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sábado, junho 12, 2010
Andar com fé eu vou...
Já dizia o Gilberto Gil: “andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá...”, até aqui tudo bem! Mas diferentemente do poeta, a minha fé não está na maré, não está na mulher, na cobra coral nem na ponta de um punhal. Minha fé, também, não morrerá triste na solidão...
A verdadeira fé é a antítese da desesperança, o antídoto da incerteza e a existência antecipada do final feliz que ainda virá na vida. A fé move montanhas sim, mas também sabe esperar com paciência, sabe descobrir e discernir caminhos encobertos desde a antiguidade. Ela é a trilha do justo e o andar de mãos dadas com quem criou todas as coisas, cavou mares, abriu céu, pintou estrelas, soprou vida em um mundo que era vazio e sem forma. Quem anda e vive por fé tem a consciência plena e absoluta de que todas as coisas, sim! Todas mesmo! Vão vindo em nossa direção sem que precisemos temê-las, correr em direção a elas ou delas.
A fé também é um escudo por meio do qual apagamos os incêndios desesperados da existência, dos ataques do medo, da angústia e de todas as surpresas malignamente desagradáveis, que vão surgindo ou sendo plantadas nos nossos caminhos todos os dias.
A fé é a certeza do abraço dado no bem, na esperança e no amor e de que todas as existências, daqui ou do além, um dia se dobrarão ao Sol da Justiça e confessarão Seu nome eterno.
Eu posso não ter alcançado, ainda, tudo o que sonho ou planejo. Pode ser até que haja dores, eu posso lançar olhares cansados à minha volta sem estar experimentando existencialmente a minha própria alegria ou liberdade, pode acontecer de vir à minha mente, e às vezes vem mesmo, pensamentos que, momentaneamente, queiram me forçar a desistir de sonhar com fé nas Promessas. Mas por saber que a minha espera não se condiciona ao que eu posso fazer sozinho nem se baseia na minha própria sorte aleatória, o que eu faço é aguardar em fé, com os olhos indesviáveis, Naquele que é o penhor, a garantia eterna e real do bem que me resgatou e mora em mim para todo o sempre.
Eu vou andar pelo vale da sombra da morte e não temerei mal nenhum, cairão mil ao meu lado e dez mil à minha direita, vou enfrentar mares, ventos contrários, terrores noturnos, mas eu não serei removido porque eu sei que o meu redentor vive pelos séculos do séculos. Minha esperança está além da vida e, até mesmo, muito além da morte.
Minha fé não é show e também não projeta a prosperidade que a traça, a ferrugem e os ladrões da “fé” levam embora de um dia para o outro. Minha fé também não é boba, muito menos alienada da vida e das realidades que andam lado a lado no meu caminho. Minha fé identifica tempos e eras, oportunidades e desafios, pessoas e princípios, coisas concretas e poderes informes.
Já me acostumei a enxergar sem ver, sentir sem saber, ouvir somente com o coração e ter consciência de onde estou sem saber para onde vou. Simplesmente porque a fé que opera em mim, mesmo sem eu saber, não joga comigo, nem me empurra para lugar nenhum, ela se apresenta em amor e por amor. Eu sei que, ao optar por andar em fé no Eterno, corro o irremediável risco de que todas as coisas concorram inevitavelmente, sempre, para o meu bem.
O Senhor, que é plantador de fé, lhe abençoe rica, poderosa e sobrenaturalmente!
Pablo Massolar - Pastor da Igreja Metodista na 1ª Região Eclesiástica.
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A primeira senhora do campo
A primeira senhora do campo
Valor Econômico - 11/06/2010
Valor Econômico - 11/06/2010
"Sempre fui muito determinada", diz Kátia Abreu, do outro lado da mesa na Churrascaria Fogo de Chão, enquanto absorve delicadas fatias de fraldinha ao sal grosso, o seu bocado predileto da carne assada. "Adoro carne, sou carnívora." Totalmente dedicada em combater o "fundamentalismo", que, segundo ela, habita os círculos ambientalistas e os Ministérios do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Agrário, não foi fácil introduzir na conversa assuntos alheios à sua militância ideológica. Senadora do DEM (ex-PFL) do Tocantins e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Kátia Abreu cumpre a missão para a qual foi eleita: faz o "lobbying" do agronegócio. E o faz com esmero, talento e, admita-se, determinação. O tempo inteiro, aparentemente. O Fogo de Chão da Avenida Bandeirantes - rede de churrascarias de elite pertencente a gaúchos da cidade de Encantado, com mais casas em São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Salvador - foi escolhido para este "À Mesa com o Valor" por causa da agenda carregada da senadora, que precisava almoçar perto do Aeroporto de Congonhas em São Paulo e participar ainda à tarde de reuniões em Brasília. Kátia Abreu aprovou a escolha do repórter e valeu-se da pressa para não perder o foco, permitiu ligeira abordagem de temas pessoais, mas fez o tempo esgotar-se antes do contraditório. Nada a estranhar nesse comportamento, pois é assim que se comportam políticos de sucesso - e Kátia é boa nisso.
- Vamos tomar um vinho?
- Vou ficar só na água, obrigada. Ela vota no tucano, mas gostou da irritação da petista com os ambientalistas.
Solidários, repórter, fotógrafa e a assessora de imprensa da senadora conformam-se com a abstinência e as boas carnes passam, então, a ser o exclusivo encanto gustativo do almoço: picanha, costela, fraldinha, costeleta e paleta de cordeiro, lombo de porco, que agradam aos brasileiros e já conquistam americanos em outros 16 Fogo de Chão que a família de gaúchos espalhou pelos Estados Unidos, de Washington a Dallas. Exagero de carnes, precedido por profusão de saladas - nesta temporada, atração extra: pinhão cozido, descascado, cor-de-rosa, levemente salgado e tenro. Verduras, legumes, queijos justificariam a visita de um lactovegetariano à churrascaria, não lhe saísse a excursão muito cara, R$ 88 por pessoa. Na sua fazenda de 5 mil hectares, Kátia cria gado Nelore, robusto zebuíno branco de origem indiana que produz carne diferente, menos macia que o Angus deste almoço. "Angus é raça europeia, escocesa. Quando é pura, tem gordura entremeada na carne, igual ao cupim. Eu não gosto. No Brasil, fazemos o chamado cruzamento industrial, gado zebu com europeu. A gordura fica fora da carne, não dentro dela. E a carne é mais saborosa. Este Angus do Fogo de Chão não é puro, tem cruzamento. Outra vantagem é que se consegue antecipar o abate Aos 48 anos, Kátia Abreu lembra que foi urbana mais da metade da vida; vivia em Goiânia e, apesar de casada com o criador de gado Irajá Silvestre, jamais pretendera entender de boi gordo, inseminação, engorde, abate e exportação de carne.
- A senhora se formou em psicologia. Como foi isso de virar líder do ruralismo, guerreira, meio mandona?
- Antes quero pedir à Vandinha um relógio para nós. A que horas é o nosso voo?
A assessora põe o próprio relógio à frente da senadora e informa que há voos para Brasília às 14h56 e às 15h51 O repórter se intromete e sugere o segundo horário. A senadora decide-se pelo primeiro. - Minha entrada para a área rural foi resultado de uma tragédia. Acontece com a maioria das mulheres, elas se tornam fazendeiras sempre pela dor. Ou o marido morreu e ela herdou a fazenda; ou o pai morreu e ela herdou; ou separou-se do marido e ficou com um pedaço da fazenda. Poucas vão para o campo por amor: "Tenho aqui um dinheiro e vou comprar uma fazenda". Quando meu marido faleceu num acidente aéreo terrível, em 1987, ele tinha uma fazenda em Aliança do Tocantins, na região de Gurupi, a uns 240 quilômetros de Palmas, hoje Estado do Tocantins, mas que ainda era Goiás. Dezessete dias após a morte de Irajá, a mãe dele morreu também, de paixão. Mais seis meses e morre minha avó, que morava conosco. Nas minhas fantasias, cheguei a pensar que eu própria ia morrer, de parto. Kátia ocupa o terceiro lugar e é a única mulher numa fila de oito irmãos. Tinha um filho de 4 anos, outro de 1, e estava grávida de 2 meses ao ficar viúva, aos 25 anos.
- A família nem imaginava que eu não iria vender a fazenda. Era uma coisa decidida na cabeça deles. Pensavam até em abrir uma loja para mim em Goiânia. Estava me formando em psicologia na Universidade Católica e avisei que não, que iria para o desafio do campo. Coloquei a propriedade em nome dos filhos e passei a administrá-la como gestora. Repito, tenho alguns defeitos e uma qualidade: a determinação.
- E como foi essa experiência?
- Na minha terra, quando uma fazenda está muito feia, largada, as pessoas dizem: "Parece fazenda de viúva". Pois eu falei: "Isso não vai acontecer comigo". Eu me esforcei, aprendi tudo e superei o preconceito. Não deixei o negócio desandar e aumentei a produtividade. As pessoas passaram a me reconhecer como uma delas, uma empresária rural. Passados seis anos, fui eleita presidente do sindicato rural, em eleição duríssima. Enfrentei machismo, violência. Venci. Depois, é o que se sabe: ruralismo e política. Kátia foi, em seguida, eleita presidente da Federação da Agricultura do Tocantins e, em 1998, se candidatou a deputada federal pelo PFL. "Nunca mudei de partido, o PFL é que mudou de nome." Faltaram 500 votos e ficou com a primeira suplência, mas o governador Siqueira Campos distribuía alternadamente secretarias entre os deputados titulares para que Kátia os substituísse.
- Viravam secretários por sua causa?
- Não posso nem falar isso.
E foi assim que um(a) suplente acabou membro titular da Comissão de Agricultura da Câmara e líder da Frente Parlamentar da Agricultura no Congresso (bancada ruralista), então com 180 integrantes. Em 2002, elegeu-se finalmente deputada, com votos de 12,91% dos eleitores do Tocantins. Proporcionalmente, foi a terceira mais votada em todo o país; à sua frente, só Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) e o correligionário José Roberto Arruda (DEM). Em 2006, elegeu-se senadora e, dois anos depois, tornou-se a primeira mulher a presidir a CNA.
- Sua fazenda nunca teve problemas com os sem-terra?
- O MST nunca foi forte por lá. Desde os dois mandatos de Siqueira Campos e o de Marcelo Miranda no governo do Estado, a reintegração de posse sempre foi muito rápida. Então eles se intimidam e evitam os Estados em que os governadores cumprem a lei. O MST prefere invadir onde os governadores afrouxam, como em Pernambuco.
- Não ocorre o mesmo em São Paulo? Tantos anos de governo do PSDB e é permanente o conflito no Pontal de Paranapanema...
- Não. Lá existe um litígio antigo e eles teimam em dizer que são terras públicas. Na realidade, o Brasil inteiro foi terra pública, não é? Então precisa de uma regulamentação, privatizar a área para que a produção se estabeleça, e isso está sendo providenciado. As reintegrações de posse em São Paulo têm acontecido de forma imediata. Mas aqui é o foco da mídia. Quem quer aparecer, armar confusão, vem para São Paulo, como esse Rainha [José Rainha Júnior, dirigente afastado do MST no extremo oeste do Estado]. O que acontece aqui vira notícia, tem holofote em cima.
Toca o celular. A senadora atende. "Só um minutinho. É o Reginaldo, preciso terminar um artigo para a Folha ... (T) Alô? Oi, Reginaldo." Percebe-se que Reginaldo é um assessor da CNA e fala de Brasília. "Reginaldo, vamos lá: quanto, porcento, a União gastava em 2000 com a saúde e quanto gastava em 2007? Tem uma tabelinha aí, escrita à mão, está dentro dessa pastinha, usei no discurso que fiz para os prefeitos, pode procurar e me liga de volta, ok? Até mais."
Kátia desliga e comenta: "O governo do presidente Lula gastava, quando ainda tinha a CPMF, menos em saúde do que no tempo do Fernando Henrique. No ano 2000, a União participava do bolo do gasto da saúde com 60%. Em 2007, 45%. E tem a PEC 29, Emenda Constitucional, iniciativa do governo, que deveria aumentar os recursos para a saúde. Aumentou? Não. A saúde está tendo prejuízo. A regulamentação estacionou no Congresso e o governo não tem interesse em votar. Hoje os recursos da saúde são de R$ 56 bilhões. Se se mantivesse a metodologia anterior, seriam uns R$ 119 bilhões. Mas o governo prefere gastar R$ 40 bilhões com o funcionalismo."
- Caramba! - É Vanda, escandalizada.
Kátia aponta o dedo para o alto:
- E a Dilma diz que o que falta é a CPMF...
O rodízio, rápido demais, impacienta a senadora. "Por favor, moço. Vá um pouco mais devagar, deixe-nos conversar. Se quiser mais alguma coisa, eu peço." - Como está o Código Florestal? A senhora e o deputado Aldo Rebelo, do PCdoB de São Paulo, têm feito uma afinada parceria.
- O Aldo é um exemplo muito interessante para o Brasil, para quebrar aquele paradigma de que quem é de um partido de esquerda é contra tudo e todos. A gente se entende não é de agora. Gosto de repetir que, se não fosse Aldo Rebelo, ainda não teríamos transgênico funcionando no Brasil.
Como relator e presidente da Câmara, o deputado fez aprovar, no início do governo Lula, um substitutivo sobre a nova lei de biossegurança que satisfez Kátia e o agronegócio. Dirigente de um partido que pregava a coletivização da propriedade rural e promoveu uma guerrilha maoísta a apenas 500 quilômetros ao norte da fazenda da hoje presidente da CNA, Rebelo está novamente aliado a Kátia Abreu. Como relator do novo Código Florestal, Aldo propôs que os Estados, e não a União, estabeleçam os limites mínimos de reserva legal e a redução de 30 m para 7,5 m na área de preservação à beira dos rios.
A senadora não poupa o que chama de "eles" e entre esses inclui os líderes dos sem-terra, os ambientalistas de dentro e fora do governo e os ativistas que tumultuaram a apresentação do relatório de Rebelo e lhe mostraram o cartão vermelho, como se isso fosse ofensa a um dirigente comunista.
- Eles querem criminalizar, transformar a produção de alimentos em alguma coisa do mal. Nos acusam de destruir a mata atlântica, o cerrado, a floresta amazônica. Mas não as transformamos num nada, num vento. Transformamos em comida, emprego, exportações, PIB. Se o ser humano precisa de ambiente equilibrado, precisa de comida também. Ninguém vive sem as duas coisas. Dou um número oficial: O Brasil tem 56% de toda sua área de forma original, mata nativa.
- E isso é muito ou pouco?
- A Europa tem 0,1%. Brasil é o segundo no mundo. A Rússia é o primeiro e o Canadá, o terceiro. Sabe por quê? Lá é só neve, por isso não desmataram tudo. Os Estados Unidos têm 26%. Na África, hoje, 7,5%; na Índia 5 e pouco. Então, quando digo que somos a maior agricultura do planeta e a mais moderna, falo de preservação de biomas, produtividade, eficiência e excelência. A mão que produz é a mesma que preserva.
- Quer dizer, então, que nossa agropecuária não é predatória?
- Predatória? Isso é calúnia, mentira interesseira, nociva ao país, xiita. Mais grave ainda é a atitude de quem não quer debater a questão ambiental...
- Exemplo...
- A maioria das ONGs, o Ministério do Meio Ambiente, o pessoal do Incra... Quer um exemplo? Em março a CNA lançou o seu Projeto Biomas, um conjunto de ideias e iniciativas práticas para aperfeiçoar a produção e preservar a natureza nos seis biomas brasileiros, Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. Em cada bioma, a Embrapa vai indicar uma fazenda com as características típicas da região para servir de vitrine tecnológica, uma espécie de grande e moderna estação experimental. Não vai ser a minha fazenda nem aquela que ninguém quer. O que for desenvolvido ali será replicado pelo país. Convidamos as ONGs, o ministro do Meio Ambiente, todo mundo, para conhecer o projeto. Sabe quantos apareceram? Ninguém, zero! Ninguém precisa ir aonde a CNA convida, mas está clara a má vontade para o diálogo.
- É boa a sua relação com a Embrapa?
- A Embrapa tem colaborado. O Projeto Biomas é dela. E agora começaram a acusar a Embrapa de estar vendida aos ruralistas. É a prática de denegrir quem não está de acordo com eles, dividir a agricultura entre bons e maus. Criticam, por exemplo, a Fundação Getúlio Vargas porque fez um amplo e sério estudo que desmente a farsa de que a agricultura familiar é mais produtiva que o agronegócio. Infelizmente, a agricultura familiar é responsável por apenas 23% dos alimentos produzidos no país. O pequeno agricultor é um herói, sua participação no valor bruto da produção é até muito, diante da falta de assistência técnica e das dificuldades de comercialização...
- Apesar das divergências com o governo, a senhora apoiou em 2009 a MP da titulação de terras na Amazônia, que alguns chamam de legalização da grilagem.
- Apesar das divergências com o governo, a senhora apoiou em 2009 a MP da titulação de terras na Amazônia, que alguns chamam de legalização da grilagem.
- Fui a relatora e apoiei porque significou avanço na segurança jurídica. Os desmatamentos não eram punidos porque as pessoas não eram identificadas, as terras não tinham dono. A Medida Provisória do Lula passou contra os votos do PT no Senado, inclusive da Marina Silva e do Aloizio Mercadante.
- A CNA não se entendia muito bem com a Marina. E com o sucessor dela no Meio Ambiente, Carlos Minc?
- O Minc mudou muito. No início, o relacionamento foi ótimo. Fui relatora do orçamento do Meio Ambiente e tripliquei os valores que pediu. Ele me agradeceu muitíssimo. Depois, acho que se viu em dificuldade eleitoral no Rio e chamou os produtores rurais de vigaristas. Já com a nova Ministra, Isabela... como é mesmo o nome dela?
... Isabela Teixeira, o relacionamento é bom. Convidei-a para conhecer o Projeto Biomas. Falta só agendar.
- Carlos Minc, do PT; Fernando Gabeira, do PV, do PSDB e do DEM, qual é a diferença?
- Gabeira é muito inteligente. Ele foi a um debate na CNA com o João Paulo Capobianco [vice-ministro do Meio Ambiente na gestão de Mariana Silva]. Maravilhoso, debate de alto nível. O próprio Capobianco agradeceu e disse: "Quem diria, eu aqui, na CNA!" E eu disse: "Quem diria, eu convidar você para a CNA!"
E como eram as relações da CNA com a Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff?
- Percebi na Ministra Dilma certa irritação com essa radicalização no que diz respeito à questão ambiental relacionada com as obras do PAC, de infraestrutura. Mas essa irritação poderia ter sido transformada em uma ação mais efetiva de mudança de comportamento e de mudança de leis dentro do Congresso Nacional. Se o fundamentalismo está empatando a produção de alimentos e empatando o progresso da infraestrutura, alguma coisa está errada e tem de ser mudada.
A assessora mostra o relógio, Kátia Abreu serve-se de uma fatia de manga, suave e doce, e o almoço está encerrado. Já de pé, a senadora preserva a fidelidade partidária, que manda apoiar e confiar na vitória de José Serra. "Eleição dura, mas o Serra é favorito."
- E a senhora pode ser vice?
- Recusei até mesmo a chance de governar meu Estado, apesar das possibilidades de vitória. Estou comprometida a continuar presidente da CNA e a exercer bem o mandato de senadora. É a minha determinação.
Cityscape Hong Kong, China Fotografia por Ghani Khan
Um flash de vermelho nas águas da noite do Mar da China Meridional com arranha-céus brilhantes marca a prosperidade de Hong Kong. Com sete milhões de habitantes em sua região de 426 quilômetros quadrados (1.103 quilômetros quadrados), o megaporto asiático é uma das áreas mais densamente povoadas do mundo.
''Não é possível mais conviver com corrupção'
''Não é possível mais conviver com corrupção''
Chico Whitaker, coordenador da Abracci Otimista, ele acredita que a mudança no texto feita pelo Senado não vai implicar problema para aplicação da lei
Moacir Assunção
Um dos coordenadores nacionais da Articulação Brasileira contra a Corrupção e a Impunidade (Abracci), o ex-vereador Chico Whitaker teve a oportunidade de dar, em primeira mão, a um grupo de alunos de um curso de política do qual ele participava, na quinta-feira, a notícia da aprovação do projeto Ficha Limpa - agora Lei 135/2010, votada e sancionada - para as eleições deste ano.
Otimista, Whitaker considera que a mudança no tempo verbal da lei aprovada na Câmara e Senado não implica qualquer problema para a aplicação da lei. O Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) - rede de 44 entidades que encampou a proposta - se prepara para montar um site por meio da Abracci para acompanhar, nacionalmente, a efetivação da lei. "A vitória no TSE foi um belo avanço. Isso provou que em toda a sociedade há o sentimento de que não é possível mais conviver com a corrupção e a impunidade na política brasileira", comemorou.
Quais os próximos passos do movimento após a vitória no TSE?
Vamos trabalhar no sentido de garantir a aplicação da lei. Naturalmente, haverá muitas impugnações de candidatos pela Justiça e contestações à lei que poderão chegar ao Supremo Tribunal Federal. Pretendemos fazer uma grande mobilização para acompanhar a aplicação da lei.
A decisão do TSE, respondendo à consulta do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) sobre a validade da lei para estas eleições, surpreendeu o MCCE?
O mais importante, para além da decisão por um placar de 6 a 1, é que, ao responder favoravelmente à consulta, o TSE admitiu, implicitamente, a constitucionalidade da lei. Quando fizemos, também por iniciativa popular, a Lei 9.840, que pune a compra de votos, o TSE colocou de volta na lei uma expressão que os deputados haviam retirado segundo a qual o parlamentar pode sofrer a pena se um preposto seu comprar votos.
E a polêmica questão dos tempos verbais após os acréscimos no Senado?
Não há, ao contrário do que se disse, problema algum para a aplicação da lei no ato do registro dos candidatos, em 5 de julho próximo, quando só poderá se registrar quem tiver ficha limpa. Quem matou a charada foi o Duque de Caxias que, na Guerra do Paraguai, disse: "sigam-me os que forem brasileiros". A expressão "os que forem" significa exatamente "os que são". Este é o espírito da lei e é assim que, temos certeza, será encarado pela Justiça. Aliás, o próprio relator, ministro Hamilton Carvalhido, disse que o artigo terceiro da lei refere-se a fatos já ocorridos.
O que se pretende para o futuro?
Vamos entrar em outras lutas. A Ficha Limpa e a Lei 9.840 são alguns passos no sentido da moralização da política brasileira, mas sabemos que há muito a fazer. Existe a ideia de se utilizar a estrutura dos cerca de 300 comitês no País para começar a discussão sobre uma reforma política que inclua temas como financiamento público de campanhas, fidelidade partidária, coligações, voto em listas, suplentes de senadores sem voto, número de cargos de confiança em gabinetes e vários outros pontos. O detalhe é que uma lei de iniciativa popular talvez não servisse nesse caso porque ela só pode ter um tema específico e a reforma deve ser bem mais ampla.
QUEM É Arquiteto de profissão, é sócio-fundador da ONG Transparência Brasil e representante da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo no MCCE e na Abracci. Foi vereador de São Paulo pelo PT e líder do governo de Luíza Erundina (hoje no PSB). Foi um dos fundadores do partido, do qual saiu em 2006.
Itália cala imprensa com Lei da Mordaça
Itália cala imprensa com Lei da Mordaça
Jornais protestam contra aprovação da legislação que limita transcrição de escutas
O Globo – 12/06/2010
ROMA. Num ato de revolta contra o governo italiano, a imprensa do país protestou ontem contra a popularmente chamada Lei da Mordaça. A medida, proposta pelas autoridades, limita o uso das escutas nas investigações e pune, inclusive com prisão, os jornalistas que publicarem seu conteúdo. Aprovada na quinta-feira pelo Senado, a lei é contestada não só pela maioria dos meios de comunicação, mas também por magistrados que dizem que ela vai prejudicar a luta contra a corrupção e o crime organizado.
O jornal esquerdista "La Repubblica" publicou em sua capa uma página em branco, com apenas um pequeno Post-it amarelo onde se lê: "Lei da Mordaça nega aos cidadãos o direito informação."
O "La Stampa" deixou em branco a coluna de Massimo Gramellini, assim como o espaço humorístico na terceira página de Riccardo Barenghi, com a justificativa de que é preciso "acostumar-se às leis sobre as escutas". O canal a cabo SkyTg24 colocou em um dos ângulos da tela uma tarja preta em sinal de luto: "Contra a Lei Mordaça das interceptações."
Segundo o projeto, apoiado pelo partido do premier Silvio Berlusconi e pela Liga do Norte, as escutas só poderão ser efetuadas caso sejam detectados "graves indícios de delito" e durante um período máximo de 75 horas, prorrogáveis por três períodos. Além disso, o uso de microfones ambientais, que não poderão ser instalados em lugares privados, ficará limitado a 72 horas. As transcrições das escutas não poderão ser publicadas na imprensa enquanto não estiver concluída a investigação preliminar.
Para que seja definitivamente aprovada, a lei terá que ser novamente discutida na Câmara e assinada pelo presidente da República. Em entrevista ao jornal "El País", o deputado Antonio Di Pietro, do partido da oposição, afirmou que a nova lei significa "a morte da liberdade".
- É algo que não poderia ter passado nem com Mussolini - afirmou o deputado, acrescentando que a nova lei vai ter efeitos profundos no sistema de Justiça, na luta antimáfia e na liberdade de imprensa.
PSDB e DEM aplicaram uma rasteira em Gabeira
PSDB e DEM aplicaram uma rasteira em Gabeira
Xico Vargas - 11-06-2010
Xico Vargas - 11-06-2010
A contabilidade da votação da emenda Pedro Simon é clara: além da inestimável ajuda à tunga contra o Rio de Janeiro na questão dos royalties do petróleo, DEM e PSDB aproveitaram a madrugada da quinta-feira, 10, no Senado para jogar um balde de sal na candidatura de Fernando Gabeira ao governo. Tudo bem que as duas legendas não tiveram competência para emplacar nesta legislatura um senador fluminense que votasse pelo Rio, mas apedrejar o estado em bloco é realmente muita cegueira política.
Sabe-se que no Rio o PSDB é anêmico e o Democratas não vai muito além do ilusionismo produzido por Cesar Maia. Não por outro motivo, inclusive, os dois se engancharam no charme de Gabeira para disputar o governo com algo que se assemelhe a uma chapa. Depois do bonito que fez na campanha para a prefeitura, o verde entrou de vez na mira dos tucanos fluminenses. É o melhor truque para manter respirando um partido que começou a se desmilinguir no estado quando a tropa de Marcello Alencar tomou a legenda de assalto. Mas isso é outra história.
A campanha para o governo nem começou, mas até a semana passada o quadro oscilava assim: Cabral estava muito bem no Rio e, com vantagem, dividia o interior e a Baixada Fluminense com Garotinho. Gabeira tinha espaço para crescer no Rio e na Baixada, e mal se ouvia seu nome no interior. Aí, o longo braço da lei fechou-se em torno do pescoço de Garotinho e mudou tudo.
Se o marido de dona Rosinha ainda conseguir emplacar uma candidatura – o que ainda parece muito difícil – estará de qualquer maneira com a espada sobre a cabeça. Gabeira caminhava para ser a única oposição válida a Sergio Cabral. Poderia ter sido se os senadores dos dois maiores partidos que lhe patrocinam a candidatura não tivessem enfiado a goela grande nos royalties para posar de bacanas em outubro. Derrotam o Rio e nem de longe resolvem os problemas de seus estados. Com aliados assim Gabeira, realmente, não precisa de adversários.
FICA - Uma das mais belas crônicas de Amor que já li!
Fica
Joaquim Ferreira dos Santos
O que está escrito atrás do filme, do balé e da noite da Lapa
Ah, não me deixa. Está no novo filme de Wong Kar Wa, na nova coreografia da Deborah Colker, todos eles falando sobre abandono, traição e o jogo sujo da crueldade amorosa. Por favor. Olha. Escuta. Não faça o mesmo. Dói. Veja a multidão desesperada na Lapa, no Baixo Botafogo, todos dedicados ao jogo sem regras de pegar gente. Olhos em giroscópio, caçadores de almas. Não coloque mais um personagem na guerra selvagem dos apaixonados que deixam de sê-lo e, pronto, na cena seguinte tem mais alguém na grande comunidade dos solitários amargando o calvário tão moderno de estar abandonado, sequelado e todas as outras rimas de coitado. Mais um que abaixa a cabeça no tampo frio dos balcões e pede um pedaço da torta de blueberry que ninguém quis. São personagens bêbados pela falta de alguma explicação, vítimas de perplexidades amargas, de perguntas sem respostas, de telefones que emudeceram, de uma ausência que nada preenche. Ela. Ele. Alguém foi embora. Sem mais. Sem aviso prévio. Nem aí para mais um coração quebrado na sarjeta. Dói na garganta de cada um a possibilidade de ser o próximo a vagar, trêbado, as fichas brancas do AA no bolso da camisa, a repetir cabisbaixo, taciturno, esse mantra dos que, de repente, estava tão bom, ela dizia que me amava, ele dizia que era para sempre, de repente ficaram sozinhos. Por que? O que aconteceu? Fala. Responde. Atende o telefone. Eu vi todas aquelas portas batendo na cara de gente-como-a-gente no filme do Kar Wai, gente que só lhe quis tanto bem, e, eis-me aqui, antes que seja tarde, urge abrir o jogo, cantar os versos básicos daquela canção. Não se vá. Ouve só. Hora de repetir o balbuciar dos trágicos do Nelson Rodrigues. Olha. Presta atenção. Eu estava no cinema, logo depois na primeira fila do balé do Municipal. Senti o medo que permeia os bastidores sentimentais de todos esses artistas geniais, a certeza de que já aconteceu com eles também – e com quem não? Percebi que na hora do embate amoroso nós somos dois sem-vergonhas, leitores de "Capricho", "Ilusão", "Sétimo Céu" e "Grande Hotel", todos tementes que role na real o que agora acontece com os artistas na fotonovela, na tela e no palco. Acabou. Fui. Como se diz adeus para uma pessoa com quem você imaginou ficar a vida inteira? Como se percebe que aquele beijo foi o último e, ao contrário de todas as outras que faziam fechado, em "ohm", ela nunca mais lhe gemerá aos braços a felicidade aberta em "ahm"? Ninguém sabe a resposta. Há conselheiros vendendo livros sôfregos, oferecendo folhetins ansiosos com a promessa de solução. No las hay. As bruxas do desprezo e da rejeição, sim. Não há uma fórmula que se decore e amadureça para participar, sem dor, desse jogo de sinais. Não é war. Há quem diga que é adeus na lata. Há quem, um telefonema a menos hoje, um encontro menos empolgado amanhã, aos poucos vai mudando de trem e atracando em outra estação. Acontece de tudo, sofre-se das maneiras mais inéditas e sem vacina de prevenção. Uma dengue que dá no peito. Ninguém amadurece o suficiente para tirar de letra o aviso ou a falta dele. Fui. Não há bula. Nenhum genérico. No filme, uma porta se fecha sem qualquer explicação, sem sequer o último bilhete para fazer o acerto de caixa sentimental – e ela, e ele, nenhum dos dois nunca mais volta. Sofre-se. Os desassistidos, os descontinuados do amor. As mulheres mais lindas desta geração estão sozinhas, os rapazes mais espertos não sabem o que fazer. Foi aí que tocou o horror de se fazer súbito silêncio nos sete sinos da felicidade na porta do apartamento, foi aí que alguém, deu para ouvir daqui, gritou uma dor qualquer – e eu amplifico. Fica. Bateu o medo surdo-mudo de virar personagem de filme, virar coreografia de vanguarda, virar bolero antigo e depois ronronar sozinho pelas ruas, pelos estacionamentos, cantando a velha canção de Gullar e Caetano que Calcanhotto acabou de gravar. Onde andarás nesta tarde vazia? Em que bar, em que cinema, esqueces de mim? Por isso, todos os artistas sofrendo do mesmo pavor eterno do abandono, do olho da rua, do meio-fio dos cachorros babuchos, por tudo isso aqui se está, jogado aos seus pés, na tentativa desesperada de fugir da balada-paranoica que a todos consome e iguala. Não pica a mula. Não bate a porta. Fica comigo esta noite, a de amanhã também, e a do fim de semana será como no início de tudo, os mesmos sorrisos, um banho de morritos em todos os erres da crueldade da perda. Não te arrependerrás. Lá fora o frio é um açoite, calor aqui tu terás – e todas as outras músicas que falam das almas secretas de cada um. Acredita. Sente só. Não chore com a voz triste do Ottis Redding cantando ao fundo. Não se impressione com o jogo de faca dos que traem e abandonam. É só uma música do filme, uma cena impressionante do balé, e nada disso tumultuará o sono dos que querem dormir em conchinha de adoração positiva e nunca acordar para o pegapracapá dos sonâmbulos lá fora, dos deserdados amorosos rondando o quarto aquecido em que agora se está. Eis o único projeto possível. Ficar junto. Ganhar a Libertadores da América. Comer sardinha frita na Cadeg. Sussurrar no ouvido a promessa definitiva. Nunca mais as noites aflitas no Trapiche Gamboa, o dar mole no Carioca da Gema, o pisca-pisca do Orkut. Nunca mais vagar ao lado de todos os zumbis cegos pela rejeição amorosa, capazes de deixar a chave no balcão do Capela e esperar que ele, que ela, qualquer um dos tantos que já se foram, tenha uma crise de arrependimento e reconsidere. Abra a porta de novo. Perdão. Perdoa. Agora vai ser diferente. Nunca mais um motivo para beber. Pedir um traçado no balcão e perceber, no primeiro trago, que ninguém bebe aquilo por gosto – e, mesmo assim, o fígado pedindo tempo, ter vontade de pedir outro para dar um porre no passado. Afagar a dor. Foi a última dose. Nunca mais qualquer migalha noturna que sirva apenas para esquecer. O telefone vai tocar o lero, o bolero, o tango e todas as outras delícias sonoras da conversa dos amantes. Como você está vestido? Já comeu alfajor de maisena? Os filmes, os balés, os bares da Lapa. Nunca mais o 'procura-se' piscando néon na boca do peito de um Baixo qualquer, a bandeira cruel de que se está no mercado à cata do que quer que seja e – por favor ele acabou de pedir as contas, ela não telefonou mais – alivie a dor de um inverno já aparecendo na esquina. Sente só. Ouve. Escuta de novo esse bolero que toca desde o início e, ah, não me deixa.
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