quarta-feira, agosto 11, 2010
Bactéria mutante resistente a todos os antibióticos disponíveis deixa o mundo em alerta
Bactéria mutante resistente a todos os antibióticos disponíveis deixa o mundo em alerta
A bactéria mutante tem uma enzima chamada de NDM-1, produzida por um novo gene que confere altíssimo nível de resistência aos antibióticos. Em três anos, explicou o professor Tim Walsh, da Universidade de Cardiff - na foto, o descobridor do gene, a prevalência da bactéria era de apenas de 1% a 3 % dos pacientes com infecções enterobacterianas na Índia.
"É incrível como a expansão da bactéria foi rápida, graças à globalização e ao turismo médico", explica Walsh. O gene agora pode chegar a qualquer lugar rapidamente.
Walsh disse que é não é possível prever a prevalência da bactéria no Reino Unido, mas a Agência de Proteção à Saúde do país lançou um alerta aos médicos. O grande temor é a falta de medicamentos que possam combatê-la. Segundo os cientistas, mesmo que se comece a investir agora em novos antiobióticos, eles não estarão disponíveis rapidamente.
"Temos um prazo de 10 anos para desenvolver um medicamento capaz de tratar esse tipo de infecção. É a primeira vez que chegamos a um estágio tão ameaçador com este tipo de bactéria".
É preciso manter a indignação
É preciso manter a indignação
Editorial, Jornal do Brasil
RIO - O mundo civilizado acompanha, incrédulo, a saga da iraniana Sakineh Ashtiani, que está prestes a ser morta pelo governo de seu país. Não bastasse o episódio, este JB noticiou na edição de ontem a execução da grávida Bibi Sanubar por um grupo talibã do Afeganistão. Ambas tornaram-se vítimas por supostos atos de adultério. Os dois casos – que infelizmente não são exceções nesses países e só chegaram ao conhecimento do Ocidente por causa da globalização da informação via internet – são riquíssimos nas possibilidades de análise e desgraçadamente pobres em alternativas para mudar o contexto local. Mas não se pode desistir.
Sofrimento das vítimas à parte, seria um oportuno momento de reflexão para, por exemplo, os países que ainda preveem em suas leis a pena de morte, como os Estados Unidos. No sentido da humanidade, que diferença há entre apedrejamento ou forca e injeção letal ou cadeira elétrica? Algum preciosista poderá alegar que uma é mais rápida ou menos dolorosa do que a outra. Bobagem, o fim da história é o mesmo. Quem se choca com a pena imposta no Irã não tem por que aceitar a mesma pena decidida pelos americanos.
Outro ponto que deve ser tratado com muito cuidado é a demonização da cultura islâmica, que vários setores ocidentais estão promovendo, aproveitando-se do choque que o apedrejamento causa para tentar impor a nossa cultura à dos povos do Oriente Médio. É evidente que o impacto de uma barbárie, como é a pena de morte, aplicada por um Estado é grande, mas quem somos nós para nos acharmos melhores que os islâmicos se alguns de nossos países invadem outros e matam civis, e, em outros, jornalistas e devedores do tráfico são queimados no alto dos morros em microondas de pneus? E a criança arrastada num carro por vários bairros?
O que não se pode é perder a capacidade de indignação com o ato bárbaro de tirar a vida de alguém voluntariamente. Seja com traficantes, com exércitos inábeis e imperialistas ou com talibãs fanáticos. O século 21 e a globalização chegaram para todos. Não é aceitável que uma parte do mundo, independentemente de suas respeitáveis crenças religiosas, insista em, voluntariamente, cobrir os olhos e viver nas trevas que marcavam tempos remotos.
As lideranças humanistas do planeta, oficiais ou não, precisam erguer a voz contra esse apedrejamento – que pode ser “substituído” por enforcamento – com a mesma força com que, por exemplo, guardadas as devidas escalas, se combateu o Holocausto – em que diferem pedras ou cordas no pescoço de câmaras de gás? Se uma sociedade inteira chega à conclusão de que uma pessoa não deve mais a ela pertencer, que aceite então as ofertas de países irmãos e a mande para eles, que lhe poupe o mais sagrados dos direitos, à vida.
Não se trata de discutirmos culturas ou religiões. É questão de sabermos se ainda somos seres humanos.
21:34 - 10/08/2010
Informação e piadas proibidas
Informação e piadas proibidas
José Aparecido Miguel – Jornal do Brasil
Em tempo de eleição presidencial, as fontes de informação do eleitor brasileiro são limitadas por lei. O humor também é censurado, criando-se um “Horário eleitoral sem graça”, como escreve Hélio de La Peña, humorista do "Casseta & Planeta", exibido pela TV Globo.
A rádio Jovem Pan, sediada em São Paulo, mas presente em todo o país, tem dado destaque diário ao tema em editorial, apresentado pela voz de Joseval Peixoto.
“Como vamos escolher nossos representantes? O rádio não poderá se manifestar. É vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário, transmitir, ainda que sob forma de entrevista, imagens de realização de pesquisa ou qualquer outro tipo de consulta popular de natureza eleitoral. Ninguém poderá debater. Ninguém poderá ser entrevistado”.
A emissora coloca no ar um apelo: “A escolha dependerá só de você. É muito importante votar. A eleição é o grande momento da democracia, é você quem vai falar, é você quem vai decidir, é você quem vai eleger (...). Debata, pesquise, colha informação, questione e, afinal, vote bem. Vote consciente”.
PIADA PROIBIDA
Hélio de La Peña comenta, em artigo na Folha de S. Paulo, domingo:
"E se a gente fizesse um jingle dizendo que agora o Lula está apoiando o Collor, e que o Collor apoia a Dilma?". Essa ideia poderia ter surgido numa reunião do "Casseta", do "Pânico" ou do "CQC". Mas não, o jingle existe e faz parte da campanha eleitoral de 2010. Segundo as novas regras do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), os humoristas estão proibidos de fazer piadas sobre os candidatos”.
O humorista acrescenta, em outro trecho, que deixar o humor de fora do processo eleitoral não eleva o nível das campanhas, não esclarece a população e não torna nossos políticos mais respeitáveis. “Pelo contrário, enfraquece o debate, tira a corrida presidencial das conversas nas esquinas e nos cafés das empresas. Impede o candidato de rir de si mesmo e, quem sabe, corrigir o rumo de sua campanha. Não estamos lutando pelo direito de difamar ou ferir a honra de ninguém, mas amordaçar nossos candidatos Dilmandona, José Careca e Magrina da Silva é um gol contra a democracia”.
La Peña completa: “O público conhece os programas humorísticos e sabe quais são suas propostas. Cabe aos políticos apresentar as suas com seriedade, de forma que o povo não as confunda com as dos humoristas”.
Editorial Jovem Pan:
Brasil não tem bolha imobiliária, diz estudo de entidade habitacional
Brasil não tem bolha imobiliária, diz estudo de entidade habitacional
'Estouro' especulativo nos EUA causou crise financeira global em 2008.
José Roberto Mendonça de Barros diz que alta local reflete demanda.
O aumento dos preços no mercado de imóveis brasileiros não é uma bolha imobiliária, segundo estudo realizado pela consultoria MB associados a pedido da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) e divulgado nesta quarta-feira (11).
Embora não haja garantias sobre se a valorização dos imóveis deva continuar por muito tempo, uma eventual redução nos preços não teria impacto macroeconômico como o que foi registrado nos EUA e que culminou na maior crise financeira nos Estados Unidos desde 1929, aponta a consultoria.
O estudo foi feito a pedido da entidade para responder a questionamento recorrente no mercado brasileiro: há a possibilidade de a valorização imobiliária nacional ser algo parecido com a bolha especulativa dos EUA?
"Não temos dúvida alguma em afirmar que não há bolha imobiliária no Brasil. Existe um aumento de preço nos valores de imóveis porque há aumento da demanda, mas não uma bolha. Não temos os elementos que caracterizam uma bolha”, afirmou o economista José Roberto Mendonça de Barros - na foto, da MB Associados, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.
A MB estima que a demanda imobiliária média anual deva continuar crescendo nos próximos anos, principalmente na classe C: o ritmo previsto para essa faixa de renda é de demanda média de quase 15 milhão de imóveis por ano entre 2010 e 2016.
Bolha nos EUA
De acordo com o estudo, o mercado de imóveis do Brasil tem elementos bem diferentes da bolha imobiliária norte-americana: não há exagero no volume de empréstimos imobiliários tomados pelas pessoas físicas ou doados pelos bancos. A valorização, diz a MB, reflete um aumento da demanda causado pelo crescimento da economia, da renda, e da disponibilidade de crédito no país.
Além disso, há uma diferença fundamental entre o quadro brasileiro e o americanos pré-bolha, segundo Barros: as regras bancárias brasileiras são rígidas, diferentemente do que acontecia nos EUA antes do "estouro" da bolha.
"A regulamentação bancária no Brasil é muito estrita e as garantias e os procedimentos para fazer os financiamentos são bastante controlados", afirmou Mendonça de Barros.
O "afrouxamento" das regras para concessão de crédito para imóveis nos EUA é apontado como um dos principais pontos que propiciaram o problema no setor: permitiu a concessão de crédito para pessoas que não tinham condições de pagar a dívida.
"No caso americano, algumas coisas foram feitas no final da década de 70 para desregular o mercado de crédito e permitir que houvesse uma expansão do crédito imobiliário sem muita regulação", afirmou Sérgio Vale, economista-chefe da MB associados durante a apresentação do estudo na sede da Abecip, em São Paulo.
"Como qualquer coisa, o preço de imóveis não é diferente do preço de automóveis, do preço de alimentação. O aumento da demanda veio por causa de crescimento, por causa de financiamento mais disponível, pela formação de novas famílias, de repente a demanda cresceu substancialmente e aí pressiona as produção que ainda é pequena. Está crescendo, mas não é bolha, portanto não implica em riscos para o crescimento da economia".
Outro argumento da MB é que os níveis de inadimplência nos financiamentos imobiliários tem caído fortemente ao longo dos anos: o percentual de empréstimos com atraso superior a três meses caiu de 12% em 2000 para 2,52% em 2010.
Alta continua?
Conforme os economistas, o estudo não sinaliza, porém não descarta a possibillidade de o Brasil vir a ter uma bolha imobiliária no futuro. "Provavelmente não (haverá). A razão principal para acreditarmos nisso é que não há expectativa de desregulamentação financeira no Brasil. Então mesmo que os preços dos imóveis caiam, isso não causaria desequilíbrio econômico", afirmou Barros.
Em contexto: Israel e os imigrantes não judeus
Em contexto: Israel e os imigrantes não judeus
Para enxergar além dos fatos
Juliano Machado - época
PROTESTO
Em Tel Aviv, famílias de trabalhadores estrangeiros exibem cartazes contra o plano do governo de deportar pais e filhos ilegais
Até o fim do mês, o destino de centenas de famílias de trabalhadores estrangeiros ilegais, incluindo até mesmo as crianças nascidas em Israel, pode ser a terra de origem. O gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou que, em até 30 dias, deportará, com seus pais ou mães estrangeiros, as crianças e os adolescentes que não se encaixarem numa lista de critérios. Entre os requisitos, eles têm de estar matriculados na rede de ensino israelense; saber falar hebraico; estar morando ao menos cinco anos consecutivos em Israel; ainda não ter concluído o ensino médio. A estimativa é que ao menos 400 crianças estariam sujeitas à deportação. Por que Israel expulsaria quem não tem nenhum elo com a terra dos pais e, naturalmente, preferiria permanecer no país onde nasceu ou está crescendo?
Israel tem hoje 7,6 milhões de habitantes. De acordo com a classificação oficial adotada pelo governo israelense, três quartos deles são judeus, e os demais são, em sua maioria, árabes com cidadania israelense. Os imigrantes que vêm trabalhar ilegalmente no país começam a engrossar as estatísticas – são 255 mil, dos quais 125 mil ilegais, segundo o governo. Deportar as famílias seria uma forma de desestimular a entrada de mais clandestinos.
Há, porém, outro fator em jogo. A população judaica em Israel já foi, proporcionalmente, bem maior (leia o quadro abaixo). Essa queda, acentuada nos anos 90, tem tornado a questão demográfica um tema explosivo na política interna israelense. Ao anunciar a medida, o próprio Netanyahu citou “considerações sionistas” e a preocupação de “assegurar o caráter judaico do Estado de Israel”. A coalizão de Netanyahu inclui partidos da ultradireita, como o Shas, que consideram os imigrantes não judeus uma ameaça ao ideal de Israel como pátria judaica – o princípio do movimento sionista, fundado por Theodor Herzl (1860-1904). É do Shas o ministro do Interior, Eli Yishai, responsável por assuntos imigratórios. Numa tirada preconceituosa, ele já se referiu aos imigrantes como “fonte de uma profusão de doenças e vícios”.
A maioria das famílias sob risco de deportação veio de países pobres do Leste Europeu, do Sudeste Asiático e da África. Elas chegaram a Israel a partir dos anos 90. Na época, a primeira intifada, o levante dos palestinos contra a ocupação israelense de Gaza e Cisjordânia, reduziu a oferta de palestinos que saíam desses territórios para trabalhar em Israel. A solução adotada pelo governo israelense foi preencher esse mercado com imigrantes filipinos, tailandeses, etíopes, moldávios. Eles receberam vistos de trabalho de até cinco anos, mas a maioria se fixou no país depois que o prazo expirou.
Enquanto as famílias ilegais devem sair do país, outros 30 mil estrangeiros entraram legalmente em Israel no ano passado. Para que eles não venham a ser deportados daqui a alguns anos, Israel precisa achar uma saída melhor para o dilema entre precisar de mão de obra e coibir a clandestinidade. Nas palavras de John Gal, professor de políticas sociais da Universidade Hebraica, em Jerusalém: “Deportar crianças não vai resolver nada enquanto não tivermos uma política de imigração clara para não judeus”.
Navegando entre princípios e negócios
Navegando entre princípios e negócios
Marco Antonio Villa
A política externa do governo Lula tem se caracterizado pelo absoluto desprezo aos direitos humanos. Segundo o ministro Celso Amorim, o que importa são os negócios. Foi assim que justificou a visita à Guiné Equatorial, governada por um tirano há mais de três décadas. Da mesma forma que fechou os olhos aos ataques às liberdades democráticas que ocorre de forma sistemática na Venezuela.
Para o Itamaraty, eleições livres, defesa das liberdades democráticas, alternância do poder, respeito às minorias nacionais, tudo isso é absolutamente irrelevante, "coisa de poeta". De acordo com Amorim, uma potência mundial não tem princípios, só interesses. Esta diplomacia sonha transformar o Brasil em um país com presença mundial e agindo conforme as regras do jogo estabelecidas nos últimos dois séculos. Daí que não seria exagero imaginar até a retomada do programa de construção da bomba atômica, adotando velhos argumentos, como o de que não é "democrático", como disse o presidente Lula, que somente alguns países tenham acesso ao domínio completo da tecnologia nuclear.
Isto pode explicar a leniência da diplomacia quando teve de enfrentar nos fóruns internacionais as questões relacionadas aos direitos humanos. O Brasil não apoiou as pressões contra o governo do Sudão que pratica há anos, na região de Darfur, um verdadeiro genocídio. Silenciou. Em outros momentos, apoiou entusiasticamente ditaduras e racistas, como as ironias de péssimo gosto em relação aos presos políticos cubanos ou a sustentação de um candidato à direção da Unesco, o egípcio Faruk Hosni, que é um conhecido defensor do antissemitismo. E, nos últimos dias, quando Lula considerou "uma avacalhação" interceder junto ao governo iraniano para salvar da morte por lapidação a iraniana Sakineh Ashtiani - para, posteriormente, fazer um pedido envergonhado de concessão de asilo, algo absolutamente descabido.
Nada mais antibrasileiro do que a defesa do racismo e do ódio entre as raças. Uma das conquistas históricas do Brasil são a mestiçagem e o enfrentamento do racismo. Depois de tantos percalços, a democracia se consolidou. E um país com a nossa história não pode desprezar estes triunfos. Mas a política externa lulista não dá a mínima importância. Não considera a democracia um valor universal. Assumiu, como se fosse um prato recém-preparado, o requentado discurso terceiro-mundista. E pior: em um mundo multi-polarizado.
O Brasil deve deixar de contemporizar com governos que violam as leis internacionais, ignoram os contratos e desprezam a democracia. Não pode achar que valores históricos devam ser trocados por mercadorias. Princípios não são commodities. O nosso compromisso é com os povos e não com ditadores. Não é ingenuidade estabelecer uma política de princípios. Pelo contrário. Temos de romper com a hipocrisia de que o mundo sempre foi assim, que as potências têm interesses e não amigos.
O Brasil tem neste momento uma oportunidade histórica. Pode aliar o dinamismo econômico, a experiência da convivência de diferenças raças e religiões, a uma política externa que tenha princípios democráticos. Seria bom que o Itamaraty voltasse a ler o Barão do Rio Branco. A 1º de dezembro de 1902, depois de um quarto de século longe do País, pouco antes de assumir o ministério, a convite do presidente Rodrigues Alves, Rio Branco lembrou que prestou inúmeros serviços ao País, mas o fez "porque defendia causas que não eram de uma parcialidade política, mas sim da nação inteira."
E concluiu: "Não venho servir a um partido político, venho servir ao Brasil."
Fonte: Estadão
A agonia de Sakineh
A agonia de Sakineh
Como o caso da iraniana condenada à morte por apedrejamento motivou um debate mundial sobre penas cruéis e colocou o Brasil no centro da discussão
Solange Azevedo
As pedras não podem ser muito pequenas – a ponto de não ferir – nem grandes demais – para não matar rápido. Os homens são enterrados de pé, até a cintura. As mulheres, até a altura dos ombros. Com os braços presos, elas não podem tentar se defender. Se testemunhas do delito estiverem presentes, atiram as primeiras pedras. Caso contrário, essa tarefa é cumprida pelo juiz. Os espectadores têm permissão para atacar em seguida. No Irã é assim: adultério é crime e os condenados são executados a pedradas. A mídia local, pressionada pelo governo, não noticia os casos e eles raramente repercutem no exterior. O drama de Sakineh Mohammadi Ashtiani, uma viúva de 43 anos e mãe de dois filhos, só despertou a atenção internacional porque o mais velho, Sajjad, 22 anos, lançou uma campanha virtual para libertá-la. Organizações de direitos humanos e civis de várias partes do mundo se juntaram a ele e começaram a divulgar a história pela internet. Os apelos, no entanto, não surtiram efeito. Na quarta-feira 4, a Corte Suprema de Teerã confirmou a execução de Sakineh. E, além de adultério, passou a acusá-la de assassinato. Nos próximos dias, o tribunal definirá se Sakineh será apedrejada ou enforcada.
O discurso das autoridades iranianas foi mudando à medida que a pressão internacional aumentava. Atores como Emma Thompson, Colin Firth e Juliette Binoche aderiram à campanha. Os brasileiros se engajaram com força depois que um vídeo protagonizado pela atriz Mika Lins caiu no YouTube e no microblog Twitter. O apelo de Mika era para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ligasse para o líder iraniano Mahmoud Ahmadinejad e intercedesse em favor de Sakineh. Primeiro, Lula disse que não se meteria em assuntos internos de outro país. Depois, voltou atrás. Durante um comício na capital paranaense, o presidente ofereceu asilo a Sakineh. A oferta foi logo rejeitada pelo Irã e Lula ainda foi chamado de “emotivo”.
Em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, Gholan Dehghani, diretor de Assuntos Políticos Internacionais da chancelaria iraniana, afirmou: “Ela (Sakineh) é uma criminosa. E esse caso não é político, é criminoso. A história foi apresentada como sendo de adultério. Mas isso é uma forma de enganar a opinião pública mundial. Essa mulher é acusada de assassinato e muitas coisas mais terríveis que eu não tenho nem coragem de descrever.”
Em maio de 2006, Sakineh foi condenada a 99 chicotadas por, supostamente, ter mantido “relações ilícitas” com dois homens. Um deles, o assassino de seu marido. Cumpriu a pena na frente do primogênito. Sajjad tinha 17 anos quando viu a mãe ser surrada. De acordo com o advogado de Sakineh, Mohammad Mostafaei, apesar de não haver provas do adultério, o caso foi reaberto porque a Justiça suspeitou que ela tivesse participação na morte do marido. Sakineh foi absolvida da acusação de homicídio. Mas a pena por adultério foi revista. Desde então, está presa. “Todas as noites, antes de ir dormir, penso: quem atiraria pedras em mim?”, desabafou Sakineh, por telefone, a Mina Ahadi, porta-voz do Comitê Internacional contra o Apedrejamento. Segundo Mina, pelo menos outras 12 mulheres e três homens, condenados à morte por apedrejamento, aguardam no corredor da morte no Irã.
Organizações de direitos humanos estimam que, entre 1983 e 1997, pelo menos 150 pessoas foram mortas dessa forma no Irã. Quando Mohamed Jatami assumiu a Presidência, as execuções diminuíram. Voltaram a ser frequentes quando Ahmadinejad chegou ao poder. “O regime islâmico desrespeita os direitos humanos e a liberdade, principalmente das mulheres”, afirmou à IstoÉ a iraniana Azar Majedi, fundadora da Organization for Women’s Liberation, uma ong sediada no Reino Unido que luta pelos direitos femininos. “E esse regime funciona baseado na intimidação e na opressão. Qualquer pessoa que se oponha é coibida violentamente.” Três familiares de Mostafaei, advogado de Sakineh, foram presos porque ele deu entrevistas relatando o drama da cliente. O cunhado e o sogro foram libertados. Mas, até a tarde da quinta-feira 5, a mulher dele continuava encarcerada. Mostafaei fugiu para a Turquia. De lá, entrou em contato com as Nações Unidas pedindo asilo político.
A atitude do governo de Ahmadinejad mostra que o Brasil não goza do prestígio que imaginava no Irã. Marco Aurélio Garcia, assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, disse que o caso de Sakineh não afetará as relações diplomáticas entre os dois países. “Obviamente, não vai mudar de jeito nenhum. Não tem razão para mudar”, afirmou. Analistas consideram que a postura de Lula nesse episódio foi inadequada. “Ele deveria ter se posicionado firmemente em defesa dos direitos humanos. E não falar de um caso isolado. O Brasil não tem nada a perder com uma eventual acusação de ingerência interna do Irã. Não temos interesses vitais na região”, acredita Samuel Feldberg, professor de relações internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco. “Não dá para fingir que é uma questão de soberania”, alega o historiador Estevão Martins, professor da Universidade de Brasília (UnB). “Mas, para os brasileiros, a imagem que vai ficar é a de um presidente choroso e misericordioso que tentou dar asilo a uma mulher condenada à morte.”
A 'fábrica de dossiês' do PT
A 'fábrica de dossiês' do PT
Editorial - O Estado de S. Paulo
Em editorial, nesta página, sobre a revelação de que servidores da Receita violaram o sigilo fiscal do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira, presumivelmente para a montagem de um dossiê que poderia ser usado por setores da campanha da candidata Dilma Rousseff contra o opositor tucano José Serra, falou-se do "exército secreto" arregimentado pelo PT na administração federal para fazer o trabalho sujo na disputa pelo Planalto. É mais do que isso. As campanhas eleitorais são apenas uma entre tantas frentes onde atuam essas tropas da treva - e assim também os seus alvos.
Disso não deixa dúvida a confissão de um ex-diretor e ex-assessor da Previ, o colossal fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, Geraldo Xavier Santiago. Em entrevista publicada na edição desta semana da revista Veja, Santiago disse que a entidade é "uma fábrica de dossiês" que funciona como um "bunker" e "braço partidário" a serviço de uma ala petista - comandada pelos poderosos chefões do sindicalismo aboletados na estrutura do poder nacional. Ele citou nominalmente os ex-ministros Ricardo Berzoini e Luiz Gushiken e o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, todos do setor bancário.
O gerente da fábrica, de acordo com a denúncia, era o presidente da Previ até junho, Sérgio Rosa. Santiago era próximo dele até romperem em 2007. No embalo, o então diretor deixou o fundo e saiu do PT. Ele não é um pecador arrependido. Levado a falar do dossiê contra Marina Mantega, filha do ministro da Fazenda, cuja compilação o entrevistado atribui a uma "disputa interna", fez uma especiosa distinção entre o certo e o errado nessas operações: "Uma coisa é fazer com o adversário. É uma involução do PT?"
O sindicalismo selvagem que Lula levou para dentro do governo transpôs para a política a violência característica dos embates entre as máfias sindicais. Parte da premissa de que todo adversário deve ser tratado como inimigo - e, nessa condição, deve ser aniquilado. Santiago, que começou no sindicato dos bancários do Rio, contou que sua estreia na linha de montagem de falsas acusações a terceiros data de 2002, quando as milícias petistas foram incumbidas de investir contra os então gestores da Previ e provar a interferência do governo na instituição.
A cultura da destruição se afirmou em seguida. "Dossiês com conteúdo ofensivo, para atingir e desmoralizar adversários políticos", precisa Santiago, "só no governo Lula mesmo, na gestão do Sérgio Rosa". Foi também quando a cúpula da Previ armou uma teia de conselheiros ligados ao PT em empresas de cujo capital o fundo participava para canalizar em favor da sigla as suas doações partidárias. A central de dossiês trabalhou a todo vapor durante a CPI dos Correios, em 2005, cujo foco incidiu sobre o mensalão, antes que o esquema de compra de votos fosse objeto de um inquérito específico.
A Previ, à época, era a fonte das acusações com que a senadora petista Ideli Salvatti tentava acuar parlamentares oposicionistas. Segundo revelou Santiago, que agora diz que cumpria "ordens superiores", entre os políticos visados estavam os senadores Jorge Bornhausen e Heráclito Fortes e o deputado ACM Neto, todos do DEM. O tucano José Serra também faria parte da lista. Rosa teria ordenado que se juntassem dados sigilosos com " informações sobre investimentos problemáticos da Previ que estivessem ligados a políticos da oposição".
Sintomaticamente, a primeira reação do PT à entrevista foi silenciar. Já o fundo de pensão, hoje dirigido por um ex-vice-presidente do Banco do Brasil, Ricardo Flores, informou que "a atual cúpula desconhece essa prática e está muito tranquila em relação a suas recentes práticas de governança". De notar os termos "atual" e "recentes" - indicando uma dissociação com o que se tenha feito na entidade até há bem pouco tempo. De seu lado, além de assegurar que a sua campanha não tem nenhuma vinculação com a Previ, a candidata Dilma Rousseff instou a imprensa a revolver o caso dos grampos na privatização da Telebrás no governo Fernando Henrique. Como se isso eximisse de culpa os papeleiros da Previ e limpasse a ficha do PT.
As bombas desejam explodir
As bombas desejam explodir
ARNALDO JABOR - O GLOBO
Há 65 anos, em 6 e 9 de agosto de 1945, os americanos destruíram Hiroshima e Nagasaki. Todo ano me repito e escrevo artigos parecidos sobre a bomba nessas datas, não para condenar um dos maiores crimes da humanidade, não, mas para lembrar que o impensável pode acontecer a qualquer momento.
Agora, não temos mais a Guerra Fria; ficamos com a guerra quente do deserto - a mais perigosa combinação: fanatismo religioso e poder atômico. Vivemos dois campos de batalha sem chão; de um lado, a cruzada errada do Ocidente, apesar e além de Obama. Do outro, temos os homens-bomba multiplicados por mil. E eles amam a morte.
Agora, não temos mais a Guerra Fria; ficamos com a guerra quente do deserto - a mais perigosa combinação: fanatismo religioso e poder atômico. Vivemos dois campos de batalha sem chão; de um lado, a cruzada errada do Ocidente, apesar e além de Obama. Do outro, temos os homens-bomba multiplicados por mil. E eles amam a morte.
Hoje, já há uma máquina de guerra se programando sozinha e nos preparando para um confronto inevitável no Oriente Médio. Estamos num momento histórico, em que já se ouvem os trovões de uma tempestade que virá. Os mecanismos de controle pela "razão", sensatez, pelas "soft powers" da diplomacia perdem a eficácia. Instala-se um progressivo irracionalismo num "choque de civilizações", sim (sei do simplismo da análise do Huntington em 93, mas estamos diante do simplismo da realidade), formando uma equação com mil incógnitas impossíveis de solucionar. Como dar conta da alucinação islâmica religiosa com amor à morte, do Paquistão, Índia, Israel, do Irã dominado por ratos nucleares em breve, da invencibilidade do Afeganistão, com a hiperdireita de Israel com Bibi, com o Hamas ou o Hezbollah que querem impedir o "perigo da paz"?
"There is a shit-storm coming" - disse Norman Mailer uma vez.
Tudo leva a crer que algo terrível acontecerá. A crença na razão ocidental foi ferida por dois desastres: o 11 de Setembro e a invasão do Iraque. A caixa de Pandora que Bush abriu nunca mais se fechará.
Estamos às vésperas de uma brutal mudança histórica. Sente-se no ar o desejo inconsciente por tragédias que pareçam uma "revelação". Surge a fome por algo que ponha fim ao "incontrolável", a coisa que o Ocidente mais odeia. Mesmo uma catástrofe sangrenta parecerá uma "verdade" nova.
Vivemos hoje na era inaugurada por Hiroshima. Lá e em Nagasaki, três dias depois, inaugurou-se a "guerra preventina" de hoje. Enquanto o Holocausto dos judeus na Segunda Guerra fecha o século XX, motivado ainda por contradições do século XIX, o espetáculo luminoso de Hiroshima marca o início da guerra do século XXI. O horror se moderniza, mas não acaba.
Estamos às vésperas de uma brutal mudança histórica. Sente-se no ar o desejo inconsciente por tragédias que pareçam uma "revelação". Surge a fome por algo que ponha fim ao "incontrolável", a coisa que o Ocidente mais odeia. Mesmo uma catástrofe sangrenta parecerá uma "verdade" nova.
Vivemos hoje na era inaugurada por Hiroshima. Lá e em Nagasaki, três dias depois, inaugurou-se a "guerra preventina" de hoje. Enquanto o Holocausto dos judeus na Segunda Guerra fecha o século XX, motivado ainda por contradições do século XIX, o espetáculo luminoso de Hiroshima marca o início da guerra do século XXI. O horror se moderniza, mas não acaba.
Auschwitz e Treblinka eram "fornos" da Revolução Industrial, eram massacres "fordistas", mas Hiroshima inventou a guerra tecnológica, virtual, asséptica. A extinção em massa dos japoneses no furacão de fogo fez em um minuto o trabalho de meses e meses do nazismo.
O que mais impressiona na destruição de Hiroshima é a morte "on delivery", "de pronta entrega", sem trens de gado humano, morte "clean", anglo-saxônica. A bomba norte-americana foi considerada uma "vitória da ciência".
Os nazistas matavam em nome do ideal psicótico e "estético" de "reformar" a humanidade para o milênio ariano. As bombas norte-americanas foram lançadas em nome da "razão". Na luta pela democracia, rasparam da face da Terra os "japorongas", seres oblíquos que, como dizia Truman, "são animais cruéis, obstinados, traidores". Seres inferiores de olhinho puxado podiam ser fritos como "shitakes".
A bomba agiu como um detergente, um mata-baratas, a guerra, como "limpeza", o típico viés americano de tudo resolver, rápida e implacável... E continua cozinhando na impaciência dos generais israelenses e dos falcões do Pentágono.
A bomba agiu como um detergente, um mata-baratas, a guerra, como "limpeza", o típico viés americano de tudo resolver, rápida e implacável... E continua cozinhando na impaciência dos generais israelenses e dos falcões do Pentágono.
A destruição de Hiroshima foi "desnecessária" militarmente. O Japão estava de joelhos, querendo preservar apenas o imperador e a monarquia. Diziam que Hitler estava perto de conseguir a bomba - o que é mentira.
Uma das razões reais era que o presidente e os falcões da época queriam testar o brinquedo novo. Truman fala dele como um garoto: "Uau! É o mais fantástico aparelho de destruição jamais inventado! Uau! No teste, fez uma torre de aço de 60 metros virar um sorvete quente!..." O clima era lúdico e alucinado... o avião que largou a bomba A em Hiroshima tinha o nome da mãe do piloto - "Enola Gay". Esse gesto de carinho derreteu no fogo 150 mil pessoas. Essa foi a mãe de todas as bombas, parindo um feto do demônio, exterminando 40 mil crianças em 15 segundos.
Os norte-americanos queriam vingar Pearl Harbour, pela surpresa de fogo, exatamente como o ataque japonês três anos antes. Queriam também intimidar a União Soviética, pois começava a Guerra Fria; além, claro, de exibir para o mundo um show "maravilhoso" de som e luz, uma superprodução em cores do novo Império.
O Holocausto sujou o nome da Alemanha, mas Hiroshima soa como uma vitória tecnológica "inevitável". Na época, a bomba explodiu como um alívio e a opinião pública celebrou tontamente. Nesses dias, longe da Ásia e da Europa, só havia os papéis brancos caindo como pombas da paz na Quinta Avenida, sobre os beijos de amor da vitória. Naquele contexto, não havia conceitos disponíveis para condenar esse crime hediondo. A época estava morta para palavras, na vala comum dos detritos humanistas.
Hoje, a época está de novo morta para palavras, insuficientes para deter os fatos. Vale lembrar o poema de William Yeats, "The Second Coming", de 1919, diante do horror da Primeira Guerra...
Hoje, a época está de novo morta para palavras, insuficientes para deter os fatos. Vale lembrar o poema de William Yeats, "The Second Coming", de 1919, diante do horror da Primeira Guerra...
"Tudo se desmancha no ar. O centro não segura/ a imensa anarquia solta sobre o mundo./ Terrível maré de sangue invade tudo e/ as cerimônias da inocência são afogadas./ Os homens melhores não têm convicção;/ e os piores estão tomados pela intensa paixão do mal. (...) Alguma revelação vem por aí;/ sem dúvida, é a Segunda Vinda. (...) Voltou a escuridão; e eu vejo que 20 séculos de sono de pedra/ Querem se vingar do pesadelo que lhes trouxe o berço de um presépio./ A hora chegou por fim;/ Que monstruosa fera se arrasta para Belém para renascer?/ É isso aí, bichos... Os grandes poetas são profetas".
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