quarta-feira, junho 16, 2010

Cultivo da coca dispara no Peru enquanto as autoridades priorizam repressão ao tráfico

Cultivo da coca dispara no Peru enquanto as autoridades priorizam repressão ao tráfico

The  New York Times - Simon Romero - Tingo Maria (Peru) - 15/06/2010

Ocultivo da coca está disparando mais uma vez nos remotos vales tropicais deste país, em um fenômeno que faz parte de uma grande modificação na estrutura do tráfico de drogas andino, e que está fazendo do Peru um concorrente da Colômbia, capaz de superar esta última como o maior exportador de cocaína do mundo. Os cartéis mexicanos e colombianos estão expandindo as suas ações no Peru, onde duas facções do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso já estão competindo pelo controle do tráfico de cocaína.
Os traficantes – fortalecidos pela constante demanda por cocaína nos Estados Unidos, no Brasil e em partes da Europa – estão frustrando os esforços para combater a ressurgência da droga aqui, e fazem com que aumentem as perspectivas de uma onda de violência ainda maior em um país que ainda se encontra traumatizado por anos de guerra. 
“A luta contra a cocaína é algo que lembra uma tentativa de tentar conter o vento”, diz o general Juan Zarate, que comanda as campanhas de erradicação da coca no país. O aumento da oferta no Peru faz com que seja possível perceber um dos aspectos mais embaraçosos da guerra contra as drogas na América Latina, uma iniciativa que é financiada pelos Estados Unidos, e que teve início quatro décadas atrás. Quando as forças de combate ao narcotráfico têm sucesso em um determinado local – conforme aconteceu recentemente na Colômbia, que recebeu mais de US$ 5 bilhões (R$ 9 bilhões) em auxílio financeiro norte-americano nesta década –, o cultivo da coca é transferido para outras áreas dos Andes. 
Foi isso o que aconteceu na década de noventa, quando o cultivo da coca foi transferido para a Colômbia, após a implementação bem sucedida de projetos de erradicação no Peru e na Bolívia. Mais recentemente, os cultivadores de coca mudaram-se para dezenas de novas áreas no interior da Colômbia, depois que as autoridades pulverizaram plantações localizadas em outras áreas. Os especialistas na guerra contra o narcotráfico andino chamam isso de “efeito balão”, já que para eles esta guerra faz lembrar um balão de gás que apresenta um aumento de volume em um dos seus lados quando o lado oposto é apertado. “A política de Washington caracterizada pela intervenção nos locais responsáveis pela oferta da droga faz com que, inevitavelmente, cresça a eficiência e a habilidade empresarial dos traficantes”, explica Paul Gootenberg, que escreveu o livro “Andean Cocaine” (“Cocaína Andina”).
O efeito balão – e as suas consequências – pode ser presenciado neste momento nos vales cobertos pela selva da região central do Peru, que é o centro da indústria da cocaína.  Em abril passado, uma facção do Sendero Luminoso, o grupo rebelde responsabilizado por dezenas de milhares de mortes no país de 1980 a 2000, durante a sua guerra contra o governo peruano, matou dois erradicadores de plantações de coca e um policial aqui nesta área. Esta mesma região experimentou a primeira onda de produção de cocaína no século 19, depois que químicos alemães desenvolveram a fórmula para a fabricação da droga a partir das folhas da coca, o que gerou um comércio legal de cocaína que seguia para os Estados Unidos e a Europa. Sigmund Freud foi um dos primeiros usuários da cocaína. 
Mas na década de setenta, quando a cocaína já era ilegal aqui e após o governo peruano ter proibido grande parte das novas plantações de coca no país, os chefes do narcotráfico colombiano criaram uma outra onda de narcotráfico, exportando folhas de coca peruana para laboratórios de cocaína do outro lado da fronteira. Mais tarde grupos de guerrilheiros do Sendero Luminoso passaram a proteger os cultivadores de coca na região, o que fez com que o Peru se consolidasse como o maior produtor da matéria prima para a fabricação da cocaína. 
Na década de noventa, o presidente Alberto Fujimori militarizou a região a fim de esmagar o Sendero Luminoso, reduzindo a magnitude do cultivo da coca. Mas atualmente muitos cultivadores estão plantando coca novamente. “A coca nos permite alimentar os nossos filhos”, afirma Jacinta Rojas, de 45 anos, que cultiva coca perto de Tingo Maria, explicando que a coca pode ser colhida até cinco vezes por ano, enquanto o cacau só proporciona uma ou duas colheitas anuais. 
A ressurgência do tráfico de cocaína no Peru está evidente em Tingo Maria, uma cidade movimentada que viveu maus momentos depois que o cultivo da coca despencou durante a década de noventa. Agora, uma grande quantidade de mototáxis circula pelas ruas, e pequenos hotéis e restaurantes atendem a fazendeiros ricos.  Nos clubes noturnos apresentam-se conjuntos peruanos que interpretam a cumbia, a música folclórica que veio da Colômbia, com letras que celebram e lamentam a trabalho árduo dos cocaleros, como são chamados os cultivadores da coca.  “Cocalero, as suas penelas estão vazias; cocalero, a sua mulher está chorando”, diz o trecho de uma música cantada por um grupo local de cumbia. “Mas continue plantando mais coca, e assim o dinheiro vai brotar”.
O aumento do cultivo da coca na região central do Peru contrasta com a situação na Colômbia, onde o cultivo caiu 18% desde 2008, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). No Peru, o cultivo aumentou 4,5% naquele ano, culminando a tendência de uma década na qual as áreas plantadas com coca aumentaram 45% a partir de 1998. O cultivo está crescendo também na Bolívia, embora aquele país continue sendo o terceiro na lista geral dos maiores produtores. 
Chamando atenção para os minguados esforços no sentido de reprimir essa cultura no Peru, especialistas em combate ao narcotráfico em Lima afirmam que o Peru pode já ter ultrapassado a Colômbia no que se refere à exportação de cocaína. Uma análise das apreensões de cocaína na Colômbia e no Peru feita por Jaime Antezana, um analista de segurança da Universidade Católica do Peru, revelou que na Colômbia, que ainda cultiva mais coca e produz mais cocaína do que o Peru, as autoridades apreenderam cerca de 198 toneladas da droga em 2008, contra apenas 20 toneladas no Peru. Isso possibilitou que os traficantes peruanos tivessem capacidade de exportar 282 toneladas de cocaína, ou cerca de 50 toneladas a mais do que a capacidade estimada de exportação de cocaína da Colômbia, diz Antezana. “Se a atual tendência de cultivo continuar, nós poderemos superar a Colômbia como o maior produtor mundial de folhas de coca em 2011 ou 2012, o que nos fará regredir para a posição que ocupávamos na década de oitenta”, adverte Antezana.
O mais graduado assessor de políticas de combate a drogas do presidente Barack Obama, R. Gil Kerlikowske, anunciou em maio último um plano de combate aos entorpecentes que enfatiza a prevenção e o tratamento dos viciados nos Estados Unidos. Mas o governo norte-americano pouco modificou o financiamento dos projetos de erradicação das culturas da coca nos Andes, apesar de muita gente duvidar que tal medida seja capaz de reduzir drasticamente o suprimento de cocaína ou de provocar um aumento significativo do preço da droga nos Estados Unidos no longo prazo. 
O auxílio norte-americano para o combate ao narcotráfico no Peru é de US$ 71,7 milhões (R$ 130 milhões) por ano, uma quantia ligeiramente maior do que os US$ 70,7 milhões (R$ 127,7 milhões) investidos no ano passado. As autoridades norte-americanas da área de combate ao narcotráfico operam em uma base policial peruana recém-ampliada aqui em Tingo Maria, supervisionando equipes peruanas que atuam nos vales próximos cortando manualmente os arbustos de coca.  “Nós vemos o tráfico de drogas no Peru como parte de um fenômeno regional e global”, afirma Abelardo A. Arias, o diretor do departamento de questões relativas a narcóticos da Embaixada dos Estados Unidos em Lima. “Em uma resposta à pressão policial em uma área, os cultivadores e os traficantes de drogas transferem as suas operações para novos territórios”. O Peru utiliza parte da ajuda norte-americana para comprar capacetes e trajes especiais para proteção contra minas terrestres instaladas nesta região pela facção do Sendero Luminoso, que está competindo com uma outra facção guerrilheira pelo controle das áreas de plantação de coca, segundo oficiais militares peruanos. Uma outra parte do auxílio norte-americano vai para empresas contratadas como a DynCorp, que presta serviços de manutenção dos helicópteros que operam a partir de Tingo Maria. 
A bordo de um desses helicópteros, o general Horacio Huivin, diretor da polícia antidrogas peruana, observou os campos de coca, a alguns minutos de voo de Tingo Maria. “Nós caímos em um círculo vicioso porque estamos erradicando plantações de coca nos mesmo locais em que nós fizemos tal erradicação no ano passado ou em anos anteriores”, conclui o general.
*Andrea Zarate, em Lima, contribuiu para esta matéria
FOTO:Soldado perto de um carro pichado pelo grupo guerrilheiro Sendero Luminoso, no Peru

Marina você já é bonita com o que Deus lhe deu

Marina você já é bonita com o que Deus lhe deu

Marcio Campos no Tubo de Ensaio

Uma amiga me enviou esse vídeo da candidata à Presidência pelo PV, Marina Silva. Em entrevista a editores da IstoÉ, ela falou sobre ciência e religião; mais especificamente, sobre três assuntos: a pesquisa com células-tronco embrionárias, o criacionismo e o ensino de "alternativas à evolução" (leia-se criacionismo e DI) nas escolas.
Não tenho lá muita simpatia pelo PV (a frase não é minha, mas também acho que "o verde é o novo vermelho"), nem pela Marina, ainda mais depois do discurso "votem em mim porque sou negra, mulher, pobre etc." (vejam o comentário d Galindo sobre o assunto no Caixa Zero) Mas acho que ela se saiu bem no vídeo. A primeira pergunta tentou estabelecer aquela falsa dicotomia entre ciência e religião, como se todo cientista fosse favorável às pesquisas com embriões (o que é mentira) e como se todo religioso fosse contrário às pesquisas (o que também é mentira). Marina deu uma resposta bem clara: não é questão de religião, e sim de ética. É a ciência, e não a religião, que determinou o status do embrião como novo ser humano, com um código genético único. É partindo desse status que os cientistas devem tomar decisões éticas.
Marina é integrante da Assembleia de Deus, e não sei se essa denominação tem alguma posição oficial acerca do criacionismo, o que justificaria o uso do termo "dogma" por parte da jornalista (se bem que tradicionalmente o jornalismo usa muito mal o termo "dogma" quando o assunto é religião). Achei que na segunda pergunta a candidata foi um pouco mais escorregadia, afinal a questão não é se "99% dos brasileiros" acreditam em um Deus criador; o que diferencia um criacionista é que ele tem uma visão particular sobre como se deu essa criação. Mas o seu comentário sobre a fé não se justificar pela ciência, e sobre a ciência não precisar da chancela da fé, é perfeito.
Já na terceira pergunta, se o episódio se deu exatamente como a candidata descreve, só posso lamentar que a coisa tenha sido distorcida assim. O Reinaldo Azevedo, que também não morre de amores pela Marina, já previa que ela seria vítima de um bombardeio do "politicamente correto" por causa de sua posição sobre certos temas. Vai saber se essa discussão sobre o criacionismo na escola foi reflexo da "blitz midiática"... curiosamente, a própria Sociedade Criacionista Brasileira é contra o ensino do criacionismo nas escolas, como me disse o biólogo criacionista Tarcísio Vieira em uma entrevista.

terça-feira, junho 15, 2010

Domingos Dutra Denuncia cúpula do seu partido

Duke, hoje no Super Notícia (MG)


Copa movimenta circuito cultural do país

Copa movimenta circuito cultural do país
Exposições em São Paulo e no Rio de Janeiro aproveitam o clima do mundial de futebol para relembrar a história do esporte no Brasil

A Copa do Mundo é um dos maiores eventos do planeta e movimenta os mais variados setores profissionais ao redor do globo, o que não poderia ser diferente para o circuito cultural. No caso de São Paulo, duas exposições aproveitam o clima de mundial para apresentarem materiais relacionados ao torneio esportivo mais popular do mundo.
A primeira delas é “Craques do Cartum na Copa”, promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil. O evento acontece simultaneamente no CCBB da capital paulista (na rua Álvares Penteado, 112, Centro) e no CCBB do Rio de Janeiro (rua Primeiro de Março, 66, Centro).
Na mostra, o visitante pode observar trabalhos de renomados artistas brasileiros, como Chico e Paulo Caruso, Ziraldo, Maurício de Souza e Henfil, que apresentam desenhos antigos e inéditos relacionados ao universo das Copas do Mundo. Vários desses cartuns, como os desenhos de Otávio, dos anos 80, ou as charges de Miécio Caffé, feitas na década de 1950, são históricos e revelam um pouco sobre o jornalismo esportivo do Brasil no último século. Além dos desenhos, o visitante ainda pode conferir uma pequena biografia de cada artista.
Outro evento de destaque é a mostra “Placar 40 anos – futebol, história e paixão”, que acontece no Museu de Arte Brasileira da FAAP (rua Alagoas, 903, Higienópolis). Nela, o público pode acompanhar a trajetória de quatro décadas da famosa revista esportiva por meio de imagens do gigantesco acervo fotográfico acumulado pela publicação. Além disso, a mostra apresenta vídeos e camisas de grandes craques brasileiros para contar a história do esporte mais popular do país.

A mostra está dividida em três seções. Na primeira, “A história das Copas”, pode-se ver a evolução do torneio entre os anos de 1970 e 2006, das mudanças nas partidas ao aprimoramento tecnológico de materiais como bolas e chuteiras. Em “Craques eternos”, o visitante pode conferir registros de alguns dos maiores jogadores do país. Finalmente, a seção “Futebol, a paixão do Brasil” traz imagens de torcedores e jogadores em momentos que captam a comoção causada pelo esporte.

As duas mostras estão abertas ao público desde o começo de junho e a entrada é gratuita.

Poder feminino

Poder feminino
Brasil Econômico - 14/06/2010 - Ieda Novais - Diretora Corporativa da BDO Brazil

Com modos de operação e ponderação bastante particulares, as mulheres mostram à sociedade uma nova maneira de gerenciar. É sabido que o comportamento gerencial das mulheres é multifacetado, pela capacidade feminina de dar atenção a diversos assuntos simultaneamente e de serem, elas, formadoras natas de pessoas.
A gestão feminina ganha força também pela clareza dos ideais e pela qualidade na gestão de pessoas - a gestão feita pela mulher é mais sensível para criar e manter uma cultura ética, talvez pelo fato de o gerenciamento feminino tender a ser permeável, multidisciplinar e mais flexível para lidar com questões intangíveis.
Hoje, essas características podem ser comprovadas por estudos científicos. O professor do Departamento de Psicologia da Universidade Yale, David Caruso, defende a tese de que as mulheres têm uma inteligência emocional diferenciada e, por isso, se tornam mais eficientes nas lideranças.
No mundo corporativo, segundo o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), 40% dos micro e pequenos negócios do Brasil são gerenciados por mulheres.
Em 2007, o Global Entrepreneurship Monitor (GEM) indicava que 53% dos novos empreendimentos no mundo - aqueles com menos de 42 meses de criação - tinham uma mulher à frente.
De todos os 54 países estudados pelo GEM, o Brasil está entre os que, percentualmente, têm maior número de mulheres comandando seus negócios. Esse dado fortalece a tese de que, desde meados de 2007, a mulher empreendedora brasileira é socialmente aceita.
Outro dado importante indicado pela pesquisa é a motivação que tem levado essas empreendedoras a abrir um negócio. Até 2008, o incentivo era principalmente uma necessidade financeira.
Em 2009, esse quadro mudou. Pela primeira vez, as brasileiras tomam a decisão de assumir a gestão empresarial porque têm a capacidade de detectar oportunidades no mercado de trabalho.
As mulheres vêm conquistando espaço de forma simétrica à evolução do olhar que a sociedade dedica a elas. O Sebrae, por exemplo, criou em 2004 o Prêmio Sebrae mulher de Negócios, que incentiva o empreendedorismo feminino e mostra à comunidade exemplos de vida e superação de mulheres bem-sucedidas na condução de seus próprios negócios.
A Fundação Nacional da Qualidade também é fórum para discussões nas quais as executivas têm debatido, por exemplo, a questão da ética empresarial.
O tema, cada vez mais relevante para as organizações se tornarem transparentes, foi abordado durante o 18º Seminário Internacional em Busca da Excelência, que aconteceu nos últimos dias 9 e 10 de junho, em São Paulo.
O novo papel da mulher vem sendo foco dessas discussões, e sua presença em posições estratégicas no mercado de trabalho, uma realidade cada vez mais presente.

Iêda Novais é presidente do conselho fiscal da Fundação Nacional da Qualidade (FNQ) e diretora corporativa da BDO Brazil

Mulheres aumentam participação em gangues do Distrito Federal

Mulheres aumentam participação em gangues do Distrito Federal
Portal da Band - 14/06/2010
Com mais de duas décadas de existência, as gangues do Distrito Federal passam por uma mudança no perfil. Antes majoritariamente masculinas, agora enfrentam o aumento da participação feminina.
“Há 10 anos fiz uma pesquisa e as meninas tinham um papel subordinado. Hoje é como na sociedade: elas não têm o mesmo papel que os meninos, mas dentro da gangue podem liderar as meninas”, afirma Miriam Abramovay, socióloga que coordenou a pesquisa da Ritla (Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana).
O dado é um dos principais resultados apontados em Gangues, Gênero e Juventude: Donas de Rocha e Sujeitos Calulosos, livro elaborado por uma parceria da Ritla com a Cufa (Central Única das Favelas) e Secretaria de direitos humanos. A publicação mostra ainda que algumas gangues chegam a ter 800 membros.
A pesquisa foi realizada ao longo de dois anos e entrevistou 70 pessoas. Com 150 horas de horas gravadas, o levantamento constatou, explica Miriam, que as gangues são formadas por jovens em busca de visibilidade. “Uma gangue se reúne para adquirir fama, para ter espaço na cidade, para ser conhecida e reconhecida em uma sociedade, que é do espetáculo, e todo mundo quer aparecer”, esclarece.
O livro será lançado nesta segunda-feira.
Redação: Helton Gomes

Dependentes de sexo lutam para se livrar da compulsão

Dependentes de sexo lutam para se livrar da compulsão

Mídia Max News – MS - 14/06/2010

 “Eu chegava a sair com seis ou sete mulheres em uma só noite. Enquanto não acabasse o dinheiro, a adrenalina, até eu ficar exaurido, eu não parava. Depois, sentia uma grande culpa e depressão.” O relato é do representante comercial Galego (nome fictício), de 46 anos, que há sete faz tratamento contra a compulsão sexual em São Paulo.  O drama dele é o de muitos que vivem no anonimato. Caracteriza a chamada dependência do sexo ou disfunção sexual. Pessoas que, à procura da satisfação da libido, com parceiros ou não, perdem o controle. Galego conta que pagou tanto para ter prostitutas, bebidas e drogas que faliu. “Em 26 anos, gastei R$ 1 milhão com a compulsão.” 
Histórias da vida real foram parar na ficção. Na novela da TV Globo Passione, Maitê Proença é Stela, uma mulher casada que tem fissura por homens mais jovens. Faz sexo com eles sem querer saber seus nomes ou marcar o próximo encontro. Em Caminho das Índias, a personagem Norminha, interpretada por Dira Paes, amava o marido, mas não tinha o menor pudor em traí-lo com um monte de desconhecidos. 
“A pessoa não tem controle sobre o desejo sexual. É a necessidade de buscar mais prazer, mais parcerias. Isso pode ser através do sexo ou da masturbação”, explica o psiquiatra Alexandre Saadeh, especialista em sexualidade humana. 

Prazer virtual  Com as redes sociais, o problema se agrava. “Tem gente que passa o dia inteiro programando atividades sexuais e a internet é ótima para isso”, afirma o médico, que faz parte do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo e dá aulas na PUC-SP. O estudante Leonardo (nome fictício), de 29 anos, até tentou, mas não gostou da experiência do sexo virtual.  “Você se decepciona porque as pessoas não são o que dizem. Teclam com você e com outras tantas ao mesmo tempo”, diz o rapaz. Para preencher o vazio de um relacionamento amoroso ruim, Leonardo, que é homossexual, buscou parceiros fora de casa. Isso começou há oito anos. “Olhava para um cara na rua e saía com ele ou transava com gente que encontrava em baladas GLS”, admite.  Segundo Leonardo, podiam ser cinco pessoas por semana ou duas por dia. “Eu estava totalmente perturbado, sem autoestima. Saía para ouvir dos outros que era bonito, elegante, gentil. Era o que eu não tinha no meu relacionamento”, conta ele, que há dois anos namora, se diz feliz e “equilibrado”. 

Ajuda no DASA  Mesmo assim Leonardo continua a frequentar a entidade Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (DASA). A filosofia deles é a mesma da dos Alcoólicos Anônimos (AA).  Pessoas se reúnem em sessões periódicas para compartilhar os problemas. São as partilhas. Tudo é na base do diálogo e na premissa de que “só por hoje” o dependente será uma pessoa melhor, sem recaídas. No caso do DASA, os dramas são relacionados à compulsão pelo sexo, pelo prazer ou insatisfações nos relacionamentos amorosos. “Cheguei lá e vi gente com problemas iguais aos meus. Eu me confortava em saber que não estava sozinho, que não havia preconceito e, sim, muito respeito”, afirma Leonardo sobre o DASA. As reuniões são uma parte do “tratamento”, que é gratuito e dispensa remédios. A programação foca nos 12 passos, espécie de mandamentos que podem ajudar no processo de recuperação. Eles sugerem que os dependentes admitam o problema, rezem e até façam um “destemido inventário moral” delas mesmas para tentar reparar o mal que possam ter feito a outros. “Nossa finalidade é fazer com que a pessoa se relacione melhor com ela e com os outros de forma saudável”, explica Galego, um dos porta-vozes da entidade. 
De acordo com o site do DASA, as reuniões acontecem em quatro endereços da capital paulista. Em agosto, Galego acumula sete anos de DASA e de histórias. “Tenho um companheiro de sala que se masturba 40 vezes por dia. Até sangrar. É muito difícil. Você quer parar e não consegue.” Galego afirma que, graças ao apoio que encontrou na entidade, recuperou “muitas áreas” de sua vida, como o relacionamento com a filha e dinheiro. 
“Quando a pessoa chega ao DASA está detonada. Depois, começa a progredir e se afasta. Aí podem vir as recaídas”, completa Galego, que acredita ser difícil haver uma cura definitiva. A doutora em psicologia pela PUC-SP Ana Maria Zampieri concorda. “Não existe cura. Existe estar em abstinência da compulsão para o resto da vida”, atesta ela, que publicou livros sobre o tema da sexualidade.  Para Ana Maria, a busca incontrolável pelo prazer tem explicações “biológicas, psicológicas e socioculturais”. Situações de abandono ou abuso sexual na infância podem desencadear o problema. “As crianças abusadas se tornam adultos carentes, que misturam carinho, atenção com sexo. Buscam exaustivamente preencher um vazio que não vai ser satisfeito com o sexo.” O distúrbio ainda pode afetar pessoas muito tímidas, que não conseguem se relacionar. 
O funcionário público de São Paulo Fabiano (nome fictício), de 41 anos, conta que foi abusado sexualmente por sua babá aos 3 anos de idade. Acredita que isso influenciou no seu comportamento no futuro. Em 1999, ele disse "estar no auge" da compulsão. "Eu não conseguia ficar um dia sem sexo. Saía antes e depois do trabalho para procurar mulheres", revela ele, que gastava dinheiro com garotas de programa. 
Fabiano chegou a colocar anúncios em jornais para arrumar namorada e diz que sempre foi um menino "muito carente" e, por isso, procurava prostitutas para suprir isso. Quando se casou pela primeira vez, aos 20 anos, pareceu ter encontrado a parceira ideal. "A gente chegava a ter 20 relações por dia." Hoje, casado novamente, o funcionário público se diz controlado e aliviado em não ter mais a síndrome da abstinência sexual. "Sentia dores no corpo, calor excessivo, irritação e insônia."

Proad  Há outro caminho para tratar a compulsão sexual: a psicoterapia. O Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), oferece essa ajuda. Os médicos criaram o Ambulatório de Tratamento do Sexo Patológico em 1994. “As pessoas têm devaneios, ficam imaginando o sexo de maneira que não conseguem desligar e a perda de controle é que define a dependência”, conta o psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, do Proad.  Segundo ele, o problema atinge tanto homens e mulheres casados como solteiros. Seja de vida pacata seja de vida promíscua. “Tem gente que vai à sauna gay e passa o fim de semana lá. Tive um paciente que fez isso e transou com 80 pessoas”, relata Vieira Júnior. “A pessoa faz quando quer, como quer e com quem quer.”

Copa surgiu para curar as feridas da Primeira Guerra

Copa surgiu para curar as feridas da Primeira Guerra
Departamento de História – UEM – Maringá – PR - Eric Pincas - Revista História Viva.

Eleito presidente da FIFA em 1921, Jules Rimet tinha o projeto de usar o futebol para aproximar os povos após o conflito. Em 1930, o sonho se tornou realidade: há 80 anos nascia o evento esportivo mais popular do mundo.
Na baía de Villefranche-sur-Mer, em 21 de junho de 1930, um navio deslizava lentamente rumo ao horizonte. Saindo da França, seu destino era o Uruguai. A bordo, passageiros quase anônimos. Rapazes fortes e musculosos que enfrentavam a travessia para disputar a partida de abertura da primeira Copa do Mundo de futebol. Um batismo duplo, de certa forma. A maior parte deles jamais tinha se aventurado pelo mar, e a viagem até Montevidéu iria durar 15 dias. Por sorte, as condições meteorológicas se anunciavam favoráveis.  A bordo do Conte Verde, um homem de terno e gravata, cabelos brancos e bigode finamente talhado ostentava um sorriso discreto. Em sua bagagem, uma estatueta de 30 cm de altura e 4 kg, representando uma Vitória segurando sobre a cabeça um vaso octogonal: a Copa do Mundo, um troféu de ouro maciço produzido pelo escultor francês Abel Lafleur. O homem que cuidava desse precioso tesouro chamava-se Jules Rimet. Presidente da Federação Internacional de Futebol desde 1921, ele batalhava, havia quase dez anos, para organizar uma competição aberta às equipes do mundo inteiro. Seu leitmotiv: aproximar os jogadores dos dois hemisférios, em um espírito de fraternidade, e fazer do futebol o rei dos esportes atléticos.
As esperanças que ele depositava nessa primeira Copa do Mundo eram imensas. A poucas semanas do momento do primeiro confronto, ele rememorava o quanto tinha sido longa a estrada até o embarque para a América do Sul. Nascido em 24 de outubro de 1873 em Theuley-les-Lavoncourt, um vilarejo de Haute-Saône, na região francesa de Franco-Condado, o pequeno Jules passou a infância entre a escola, a loja de produtos alimentícios do pai e o moinho do avô. A agricultura regional sofria então o impacto da guerra franco-prussiana de 1870. As condições de vida eram difíceis. Em 1885, com 12 anos, ele se juntou aos pais, que haviam partido em busca de uma vida melhor em Paris. Aluno estudioso, terminou o ensino médio e começou a estudar direito. Uma carreira jurídica se abria para ele. Mas seria essa sua verdadeira vocação? Jovem de personalidade forte, firmemente contrário às desigualdades sociais, ele sentia uma profunda necessidade de se dedicar a uma causa. Tornou-se membro de um círculo de operários e mais tarde fundou uma revista de tendência democrata-cristã que militava pelo progresso social.
O futebol? Ele mal chegou a calçar as chuteiras. Consciente de seus limites atléticos, que faziam dele um respeitável esportista de fim de semana, Rimet estava convencido de sua capacidade para administrar um clube esportivo. Mas não um clube qualquer. Uma agremiação capaz de ultrapassar as barreiras sociais e fornecer às classes trabalhadoras a oportunidade de se emancipar por meio do esporte. Em março de 1897, ele criou o Red Star Club, um conjunto poliesportivo de convívio aberto e igualitário. Considerado na época um esporte violento, o futebol, praticado por profissionais na Inglaterra, estava longe de despertar o mesmo entusiasmo na França, onde não existiam mais que 30 clubes. No plano internacional, a Inglaterra e a Escócia se entregavam a disputas desde 1872. A Áustria jogou pela primeira vez contra a Hungria em 1902. A França ingressou na relação das nações futebolísticas contra a Bélgica em 1o de maio de 1904.
Três semanas mais tarde, no dia 21 daquele mês, por iniciativa do francês Robert Guérin e do holandês Carl Anton Wilhelm Hirschman, foi assinada, em Paris, a certidão de nascimento da Federação Internacional de Football Association (Fifa). Seu papel: coordenar as diferentes associações nacionais e uniformizar as regras do jogo. Sete países aderiram: França, Bélgica, Dinamarca, Holanda, Espanha, Suécia e Suíça. A Inglaterra, pátria mãe do futebol, só a integraria um ano mais tarde. Jules Rimet, vice-presidente do Comitê Francês Interfederal, participou do primeiro congresso da Fifa realizado em 1914 em Christiania, hoje Oslo, capital da Noruega. Na ordem do dia: a organização de um campeonato internacional. Por que não o torneio de futebol dos Jogos Olímpicos, aberto a amadores desde 1908? A idéia de uma competição internacional reunindo os clubes campeões das federações nacionais já havia sido apresentada em 1905, mas aparentemente nenhum país se interessou. Rimet criticou o projeto de 1914 por ser reservado apenas aos amadores, e logo teve de bater em retirada sob as bombas da Primeira Guerra Mundial.
Jules Rimet tinha 40 anos, era casado e pai de três filhos quando foi encaminhado ao 22o regimento territorial de infantaria de Rouen. Foi desmobilizado em 6 de janeiro de 1919 com a patente de tenente. Retomou imediatamente suas atividades no âmbito das instâncias federativas. E como recompensa por sua contribuição para o desenvolvimento da política esportiva do país foi eleito presidente da Federação Francesa de Football Association (FFFA) em 11 de abril de 1919. Nos meses seguintes ao restabelecimento da paz, Rimet escreveu a Hirschmann, então presidente interino da Fifa. Insistiu na necessidade de aquela instância supranacional renovar os laços do futebol mundial, missão altamente diplomática. O contexto político era bem pouco propício aos encontros internacionais. Se as partidas entre países aliados foram rapidamente retomadas, parecia inimaginável confrontar as equipes dos antigos inimigos.
Jules Rimet destacou-se, então, por suas qualidades de mediador, que lhe valeram ser eleito presidente da Fifa em 1o de março de 1921. Em 1923, o jornalista Maurice Pefferkorn escreveria, sobre os talentos diplomáticos de Rimet: "Ele tem o espírito político que lhe sustenta o senso de governo. Ele tem o gosto do favor popular e o respeito da opinião das massas". Desde então, Rimet tinha apenas um sonho: criar a primeira Copa do Mundo de futebol. Ele estava convencido de que essa competição mundial aproximaria os povos e suscitaria um interesse excepcional. Os Jogos Olímpicos organizados em Paris em 1924 reforçaram sua convicção. Entre as 24 equipes participantes do torneio de futebol, a maestria exibida pelos uruguaios tinha despertado o entusiasmo popular.
A final Suíça-Uruguai reuniu dezenas de milhares de espectadores. Ainda no primeiro tempo, o público foi conquistado pelo estilo de jogo envolvente dos uruguaios. Esse pequeno país, com uma população apaixonada por futebol, era a terra prometida buscada por Jules Rimet. Aquela que faria do futebol a primeira religião planetária. O destino deu uma ajuda. No ano seguinte, Rimet encontrou, em Genebra, Enrique Buero, embaixador do Uruguai em Bruxelas. Entre os temas discutidos naquela conversa estavam a louca epopéia da equipe do Uruguai nos Jogos Olímpicos de 1924, louvações ao futebol-espetáculo e perspectivas para o futuro. Conquistado pela eloqüência do francês, Buero seduziu-se pela ideia de organizar a primeira Copa do Mundo de futebol em seu país. O presidente da Fifa escreveria mais tarde em suas memórias: "A Copa do Mundo nasceu naquele encontro – que eu chamaria tranquilamente de providencial".
Restava submeter o projeto aos membros da Federação Internacional. Desafio perigoso. O risco de um fracasso financeiro alimentava o ceticismo. Com o objetivo de apresentar um projeto estruturado e convincente, Jules Rimet nomeou uma comissão composta pelo austríaco Meisl, o suíço Bonnet, o alemão Linnemann, o italiano Ferretti e o francês Henri Delaunay. Foi Delaunay quem apresentou, em 26 de maio de 1928, em Amsterdã, em nome da França, uma moção determinando que a FIFA organizasse uma competição aberta a todas as nações do futebol. Para conquistar os votos dos mais reticentes, foi dada garantia aos membros de que o país organizador assumiria todos os custos da viagem e da estada das equipes e dos árbitros. A moção foi aprovada. Hungria, Itália, Holanda, Espanha, Suécia e Uruguai se candidataram a acolher a primeira Copa do Mundo. Evidentemente, foi o Uruguai que alcançou essa meta. Por três razões: a equipe do Uruguai era bicampeã olímpica (1924 e 1928), seu renome era considerável em toda a América do Sul e o país se preparava para festejar o centenário de sua independência. Os dirigentes uruguaios se comprometeram até a construir em Montevidéu um estádio de 108 mil lugares, o Centenário.
No entanto, apesar das garantias financeiras, a maioria das associações europeias rejeitou o convite. A travessia do Atlântico ainda parecia, para muitos, uma aventura. Além disso, como o profissionalismo ainda não era a regra em todos os países, era preciso encontrar jogadores que aceitassem deixar o trabalho por um período de oito semanas. Era o caso da França. "Peregrino apaixonado", como se definia, Rimet partiu para tentar obter o consentimento dos jogadores, a autorização de seus empregadores e dos dirigentes de clubes. "Assim", disse ele, "consegui montar uma equipe que, aliás, teve uma presença bastante razoável em Montevidéu." No final, quatro nações européias (França, Romênia, Bélgica, Iugoslávia) e nove americanas (Estados Unidos, México, Brasil, Peru, Paraguai, Chile, Bolívia, Uruguai e Argentina) participaram da competição.
Era sem dúvida em tudo isso que Jules Rimet pensava em 21 de junho de 1930, no convés do Conte Verde. A travessia até a América do Sul ocorreu sob uma atmosfera alegre e divertida. Os franceses confraternizaram com os jogadores romenos e belgas. À noite, lembravam canções de Maurice Chevalier. No convés, os jogadores improvisavam corridas sobre as mãos. Em um perímetro reduzido, trabalhavam a técnica de controle da bola. Para desenvolver sua condição física, alinhavam cadeiras no convés e saltavam sobre elas com os pés juntos. Um meio excelente para esculpir os abdominais.
Os jornais da época relatam que uma multidão entusiasmada aclamou as equipes quando chegaram a Montevidéu, em 5 de julho. A seleção da França estava alojada em um complexo luxuoso, o Rowing Club. Em 13 de julho, os franceses abriram a competição contra o México no estádio de Pocitos – ainda não terminado, o imenso estádio do Centenário seria inaugurado cinco dias mais tarde. A França venceu o México por 4 gols a 1, e Lucien Laurent foi o autor do primeiro gol da história da Copa do Mundo. Vitória sem continuidade: os franceses perderam as duas outras partidas classificatórias contra a Argentina e o Chile.
Em 30 de julho de 1930, dia da final Uruguai-Argentina, os 80 mil torcedores uruguaios mal respiravam. A Celeste – como chamavam sua equipe – vencia por 3 a 2 pouco antes de soar o apito final, mas não estava a salvo de um contra-ataque argentino. Poucos minutos depois, o Centenario transbordava de felicidade: Castro acabava de fazer o quarto gol, que esmagava definitivamente as esperanças argentinas. Jamais Jules Rimet havia conhecido "uma tal tempestade de entusiasmo, de emoção liberada". Logo depois do final da partida, foi hasteada a bandeira nacional. O clamor que vinha das arquibancadas era indescritível. O presidente da Fifa entregou a Copa do Mundo a Nazzazi, capitão da equipe uruguaia. Naquele momento, não se sabia qual dos dois homens estava mais feliz. Jules Rimet havia vencido sua aposta: fazer dessa competição um formidável espetáculo popular de alcance universal. Restava-lhe um último desafio: converter o futebol francês ao profissionalismo. Isso seria feito em janeiro de 1932, quando foi adotado o estatuto do jogador profissional. Segundo ele, era o momento de acabar com práticas ambíguas – um bom número de clubes amadores remunerava então os jogadores profissionais: "Diante das práticas clandestinas, devíamos reagir com rapidez e dar nome aos bois. Ao fazer isso, cumpriríamos um dever de honestidade em relação a nós mesmos". Rimet estava certo de que o amor pela camisa valia todo o ouro do mundo. Outros tempos, outros costumes.

Alecrim


O potencial efeito Marina

O potencial efeito Marina

O Estado de S. Paulo

Quiseram as circunstâncias objetivas, os fatos duros da vida e a intenção de certos atores que as eleições presidenciais de 2010 tivessem caráter plebiscitário: contra ou a favor a situação atual, ainda que não esteja claro nem se essa é uma situação desejável, nem quem responde por ela.
Eleições desse tipo concentram holofotes em dois candidatos, mas não expulsam necessariamente outros postulantes. Sempre pode haver “terceiros nomes”.
Na maioria dos casos, candidatos a “terceiros” não entram na disputa com a pretensão de vencê-la. Vencer, para eles, é conseguir um lugar ao sol: exposição pública, mais espaço para a propaganda de suas idéias ou acúmulo de “gordura” para negociar apoios num eventual segundo turno. Tudo somado, compõem um agregado de coadjuvantes, que podem interferir do debate principal e até mesmo chegar a condicioná-lo. Podem também prejudicá-lo, evidentemente.
De todos os “terceiros” que surgiram e se mantêm na atual disputa presidencial brasileira, Marina Silva é a única em condições de cumprir algum papel de relevo, uma função positiva, capaz de repercutir na dinâmica democrática mais geral e até mesmo influenciar o debate político que ocorrerá ao longo do ano.
Primeiro de tudo, porque se trata de uma candidatura eminentemente programática, sustentada por uma agenda ambientalista sedutora e pela biografia da candidata, que parece tão íntima de sua causa que chega a se confundir com ela. É uma agenda estratégica, que faz alertas importantes a respeito das opções econômicas que são feitas no mundo e transfere atenção crítica para o debate a respeito do desenvolvimento e da “aceleração do crescimento”, questões que são invariavelmente debatidas sem a devida responsabilidade ética para com o futuro. Num contexto em que “desenvolvimento” virou a chave mestra que abrirá as portas do paraíso, não deixa de ser importante que alguém apresente o contraditório.
Por ser eminentemente programática, Marina flutua sobre partidos e alinhamentos políticos rígidos. Passa uma imagem de que está acima das práticas políticas usuais. Com isso, pode atrair eleitores cansados do discurso político rotineiro e sem graça, que pensam que se deve fazer política de outro modo ou que simplesmente não querem saber de política. Dissidente do PT, não faz o tipo ressentida: mantêm importantes pontes de comunicação com o povo petista e emprega uma linguagem crítica favorável ao resgate das tradições mais combativas do partido, desbaratadas após oito anos de Governo Lula.
Nas entrevistas e intervenções que vem protagonizando, a candidata do PV tem demonstrado estar atenta a esse papel positivo de “terceiro nome”. No último domingo, 16/5, por exemplo, declarou ao Estadão que sua candidatura não existe para “fazer o jogo de Dilma ou de Serra”, mas sim para defender “um projeto político para o Brasil, já que os partidos, inclusive o PT, não foram capazes de atualizar seu pensamento". Para isso, Marina acredita que é preciso buscar interações permanentes com o que chama de “comunidades de pensamento”, ambientes que estariam acima de partidos políticos e se sustentariam por vínculos com “causas e princípios”. Por esse caminho, acrescenta, pode-se chegar a uma “nova visão de como resolver os problemas do Brasil”, a partir da identificação das conquistas que os sucessivos governos (FHC e Lula) conseguiram alcançar.
Em sua agenda, “não há espaço para aventuras”. É preciso manter a estabilidade mediante superávits primários, metas para a inflação e câmbio flutuante. Seu propósito é mudar o modelo de desenvolvimento, levando o país a se concentrar em atividades que produzam menos impactos no meio ambiente. Vai direto ao ponto, como na entrevista à revista Exame (17/5): "Precisamos mudar a ideia de desenvolvimento”. Coisa fácil de falar e difícil de praticar.
Isso talvez explique porque o discurso da candidata permanece num terreno genérico demais quando se trata de detalhar ou enfrentar questões complicadas, caso da reforma tributária, da previdência e da legislação trabalhista. Ela se esquiva dizendo que suas propostas ainda estão em construção. Ainda que um pouco de imprecisão e de convicção de que não é preciso ter respostas para tudo confira certo charme, em algum momento as cartas terão de ser postas na mesa.
Marina Silva não voa em céu de brigadeiro. Tem pontos frágeis complicados, que poderão conter sua contribuição ao debate presidencial. O mais grave deles é a falta de uma estrutura de campanha. Ela não dispõe de recursos financeiros, palanques suficientes ou tempo de televisão. Está cercada de bons assessores técnicos e intelectuais, mas ressente-se de assessoria política, o que é compreensível dada a escassez de quadros com esse perfil em seu arco de alianças e especialmente em seu partido.
Há também o elemento religioso, sua formação evangélica. Marina flerta com o criacionismo, declarando sem vacilação que “Deus criou todas as coisas”. Tem preparo e inteligência suficientes para saber que há aí um obstáculo a ser neutralizado, sob pena de sofrer alguma resistência da parcela mais “racional” do eleitorado e de limitar sua abordagem dos pontos mais complexos e controvertidos da agenda contemporânea: aborto, experimentação genética, usos da ciência, inovação tecnológica.
Apesar disso, e por não estar na disputa para somar votos e sim para marcar posição, Marina pode fazer alguma diferença numa eleição que se anuncia como fadada a se decidir nos últimos minutos. Se conseguirá fazer isso é algo que depende muito de sua própria capacidade de explorar as virtudes que a engrandecem e superar os pontos frágeis que a limitam. Mas depende também dos rumos que a disputa tomará quando os exércitos plebiscitários entrarem de fato na luta.
Seu real efeito sobre o processo eleitoral ainda está em aberto. (Publicado em  22/05/2010, p. A2).

Skoob

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