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segunda-feira, dezembro 27, 2010

Liu Xiaobo merece o prêmio Nobel da Paz?

Liu Xiaobo merece o prêmio Nobel da Paz?
Por Tariq Ali, do Sin Permiso
O governo chinês cometeu a bobagem de transformar Liu Xiaobo em mártir Ele nunca deveria ter sido preso, mas os políticos que compõem o comitê do Nobel, liderados por Thorbjorn Jagland, ex-primeiro ministro trabalhista, quiseram dar uma lição a China e, para isso, fecharam os olhos para os pontos de vista de seu herói. Entre outras coisas, Xiaobo defende as guerras da Coréia, do Vietnã e do Iraque e sustenta que a tragédia da China é não ter sido colonizada ao menos durante 300 anos por uma potência ocidentral ou pelo Japão.
O vencedor do prêmio Nobel da Paz de 2010 intensificou a guerra no Afeganistão poucas semanas depois de receber a honraria. O prêmio surpreendeu ao próprio Obama. Este ano o governo chinês cometeu a bobagem de transformar em mártir o ex-presidente do Independent Chinese PEN Centre e neocon Liu Xiaobo. Ele nunca deveria ter sido preso, mas os políticos noruegueses que compõem o comitê, liderados por Thorbjorn Jagland, ex-primeiro ministro trabalhista, quiseram dar uma lição a China e, para isso, fecharam os olhos para os pontos de vista de seu herói.
Ou talvez não tenham feito exatamente isso, uma vez que suas perspectivas não são muito diferentes. O comitê pensou em conceder a Bush e Blair o prêmio da paz conjunto por invadir o Iraque, mas o protesto público obrigou a que desistissem da ideia.
Para constar, registre-se que Liu Xiaobo declarou publicamente que, na sua opinião:
(a) A tragédia da China é não ter sido colonizada ao menos durante 300 anos por uma potência ocidental ou pelo Japão. Aparentemente isso teria civilizado a China para sempre;
(b) As guerras da Coréia e do Vietnã empreendidas pelos Estados Unidos foram guerras contra o totalitarismo e aumentaram a "credibilidade moral" de Washington;
(c) Bush fez bem em ir à guerra no Iraque, e as críticas do senador Kerry eram "propagadoras de calúnias";
(d) Afeganistão? Aqui não há nenhuma surpresa: apoio completo à guerra da OTAN.
Ele tem todo o direito a ter essas opiniões, mas, considerando as mesmas, deveria receber um prêmio da Paz?
O jurista norueguês Fredrik Heffermehl disse que o comitê infringe a vontade e o testamento deixados pelo inventor da dinamite, cuja fortuna financia os fundos para os prêmios:
"O comitê do Nobel não recebeu o dinheiro do prêmio para uso livre, mas sim foi encarregado de outorgá-lo a um elemento fundamental no processo de paz, rompendo o círculo vicioso da corrida armamentista e dos jogos do poder militar. Deste ponto de vista, o Nobel de 2010 é de novo um prêmio ilegítimo outorgado por um comitê ilegítimo".
*Tariq Ali é jornalista, escritor e membro do conselho editorial de Sin Permiso. Seu último livro publicado é "The Protocols of the Elders of Sodom: And Other Essays", publicado pela editora Verso de Londres.
Tradução do espanhol para o português: Katarina Peixoto. (Envolverde/Carta Maior)

segunda-feira, outubro 18, 2010

Japão lamenta reação 'histérica' da China em litígio territorial

Japão lamenta reação 'histérica' da China em litígio territorial
18 de outubro de 2010 • 08h37min
O primeiro-ministro japonês, Naoto Kan,
fala ao Parlamento em Tóquio
 TÓQUIO, 18 Out 2010 (AFP) - O governo do Japão criticou nesta segunda-feira as manifestações antijaponesas organizadas no fim de semana na China, dizendo ser "histérica" a reação de Pequim à disputa territorial entre os dois países sobre o arquipélago Diaoyu/Senkako, no mar da China Oriental.
"O governo lamenta as manifestações contra o Japão, realizadas nos dias 16 e 17 na China, e pede energicamente que as empresas japonesas sejam protegidas", declarou o primeiro-ministro japonês Naoto Kan no Parlamento.
O ministro das Relações Exteriores japonês, Seiji Maehara, chamou de "histérica" nesta segunda-feira a atitude da China no litígio territorial no mar da China Oriental, referindo-se à decisão chinesa de suspender suas exportações de metais de terras-raras para o Japão.
Maehara, conhecido pela postura implacável em negociações com a China, foi interrogado no Parlamento em relação a uma série de medidas de represália adotadas pelas autoridades chinesas desde que o Japão deteve, no começo de setembro, o capitão de um pesqueiro chinês perto das ilhas Diaoyu/Senkako.
A China cancelou conversações de alto nível e encontros bilaterais. Fontes da indústria também indicaram a suspensão das exportações de metais de terras-raras para o Japão, essenciais para a fabricação de produtos de alta tecnologia.
"Acho que as medidas de represália tomadas pela China são extremamente histéricas", comentou Maehara, depois das manifestações contra o Japão.
"Em relação à questão das terras-raras, o ministério do Comércio chinês afirma que não adotou semelhante medida, mas neste momento nós não podemos dizer que as remessas voltaram ao normal", destacou.
Os dois países reivindicam este conjunto de pequenas ilhas desabitadas, conhecidas como Diaoyu na China e como Senkaku no Japão, no mar da China Oriental. Taiwan também reivindica soberania sobre o arquipélago.
As ilhas Diaoyu/Senkako estão localizadas em uma área muito rica em peixes, cujo fundo marítimo pode abrigar reservas de hidrocarbonetos.
Depois de um período de calma, a tensão entre os dois vizinhos voltou a aumentar neste final de semana.
Pequim e Tóquio tentavam organizar uma reunião de cúpula até o fim do mês para aliviar os ânimos, mas os protestos de rua deste fim de semana nos dois países mostraram como a disputa inflamou sentimentos nacionalistas na população.
Milhares de chineses, a maioria, jovens, foram às ruas de pelo menos quatro cidades para demonstrar apoio a seu país nesta acirrada disputa diplomática com o Japão.
Em uma manifestação aparentemente convocada pela internet e por mensagens de texto de celular, chineses pediram o boicote a produtos japoneses e atacaram empresas japonesas, como uma loja da Panasonic e outra da Isetan, e carros fabricados no país vizinho.
As autoridades chinesas tentaram conter os protestos, os piores desde 2005, mas não repreenderam a iniciativa dos manifestantes.
"É compreensível que algumas pessoas expressem sua revolta contra as recentes palavras e atos errôneos da parte japonesa", disse no sábado Ma Zhaoxu, porta-voz do ministério das Relações Exteriores chinês.
Os japoneses, por sua vez, protestaram em Tóquio no sábado.
Fonte: Portal Terra

domingo, outubro 10, 2010

Câmbio como arma protecionista

Câmbio como arma protecionista
Arsenal de ricos inclui juro baixo e intervenções para forçar divisa competitiva. China é maior alvo
Martha Beck e Vivian Oswald – BRASÍLIA – O Globo
 A invasão chinesa nos mercados de todo o planeta e a dificuldade do mundo desenvolvido de se reerguer depois da crise dispararam uma guerra cambial que abre caminho para uma nova onda de protecionismo global, alertam governos e especialistas. O “derretimento” do dólar por toda parte acendeu a luz vermelha em vários países e alçou os Estados Unidos, com endosso de seu Congresso, ao comando da batalha contra a China, que insiste em manter sua moeda, o yuan, desvalorizada artificialmente, tornando suas mercadorias simplesmente imbatíveis. Aos poucos, os americanos vêm ganhando apoio do Japão e da União Europeia (UE) na ofensiva.
Na semana passada, o euro bateu o oitavo mês consecutivo de alta contra o dólar. Levantamento feito pela Austin Rating a pedido do GLOBO indica que, dos 130 países analisados, 52 tiveram suas moedas valorizadas em relação ao dólar desde setembro de 2009 até agora.
— Certamente existe um risco de alguns países, como o meu, se aborrecerem com outras nações, como a China, no que diz respeito a políticas cambiais, usando sanções comerciais para pressioná-los e, assim, perturbar o comércio internacional — disse o economista e professor da Universidade da Califórnia Barry Eichengrenn, lembrando que, por enquanto, os sinais mais fortes vêm da China e dos EUA.
Com mercados internos desaquecidos, todos querem garantir competitividade a seus produtos no exterior, o que se tornou um trabalho difícil devido à ação do governo chinês. A principal arma até agora no arsenal das nações ricas é a desvalorização de suas moedas ou uma política de juros virtualmente zero — o que espanta capital e faz a moeda local perder valor. Mas barreiras comerciais começam a ser ensaiadas, uma vez que a artilharia até agora se mostra inócua.
EUA já falam em retaliar chineses
Japão, nem mesmo cortar os juros a zero ou intervir no mercado de câmbio com 2,2 trilhões de ienes (US$ 26 bilhões) foi suficiente para conter a cotação recorde dos últimos 15 anos da moeda local. Por isso, surgiram os primeiros sinais de que a guerra já afeta o comércio internacional. Os europeus já orientam seus empresários sobre como se defender de futuras acusações de protecionismo.
Num passo ainda mais ousado, os Estados Unidos já falam concretamente em retaliação comercial. A Câmara americana acaba de aprovar uma lei permitindo que o governo aplique uma sobretaxa sobre a entrada de produtos chineses, sob o argumento de que o câmbio artificialmente desvalorizado do país seria uma forma de subsídio.
A UE já percebeu que a nova onda de protecionismo pós-crise tende a se intensificar pelo mundo e se prepara para a briga. A Comissão Europeia acaba de publicar um manual para ajudar os exportadores afetados por investigações de defesa comercial no exterior — antidumping, antissubsídios e salvaguardas.
O guia já está disponível nos 20 idiomas oficiais do bloco para que os 27 países possam municiar rapidamente a sua indústria. De acordo com a comissão, o manual foi feito em função “do crescente uso de instrumentos de defesa comercial desde o início da crise econômica global”.
O comissário de Comércio da UE, Karel de Gucht, declarou-se confiante no fato de que “este manual vai se tornar uma ferramenta importante para os comerciantes da UE, na medida em que poderão responder a um número crescente de investigações de defesa comercial de terceiros países”.
Economistas ouvidos pelo GLOBO afirmam, no entanto, que essa guerra não terá vencedores e que a tentativa de retaliar a China pode ser um tiro no pé. Barry Eichengrenn afirma: — A pressão dos Estados Unidos pode sair pela culatra. O governo chinês não gosta de ser visto como flexível à pressão americana. Em vez de dar mais flexibilidade ao câmbio, eles podem endurecer sua postura e aplicar sanções contra os produtos americanos, como fizeram recentemente com o frango. Seria mais prudente continuar a confiar na diplomacia.
Por essa razão, a Alemanha acenou aos chineses na semana passada com a possibilidade de convencer os outros 26 países da UE a reconhecerem a China como economia de mercado.
Esta parece ter sido a moeda de barganha escolhida pelo maior exportador do mundo para dobrar a China.
O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, lembra que os EUA transferiram boa parte de sua produção para a China em função da mão de obra barata. Diante disso, fechar as portas agora seria um risco para o abastecimento do próprio mercado americano: — Não podemos voltar à idade da pedra, de economias fechadas.
O secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, admite que o Brasil está acompanhando de perto e estudando o projeto de lei do governo americano: — Existe uma preocupação do governo brasileiro principalmente com a manipulação do câmbio. Isso tem impacto não apenas nas importações como também na disputa por terceiros mercados. O Brasil tem perdido competitividade para os produtos chineses e sul-coreanos nos países latino-americanos.

sábado, outubro 09, 2010

Nobel da Paz Liu Xiaobo recebe visita da mulher

Nobel da Paz Liu Xiaobo recebe visita da mulher
A mulher de Liu Xiaobo, o dissidente chinês a quem foi atribuído o Prémio Nobel da Paz, irá hoje visitá-lo e dar-lhe a notícia da distinção.
Liu Xia, mulher de Liu Xiaobo
Petar Kujundzic/Reuters
A mulher de Liu Xiaobo, o dissidente chinês a quem foi atribuído sexta-feira o Prémio Nobel da Paz, irá hoje visitá-lo e dar-lhe a notícia da distinção. 
 A agência espanhola Efe noticia que a poetisa Liu Xian negociou com as autoridades de Pequim o seu silêncio, e visitará hoje o marido na cadeia em Pequim, onde se encontra incomunicável. 
 Liu Xian foi obrigada sexta-feira a sair da sua residência de forma sigilosa e debaixo de forte vigilância policial, escapando assim às centenas de jornalistas que a esperavam à saída do seu apartamento para comentar a distinção. 
 A Efe cita fontes dissidentes segundo as quais, a poetisa negociou o seu silêncio em troca de poder visitar hoje o marido e informá-lo do prémio. Todavia Xian prestou declarações a alguns meios de comunicação social e enviou um comunicado em que expressa o seu agradecimento e pede a liberdade de Liu. 
Há 11 anos na cadeia por ter apelado à democracia
O jornalista dissidente Wang Jinbo, afirmou que Liu Xian viaja sob custódia, acompanhada pelo irmão, desde a localidade de Jinzhou na província de Liaoning, a 480 quilómetros a noroeste da capital chinesa, onde o marido cumpre 11 anos de cadeia, desde dezembro passado, por ter apelado publicamente à democracia.
 O mesmo jornalista afirmou que hoje de manhã foi aumentado o sistema de segurança em redor da penitenciária, tendo alguns acessos sido bloqueados.

Nobel da Paz enfurece a China

Nobel da Paz enfurece a China
Governo censura notícias sobre premiação de Liu Xiaobo e cerca casa da mulher do ativista
Claudia Sarmento  - O Globo - Correspondente • TÓQUIO
 As advertências prévias de Pequim não surtiram efeito: o Nobel da Paz de 2010 foi concedido ontem a um inimigo do regime, o dissidente Liu Xiaobo, de 54 anos, primeiro chinês a receber o prêmio. O comitê que anuncia a premiação em Oslo citou “sua longa e não violenta luta por direitos humanos fundamentais na China” para justificar a escolha. O professor, crítico literário, ensaísta e ativista político, está preso desde o último Natal, condenado a 11 anos de prisão sob a acusação de “incitar a subversão contra o poder do Estado” e ainda não foi informado da premiação. Além de ameaçar as relações bilaterais com a Noruega, poucas horas após o anúncio, a China convocou o embaixador Svein O.
Saether em protesto à concessão do prêmio. Vencedor do Nobel da Paz em 2009, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu à China, através de um comunicado, que liberte Liu tão logo possível.
 “Nos últimos 30 anos, a China fez notáveis progressos em reformas econômicas e na melhoria da vida de seu povo, retirando centenas de milhões da pobreza. Mas este prêmio nos lembra que a reforma política não seguiu a mesma velocidade e que os direitos humanos básicos de cada homem, mulher e criança têm de ser respeitados” dizia o texto.
A Anistia Internacional, além de vários outros organismos de defesa dos direitos humanos espalhados pelo mundo, engrossaram o coro e pediram que o dissidente seja libertado.
O anúncio — bem menos polêmico que o prêmio concedido a Obama — foi um recado à ditadura chinesa: apesar de sua crescente importância econômica, esperase que a segunda maior economia do mundo reforme sua política de direitos humanos e lembre que está mais sujeita a julgamentos internacionais.
 “O novo status da China deve implicar em maior responsabilidade.
A China viola vários acordos internacionais dos quais é signatária. O artigo 35 da Constituição chinesa estipula que os cidadãos gozem de liberdade de expressão, imprensa, reunião, associação, desfile e manifestação.
Na prática, os chineses estão sendo claramente privados desses direitos”, disse um comunicado do Comitê do Nobel.
Na internet, apenas a versão oficial
A reação de Pequim foi dura. Para o governo, a premiação é “uma blasfêmia contra os próprios princípios do Nobel” e acionou a máquina estatal da censura, a chamada “Muralha de fogo” que, apesar das pressões, está cada vez mais poderosa. A internet é controlada, e fóruns como Twitter e Facebook são proibidos, tornando-se difícil avaliar a repercussão no território chinês. A transmissão do prêmio pela CNN, por exemplo, foi bloqueada.
O microblog sina.com, espécie de Twitter chinês, também deletou qualquer menção à honraria.Tentativas de enviar mensagens de texto pelo celular com citações a Xiaobo falharam.
Somente no fim da noite na Ásia, horas após o prêmio, sites de notícia chineses começaram a mencionar o anúncio, enfatizando apenas o protesto do governo chinês.
— Temos que falar pelos que não podem — disse o presidente do Comitê do Nobel, Thorbjoern Jagland.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Ma Zhaoxu, não poupou críticas à escolha: — Liu Xiaobo foi condenado por violar a lei. Suas ações são diametralmente opostas aos princípios do Nobel, que deve ser dado a quem promove a paz entre os povos, a fraternidade internacional e o desarmamento.
Liu esteve entre os estudantes que lutaram pela democracia em 1989. Foi um dos líderes que negociaram a retirada dos manifestantes da Praça da Paz Celestial quando tanques atropelaram o movimento. Desde então, foi preso várias vezes, enviado a um “campo de reeducação”, banido do mundo acadêmico e impedido de ter seus textos publicados na China. Mesmo assim, é um dos autores do manifesto conhecido como “Carta 08”, em defesa da liberdade política e contra o monopólio do Partido Comunista, que se espalhou pela internet e foi assinado por milhares de pessoas — inspirado no movimento pela democracia na Tchecoslováquia na década de 70.
Sua mulher, a poetisa Liu Xia, que vive em Pequim, afirmou não saber se o dissidente seria avisado do prêmio, porque não tem acesso a um telefone na prisão de Jinzhou, em Liaoning, no norte do país. Ela conseguiu dar declarações curtas a veículos internacionais e avisou que a polícia estava em sua casa e a levaria a Jinzhou.
 “Espero que a comunidade internacional aproveite a oportunidade para pressionar o governo chinês a libertar meu marido”, afirmou ela, por um comunicado da ONG Freedom Now.
A nomeação de Liu torna-o — pelo menos oficialmente — o primeiro chinês agraciado pelo Comitê do Nobel: em 1989, o Dalai Lama recebeu o prêmio, mas apesar de visto como cidadão chinês por Pequim, recebeu-o na condição de refugiado político na Índia.
Outro a ter enfrentado a fúria do governo chinês foi o escritor Gao Xingjian, laureado com o Nobel de Literatura em 2000. Vivendo na França, foi considerado um escritor francês.

sexta-feira, outubro 08, 2010

Noruega tenta evitar fúria chinesa por Nobel da Paz a dissidente

Noruega tenta evitar fúria chinesa por Nobel da Paz a dissidente
Agência Reuters
 OSLO (Reuters) - O chanceler norueguês, Jonas Gahr Stoere, disse nesta sexta-feira que a concessão do Prêmio Nobel da Paz a um dissidente chinês não deve causar uma reação hostil de Pequim ao seu país.
"Não há motivos para dirigir qualquer medida contra a Noruega como país, e acho que haveria um efeito negativo sobre a reputação da China se ela assim agisse", disse Stoere a uma TV local.
A China reagiu com indignação ao Nobel da Paz dado nesta sexta-feira ao dissidente Liu Xiaobo - na foto, que foi condenado a 11 anos de prisão em 2009 por ter participado de um manifesto em prol da democracia na China.
Preso no ano passado por subversão, o dissidente chinês Liu Xiaobo ganhou nesta sexta-feira o Prêmio Nobel da Paz por sua luta pacífica pela democracia no país. O dissidente de 54 anos foi condenado a uma pena de prisão de 11 anos por ter escrito, em 2008, em conjunto com outros ativistas chineses, um manifesto pela liberdade de expressão e pela realização de eleições multipartidárias.O Ministério de Relações Exteriores da China classificou a premiação uma "obscenidade" e ameaçou retaliar a Noruega , onde fica o comitê 
Com seu apartamento cercado por policiais, a mulher de Liu, Liu Xia, foi impedida de falar diretamente com jornalistas. Por telefone e mensagens de texto, ela disse estar feliz com a premiação e informou que pretendia levar no sábado a notícia ao marido, que está preso a 500 quilômetros de Pequim. Ela também pediu sua libertação.
"A China deveria assumir esta responsabilidade, ter orgulho desta escolha e libertá-lo da prisão", disse ela em um comunicado divulgado pelo grupo de defesa dos direitos humanos Liberdade Agora.

O prêmio é concedido pelo Comitê Norueguês do Nobel, mas Stoere enfatizou que essa entidade é independente do governo da Noruega, que atualmente negocia um tratado comercial bilateral com Pequim.
Stoere admitiu, no entanto, que "não é segredo que há muitos anos a China tem dado uma série de alertas de que o prêmio da Paz a um dissidente chinês levaria a reações negativas".
Meses atrás, o vice-chanceler chinês Fu Ying disse ao presidente do Instituto Nobel que a eventual concessão do prêmio a Liu abalaria as relações sino-norueguesas.
Em nota, o primeiro-ministro norueguês, Jens Stoltenberg, disse que "a Noruega tem uma cooperação boa e abrangente com a China" e que "a discussão dos direitos humanos é parte dessa relação". O premiê acrescentou que o governo norueguês já questionou várias vezes as autoridades chinesas a respeito da situação de Liu.
A Noruega é um dos maiores exportadores mundiais de gás e petróleo, e tem interesse em ampliar sua cooperação energética com a China, uma potência econômica em rápida ascensão.
PEQUIM - Considerado o mais proeminente dissidente chinês, Liu Xiaobo incomoda o governo desde 1989, quando aderiu a uma greve de fome estudantil dias antes da repressão militar contra o movimento em defesa da democracia na praça da Paz Celestial. Agraciado nesta sexta-feira com o Prêmio Nobel da Paz , Liu foi condenado a 11 anos de prisão em dezembro passado sob a acusação de subversão, por fazer campanha em prol de liberdades políticas.
A sentença foi criticada pelos EUA, pela União Europeia e por grupos de direitos humanos. Ex-professor de literatura, aos 54 anos Liu está entre os mais combativos críticos do regime unipartidário chinês.
- Usar a lei para promover os direitos pode ter um impacto apenas limitado quando o Judiciário não é independente - disse ele em 2006, por exemplo, quando estava sob outro período de prisão domiciliar.
No ano retrasado, ele foi um dos organizadores do manifesto chamado Carta 08, em que intelectuais e ativistas pediam reformas abrangentes na China, inspirando-se na Carta 77, um marco do movimento pró-democracia na Tchecoslováquia na década de 1970.
A candidatura de Liu ao Nobel era defendida pelo ex-dissidente e ex-presidente tcheco Václav Havel, um dos articuladores da Carta 77.
Liu Xia, esposa do dissidente, disse nesta semana não vê o marido desde 7 de setembro. Segundo ela, a saúde dele está abalada, mas Liu está com ânimo positivo.
Os amigos de Liu Xiaobo sempre me diziam que queriam, mais do que ele, que ele ganhasse esse prêmio, porque acham que é uma oportunidade de mudar a China
- Os amigos de Liu Xiaobo sempre me diziam que queriam, mais do que ele, que ele ganhasse esse prêmio, porque acham que é uma oportunidade de mudar a China - afirmou ela.
Um desses amigos, o advogado e ativista Pu Zhiquiang, afirmou que Liu "diz o que tem na cabeça".
- Não acho que um Prêmio Nobel para Xiaobo ou qualquer outro chinês tenha um enorme impacto na situação dos direitos humanos na China. Mas certamente vai estimular mais pessoas a lutarem por esses valores o máximo que puderem - afirmou Pu.
Liu já havia passado 20 meses na cadeia depois da repressão aos protestos na Praça da Paz Celestial, e depois ficou três anos num campo de "reeducação pelo trabalho", na década de 1990, além de vários meses praticamente sob prisão domiciliar, embora formalmente estivesse livre.
Encorajada por sua pujança econômica e pelos temores das potências ocidentais, a China parece ter pouca paciência com qualquer forma de pressão contra o rígido controle que impõe às atividades políticas dos seus cidadãos.
Os tribunais chineses, controlados pelo Partido Comunista, raramente absolvem réus, especialmente em casos de cunho político.
No veredicto do ano passado, ao qual Liu não teve o direito de responder, os juízes disseram que os escritos dele "tinham o objetivo de subverter a ditadura democrática popular do nosso país e o sistema socialista". "Os efeitos foram malignos, e ele é um grande criminoso."

quarta-feira, setembro 08, 2010

O dueto Brasil-China

O dueto Brasil-China

Rolf Kuntz - Estadão

 As contas externas são o ponto mais frágil da economia brasileira neste momento. De janeiro a agosto as exportações de mercadorias foram 28% maiores que as de um ano antes. O valor importado ficou 48,6% acima do registrado nos oito meses correspondentes de 2009. A tendência havia sido observada na fase de rápido crescimento até 2008, foi interrompida na recessão e voltou a manifestar-se com a recuperação da atividade. Embora involuntariamente, o Brasil vem cumprindo o papel proposto para os emergentes pelo Grupo dos 20 (G-20) e pelos principais dirigentes do Fundo Monetário Internacional (FMI): os superavitários deveriam depender mais do mercado interno e importar mais. A mensagem foi dirigida principalmente à China, a maior potência exportadora, mas também o Brasil acabou seguindo o caminho recomendado.
No segundo trimestre, as importações brasileiras de mercadorias foram 56% maiores que as de um ano antes, enquanto as exportações ficaram 29% acima das de igual período de 2009. No caso da China, as diferenças em relação ao ano anterior foram, respectivamente, 44% e 41%. Proporcionalmente, a resposta do Brasil ao apelo do FMI e dos países mais desenvolvidos foi maior que a chinesa. Na Índia, as taxas quase empataram: 33% mais para as importações e 32% mais para as exportações.
Só um dos Brics, a Rússia, tomou caminho diferente, faturando 43% mais que no segundo trimestre do ano passado e gastando 33% mais com as compras de produtos estrangeiros. Ninguém pode acusar o Brasil de não colaborar para a recuperação da economia mundial - embora a China tenha sido a principal potência beneficiada pelas importações brasileiras.
Também a conta de serviços tem piorado, principalmente por causa da valorização do real. Essa conta inclui, entre outros itens, as viagens ao exterior, agora mais baratas por causa do dólar barato. No segundo trimestre, a contribuição do setor externo - transações com mercadorias e serviços - foi negativa para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), com receitas 7,3% superiores às de abril a junho de 2009 e despesas 38,8% mais altas.
O descompasso entre importações e exportações foi apontado como o principal motivo de preocupação pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), em seu comentário sobre as contas nacionais do período de abril a junho.
A redução do crescimento econômico para um ritmo equivalente a 4,9% ao ano foi avaliada como boa notícia pelos analistas do instituto, assim como pelos economistas do governo. Embora ainda vigorosa, é uma expansão mais sustentável que a do trimestre anterior. Mas por quanto tempo será sustentável, se o balanço de pagamentos continuar em deterioração?
As projeções do mercado financeiro e das consultorias para as transações correntes continuam sombrias. No último relatório Focus, baseado em pesquisa divulgada semanalmente pelo Banco Central (BC), o déficit estimado para este ano aumentou ligeiramente, para US$ 50 bilhões. A previsão estava em US$ 49 bilhões duas semanas antes. Para 2011 o valor projetado foi mantido em US$ 58 bilhões.
De janeiro a julho, o déficit na conta corrente, US$ 28,3 bilhões, superou o de todo o ano passado, US$ 24,3 bilhões. Em 12 meses, o valor chegou a US$ 43,8 bilhões, equivalentes a 2,2% do PIB. Entre 2003 e 2007 a conta havia sido superavitária.
Nos 12 meses até julho entraram US$ 26,7 bilhões de investimento direto estrangeiro. O resto do buraco foi coberto com outros tipos de financiamento - empréstimos e aplicações especulativas -, menos estáveis e menos saudáveis para o País.
Segundo a análise do Iedi, a piora das contas externas é atribuível ao câmbio valorizado e a outros fatores "enormemente" prejudiciais à competitividade da produção nacional.
Não se discutem no texto esses fatores, mas são em geral bem conhecidos e compõem o chamado "custo Brasil". Para eliminar ou atenuar esses problemas, o próximo governo terá de trabalhar duramente. Parte da solução dependerá de inovações legislativas e do aumento da eficiência do setor público. Tudo isso vai exigir muita disposição para negociar, principalmente quando se tratar da alteração de impostos estaduais e da racionalização dos gastos da União. Desse esforço poderão depender também a política de juros e, indiretamente, a evolução do câmbio. O dólar barato tem contribuído para a contenção da alta de preços. Se a situação do câmbio mudar, o governo terá de cuidar de outros fatores inflacionários, a começar pelo desequilíbrio de suas contas.

sexta-feira, agosto 27, 2010

 Lijia Zhang: “O conforto tira a vontade de lutar”

 Lijia Zhang: “O conforto tira a vontade de lutar”

A escritora desafia o regime com um livro, mas reconhece que na China de hoje há mais liberdade
Juliano Machado
O otimismo é uma marca da jornalista e escritora chinesa Lijia Zhang. Na juventude, foi operária de uma fábrica estatal de mísseis em Nanquim por nove anos. Eram os anos 80, e o regime comunista controlava tudo da rotina das pessoas, da vestimenta aos hábitos sexuais. Mesmo sem nenhum incentivo, Lijia estudou inglês, cursou uma universidade à distância e ousou desafiar o governo ao dar apoio aos estudantes dos protestos da Praça da Paz Celestial, em Pequim, em 1989. Decidiu escrever sua história no livro A garota da fábrica de mísseis (editora Reler, 416 páginas, R$ 49), que chega às livrarias nesta semana. Lijia virá ao Brasil no dia 29. Nesta entrevista a ÉPOCA, ela reconhece que ainda falta democracia na China, mas diz que as pessoas se sentem mais confortáveis na vida pessoal.
QUEM É Lijia Zhang nasceu em Nanquim. Tem 46 anos. Divorciada, tem duas filhas: May, de 13 anos, e Kirsty, de 11. Vive em Pequim, onde trabalha como jornalista freelancer para veículos estrangeiros
O QUE FEZ Ainda como operária, organizou em Nanquim um ato de apoio aos protestos estudantis da Praça da Paz Celestial
O QUE PUBLICOU A autobiografia A garota da fábrica de mísseis

ÉPOCA – O que levou a senhora a relatar sua história na fábrica de mísseis?  Lijia Zhang – Estava conversando com um amigo escritor, o americano Peter Hessler, numa lanchonete de Pequim, em 2000. Por acaso, mencionei minha experiência como operária na fábrica de mísseis Liming. Ele ficou surpreso e me sugeriu escrever essa história como um artigo na edição asiática do The Wall Street Journal. Foi o que fiz. Ao lerem o texto, pessoas que não conheciam minha infância pobre em Nanquim disseram que eu poderia escrever um livro. Comecei a pesquisar e percebi que havia poucas obras sobre a China dos anos 80. O livro é sobre minha vida, mas por meio dela acredito que o leitor possa aprender muito de como era o meu país naquela época.

ÉPOCA – E por que escrevê-lo em inglês?  Lijia Porque certamente seria proibida de publicar meu livro se eu o escrevesse em mandarim. Quando a versão internacional do The New York Times (chamada International Herald Tribune) publicou uma resenha sobre o livro em 2008, consegui uma cópia do jornal em Pequim e percebi que a página da resenha tinha sido rasgada. O livro só não está proibido oficialmente na China porque não foi publicado por uma editora daqui.
ÉPOCA – O título do livro em inglês, Socialism is great (O socialismo é ótimo), foi uma ideia irônica sua? Lijia – Na verdade, tanto o título em inglês quanto o título em português (A garota da fábrica de mísseis) foram escolhidos pelos editores, não por mim. O título que eu havia pensado era Sapo no poço. Por muitos anos, eu me senti como um sapo dentro do poço, que era a fábrica. E o livro era para contar como o sapo conseguiu sair do buraco. Mas meu primeiro editor me disse que o leitor não iria entender tão fácil a ideia.
ÉPOCA – A senhora em algum momento teve orgulho de trabalhar num local destinado a fazer um míssil capaz de atingir os Estados Unidos?  Lijia – No começo de minha experiência lá, eu me sentia orgulhosa, sim. Achava muito importante para a defesa do país ter um empreendimento desse tipo. Com o tempo, fui me frustrando com a rotina da fábrica e me desiludi com o funcionamento do regime.
ÉPOCA – Na juventude, a senhora teve um relacionamento com um homem casado, fez sexo dentro da fábrica, realizou um aborto sem saber quem era o pai da criança. Como a sociedade chinesa de hoje enxergaria isso? Há mais liberdade sexual em relação aos anos 80?  Lijia – De certa forma, vejo o que fiz como uma transgressão, sem peso na consciência. Foi uma rebeldia, e as consequências foram um pouco complicadas. No aborto, corri riscos, porque foi feito de forma precária e só uma amiga minha sabia. Mas hoje acho que está havendo uma revolução sexual na China. As pessoas iniciam a vida sexual muito mais cedo, são mais bem informadas sobre sexo e têm mais parceiros ao longo da vida. A China está inserida na globalização dos hábitos sexuais. É claro que existem desníveis entre gerações. Em Pequim, ainda há pais que vão a parques avaliar possíveis parceiros para seus filhos. Nos anos 80, como eu conto no livro, havia um tipo de “polícia menstrual”, ou seja, uma funcionária da fábrica cuja única tarefa era verificar se as mulheres haviam menstruado para comprovar que não estavam grávidas. Isso praticamente deixou de existir, mas há pais em regiões mais atrasadas da China que têm práticas semelhantes com suas filhas.
ÉPOCA – A senhora diz que viver hoje na China é “excitante”. O que a faz pensar assim, diante de uma repressão política que parece tão intensa como há 20 anos?  Lijia – Em minha cidade, Nanquim, organizei uma manifestação em apoio aos estudantes da Praça da Paz Celestial (Tiananmen), que se rebelaram em junho de 1989, porque aquela luta não era só por democracia. Era um apelo por mais liberdades individuais. Eu não fui promovida nenhuma vez em nove anos de serviço na fábrica. Qual era um dos argumentos para eu ser preterida? O “instrutor político” da fábrica achava que meus cabelos naturalmente ondulados, o que é incomum entre os chineses, fossem uma concessão a “elementos burgueses decadentes”. Por essa mesma lógica, a fábrica nos proibia de usar batom, calça boca de sino e, aos homens, ter cabelo com comprimento abaixo do lóbulo da orelha. Isso não existe mais. Gosto de usar a metáfora da gaiola. Ainda há bastante controle sobre a população em várias situações, mas a gaiola do Estado foi se alargando de tal maneira que muitas pessoas dentro dela não veem mais qual é seu limite.
ÉPOCA – É por isso que não houve mais mobilizações como as de 1989?  Lijia – Talvez. Os chineses sempre foram muito empreendedores, acostumados a trabalhar duro. A partir do momento em que eles podem desfrutar alguma liberdade em seu modo de vida, no cotidiano, já não sentem tanta necessidade de lutar por algo. Há uma sensação maior de conforto, especialmente entre a classe média. 

Skoob

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