segunda-feira, agosto 16, 2010
Corações de pedra (1)
Corações de pedra (1)
11.08.2010 - 1:21pm (*) Roberto Romano da Silva
“Jesus foi para o Monte das Oliveiras : “…escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. (…) E, como insistissem (…) disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. (…) Quando ouviram isto, redargüidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos” E perguntou Jesus : “Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais. (Evangelho de João, 8).
“Qui sine peccato est vestrum, primus in illam lapidem mittat”. No caso do apedrejamento anunciado no Irã, precisamos examinar a lei que o sanciona. A lapidação por adultério foi instituída após o advento do Corão. No livro santo o castigo é menos severo do que no Levítico do Antigo Testamento. “As que cometem adultério entre vossas mulheres, deveis apresentar quatro testemunhas dentre vós contra elas. Se testemunharem, então deveis manter tais mulheres em suas casas até que morram, ou até que Deus crie uma saída para elas”. (Corão, 4:15). E também: “O casal que comete adultério deve ser punido. Se houver arrependimento e mudança, deveis deixá-los sozinhos. Deus é redentor, o mais misericordioso “. (Corão, 4:16).
No Paquistão de hoje ocorrem debates para saber se a lapidação seria castigo para o crime de adultério . Os enunciados em Shariat federal indicam que 100 chibatadas, sem lapidação, é a pena. Na Líbia são discutidos os castigos, com medidas diversas. (Disy Hilse Dwyer (ed): Law and Islam in the Middle East. New York, Bergin & Garvey. 1990).
No Irã a revolução afastou o corrupto e sanguinário Reza Pahlevi. O povo festejou o retorno aos ditames religiosos integrais. Logo o clero mostrou rosto sombrio. Hoje o país sofre sob aiatolás e também é vítima de milícias truculentas. Na lei penal assumiu força a lapidação e outras penas brutais. A Constituição de 1979 manda que os juízes impeçam “a execução de qualquer decreto governamental, se for provado que ele é contrário à lei islâmica e a seus mandamentos”. Tal direito pode ser exercido por qualquer juiz ou corte inferior. Em Shiraz (1982) um clérigo sem jurisdição na cidade, e sem ler as evidências e anotações dos juízes locais, mudou penas de prisão, aplicadas por cortes competentes, em sentenças de morte, as executando. O magistrado que deu as primeiras sentenças reclamou com o líder máximo, Khomeini. Não atendido, pediu demissão. O caso se repetiu a cada novo dia.
Penas cruéis foram “aprimoradas” por Khomeini. Açoitar jovens em público, apedrejar adúlteras até a morte se transformou em hábito. No seu tratado “Velayat-e-Faghih” escreve Khomeini: “Punir um bebedor com oitenta chibatadas em público se justifica, porque a maioria de nossas calamidades como acidentes de trânsito, suicídios e vicios em drogas vêm à tona em instantes de embriaguez”. E argumenta: “apedrejar uma adúltera solteira é o método mais eficaz contra a fornicação, abominação e corrupção”. (Cf. Ruhullah Khomeini, “Velayat-e-Faghih” ou “al-Hukumat al-Islamiyah” (1974). Seleções do livro traduzidas por Tareq Y. Ismael : “Iraq‐ Iran Conflict” (Syracuse: Syracuse University Press, 1982). Para mais informações seja lido o espantoso “Spirit Matters: The Worldwide Impact of Religion on Contemporary Politics”, Richard L. Rubenstein (ed.) (NY, Paragon House, 198 7). E também “Reformers and Revolutionaries in Modern Iran: New Perspectives on the Iranian Left”. Stephanie Cronin (Ed.), NY, RoutledgeCurzon. 2004.
Jesus e o Corão ensinam misericórdia. É nauseante ler cartas de leitores “cristãos” que julgam normal o apedrejamento de um ser humano. Seus corações são mais pétreos do que os objetos a serem jogados contra a carne frágil de Sakineh Mohammadi Ashtiani. Entendemos a causa de tantas mulheres serem espancadas, no Brasil: covardia impiedosa não tem crença ou lugar.
Plínio e os meninos do Santos
Plínio e os meninos do Santos
Luiz Werneck Vianna - VALOR ECONÔMICO
Não se trata de mais uma entediante metáfora futebolística, mas esse último jogo da seleção brasileira dá no que pensar. Depois dos jogos da Copa do Mundo em que nosso time, apesar de se mostrar aguerrido, evoluía pelos quatro cantos do campo sem a menor imaginação, na expectativa de que a sorte viesse a lhe sorrir, quem sabe em uma bola parada ou em erro do adversário, o que se assistiu na terça-feira, passado apenas um mês da nossa participação naquela infausta competição, foi como que uma confissão pública de um equívoco monumental. Apesar de enfrentar, em território do adversário, uma seleção americana formada há anos, de belo desempenho na África do Sul, nossos jogadores fluíam no gramado leves e soltos, sem perder de vista o objetivo crucial do jogo, o gol, fazendo do oponente um mero espectador de suas evoluções em campo.
Qual a mudança que transformou o comportamento do nosso time? A entrada de novos jogadores, antes descartados, certamente foi um fator, mas não deve explicar tudo, porque, antes da intervenção de novos pés, parece ter sido decisiva a da cabeça, com a adoção de uma nova concepção de jogo, que veio a valorizar as características de improviso e de inovação tradicionais à nossa cultura futebolística. A comparação com o quadro melancólico da sucessão presidencial em curso parece se impor, com esse desfile monótono de candidatos, como se fossem ventríloquos de marqueteiros, embora senhores (e senhoras) de fortes personalidades e cada qual com um histórico expressivo de realizações na vida pública.
A explicação é conhecida: dada a popularidade do governo Lula e a noção de que haveria um sentimento de satisfação com o estado de coisas reinante, o mote dessa campanha deveria se centrar nos temas da continuidade e do aperfeiçoamento de políticas em andamento. Tal diagnóstico recomendaria, segundo especialistas em marketing eleitoral, uma atitude de contenção por parte dos candidatos nas manifestações de suas convicções, produzindo o resultado, até agora inquestionável, de que se tornassem semelhantes entre si.
Ocorre, entretanto, que, nos debates organizados pela rede de TV Bandeirantes, o candidato que melhor atraiu a atenção do público comportou-se fora desse script, relembrando o seu desempenho, pela ênfase e comunicação expressiva de suas convicções, memoráveis momentos de um passado político nem tão remoto assim. Última imagem com futebol: Plínio atuou como um dos meninos do Santos que derrotaram a seleção americana, como se estivesse entre os burocráticos jogadores que disputaram a Copa.
Sem discussão, contudo, o viés anacrônico de certos posicionamentos do candidato do PSOL, mas esse senão não é um bom motivo para ignorar que ele trouxe à sucessão a questão da igualdade como nenhum outro, sem os subterfúgios das políticas de foco à moda de um neoliberalismo enrustido tão em voga. O fundamento último da República não é outro senão o da igualdade, pois o mundo dos desiguais é o dos principados, cujo melhor destino possível é contar com condottieri virtuosos que se façam amar por suas obras e feitos pelo seu povo, que delas usufrui como o camponês dependente do regime do clima, olhando para o céu a esperar pelas chuvas. Mas a sorte mais comum dos principados é a de estarem os muitos sujeitos à discrição de uns poucos, às vezes de um só, em sistemas despóticos que a política moderna aprendeu a camuflar no interior de aparências apenas formalmente democráticas.
Nesse sentido, está certo o candidato Plínio, diante do silêncio dos demais, em levantar o tema da democratização da terra, que, desde a nossa hora inaugural, nos condenou à desigualdade com uma história de latifúndios que criou a "ralé de quatro séculos" dos moradores de favor, base da cultura da dependência da multidão dos homens do campo, e que, com a queda do Império, se traduziu no sistema do coronelismo que contaminou os inícios da nossa vida republicana e ainda está por aí.
Trazer o tema da terra para o centro do debate político, nas condições de hoje da sociedade brasileira, importa, preliminarmente, reconhecer que não há boa solução fora dos princípios e das instituições da Carta democrática de 1988, filha das lutas por liberdade dos brasileiros. Importa, ainda, reconhecer que se deve procurar uma via de compatibilização entre o agronegócio, uma das vigas mestras da moderna economia brasileira, a defesa do meio ambiente e uma política agrária de estímulo e expansão da agricultura familiar, a qual deve ser objeto de uma política específica de distribuição de terras, tanto pelos seus efeitos benéficos à economia, como, talvez sobretudo, pela sua intrínseca capacidade de democratizar a sociedade e a política.
Não há como fugir do diagnóstico: sem igualdade não teremos a República para a qual nos orientam os melhores impulsos da nossa história. Sem ela, o movimento que hoje, na esteira da expansão da fronteira do capitalismo brasileiro, nos empurra para o mundo exterior, liderado por empresas e negócios que florescem à base da nossa abissal desigualdade social e de uma crescente centralização e concentração de capitais, longe de nos aproximar do modelo de uma República democrática pode, ao contrário, nos avizinhar da República dos doges em Veneza, ou, para quem preferir uma comparação mais moderna, da belicosa República americana dos nossos dias.
Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador do Iesp-Uerj. Ex-presidente da Anpocs, membro do seu conselho institucional. Escreve às segundas-feiras
Reflexões sobre a História
Reflexões sobre a História
Um revolucionário bolchevista estava falando de cima de um caixote para uma pequena multidão em Times Square, NY. Após descrever as maravilhas do socialismo e do comunismo, ele disse: “— A revolução virá, e todos comerão pêssegos em calda com creme de leite.” Um velhinho que estava na parte de trás da multidão gritou:“— Eu não gosto de pêssegos em calda com creme de leite.” O bolchevista refletiu por alguns instantes e então respondeu: “— A revolução virá, camarada, e você aprenderá a gostar de pêssegos em calda com creme de leite.“.
Autor desconhecido, contada por G. Edward Griffin
Fidel Castro, Lula e a “Faixa de Gaza”
Fidel Castro, Lula e a “Faixa de Gaza”
O jornal “O Globo” tem um fascínio todo especial pelo ditador cubano Fidel Castro, a quem trata, habitualmente, por “El Comandante”. De fato, não se passa uma semana, ou quinzena, sem que os entusiastas de Fidel, acantonadas no jornal dos irmãos Marinho, deixem de assegurar espaço para acomodar, com boa dose de simpatia (e alguns senões), a figura do sinistro ditador cubano.
Na edição de 08/08/2010, “El Comandante” aparece em foto discursando na Assembléia Nacional de Havana para uma platéia, segundo o jornal amestrado, “lotada”. Na matéria, “O Globo” desce a detalhes e informa que Fidel, trajando uniforme verde-oliva, falou apenas doze minutos, quem sabe nostálgico dos tempos em que discursava por mais de dez horas consecutivas para multidões que viviam, ontem como hoje, obrigadas a ouvir os seus sermões sob pena de severos castigos (entre os quais, por exemplo, o de sofrerem confisco nas cotas mensais de alimentos anotados nas célebres “cadernetas”).
Embora tenha discursado por pouco tempo, Fidel continua obcecado pelo fantasma do “imperialismo ianque” que, a bem da verdade, agora sob o manto de Barack Obama (tido como um traidor por boa parte da população norte-americana), nem de longe representa o temível império de outras eras (haja vista os insultos sistemáticos que recebe do desclassificado coronel Hugo Chávez, sem esboçar a menor reação).
Na sua charla psicótica, Fidel alerta o mundo contra uma provável guerra atômica, a cair dos ares caso os Estados Unidos ataquem o Irã e o seu criminoso programa nuclear – uma guerra, de resto, capaz de deixar o Drácula do Caribe feliz como pinto no lixo.
Fidel Castro completou 84 anos neste dia 13 de agosto. É uma vida malsinada, repleta de larga soma de crimes e malefícios (mais de 120 mil mortos), a começar pela ruína moral e material a que submeteu o seu pobre povo. (A propósito, convém lembrar que a filha de Fidel, Alina Fernandes, no seu livro de memórias, declara que na adolescência sofria pelo temor de herdar os maus instintos da família paterna, cujo avô, Angel Castro (pai de Fidel), não passava de um renomado sicário).
Há algum tempo, por ser inútil, já tinha feito uma promessa de não mais gastar tempo e papel com o mentor (juntamente com Luiz Inácio) do Foro de São Paulo. No entanto, diante de sua “ressurreição”, em má hora promovida pela mídia amestrada, é de bom alvitre, à guisa de lembrete, amaldiçoá-lo ainda uma vez:
- Vade Retro, satanás!
2 - NO BRASIL, quando o cidadão imagina que já viu de tudo, sempre aparece mais uma. Está circulando pela internet um vídeo extraordinário, que anda fazendo furor. Ele foi distribuído por um blogueiro do Rio de Janeiro chamado Ricardo Gama.
O vídeo foi rodado na base da câmera oculta, “pegadinha” típica, durante uma visita de Lula e o governador Sérgio Cabral ao Conjunto Habitacional Nelson Mandela, em Manguinhos, Rio de Janeiro, território conhecido pelo nome de “Faixa de Gaza”, onde funcionam tráficos de droga e armas.
Lula e Cabral, bem nutridos, cheios de empáfia, aparecem cercados por dezenas de policiais e aspones, quando se estabelece o instrutivo diálogo entre as duas genuínas autoridades populistas e um garoto, negro, de nome Leandro, morador local. A refrega, um quase interrogatório, no qual o garoto enfrenta os dois inquiridores, prima pela virulência. Leia a transcrição:
Cabral: … Vai ver nem joga futebol…
Lula: (interrompendo, em tom grosseiro) Não, não, não, não. Esquece. Qual é teu esporte, porra?…
Garoto negro: (em tom amistoso) É tênis.
Lula: E por que você não treina, porra?
Garoto negro: Porque aqui não tem tênis.
Lula: (mais agressivo) Tênis é jogo pra burguesia, porra… Me diz uma coisa… e natação?
Garoto negro: (sem pestanejar) A gente não pode entrar na piscina.
Cabral: (irritado) Por quê?…
Garoto negro: (conclusivo) Porque não abre para a população.
Cabral: (vulgar, de olho em Lula) Que não abre pra população, rapaz!
Garoto negro: (firme) Eu já fui lá perguntar. Não senhor, não abre. Pergunte por ai.
Há um clima de estupor geral. O diálogo (quase interrogatório) é travado sob um sol brabo. Lula, esbaforido, já esquentado, volta-se para Sérgio Cabral e para o Secretário de Obras do Estado, Ítalo Moreno, que fica mudo.
Lula: (dedo em riste) No dia que a imprensa vier ai e pegar num final de semana essa porra fechada o prejuízo político será infinitamente maior do que se pegar dois guardas e botar pra tomar conta. (Baixando o tom) Coloca aí dois bombeiros…
Mas o Garoto negro não dá refresco. No mesmo diapasão, volta-se para as duas autoridades populistas – o presidente e o governador:
Garoto negro: E a gente já acorda de manhã com dois “Caveirão” na nossa porta. Eu tenho um vídeo meu… se achar aqui… “Caveirão”, sim…
Cabral: (nervoso, falando aos borbotões, atropelando as palavras, irônico) E o tráfico… E o tráfico?… Não tem tráfico na tua rua?… Não tem troca de metralhadora?…
Garoto negro: Na minha rua, não. Eu não consumo.
Cabral: Não tem não, né?…
Garoto negro: Ter, tem. Mas eu não comparticipo… eu não comparticipo… eu moro aqui, gente … é a “Faixa de Gaza”…
Cabral: (engrolando as palavras, por trás de um Lula congestionado): Você diz que não é otário… pra fazer discurso de otário… Que é isso, cara?…
Voz de aspone: Como é teu nome?
Garoto negro: Meu nome é Leandro.
Cabral: Oh, tu não me engana, não! Bota essa inteligência pra estudar, seu sacana.
Garoto negro: Eu vou para a escola técnica…
Cabral: Leandro… vai estudar, cara.
Garoto negro: Eu vou para a escola, sempre.
O vídeo disponível no YouTube é irresistível. Diante dele presenciamos uma cena que reúne, a um só tempo, medo, hipocrisia, cinismo, prepotência, oportunismo, tensão nervosa, estupidez, além do excepcional comportamento de um garoto de comunidade que leva ao pânico um presidente da República inconsciente e um governador de Estado moralmente acovardado.
Conclusão: Se quiserem, de agora em diante as populações faveladas já têm como desmascarar a demagogia dos políticos em tempo de eleições: o apelo à câmara oculta, uma arma letal para se flagrar a dura tessitura da vida real!
Confissão inverossímil
Confissão inverossímil
Paulo Brossard - ZERO HORA (RS)
Houve tempo em que a benzedura era recurso de largo espectro, destinado a conjurar muitos senão todos os males, do mau-olhado às doenças contagiosas; com o tempo e os progressos da medicina e da farmacologia, o sortilégio perdeu prestígio e, ao que parece, saiu de moda; chego a supor tenha caído no esquecimento, repousa sob o véu da desmemória, indagar-se-á por que estou a lembrar-me do outrora valioso expediente. É que são tantas as coisas surpreendentes que têm acontecido e continuam a suceder, aqui e longe daqui, que, se a mezinha não tivesse sido revogada pela continuidade do desuso, seria levado a buscar a opinião dos doutos a respeito de sua suposta serventia, se é que ainda a possui. Pois a verdade é que, acredite ou não o penitente, em caso de necessidade, salve-se quem puder, seja lá a que preço.
Pois estou convencido de que atravessamos induvidosa superprodução de absurdos de todos os tipos, que, em tempos normais, seriam sérios infortúnios, mas que dia a dia passam a ser tidos como normais. E se é verdade que Octavio Mangabeira, com seu saber de experiência feito, dizia que se imaginasse um absurdo, por maior que fosse, havia precedente na Bahia, hoje o absurdo desmarcado parece ter-se expandido da Bahia para o Brasil inteiro.
O honrado presidente da República, cuja inteligência e intuição são reconhecidas até por seus mais radicais antagonistas, bastando notar que chegou à Presidência sem possuir diploma algum, até receber o que lhe dava acesso a ela, segundo sua pícara e expressiva observação, adotou um dos mais atrasados países, em todos os sentidos, para reformar a ONU e o que lhe estivesse próximo. E abraçou-se ao Irã, como se essa companhia pudesse dar seriedade à missão do novo arauto da renovação das organizações internacionais. A verdade é que o mau passo foi grande demais. Pouco antes, o fiasco em Cuba, quando, em pessoa, no dia de sua chegada à ilha, assistiu mudo ao sacrifício de Orlando Zapata, finado depois de 85 dias de greve de fome. Nenhuma palavra de clemência. Ao contrário, teve o mau gosto de equiparar os presos políticos do encanecido ditador com os que são condenados por crimes comuns, regularmente julgados, que cumprem pena em penitenciárias paulistas. A impressão causada foi penosa. Não demorou e se viu vítima da sua intimidade com o país dos aiatolás.
O inesperado aconteceu depois da reação mundial da inacreditável condenação. Já não falo da pena de morte nem desta em relação ao alegado adultério, mas da confissão depois de quatro anos de prisão. De repente, em TV do Irã, quarta-feira à noite, apareceu a condenada com o rosto coberto, vendo-se apenas o nariz e um dos olhos, para confessar não só o adultério como seu envolvimento no assassínio de seu marido. Nunca vi confissão menos verossímil. A meu juízo, ela é inaceitável, assim como a censura ao seu advogado, que teve de refugiar-se na Noruega! Houve quem afirmasse que ela foi torturada até submeter-se à confissão espontânea. Não duvido que esse procedimento seja adotado em regime totalitário. Contudo, desprezo esse dado. Tudo me soa falso no macabro episódio. Esse o país adotado pelo presidente do Brasil como companheiro às suas investidas internacionais. Como brasileiro, é o que mais me impressiona.
*Jurista, ministro aposentado do STF
A carta que Dilma não escreveu ao Brasil
A carta que Dilma não escreveu ao Brasil
GUILHERME FIUZA REVISTA ÉPOCA
Lula não tem culpa do poder político sobre-humano que adquiriu. A culpa é do Brasil. Na virada do milênio, Luiz Inácio da Silva era um problema para o PT. Derrotado em três eleições presidenciais, prisioneiro de um discurso anacrônico contra a política econômica que fundara o real, Lula se tornara um candidato de plantão, quase folclórico. Uma guinada histórica o transformou num Midas eleitoral, capaz de reeditar, com a invenção de Dilma Rousseff, o famigerado plano Celso Pitta - que parecia uma lição devidamente assimilada.
Boa parte do PT não queria Lula candidato à Presidência pela quarta vez, em 2002. Emergiam novas forças no partido, como Cristovam Buarque, que governara o Distrito Federal. Um passo adiante dos slogans genéricos contra o capitalismo ocidental, Cristovam rompera com o modelo do Estado paternal. Foi a primeira voz da esquerda a proclamar que a estabilidade monetária era boa para o povo. Governou com responsabilidade fiscal, resistindo ao bombardeio sindicalista e fisiológico de seus companheiros - que queriam, como sempre, o poder como seio materno.
Cristovam executara com sucesso o inovador programa Bolsa Escola. Apoiara o governo federal - ao qual era oposição - na luta contra a inflação e o descontrole das contas públicas. O PT tinha nele um governante moderno, potencial candidato à Presidência em 2002. Mas Lula, apesar de ultrapassado, ainda era uma lenda no partido. E conseguiu a candidatura após um arrastão comandado pelo deputado José Dirceu.
Esse Lula fraco e desgastado entrou na corrida presidencial com uma novidade. Por sensibilidade do próprio José Dirceu, a campanha dessa vez abandonaria o sectarismo estratosférico. O Brasil ia conhecer um PT mais pragmático, disposto a conversar com todos, e não apenas a rugir seus ideais imaculados - que seriam para sempre perfeitos, desde que não saíssem das assembleias partidárias e reuniões acadêmicas.
Por algum tempo, assistiu-se a um Lula híbrido, que seguia a moderação proposta por Dirceu, mas ainda vocalizava os instintos incendiários do partido: moratórias, xenofobia, ataques ao Banco Central e às metas de inflação, invasão de propriedades produtivas, intervenção na imprensa burguesa e todo aquele guevarismo de grêmio estudantil que o Brasil não queria. Lula foi então salvo por Pedro Malan.
Assistindo ao discurso totalflex do candidato da oposição - que trazia insegurança geral e uma recaída da inflação -, o ministro da Fazenda de Fernando Henrique Cardoso indagou publicamente qual dos dois era o Lula verdadeiro. Daí surgiu o documento - articulado por Dirceu e por Antônio Palocci - que elegeu o candidato do PT: a Carta ao Povo Brasileiro, na qual Lula se comprometia com princípios como a responsabilidade fiscal, o cumprimento dos contratos e as bases da estabilidade monetária. Uma transição saudável no Planalto.
O Brasil deveria estar se preparando agora para mais uma transição saudável, se o sobrenatural não tivesse entrado em cena. Lula era um presidente normal até estourar o mensalão, o maior escândalo de corrupção da história da República. Pela primeira vez, o grupo político de um presidente criava um duto sistemático entre os cofres do Estado e seu partido. O enredo foi descoberto, seus protagonistas denunciados, e o país passou a mão na cabeça de Lula - não apenas preservando-o, mas passando a conferir-lhe taxas históricas de popularidade. Acima do bem e do mal, Lula virou mito.
Um mito com um cheque em branco na mão. Nesse cheque, escreveu o nome de Dilma Rousseff. A menos de dois meses da eleição, o Brasil ainda não averiguou se o cheque tem fundos. A maioria do eleitorado está dizendo que vai descontá-lo na boca do caixa. Se der dor de cabeça, azar. Será tarde demais para pedir a Dilma - a mãe ou a madrasta - que escreva uma bela Carta ao Povo Brasileiro.
Em livro, dissidente acusa premiê chinês de 'fingir' ser reformista
Em livro, dissidente acusa premiê chinês de 'fingir' ser reformista
Um livro que promete ser uma pedra no sapato do Partido Comunista da China, e em especial do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, chega nesta segunda-feira às livrarias de Hong Kong.
Traduzido livremente como "Wen Jiabao, o Melhor Ator da China", a obra do dissidente Yu Jie procura desfazer a imagem de Wen como um líder reformista, uma ideia corrente e reforçada pelo carisma e o apoio que o premiê tem entre a população chinesa.
"Não sou o primeiro a descrever Wen Jiabao como um ator. Acompanho o seu comportamento há muito tempo. Muitas das políticas de seu governo são diferentes da maneira como ele se comporta publicamente ou perante a imprensa. Muitas vezes, são até contraditórias", disse Yu em entrevista à BBC.
"Muitos são enganados por seus atos e gostam dele, acham que ele é um reformista - eu não acho."
Wen ganhou simpatia ao longo de seus sete anos como premiê demonstrando simpatia por chineses comuns e reagindo rapidamente a situações de emergência, como desastres naturais e caos no setor de transportes.
O correspondente da BBC em Pequim, Michael Bristow, disse que o líder goza de uma "imagem fantástica" na China e que, nas ruas da capital, "é difícil encontrar alguém que não goste" dele.
Yu, entretanto, acusa o premiê de não promover reformas liberalizantes no momento em que a China avança no cenário mundial e procura encontrar maneiras de se adaptar a essa nova ordem.
"A China está em um momento de mudança, em uma perigosa encruzilhada histórica", diz. "Se Wen fosse realmente um grande líder, com a coragem de um grande líder, tentaria promover reformas, mas não o fez."
Liberdade de expressão
Na China, segundo o correspondente da BBC, não somente os políticos não estão acostumados a serem criticados em público, como em geral são louvados nas obras que chegam às prateleiras das livrarias.
Desde 2004, os livros de Yu são proibidos na China continental, que opera uma rigorosa censura à circulação de ideias. Sua obra mais recente está sendo lançada apenas na ilha de Hong Kong, onde as leis editoriais são mais brandas.
No mês passado, o autor foi brevemente detido pela polícia quando contou aos amigos através da internet que a obra estava no prelo. Foi advertido a não publicá-la.
Ainda assim, o dissidente decidiu trazer o livro para a cena pública, afirmando que é preciso "desenvolver a ideia de liberdade de expressão" no país.
"Uma porta se abriu ligeiramente na China (em relação à liberdade de ideias), mas precisamos que todos dêem um empurrão para permitir que entre a luz do sol", disse o autor.
"A porta não vai se abrir automaticamente se ninguém fizer nada."
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Desejo sexual se perde na fumaça
Desejo sexual se perde na fumaça
O Estado do Paraná
O Estado do Paraná
Após o sexo, um cigarro para complementar o prazer. Aquela tradicional cena tantas vezes exibida no cinema, protagonizada por atores famosos, em que, após a relação sexual, fumar um cigarro demonstrava virilidade, status e glamour está, definitivamente, fora de moda.
Isso porque, segundo a medicina, entre todas as mazelas que o uso do cigarro traz, uma delas é o prejuízo ao desempenho sexual.
Está provado que a nicotina diminui o fluxo sanguíneo nos órgãos genitais, o que interfere negativamente na ereção masculina e lubrificação vaginal da mulher.
Outro fato comprovado é que o tabagismo está em decadência. Recente pesquisa do Ministério da Saúde revela que o número de fumantes vem caindo. De 2006 a 2009, o percentual de fumantes da população brasileira caiu de 16,2% para 15,5%.
Além de interferir na qualidade do ato sexual, o hábito de fumar também pode afetar a capacidade de concepção. mulheres que não fumam têm o dobro de chances de conceber, quando comparadas às fumantes.
"No caso dos homens os estudos sugerem que o tabagismo diminui o desejo sexual e afeta o número, a mobilidade e a morfologia dos espermatozóides", afirma André Malbergier, professor doutor do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
Impotência sexual
Estudos importantes apresentam a relação entre o tabagismo e disfunção erétil. Um dos mais recentes, um estudo do envelhecimento masculino realizado em Massachusetts, Estados Unidos, encontrou o dobro de chance de moderada ou completa em homens que fumam há aproximadamente 10 anos.
A tendência dos fumantes que ainda não estão motivados e preparados para parar de fumar é minimizar ou ignorar os dados que mostrem essa relação por meio de mecanismos de defesa psicológicos.
Porém, especialista acredita que esse fato pode ser um "gancho" para o tratamento e aumento da motivação dos fumantes. "Já para os motivados, esses dados podem servir como um incentivo maior para a abstinência", avalia Malbergier.
De acordo com a professora doutora Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex), nas últimas décadas, com as mudanças de políticas públicas, incluindo a criação da lei antifumo, que proíbe que se fume em ambientes fechados de uso coletivo, há maior estímulo para mudanças de comportamento e procura por tratamento adequado.
Para ela, muitos fumantes ainda desconhecem o tabagismo como fator de risco para a disfunção erétil. "Por outro lado, a conscientização crescente da importância do problema e o surgimento de tratamentos mais eficazes são os grandes responsáveis pela mudança que já se percebe nesse cenário", reconhece a especialista.
Outra constatação se dá quando são analisadas as estatísticas disponíveis que confirmam a estreita relação entre tabagismo e impotência sexual. Se a ocorrência da disfunção erétil no homem não fumante gira em torno de 2,2%, em uma avaliação apenas com tabagistas esse índice sobre para 37%. Portanto, de cada 100 fumantes, 37 vão desenvolver algum problema no seu relacionamento sexual.
Melhora no desempenho
De acordo com os médicos, uma ereção normal requer um fluxo sanguíneo perfeito. No pênis, esse volume precisa chegar em quantidade suficiente ao que os médicos chamam de corpo cavernoso para que ele aumente o seu diâmetro e determine assim a ereção. Ocorre que, no fumante, esse fluxo está continuamente diminuído porque a nicotina - a mais famosa das 4.720 substâncias contidas na fumaça do cigarro - é um potente agente vasoconstrictor que atua diretamente na musculatura do vaso, produzindo uma importante redução no calibre da artéria cavernosa, responsável pela irrigação. Uma redução em 25% já é suficiente para provocar a disfunção erétil.
É importante lembrar que o consumo diário de cigarros, o tempo de tabagismo, bem como a associação com hipertensão arterial, e, principalmente, diabetes é quem vai determinar a precocidade da impotência sexual.
De acordo com Carmita Abdo, uma discreta melhora no desempenho sexual pode ser percebida imediatamente após deixar o hábito de fumar, devido à melhor oxigenação.
Porém, ganhos mais evidentes ocorrem ao longo do tempo e são tanto mais pronunciados quanto menos intensas tiverem sido as complicações produzidas pelo tabagismo.
Combate ao vício
Atualmente, o tratamento farmacológico do tabagismo inclui terapias com ou sem a reposição da nicotina, entre elas, a utilização da vareniclina, desenvolvido especificamente para o tratamento. O medicamento tem mecanismo de ação dupla: se liga aos mesmos receptores no cérebro nos quais a nicotina atua, eliminando o desejo pelo cigarro, e estimula parcialmente tais receptores, o que reduz os sintomas associados à falta do fumo, a chamada síndrome de abstinência. O medicamento é vendido sob prescrição médica.
Doenças e mortes prematuras causadas pelo tabagismo podem ser evitadas no momento em que se abandona o cigarro e se inicia uma terapia orientada pelo médico, acompanhada de mudança geral no estilo de vida, adequação dos hábitos alimentares e exercícios físicos. Além disso, o controle de outras doenças como diabetes e hipertensão arterial também é necessário.
Inimigos do sexo
Além do cigarro, outras drogas também comprometem o desejo e o desempenho sexual
* Maconha - O uso frequente consolida resultados negativos, com a baixa no nível de testosterona e do número de espermatozóides.
* Cocaína - Com o tempo, acaba com o desejo sexual nas mulheres e compromete a fase do orgasmo. Nos homens, afeta a manutenção da ereção.
* Crack - É a droga que destrói com mais rapidez o usuário, fazendo com que nada mais importe. Muito menos sexo.
* Ectasy - Apesar da sensação de excitação, perturba o desempenho sexual.
* Álcool - Provoca diminuição no desejo, rebaixamento do nível do hormônio testosterona e bloqueio ejaculatório.
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