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segunda-feira, julho 05, 2010
FIM DE UMA ERA SOMBRIA QUE NÃO DEIXARÁ SAUDADE
FIM DE UMA ERA SOMBRIA QUE NÃO DEIXARÁ SAUDADE
Renato Mauricio Prado – O Globo
Acabou mal a nova Era Dunga da seleção brasileira. Tempo que se caracterizou pelo desequilíbrio e destempero de um aprendiz de técnico que, alçado ao posto máximo da categoria no país pentacampeão do mundo, se convenceu (ou foi convencido) de que poderia alcançar tudo no futebol, tendo como principal estratégia distribuir patadas e xingamentos a torto e a direito — exatamente como fazia quando ainda era jogador e capitão, na vitoriosa Copa de 94. Os alvos principais? Jornalistas e torcedores — "remember" as inúmeras grosserias, em entrevistas, e os gestos obscenos e os palavrões, para a torcida, em diversas ocasiões, a última e mais flagrante na partida com o Chile, em Salvador.
Durante esses últimos quatro anos sobrou até para o presidente Lula (que elogiou a Argentina e Lionel Messi, após os Jogos de Pequim) e para treinadores, jogadores e dirigentes que ousaram sugerir algo ou discordar de alguma de suas muitas convocações esdrúxulas.
Seus maus bofes, entretanto, eram sempre minimizados e, de certa forma, compensados pelos bons resultados (muitos deles frutos de considerável dose de sorte). E, entre um percalço aqui, outro acolá, Dunga foi se mantendo — e se fortalecendo.
De virtualmente demitido, no final de 2008 (salvo por uma goleada num amistoso contra Portugal, em Brasília), acabou tornando-se intocável após a conquista da Copa das Confederações (onde a fortuna o bafejou, novamente) e a classificação antecipada nas eliminatórias.
A convocação final para a África do Sul, entretanto, deixou claro que a comissão técnica eleita pela CBF (leia-se o treinador e seu enfurecido auxiliar, Jorginho) não aprendera nada durante todo esse tempo.
Mesmo com Kaká em péssima forma (como evidenciava sua má temporada no Real Madrid), a opção foi pelo "grupo fechado" e a lista definitiva ignorou o clamor popular pelos garotos Ganso e Neymar, do Santos, e até por Ronaldinho Gaúcho, que poderia ser, no mínimo, um bom reserva para o meio-campo.
Em seus lugares, vieram nulidades que o próprio Dunga desprezaria, durante o Mundial — como Kléberson e Grafite, preteridos até quando os titulares acabaram substituídos por jogadores de outras posições ou com outras características.
A sorte, entretanto, ainda parecia de seu lado. Mesmo com atuações pífias (contra a ridícula Coreia do Norte, que acabaria na lanterna da Copa, e diante de Portugal, quando acabou o jogo dominado), a seleção se classificou em primeiro do grupo e, diante de um velho freguês de caderno, o Chile, chegou a empolgar alguns incautos.
Veio, então, o primeiro teste de verdade; o primeiro jogo pra valer, na África do Sul. E aí nem a boa fortuna foi capaz de salvá-lo.
Ao contrário, como um castigo, pareceu abandonar o técnico no seu pior momento, como uma espécie de compensação cruel por tudo que já lhe dera antes.
Com um primeiro tempo excelente (o melhor nesta Copa), o Brasil poderia até ter liquidado a Holanda e garantido a vaga em 45 minutos — quando, além de dois gols de Robinho (um anulado, por impedimento milimétrico), pelo menos mais três grandes oportunidades foram desperdiçadas, em conclusões de Juan, Kaká e Maicon.
O destino não quis e, após o intervalo, numa cruel ironia, uma das maiores e mais contestadas apostas de Dunga tratou de enterrá-lo: o temperamental e desequilibrado Felipe Melo.
Inicialmente, o volante atrapalhou Júlio César (que também saiu mal), no lance do primeiro gol. Depois, agrediu Robben (com dois pontapés e um pisão criminoso), sendo corretamente expulso e exterminando de vez qualquer possibilidade de reação do Brasil.
Merecíamos melhor sorte? Talvez. Mas, decididamente, não devemos sentir saudades de uma era em que alguns dos nossos maiores craques foram ignorados pela seleção, outros manietados e amordaçados e o time isolado, como nunca.
Ah, ia me esquecendo do mais importante: passamos, também, a praticar um joguinho chinfrim, sem graça nem talento, apenas na base de contra-ataque, sob a falácia de que o que interessa é o resultado — e não a consagrada história e a aplaudida e mundialmente reconhecida arte do nosso futebol.
Vade retro!
quinta-feira, maio 13, 2010
Especialistas dão a receita para 2016: investimento em ciência e treinadores
Especialistas dão a receita para 2016: investimento em ciência e treinadores
País também terá de escolher rapidamente atletas com potencial para brilhar
Por Danielle Rocha - Rio de Janeiro - 12/05/2010 20h09
O conselho veio daqueles que já viveram a experiência de organizar Jogos Olímpicos e ajudaram na preparação de equipes nacionais. Se o Brasil quiser conquistar um número maior de medalhas nas Olimpíadas do Rio, em 2016, e seguir entre as maiores potências nas edições posteriores, terá de mudar a forma de pensar o esporte. O investimento em técnicos de qualidade, associado ao uso tecnológico e da ciência no aprimoramento dos atletas terá que ser feito. E rapidamente. Essa foi a conclusão de especialistas dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Canadá e Austrália, durante as palestras dadas nesta quarta-feira, no Seminário de Desenvolvimento Esportivo do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).
No momento, o maior desafio do planejamento é detectar e mapear os talentos potenciais. Para isso, o COB criou o Laboratório Olímpico, que funcionará no Parque Aquático Maria Lenk e terá Antonio Carlos Gomes como consultor. Mestre em Treinamento Desportivo, o ex-atleta dos 110m com barreiras e do salto em distância se mudou para a antiga União Soviética em 1988. Trabalhou e estudou no Leste Europeu por 11 anos e de lá trouxe preciosas lições.
- Nós vamos muito no talento, na alegria, mas chega uma hora que falta algo para ajudar no resultado. E a ciência pode ajudar. O esporte de alto rendimento é difícil de ser praticado no país. O Brasil tem pagode, praia, muita música. Na Rússia, o camarada entra no ginásio para fazer alguma coisa porque senão ele enlouquece com os nove meses de neve. Quando vêm aqui, ficam loucos ao verem tantos talentos. Nós precisamos sair do empirismo que reina no nosso esporte. Temos que implantar de vez um programa de busca de talentos em Universidades, escolas, etc e tal. Temos uma guerra daqui a cinco anos e meio e não temos tempo - disse.
A ideia é que o Laboratório possa fazer um levantamento dos atletas que terão condições de estar entre os oito primeiros do mundo em 2016. A faixa etária a ser pesquisada será entre 16 e 19 anos. Todos serão testados, medidos, avaliados fisiologicamente, do ponto de vista biomecânico e genético, além de serem comparados com a realidade internacional.
- Precisamos saber qual distância que o atleta em formação está com relação ao de elite. As Confederações não podem perder tempo com aqueles que não chegarão entre os cinco, oito primeiros do mundo. Precisamos diminuir os erros o máximo possível porque o tempo é curto. Um treinador pode chegar a 11 ciclos olímpicos na carreira e terá a chance de formar campeões durante todo este tempo. Mas um atleta, às vezes, pode ter apenas um.
Para o consultor, também há a necessidade de ser revisto o hábito de os atletas no Brasil competirem quase todo fim de semana. Segundo Antonio Carlos, nos primeiros dois anos de um ciclo olímpico é preciso se dedicar a um tempo maior de treinamento.
- Talvez tenhamos que aperfeiçoar o sistema e criar uma cultura esportiva. Temos a prática de poucos esportes no país. Também não há uma política de esportes unificada. Também vamos depender muito de investimento para realizar este processo.
Na tentativa de dar sua contribuição no projeto, o Ministério do Esporte está fechando um conjunto de medidas que deverão ser anunciadas em breve. Segundo Marco Aurélio Klein, diretor do Departamento de Excelência Esportiva da Secretaria Nacional de Alto Rendimento, uma das mudanças diz respeito ao programa Bolsa-Atleta, que poderá beneficiar atletas que têm patrocínio individual. Na área tecnológica, está sendo estudada a possibilidade de ser fechado um convênio com as Confederações, a exemplo do que foi feito no Canadá para os Jogos de Inverno de Vancouver.
Marcus Vinícius Freire, do COB, participou do seminário nesta quarta-feira (Foto: COB)
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