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terça-feira, outubro 19, 2010

Adiar a aposentadoria

Adiar a aposentadoria
Celso Ming - O Estado de S. Paulo - 19/10/2010
Paris está paralisada pelas manifestações contra o projeto do presidente Nicolas Sarkozy que prevê o adiamento por apenas dois anos do início da aposentadoria como medida necessária para reequilibrar as contas da previdência social da França.
A expectativa de vida está aumentando em todo o mundo. As finanças do sistema previdenciário estão quebradas porque os governos (e não só o da França) têm de garantir o pagamento da aposentadoria por mais tempo.
Trata-se de fator relativamente novo que não foi levado em conta quando do estabelecimento das bases atuariais com que se criaram os sistemas de aposentadoria e pensão após a 2.ª Grande Guerra.
Mas, desta vez, não são apenas os trabalhadores que estão se manifestando contra esse projeto que obriga as pessoas comuns a trabalhar por um período mais longo do que trabalharam seus pais.
Fato inesperado são os estudantes, universitários e secundaristas, que vêm agora engrossando os protestos, por outra razão. Porque, argumentam, se for aprovado, o adiamento da aposentadoria manterá por mais tempo fechados os postos de trabalho hoje já escassos. Enfim, dizem os jovens, os coroas têm de desocupar a moita para dar lugar a quem vem vindo aí e esse projeto do presidente Sarkozy não olha para isso. É a questão previdenciária agravando o desemprego.
O problema está longe de se limitar à obtenção de cobertura para o rombo do sistema previdenciário. Todo o regime do Estado do bem-estar social (welfare state) adotado na Europa está sendo duramente questionado. Bem antes da atual crise, as despesas públicas vinham aumentando muito acima da capacidade de arrecadação dos governos e ajustes drásticos já eram recomendados.
Na área do euro, a recessão e a falta de moeda própria para desvalorizar tornaram as coisas ainda mais difíceis. Os déficits orçamentários estão se agravando e as dívidas públicas se multiplicando, como mostram os casos da Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal.
Um dos três economistas laureados este ano com o Prêmio Nobel por seus estudos sobre o emprego, o cipriota-britânico Christopher Pissarides, tem advertido que o seguro-desemprego, tal como praticado nos países ricos, deixou os trabalhadores acomodados demais e excessivamente dependentes dos benefícios proporcionados pelo Estado. E esse já é fator de perda de competitividade, que a crise só está agravando.
Mas essa é uma questão mais complexa. Se o objetivo for limitar-se a resolver tão somente a questão previdenciária, e se não for possível adiar a aposentadoria, tal como sugere o presidente da França, porque sabota o emprego dos jovens, então a solução que sobra talvez seja o aumento da contribuição. No entanto, essa medida por si só implicaria redução da renda real que pode ficar abalada pela estagnação econômica e pelo desemprego.
Este é um momento delicado em que os problemas da casa se multiplicam: o conserto da rede hidráulica agrava o da instalação elétrica que mexe com o piso, com as paredes, com o teto. Passa a impressão de que ficaria mais barato demolir tudo e construir uma casa nova, com novo projeto. Mas qual seria? Esta é a maior crise do capitalismo desde os anos 30 e, no entanto, nenhum partido, nenhum movimento político, nem à esquerda nem à direita, aparece com proposta para a saída da encalacrada.
CONFIRA
Mais do mesmo
O aumento do IOF de 4% para 6% na entrada de capitais para aplicações em renda fixa, 15 dias depois de tê-lo subido de 2% para 4%, desestimula as operações de arbitragem com juros (carry trade) de fora para dentro. (São empréstimos em moeda estrangeira a juros baixos para serem trazidos para cá e tirarem proveito, no mole, de juros bem mais altos.)
Hedge mais caro
O aumento de margem de garantia de 0,38% para 6,0% nas operações com derivativos também reduz as operações no segmento do dólar futuro. O efeito colateral é o encarecimento das operações de hedge feitas por quem precisa se defender contra oscilações no câmbio futuro.
Vai funcionar?
São decisões fortes. Falta saber se terão eficácia. Provavelmente ajudarão a segurar o tombo do dólar. Não se sabe até quando. São resoluções que atingem os efeitos e não as causas do problema.

sexta-feira, maio 07, 2010

Nervosismo em alta

Nervosismo em alta
Grécia leva pânico a bolsas do mundo
Jornal do Brasil - 07/05/2010

 Grécia aprova pacote, mas violenta reação interna leva bolsas dos EUA a queda acentuada.  O Parlamento da Grécia aprovou o pacote com aumento de impostos e redução de salários, exigido para que o país receba verbas do FMI. A decisão gerou revolta, e criou temor de que o governo grego vá recuar e decretar o calote. Com isso, as bolsas de todo o mundo tiveram mais um dia ruim: o índice Dow Jones chegou à queda recorde de 9%, fechando em baixa de 3,19%. A Bovespa também fechou em queda de 2,31%. Já o dólar teve alta de 2,84%, e bateu R$ 1,849, a maior cotação desde 12 de fevereiro.
As principais bolsas de valores de todo o mundo viveram um dia de profundo nervosismo, com quedas anormais dos índices dos pregões, arrastadas pelos temores de que, mesmo com a aprovação de um pacote de medidas de austeridade pelo parlamento grego, o governo do primeiro ministro George Papandreou seja obrigado a retroceder, devido aos protestos que se alastram pelo país. Nesse caso, a ajuda seria suspensa e o país se veria obrigado a declarar incapacidade de pagamento (default) da dívida A violenta queda dos mercados coincidiu com transmissão pela TV de imagens das manifestações na Grécia, com o parlamento cercado por manifestantes contrários às medidas de contenção e a violenta repressão policial que ocorreu em seguida. Em meio a persistentes temores de uma propagação da crise grega na zona do euro, a bolsa de Londres fechou em queda de 1,52%, enquanto Paris baixou 2,20% e Frankfurt, 0,88%. A bolsa de Madri caiu 2,93% e a de Milão, 4,26%. Paradoxalmente, a bolsa de Atenas teve leve alta de 0,98%. Na Ásia, as mesmas preocupações atingiram a Bolsa de Tóquio, que fechou a sessão de quinta-feira com uma perda de 3,27%, enquanto Xangai encerrou em queda de 4,11% e Hong Kong, de 0,96%. No pregão da Bolsa de Valores de Wall Street, em Nova York, houve momentos de pânico, com a queda do principal índice (Dow Jones) chegando a 9%. No fechamento, entretanto, a queda baixou para 3,2% depois de movimentos que operadores classificaram como “emocionais e i ndiscriminados”. A Bolsa de Valores de São Paulo chegou ter queda de mais de 6%, mas ao final estabilizou-se em 2,31%, em 63.414 pontos. No mercado de câmbio, o dólar fechou em alta de 2,84%, vendido a R$ 1,849, depois de ter subido mais de 5%, aproximando-se de R$ 1,90. A cotação é a maior desde 12 de fevereiro, quando terminou a R$ 1,859. No mundo, o euro caiu abaixo de US$ 1,27, o menor patamar registrado desde março de 2009.
Contenção Sob protestos das centrais sindicais, o pacote grego incluiu aumento de impostos e redução de salários, e é condição para que o país tenha acesso ao à ajuda de 110 bilhões de euros (US$ 146 bilhões) patrocinado pelas nações da zona do euro e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). O projeto teve apoio de 172 deputados socialistas e de ultra-direita. Votaram contra 121 deputados da oposição de direita, do Partido Comunista e da esquerda radical. Houve três abstenções. As medidas incluem também aumento no imposto de valor agregado (IVA), alta de 10% nos impostos sobre combustíveis, álcool e tabaco, além de uma redução de salários no setor público. A partir daí, o governo prevê que o país tenha uma contração de 4% do PIB em 2010 e 2,6% em 2011. O crescimento voltaria em 2012, com cerca de 1,1%. O programa implica esforço fiscal de 11 pontos do PIB. Ou seja, 30 bilhões de euros em três anos (até 2013), em adição ao anunciado no programa econômico para 2010. Os bancos europeus começaram a revelar a sua exposição à crise grega, confirmando que estão comprometidos com o país e o custo deste envolvimento foi estimado em até US$ 188,6 bilhões (141,8 bilhões de euros). A França é a mais exposta (53 bilhões de euros), seguida de Alemanha (40 a 45 bilhões), Grã-Bretanha (11,28 bilhões) e Holanda (8,95 bilhões).

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