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quinta-feira, maio 27, 2010
Ossos ocultos em SP serão investigados
Ossos ocultos em SP serão investigados
Ministério Público Federal e comissão apuram se cemitérios podem esconder restos de desaparecidos políticos
Ex-administrador diz que poço de Parelheiros esconde ossadas; para procuradora, elo com ditadura é uma hipótese
FLÁVIO FERREIRA - DE SÃO PAULO
O Ministério Público Federal e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos vão investigar se os cemitérios paulistanos de Parelheiros e Vila Formosa abrigam vítimas da repressão da ditadura militar (1964-1985).
A procuradora da República Eugênia Fávero requisitou à prefeitura que o cemitério de Parelheiros fique lacrado até passar por uma perícia.
O pedido foi feito após denúncia de um ex-funcionário de que lá existe um ossário clandestino, com restos mortais não identificados.
No cemitério da Vila Formosa, as buscas terão como ponto de partida documentos obtidos pela família do desaparecido político Virgílio Gomes da Silva.
Em depoimento prestado na Procuradoria em fevereiro, o ex-administrador do cemitério de Parelheiros Laércio Ezequiel dos Santos afirmou que no local há um poço com centenas de ossadas sem identificação.
POÇO DE OSSOS
Santos declarou que, logo após assumir a gerência do cemitério, em 2007, descobriu que havia uma alçapão embaixo de sua mesa na sala da administração.
Ele disse que, então, consultou funcionários mais antigos que ele e foi informado de que o poço era usado há décadas como depósito de ossadas não identificadas.
"Depois que descobri o poço, nunca mais consegui dormir direito", afirmou em entrevista à Folha.
Segundo ele, era comum funcionários encontrarem até três ossadas em sepulturas cujos registros apontavam a presença de um corpo, nos trabalhos de abertura de covas para exumação.
Quando isso acontecia, disse ele no depoimento, a praxe no local era colocar no poço do escritório as ossadas sem identificação. O ex-administrador disse que avisou a direção do Serviço Funerário de São Paulo sobre o problema, mas nada foi feito.
Ele próprio afirmou ter depositado no poço cerca de 25 ossadas sem registro.
CIMENTADO
Santos disse que, no início de 2008, resolveu tapar o poço e construiu um piso sobre o alçapão. Ele foi exonerado em outubro passado.
Antes de atuar no serviço público, Santos foi líder de perueiros na zona sul, e chegou a ser acusado de promover a violência em protestos contra a Prefeitura. Ele ficou preso por três meses por conta dessa suspeita.
Segundo a procuradora Fávero, as descrições feitas pelo ex-administrador coincidem com situações verificadas no cemitério de Perus, onde foram encontrados corpos de vítimas da ditadura.
A procuradora também afirmou que as informações de Santos merecem ser investigadas porque há relatos de ex-presos políticos sobre a montagem, no bairro de Parelheiros, de um sítio, conhecido como 31 de março.
Nesse local, as Forças Armadas teriam torturado e matado opositores.
Os trabalhos de exame de ossadas deverão ser realizados pela Polícia Federal, por meio de um convênio com a comissão de desaparecidos.
Segundo o presidente da comissão, Marco Antônio Barbosa, a atuação em São Paulo representa um esforço para ampliar os trabalhos da comissão, hoje concentrados na região do Araguaia.
O secretário de Serviços Alexandre de Moraes informou que apurará "com rigor" a denúncia e pedirá apoio da Polícia Militar para que o poço seja aberto hoje ou amanhã. A Prefeitura tem colaborado com as as investigações de ossários clandestinos, segundo a nota.
segunda-feira, maio 10, 2010
Chefs brasileiros dissecam os bastidores dos restaurantes e revelam por que se deve evitar peixes às segundas, brunches e o prato do dia.
Chefs brasileiros dissecam os bastidores dos restaurantes e revelam por que se deve evitar peixes às segundas, brunches e o prato do dia.
Restaurantes são locais antagônicos Dois mundos opostos convivem em torno de um objetivo comum: empanzinar o cliente. De um lado, o salão, com suas toalhas imaculadas, musiquinha ambiente no tom certo, iluminação adequada e a polidez dos garçons. De outro, no interior das cozinhas, fumaça, suor (a temperatura chega a 60 graus), barulho e brigas. Muitas. Há um pacto informal entre cozinheiros, ajudantes e lava-louças sobre o que ocorre nos bastidores dos restaurantes. No ano passado, o chef americano Anthony Bourdain, do Les Halles, bistrô francês de Manhattan, rompeu o silêncio ao publicar suas memórias em Kitchen Confidential. O livro virou best-seller (a primeira edição ficou 14 semanas na lista de mais vendidos do New York Times), mas provocou a ira de colegas ao desnudar o obscuro mundo das cozinhas.
Sem medir as palavras, Bourdain revela como chefs transformam sobras em pratos do dia, conta que servem peixe velho às segundas-feiras e consideram fãs de carne bem passada a segunda raça mais desprezível do planeta, atrás apenas dos vegetarianos. Bourdain também descreve as cozinhas nova-iorquinas como antros povoados por bêbados, ex-prisioneiros e imigrantes chicanos. Mesmo que tenha carregado nas tintas, o relato de Bourdain é confirmado, em parte, por alguns chefs brasileiros. É evidente que todos repetem a mesma frase: ''No meu não é assim, mas eu sei que no...''. Ainda assim, o relato é relevante, pois eles contam o que viram, o que sabem e o que ouviram falar.
Pior do que o choque com o clima selvagem das cozinhas é descobrir os truques usados pelos chefs para agilizar o preparo ou economizar ingredientes. Pedir o prato do dia achando que se está comendo o que há de melhor na casa, por exemplo, é uma das armadilhas mais traiçoeiras. ''No meu não é assim, mas, em geral, todo mundo acha que está comendo ingredientes fresquinhos, escolhidos a dedo pelo chef. Só que quase todos os restaurantes aproveitam o prato do dia para utilizar produtos com data de validade quase vencida'', afirma Flávia Quaresma, dona do restaurante Câreme.
''Lá todo mundo sabe que brunch é sobra. É por isso que os pratos são tão fartos. O objetivo é se livrar do que está velho e ainda lucrar com isso'', conta o carioca Felipe Bronze, 23, que já trabalhou no Le Bernardin, Nobu e Four Seasons, todos estreladíssimos restaurantes de Nova York.
Os 20 dias da carne Comer peixe às segundas-feiras é um das mais ardilosas armadilhas proporcionadas pelos restaurantes. Anote: a chance de você comer na segunda um peixe que está na geladeira há quatro dias é de quase 100%. Em geral, as boas casas recebem duas a três entregas de peixe fresco por semana. O carregamento de sexta é o mais turbinado porque vai sustentar o movimento até terça, quando chega um novo carregamento. Ou seja: o peixe de segunda é o de sexta, que foi pescado na quinta. ''Só como peixe às segundas em restaurantes que sei que compram marisco fresco todo dia, direto dos pescadores, como o Margutta'', diz Flávia Quaresma. A casa, especializada em peixes e considerada uma das melhores do Rio, de fato tem uma ponte direta com mergulhadores. ''Eles pescam com arpão e trazem, todo dia, pelo menos uns dez badejos e garoupas'', diz Conceição Neroni, proprietária do Margutta. Como nem todo mundo conhece o rol de fornecedores dos restaurantes, a melhor maneira de não mastigar peixe caduco é pedir o prato às terças e sextas-feiras.
Outra observação sobre peixes é feita por Gianni Cestroni, dono do Grottamare: ''Depois de três dias de ressaca no mar, não há quem sirva peixe fresco'', afirma. ''Entre 1 e 2 de agosto, não havia peixe fresco em nenhum local das redondezas do Rio. Quem disser que tinha, mentiu'', afirma.
Outra observação sobre peixes é feita por Gianni Cestroni, dono do Grottamare: ''Depois de três dias de ressaca no mar, não há quem sirva peixe fresco'', afirma. ''Entre 1 e 2 de agosto, não havia peixe fresco em nenhum local das redondezas do Rio. Quem disser que tinha, mentiu'', afirma.
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