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domingo, dezembro 26, 2010

Pior que o WikiLeaks

Pior que o WikiLeaks
Rubens Ricupero - FOLHA DE S. PAULO
Há mais de um século, um telegrama diplomático quase levou a Argentina e o Brasil às vias de fato
Um telegrama diplomático brasileiro interceptado e violado por agentes do governo argentino provocou, há pouco mais de um século, grave crise que gerou clima de quase guerra entre os dois países.
Muito mais sério que o do WikiLeaks tanto pela autoria oficial da violação como das potenciais consequências, o episódio se passou na segunda metade de 1908. Seus personagens foram o barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, e Estanislao Zeballos, recém-demissionário da Chancelaria argentina que vinha de ocupar pela terceira e última vez.
Durante mais de 30 anos, os dois rivais se haviam digladiado como os heróis da novela "Os Duelistas", de Conrad ou os pitorescos quadrinhos da série "Spy vs. Spy".
O primeiro embate ocorreu em 1875, quando um enviado argentino se retirou do Rio de Janeiro sem despedir-se do imperador em meio a outra crise entre os dois países. O então jornalista e futuro barão escreveu que não se tratava de afronta ao Brasil, apenas de uma "gaucherie", isto é, uma deselegância. Confundindo a expressão com "gauchada", Zeballos revidou que isso era uma "macacada de má lei", aduzindo com racismo: "É melhor ser gaúcho do que macaco"...
Em 1895, os dois voltariam a se confrontar em Washington como adversários na questão limítrofe de Palmas, submetida à arbitragem do presidente Cleveland, dos EUA, e ganha de modo cabal pelo Brasil.
O ato final se daria em 1908, ano marcado pelos temores argentinos diante do programa de rearmamento naval brasileiro.
Zeballos, ainda ministro, havia interceptado e mandado decifrar o telegrama nº 9 enviado pelo Itamaraty à missão do Brasil no Chile, via Porto Alegre e Buenos Aires.
Pela versão argentina, Rio Branco estaria intrigando os países sul-americanos contra a Argentina, acusada de desígnios sinistros sobre o Paraguai, o Uruguai, a Bolívia e o Rio Grande do Sul.
A mensagem conteria até ofensas gratuitas contra o caráter "volúvel" dos argentinos, sua falta de estabilidade e comentário hoje irônico, pois dirigido com frequência aos nossos atuais dirigentes.
O de que "a ambição de ser protagonista os desmoraliza, sacrificando o mérito, com o descrédito de seus estadistas e prejuízos derivados da falta de seriedade que os caracteriza"...
Desafiado a submeter o telegrama a uma corte de plenipotenciários, o Barão contra-atacou de modo fulminante: publicou o texto cifrado, a tradução falsa e a autêntica, totalmente diversa, bem como o código diplomático brasileiro, que se tornou inutilizável.
Liquidou assim a questão com triunfo esmagador.
Esse não foi o único antecedente do WikiLeaks em termos de correspondência diplomática americana relativa ao Brasil. Convém lembrar também os arquivos secretos do presidente Lyndon Johnson, reveladores, em meados dos anos 1970, do grau de envolvimento de Washington com o golpe de 1964 por meio da Operação "Brother Sam".
Rio Branco teria lições a ensinar e não só aos americanos. Refratário a comentários ofensivos gratuitos a outros países, compreendia que o mais impenetrável dos códigos tem como limite a fragilidade dos seres humanos, sobretudo em tempos de crise do consenso interno sobre política exterior.

sexta-feira, outubro 01, 2010

Lula dá apoio por meio de Chávez

Lula dá apoio por meio de Chávez
No Haiti, Celso Amorim monitora a crise em telefonemas a chanceler equatoriano
Demétrio Weber
 BRASÍLIA. Demonstrando total suporte ao governo do Equador, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou ontem com o presidente Hugo Chávez e pediu que o venezuelano transmitisse a Rafael Correa a mensagem de apoio do governo brasileiro. Ontem mesmo, o secretário-geral do Itamaraty e ministro interino, embaixador Antônio Patriota, partiu para Buenos Aires, onde participaria da reunião emergencial convocada pela União de Nações Sul-Americanas (Unasul).
Lula falou com Chávez por volta das12h30m (horário de Brasília), quando ainda não estava clara a extensão dos distúrbios no Equador e, àquela hora, recebeu informações de que a situação em Quito estaria sob controle. À noite, o presidente ainda tentou telefonar ao líder equatoriano antes de um comício em São Bernardo do Campo.
Em viagem oficial ao Haiti, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, conversou por telefone com o chanceler equatoriano, Ricardo Patiño, a quem também expressou a total solidariedade do governo brasileiro em defesa do regime democrático e do Estado de direito.
Em nota, Amorim mencionou a mobilização de entidades internacionais das quais o Brasil faz parte para rechaçar qualquer tentativa de golpe no Equador. Ele citou a Unasul, o Mercosul e a Organização dos Estados Americanos (OEA).
“O ministro tem mantido o presidente Luiz Inácio Lula da Silva informado sobre as gestões em curso para uma resposta firme e coordenada do Mercosul, da Unasul e da OEA, a fim de repudiar qualquer desrespeito à ordem constitucional naquele país irmão”, diz o texto divulgado pelo Itamaraty.
Em outra nota, os países que integram o Mercosul — Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai — também manifestaram apoio a Rafael Correa: “Os Estados Partes do Mercosul tomaram conhecimento com profunda preocupação dos graves eventos que estão ocorrendo no Equador, no dia de hoje. As ações representam clara tentativa de sublevação constitucional por setores das Forcas de Segurança daquele país. Os Estados Partes do Mercosul condenam energicamente todo e qualquer tipo de ataque ao poder civil legitimamente constituído e à ordem constitucional e democrática do Equador”, afirma o documento.
Além dos quatro países fundadores, o Mercosul tem ainda como membros associados Bolívia, Chile, Peru, Colômbia e Equador. A nota invoca ainda o Protocolo de Ushuaia de Compromisso Democrático do Mercosul, e exige “o imediato retorno da normalidade constitucional no Equador”.
“Os Estados Partes do Mercosul endossam integralmente a posição já manifestada pela Unasul, por meio de seu secretáriogeral, Nestor Kirchner, e apoiam a realização de Reunião Extraordinária de Ministros das Relações Exteriores daquele organismo”.

Skoob

BBC Brasil Atualidades

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