indústria de enzimas produzidas por bactérias e fungos produtores de amilase, lipase e proteases; 2) fungos produtores de ácidos orgânicos, como ácido cítrico e ácido láctico; 3) bactérias produtoras de compostos da chamada química fina; 4) bactérias e fungos produtores de antibióticos, como a estreptomicina e a ampicilina; 5) bactérias com ação inseticida, como é o caso da proteína produzida pelo Bacillus thuringiensis; 6) bactérias produtoras de aminoácidos, como glutamato e lisina e de vitaminas, como a riboflavina, entre outros. Apenas a indústria farmacêutica, com a produção de antibióticos, substâncias imunorreguladoras e com ação antitumoral, biopesticidas, etc, movimenta cerca de US$ 25 bilhões por ano. No mundo da indústria química os microrganismos estão envolvidos na produção de aminoácidos, vitaminas, ácidos orgânicos, detergentes, bem como bioconversores e biocatalizadores, com amplo emprego em processos relacionados com a produção de energia e a recuperação de danos ambientais. Por outro lado, a cada dia aumenta o número de enzimas utilizadas em vários processos industriais, criando assim um mercado que movimenta cerca de US$ 2,3 bilhões por ano. Estas enzimas são usadas principalmente em processos industriais relacionados à produção de alimentos, detergentes, material têxtil, couro e papel, para mencionar alguns exemplos importantes. Na área da chamada química fina, sobretudo no que se refere à produção de medicamentos e no setor agroindustrial, o chamado mundo microbiológico movimenta cerca de US$ 55 bilhões por ano. Todas as análises prospectivas apontam no sentido do crescimento desta área.
  No Brasil dispomos de uma grande variedade de biomas com uma rica densidade de microorganismos, como já indicado nos primeiros estudos realizados no país utilizando uma abordagem metagenômica. Aprofundar estes estudos, ampliando-os para todos os ambientes terrestres e aquáticos, é um projeto que deve ser priorizado pelas instituições brasileiras responsáveis pela formação de recursos humanos e pela atividade de pesquisa científica e tecnológica. Certamente novos microrganismos com propriedades especiais, bem como novos produtos de importância industrial produzidos por microorganismos, surgirão. A infraestrutura hoje existente, tanto no que se refere ao sequenciamento de DNA como no que se refere às análises de bioinformática, permite ao Brasil assumir uma posição de liderança nesta área.
Wanderley de Souza é professor titular da UFRJ, diretor de programas do Inmetro, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Medicina, ex-secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia e ex-secretário estadual de Ciência e  Tecnologia do Rio.
00:03 - 20/07/2010

domingo, maio 23, 2010

Entenda a criação de células com genoma sintético

"Produzir vida do zero é desnecessário"

"Produzir vida do zero é desnecessário"

Para cientista da Unicamp, anúncio da criação do primeiro organismo sintético nos EUA teve muito marketing - Tática mais promissora consiste em ensinar truque novo a micróbio velho; biodiversidade do Brasil pode ajudar

REINALDO JOSÉ LOPES ENVIADO ESPECIAL A CAMPINAS

O geneticista americano Craig Venter causou estardalhaço, na última quinta-feira, ao apresentar o que pode ser considerada a primeira célula sintética de bactéria. "É uma notícia ótima para impressionar investidor", brinca Gonçalo Pereira, da Unicamp, sobre o trabalho.
"Mas não é criação de vida, e há muito marketing aí", afirma Pereira. "O DNA foi introduzido em uma "sopa" pré-formada ["cascas" de bactérias, despidas de seu DNA]. Essa sopa é que é difícil de construir sinteticamente."
O que gente como Pereira chama de biologia sintética não é montar um organismo a partir do zero com matérias-primas nunca vistas antes. O objetivo, mais modesto, é recombinar de formas criativas os materiais que já existem nos seres vivos.

TOME ISTO, VENTER!
Uma das críticas feitas à abordagem de Craig Venter e de sua empresa, a Synthetic Genomics, é justamente esta: a abordagem tradicional, de ensinar truques novos a micróbios velhos, tem avançado bastante e pode dar mais resultado do que a criação de micróbios novos.
"No fundo, o que você quer é tirar a vontade própria desse organismo", explica o pesquisador da Unicamp.
Isso é obtido por meio da transgenia, a boa e já velha inserção de genes novos em organismos. Mas uma transgenia especial: em vez de um gene estranho, são inseridos dezenas, para mudar não apenas um produto (uma proteína, por exemplo), mas para alterar a própria função daquele organismo.
Com a nova tecnologia, a criatura vira uma máquina a serviço de seus mestres humanos. "Essa talvez seja a melhor definição de vida sintética", continua Pereira.
Na busca por um sistema biológico produtor de plástico, a equipe da Unicamp está tentando manter as opções abertas. Há três tipos de organismos candidatos: leveduras, bactérias e plantas.

BARZINHO X EMPRESA
Os desafios de fazer biológica sintética com cada uma dessas "plataformas", como o cientista as chama, é diferente. "O microrganismo é como um dono de barzinho, que tem de fazer tudo, de servir as bebidas a receber no caixa. Ele se vira, embora não faça nada disso bem."
Já o organismo de muitas células é uma empresa multinacional, compara: altamente eficiente, com muitas partes especializadas. "É mais difícil mexer em organismos multicelulares, mais coisas podem dar errado", afirma.
A chave para o sucesso, diz o cientista, é saber combinar os melhores genes com o melhor reator, ou seja, o organismo mais propício a gerar o produto codificado nos genes em grande quantidade e com baixo custo. "A biodiversidade brasileira pode nos dar esses biorreatores."
Até agora, as tentativas de fazer plástico bacteriano tomaram justamente partido desse princípio. "Algumas bactérias já produzem plástico. Um exemplo é o PHB, ou polihidroxibutirato", diz.
"Uma empresa chamada Metabolix pegou os genes do PHB e jogou numa outra bactéria, que é boa de ser produzida na indústria", conta, mostrando uma caneta feita com PHB. O problema é que o PHB é instável. "Se eu deixar com você, daqui a um ano você vai ver o que acontece."

O impacto da biologia sintética

O impacto da biologia sintética
Divulgação do primeiro genoma criado em laboratório é alvo de debates entre cientistas
Edição Online - 21/05/2010 http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Uma verdadeira revolução científica ou grande feito tecnológico? Essa era a grande questão um dia após uma equipe do J. Craig Venter Institute, dos Estados Unidos, ter anunciado a criação do primeiro genoma totalmente sintético, composto de um milhão de unidades químicas (as bases A,T, C e G). Criado em laboratório a partir de uma sequência química fornecida por um computador, o genoma foi transferido para a célula de uma bactéria (Mycoplasma mycoides), onde assumiu o lugar do DNA original do micróbio e passou a controlar toda a produção de proteínas e o processo de replicação do microrganismo. O trabalho, que foi publicado online ontem no site da revista cientítica Science e obteve enorme repercussão nos meios de comunicação de todo o mundo, consumiu mais de uma década de pesquisa, recebeu investimentos da ordem de U$ 40 milhões e envolveu 20 cientistas.
Para o pai do genoma sintético, o ousado e polêmico cientista Craig Venter, o trabalho é um marco na biologia e vai abrir caminho para o desenho de micróbios úteis aos homem, capazes de, por exemplo, produzir vacinas e biocombustíveis. "Trata-se de um avanço tanto filosófico como técnico", disse Venter, que, anos atrás, já havia se tornado famoso ao liderar um projeto privado de sequenciamento do genoma humano. Na entrevista que deu para divulgar o trabalho, ele disse que a célula sintética da bactéria é "a primeira espécie que se autorreplica do planeta cujo pai é um computador". O genoma criado em laboratório é quase igual ao DNA original da própria bactéria: tem aproximadamente 400 genes, 100 a menos do que tem naturalmente a Mycoplasma mycoides. Genes que não eram considerados essenciais para o micróbio foram descartados pelos cientistas em seu trabalho de montar um genoma sintético.
Pesquisadores não ligados à pesquisa desenvolvida por Venter se dividiram em relação à importância do DNA sintético que comanda a vida de uma bactéria.  Alguns teceram loas ao feito. Outros tentaram relativizá-lo. Esse foi o caso do Prêmio Nobel de Medicina de 1975, o americano David Baltimore, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). "Para mim, Craig exagerou um pouco a importância do trabalho", dissa Baltimore ao jornal The New York Times. Ele acredita que a criação do genoma sintético foi mais "tour de force técnico", uma questão de escala, do que uma descoberta científica revolucionária. "Ele não criou vida, apenas a imitou". De qualquer forma, é inegável que o trabalho de Venter sinaliza um aumento da capacidade de o homem manipular o DNA de organismos. Por tratar de um tema polêmico, capaz de criar novos dilemas morais, o artigo científico de Venter na Science levou ontem mesmo o presidente norte-americano Barack Obama a encomendar um estudo à comissão de bioética da Casa Branca, que terá seis meses para produzir um relatório sobre as implicações éticas da biologia sintética.

Foto: Imagem de microscopia eletrônica que mostra a bactéria com genoma sintético se replicando.© M. ELLISMAN/NCMIR, UNIVERSITY OF CALIFORNIA, SAN DIEGO

Eles ainda não são deuses

Eles ainda não são deuses

Genética O núcleo genético de uma bactéria, projetado por computador  e feito em laboratório, é o mais próximo que a ciência chegou de criar uma forma de vida

Laura Ming e Gabriela Carelli Sapiro

OBS: Clique nas figuras e elas abrirão ampliadas em outra janela.


Os homens, os animais e as plantas foram criados para cumprir o ciclo de vida definido por Deus para cada um, e, então, humildemente voltar ao pó, de onde todos vieram. Tentar prolongar ou interromper esse ciclo artificialmente nunca foi bem aceito pela mente crédula que dominou a humanidade até os lampejos da razão fulgurarem aqui e ali no século XVII. Interferir nos desígnios da natureza era visto como obra de feitiçaria e grave afronta a Deus. Céus, como o mundo mudou! Agora, a cada avanço da genética gritam em uníssono as manchetes das revistas, jornais e sites noticiosos: "Os cientistas fazem milagres", "A morte foi derrotada" ou "Deus em um tubo de ensaio!". Na semana passada, a mesma onda de euforia triunfalista percorreu o planeta em corrente frenética e quase instantânea pelas conexões de internet: "Criado o primeiro ser vivo artificial" ou "Ciência faz primeira célula sintética..." Coube à revista inglesa The Economist o anúncio mais solene e peremptório: "E o homem criou a vida...!". A frase bíblica modificada foi estampada sobre uma intervenção gráfica do famoso quadro de Michelangelo A Criação do Homem. Na capa de The Economist Deus sumiu do quadro, e é das mãos do homem nu, com um laptop no colo, que sai o raio criador de vida.
Céus, que animação extraordinária produzida por uma experiência anunciada assim por seu autor, o geneticista americano Craig Venter, na revista especializada Science: "Relatamos o desenho, a síntese e a montagem do genoma 1.08-Mbp do Mycoplasma mycoides. Parece ser tradição dos geneticistas anunciar suas revoluções em termos que denotam humildade diante do imenso desafio de decifrar os segredos da vida. Em 1953, em um artigo para a revista Nature, o inglês Francis Crick e o americano James Watson divulgaram que gostariam "de sugerir uma estrutura para a molécula do ácido desoxirribonucleico (DNA), com novidades que são de considerável interesse para a biologia". Para as pessoas medianamente informadas que vivem atualmente, 57 anos depois da publicação do trabalho seminal de Crick e Watson, é quase dispensável explicar o que vem sendo a revolução do DNA.
O extraordinário anúncio de Craig Venter exige uma explicação que, para ser bem clara, deve começar pelo que a pesquisa com o genoma do Mycoplasma mycoides não é: Ela não é a criação artificial da vida, nem a criação de vida artificial. Isso significa que Venter não partiu de matéria inanimada e com ela produziu um ser vivo. Tampouco produziu um ser com base em alguma química vital misteriosa desconhecida da ciência. Não é a criação de célula ou bactéria sintéticas. A equipe americana conseguiu, sim, desenhar, sintetizar e montar o genoma de uma bactéria e inserir esse material em uma bactéria diferente. O genoma é o conjunto completo do material hereditário que a maioria dos seres vivos carrega e utiliza para produzir descendentes da mesma espécie. Portanto, não houve a criação sintética de um organismo vivo completo, mas apenas de seu núcleo genético.
Não é a invenção de um novo genoma.Venter e equipe recriaram um genoma que já existe na natureza. A metáfora mais clara e obrigatória é com alguém que desmonta um relógio, depois remonta as peças, instala o conjunto em um estojo diferente e o mecanismo volta a funcionar normalmente. Ainda assim, para fazer o mecanismo genético sintético funcionar na nova célula a equipe americana precisou enxertar sua criação com DNA natural da célula receptora. Não é o maior avanço genético de todos os tempos. O título fica ainda com Crick e Watson, pais da biologia molecular. Craig Venter levaria o título se tivesse criado o primeiro ser vivo artificial, sem um antepassado, portanto, a partir de matéria inanimada. Isso ainda é privilégio da natureza. Continua de pé o repto lançado por Charles Darwin, pai da teoria da evolução, morto em 1882, segundo o qual todo o seu trabalho poderia ser jogado na lata de lixo se lhe apontassem um "único ser vivo que não tivesse um antepassado".
Não é o que foi o primeiro circuito integrado. Jack Philby ganhou o Prêmio Nobel pela invenção do circuito integrado patenteado em 1959, que embutia alguns poucos transistores em uma peça única. Os chips de computadores mais poderosos atualmente podem embutir mais de 1 bilhão de transistores. Ou seja, a caminhada evolutiva dos chips consistiu até aqui em aumento astronômico da capacidade e miniaturização de peças que, individualmente, como um apagador de luz, têm apenas duas oposições: ligada ou desligada. É o sistema binário. A experiência da semana passada foi feita com micróbios cujo genoma tem
1 milhão de pares de "letras químicas", que lhe servem de base. Reproduzir a experiência com organismos mais complexos significaria deparar com dificuldades quase intransponíveis. O genoma humano, para efeito de comparação, tem 3,2 bilhões de pares de letras químicas Ele embute uma complicação muito mais extraordinária, que é a quase infinita maneira de funcionar de suas peças. A natureza não é binária.
Com tudo que a experiência de Craig Venter não é, ela ainda se configura como uma das mais extraordinárias da ciência moderna. Ele e sua equipe se dedicaram nos últimos quinze anos, ao custo de 40 milhões de dólares, ao desenho, à síntese e à implantação de um genoma funcional. O desafio de criar artificialmente uma forma de vida é tão monumental que o passo dado pelos americanos equivaleria, na corrida espacial que colocou o homem na Lua, a lançar o primeiro balão meteorológico. É pouco? É. Mas é o mais perto que a humanidade chegou da meta ousada de criar a vida.  Descontado o entusiasmo excessivo em torno de seu alcance e relevância, a pesquisa comandada por Craig Venter trouxe avanços reais à biologia molecular. Pela primeira vez se conseguiu criar quimicamente um genoma inteiro. Desde os anos 80 já se conseguia fazer essa síntese química em laboratório, mas apenas com pequenos trechos de genomas. Segundo o cientista, em breve sua experiência terá uso prático nas áreas farmacêutica e de energia, multiplicando a eficiência dos atuais processos de engenharia genética. Venter já está trabalhando com o laboratório Novartis na construção de um banco de cepas de todos os tipos de gripe conhecidos. Assim, quando surgir um novo, como a gripe A, os pesquisadores poderão usar trechos sintéticos de seu genoma para criar rapidamente uma vacina específica. O cientista também desenvolve com a Exxon um projeto para criar algas que convertam o dióxido de carbono em biocombustível numa escala eficaz do ponto de vista econômico.

Irreverente e sempre pronto a atrair os holofotes sobre si, Craig Venter está por trás de muitas das grandes descobertas recentes da genética. Em 1995, ele concluiu o primeiro sequenciamento completo dos genes de uma bactéria causadora de pneumonia e meningite. Três anos depois, quando o governo americano já havia gasto 3 bilhões de dólares para bancar o Projeto Genoma Humano, o consórcio público para mapear o DNA do ser humano, Venter fundou uma empresa particular com o mesmo fim, a Celera, e afirmou que 330 milhões bastariam para concluir a tarefa. Graças a uma técnica inovadora e à maior agilidade características da empresa privada, Venter finalizou o trabalho em 2000. Os cientistas ligados ao governo tiveram de se juntar a ele no anúncio do sequenciamento do genoma humano. Em 2003, Venter embarcou na sua maior aventura. A bordo do iate Sorcerer II, iniciou uma viagem ao redor do planeta para coletar 6 000 microrganismos dos oceanos. Ele pensa grande, mas não criou vida artificial – ainda. 

Skoob

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