quinta-feira, agosto 26, 2010
Leia decisão que condenou Garotinho e Álvaro Lins
LOTEAMENTO DE CARGOS
Leia decisão que condenou Garotinho e Álvaro Lins
MARINA ITO
O ex-governador do Rio de Janeiro e atual candidato a deputado federal Anthony Garotinho foi condenado a dois anos e meio de prisão pelo crime de quadrilha. Além dele, foram condenados também o ex-chefe de Polícia Álvaro Lins, por formação de quadrilha, corrupção e lavagem de dinheiro, a 28 anos de prisão e outras oito pessoas. A decisão é da 4ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro. Cabe recurso e os condenados poderão recorrer em liberdade.
Segundo o juiz Marcelo Tavares, que analisou o processo, ficou comprovado que o ex-governador e o ex-chefe de Polícia promoviam loteamento de cargos nas delegacias do Rio. “O réu Anthony Garotinho impunha aos órgãos públicos do Estado sua autoridade de ex-governador e ex-secretário de Segurança e agia informalmente como quem efetivamente mandava no Estado, quando lhe interessava”, escreveu o juiz.
De acordo com a decisão, os envolvidos tinham interesses distintos ao se organizarem, alguns pretendiam o poder; outros, dinheiro. Ele faz a ressalva de que, apesar de um dos objetivos ser o de favorecer organização criminosa de exploração de jogo de azar, não há provas de que Garotinho e outros três réus tenham praticado corrupção. Tampouco, diz, há prova de que o ex-governador tenha obtido lucro ilícito para uso individual.
Segundo o juiz, “há interceptação de ligações telefônicas nas quais participa pessoalmente em que fica demonstrado que, sem exercer qualquer cargo público, atuava em administração paralela na área de segurança pública, interessado em nomear delegados para a titularidade de delegacias especializadas e na promoção de delegados, sem ter atribuição para tanto”.
Em seu blog, Garotinho afirma que vai recorrer da decisão. "Evidente que vou recorrer com todos os instrumentos jurídicos que a lei disponibiliza, por se tratar de uma decisão absurda, sem amparo legal, e com a qual não me conformo. Quando um grupo se une para a formação de quadrilha, busca obter algum tipo de benefício. A pergunta que se impõe neste momento é: qual a vantagem obtida por mim?", escreveu.
Já em relação a Lins, que teve o mandato de deputado estadual cassado, a decisão acolheu as denúncias apresentadas pelo Ministério Público Federal e o condenou a 28 anos de prisão por formação de quadrilha, corrupção e lavagem de dinheiro. Grande parte da decisão, de mais 350 páginas, refere-se ao ex-chefe da Polícia.
Acusada de participar de lavagem de dinheiro, a mãe de Álvaro Lins foi absolvida. O próprio MPF pediu a absolvição. O juiz entendeu que havia elementos suficientes para condená-la. Mas fez a ressalva: "sua conduta, apesar de consciente, foi de aceitação de um pedido formulado por filho (recém-separado e com dois netos) que, reconheça-se, era bom para ela: desde que os elementos probatórios permitiram analisar, remete-lhe dinheiro mensalmente e a mantém mesmo distante. Como exigir-lhe que lhe virasse as costas quando precisou? É o coração de mãe um mistério. Com ele, faz-se por um filho aquilo que a outro qualquer a razão negaria". O juiz afirmou ter colocado "a estrita técnica jurídica para se apegar a um critério de humanidade".
O caso está relacionado à Operação Segurança Pública S/A, da Polícia Federal, que, por sua vez, é um desdobramento Operação Gladiador, também da PF. Nessa operação, três inspetores de Polícia foram condenados por favorecer Rogério Andrade na guerra com Fernando Ignácio, os dois envolvidos com a exploração de máquinas caça níqueis.
Em agosto de 2008, a juíza convocada Márcia Helena Nunes, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (Rio e Espírito Santo), decretou a prisão preventiva do ex-chefe da Polícia Civil. Lins perdeu o mandato e, com isso, o processo foi distribuído à primeira instância. Em maio de 2009, sua prisão foi revogada pelo Superior Tribunal de Justiça.
Público e privado
O juiz também faz uma crítica contundente à situação da Segurança Pública. “Cabe somente observar que a dinâmica avassaladora na atuação da organização criminosa, como se vai ver, que tomou de assalto a área de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro, somente foi possível por encontrar condições favoráveis culturais e históricas para tanto, do que se aproveitaram de maneira pensada e estudada.”
Citou entre os vários fatores “a falta de limite entre o espaço público e o privado”, “a omissão silenciosa dos homens de bem, por medo e por comodismo”, “a falta de critérios reais e claros para adoção de atos administrativos na Polícia Civil”, “prática da espetacularização dos atos policiais, as prisões e buscas fantásticas e a apresentação vexatória de pessoas ainda investigadas”, além da “falta de idealismo”, “a fragilidade dos órgãos de inteligência para selecionar líderes policiais” e “o esquecimento”.
Ao analisar os vários diálogos travados entre os réus sobre os bastidores das promoções dos policiais, o juiz afirmou que o “ostracismo e a perseguição administrativa” eram os prêmios dados a quem se pautava pelos princípios constitucionais da legalidade e da moralidade.
Leia a nota divulgada pelo ex-governador Anthony Garotinho
A decisão da 4ª Vara Federal evidencia mais um capítulo da perseguição covarde dirigida não só a mim, mas a toda minha família. É de se estranhar o fato de ela ser anunciada justamente no período eleitoral, a 41 dias das eleições no país, e justamente quando todas as pesquisas de intenção de voto apontam meu nome como o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro. Enganam-se aqueles que acham tratar-se de uma mera coincidência. Além da afirmação do Ministério Público Federal de que eu sabia das supostas atividades do ex-chefe de Polícia Civil, Álvaro Lins, não há, nos autos, rigorosamente, nenhuma acusação ou prova formais contra mim.
Evidente que vou recorrer com todos os instrumentos jurídicos que a lei disponibiliza, por se tratar de uma decisão absurda, sem amparo legal, e com a qual não me conformo. Quando um grupo se une para a formação de quadrilha, busca obter algum tipo de benefício. A pergunta que se impõe neste momento é: qual a vantagem obtida por mim?
Uma rápida leitura da minha trajetória política e pessoal demonstra que não sou homem de me abater. Tampouco acumulei bens, apesar de ter sido prefeito de Campos em duas ocasiões, deputado estadual, secretário de estado duas vezes e governador do segundo estado da Federação. Reafirmo que essa decisão em 1ª instância, justamente quando me encontro em campanha pelo Sul Fluminense, em nada irá alterar minha disposição de disputar uma vaga à Câmara dos Deputados, no próximo dia 3 de outubro.
Anthony Garotinho
Em tempo: A decisão da 4ª Vara Federal não impede a minha candidatura.
Gabeira afirma que teme "mexicanização" do Brasil
Gabeira afirma que teme "mexicanização" do Brasil
FOLHA DE S. PAULO
*DEPUTADO DIZ QUE CABRAL "FAZ O GOVERNO E TRAZ TODO MUNDO QUE QUEIRA EMPREGUINHO" *PARA VERDE, "MAIORIA ESMAGADORA" DAS COMUNIDADES DO RIO NÃO ESTÁ PACIFICADA
O deputado federal Fernando Gabeira (PV), 69, candidato ao governo do Rio de Janeiro, afirmou ontem que a política do Estado tende para "uma coligação única". Ele criticou seu principal adversário, o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), pelo que chamou de "método arca de Noé".
"Faz o governo e traz todo mundo que queira empreguinho", disse o deputado durante a sabatina Folha/UOL, realizada no Teatro dos Quatro, no shopping da Gávea, zona sul do Rio.Gabeira disse que, assim como no plano federal, existe o risco de "mexicanização da política brasileira", em referência à manutenção do PRI, que ficou mais de 70 anos no poder naquele país.
O deputado do PV sugeriu que existe uma ligação entre o governo estadual e os traficantes de drogas da comunidade da Rocinha, no que chamou de um "processo de convivência".
Disse ainda que a política de segurança carece de "inteligência".
Vestindo calça jeans, casaco preto e tênis, o ex-guerrilheiro Gabeira criticou o discurso da presidenciável Dilma Rousseff (PT), de que ela defendia a democracia ao lutar contra a ditadura militar (1964-85): "Os grupos armados tinham como programa a ditadura do proletariado". Gabeira respondeu a perguntas da plateia e de Vinicius Mota, secretário de Redação da Folha, Rodrigo Flores, gerente-geral de notícias do UOL, Plínio Fraga, repórter especial, e Antônio Gois, repórter da Sucursal do Rio.
Mexicanização
Existe uma tendência à mexicanização da política brasileira. A construção, não de um partido único, mas de uma coligação única. Os métodos do PT e do Cabral no Rio são semelhantes. É o método arca de Noé: faz o governo e traz todo mundo que queira apoiar e também um ou outro empreguinho. A coligação do Cabral não tem nem tempo de dizer o nome de todos os [16] partidos que o apoiam.
Candidatura
Percebi que no Rio era necessária uma candidatura de oposição. Não é possível que nós caminhássemos para uma candidatura única. Teria uma eleição tranquila para deputado, ou com chances para o Senado, mas tinha que cumprir esse papel.
Serra e Marina
A ambiguidade permanece. Toda vez que eu estou com o Serra, me perguntam pela Marina. Toda vez que eu estou com a Marina, me perguntam pelo Serra. Quando estou sozinho, dizem que estou muito sozinho. Quando estou com alguém da minha coligação, dizem que estou mal acompanhado [Gabeira é candidato pela coligação PV-PSDB-DEM-PPS].
Governo e o tráfico
O Nem [Antônio Bonfim Lopes, chefe do tráfico da Rocinha] está ali porque tinha um braço político [que] votava e era articulado com o governo [estadual]. Na Rocinha há um processo de convivência [com o tráfico de drogas]. Eu sou contra.
Segurança
Nenhuma grande cidade do mundo permitiria que um comboio de 80 pessoas armadas se deslocasse sem que fosse detectado por câmeras. [...] O governador diz que há paz no Rio. Eu digo que não, porque por todo lado vejo gente de fuzil, metralhadora, granada... Ele fala sobre 1% das comunidades que estão pacificadas. A maioria esmagadora não está. Ele diz que vai levar UPPs para cada comunidade. Não temos recursos suficientes.
Desvios éticos
Devolvi o dinheiro da passagem [da Câmara para viagem da filha] e formulei as regras que hoje dão à Câmara uma economia de R$ 32 milhões. [...] Sempre mantive um carro Gol à disposição do gabinete.
Não tinha condições de usar o carro na campanha e no gabinete. Aluguei um carro para o gabinete e mantive o outro para a campanha. Como o carro que aluguei [com verba da Câmara] era mais confortável, em certos momentos trocamos por uma questão de conforto.
Quanto à outra questão [contratação de empresa da mulher para elaborar um site], era o mais barato e [tinha] a melhor qualidade.
Guerrilha
No caso da Dilma, há diferenças na apreciação do que foi a nossa atuação. Todos os principais ex-guerrilheiros que se lançam na política costumam dizer que lutavam pela democracia. Eu não tenho condições de dizer isso. Não se pode corrigir o passado. Havia muita gente lutando pela democracia, mas não os grupos armados que tinham como programa a ditadura do proletariado.
Educação
O Rio tem 1.200 escolas de ensino básico que precisam ser municipalizadas, em sintonia com os prefeitos. Uma novidade de São Paulo pode ajudar: outro professor ou estudante universitário na sala de aula. Outra é a revisão do currículo, em sintonia com o Ministério da Educação, para ter matérias opcionais. [...] Queremos desenvolver mais ainda o ensino profissionalizante. O Rio vive um apagão de mão de obra especializada.
Olimpíada, Copa e pré-sal
Os investimentos feitos para a Olimpíada e para a Copa do Mundo devem se reverter em benefícios permanentes para a população. [Os investimentos] devem ser feitos numa economia que leva em conta a necessidade de não ficarmos tão dependendo do petróleo. O Rio precisa ser um centro turístico internacional. Não apenas a capital, mas todo o Estado. É possível, por exemplo, construir uma estrada de ferro para unir o Rio de Janeiro a Petrópolis.
Candidato da zona sul
O Cabral é mais zona sul do que eu. Eu moro em Ipanema, e ele no Leblon. Talvez esse estigma nasça pelo fato de eu ter defendido ideias que são mais ventiladas na zona sul. Talvez parte da zona sul tenha um nível intelectual e padrão de renda mais alto, e talvez eu tenha a preferência dos eleitores dessa área.
Drogas
Só com uma polícia muito avançada pode realmente legalizar. Legalizar não é o liberou geral. É um controle mais sofisticado.
Religião
Tenho uma proximidade grande, pelo menos teórica, com o budismo.
Palmada
Sou contra as palmadas. Mas nem tudo que sou contra gostaria de reger por lei. É um espaço na relação pai e filho que o Estado não deve, necessariamente, reger.
Voto obrigatório
Sou a favor do voto facultativo. Sou contra tudo que é obrigatório.
FHC, o ´não militante`
FHC, o ´não militante`
CORREIO BRAZILIENSE Daniela Almeida
Ex-presidente diz que sua atuação na campanha de Serra se restringe aos bastidores e critica postura adotada por Lula
São Paulo - Presença rara na campanha do candidato tucano à presidência, José Serra, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso (PSDB) disse ontem que não é militante como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e considera sua participação compatível à postura do cargo que ocupou. Apareço da maneira como acho que um expresidente deve aparecer, dando ideias, discutindo, mas não sou militante. Acho que é uma certa incompatibilidade de postura.
Cada um defende a sua. Temuns que defendem como o presidente Lula. Ele é um militante. Esqueceu que é presidente de todos nós para representar uma facção, alfinetou.
O ex-presidente tem atuado mais ativamente nos bastidores da campanha tucana. Apesar de ter gravado participações em programas eleitorais de outros candidatos do partido, como o do senador e atual presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), do exgovernador de São Paulo Geraldo Alckmin e do pleiteante ao Senado Aloysio Nunes Ferreira (SP), FHC não chegou a figurar em inserções no programa serrista.
FHC também não é visto ao lado de Serra em eventos de campanha ou na participação do candidato em debates, como o último encontro entre presidenciáveis transmitido por uma rede de TV em São Paulo. O ex-presidente, no entanto, minimizou sua ausência com a justificativa de que, desde que ocupou a Presidência, disse que não participaria mais de política partidária ativa.
Embora seja ex-presidente, acho que devo guardar uma certa distância da briga direta da política.
Dou minhas opiniões e todo mundo sabe qual é o meu lado. Aécio O ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves (PSDB), candidato ao Senado, esteve ontem em São Paulo para a gravação de uma inserção no programa eleitoral de Serra. Aécio, que prometeu empenho na campanha presidencial, teve um encontro rápido com Sérgio Guerra em um café nos Jardins, Zona Sul de São Paulo.
Aécio, aliás, tem sido peça chave nas costuras da campanha tucana à Presidência. Foi ele o responsável por colocar panos quentes nas negociações junto ao DEM para a definição do candidato ao vice, no episódio que quase culminou com a dissolução da coligação. À época, FHC chegou a reunir-se com Serra e Aécio para discutir o assunto.
Dessa vez, o ex-presidente não participou da reunião.
Segundo FHC, ele e Guerra talvez se falassem por telefone na noite de ontem.Natal Os aliados de José Serra no Rio Grande do Norte cumpriram agenda política com o presidenciável na tarde de ontem, em Natal.
Embora evitem vincular suas imagens às do candidato tucano, José Agripino Maia (DEM), que pleiteia vaga no Senado, e Rosalba Ciarlini (DEM), postulante ao cargo de governadora, percorreram as ruas da capital ao lado de Serra em carro aberto e depois a pé. Ambos alegaram que a campanha deles é estadual, motivo para não mencionar o ex-governador de São Paulo em suas propagandas eleitorais.
Ameaça do autoritarismo é continental – Editorial / O Globo
Ameaça do autoritarismo é continental – Editorial / O Globo
Milhões de cidadãos sul-americanos estão ameaçados de perder suas fontes independentes de informação e de passarem a receber notícias através de um filtro governamental. É o chamado "controle social da mídia", um projeto caro a governos ditos de esquerda, autoritários e neopopulistas, eufemismo de censura.
É o que se passa, há anos, na Venezuela, onde Hugo Chávez persegue os meios audiovisuais (TV, rádio) críticos. Na semana passada, a Justiça, controlada pelo chavismo, impediu jornais e revistas de publicarem imagens e textos sobre a violência que dilacera o país (o número de homicídios em 2009 foi superior ao das mortes no Iraque). Depois, um tribunal voltou atrás, mas o dano à liberdade de expressão já estava feito.
Em outro país, mais importante, a Argentina, o processo está a todo o vapor. Explica-se: o casal Kirchner assume cada vez mais o autoritarismo como estilo, e se torna dia a dia mais parecido com Chávez. A relação dos Kirchner com a imprensa independente nunca foi boa, mas piorou quando o governo entrou em choque com o setor rural, em 2008, ao aumentar em 35% o imposto sobre a exportação de produtos agrícolas. O diário "Clarín" apoiou os ruralistas e, desde então, passou a ser considerado inimigo público número um pelos Kirchner. A primeira investida foi a Lei dos Meios, de 2009, pela qual o Estado reordenava a mídia segundo critérios próprios, para reduzir seu faturamento independente do Estado. Foi julgada inconstitucional. O governo voltou à carga e cassou a licença da Fibertel (do Grupo Clarín), provedora de serviços de internet.
Mas a grande cartada surgiu agora quando a presidente Cristina, em cadeia nacional de TV, acusou os dois principais jornais do país - "La Nación" e "Clarín" - de se terem aproveitado do clima de terror da ditadura (1976-1983) para apropriar-se da empresa Papel Prensa, dona de 75% do mercado argentino. O governo enviará à Justiça um relatório formalizando a acusação, com o qual espera poder expropriar a companhia, e assim decretar o fim da liberdade de imprensa. Ao GLOBO, Eduardo Lomanto, diretor de negócios do "La Nación", denunciou a truculência mafiosa que permeou a investida do governo, lembrando a participação do secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno. Em determinado momento de uma reunião com os acionistas de Papel Prensa, ele ameaçou: "Aqui fora tenho uns muchachos especialistas em partir a coluna e fazer saltar os olhos daquele que fale" (contra a intenção do governo). Ontem, o irmão de David Greiver, um dos proprietários originais da empresa, veio a público para contestar os argumentos do governo e testemunhou que a venda da companhia para os atuais donos ("Clarín", "La Nación" e o próprio Estado argentino) se deu antes da prisão de sua família pela ditadura e de forma vantajosa para ela.
O Brasil não está livre de ações de grupos que visam a subjugar meios de comunicação independentes. Diversos projetos de lei nesta direção se originaram na Conferência Nacional das Comunicações (Confecom), convocada pelo governo. Em todo o continente está em risco a base das liberdades democráticas. Sem imprensa livre, elas são revogadas.
O cristão na política: direita ou esquerda?
O cristão na política: direita ou esquerda?
João Heliofar de Jesus Villar
É muito difícil passar ideologicamente incólume pela universidade. O ambiente é bastante propício para engajamento político, que, em linhas gerais, pende para a esquerda, como todos nós provamos nos tempos da faculdade. Quando experimentei minha conversão em 1982, numa das salas da faculdade de direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, vivia-se a primeira eleição pós-ditadura para governador. Votar em Brizola era, então, uma questão de honra. O adversário era Moreira Franco, que disputava a eleição pela nova Arena – o PDS. Brizola começara com um índice insignificante nas pesquisas. Porém, a Globo cometeu o deslize de incluí-lo nos debates na televisão. O efeito foi instantâneo e impressionante. Brizola poderia ser um mau administrador, mas como debatedor na televisão era imbatível. Frasista inigualável, com um tirocínio impressionante, destruiu seus oponentes e logo assumiu a ponta nas pesquisas.
Aí vem minha conversão. Um colega de faculdade que me evangelizou levou-me à Comunidade S-8, então dirigida pelo pastor Geremias de Matos Fontes, falecido recentemente. Figura memorável e queridíssima, um homem profundamente comprometido com Deus. O "tio Gerê" fora deputado federal e governador do Estado do Rio de Janeiro, e, num passo corajoso, largara a política no auge do prestígio para responder integralmente ao seu chamado ministerial. Manteve, porém, em relação à política, uma visão conservadora na qual Brizola protagonizava uma ameaça à paz e à segurança do Rio de Janeiro e do país. Aí começou o meu primeiro drama político-espiritual. Recém convertido entrei em contato com uma linha que interpretava o embate político como uma guerra espiritual com lados definidos. E o mal era um abutre que voava com a asa esquerda. Aquilo me lançou na maior perplexidade, pois fiquei sem saber se devotava lealdade à minha nova experiência espiritual ou ao meu fervor estudantil.
Faço o relato para ilustrar a nossa tendência de identificar as tendências políticas com a realidade espiritual. Deus em política, pensamos, toma partido e se identifica com as nossas preferências ideológicas. O cristão mais identificado com a esquerda pensa que Deus também é de esquerda e acha sua cartilha muito mais humana, mais solidária etc., etc. O de direita também crê que sua opção é a mais compatível com sua fé, pois é quem mais defende os valores morais do evangelho, a livre iniciativa e por aí vai. E o pior não é isso. Quando chegam as eleições a batalha começa a tomar configuração apocalíptica.
Não é um dilema? Na verdade não deveria ser. As diversas correntes ideológicas servidas no mercado político querem nos convencer que será melhor para a sociedade se o Estado se posicionar desta ou daquela forma. São discussões sobre como o poder dele deve ser exercido sobre a sociedade. É importante, mas não deveríamos classificar os nossos irmãos em Cristo em categorias estereotipadas apenas porque eles não comungam de nossas preferências ideológicas (especialmente quando se vive num regime democrático, em que o poder do Estado sofre limitações constitucionais). Não deveríamos nunca, a esse respeito, impor convicções, mesmo porque o dissenso é o oxigênio da convivência política – aliás, de qualquer convivência saudável.
Além do mais, cristão não tem rigidez ideológica. Em política ele é um infiltrado. Conforme a causa em pauta estamos à direita ou à esquerda. Nosso compromisso é com a causa do evangelho, e na defesa desses valores podemos nos aliar politicamente a todos aqueles que se dispuserem a defendê-la no caso concreto, independentemente do lado para que pende ideologicamente a asa de nossos aliados. O velho e saudoso Schaeffer falava muito em co-beligerância, conceito que deveríamos lembrar nestes tempos bicudos de patrulhamento ideológico. Seria muita ingenuidade nossa imaginar que os valores do evangelho poderiam ser sequestrados por qualquer partido ou tendência ideológica. O nosso partido é o do evangelho, e o cristão que participa da vida política, seja como eleitor, seja como deputado, deve se lembrar sempre que a sua cidadania é essa, inscrita na cidade de Deus, e que por aqui somos peregrinos, que vamos salgando o terreno dentro daquilo que é possível para nós.
• João Heliofar de Jesus Villar, 45 anos, é procurador regional da República da 4ª Região (no Rio Grande do Sul) e cristão evangélico. Publicado em http://www.ultimato.com.br/
STF vai julgar a censura ao humor
É PROIBIDO SORRIR
STF vai julgar a censura ao humor
Globo Online - Publicada em 25/08/2010 às 23h07m - Fabio Brisolla
RIO - Acuados pela censura imposta pela lei eleitoral no período de campanha política, os humoristas podem ter motivos para sorrir. Nesta terça-feira, a Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) protocolou no Supremo Tribunal Federal uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) contra as restrições impostas aos programas de humor.
Em vigor desde 1997, a atual lei eleitoral proíbe o uso de "trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação". O texto citado atinge em cheio as sátiras políticas e, na avaliação da Abert, viola a liberdade de expressão assegurada pela Constituição.
A ação proposta pela entidade inclui um pedido de medida cautelar que, se aceito pelo STF, resultará na suspensão imediata das proibições previstas em lei. O ministro Ayres Britto foi escolhido para relatar o processo.
- As normas da lei eleitoral impõem às emissoras de rádio e televisão restrições à liberdade de expressão e informação. E, por isso, violam garantias consagradas na Constituição brasileira - avalia Daniel Slaviero, presidente da Abert.
Adin critica 'efeito silenciador' sobre rádio e TV
Além do inciso que limita as piadas com candidatos em campanha, a ação de inconstitucionalidade também contesta o trecho que impede a difusão de "opinião favorável ou contrária a candidato, partido, coligação, a seus órgãos ou representantes" em programas de TV ou rádio. Na petição de 26 páginas enviada ao STF, as normas citadas são criticadas por provocarem "um grave efeito silenciador sobre as emissoras de rádio e televisão obrigadas a evitar a divulgação de temas políticos polêmicos para não serem acusadas de difundir opinião favorável ou contrária".
O documento frisa que os dispositivos da lei atual "inviabilizam a veiculação de sátiras, charges e programas humorísticos envolvendo questões ou personagens políticos durante o período eleitoral".
A nossa passeata serviu para abrir os olhos das pessoas. Estou muito otimista
No domingo, os humoristas protestaram numa passeata na Praia de Copacabana contra a censura na campanha política.
- A nossa passeata serviu para abrir os olhos das pessoas. Estou muito otimista. O ministro da Cultura (Juca Ferreira) me ligou para marcar uma reunião com os humoristas. Caso o STF não decida a nosso favor, vamos continuar tentando. De uma forma ou de outra, vamos mudar essa lei - diz Fábio Porchat, um dos organizadores da manifestação.
Para cumprir as exigências da lei, os programas fizeram algumas mudanças no roteiro nas últimas semanas. O Casseta & Planeta, da Rede Globo, eliminou as imitações de Dilma, Serra e Marina, presentes na programação antes do início da disputa eleitoral. No CQC, da Band, a orientação foi suavizar o tom das perguntas nas entrevistas com políticos. Já o Pânico na TV, da Rede TV, suspendeu temporariamente a cobertura política.
Esse artigo da lei eleitoral afronta diretamente o princípio de liberdade de expressão previsto na Constituição
- Esse artigo da lei eleitoral afronta diretamente o princípio de liberdade de expressão previsto na Constituição. A Adin (ação direta de inconstitucionalidade) é um caminho para corrigir uma situação que não se compatibiliza com o estado democrático - afirmou Ophir Cavalcante, presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
A lei em vigor foi aprovada pelo Congresso em 1997. Para alterar o texto seria necessária uma aprovação na Câmara dos Deputados. Os responsáveis pela mudança seriam justamente aqueles que serão alvos das piadas caso os humoristas recebam carta branca na campanha política. Por isso, a ação no STF é vista como a forma mais eficaz de buscar um resultado ainda nesta eleição. O advogado Claudio de Souza Neto, professor de direito constitucional da Universidade Federal Fluminense (UFF), considera acertada a decisão de recorrer ao STF:
Se a Adin não for julgada logo, o prejuízo para o processo eleitoral será grande
- Se a Adin for julgada procedente, aqueles dispositivos da lei vão deixar imediatamente de existir. O Supremo tem poder para impugnar a lei.
Na avaliação de Souza Neto, a tendência é haver uma decisão rápida pelo fato de a campanha política estar em andamento:
- Há boas razões para uma decisão cautelar. Se a Adin não for julgada logo, o prejuízo para o processo eleitoral será grande.
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