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quinta-feira, outubro 14, 2010

Amor

Amor
Martha Medeiros
Depois de um bom tempo dizendo que eu era a mulher da vida dele, um belo dia eu recebo um e-mail dizendo: 'olha, não dá mais'.
Tá certo que a gente estava quase se matando e que o namoro já tinha acabado mesmo, mas não se termina nenhuma história de amor (e eu ainda o amava muito) com um e-mail, não é mesmo?
Liguei pra tentar conversar e terminar tudo decentemente e ele respondeu: ‘mas agora eu to bebendo com os amigos'.
Enfim, fiquei pra morrer algumas semanas até que decidi que precisava ser uma mulher melhor para ele. Quem sabe eu ficando mais bonita, mais equilibrada ou mais inteligente, ele não volta pra mim?
Foi assim que me matriculei simultaneamente numa academia de ginástica, num centro budista e em um curso de cinema.
Nos meses que se seguiram eu me tornei dos seres mais malhados, calmos, espiritualizados e cinéfilos do planeta. E sabe o que aconteceu? Nada, absolutamente nada, ele continuou não lembrando que eu existia.
Aí achei que isso não podia ficar assim, de jeito nenhum, eu precisava ser ainda melhor pra ele, sim, ele tinha que voltar pra mim de qualquer jeito!
Pra isso, larguei de vez a propaganda, que eu não suportava mais, e resolvi me empenhar na carreira de escritora, participei de vários livros, terminei meu próprio livro, ganhei novas colunas em revistas, quintupliquei o número de leitores do meu site e nada aconteceu.
Mas eu sou taurina com ascendente em áries, lua em gêmeos, filha única!
Eu não desisto fácil assim de um amor, e então resolvi tinha que ser uma super ultra mulher para ele, só assim ele voltaria pra mim.
Foi então que passei 35 dias na Europa, exclusivamente em minha companhia, conhecendo lugares geniais, controlando meu pânico em estar sozinha e longe de casa, me tornando mais culta e vivida. Voltei de viagem e tchân, tchân, tchân, tchân: nem sinal de vida.
Comecei um documentário com um grande amigo, aprendi a fazer strip, cortei meu cabelo 145 vezes, aumentei a terapia, li mais uns 30 livros, ajudei os pobres, rezei pra Santo Antônio umas 1.000 vezes, torrei no sol, fiz milhares de cursos de roteiro, astrologia e história, aprendi a nadar, me apaixonei por praia, comprei todas as roupas mais lindas de Paris. Como última cartada para ser a melhor mulher do planeta, eu resolvi ir morar sozinha. Aluguei um apartamento charmoso, decorei tudo brilhantemente, chamei amigos para a inauguração, servi bom vinho e comidinhas feitas, claro, por mim, que também finalmente aprendi a cozinhar.
Resultado disso tudo: silêncio absoluto.
O tempo passou, eu continuei acordando e indo dormir todos os dias querendo ser mais feliz para ele, mais bonita para ele, mais mulher para ele.
Até que algo sensacional aconteceu...
Um belo dia eu acordei tão bonita, tão feliz, tão realizada, tão mulher, que eu acabei me tornando mulher DEMAIS para ele.
Ele quem mesmo???
Martha Medeiros
"NASCEMOS E MORREMOS SÓS...........
POR ISSO A NOSSA VIDA ESTÁ EM NOSSAS MÃOS.. ..
É UMA BAITA SACANAGEM DEIXAR PRO OUTRO A RESPONSABILIDADE DE NOS FAZER FELIZ, POIS SOMOS TOTALMENTE RESPONSÁVEIS PELA VIDA QUE OPTAMOS TER!!!!"
Martha
"Nunca se deve engatinhar quando se tem o impulso de voar"

quarta-feira, setembro 01, 2010

A reciprocidade nos relacionamentos

A reciprocidade nos relacionamentos
João Bosco Leal

Tenho procurado entender os motivos que levam o ser humano a não demonstrar e, principalmente, não declarar seus sentimentos.
Ainda quando crianças, o primeiro amiguinho, amiguinha ou até namoradinho certamente nos deixarão lembranças que carregaremos pelo resto de nossos dias. Lembraremo-nos sempre de nossa companhia na dança de quadrilha da festa junina e muitas outras coisas.
Entretanto, não nos lembraremos de declarações que tenhamos feito a respeito de qualquer sentimento que tenhamos tido, seja de amizade, de carinho ou de "amor" pela namoradinha da época. Principalmente porque essas declarações provavelmente nunca ocorreram.
Não tínhamos "coragem" de declarar a um amigo que gostávamos de fulana ou sicrana. E o risco desse amigo sair contando na escola e isso virar uma gozação geral? Como dizer a um amigo que gostamos dele sem correr o risco de notar que nossa amizade não é correspondida da mesma forma ou intensidade?
Esse tipo de comportamento é comum em todo tipo de sociedade, de qualquer credo ou religião, ocidental ou oriental, entre seus membros mais ou menos cultos, mais ou menos ricos. O ser humano é egoísta por natureza e nem sempre admite ver um sentimento seu não ser correspondido ou que seja receber o mesmo sentimento, mas em menor intensidade que o seu.
Quando jovens, nos namoricos, queremos sempre ser admirados, desejados, mas muito raramente estamos dispostos a dar essa admiração, desejar, gostar e até amar uma pessoa que não nos retribui. Esse comportamento nos leva a relacionamentos adultos conturbados, cheios de cobranças e com raras doações. Penso ser esse o motivo das maiores dificuldades nos relacionamentos mais duradouros.
A falta da retribuição, que muitas vezes pode até ocorre em gestos e atitudes, mas não é declarada, dita abertamente, pode provocar insegurança no outro. O parceiro vai se cansando de dar e nada ou pouco receber, começando então a se sentir inseguro, com dúvidas sobre o sentimento do outro, e a cobrar atitudes e ações que provavelmente o companheiro ou companheira ainda não esteja preparado para dar.
Quando damos carinho ou fazemos um simples elogio, a pessoa se sente bem, querida, amada, o que a torna um ser humano melhor, mais disposta a novas atitudes e ações até então desconhecidas por ela mesma, talvez acostumada a receber mais do que dar, ou a só receber, como as que foram superprotegidas na infância e juventude.
Com a maturidade, já sem nos importarmos com o que pensam ou falam os outros e, por isso mesmo, muito mais desinibidos, por conta da autoconfiança adquirida, percebemos que, ao dar, o recebimento é uma consequência, e que quanto mais damos, mais recebemos. Ao elogiar uma pessoa, promovemos sua autoestima, o que a deixará mais feliz, mais sorridente e, com isso, nos proporcionará no mínimo um ambiente mais agradável, seja em casa ou no trabalho.
Dando e declarando ao próximo seu sentimento, juntamente com a liberdade dele voar, viajar, mesmo que em seu imaginário, ele volta sempre, para se alimentar de carinho, companheirismo, amizade e amor.
E, quando essa busca ocorrer, precisamos, então, aguardar o amadurecimento de nosso parceiro, para que o mesmo também perceba a importância da reciprocidade, mesmo para os que não a cobram.
www.joaoboscoleal.com.br
Postado por Jornal Bandeirantes News

segunda-feira, junho 14, 2010

Um namorado a essa altura?

Um namorado a essa altura?

Martha Medeiros

Pois é o que se vê por aí: namorados de 47, 53, 62 anos, todos veteranos no papel de novatos


Quem é que tem namorado, namorada? Garotada. Antes de casar, de constituir família e cumprir com toda a formalidade, namora-se, e o verbo é de uma delícia de matar de inveja, namorar, experimentar, entrar em alfa, curtir, viajar, brigar, voltar, se vestir pra ele, se exibir pra ela, telefonar, enviar torpedos, dar presentinhos, apresentar mãe, pai, amigos, ocultar ex-ficantes, declarar-se, agarrar-se no cinema, não ter grana para morar junto, ausência dolorosa, ver-se de vez em quando, um dia tem faculdade, no outro se trabalha até mais tarde, quando então? Amanhã à noite, marca-se, aguarda-se. Namorados. Que fase.
Depois vem o casamento, os filhos, as bodas e aquela coisa toda. Dia dos namorados vira pretexto para mais um jantar num restaurante chique, onde se pagará uma nota pelo vinho. Depois dos 3.782 "te amo" já trocados, mais um, menos um, o coração já não se exalta. Deita-se na mesma cama, o colchão já afundado, transa-se no automático, renovam-se os votos e segue o baile, amanhã estaremos de novo juntos, e depois de amanhã, e depois de depois, até os 100 anos. Casados. Bem casados.
Mas namorado, não. Namorar tem frescor, é amor estreado, o choro trancado no quarto, o presente comprado com os trocados, os porta-retratos, os malfadados bichinhos de pelúcia, as camisinhas e todos os cuidados, os "pra sempre" diariamente renovados, namorados. Cada qual no seu quadrado.
Pois outro dia vi uma mulher de 56 anos dar um depoimento engraçado. Disse ela: "Já fui casada, hoje tenho filhos adultos, um netinho e um namorado, e me sinto quase retardada. Difícil nessa idade dizer que o que se tem não é um marido, nem mesmo um amante. Que outro nome posso dar a esse homem que vejo três vezes por semana, que me deixa bilhetinhos apaixonados e me liga para dar boa noite quando não está ao meu lado?"
Minha senhora, é um namorado. Por mais fora de esquadro.
Como apresentá-lo, ela que já não usa minissaia, nem meia três quartos, e que já possui um imóvel quitado? Ele grisalho, ex-surfista, hoje meio alquebrado: um namorado?
Pois é o que se vê por aí: namorados de 47, 53, 62 anos, todos veteranos no papel de novatos. Começando tudo de novo, depois de tanto já terem quebrado os pratos. Eles, livres como pássaros. Elas, coração aos pulos, depilação em dia, sem tempo para os netos: vovó tem direito a uma volta ao passado.
O que poderia ser constrangedor agora é um fato. Namora-se antes do casamento, e depois. Com a vantagem de os namoros da meia-idade dispensarem ultimatos.

sábado, junho 12, 2010

FICA - Uma das mais belas crônicas de Amor que já li!

Fica
Joaquim Ferreira dos Santos

O que está escrito atrás do filme, do balé e da noite da Lapa

Ah, não me deixa. Está no novo filme de Wong Kar Wa, na nova coreografia da Deborah Colker, todos eles falando sobre abandono, traição e o jogo sujo da crueldade amorosa. Por favor. Olha. Escuta. Não faça o mesmo. Dói. Veja a multidão desesperada na Lapa, no Baixo Botafogo, todos dedicados ao jogo sem regras de pegar gente. Olhos em giroscópio, caçadores de almas. Não coloque mais um personagem na guerra selvagem dos apaixonados que deixam de sê-lo e, pronto, na cena seguinte tem mais alguém na grande comunidade dos solitários amargando o calvário tão moderno de estar abandonado, sequelado e todas as outras rimas de coitado. Mais um que abaixa a cabeça no tampo frio dos balcões e pede um pedaço da torta de blueberry que ninguém quis. São personagens bêbados pela falta de alguma explicação, vítimas de perplexidades amargas, de perguntas sem respostas, de telefones que emudeceram, de uma ausência que nada preenche. Ela. Ele. Alguém foi embora. Sem mais. Sem aviso prévio. Nem aí para mais um coração quebrado na sarjeta. Dói na garganta de cada um a possibilidade de ser o próximo a vagar, trêbado, as fichas brancas do AA no bolso da camisa, a repetir cabisbaixo, taciturno, esse mantra dos que, de repente, estava tão bom, ela dizia que me amava, ele dizia que era para sempre, de repente ficaram sozinhos. Por que? O que aconteceu? Fala. Responde. Atende o telefone. Eu vi todas aquelas portas batendo na cara de gente-como-a-gente no filme do Kar Wai, gente que só lhe quis tanto bem, e, eis-me aqui, antes que seja tarde, urge abrir o jogo, cantar os versos básicos daquela canção. Não se vá. Ouve só. Hora de repetir o balbuciar dos trágicos do Nelson Rodrigues. Olha. Presta atenção. Eu estava no cinema, logo depois na primeira fila do balé do Municipal. Senti o medo que permeia os bastidores sentimentais de todos esses artistas geniais, a certeza de que já aconteceu com eles também – e com quem não? Percebi que na hora do embate amoroso nós somos dois sem-vergonhas, leitores de "Capricho", "Ilusão", "Sétimo Céu" e "Grande Hotel", todos tementes que role na real o que agora acontece com os artistas na fotonovela, na tela e no palco. Acabou. Fui. Como se diz adeus para uma pessoa com quem você imaginou ficar a vida inteira? Como se percebe que aquele beijo foi o último e, ao contrário de todas as outras que faziam fechado, em "ohm", ela nunca mais lhe gemerá aos braços a felicidade aberta em "ahm"? Ninguém sabe a resposta. Há conselheiros vendendo livros sôfregos, oferecendo folhetins ansiosos com a promessa de solução. No las hay. As bruxas do desprezo e da rejeição, sim. Não há uma fórmula que se decore e amadureça para participar, sem dor, desse jogo de sinais. Não é war. Há quem diga que é adeus na lata. Há quem, um telefonema a menos hoje, um encontro menos empolgado amanhã, aos poucos vai mudando de trem e atracando em outra estação. Acontece de tudo, sofre-se das maneiras mais inéditas e sem vacina de prevenção. Uma dengue que dá no peito. Ninguém amadurece o suficiente para tirar de letra o aviso ou a falta dele. Fui. Não há bula. Nenhum genérico. No filme, uma porta se fecha sem qualquer explicação, sem sequer o último bilhete para fazer o acerto de caixa sentimental – e ela, e ele, nenhum dos dois nunca mais volta. Sofre-se. Os desassistidos, os descontinuados do amor. As mulheres mais lindas desta geração estão sozinhas, os rapazes mais espertos não sabem o que fazer. Foi aí que tocou o horror de se fazer súbito silêncio nos sete sinos da felicidade na porta do apartamento, foi aí que alguém, deu para ouvir daqui, gritou uma dor qualquer – e eu amplifico. Fica. Bateu o medo surdo-mudo de virar personagem de filme, virar coreografia de vanguarda, virar bolero antigo e depois ronronar sozinho pelas ruas, pelos estacionamentos, cantando a velha canção de Gullar e Caetano que Calcanhotto acabou de gravar. Onde andarás nesta tarde vazia? Em que bar, em que cinema, esqueces de mim? Por isso, todos os artistas sofrendo do mesmo pavor eterno do abandono, do olho da rua, do meio-fio dos cachorros babuchos, por tudo isso aqui se está, jogado aos seus pés, na tentativa desesperada de fugir da balada-paranoica que a todos consome e iguala. Não pica a mula. Não bate a porta. Fica comigo esta noite, a de amanhã também, e a do fim de semana será como no início de tudo, os mesmos sorrisos, um banho de morritos em todos os erres da crueldade da perda. Não te arrependerrás. Lá fora o frio é um açoite, calor aqui tu terás – e todas as outras músicas que falam das almas secretas de cada um. Acredita. Sente só. Não chore com a voz triste do Ottis Redding cantando ao fundo. Não se impressione com o jogo de faca dos que traem e abandonam. É só uma música do filme, uma cena impressionante do balé, e nada disso tumultuará o sono dos que querem dormir em conchinha de adoração positiva e nunca acordar para o pegapracapá dos sonâmbulos lá fora, dos deserdados amorosos rondando o quarto aquecido em que agora se está. Eis o único projeto possível. Ficar junto. Ganhar a Libertadores da América. Comer sardinha frita na Cadeg. Sussurrar no ouvido a promessa definitiva. Nunca mais as noites aflitas no Trapiche Gamboa, o dar mole no Carioca da Gema, o pisca-pisca do Orkut. Nunca mais vagar ao lado de todos os zumbis cegos pela rejeição amorosa, capazes de deixar a chave no balcão do Capela e esperar que ele, que ela, qualquer um dos tantos que já se foram, tenha uma crise de arrependimento e reconsidere. Abra a porta de novo. Perdão. Perdoa. Agora vai ser diferente. Nunca mais um motivo para beber. Pedir um traçado no balcão e perceber, no primeiro trago, que ninguém bebe aquilo por gosto – e, mesmo assim, o fígado pedindo tempo, ter vontade de pedir outro para dar um porre no passado. Afagar a dor. Foi a última dose. Nunca mais qualquer migalha noturna que sirva apenas para esquecer. O telefone vai tocar o lero, o bolero, o tango e todas as outras delícias sonoras da conversa dos amantes. Como você está vestido? Já comeu alfajor de maisena? Os filmes, os balés, os bares da Lapa. Nunca mais o 'procura-se' piscando néon na boca do peito de um Baixo qualquer, a bandeira cruel de que se está no mercado à cata do que quer que seja e – por favor ele acabou de pedir as contas, ela não telefonou mais – alivie a dor de um inverno já aparecendo na esquina. Sente só. Ouve. Escuta de novo esse bolero que toca desde o início e, ah, não me deixa.



Crônica publicada no Jornal O globo em 28 de abril de 2008

quinta-feira, junho 10, 2010

Quem diz eu te amo


Quem diz eu te amo

Pastor Ricardo Gondim

Quem diz eu te amo,
se assemelha à criança que chama pela mãe.
Quem diz eu te amo,
se compromete seriamente.
Quem diz eu te amo,
se dá sem pedir.
Quem diz eu te amo,
se responsabiliza com as esperanças que fez nascer.
Quem diz eu te amo,
se parece com Deus, o eterno amante.
Quem diz eu te amo,
se conscientiza que se vulnerabilizou à dor.
Quem diz eu te amo,
se despede de poder dizer adeus.

Eu te amo.

sexta-feira, maio 28, 2010

O amor não discute, vai embora

O amor não discute, vai embora

Felipe Pena, Jornal do Brasil
RIO - Ela o manipulava utilizando a própria indignação como estratégia. E não precisava se colocar no papel de vítima. Bastava fazê-lo perceber os julgamentos injustos, a paranoia, a insegurança. Mostrava-se plena, absoluta. Uma confiança quase religiosa perpassava seu sorriso meio de lado enquanto falava. Mas não era tão confiante assim.
Só pareceu ter a situação sob controle até reparar nas estantes vazias da sala e nos caixotes com livros perto do bar, onde, no lugar das garrafas, jaziam pedaços de jornal velho. Havia candelabros cobertos com plástico e quadros embrulhados com papelão. Duas malas cheias estavam empilhadas ao lado da porta, junto com alguns objetos que ainda não haviam sido embalados.
Sentiu o golpe, mas fez-se de desentendida. Aquele idiota recalcado estava fugindo! Fugindo de verdade! Fisicamente. Geograficamente. Covarde filho da puta! Por que ficar de conversinha se já estava decidido a partir? Teve vontade de ser mais violenta do que ele, e não apenas de forma verbal. Precisava mordê-lo, arranhá-lo, bater naquela cara bonita. Como ele era bonito! Agora ainda mais, como um soneto incompleto, uma escultura neoclássica sem os membros, algo inacabado e, por ser inacabado, muito mais bonito.
Não tinha um rosto geométrico. Era masculamente desproporcional: os olhos grandes, as maçãs salientes, o queixo pontiagudo e rachado, a barba meio grisalha com falhas visíveis em ambos os lados. E os sulcos laterais denunciando a idade, o detalhe preferido dela. Um rosto perfeito de um homem perfeito. Tão perfeito que não o veria mais.
- Vou voltar pra casa. Não posso mais ficar aqui. Meu voo está marcado pra depois de amanhã.
Então era o fim. Antes mesmo do começo. O fim. O que poderia fazer? Segurá-lo pelo pescoço? Encenar um escândalo? Suplicar para que ficasse? Dizer: eu te amo, não me abandone! Isso seria pior do que perdê-lo. Porque perderia a fleuma, a postura altiva, a verve crítica que o conquistara. E, nesse caso, o perderia de qualquer jeito.
- Não há encantamento na hora da partida. - ele disse. E ela ficou em silêncio.
O jogo de aforismos de repente perdera o sentido. Não conseguia elaborar uma resposta à altura, uma frase de efeito, algo genial que a trouxesse de volta ao controle. Pela primeira vez, não sentia qualquer prazer na superioridade intelectual. Naquele instante, gostaria de ser uma dona de casa siciliana, com as ancas largas, a lasanha no forno e as crianças na barra da saia.
Queria não ter pensado na carreira, no mundo, na sociedade capitalista. Queria não ter se filiado a um partido de esquerda. Queria não ter brigado com a família. Queria não ter lido Nietzsche, Foucault, Marx, Freud, Deleuze, Lacan. Queria não ter ombros largos. Queria não ter opinião.
Mas tinha. E era estranho pensar como tudo que representava tanto valor poucos minutos antes agora não passava de névoa, espuma de chuveiro, pó.
Deslizou o corpo pelo sofá, segurando no braço, para não cair. Olhou reto, certeira, nos olhos dele. Uma lágrima insistia em romper o bloqueio emocional, mas ela a segurou, refez o dique. Enxugou o canto, discretamente, dilatando a pupila para disfarçar. Ele se aproximou, curvou o corpo, tentou beijá-la na testa, mas ela o afastou.
Beijo na testa era pior do que separação.
Felipe Pena, além de jornalista e escritor, é psicólogo, professor da Universidade Federal Fluminense, doutor em literatura pela PUC, pós-doutor pela Sorbonne e autor de 10 livros, entre eles o romance 'O marido perfeito mora ao lado'.
00:30 - 28/05/2010

domingo, maio 16, 2010

Na vida - Pablo Neruda

Na vida - Pablo Neruda
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, 
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, 
não arrisca vestir uma cor nova e não fala com quem não conhece. 
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru. 
Morre lentamente quem evita uma paixão, 
quem prefere o escuro ao invés do claro e 
os pingos nos "is" a um redemoinho de emoções, exatamente a que resgata 
o brilho nos olhos, o sorriso nos lábios e coração aos tropeços. 
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, 
quem não arrisca o certo pelo incerto, para ir atrás de um sonho. 
Morre lentamente quem não se permite, 
pelo menos uma vez na vida, ouvir conselhos sensatos. 
Morre lentamente quem não viaja, não lê, quem não ouve música, 
quem não encontra graça em si mesmo. 
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte, 
ou da chuva incessante. 
Morre lentamente quem destrói seu amor próprio, quem não se deixa ajudar. 
Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, 
nunca pergunta sobre um assunto que desconhece e 
nem responde quando lhe perguntam sobre algo que sabe. 
Evitemos a morte em suaves porções, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples ar que respiramos. 
Somente com infinita paciência conseguiremos a verdadeira felicidade.

sexta-feira, maio 07, 2010

É possível uma sexualidade feliz? Essa pergunta provocou o filósofo espanhol José Antonio Marina a escrever o livro "O Quebra-Cabeça da Sexualidade".

A ética da paixão
Folha de São Paulo. Caderno Mais - 15/06/2008
EM "O QUEBRA-CABEÇA DA SEXUALIDADE", O ESPANHOL JOSÉ ANTONIO MARINA RETRATA A UTOPIA DA FELICIDADE NAS RELAÇÕES AMOROSAS
MIRIAN GOLDENBERG ESPECIAL PARA A FOLHA
É possível uma sexualidade feliz? Essa pergunta provocou o filósofo espanhol José Antonio Marina a escrever o livro "O Quebra-Cabeça da Sexualidade". Um dos intelectuais mais famosos e lidos na Espanha, Marina escreveu mais de 25 livros desde 1992, quando iniciou sua carreira de pesquisador independente. "O Quebra-Cabeça da Sexualidade" é seu primeiro publicado no Brasil, apesar de não ser o mais vendido de sua lista de sucessos editoriais. Nele, é possível encontrar preocupações e idéias já presentes em livros anteriores, como a questão da ética como meio mais inteligente de viver e de fazer escolhas amorosas e sexuais.
Saber prático
Para Marina, a ética é um saber prático sobre a felicidade. É a inteligência colocada a serviço dos afetos, dos interesses e das esperanças. A ética inventa projetos de vida e indica os deveres necessários para realizá-los. À ética pertence tudo o que é imprescindível para a felicidade e para a dignidade do próprio indivíduo e dos outros.
O autor é irônico e, ao mesmo tempo, sério em suas reflexões. Logo no início, constata a verdade de nossos tempos: a família está em crise, o casamento está em crise, o amor está em crise.
E provoca: "Espero que algum dia a crise entre em crise".
Para Marina, a vida a dois e a vida familiar produzem alegrias e satisfações, mas, também, muita dor, sofrimento e violência. Com a atual ausência de modelos, as relações sexuais e amorosas têm que ser reinventadas individualmente, o que, na teoria, é maravilhoso, mas, na prática, é fonte de conflitos e enormes dificuldades.
O amor tornou-se mais do que nunca necessário para a felicidade e, ao mesmo tempo, quase impossível de ser realizado. Ele analisa a tensão insuperável da atualidade.
Somos impulsionados por duas grandes motivações: o desejo de bem-estar (que é conservador, utilitário, calculista) e a expansão de nossas possibilidades vitais (que é arriscada, incômoda, instável, inovadora). No amor e no sexo queremos nos sentir, paradoxalmente, tranqüilos e exaltados, seguros e intensos, ternos e apressados, fiéis e livres, imanentes e transcendentes.
Pró-liberação
"O Quebra-Cabeça da Sexualidade" é um manifesto em favor da liberação sexual. Para Marina, o que mais se parece com a sexualidade criadora e feliz é uma conversa.
É impossível o diálogo lingüístico, amoroso e sexual para aqueles que só sabem e gostam do monólogo. A verdadeira conversa tem um ar de liberdade compartilhada. Não é possível impor o seu rumo ou obrigar o outro a participar dela sem desejo.
Não é um debate ou uma discussão, uma competição entre dois indivíduos que acreditam serem os donos da verdade ou os proprietários do ser amado.
Ela é imprevisível, cheia de surpresas e descaminhos.
O mesmo acontece com a conversa erótica. O monólogo sexual, para Marina, é como uma masturbação solitária que exclui o outro amante. As conversas eróticas são estimulantes, podem ser intermináveis e dependem do respeito e do cuidado com que se ouve e se presta atenção ao interlocutor.
É a capacidade não só de compreender o que o outro diz, mas de se deixar afetar pelo outro, em todos os níveis. A partir da idéia de uma conversa erótica, Marina desenvolve outras questões que considera básicas para uma sexualidade feliz: o cuidado com o outro, a dignidade da convivência e uma ética própria ao casal.
A vida amorosa, para ele, não é fruto da casualidade nem pode existir com o descaso. O amor tem que cumprir suas tarefas para ser feliz. O amor tem uma ética própria.
O filósofo diz que não deveriam existir monólogos amorosos, mas que é muito raro encontrar um bom interlocutor.

Uma boa conversa
Apesar de tão rara (ou, quem sabe, exatamente porque é rara), a conversa amorosa é um modelo desejado em quase todas as culturas existentes, e a sua ausência é vivida como um enorme fracasso individual e coletivo.
Marina acredita que nos enganamos ao dizer que o grande valor de nossos tempos é a liberdade. Para ele, o grande valor é a autonomia, ou seja, a capacidade de escolher nosso projeto de vida e realizá-lo.
Em uma relação amorosa, certamente, perde-se em parte a liberdade individual, mas, por outro lado, pode-se conquistar a autonomia, aumentar as possibilidades vitais e criativas de cada um dos amantes, despertar poderes adormecidos ou embrionários e construir um novo modo de vida.
Em tempos de banalização das relações amorosas, de extrema superficialização das pessoas, da ditadura do orgasmo obrigatório, de indivíduos infantis, chatos, preguiçosos, covardes e fracassados no amor e no sexo, o filósofo propõe a valorização profunda e terna da intimidade, a reciprocidade equilibrada entre os amantes, o cuidado, a admiração, a valorização e o respeito pelo outro, o exercício da capacidade de se deixar afetar e de afetar o ser amado.
Ele acredita que, mais do que necessário, é urgente desenvolver a capacidade de amar com ética. Só assim responderia positivamente à sua pergunta inicial: sim, é possível uma sexualidade feliz!

MIRIAN GOLDENBERG é antropóloga e professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do RJ e autora de "Os Novos Desejos" (Record).  O QUEBRA-CABEÇA DA SEXUALIDADE Autor: José Antonio Marina Tradução: Diana Araujo Pereira Editora: Guarda-Chuva (tel. 0/xx/21/ 2572-6103) Quanto: R$ 38 (308 págs.)

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