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quarta-feira, junho 30, 2010
A indústria nuclear hoje
A indústria nuclear hoje
Leonam dos Santos Guimarães é assistente da presidência da Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria em Energia Nuclear do Diretor-Geral da AIEA
Destino do combustível usado após sua remoção ainda dificulta aceitação. Estão em construção no mundo todo 53 usinas nucleares; encomendadas, 135; e planejadas, mais 295 até 2030
A indústria mundial de geração elétrica nuclear já acumulou mais de 14 mil reatores por ano de experiência operacional do final da década de 50 até hoje. São 436 usinas nucleares distribuídas por 34 países, concentradas naqueles mais desenvolvidos, que respondem atualmente por 16% de toda geração elétrica mundial.
Dezesseis países dependem da energia nuclear para produzir mais de um quarto de suas necessidades de eletricidade. França e Lituânia obtêm cerca de três quartos de sua energia elétrica da fonte nuclear; enquanto Bélgica, Bulgária, Hungria, Eslováquia, Coreia do Sul, Suécia, Suíça, Eslovênia e Ucrânia mais de um terço. Japão, Alemanha e Finlândia geram mais de um quarto; e os EUA, cerca de um terço.
Apesar de poucas unidades terem sido construídas nos últimos 15 anos, as usinas nucleares existentes estão produzindo mais eletricidade. O aumento na geração nos últimos sete anos equivale a 30 novas usinas e foi obtido pela repotencialização e melhoria do desempenho das unidades existentes.
Existem hoje renovadas perspectivas para novas usinas em países com um parque nuclear estabelecido e outras tantas alguns novos países. Os países reunidos no grupo dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) são particularmente importantes nesse contexto. Em todo o mundo, 53 usinas encontram-se em construção - Angra 3 é uma delas - e a elas se somam encomendas firmes para outras 135. Além dessas, mais 295 consideradas até 2030 pelo planejamento energético de diversos países (dentre os quais o Brasil, que planeja de 4 a 8 usinas adicionais nesse horizonte de tempo).
Cumpre reconhecer, entretanto, que ainda persistem forças antinucleares importantes em alguns países, em especial na Alemanha. Seu poder político, porém, vem declinando
Apesar da crescente atenção que a geração nuclear tem recebido por razões ligadas ao ambiente e segurança de suprimento, é claro que as novas usinas devem provar sua competitividade econômica nos mercados de energia de hoje.
Se puder ser provado que novas usinas são a mais barata forma de geração elétrica de base a longo prazo, esse será um argumento muito poderoso em favor de sua escolha. A Agência Internacional de Energia (IEA) prova isso na sua edição 2010 do relatório "Custos projetados de geração de eletricidade", recentemente lançado. Várias restrições potenciais têm sido levantadas, especialmente a disponibilidade de financiamento e restrições de capacidade na cadeia de suprimentos, mas podem ser superadas como foram no passado.
As raízes da oposição a qualquer coisa relacionada com a energia nuclear são muito profundas e constituem elemento essencial do movimento ambientalista, que encontrou na indústria de geração elétrica nuclear um alvo relativamente fácil.
A experiência tem mostrado que ganhar aceitação pública é mais fácil ao nível local, permitindo que as pessoas visitem as instalações e esclareçam suas dúvidas. Para a indústria, a melhor abordagem é operar bem suas instalações, tanto do ponto vista da segurança como do econômico.
O baixo custo do urânio e sua estabilidade ao longo do tempo constituem vantagem econômica primordial da geração elétrica nuclear. O ciclo do combustível, isto é, a mineração e beneficiamento, conversão, enriquecimento e fabricação são processos muito complexos, tanto do ponto de vista técnico como comercial, com mercados individuais para etapa.
O salto que os preços mundiais do urânio deram desde 2003 e a subsequente queda brusca, geraram muito interesse, particularmente do setor financeiro. Isso estimulou uma visão renovada sobre as alternativas tradicionais de comprar e vender urânio e encorajou os compradores a pressionar pelo maior número possível de fontes de suprimento.
As significativas restrições à transferência de tecnologia e comércio de bens e serviços são críticas para a indústria nuclear, assim como o gerenciamento do combustível usado e o retorno dos sítios nucleares fechados a usos alternativos. As restrições estão ligadas ao Tratado de Não Proliferação (TNP) de armas nucleares e sua implementação por meio de salvaguardas pela Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) e pelo Grupo de Fornecedores Nucleares (NSG).
A proliferação nuclear ainda permanece como um tema muito vívido e tem o potencial de ameaçar o renascimento da indústria nuclear.
O que fazer com o combustível usado após sua remoção do reator tem sido a mais importante questão e gerado os maiores problemas de aceitação pública. O debate sobre sua reciclagem é vital para o futuro da indústria nuclear.
A geração elétrica nuclear deve ser colocada no contexto mais amplo do desenvolvimento energético mundial. Esse tema retornou ao debate público após ter ficado muitos anos à margem depois das crises do petróleo dos anos 70.
Isso se deve a preocupações renovadas sobre a segurança do fornecimento de óleo de gás a longo prazo, indicada pela significativa escalada de preços, mas também pelas preocupações com as consequências ambientais da contínua exploração em massa dos recursos em combustíveis fósseis.
Baseado nos princípios do desenvolvimento sustentável, as mais recentes análises de ciclo de vida das várias opções de geração elétrica não conseguem elaborar um cenário para os próximos 50 anos no qual não haja uma significativa participação da fonte nuclear para atender às demandas de geração de energia concentrada, juntamente com as renováveis, para atender às necessidades dispersas.
A alternativa seria exaurir os combustíveis fósseis, aumentando brutalmente a emissão de gases de efeito estufa, ou negar a aspiração de melhoria de qualidade de vida para bilhões de pessoas da geração de nossos netos.
sábado, maio 29, 2010
Israel denuncia"a hipocrisia" do acordo sobre não proliferação nuclear
Israel denuncia"a hipocrisia" do acordo sobre não proliferação nuclear
Agência AFP
JERUSALÉM - Israel, considerada a única potência nuclear do Oriente Médio, denunciou neste sábdo a 'hipocrisia' do acordo da conferência de acompanhamento do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que assinalou explicitamente o Estado hebreu, mas não citou o Irã.
"Este acordo tem o selo da hipocrisia. Somente Israel é mencionado em um texto que não cita outros países como a Índia, Paquistão, Coreia do Norte, que têm armas nucleares, ou, mais grave ainda, o Irã, que quer dotar-se delas", afirmou à AFP um alto dirigente, que não quis ser identificado.
A conferência sobre o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) chegou na sexta-feira a um acordo - o primeiro em 10 anos - que inclui a criação de uma zona sem armas nucleares no Oriente Médio.
O Secretário-Geral da ONU "aprova particularmente o acordo sobre um processo que leve à implementação completa da resolução de 1995 que estabelece uma zona livre de armas de destruição em massa no Oriente Médio", disse Ban Ki-moon em um comunicado.
A conferência adotou por consenso um documento final que prevê quatro planos de ação sobre cada um dos três pilares do TNP - desarmamento, controle dos programas nucleares nacionais para garantir que são pacíficos e utilização pacífica da energia atômica -, além de um Oriente Médio sem armas atômicas.
No que diz respeito a esse último ponto, o documento planeja a organização, em 2012, de uma conferência internacional "na qual supõe-se que todos os Estados da região participem, com o objetivo de chegar à instauração" dessa zona sem armas nucleares, e onde é requerida a presença de Israel e do Irã.
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, saudou o acordo, que "fortalece o regime de não proliferação mundial".
"Este acordo inclui passos equilibrados e práticos que farão avançar a não proliferação, o desarmamento nuclear e o uso pacífico da energia nuclear, que são as bases para o regime mundial de não proliferação", destacou Obama.
O texto também afirma que "é importante que Israel se junte ao tratado e ponha todas as suas instalações nucleares sob as garantias globais da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)".
Entretanto, o texto não menciona especialmente o Irã, que os ocidentais querem ver sancionado por sua violação das resoluções da ONU, exigindo que Teerã suspenda suas polêmicas atividades nucleares e demonstre o caráter civil de seu programa nuclear.
Egito e Irã fizeram campanha para que Israel fosse especificamente convidado a juntar-se ao TNP, o que exigiria do Estado hebreu a renúncia ao seu arsenal nuclear.
O assessor de Obama para a não-proliferação, Gary Samore, expressou dúvidas quanto à conferência planejada para 2012: "Não sei se esta conferência ocorrerá", confessou em coletiva de imprensa.
Os Estados Unidos aceitaram co-promover a reunião e não querem que o evento seja um fracasso, prosseguiu Samore. Também disse que Washington co-organizaria a conferência apenas se "as condições estivessem reunidas".
É a primeira vez, em 10 anos, que a conferência quinquenal de acompanhamento do TNP chega a um acordo para revisar o tratado que, desde que entrou em vigor, em 1970, serviu como diretriz mundial para limitar a proliferação de armas nucleares.
09:33 - 29/05/2010
EUA: Brasil sabia que acordo seria rejeitado
EUA: Brasil sabia que acordo seria rejeitado
Altos funcionários do governo alegam que carta de Obama não instruía Lula sobre negociação em Teerã
Fernando Eichenberg
WASHINGTON. Para o governo americano, Brasil e Turquia mediaram o acordo nuclear com o Irã já cientes de que o documento não seria aceito por Washington. Ontem, autoridades dos Estados Unidos garantiram que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e os líderes turcos tinham consciência de que permitir ao Irã enriquecer urânio a 20% em seu território - como viabiliza o Acordo de Teerã - era um violação da resolução do Conselho de Segurança da ONU e algo inaceitável para o presidente Barack Obama e aliados.
- Desde fevereiro, a secretária Hillary Clinton vem mantendo discussões detalhadas com o ministro Amorim sobre essa questão - afirmou um funcionário do governo.
Por que, então, essa exigência crucial não foi mencionada na carta enviada por Obama ao presidente Lula, datada de 20 abril, duas semanas antes da assinatura do acordo em Teerã, em 17 de maio?
- Não havia necessidade de colocar essas questões na carta. Brasil e Turquia sabiam muito bem da importância disso. Não podíamos instruí-los sobre como negociar - procurou explicar outra fonte do governo americano.
Os funcionários se recusaram a comentar, no entanto, sobre a real finalidade da correspondência remetida por Obama ao Palácio do Planalto, não alinhada com as enérgicas declarações da secretária de Estado, Hillary Clinton, contra a viagem de Lula a Teerã.
Irã teria duplicado seu estoque de urânio
A Casa Branca afirmou que não solicitou que Brasil e Turquia negociassem em seu nome e que só soube dos resultados do Acordo de Teerã quando foram divulgados publicamente. Diplomaticamente, o governo americano repetiu reconhecer o esforço turco-brasileiro para se chegar a uma solução, mas, "infelizmente", não vê no acordo assinado em Teerã garantias e respostas às principais preocupações da comunidade internacional.
Para Washington, o governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad usou o acordo costurado por Brasil e Turquia para evitar a aplicação de novas sanções por parte do Conselho de Segurança da ONU.
Segundo a Casa Branca, os documentos que mostram as intenções bélicas nucleares do Irã foram encaminhados aos países envolvidos nas negociações.
- Brasil e Turquia receberam relatórios da inteligência americana e também da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) com dados suficientes para revelar as verdadeiras motivações do programa nuclear iraniano ? disse uma das fontes governamentais.
As autoridades alegam que, desde setembro último, o Irã praticamente duplicou seu estoque de urânio enriquecido, e se nada for feito para interromper esse processo, em curto prazo o país já terá condições de produzir uma bomba nuclear.
Os americanos sustentam que desde o início do governo Obama, negociações foram entabuladas com Teerã pela via diplomática, mas sem resultado.
- Nunca houve um volume tão grande de encontros e troca de cartas desde os últimos trinta anos, mas os iranianos sempre bloqueavam quando se chegava ao tema nuclear - justificou um funcionário.
Ontem, os EUA manifestaram sua determinação em prosseguir com a política de aplicação de novas sanções, a única chance, segundo as autoridades americanas, de fazer com que o Irã se sente à mesa "para negociar seriamente" com o grupo do P5+1 - os cinco países membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha.
segunda-feira, maio 24, 2010
Domínio nuclear reforça protagonismo do Brasil
Domínio nuclear reforça protagonismo do Brasil
Jornal do Brasil
O domínio do ciclo completo do urânio em escala industrial, que, segundo a Marinha, deve ser atingido ainda neste ano, eleva o patamar geopolítico do Brasil, com reflexos inclusive na pretensão do país a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). A avaliação é do professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Alberto Montoya.
Para isso (conseguir uma vaga permanente no Conselho), é preciso que o país tenha capacidade militar para projetar o seu poder em escala internacional argumenta. De nada adianta você dizer que quer um assento permanente e não ter a capacidade de atuar no caso de uma responsabilidade internacional.
De acordo com Montoya, o domínio do ciclo completo do urânio em escala industrial impõe ao país não apenas maior poder, mas também novas responsabilidades.
Se um país de terceiro mundo diz que domina esse ciclo, isso acaba sendo percebido com desconfiança, porque é um fator geoestratégico para diminuir a dependência das grandes potências. Antes de impor respeito, impõe responsabilidade de que será para fins pacíficos e de que o seu uso será acompanhado de um programa muito específico de controle.
Soberania
Para o professor, a construção de um submarino nuclear, que deverá estar pronto por volta de 2020, é fator fundamental para garantir a soberania nos recursos marítimos. O submarino está relacionado à questão da Amazônia Azul, conceito que abrange a extensão territorial marítima do país, incluindo os campos petrolíferos do pré-sal.
O Brasil tem defendido que tenhamos direito de reconhecimento de uma área de 900 mil quilômetros quadrados, equivalente às áreas somadas dos estados do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná e de São Paulo. Para fazer o monitoramento dessa área, um submarino de propulsão nuclear será realmente importante.
Montoya alertou, porém, que não pode haver descontinuidade no projeto, que começou nos anos 70 do século passado. Para ele, o desafio é que o programa nuclear seja visto como uma política de Estado, que pense a médio e longo prazos o papel que o Brasil vai exercer nas relações internacionais.
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