terça-feira, julho 20, 2010
BB não pode cobrar tarifa pelo serviço de TED
TRANSFERÊNCIA GRATUITA
BB não pode cobrar tarifa pelo serviço de TED
POR LILIAN MATSUURA
A 24ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo proibiu o Banco do Brasil, que comprou o Banco Nossa Caixa, de cobrar tarifa pelo serviço de Transferência Eletrônica Disponível (TED) em todo os estado de São Paulo. Há três meses, o Banco Central mudou as regras para que a TED possa ser feita a partir de R$ 3 mil. Cabe recurso da decisão.
A decisão, desta segunda-feira (19/7), se deu por maioria de votos, na câmara composta pelos desembargadores Alexandre Lazzarini, Carlos Abrão e Theodureto Camargo. De acordo com a Câmara, há uma disparidade muito grande na cobrança do serviço, dependendo da instituição financeira. A tarifa pode variar de R$ 7,80 a R$ 100. Há ainda a informação de que nos últimos dois anos o valor das tarifas cobradas pelos banco no país aumentou, em média, 300%.
A Ação Civil Pública foi ajuizada pela Associação Nacional de Defesa da Cidadania e do Consumidor (Anadec) contra o banco.
Tarifa sobre o cheque
Em junho de 2007, o Banco Itaú foi proibido pela 42ª Vara Cível de São Paulo de cobrar por cheques acima de R$ 5 mil, que seria uma forma de transferir o dinheiro sem ter de pagar pelo serviço de TED oferecido pelos bancos. Na ação, a Anadec argumentou que não existe lei que imponha aos consumidores a obrigação de usar exclusivamente o serviço de TED para fazer a transferência. “Seria uma ingerência na vida pessoal, no patrimônio dos cidadãos, nas manifestações de vontades e na essência de diversos negócios jurídicos, como compras com cheque pré-datado, que é uma prática nacional profundamente enraizada”, alegou.
A associação sustentou, ainda, que não existe lei que “ampare a cobrança de taxas ou tarifas, dos correntistas que optem pela emissão de cheques em valor igual ou superior a R$ 5 mil”. Com a atitude, o banco “está incidindo em ofensa ao Código de Defesa do Consumidor, que por sua vez traz regra cristalina sobre a devolução de valores cobrados indevidamente”.
O artigo do CDC citado pela Anadec é o de número 42. De acordo com a regra, “o consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros legais, salvo hipótese de engano justificável”.
A primeira instância paulista acolheu os argumentos. “De fato, quando se instituiu o sistema de pagamento por via eletrônica, calcado na segurança, na realidade, na rapidez e na própria eficiência do sistema, não ficou preso em camisa de força o consumidor, haja vista mera faculdade e não obrigação para as operações a ele inerentes”, reconheceu a primeira instância.
Apelação 991.09.042247-4 (antigo 7.402.485-2)
Dispara demanda mundial por aviões israelenses militares não tripulados
Dispara demanda mundial por aviões israelenses militares não tripulados
Ana Carbajosa - Aeroporto Ben Gurion (Tel-Aviv, Israel)
Um grupo de técnicos espanhóis assiste à dissecação das tripas de um avião não tripulado em um hangar da Indústria Aeroespacial Israelense (IAI), a empresa pública que lidera o mercado europeu da guerra teleguiada. Estudam o cabeamento do Searcher, o avião sem piloto que a Espanha voa no Afeganistão, forrado de sensores. Pode voar de dia até 15 horas seguidas e gravar o que acontece ao nível do solo, quase sem fazer ruído. Também pode filmar de noite com o sensor térmico, que distingue a temperatura de um corpo humano da de um edifício.
Até 47 países compram aviões não tripulados (UAV na sigla em inglês) dos israelenses, que viram a demanda mundial se multiplicar. A maioria desses aparelhos acaba voando nos céus afegãos, onde o trânsito desses grandes insetos com controle remoto é cada vez mais intenso. Com um faturamento próximo dos 400 milhões de euros e 15% de crescimento anual nos pedidos, nesta minicidade aeroespacial israelense está claro que na guerra do futuro os pilotos serão quase dispensáveis.
"Há 15 anos era preciso convencer os compradores. Hoje todos os países vêm claramente a importância dos 'drones' nas guerras do Iraque e do Afeganistão. É de longe o setor que mais cresce, comparado com helicópteros e outros aparelhos que fabricamos", afirma Avi Pansky, da divisão Malat, especializada nesses equipamentos. Ele acrescenta que este ano já tem contratos equivalentes ao ano e meio anterior.
No caso do exército americano, a paixão pelos teleguiados fez que em dois anos o número destes tenha crescido de algumas centenas para os 6 mil atuais, segundo a "Aviation Week". Inclusive a Turquia, cuja relação com Israel atravessa suas horas mais tensas, devido à morte de nove ativistas durante a abordagem à flotilha da liberdade em maio passado, bate às portas da aeronáutica israelense para comprar aviões não tripulados com os quais sobrevoa os territórios curdos.
Já compraram dez drones no valor de 140 milhões de euros. A última entrega - quatro Heron - está prevista para o mês que vem. Peter Singer, autor do livro "Wired for War" [Eletrônica para a guerra], que explica como a robótica está mudando as guerras, aponta que a proliferação de UAVs representa um dilema político para países como a Turquia, que desejariam reduzir sua dependência de outros países. "Por isso o Reino Unido, a China e a Turquia já trabalham na fabricação de suas próprias versões. O que vemos agora é só o princípio de uma grande mudança na aviação mundial", explica por telefone de Washington esse especialista em assuntos de defesa do Instituto Brookings.
O que se vê nessa fábrica israelense é o esqueleto. Que depois os drones sejam dotados de armamento é algo que depende da demanda do país comprador, e um tema muito delicado. Os ataques do ar são um assunto tão opaco nos EUA quanto em Israel, os dois países que competem em seu desenvolvimento e que, apesar de se tratar de um segredo aberto, mantêm certa ambiguidade na hora de reconhecer o emprego de aviões não tripulados para disparar e matar. No Ministério da Defesa espanhol explicam que o Searcher que usam no Afeganistão são utilizados só para inspecionar o território, e não para disparar.
"O país mais prolífico em assassinatos seletivos hoje são os EUA, que fundamentalmente utilizam drones em seus ataques. Cerca de 40 países têm a tecnologia e alguns já a têm e estão desenvolvendo a capacidade de disparar mísseis desses aparelhos", afirma Philip Alston, relator da ONU sobre execuções extrajudiciais em um relatório publicado em junho passado. Ele cita a Rússia, Turquia, China, Índia, Irã, Reino Unido e França entre os países que têm ou logo terão mísseis em seus aviões teleguiados.
Parte dos assassinatos seletivos israelenses é executada com UAVs, segundo Alston. Israel não confirma nem desmente, mas admite a fabricação dos Harop, que explodem sozinhos em vez de lançar mísseis; é o chamado drone suicida. Em geral, os americanos preferem fabricar seus aparelhos em vez de importá-los. Os Hunter, de desenho israelense, constituem uma exceção. São os que lançam as chamadas bombas inteligentes, embora haja muitas dúvidas sobre a inteligência desses e de outros explosivos que são lançados por UAVs.
O relator da ONU afirma que "centenas de pessoas", incluindo civis, morreram em operações realizadas pela CIA e alerta sobre o perigo da mentalidade Playstation que pode ser gerada por esse tipo de aparelhos, manejados com um simples comando de algum escritório a milhares de quilômetros do campo de batalha.
A assepsia que cerca as mortes à distância, além disso, as torna mais digeríveis para a opinião pública. Ao menos a julgar pelo aumento desses ataques pelos EUA desde que Barack Obama ocupa a Casa Branca, sem que tenham provocado grandes protestos, afirma Jane Mayer em um extenso artigo na "New Yorker" intitulado "A guerra do predador".
A variedade desses aparelhos com ou sem licença para matar é enorme. Esta macroempresa israelense fabrica desde o diminuto olho de pássaro, que pode ser levantado com uma mão, até a joia da coroa da indústria israelense: o Heron HP, lançado recentemente. Este mede 27 metros de envergadura, o que o transforma em um dos maiores do mundo, e pode voar até 30 horas ininterruptas. Faz muito pouco ruído e voa a grande altitude, o que lhe permite abarcar uma grande superfície ao tirar imagens. Por suas características poderia voar de Israel até o país arqui-inimigo, o Irã. Os israelenses o testaram em Gaza em várias ocasiões, também durante a operação Chumbo Fundido.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
A inusitada esperança de Javier Giraldo
A inusitada esperança de Javier Giraldo
Maria Clara Bingemer, Jornal do Brasil
RIO - Quando o padre Javier Giraldo, homem sereno e de ideias claras, fala da tragédia que o acompanha há mais de 30 anos, o auditório estremece, em silêncio. Desde meados dos anos 90, ele compartilha a sorte de várias famílias, a maioria parentes e amigos de 342 vítimas dos narcotraficantes na zona de Trujillo, na Colômbia. Agricultores expropriados de tudo que possuíam ou ameaçados de espoliação e morte em meio à guerra entre paramilitares e guerrilheiros passaram a ter na voz calma e firme do sacerdote seu único apoio.
Ancorados neste apoio, resistiram à força bruta que queria expulsá-los de suas terras. Constituíram um grupo que denominaram Comunidade de Paz e anunciaram a decisão num Domingo de Ramos, em 1997. Não esperavam que a reação do Exército fosse tão brutal. Os mortos e os desabrigados se multiplicaram. Padre Giraldo e outros três religiosos decidiram ficar. Ajudaram os agricultores a identificar os assassinos e os denunciaram. Há vários que hoje respondem a processo e aguardam sentença.
A represália não se fez esperar. Padre Giraldo foi ameaçado de morte muitas vezes. Recentemente, as ameaças recrudesceram. O ministro do Interior e da Justiça da Colômbia, Fabio Valencia, ofereceu-lhe custódia dentro do Programa de Proteção dos Direitos Humanos. O jesuíta polidamente recusou em carta sucinta e respeitosa. Com impressionante coerência explica que não encontra qualquer lógica em “ser protegido pelas mesmas instituições que perpetraram violações graves dos direitos humanos”, e considera que as vítimas “correm muitíssimos mais riscos do que eu, e por isso eu não me sentiria tranquilo se eu sou protegido, e não elas, que são o motivo real dos meus riscos”.
A coragem de padre Giraldo encontra sua raiz e sustento em espaço diferente daquele onde normalmente se apoiam as seguranças humanas. Após uma conferência durante a qual descrevera a situação do povo e a total falta de perspectiva de reversão a médio e longo prazos, foi acusado de deixar as pessoas sem esperança.
Isso o levou a reelaborar sua concepção de esperança. Ela não se assenta sobre os dois suportes habituais que a fazem subsistir: o êxito e a recompensa. Segundo padre Giraldo, tais situações não se coadunam com o Evangelho. A verdadeira esperança é a que emerge do fracasso.
Padre Giraldo aprendeu isso com os agricultores, que a cada massacre tornam-se mais firmes em sua luta. E também, evidentemente, com o Evangelho. A esperança cristã é filha não de um sucesso, mas de um retumbante fracasso: a morte de Jesus de Nazaré, sobre quem repousavam as expectativas messiânicas de um povo oprimido e sofredor.
Sua ressurreição foi a palavra definitiva que permitiu superar esse fracasso com o sentimento de que, por pior que seja a situação vivida, Deus é maior do que ela e faz brotar a vida ali onde só há morte e impossibilidade.
Por isso, padre Giraldo não tem medo da morte. Por isso igualmente mata de medo seus perseguidores, que não cessam de brandir sobre ele ameaças que só reforçam sua fé e seu compromisso com o povo ao qual é solidário de maneira irreversível.
Maria Clara Lucchetti Bingemer é autora de Simone Weil: a força e a fraqueza do amor (Editora Rocco).
00:03 - 20/07/2010
segunda-feira, julho 19, 2010
Portugal busca crescimento em antiga colônia
Portugal busca crescimento em antiga colônia
Raphael Minder - Lisboa (Portugal) 19/07/2010
Antonio Cunha Vaz, junto com sua mãe e sua irmão, fizeram parte de um êxodo em massa de portugueses de Angola em 1975, quando o país africano conquistou a independência antes de cair numa devastadora guerra civil.
No ano passado, entretanto, 37% dos US$ 28 milhões dos rendimentos de sua consultoria de relações públicas homônima, localizada em Lisboa, vieram de Angola, de um escritório que ele abriu em Luanda, capital do país, em 2008.
Portugal, uma das economias problemáticas da Europa, está cada vez mais colocando suas esperanças de recuperação em Angola, uma antiga colônia que se estabeleceu como uma das economias mais fortes da África subsaariana – graças ao petróleo e aos diamantes. A mudança vem à medida que a concorrência está ficando mais acirrada no Brasil, outra ex-colônia em crescimento econômico, e à medida que os tradicionais parceiros comerciais de Portugal na Europa, liderados pela Espanha, lutam com uma montanha de dívidas e com o desemprego crescente.
Angola já se tornou o maior mercado para as exportações de Portugal fora da Europa, respondendo por 7% das exportações no ano passado, em comparação com 1% em 2000. O maquinário e o desenvolvimento industrial lideram a lista, junto com alimentos, bebidas e metais.
Talvez até mais espetacular do que o fluxo do comércio tenha sido a chegada de uma nova geração de portugueses para trabalhar em Angola, uma tendência que deve crescer à medida que mais companhias portuguesas transferem suas operações para lá e Angola avança com planos de incentivo aos investimentos como a abertura da bolsa de valores local. No ano passado, 23.787 portugueses se mudaram para Angola em comparação com apenas 156 portugueses em 2006.
Confirmando a importância cada vez maior de Angola, o presidente de Portugal Aníbal Cavaco Silva deve fazer sua primeira viagem a Luanda no domingo, liderando uma delegação de cerca de 80 executivos portugueses para uma visita de uma semana.
Mas os portugueses não são os únicos com os olhos em Angola. A China esteve recentemente à frente do ressurgimento econômico de Angola, tentando garantir acesso aos recursos naturais do país em troca de ajudar a construir estradas e outras obras de infraestruturas destruídas durante três décadas de guerra.
Embora as companhias portuguesas não tenham a mira de longo alcance para competir com os chineses e outros investidores mais fortes, a língua em comum, aliada com as ligações culturais, pode dar aos portugueses uma vantagem.
Os portugueses já apostaram em antigas colônias para ajudar a compensar a redução de rendimentos no país, principalmente no Brasil. Um exemplo disso foram os esforços recentes que o governo de Lisboa fez para evitar que a Telefônica da Espanha tomasse o controle de uma empresa brasileira parceira da Portugal Telecom – embora uma oferta tenha sido aprovada pelos acionistas da Portugal Telecom( Foto de seu prédio).
José Sócrates, primeiro-ministro português, disse na época que ter uma presença no lucrativo mercado brasileiro era “estratégico e fundamental para o desenvolvimento da Portugal Telecom.”
Ainda assim, a visão geral entre os analistas é que o Brasil é grande e suficientemente avançado para atingir o crescimento por conta própria. Além disso, as companhias portuguesas têm tido um investimento irregular no país. Por exemplo, empresas portuguesas fizeram incursões ambiciosas no Brasil nos anos 90, e acabaram encontrando problemas de desvalorização da moeda e forte concorrência interna.
“O mercado brasileiro sempre esteve no nosso radar, mas fizemos várias tentativas lá e nem sempre fomos bem sucedidos”, disse Cristina Casalinho, economista-chefe do BPI, um banco português. “No passado nós testemunhamos algum progresso na relação comercial como Brasil, mas não tenho certeza se é o começo de uma tendência. Na verdade, tenho um certo ceticismo em relação ao Brasil, enquanto que em Angola é algo que deve continuar, e os investimentos diretos em Angola gradualmente substituirão as exportações como parte mais importante do relacionamento.”
No ano passado, Ricardo Gorjão, gerente de projetos da CPI, uma companhia portuguesa que produz software para bancos e outras indústrias de serviço, gastou dois terços de seu tempo em Angola, onde os bancos estão construindo uma rede nacional praticamente do zero, depois de inicialmente restringir suas operações a Luanda. “Estamos atravessando uma enorme recessão em Portugal, onde o setor bancário teve um desenvolvimento surpreendente, então faz mais sentido transferir nossos negócios para Angola”, disse ele por telefone de Luanda.
Embora a vida na capital de Angola possa ser “dura, perigosa e cara” em comparação com Lisboa, “quando você vê o desemprego que existe em Portugal, acho que mais pessoas ficarão disponíveis para mudar para cá por um bom emprego.”
A situação sombria da economia portuguesa foi ressaltada na terça-feira quando a agência Moody's baixou a classificação da dívida do país em dois pontos, de A1 para Aa2. A Moody's justificou sua decisão, que segue as quedas recentes na classificação de outras agências, alegando poucas perspectivas de crescimento, assim como uma previsão de que “a força financeira do governo português continuará diminuindo a médio prazo.”
O Banco Mundial, por sua vez, aumentou recentemente sua previsão de crescimento para Angola em 2010 de 7.5% para 8,5%.
Ainda assim, analistas enfatizam que a corrupção em Angola, aliada com a burocracia excessiva, são sérios obstáculos para os investidores estrangeiros. O país ficou em 162º lugar numa lista de 180 países no índice de percepções sobre corrupção compilado pela Transparência Internacional.
Com sua economia em crescimento e lucros excepcionais com o petróleo, Angola também se transformou num dos principais investidores estrangeiros em Portugal, encabeçados por familiares e conselheiros próximos a José Eduardo dos Santos, que governou Angola como presidente desde 1979. Eles investiram em bens como plantações de oliveiras e vinhedos no norte de Portugal até ações das principais companhias portuguesas.
O Santoro, um grupo financeiro controlado pro Isabel dos Santos, filha do presidente, tem uma fatia de 9,7% da BPI. A Sonangol, companhia de petróleo estatal, investiu em outro grande banco português, o Millennium Bcp, e também adquiriu uma parte da Galp, a companhia energética portuguesa.
Mas fora as ambições da elite governante de Angola, outro motivo para esperar que os laços se estendam é que os angolanos estão liderando um contingente cada vez maior de estudantes africanos que cursam universidades em Portugal.
Esdon Martins, um angolano de 25 anos que lidera uma associação de estudantes na Universidade Autônoma de Lisboa, estima que seus compatriotas respondam por quase um quinto dos alunos este ano. Depois de estudar Direito, ele planeja voltar para casa. “Estudar aqui é ótimo, mas as verdadeiras oportunidades para colocar o que eu aprendi na prática e fazer algo interessante como abrir um negócio estão na África”, diz ele. “Não somos só nós que pensamos isso, mas os estudantes portugueses daqui agora me pedem para ajudá-los a encontrar um emprego em Angola.”
Tradução: Eloise De Vylder
Poema: Escola - Nuno Júdice
Poema: Escola - Nuno Júdice
O que significa o rio,
a pedra, os lábios da terra
que murmuram, de manhã,
o acordar da respiração?
O que significa a medida
das margens, a cor que
desaparece das folhas no
lodo de um charco?
O dourado dos ramos na
estação seca, as gotas
de água na ponta dos
cabelos, os muros de hera?
A linha envolve os objectos
com a nitidez abstracta
dos dedos; traça o sentido
que a memória não guardou;
e um fio de versos e verbos
canta, no fundo do pátio,
no coro de arbustos que
o vento confunde com crianças.
A chave das coisas está
no equívoco da idade,
na sombria abóbada dos meses,
no rosto cego das nuvens.
Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"
a pedra, os lábios da terra
que murmuram, de manhã,
o acordar da respiração?
O que significa a medida
das margens, a cor que
desaparece das folhas no
lodo de um charco?
O dourado dos ramos na
estação seca, as gotas
de água na ponta dos
cabelos, os muros de hera?
A linha envolve os objectos
com a nitidez abstracta
dos dedos; traça o sentido
que a memória não guardou;
e um fio de versos e verbos
canta, no fundo do pátio,
no coro de arbustos que
o vento confunde com crianças.
A chave das coisas está
no equívoco da idade,
na sombria abóbada dos meses,
no rosto cego das nuvens.
Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"
Manutenção de nome nos cadastros restritivos de crédito prescreve em três anos
Manutenção de nome nos cadastros restritivos de crédito prescreve em três anos
Notícia publicada em 15/07/2010 17:54
A 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio reconheceu nesta quarta-feira, dia 14, que o prazo prescricional para manutenção de nome nos cadastros restritivos de crédito foi reduzido para três anos. Os desembargadores acompanharam, por unanimidade, o voto do relator, desembargador Nagib Slaibi.
A decisão diz respeito à apelação cível impetrada por Gisele Moura dos Santos contra sentença da 5ª Vara Cível do Fórum Regional de Jacarepaguá, que julgou improcedente o pedido feito por ela em ação movida contra a Fininvest Administradora de Cartões de Crédito e o Serasa. A consumidora reivindicava o cancelamento do registro de seu nome em cadastro restritivo de crédito e a compensação por danos morais em razão da permanência do apontamento negativo após o prazo de três anos. A sentença foi baseada no artigo 43, parágrafo 5º, da Lei 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor).
Já os desembargadores entenderam que, apesar de o Código de Defesa do Consumidor estipular que o prazo é de cinco anos, o Código Civil vigente determina que a prescrição ocorre em três e, por ser mais benéfico ao consumidor, deverá ser aplicado.
“Inegável que o vigente Código Civil se mostra contemporâneo e, em muitos momentos, suficiente para a proteção do consumidor, que, de certo, não está resguardado apenas pelo Código de Defesa do Consumidor, mas também por toda e qualquer outra legislação que lhe seja mais favorável”, destacou o relator do processo, desembargador Nagib Slaibi.
Para o magistrado, a redução do prazo vai beneficiar milhares de consumidores. “A redução do prazo prescricional e, consequentemente, do limite temporal máximo para a manutenção do nome do consumidor nos cadastros de proteção ao crédito possibilitará o reingresso de milhões de devedores no mercado, do qual estavam à margem em razão de dívidas pretéritas”, concluiu.
Nº do processo: 0011679-53.2009.8.19.0203
Solidão, por Mia Couto
Solidão
Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso
Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio
É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou
Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna
Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo
Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso
Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio
É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou
Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna
Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo
Mia Couto
O cadáver e o Messias
O cadáver e o Messias
Clóvis Rossi – Folha de São Paulo
SÃO PAULO - O presidente Hugo Chávez tem todo o direito de tentar implantar na Venezuela o tal socialismo do século 21, ainda que, cada vez mais, incida no autoritarismo e na ineficácia que sepultaram o modelito século 20. Não tem, no entanto, o direito de respaldar as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), grupo narcoterrorista.
Nem importa tanto saber se é verdadeira ou não a mais recente denúncia do governo da Colômbia que deu até as coordenadas completas de acampamentos do grupo na Venezuela.
Nem importa tanto saber se é verdadeira ou não a mais recente denúncia do governo da Colômbia que deu até as coordenadas completas de acampamentos do grupo na Venezuela.
Chávez já disse, tempos atrás, que "respeita" o projeto político das Farc.
Quem respeita um projeto narcoterrorista não merece respeito.
Por incrível que pareça, nem o vínculo com as Farc assusta tanto quanto as esquisitices de Chávez. A mais recente: mandou exumar os restos mortais do libertador Simón Bolívar para investigar se morreu mesmo de tuberculose (versão oficial) ou foi assassinado.
As mensagens no Twitter em que anunciou a exumação que testemunhou são de arrepiar qualquer pessoa sadia:
"Alô, meus amigos. Que momentos tão impressionantes vivemos esta noite. Vimos os restos do grande Bolívar."
"Alô, meus amigos. Que momentos tão impressionantes vivemos esta noite. Vimos os restos do grande Bolívar."
Depois: "Confesso que choramos. Digo a vocês: tem que ser Bolívar este esqueleto glorioso, pois pode-se sentir sua chama. Deus meu. Cristo meu".
Deus meu, Cristo meu, digo eu, caramba. Se alguém aparecer de repente na praça da Sé com a Bíblia na mão e esse discurso messiânico (ou necrófilo?), vira folclore. Não faz mal a ninguém, a não ser a ele próprio. Diverte os transeuntes.
Mas, se o cidadão com essa mentalidade é presidente da República, Deus meu, Cristo meu, transforma-se em um perigo ambulante. Não diverte ninguém, salvo sua corte. Menos ainda diverte os que são seus sócios no Mercosul.
Vamos cair na real!
Vamos cair na real!
MARCOS PALMEIRA – o Globo – 18/07/2010
Percebo na reforma do Código Florestal uma evolução no discurso ambiental do agronegócio, coisa que já tinha notado nos argumentos de deputados ruralistas, o que dificulta ainda mais a nosso entendimento, já que todos falam como ambientalistas.
O problema nessa historia é que, com o Código vigente, estávamos conseguindo fazer com que os latifundiários começassem a se preocupar com a preservação, mesmo que fosse para não serem multados. E agora essa preocupação se esvazia, já que eles não estão mais devendo nada.
Em resumo: esse novo código é um retrocesso em vários pontos. O discurso é sempre defendendo o pequeno produtor, mas o que não consigo ver são os interesses da agricultura familiar sendo discutidos e nem as questões vitais para se erradicar a fome no Brasil (o que para mim deveria ser prioridade!).
As comparações são sempre com os produtores de carne bovina e de frango (cheios de hormônios) e os produtores de milho e soja (muitas vezes transgênicos). Onde estão nossos alimentos? O feijão, a lentilha, o arroz, o inhame, a mandioca, as verduras os legumes, as frutas etc... onde estão? Não é possível mais se discutir a agricultura no Brasil sem falar no pequeno produtor, claro que isso vale para quem está realmente preocupado em acabar com a fome e dar dignidade para quem produz.
Ninguém fala em equilíbrio na propriedade! E a reforma agrária que não vinga? É claro que temos que discutir o Código Florestal, mas eu disse discutir, e não nos empurrar goela abaixo uma decisão que ainda não foi amplamente discutida com a sociedade.
Quando se tenta descaracterizar grupos ambientalistas sérios como o Greenpeace e a SOS Mata Atlântica, ONGs que mais se expuseram durante toda essa "discussão", fica clara a tentativa de se desviar dos verdadeiros problemas: a eterna exploração do homem no campo, o velho discurso de que se não investirmos numa semente geneticamente modificada não acabaremos com a fome, se não ampliarmos nossas áreas de produção ficaremos para trás na disputa do mercado externo.
Ora, temos tantos problemas internos ligados à alimentação e à preservação que devemos primeiramente resolvê-los, para depois pensarmos no vizinho.
Temos um grande mercado consumidor! Também esquecemos de dizer que essas sementes modificadas poderão ser a razão do aumento da fome nos próximos anos, uma vez que nossos solos ficarão mais contaminados, necessitando o produtor adquirir mais agrotóxicos (meu Deus, como é forte essa industria!).
O que esta em jogo não é o alimento, mas sim as divisas de mercado! Fica claro que, enquanto não tivermos um projeto voltado para a agroecologia, não existirá Código Florestal que resolva o desequilíbrio.
Na agroecologia, as propriedades buscam o equilíbrio entre preservação e a produção, visando a um alimento e/ou um produto mais saudável, e a uma melhor qualidade de vida de quem produz e de quem consome.
Mas entendo que sem marketing, sem uma grande empresa de insumos por trás, nós produtores agroecológicos ficaremos sempre no nicho de mercado, sendo vistos como sonhadores.
É preciso entender que uma floresta em pé vale muito mais que uma deitada! Espero que nessa época de eleições possamos encontrar alguém que tenha não só um discurso, mas uma vida voltada para novas formas de economia, colocando o meio ambiente no centro das discussões de uma forma madura.
Alguém que não veja os ambientalistas como pessoas que são contra o "progresso", mas alguém que quer discutir essa forma de progresso.
"Progresso para quem, cara-pálida?" Ninguém é contra o grande produtor, mas ele deve estar inserido nesse processo de preservação ambiental, no compromisso de um produto ético e sustentável! Vamos cair na real e abraçar essa árvore da vida, que é disso que estamos falando: vida digna para nossos filhos, num Brasil equilibrado e sustentável! Fica aqui essa reflexão!
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