domingo, maio 23, 2010
Pelo contrário, há uma lógica de Deus na revelação cristã, porque Deus é o logos, a razão.
Filósofo critica cristãos caducos que nada entenderam dos desafios atuais
O filósofo Jean-Luc Marion, 63 anos, co-fundador da revista Communio, fez nesta quinta-feira o seu ingresso à AcademiaFrancesa, ocupando o assento que foi do cardeal Jean-Marie Lustiger.
A reportagem é de Isabelle de Gaulmyn, publicada no jornal La Croix, 21-01-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
Cristão e filósofo: como o senhor articula esse seu duplo pertencimento?
Sou filósofo, exatamente como outros são pilotos, engenheiros ou bancários. É um trabalho como qualquer outro, na ordem do conhecimento, diria Pascal. A identidade cristã não é da mesma ordem da racionalidade filosófica. Existem filósofos que têm opiniões religiosas, felizmente! Mas não há em si uma "filosofia católica" ou uma "filosofia cristã". É específico das ideologias, como o marxismo, querer batizar as ciências humanas. A revelação cristã não depende de uma filosofia, graças a Deus! Mas é verdade que me interessei pela teologia porque a filosofia passa todo o tempo abordando a teologia. E particularmente, quando escrevi "Dieu sans l'être" (Deus sem o ser, em tradução livre). Não me coloquei o problema da articulação entre a minha fé cristã e a filosofia, mas sim o problema do direito da filosofia de falar de Deus, da revelação cristã, e o problema dos limites.
A revista internacional Communio, da qual o senhor foi co-fundador, foi durante muito tempo considerada representante de uma corrente minoritária da Igreja do pós-Vaticano II. Posição que hoje, parece, se inverteu.
A revista internacional Communio, da qual o senhor foi co-fundador, foi durante muito tempo considerada representante de uma corrente minoritária da Igreja do pós-Vaticano II. Posição que hoje, parece, se inverteu.
Na história da Igreja, um Concílio não responde tanto a uma crise, mas sim a provoca. Foi o caso do Vaticano II, que provocou uma crise. Eu acho que isso deriva do fato de que, depois do Concílio, alguns permaneceram na ruptura entre progressistas e conservadores que justamente o Vaticano II quis superar e resolver. A escolha que foi proposta aos católicos entre as duas atitudes, a progressista e a conservadora, era equivocada. Outros, como Urs von Balthasar, Karol Wojtyla ouJean-Marie Lustiger, pelo contrário, releram o Concílio em uma perspectiva diferente, à luz dos Padres da Igreja, em um movimento de redescoberta patrística. A revistaCommunio sustentou esse movimento, e há 35 anos essa revista, gerenciada principalmente por leigos, funciona, sem subvenções.
Mas o senhor não teme hoje um encolhimento identitário por parte dos católicos na França?
Mas o senhor não teme hoje um encolhimento identitário por parte dos católicos na França?
Não, não acredito, não é um movimento importante. Os católicos franceses começam a entender qual deve ser o seu papel, não é uma coisa óbvia. São uma minoria, mas a minoria mais importante, que deve ter voz no debate. Alguns cristãos se endurecem em um estado caduco e passado da filosofia, pertencente a uma época escolástica, em que a racionalidade era definida de modo restritivo, em que o confronto entre fé e razão não existia. Mas eles não entenderam nada dos desafios atuais.
Justamente, por que o senhor insiste na relação indissolúvel entre fé e razão?
Acredito que chegamos a um momento chave dessa reflexão. Aqueles que opõem fé e razão têm uma visão da fé como algo que não tem lógica. Pelo contrário, há uma lógica de Deus na revelação cristã, porque Deus é o logos, a razão. E as mesmas pessoas que negam essa parte de reconquista da razão por parte da fé reconhecem hoje que nos encontramos diante de uma crise da racionalidade: quem pode dizer, depois do século XX, o que se entende por razão? A fronteira entre o racional e o não racional não tem mais nada de evidente. A ciência não é mais a verdade absoluta como se quis acreditar, o progresso científico também assume quase o aspecto de uma ameaça, isso é absolutamente evidente com a crise ecológica. Naquele que eu chamo de "inquietação racional", os cristãos têm o seu espaço, e a sua contribuição pode ser fundamental, contanto que não tragam para o debate convicções frenéticas, mas posições razoáveis. "Manter-se razoável": eis aquilo para o qual os cristãos talvez estejam bem qualificados, porque o seu Deus não é um Deus da onipotência irracional, mas o Deus do logos.
Na Academia Francesa, o senhor sucederá o cardeal Jean-Marie Lustiger, que o senhor conheceu muito bem.
Conheci-o em 1968. Desde então, essa relação nunca se interrompeu: trabalhei com ele durante 25 anos, casei-me, me suportou nos momentos difíceis. Era ao mesmo tempo uma relação filial (tínhamos cerca de 20 anos de diferença) e uma amizade muito profunda, desde 1968 até sua morte. A minha opinião é que ainda não se viu a grandeza desse homem. As pessoas começarão a tomar consciência do seu valor. Compreenderão que esse homem, com todas as suas dimensões, espiritual, política, intelectual, pessoal, tinha uma estatura comparável à de um Padre da Igreja.
Divórcio
Divórcio
MERVAL PEREIRA O GLOBO - 22/05/10
A gravidade do que aconteceu durante a tramitação, na Câmara e no Senado, do projeto de lei Ficha Limpa, com a tentativa permanente de fugir ao espírito da proposta através de emendas de parlamentares dos mais diversos partidos, não está apenas na consequência dos subterfúgios dos políticos, se é que o TSE deixará que a nova lei não tenha a efetividade que a cidadania aguarda.A questão central é a diferença radical entre o que os eleitores querem e o que os políticos estão dispostos a oferecer. Um divórcio entre os representados e seus representantes, a democracia representativa sendo deturpada pelo corporativismo.
Esse projeto de lei nasceu de uma iniciativa popular, figura criada na Constituinte de 1988, e reuniu inicialmente 1,7 milhão de assinaturas. Chegou assim ao Congresso como uma reivindicação claramente popular, fruto do trabalho conjunto de nada menos que 44 entidades que compõem o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE). Mas essa chegada triunfal de uma reivindicação da cidadania ao Congresso não impressionou as "excelências", que estavam dispostas a guardar a iniciativa popular no fundo de uma gaveta fechada a sete chaves. Se não houvesse uma mobilização constante dos movimentos sociais envolvidos, certamente este teria sido o destino desse projeto de lei.
Mais de dois milhões de assinaturas foram adicionadas através da internet, e os deputados passaram a ser pressionados por mensagens em seus correios eletrônicos ou pelos telefones da Câmara, a tal ponto que ficou claro que não seria tolerada uma tentativa de "engavetar" o projeto. Mesmo assim, houve diversos movimentos dentro da Câmara, durante o processo de análise do projeto, para desvirtuar seu sentido, e, para que fosse aprovado, foi preciso negociar abrandamentos diversos, sendo o mais importante o que jogou para a condenação em segunda instância a inelegibilidade, circunscrevendo o impedimento da candidatura a uns poucos parlamentares.
Ao chegar ao Senado, o projeto foi recebido com as boas-vindas do líder do governo, Romero Jucá, que deixou claro que as prioridades do governo não são as mesmas da sociedade. A reação foi tão grande que o governo teve que recuar. A manobra corporativa culminou com a tentativa de alterar o espírito da lei na base da mudança do tempo verbal, que vai fazer com que o Tribunal Superior Eleitoral se pronuncie sobre a abrangência do que foi aprovado. É a "Casa do povo" se rebelando contra o que o povo quer. Uma vez, o deputado Ibsen Pinheiro, que presidia a Câmara, disse que "o que o povo quer, a Câmara acaba querendo também", referindo-se ao processo de impeachment de Collor. Com o Ficha Limpa, o parto está sendo mais difícil, o que pode indicar um distanciamento maior dos parlamentares de seus eleitores, o que é um péssimo sinal para nossa democracia representativa.
As palavras Recebi da escritora Ana Maria Machado um texto em que ela, na qualidade de "cidadã e eleitora, um ser político o tempo todo", mas utilizando as ferramentas de sua múltipla condição de "intimidade com as palavras e a língua", como escritora e ex-professora de português, esclarece a confusão dos tempos verbais da lei Ficha Limpa, aprovada pelo Senado com alterações de redação, que, temem alguns, podem mudar o espírito da legislação, adiando seus efeitos. Com o texto de Ana Maria, o debate fica, pelo menos, mais inteligente: "Os que forem juristas podem ter suas interpretações. E até mesmo chamá-las de gramaticais. Nem por isso o estarão fazendo porque virão a ser juristas, mas porque o são. "Os que forem políticos podem ver um significado diferente na lei segundo a necessidade de aplicá-la para os que forem aliados ou os que forem adversários. Mas não o fazem porque virão a ser políticos. Pelo contrário, justamente porque o são. "Se numa reunião do Congresso, alguém tentar organizar a distribuição de assentos e pedir que os que forem deputados se sentem ao fundo do recinto e os que forem senadores se dirijam às primeiras filas, nenhum parlamentar vai achar que a recomendação se refere a uma eleição futura e que precisam esperar primeiro ser eleitos para só depois saber em que categoria de os que forem se enquadram. "Da mesma forma, instados a buscar seus assentos nesse caso hipotético, os que forem juízes sabem perfeitamente que não precisam aguardar nomeações futuras. Já o são. "Os que forem leitores — de Montesquieu, por exemplo — sabem buscar o espírito das leis por trás da letra das mesmas. A confusão não é apenas gramatical e de tempo verbal. É filosófica, entre ser e vir a ser. "Na famosa frase que aprendemos na escola (creio que de Osório), a conclamação era: 'Quem for brasileiro siga-me'. Uma maneira de dizer, no singular: "Os que forem brasileiros sigam-me". A urgência era evidente. Não se fazia necessário esperar processos de naturalização ou novos nascimentos. "Os adiamentos podem até funcionar por mais algum tempo. Mas a extraordinária mobilização popular pressionando pelo fim dos fichas sujas mostra que a ficha do eleitor brasileiro está caindo. E em matéria de manobras para ganhar tempo e perpetuar a falta de ética na política, as que forem mais sutis serão sempre as mais repelentes. Não dá para mentir eternamente e renegar sempre o que se é. "A tal história de ser impossível enganar todos o tempo todo".
Corrupção corrói ditadura castrista
Corrupção corrói ditadura castrista
O Globo – 22/05/2010
O governo de Cuba desfechou nos últimos dias uma inédita e monumental ofensiva contra a corrupção, mobilizando 4 mil auditores e fiscais para investigar 750 empresas, cerca de 20% de todas as que funcionam na ilha. A decisão reflete o enorme crescimento dos casos de delitos econômicos, tráfico de influências e malversação de fundos.
A julgar pelo que disse o acadêmico cubano Estaban Morales ao jornal espanhol "El Pais", não se trata apenas de punir criminosos ou de aumentar a eficiência da economia, mas de tentar salvar "a Revolução", o regime ditatorial cubano. Morales, diretor do Centro de Estudos sobre Estados Unidos da Universidade de Havana, afirmou:
- Há pessoas em posições no governo que estão se locupletando financeiramente para quando a revolução cair, e outros que querem ter quase tudo preparado para passar os bens para o setor privado, como ocorreu na antiga União Soviética. Quando observamos detidamente a situação de Cuba hoje, não podemos ter dúvida de que a contrarrevolução, pouco a pouco, vai tomando posições em certos níveis do Estado e do governo. A corrupção é muito mais perigosa do que a dissidência interna - concluiu.
É o destino inevitável de um país pequeno e com poucos recursos, isolado economicamente e asfixiado por um regime ditatorial que mantém a ilusão de que pode controlar a metade da população, transformando a outra metade em dedos-duros.
O último mecenas de Cuba, a Venezuela de Chávez, está com problemas demais para continuar ajudando os irmãos Castro como antes. Cuba enfrenta dificuldades econômicas de todo o tipo, de escassez de bens de consumo a cortes frequentes de energia, passando pela penosa situação dos transportes públicos. A população empobrece, e o governo tem dificuldade para manter o nível dos serviços nas áreas que eram consideradas de excelência.
Em meio aos rigores econômicos, a casta dirigente no governo, nas empresas estatais e no Partido Comunista tem oportunidades a que não tem acesso o resto da população. A megaoperação iniciada por Raúl visa a apanhar e punir os que estão se locupletando com negócios ilícitos já que, para o regime, conforme definição de "El Pais", "corrupção rima com traição".
A cruzada pode até reduzir a ilicitude, mas não deverá ser bem-sucedida a médio prazo, pois é improvável que venha acompanhada de outras medidas de abertura política e econômica que permitam a rápida atração de investimentos externos para melhorar as condições de vida dos cubanos. O governo americano, com razão, só considerará o relaxamento do embargo econômico à ilha se houver medidas de democratização do regime de Havana.
Mas são aparentemente remotas as chances de a ditadura castrista conseguir controlar um processo lento e gradual de abertura. A situação parece estar mais próxima de uma rápida derrocada, em que máfias já organizadas acabarão açambarcando os bens do Estado. Como na velha URSS.
Polícia Nacional afegã, Cabul Fotografia por Saraf Shashwat
Foi muito estranho ver um oficial da Polícia Nacional Afegã na completamente destruída e abandonada Darul Laman Palace em Cabul. Darul Aman foi construído durante a década de 1920 como parte do esforço reformista rei Amanullah Khan modernização. É um imponente edifício neoclássico no topo de uma colina com vista para um vale, apartamento empoeirado na parte ocidental da capital afegã.
30 anos de ‘Pac-Man’
30 anos de ‘Pac-Man’
Por Carla Peralva – O Estado de São Paulo - 22 de maio de 2010|
Foto: Patrick Runte
O game mais conhecido de todos os tempos completa 30 anos neste sábado. Lançado no dia 22 de maio de 1980 pela empresa japonesa Namco, o Pac-Man conquistou o mundo e se transformou no “jogo movido a moeda mais bem sucedido” da história, segundo o Livro dos Recordes de 2005.
Para comemorar o aniversário, o site PacMan.com reuniu as versões já lançadas do game e as curiosidades sobre ele para contar a história dessas três décadas. O Google também decidiu fazer sua homenagem e colocou uma versão jogável do Pac-Man no lugar do logo de sua homepage.
Depois de ver uma pizza com um pedaço faltando ao sair com seus amigos para jantar, Toru Iwatani, o criador do jogo, teve a inspiração do que seria o personagem de videogame mais reconhecido pelos norte-americanos — 94% deles conseguem dizer seu nome ao ver sua imagem, segundo pesquisa de 2008.
Pac-Man mistura regras simples com boa jogabilidade, música animada com efeitos sonoros únicos e personagens coloridos com intervalos divertidos entre uma fase e outra. Sua popularidade na América do Norte é especialmente notável pelo fato de mais de 100 mil unidades terem sido vendidas em seu primeiro ano de produção. Incrivelmente, mais de 400 produtos relacionados a ele também foram lançados, incluindo uma série de TV e músicas.
Depois do lançamento do fliperama em 1980, o Pac-Man foi lançado em várias outras plataformas incluindo consoles, como Nintendo e PlayStation, portáteis e até celulares. Além disso, muitos outros títulos e sequências foram lançados durante esses anos, como o Super Pac-Man, o Pac-Man Land e o Pac-Mania.
Ainda hoje, 30 anos depois de seu lançamento, o jogo pode ser jogado nos videos games atuais e em celulares recém lançados — e até no iPad.
Somos mesmo Terceiro Mundo!
Somos mesmo Terceiro Mundo!
JOÃO MELLÃO NETO - O Estado de S.Paulo - 21 de maio de 2010
Quase ninguém se encoraja a abordar esse tema, mas é preciso que seja dito: o papel que o Brasil vem exercendo na diplomacia internacional é visto pelos especialistas como tolo e ingênuo, além de macular a nossa autoimagem de país sério.
Aqui, na América do Sul, onde a nossa maior praga política, o populismo, renasce com força, não somos vistos como uma liderança, como deseja o governo. Quase todos os nossos vizinhos nos encaram como "o primo rico". Ou seja, aquele que tem sempre a obrigação de "pagar a conta".
O Chile - nosso atualmente único colega de subcontinente em condições de chegar ao Primeiro Mundo - nos ignora.
Já a Argentina - que foi realmente uma potência mundial até meados do século passado - vive nos chantageando para que o Mercosul não seja desmantelado. A todo momento o governo platense apresenta uma nova barreira comercial protecionista contra os produtos de exportação brasileiros, sob o enganoso pretexto de estar protegendo a sua economia nacional e seus interesses contra a "falta de simetria econômica" entre as duas nações. Ou seja, o mercado interno brasileiro está - e assim tem de permanecer - escancarado às investidas dos poucos produtos argentinos que têm preço competitivo. Já o mercado argentino está travado por barreiras contra o Brasil. "Muy hermanos" esses nossos vizinhos. Mas os problemas que eles nos criam se resumem a isso. O governo "peronista" de Christina Kirchner não precisa de uma "mãozinha" política do Brasil. Os argentinos são muito orgulhosos e não aceitam favores desse tipo provenientes dos brasileiros.
Com relação à Venezuela, é diferente. Hugo Chávez praticamente comprou a simpatia e a boa vontade dos argentinos. Para tanto se dispôs a assumir razoável parcela da dívida interna argentina. A Venezuela dispõe de recursos suficientes para tais atos de generosidade. Eles provêm do seu petróleo. Com tais divisas disponíveis, o "bolivarianismo" - o novo socialismo latino-americano - está sendo exportado para todo o continente. E, atualmente, os grandes líderes políticos da região são os venezuelanos, e não os brasileiros.
Seria natural que nós usufruíssemos tal condição. Afinal, o Brasil é o maior país do continente latino-americano - tanto em extensão territorial como em população e também em poder econômico. Mas a opção de nossos atuais governantes tem sido a de alimentar a nossa "consciência pesada" com relação aos nossos vizinhos. E eles bem sabem se aproveitar disso.
Evo Morales, na Bolívia, chegou ao poder com um discurso claramente antibrasileiro. Segundo ele, o Brasil, no passado, teria abusado da boa-fé boliviana para comprar o Acre "pelo preço de um cavalo". Como pouca gente, por aqui, conhece bem a História, a versão pegou. E serve, agora, para alimentar nos brasileiros um insuportável sentimento de culpa.
Obviamente, não foi bem assim. E o que estamos pagando à Bolívia como uma forma de compensação tardia tem um preço muito elevado. Compramos o gás natural que eles produzem. O problema é que a nossa produção interna de gás é mais do que suficiente para atender às demandas da economia. O gás proveniente da Bolívia está literalmente sobrando. Mas jamais nos ocorreu suspender o contrato. E os líderes bolivianos vão, para sempre, continuar falando mal da gente.
No Brasil, as nossas esquerdas sempre alimentaram o discurso antiamericano. Ninguém percebe, por aqui, que, para os nossos vizinhos, os grandes imperialistas não são os norte-americanos, mas sim os brasileiros.
O atual governo do Equador, que apregoa ser nacionalista, começou a sua gestão estatizando várias empresas brasileiras. Foi uma atitude que pegou bem por lá. Ainda mais porque os nossos dirigentes aceitaram isso sem reclamar.
Agora, no Paraguai, o ex-bispo "progressista" Fernando Lugo venceu as eleições presidenciais prometendo renegociar o contrato de Itaipu, mais do que decuplicando o preço que o Brasil paga pela sua energia. Ainda não aconteceu nada, mas as nossas autoridades já deram seguidas demonstrações de que a boa vontade brasileira com relação ao pleito é imensa.
O apoio incondicional que o nosso governo tem dado a Hugo Chávez contradiz, na prática, o compromisso brasileiro com a democracia e as suas instituições. O mesmo argumento vale para Cuba. O nosso governo, para tanto, faz vista grossa a todos os atentados aos direitos humanos que por lá ocorrem.
Resultado: não logramos ser líderes de nada, na América Latina. Passamos até por alguns ridículos, como o de Honduras.
O nosso presidente foi convencido a visitar um monte de nações insignificantes da África como forma de se projetar no mundo. Em vão.
A maior cartada do nosso governo foi a suposta intermediação na questão do Irã. Para isso demos guarida institucional ao ditador de lá, quando o resto do mundo evita fazê-lo. O homem é um vira-lata internacional. E o que conseguimos com isso? Nada, além do vexame que protagonizamos nos últimos dias.
Presidente, não seria hora de repensar nossa política externa?
Os seus assessores na área, nos últimos oito anos, têm lhe garantido que tais iniciativas tortuosas serviriam para que obtivéssemos uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Nunca estivemos tão longe disso. As nossas insólitas e erráticas investidas diplomáticas, ao contrário, criaram uma imagem do Brasil como um parceiro pouco confiável.
Presidente, ainda é tempo de botar esses incompetentes na rua!
JORNALISTA, DEPUTADO ESTADUAL, FOI DEPUTADO FEDERAL, SECRETÁRIO E MINISTRO DE ESTADO. E-MAIL: J.MELLAO@UOL.COM.BR
Dilemas da vida artificial
Dilemas da vida artificial
Criação de célula sintética abre debate sobre biossegurança, ética e religião
Roberta Jansen
Um dia depois do anúncio histórico da criação de vida artificial no laboratório do geneticista Craig Venter - o mesmo responsável pela decodificação do genoma humano em 2001 -, o presidente dos EUA, Barack Obama, pediu a seus conselheiros especializados em biotecnologia para analisarem as consequências e as implicações da nova técnica. E elas não são poucas. Da segurança do uso às implicações filosóficas de se gerar vida em laboratório, a polêmica está apenas começando.
A apresentação da primeira célula sintética inaugura uma nova era da biologia, com promissoras perspectivas, como a criação de micro-organismos programados para funções específicas de produzir vacinas e combustível, por exemplo. Mas gera também apreensão em especialistas em bioética e biossegurança, dado o seu potencial praticamente ilimitado, além de desafiar as noções religiosas sobre o início da vida. Uma tecnologia que traz a perspectiva de criar vida a partir, basicamente, do zero, e de alterar formas de vida naturais pode ter consequências perigosas em mãos de terroristas, por exemplo.
Venter defende nova legislação
O próprio Venter, ao fazer o anúncio na quinta-feira, disse que consultou muitos especialistas em ética antes de começar sua pesquisa e que informou à Casa Branca sobre o estudo, devido às implicações de segurança, já que a técnica poderia ser usada para sintetizar armas biológicas.
Em carta enviada ontem à Comissão Presidencial para o Estudo de Questões Bioéticas, Obama pediu para que o grupo considere "o potencial médico, ambiental, de segurança e outros benefícios desse campo de pesquisa, assim como riscos potenciais para a saúde, segurança e outros". Além disso, a comissão deve apontar as apropriadas fronteiras éticas da nova técnica e traçar recomendações para minimizar os riscos identificados. Nos EUA, como no Brasil, a legislação não contempla a criação de vida artificial, nem a chamada biologia sintética.
- O tema pede uma regulamentação porque é um tipo de risco que precisa ser avaliado, não só porque pode ser usado como bioarma, mas também pelos potenciais riscos ambientais e à saúde humana - afirma o coordenador do curso de Biossegurança da Fiocruz, Silvio Valle. - Essa tecnologia, associada à nanotecnologia, por exemplo, pode criar, num futuro não muito distante, a era dos biohackers.
Para Valle, a biologia sintética precisa de uma normatização urgentemente, não só nos EUA, mas também no Brasil. Para ele, a tecnologia é muito acessível e é preciso haver mais rigor.
- Hoje, no país, não temos essa legislação, nem um órgão com a legitimidade para analisar a biologia sintética - sustenta. - A atual Lei de Biossegurança não contempla essas questões.
Integrante do Comitê Internacional de Bioética da Unesco, Volnei Garrafa concorda com Valle:
- A busca pelo conhecimento deve ser livre; a obrigação da ciência é ser a parideira do futuro - sustenta. - Mas a construção desses novos modelos e sua utilização devem ser rigorosamente controladas. Seu uso deve ser exclusivamente para pesquisa.
O próprio Venter se declarou preocupado com o uso de sua tecnologia e defende a criação de normas específicas para o setor.
- Temos que estar preocupados - afirmou o geneticista em entrevista ao "Independent". - Trata-se de uma tecnologia poderosa e já propus novas regulamentações no setor porque acho que as atuais não são suficientes. Como somos os responsáveis pela tecnologia, queremos que todo o possível seja feito para evitar seu uso errado.
Excluindo Deus da origem da vida
Para muitos, Venter não criou "vida artificial", como aponta um artigo publicado ontem no "Independent". "Ainda falta muito para isso", sustenta o texto do jornal britânico. O geneticista Sérgio Danilo Penna é da mesma opinião.
- Não houve criação de vida - afirmou. - Ele simplesmente trocou o genoma de uma célula viva por um genoma artificial. A vida é uma propriedade da célula e não do genoma.
Mas a polêmica vai além.
Ao criar um organismo que se autorreplica "com quatro garrafas de produtos químicos e um sintetizador, a partir de informações arquivadas num computador", como anunciou, Venter chegou muito perto de decifrar as origens da vida e dessacralizou a questão, abrindo outra polêmica, desta vez filosófica e religiosa.
Autoridades da Igreja Católica disseram ontem que a criação da primeira célula artificial em laboratório pode ser algo positivo, se usado corretamente. Mas advertiram que apenas Deus cria a vida.
- Vemos a ciência com grande interesse, porém acreditamos sobretudo no significado que se deve dar à vida - declarou o especialista em bioética do Vaticano, Rino Fisichella, em entrevista à rede italiana RAI. - Só podemos chegar a conclusão de que necessitamos de Deus.
Até hoje, um dos maiores desafios da ciência é revelar como a vida teria começado no planeta. Em outras palavras, revelar como matéria orgânica surgiu a partir de inorgânica. Várias experiências tentaram replicar o evento sem sucesso total, deixando um espaço para os religiosos atribuírem a Deus o feito.
A experiência de Venter não explicou como a vida começou. Mas chegou bem perto disso, ao mostrar que, sob determinadas condições, fragmentos químicos podem se unir para formar vida. "Venter nos transformou em Deus?" é o título do artigo publicado ontem no site do jornal britânico "Guardian", pelo comentarista Andrew Brown.
Para o especialista em bioética da Universidade da Pensilvânia Arthur Caplan, no mínimo, Venter excluiu Deus da equação da vida.
- Diziam que só Deus poderia criar a vida. Por séculos, sempre disseram que não era possível entender a vida, que ela era algo único, especial, cuja explicação estaria além da ciência. Aristóteles e outros grandes pensadores diziam que a vida era uma força especial - frisou Caplan, que assina um artigo sobre o tema na "Nature". - A experiência de Venter mostrou que isso não é verdade. Ela revelou que, com determinadas substâncias químicas, sob certa situação, a vida pode surgir. Do ponto de vista filosófico isso é muito importante. Muitos hão de perguntar: então a vida se reduz a uma explicação química reducionista? A resposta é sim.
Mas isso não significa, destacou, que a vida não seja maravilhosa.
- Apenas que não é mágica nesse sentido.
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