domingo, maio 30, 2010

Marina Silva: "O Brasil precisa antecipar o futuro"

Marina Silva: "O Brasil precisa antecipar o futuro"
A candidata do PV quer encarnar os valores da política do século XXI: ética e desenvolvimento sustentável
Mariana Sanches
Havia apenas duas coisas que Marina Silva desejasse quando era criança. A primeira, diz ela, era andar nos aviões que via sobrevoando a selva acriana onde nasceu. A segunda era ter uma fotografia sua. “Agora o que mais tenho feito é andar de avião e tirar foto”, disse Marina, na tarde da quinta-feira, ao se despedir de um rapaz que posara a seu lado para um retrato feito com celular no corredor do Senado. As viagens e as fotografias são parte do esforço de Marina para viabilizar sua candidatura à Presidência pelo Partido Verde. Ela tem corrido o Brasil tentando convencer os eleitores de que “não há nada mais potente do que uma ideia cujo tempo chegou”, como gosta de repetir, citando o poeta francês Victor Hugo. Marina flerta com o improvável. Na infância sobreviveu a cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose. Agora, com escassos 8% das intenções de voto e o menor tempo de TV entre os três principais candidatos, ela tem pela frente o desafio mais difícil da carreira. Com 52 anos e 51 quilos, se diz preparada. Em seu gabinete, no Senado, Marina falou a ÉPOCA sobre planos para um futuro governo e sobre suas memórias.
                                                                       ENTREVISTA - MARINA SILVA
QUEM É Nascida em um seringal no Acre, Marina Silva alfabetizou-se aos 16 anos pelo antigo Mobral. Tem 52 anos
CARREIRA POLÍTICA Foi vereadora em Rio Branco, deputada estadual no Acre e está no segundo mandato como senadora. Foi ministra do Meio Ambiente entre janeiro de 2003 e maio de 2008
PRÊMIOS Em 2007, recebeu o prêmio Champions of the Earth, da ONU, por sua luta pela preservação da Floresta Amazônica
ÉPOCA – Por que a senhora deve ser a próxima presidente do Brasil?
Marina Silva – Uma das coisas mais importantes na vida de um país é a capacidade de preservar as conquistas e, ao mesmo tempo, ter uma visão do futuro. Conseguimos algumas conquistas: estabilidade econômica e avanço na política social, mas as pessoas estão tratando isso como se fosse o fim da história, estão perdendo a capacidade de antecipar o futuro. E o momento privilegiado para fazer a integração entre o passado e o futuro é a eleição. Sei que o Brasil está preparado para ter uma mulher na Presidência. Uma mulher capaz de integrar o olhar feminino ao olhar masculino, a intuição e a racionalidade, e de colocar novos valores na política.

ÉPOCA – Há espaço para a defesa da “sustentabilidade” no Brasil, um país em que grande parte das pessoas não tem creche para deixar os filhos?
Marina - A ideia da sustentabilidade é um imperativo. O povo tem uma sabedoria bem maior do que as lideranças políticas. As pessoas podem até não transformar em palavras aquilo que sentem. Mas elas se colocam em movimento para fazer. É assim que as grandes transformações acontecem. Foi assim que aconteceu na África do Sul, foi assim com Martin Luther King nos Estados Unidos.

ÉPOCA – Suas propostas são equivalentes às de Luther King?
Marina - Eu não seria pretensiosa a esse ponto. Falo como uma metáfora histórica. Até porque essas ideias não são minhas. São fruto de 30 anos de luta socioambiental no mundo. Hoje os processos são multidimensionais e as lideranças são multicêntricas.

ÉPOCA – A senhora fala de modo muito complexo. As pessoas a entendem?
Marina - Entendem. Lá no meio do seringal, com o Chico Mendes, quando começamos a ouvir falar sobre ecologia e meio ambiente, alguém poderia ter dito para o Fernando Gabeira [deputado federal (PV-RJ)]: “Vocês acham que esses seringueiros vão entender isso?”. Nós entendíamos tudo porque nós já fazíamos aquilo que eles diziam em palavras.

ÉPOCA – O economista Eduardo Gianetti está colaborando com seu programa de governo e é conhecido como um liberal. Sua trajetória é de ligação com movimentos sociais. Por que estão juntos agora?
Marina - Ele é um pensador, um economista que elabora para além das questões da economia. Fiquei muito bem impressionada com a forma como ele vê o desafio da sustentabilidade à luz desse esforço de transitarmos para um novo modelo de desenvolvimento. Quem foi que disse que as pessoas têm de pensar da mesma forma em tudo?

ÉPOCA – Seu governo será de esquerda?
Marina - A gente empobrece o debate com essas caracterizações. Não vejo ninguém me cobrando que meu governo seja de esquerda. Aliás, não vejo ninguém cobrando isso nem do presidente Lula. A gente tem de cobrar do governo que ele seja justo, honesto, comprometido com os princípios republicanos.

ÉPOCA – Como vê a reforma agrária e as ações do Movimento dos Sem Terra?
Marina - A gente tem de separar as duas coisas. A luta pela reforma agrária é legítima. No Brasil não se teve o atendimento dessa questão histórica, mas a forma de lutar por ela não pode extrapolar o Estado Democrático de Direito. Aqueles que não extrapolam têm o direito de se expressar. Aqueles que extrapolam não podem ser tolerados. Mas também não dá para generalizar a luta dos sem-terra como se todos estivessem extrapolando. Da mesma forma que não vejo ninguém generalizando em relação aos ruralistas, que muitas vezes usam da jagunçagem para se contrapor à reforma agrária.

ÉPOCA – A senhora teve rusgas com o ex-governador de Mato Grosso Blairo Maggi. Como a senhora vê o agronegócio?
Marina - A agricultura é importante para o nosso país, é responsável por mais de 30% da nossa balança comercial. Ainda temos ruralistas que não se conectaram a duas coisas: o respeito ao meio ambiente e aos direitos sociais conquistados na Constituição de 1988. Mas não se pode demonizar todo o agronegócio. Temos é que combater aquela cultura que, em lugar de passar no teste, fica tentando mudar o teste. Precisamos deixar de ser vistos como aqueles que produzem em prejuízo do meio ambiente e das questões sociais. Isso vai ser uma vantagem na disputa com aqueles que tentam nos prejudicar no mercado externo com barreiras não tarifárias.

ÉPOCA – A escolha do empresário Guilherme Leal para ser seu vice é uma tentativa de conquistar o empresariado?
Marina -
Tem uma parte do empresariado que está com a Dilma, uma parte com o Serra. E uma parte do empresariado, de vanguarda, pessoas que já estão atualizando seus negócios, que estão muito próximas a mim e ao Guilherme. A gente não pode ter pretensão de unanimidade e se fechar ao diálogo.

ÉPOCA – A senhora teve divergências com a ex-ministra Dilma Rousseff. Uma delas foi em torno da construção das hidrelétricas no Rio Madeira. Para Dilma e Lula, o meio ambiente é uma questão menor?
Marina - No processo de licenciamento do Madeira, tinha o problema do mercúrio, do sedimento, da malária e o famoso problema dos bagres. As informações técnicas de que dispúnhamos diziam que o lago do empreendimento estaria 50% assoreado em dez anos. Quem daria uma licença ambiental sabendo que se estava gastando bilhões de reais numa hidrelétrica cujo lago poderia estar assoreado em dez anos? Esse problema foi resolvido com uma resposta técnica. A divergência acontecia, mas era debatida de igual para igual. E, quando tinha de ser decidida, era o presidente Lula quem arbitrava. Quando nós dissemos que não daríamos a licença no dia que o Ministério de Minas e Energia queria, o Lula disse: “Então quero que contratem os melhores técnicos para que a gente resolva as duas coisas: a questão do meio ambiente e a da energia”. E foi isso o que a gente fez.

ÉPOCA – Mas então por que o presidente fez piada sobre os “bagrinhos”? Foi uma desmoralização para a senhora?
Marina – Eu não me sinto desmoralizada porque a posição foi mantida. Uma divergência real e objetiva foi aquela pela qual eu saí do ministério. Havia um movimento pra revogar as medidas de combate ao desmatamento. Houve pressão do Mangabeira (Mangabeira Unger, ex-ministro de Assuntos Estratégicos), do Stephanes (Reinhold Stephanes, ex-ministro da Agricultura), do Blairo Maggi contra os dados que tínhamos do Instituto de Pesquisa Espacial (INPE). Eles diziam que os dados estavam errados, contrapondo com os da Secretaria de Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso, que não tem know-how e tinha acabado de ser criada. Percebendo que poderiam induzir o presidente Lula a um erro, eu pedi para sair. Saí respeitosamente e acho que, graças a Deus, contribuí para que o governo não cometesse o erro gravíssimo de revogar as medidas e o desmatamento voltasse a crescer.

"Não sou contra hidrelétricas. Mas não podemos
relativizar os problemas sociais e ambientais"

ÉPOCA – Mas o recorde de menor desmatamento foi batido na gestão do ex-ministro Carlos Minc. Ficou a impressão de que a senhora era intransigente e não cumpriu as metas, mas alguém com mais articulação política conseguiu.
Marina - Nós fizemos coisas muito consistentes. O desmatamento, que estava em 27.000 quilômetros quadrados em 2004, caiu para 12.000 quilômetros em 2007. Em 2007, como as agendas de outros ministérios para o combate ao desmatamento não estavam andando, percebemos que o desmatamento podia crescer 30%. Nós tomamos as seguintes medidas: vedamos o crédito, decretamos moratória em 36 municípios e criminalizamos toda a cadeia produtiva – quem derruba, quem planta, quem vende, quem compra e quem transporta. O presidente Lula corajosamente assinou, e aí veio aquela pressão do Blairo Maggi dizendo que nós tínhamos exagerado na dose. Eu percebi que podiam revogar as medidas. Eu saí, e o presidente Lula veio a público dizendo que não ia mudar nada na política ambiental e que as medidas seriam mantidas. Mas ele só fez isso porque a opinião pública deu sustentação. Senão elas seriam revogadas.

ÉPOCA – O sucesso do Minc se deve a sua herança?
Marina - Ele deu continuidade a partir de onde pegou. Eu não poderia torcer jamais para que o desmatamento aumentasse na gestão do Minc. O desmatamento caiu não por negociata política, mas em função da moratória, da criminalização da cadeia produtiva e da fiscalização.

ÉPOCA – Existe um modelo de desenvolvimento viável sem a construção de hidrelétricas na Amazônia?
Marina - O potencial de hidreletricidade é muito grande e 64% dele está na Amazônia. Não tenho uma posição de ser contra hidrelétricas. É um potencial que devemos usar. Mas o que não podemos fazer é relativizar na construção das usinas os problemas sociais e ambientais.

ÉPOCA – Como vê a construção da Hidrelétrica de Belo Monte?
Marina - Fui a favor da suspensão do leilão porque os índios dizem que não foram ouvidos adequadamente. Estão preocupados com o Rio Xingu, com suas terras e com o impacto social da chegada de mais de 100 mil pessoas na região. No processo, surgiu outro problema grave: a viabilidade econômica de Belo Monte. O governo está praticamente subsidiando Belo Monte, com uma série de desonerações, isenções de impostos.

ÉPOCA – A senhora manteria o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)?
Marina - O PAC não é um programa de infraestrutura. É uma colagem de várias obras, muitas delas importantes e estratégicas, demandas de governos estaduais e da sociedade brasileira. O que eu faria é transformá-lo em um programa.

ÉPOCA – Por que não é um programa?
Marina - O PAC não tem um planejamento por trás. São obras que são demandadas alhures, a partir das necessidades que cada um vai apresentando. Mas não tem uma projeção do crescimento do Brasil para daqui 20, 30 anos. O que se faz no PAC? Gerenciamento para ver se o dinheiro está sendo alocado direito, se há o projeto técnico básico para fazer, se tem a licença ambiental.

ÉPOCA – Chamar essa colagem de PAC é um recurso marqueteiro?
Marina - Eu não seria tão agressiva. É um nome fantasia, mas não é um programa.

ÉPOCA – Por que a senhora tem reservas em aceitar apoio do Partido Democratas?
Marina - Não tenho nem por que recusar, porque nós não estamos em nenhuma aliança com o DEM. Mas não há uma identificação programática com esses partidos, e nós resolvemos não fazer um cálculo pragmático. Nós queremos ver as questões programáticas no palanque para a Presidência da República para que esse projeto possa ser colocado com a relevância, a magnitude e a coerência que ele precisa. No Rio de Janeiro não é o Gabeira quem apoia o DEM, é o democrata que apoia o Gabeira.

ÉPOCA – O Gabeira disse que no segundo turno apoiará o candidato José Serra. É um indício de que ele não acredita que sua candidatura é viável?
Marina - Tenho uma relação de 20 anos com o Gabeira. Ele me deu os rudimentos da questão ambiental. Ele está muito imbuído do nosso projeto nacional.

ÉPOCA – A senhora estudou para ser freira e agora é evangélica da Assembleia de Deus. Por que a senhora se converteu?
Marina - A conversão é um processo que só tem explicação para quem vive a experiência. Eu tenho um respeito e carinho muito grande pelos meus irmãos católicos. Toda a minha formação política, minha base ética, eu aprendi com a Teologia da Libertação. Tenho imensa gratidão pela minha fé católica.

ÉPOCA – A senhora acha que sofre preconceito por ser evangélica?
Marina - Há um estranhamento que às vezes resvala para o preconceito. Eu sinto que as pessoas às vezes querem achar que pelo fato de você ter fé você tem de necessariamente ser fundamentalista, conservador.

"Não preciso justificar a minha fé cientificamente,
aqui no Brasil, graças a Deus, temos um Estado laico "

ÉPOCA – Como a senhora lida com a contradição entre ciência e religião?
Marina - Não se deve opor ciência a religião. Não preciso justificar minha fé cientificamente. E também não preciso transpor a fé para os espaços da ciência. Aqui, graças a Deus, somos um estado laico. Aqui, graças a Deus, temos mais de 90% das pessoas que têm fé e têm de aprender a respeitar quem não tem fé. E os que não têm fé respeitam os que têm fé. Isso faz da gente uma democracia religiosa, graças a Deus.

ÉPOCA – O criacionismo é uma coisa que está completamente afastada de sua plataforma para a educação?
Marina -
Eu nunca defendi o criacionismo. Eu defendi exatamente o contrário: uma escola confessional que ensina o criacionismo e o evolucionismo.

ÉPOCA – A senhora é a favor da legalização do aborto?
Marina - Eu não sou a favor. E eu defendo um plebiscito para isso. Não é uma questão fácil e deve ser debatida pela sociedade. E que não se tenha uma visão de que quem é a favor da vida é fundamentalista. E também que não se tenha uma visão de que os que têm outro ponto de vista são moralmente degradados.

ÉPOCA – E quanto à descriminalização das drogas?
Marina - Sou contrária e acho que se deva fazer também um plebiscito.

ÉPOCA – E as pesquisas com células-tronco?
Marina - Defendo pesquisas com células-tronco adultas, mas não com embriões.

ÉPOCA – A senhora adotou o estilo Marininha Paz e Amor?
Marina - Não é só na campanha. É uma forma de vida. Quando se vê a morte por três vezes na sua frente, quando se chega tão perto de voltar ao pó, a gente sabe que o mais importante é a vida.

ÉPOCA – Por que gostou de Avatar?
Marina - Serve como exercício da alteridade estética, poética, ética. As populações tradicionais têm uma estética própria, uma cultura própria e uma ética de valores própria. Eu fiquei impressionada como o James Cameron (o diretor do filme) conseguiu entrar num universo tão difícil de penetrar. E eu só pude compreender depois que eu soube que ele, desde criança, tinha uma convivência muito próxima com as florestas do Canadá. As pessoas disseram que a narrativa era pobre. Mas ali não estavam em jogo as palavras, mas algo mais sutil. O filme é uma tentativa de mostrar plasticamente o que se sente quando se entra na floresta.

ÉPOCA – A senhora tem medo de quê?
Marina - O meu maior medo, eu acho que já venci, é o medo de não ter medo.

ÉPOCA – E se arrepende de quê?
Marina - Eu me arrependo de ter acreditado naqueles médicos que disseram que a minha mãe tinha meningite. Ela morreu com aneurisma. E me arrependo de não ter trazido o corpo dela para que pudéssemos enterrar, de nunca mais tê-la visto. Ela foi enterrada sem que nós a víssemos. Eu tinha 14 anos.

ÉPOCA – E a senhora se lembra da última coisa que ela lhe disse?
Marina - Estou com muita dor de cabeça: corte umas rodas de macaxeira que eu vou amarrar na minha cabeça. 

Novos estudantes de Direito enfrentam crise da geração

Novos estudantes de Direito enfrentam crise da geração

Por Vladimir Passos de Freitas

O mundo passa por transformações radicais. O planeta, ferido pela ação inclemente do homem, dá a sua resposta através de chuvas torrenciais, secas, furacões e outros fenômenos semelhantes. Estado, família, igreja, educação, tudo se transforma rapidamente. Vejamos o que se passa com os estudantes, futuros profissionais do Direito.
A cada ano, novas turmas ingressam nas mais de mil faculdades de Direito existentes no Brasil. Em sua maior parte, rostos jovens, sorrisos, promessas de felicidade. Nos cursos noturnos, a média de idade aumenta. Adultos procuram, legitimamente, ascensão profissional e social. Aqui a análise será feita a partir dos jovens acadêmicos de Direito.
Em plena adolescência, que certamente prosseguirá até o fim do curso (considera-se, agora, em 30 anos a idade limite), o jovem universitário, com 17 ou 18 anos, é absolutamente distinto da geração de seus pais, cuja idade estará, possivelmente entre 45 e 50 anos. Dos ascendentes, guardam os traços físicos, mas dos hábitos, quase nada.
O que os faz tão diferentes?
A resposta deve ser no plural e não no singular. E começa pela criação. Enquanto na geração de seus avós as mulheres, salvo exceções, não trabalhavam (nas procurações eram qualificadas como “de prendas domésticas”), na geração de seus pais, a maioria tem vida profissional. Pode ser por uma legítima aspiração profissional ou apenas necessidade de sobrevivência. Na área do Direito, encontram-se em todas as profissões. Na magistratura gaúcha já são maioria. O trabalho da mãe profissional em Direito nada tem de errado. Mas tem um preço e não costuma ser barato. Principalmente quando exercido nos dois (ou três) períodos e com dedicação extrema (por exemplo, as advogadas-professoras).
Muitos dos atuais estudantes de Direito foram criados sem o indispensável acompanhamento materno, exteriorizado em carinho, transmissão da história da família, orientação do certo e do errado e, principalmente, a presença. Por incontornável necessidade, desde cedo foram a berçários ou escolas, onde o tratamento pode ser profissionalmente de qualidade, mas inexiste o amor materno. Por vezes, uma babá ou a avó fizeram este papel, ora bem, ora mal. Como se sabe, os sete primeiros anos de vida formam a personalidade. A ausência da mãe nessa fase, se preponderante, deixará marcas. E elas, no curso de Direito, poderão aflorar em dificuldades de relacionamento, desinteresse, depressão, entre outros problemas.
Muitos estudantes vêm de famílias desfeitas. Não importa o motivo e nem se pretende julgar ninguém. Mas, evidentemente, existem consequências. Principalmente se a separação for conflituosa e os pais não tiverem a grandeza de evitar críticas recíprocas. A ausência da vida familiar trará sentimento de abandono e este é um dos fatores da procura das drogas. Almoçar com o pai aos sábados, em um shopping, evidentemente não é o mesmo que com ele conviver diariamente, recebendo lições de vida.
Poucos recebem orientação religiosa. Por comodismo, os pais optam por nada ensinar, afirmando: “quando adulto, ele saberá escolher”. O resultado é que depois nada se escolhe, e temos muitos que em nada crêem, o que os torna mais materialistas, consumistas e menos solidários.
A internet será, também, um fator a tornar diferentes os novos universitários. Criados em contato permanente com um computador, comunicam-se por meios virtuais (msn, orkut, skype), em uma nova língua, ininteligível para os maiores de 30 anos. Tal fato impede o desenvolvimento de relações interpessoais diretas, a conversa franca e a troca de experiências pelo conhecimento. Tudo isso, somado à falta de leitura de livros, do teatro e do melhor cinema, faz com que tenham dificuldade em exteriorizar o que pensam. As falhas de redação ou até de exposição oral terão péssimos reflexos no futuro exercício profissional.
Na disciplina estará novo fator de diferença flagrante. Os pais, envolvidos na luta pela vida, nem sempre terão tempo ou energia para fixar limites. É mais fácil permitir do que proibir. E nisto se formam adolescentes e adultos que não se submetem a quaisquer regras, contornam exigências, fogem da responsabilidade. É óbvio que isto terá reflexos nos estudos e na vida profissional. Os vencedores na área jurídica não costumam ser dotados de inteligência excepcional. Na maioria absoluta alcançaram o sucesso pelo esforço e disciplina.
Ainda na disciplina, muitos terão dificuldades em conviver com a hierarquia. Criados com permissividade, como é próprio da vida moderna, não sabem como lidar com as estruturas de poder e suas regras. E daí se envolvem em conflitos desnecessários e que lhes causam sofrimentos. Nas carreiras públicas jurídicas esta é uma das maiores dificuldades dos administradores. À menor exigência o jovem profissional se insurge, via de regra justificando sua posição em alguma norma constitucional genérica e que nada tem a ver com o caso concreto.
A falta de garra, não é regra absoluta, mas é também uma característica. É comum o estudante de Direito, no fim do curso, não ter ideia do rumo a tomar ou empenhar-se na busca do sucesso. Principalmente nas classes A e B, onde os desejos foram sempre atendidos com facilidade. Sem espírito de luta, muitos não se animam aos sacrifícios de um concurso ou à luta pelo sucesso na advocacia. Esta característica alcança, inclusive, bons alunos, que manejam bem as discussões teóricas, mas recuam quando se vêem obrigados a lutar.
Os jovens estudantes de Direito, como se vê, são diferentes. Foram forjados em outra escola de vida. Inclusive vendo os péssimos exemplos das gerações que atualmente detém o poder (v.g., corrupção explícita de altos servidores passada na TV), o que certamente não faz bem às suas cabeças.
Aos mais maduros, em especial aos professores dos cursos de Direito, cabe tentar compreendê-los, dar-lhes apoio e atenção. Criticá-los, genericamente, de nada adianta. Estimulá-los, orientá-los quando estiverem na via errada, é o caminho certo. Não será fácil, por certo. Mas os desafios é que dão graça à vida. E este é um desafio que vale a pena.

Pointe du Raz, França Fotografia por Pearce Jennifer

Pointe du Raz é o ponto mais ocidental da França. Depois de subir até o fim da terra e ter um deslize e um breve momento preocupante, de repente, vejo quatro padres subindo até a borda foi muito profunda, mesmo para alguém não-religioso.

Sara Tavares - Longe Do Mundo - O Corcunda de Notre Dame

Quando a mulher pula o muro?

Quando a mulher pula o muro?
Não existe mulher fiel. Havendo o desejo e a oportunidade, a mulher será tão infiel quanto qualquer homem
Peter Moon

Homem fiel quase não existe, afirma a psicóloga francesa Maryse Vaillant no livro Les hommes, l’amour, la fidélité. A fidelidade masculina é tão rara que a mulher deveria parar de se preocupar. “O homem costuma trair também quando ama”, afirmou Vaillant à minha colega Ruth de Aquino, a diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro, em sua coluna Os homens, o amor e a fidelidade, de 14 de maio.
Eu concordo totalmente. Só acho que os homens não detêm o monopólio da infidelidade. E vou além. É verdade que, para a mulher casada (mas não para a solteira), é difícil pular o muro. É preciso administrar o affair com a rotina do trabalho, da casa, do marido e dos filhos. Mas, havendo o desejo, nada é impossível. Meu ponto é o seguinte: atingidas as condições ideais de temperatura e pressão e havendo a oportunidade, qualquer mulher será tão infiel quanto qualquer homem. Esta afirmação é lastreada em um conjunto de pesquisas sobre o resultado de testes de paternidade nos Estados Unidos e na Europa – mas também em relatos que registrei ao longo dos anos, aquelas histórias que quase todo mundo já ouviu falar – e muitos viveram – mas geralmente ninguém comenta em público, já que a hipocrisia grassa na sociedade.
Quem pula a cerca?
O melhor exemplo aqui é o de um amigo meu, o J.A.. Nos anos 1990, enquanto todos os colegas de faculdade estavam casando ou já casados, J.A. resistia. Era um solteiro convicto. E se recusava a namorar, ter compromisso, ser fiel. J.A. havia se habituado à condição ser “o outro”. Suas relações eram breves, intensas, divertidas e furtivas. Ele só se relacionava com mulheres casadas ou que tinham o mesmo namorado há anos. J.A. não tinha dificuldade em encontrá-las. Na verdade, ele já as conhecia. Eram suas amigas, amigas de anos, amigas que, eventualmente, se tornaram mais íntimas. Além da amizade prévia, havia uma constância entre as suas parceiras. Todas viviam relacionamentos frustrantes, mas ainda assim não conseguiam – ou não queriam – romper com namorados e maridos. Buscavam em J.A. o carinho que não encontravam em casa. J.A. tinha consciência que não passava de um estepe. Não se importava. Para ele, aquelas eram relações confortáveis, sem compromisso, just for fun. Inúmeras terminaram sem dor. Algumas poucas, aquelas nas quais J.A. acabou se envolvendo, acabaram mal.
Por conhecer as histórias deste amigo (e de alguns outros), achei parcial a afirmação da psicóloga francesa de que a fidelidade masculina é tão rara que a mulher deveria parar de se preocupar. É claro que não há homens fiéis! Os homens sabem disso. As mulheres, também. Mas não quer dizer que todos os homens sejam infiéis o tempo todo (meu amigo J.A., por exemplo, hoje sentou o rabo, está casado, feliz e fiel). No entanto, dada a oportunidade, qualquer homem pula a cerca. E o mesmo se aplica à mulher. Elas podem ser tão infiéis quanto qualquer homem. Os motivos para a busca de uma relação paralela é que mudam.
Homens pulam o muro à procura de sexo. Para nós, não há conflito entre a busca do sexo fora de casa e o amor que sentimos por nossas namoradas e esposas. É da natureza masculina, assim como a sedução é da natureza feminina. Ao se envolver numa relação paralela, enredando-se nas teias de sedução da amante, o infiel corre o risco de se apaixonar e acabar por abandonar a mulher. A possibilidade existe, já que, por definição, a amante quase sempre buscará deixar a condição de “outra” para assumir o controle da lojinha.
Em sua imensa maioria, mulheres infiéis buscam muito mais do que sexo numa relação extraconjugal. Sexo é importantíssimo, mas para as mulheres não é suficiente. As amantes de J.A. não haviam deixado de amar seus maridos ou namorados (ou de acreditar na ilusão do amor romântico). A mágoa acumulada e a busca de auto-estima às impeliram a procurar carinho. Queriam voltar a se sentir desejadas. Mulheres que seduzem são mais belas porque gostam mais de si mesmas.
Maternidade e infidelidade
Um outro atributo feminino é a maternidade. Algumas mulheres procuram relações extraconjugais com o intuito (consciente ou inconsciente) de gerar vida. Não sou eu quem afirma. São os números. Tudo começou nos anos 1950 com o famoso Relatório Kinsey, o primeiro estudo científico sobre a sexualidade dos americanos. O que me interessa aqui são alguns resultados que jamais saíram publicados no relatório original. Foram censurados. Mas tomei conhecimento deles ao ler, em 1997, Por que sexo é gostoso?, do biogeógrafo americano Jared Diamond.
Os americanos são, em comparação aos brasileiros e aos europeus, de maneira geral mais moralistas. O primeiro estudo de paternidade de que tenho notícia foi realizado pelos pesquisadores do Relatório Kinsey na Maternidade do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, Nova Inglaterra, o ponto de desembarque em 1600 dos primeiros colonizadores puritanos daquilo que viria a ser os Estados Unidos. Ao checar o tipo sanguíneo de pais e bebês do berçário do Mass General, os pesquisadores chegaram à espantosa constatação de que entre 10% e 30% dos recém-nascidos NÃO ERAM FILHOS DAQUELES QUE ACREDITAVAM SER SEUS PAIS. Ora, estas porcentagens foram registradas numa região particularmente conservadora de um país sabidamente conservador e durante uma década conservadora, os anos 1950, que precederam a Revolução Sexual e o amor livre dos anos 1960.
 “Se a ‘discrepância paterna’ podia oscilar de 10% até 30% numa sociedade careta como aquela, o que não esperar do Brasil, uma sociedade cujo povo se relaciona com o corpo e o sexo de forma muito mais livre?”, foi o que pensei ao ler o livro de Diamond. Mais de 60 anos depois da publicação do Relatório Kinsey, hoje se sabe que suas conclusões foram superestimadas. A aferição da paternidade via tipos sanguíneos fornece dados bem menos precisos do que os testes genéticos de paternidade. Eles não existiam em 1950, mas hoje estão muito perto de se tornar disponíveis nas farmácias, como os testes de gravidez. Outro dado a se levar em conta é que, na época do primeiro Relatório Kinsey, não havia anticoncepcionais. A pílula é de 1960.
Hoje se sabe que, dependendo do grupo sócio-econômico e da faixa etária em que a mãe se insere, a ‘discrepância paterna’ (o eufemismo científico para definir a descoberta de filhos ilegítimos) oscila de 1% até 30% (a média é 4%) nos Estados Unidos e na Europa – e, arrisco dizer, também no Brasil. “Medindo a discrepância paterna e suas consequências na saúde pública” é um estudo muito revelador publicado em 2005. Nele, descobre-se que as mulheres mais jovens, na faixa etária entre 16 e 24 anos, têm maior risco de ter filhos com discrepância paterna (15,2% dos casos). Logo em seguida vem o grupo de 25 a 34 anos, com 7,6%. A concentração dos casos nestas faixas etárias se explica por se tratar, em sua imensa maioria, de mulheres solteiras COM MAIS DE UM PARCEIRO.
Há várias razões levantadas para explicar o nascimento de crianças com ‘discrepância paterna’. Muitas são ocasionais e não-intencionais. Uma moça pode ter um namorado antigo. Frustrada com a relação, ela se envolve com outro homem. Como todos sabemos, o rompimento de uma relação longa não se dá de uma hora para a outra. A separação acontece entre idas e vindas. Dura meses. É numa destas vindas que ocorre a fecundação da criança que acabará sendo criada como filha do “amante-que-se-tornou-marido”, mas ignora que não é o pai.
Outra hipótese é a mulher casada que ama o marido, mas não consegue engravidar dele. Há mulheres nestas condições que, deliberadamente, decidem pular a cerca para engravidar, e retornam ao marido para com ele criar o bebê.
O teste de paternidade deve ser proibido?
A infidelidade feminina é a regra em nossa espécie. E 4% de “discrepância paterna” é um percentual médio enorme. Caso os testes de paternidade se tornassem indiscriminadamente acessíveis, seu resultado afetaria e desagregaria uma em cada 25 famílias. Pense na sala de aula dos seus filhos, se você é pai ou mãe. Numa classe com 25 alunos, é quase certo que pelo menos uma criança não é filha daquele que chama de pai. A coisa complica quando se considera que, detectada a discrepância paterna, de uma hora para a outra uma avó e um avô deixariam de ter um neto, irmãos se tornariam meio-irmãos, e o casamento acabaria.
Mesmo nos casos em que a constatação da infidelidade da mãe não encerra o casamento, os pais passam a gastar mais tempo e recursos com seus filhos biológicos do que com aqueles ilegítimos. Este, por sua vez, passam a ter mais risco de sofrer agressão paterna – assim como a comprovação da infidelidade é um fator que pode desencadear a violência doméstica contra a mulher.
Há inúmeras razões pelas quais vários advogados em todo o mundo defendem a restrição do acesso aos testes de paternidade. Estes só seriam utilizados com autorização judicial. “O teste de paternidade atenta contra a família e ameaça o tecido da sociedade”, me disse um amigo advogado.
Homens e mulheres são infiéis. A infidelidade generalizada não é uma questão de gênero, mas de espécie. Nas sociedades tribais, a poligamia é, na maioria das vezes a regra, não a exceção. O Homo sapiens é uma animal polígamo e promíscuo. Herdamos este comportamento do ancestral comum que dividimos com os chimpanzés, que são igualmente polígamos e promíscuos. No entanto, desde a constituição das primeiras cidades e civilizações, há 10 mil anos, a monogamia foi se impondo como uma condição para a vida em sociedade. O grande paradoxo reside na obrigação social, moral e legal de um animal polígamo levar uma vida monogâmica. Sob está ótica, a infidelidade da mulher e do homem é uma válvula de escape que nos reconecta às nossas origens.
(Peter Moon escreve às sextas-feiras)

Estudo de Uerj revela que mudança climática afeta a orla do Rio

Estudo de Uerj revela que mudança climática afeta a orla do Rio
André Balocco , Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - A menos de uma semana de comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho), más notícias para quem vive na orla do Rio: estudo sobre o litoral carioca apresentado pela Faculdade de Oceanografia da Uerj no IV Congresso Brasileiro de Oceanografia, realizado no Rio Grande do Sul na semana passada, aproxima a cidade do cenário do filme 2012. Comandado pelo oceanógrafo David Zee, o estudo chega à conclusão que, diante da maior incidência de ressacas, por conta das mudanças climáticas no planeta, a faixa de areia de parte da praia de Copacabana está com os dias contados. Até mesmo as normas técnicas que regem a construção na beira-mar devem ser refeitas.
– Não dá mais para construir perto do litoral, porque o mar vai comer, vai avançar – diz Zee, impressionado com o que tem visto.
Presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães afirma que o mar está apenas "usando o espaço que lhe é de direito".
– Parte da areia foi aterrada para a construção da Avenida Atlântica, o mar precisava desse espaço – argumenta. – Quando se anuncia uma ressaca, os donos de quiosques constroem barricadas com sacos de areia a fim de evitar que o mar invada seus banheiros, cozinha e depósito subterrâneos.
Também coordenador do Mestrado em Meio Ambiente da Universidade Veiga de Almeida, Zee diz que a diminuição da faixa de areia nos postos 5 e 6 é apenas a ponta do iceberg que descongela.
– Normalmente, a largura da praia de Copacabana, desde o aterro nos anos 60, varia de 80 a 120 metros. Em situações extremas de ressacas, diminui para 40 a 60 metros. Nunca vi do jeito que está agora – espanta-se, numa referência ao fato de a água, por vezes, bater no calçadão. – A tendência é piorar.
E essa piora, diz Zee, já pode ser percebida no Posto 6, por exemplo. A altura entre o calçadão e a areia, antes de meio metro, hoje chega a quase dois metros. A foto abaixo, tirada segunda-feira, deixa claro o nível da areia estava até bem pouco tempo atrás. Diante do poste, surgiram as pedras do enrocamento que protege o calçadão. Algumas delas já foram tragadas pelo mar; outras estão descendo, pouco a pouco, ressaca a ressaca, em direção ao oceano.
No Posto 5, o fenômeno se repete. Na última grande ressaca, em março, o enrocamento ficou exposto diante dos quiosques da Rua Djalma Ulrich. Até hoje, percebe-se uma ou outra pedra na areia e os barraqueiros foram obrigados a encostar suas barracas nas pedras portuguesas. Pode-se perceber ainda que o mar vem quebrando mais ao fundo, como acontecia antes do aterro.
Entrevista: "Os prédios estão mais vulneráveis", alerta David Zee
Diante desta nova realidade, quais as providências?
– A primeira coisa que precisa ser feita, de imediato, é reformular a estratégia de enfrentamento da ressaca, desenvolver um programa de monitoramento constante através de bóias, entender como a coisa está evoluindo localmente. A segunda é um reestudo das normas técnicas das construções costeiras. Não dá mais para construir tão próximo ao litoral, porque o mar vai comer, vai destruir.
Como evitar que a areia continue sendo roubada?
– Uma barreira de contenção de sedimentos e replantar a vegetação rasteira ajudariam.
A mudança na direção dos ventos que trazem a ressaca causa preocupação a quem vive em prédios antigos?
Sim, os ventos estão mais intensos. É preciso a elaboração de novas normas técnicas para o dimensionamento das suas vidraças, pois há risco delas se espatifarem.

Skoob

BBC Brasil Atualidades

Visitantes

free counters