quarta-feira, novembro 10, 2010

Impacto de alta do algodão pode não cair até 2011, diz setor têxtil

Impacto de alta do algodão pode não cair até 2011, diz setor têxtil
Maria Cristina Frias - Folha de S. Paulo - 10/11/2010
A alta histórica do algodão tem impacto de 30% a 50% sobre os custos dos jeans e brins, segundo a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção).
"É a maior alta dos últimos 140 anos", diz Aguinaldo Diniz Filho, presidente da entidade. "Só neste ano a alta foi de 60,70%."
Essa situação não deve se resolver no curto prazo porque os estoques estão baixos e o consumo segue em alta, segundo a Abit. "Quanto mais no início da cadeia, como na produção de fios de algodão, maior o impacto."
China e Índia que são grandes produtores e consumidores sofrem um impacto ainda maior que o Brasil, segundo Rafael Cervoni, presidente do Sinditêxtil-SP. "Na China, o aumento de preço já chegou na tecelagem. Nos EUA, já alcançou o segmento do vestuário."
A produção de artigos de algodão já foi feita, a maior parte com preços menores da matéria-prima.
Mesmo assim, neste ano, a indústria de toalhas subiu os preços em cerca de 15%, segundo Rolf Buddemeyer, diretor da indústria têxtil que leva seu nome.
A Abit solicitou ao governo a liberação da importação de 250 mil toneladas de algodão com alíquota zero para repor estoques.
"No Brasil, não há espaço para aumento de preços de todos os segmentos. Com o real valorizado, se fomentou a importação e devemos ter um deficit histórico na balança comercial do setor de US$ 3,5 bilhões", diz Cervoni.
As indústrias de confecção que estão produzindo roupas de verão agora são as que devem sentir mais os efeitos da alta do preço internacional do algodão, segundo Ronald Masijah, presidente do Sindivestuário (da confecção).
OLHO NO OLHO
A presidente eleita, Dilma Rousseff, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, terão tido 30 horas juntos no voo até Seul, com escala em Frankfurt, na Alemanha.
Dilma e Mantega vão acompanhar o presidente Lula em viagem à Coreia do Sul, onde vão participar das reuniões do G20, amanhã e sexta-feira.
Será tempo de sobra para discutir o futuro do Ministério da Fazenda, à frente do qual Mantega gostaria de permanecer.
E melhor, sem a presença de nenhum dos "três porquinhos": Antonio Palocci, José Eduardo Dutra e Eduardo Cardozo.
MARATONA
A Fila, marca esportiva italiana, amplia os investimentos na América Latina. A empresa escolheu o Brasil para abrir a sua primeira loja própria na região.
No final de janeiro, será inaugurada a loja-conceito na rua Oscar Freire, em São Paulo. Os investimentos somam US$ 2,5 milhões (cerca de R$ 4,3 milhões).
"A unidade faz parte da estratégia da Fila internacional de abrir lojas-conceito em várias cidades do mundo", diz Marcelo Amarante, diretor da marca no Brasil.
O novo espaço terá confecção, tênis e acessórios, além de peças exclusivas e de coleções da Europa.
O próximo passo da empresa na América Latina será o mercado argentino, em Buenos Aires, em 2011.
O segmento da marca que mais cresce no Brasil é o de "running". "E é o que mais tem potencial para crescer. Hoje, a corrida já é o segundo esporte mais praticado no país", diz Amarante.
Para ganhar mercado e enfrentar os concorrentes, a companhia investe no desenvolvimento de tecnologia para os tênis e no estudo de novas matérias-primas para as confecções.
A empresa prevê crescimento de 30% no faturamento do mercado brasileiro neste ano.
Empresa prefere contratar no destino da expansão, diz pesquisa
Ao efetivarem os planos de expansão, quase 70% das empresas procuram contratar no local de destino, em vez de mudar o domicílio de seus executivos.
É o que revela levantamento da Amcham (Câmara Americana de Comércio) entre as empresas associadas.
A capacitação de novos colaboradores é apontada como a principal dificuldade por 47% dos entrevistados.
Para treinar os novos funcionários, mais de 70% dos entrevistados preferem deslocar os orientadores para o local do treinamento. Outros 20% usam videoconferência, segundo a pesquisa.
Quando é necessário deslocar funcionários da sede, as estratégias das empresas envolvem benefícios. Cerca de 40% oferecem promoção de cargo ao executivo.
"Minha Casa 2" permitirá terreno não regularizado
O projeto de lei que o governo enviará ao Congresso regulamentando o programa Minha Casa, Minha Vida 2 (MCMV-2) permitirá a construção de imóveis em áreas que ainda estão em fase de desapropriação e, portanto, em terrenos que não estão totalmente regularizados.
Esse era um empecilho no MCMV-1 para construir imóveis em favelas, onde se concentra boa parte da população mais carente que o programa quer atender.
No MCMV-2 a meta para construção de imóveis para famílias de baixíssima renda (até R$ 1.395), que terão direito a subsídio integral do governo, é de 1,2 milhão contra 400 mil unidades na primeira versão do programa.
Havia também uma demanda para a indexação dos valores ao salário mínimo. Hoje, apesar de usar como referência o mínimo, os subtetos são fixados em reais e não têm correção automática quando o mínimo sobe.
A ideia é que o Executivo corrija esses valores sem indexar os valores aos reajustes do mínimo.
O MCMV-2 pretende construir 2 milhões de unidades até 2014.
CENÁRIO AÉREO
O índice de eficiência operacional, que avalia pontualidade e regularidade, do setor aéreo brasileiro melhorou um pouco em 2009, segundo dados do mais recente Anuário do Transporte Aéreo publicado pela Anac.
As cinco maiores companhias TAM, Gol/Varig, Azul, Webjet e Avianca passaram dos 90% de regularidade no ano passado. Em 2007, o índice entre as maiores empresas variava de 65% a 85%. Com relação à pontualidade, a média ficava entre 45% e 65% em 2007 e subiu para o nível de 80% a 90% em 2009.
O total de pilotos por aeronave na Gol foi de 11,28, enquanto a TAM registrou 14,97. A Webjet, que protagonizou uma onda de cancelamentos de voos recentemente, tinha 11,1 pilotos por aeronave em 2009. A Azul registrou 13,5 e a OceanAir, 8,68.
Selo de... Produtores de café do Cerrado Mineiro (MG) vão hoje à sede do Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), no Rio, solicitar a conversão do seu selo de Indicação de Procedência para o de Denominação de Origem.
...garantia Essa é a variação "mais complexa e valorizada" da Indicação Geográfica. Com o novo pedido, o Inpi alcança o recorde de 11 solicitações de Indicação Geográfica no ano, todas de brasileiros.
Luso O presidente da EDP no Brasil, António Pita de Abreu, há três anos à frente da empresa, foi nomeado personalidade do ano pela Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil, em SP. O prêmio se deve à visibilidade alcançada pela EDP em sua gestão.

Bello, na Tribuna de Minas


Fogo nos marimbondos

Fogo nos marimbondos
Dora Kramer - O Estado de S. Paulo - 10/11/2010
O ministro Franklin Martins, da Comunicação Social, nem parece que está saindo do governo tal a assertividade de suas palavras ontem no seminário internacional Comunicações Eletrônicas e Convergência de Mídias, organizado para discutir a proposta de regulamentação da área de telecomunicações que será concluído antes do fim do mandato do presidente Luiz Inácio da Silva.
"Nenhum grupo tem o poder de interditar a discussão, que está na mesa e terá de ser feita. Em clima de entendimento ou de enfrentamento", disse ele, com a convicção dos que têm a força.
Franklin Martins já disse particular e publicamente que não vai continuar no governo Dilma.
Considerando que o referido anteprojeto só poderá ser analisado pelo Parlamento no ano que vem, é de se imaginar que tenha recebido carta branca da nova presidente para "bancar" o interesse do governo de mobilizar sua maioria para assegurar a tramitação da polêmica proposta por bem - na base na busca do consenso - ou, se não for possível, por mal mesmo.
Por "enfrentamento" é de se supor que o ministro esteja se referindo a um confronto com os que na sociedade e no Congresso forem contrários à proposta do governo.
Por ora não se sabe bem qual é o teor do anteprojeto, cuja discussão "pega" no ponto de sempre: a ideia de controle de conteúdo. Franklin assegura que tais temores são infundados, embora toda documentação produzida pela conferência de comunicação que o governo patrocinou no ano passado e pelo último Congresso do PT digam o contrário.
Interessante, porém, é um item específico que o ministro adiantou ontem e que precisa de urgente regulação: a propriedade de veículos de comunicação por políticos. É proibido, mas ninguém respeita. "Porque a discussão é evitada e agora é a oportunidade para que se discuta tudo isso", diz Franklin.
Está coberto de razão. Agora, é de se conferir se a nova presidente, Dilma Rousseff, vai querer mesmo enfrentar a discussão e com ela boa parte do Congresso, que controla emissoras de rádio e TV.
A começar por seus poderosos aliados, sendo os mais notórios o presidente do Senado, José Sarney, e o presidente da Comissão de Infraestrutura, Fernando Collor de Mello, para citar apenas os mais notórios de uma lista enorme que estariam, nesse caso, muito mais dispostos ao enfrentamento que ao entendimento.
De onde se conclui que dificilmente o exemplo citado pelo ministro seja de fato um dos alvos da regulamentação.
Ao vento. Foi mais uma das inúmeras tentativas de maquiar a realidade, mas, à parte a inadequação de sempre, qual a importância da avaliação do presidente Lula de que "o Enem foi um sucesso total", diante dos acontecimentos e da proximidade de sua despedida da Presidência?
Nenhuma, a não ser a oportunidade perdida de abordar o assunto com maturidade, tratando dos erros como tais, mas aproveitando para reforçar a importância do exame, oferecer alento aos estudantes prejudicados e dar o primeiro passo no rumo da recuperação da credibilidade do Enem.
Como não há novidade na atitude do quase ex-presidente, nesta altura só seria de se lamentar se a presidente eleita Dilma Rousseff também manifestasse essa posição politicamente competitiva frente aos problemas nacionais.
Estelionato. Se os salários dos parlamentares estão defasados, se o aumento proposto agora é indispensável e se, como diz o senador José Sarney, cabe ao atual definir a remuneração do futuro Congresso, por que o assunto não foi ventilado antes das eleições?
Porque, assim como ocorre com a proposta de recriação da CPMF, entre a honestidade e o risco de perder votos, a primeira é causa perdida.
Cenografia. Nada mais distante da realidade do poder de fato que a foto nos jornais de ontem com Michel Temer "presidindo" a reunião da equipe de transição repleta de petistas estreladíssimos.

O embuste da CPMF

O embuste da CPMF
FERNANDO RODRIGUES – Folha de São Paulo
BRASÍLIA - Uma mentira repetida mil vezes vira verdade. Uma bobagem também. Por exemplo, o suposto benefício colateral da volta do imposto do cheque: permitir ao governo combater a sonegação por saber exatamente qual é a movimentação financeira oficial de cada brasileiro com conta bancária.
Técnicos, políticos de oposição e governistas, quase todos, apontam esse aspecto em defesa do retorno da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira. Como os bancos ficam obrigados a recolher um percentual fixo sobre todas as operações de seus clientes, a Receita Federal passa a ter uma ferramenta útil para perseguir quem não paga impostos.
O raciocínio é indigente ou de má-fé. Ou as duas coisas.
Já existem e estão em vigor uma lei e uma instrução normativa da Receita Federal a respeito de movimentações financeiras. Depois que o Senado impediu a renovação do imposto do cheque, no final de 2007, criou-se um novo instrumento: a Declaração de Informações sobre Movimentação Financeira.
Trata-se de uma declaração que bancos estão obrigados a fazer. Nesse documento devem estar os dados de todos os correntistas cuja movimentação supere R$ 5 mil por semestre. No caso de empresas, o valor é de R$ 10 mil.
Ou seja, hoje o governo já sabe muito bem o que uma parcela significativa de contribuintes faz. Fica de fora só quem movimenta, entre saques e depósitos, menos de R$ 5 mil a cada seis meses.
Qual a razão então de criar algo tão regressivo como a CPMF? Dezenas de reportagens, inclusive uma recente de Gustavo Patu, já provaram a ineficácia desse tributo como fonte financiadora da saúde pública. Para combater a sonegação, só duplicaria uma norma existente. Tudo considerado, é fascinante como a frágil defesa do imposto do cheque continue sendo repetida pelos detentores do poder -inclusive por Dilma Rousseff.

CAPE VERDE - Sara Tavares - Mi Ma Bo

Paixão, em Gazeta do Povo


Segurança em jogo

Segurança em jogo
FERNANDO DE BARROS E SILVA – Folha de São Paulo
SÃO PAULO - Num Estado como São Paulo, a Secretaria da Segurança Pública talvez seja responsável pela área mais sensível da administração. Entre civis e militares, o titular da pasta tem sob o seu comando mais de 130 mil policiais.
O atual secretário, Antonio Ferreira Pinto, fez do combate à corrupção dentro da polícia a marca da sua gestão. Alguns críticos o acusam de ser condescendente com abusos da PM, corporação à qual foi ligado. Mas reconhecem que nunca, desde a redemocratização, houve tanto empenho contra a roubalheira policial, sobretudo na Civil, onde o problema é endêmico.
Está em curso, por isso, um lobby pesado para que Geraldo Alckmin mande Ferreira Pinto para casa no dia 1º de janeiro. A pressão é capitaneada por delegados descontentes, afastados ou preteridos, mas conta com a ajuda de deputados tucanos, a começar por Mendes Thame, presidente do partido no Estado.
Há muitos interesses em jogo. Um deles está no Detran, máquina de fazer dinheiro fácil, cujo controle pode sair das mãos da polícia.
Mas o cerne da questão reside no status dado à Corregedoria da polícia, que Ferreira vinculou diretamente à secretaria, e não ao delegado-geral, para fazê-la funcionar.
A corregedora Maria Inês Valente investiga hoje em torno de 900 delegados, num total de 3.300. Nem todos são casos de corrupção, nem todos são acusados de irregularidades graves, mas o número ainda assim impressiona: quase um terço da elite da Polícia Civil está sob a lupa da corregedoria.
Os que pressionam pela manutenção de Ferreira Pinto no cargo alegam que este trabalho de combate à criminalidade a partir da lição de casa foi apenas iniciado, mas ainda não está sedimentado na cultura policial. Teme-se um grande retrocesso se alguém mais tolerante com os vícios e esquemas da polícia assumir (ou reassumir) a Segurança Pública e patrocinar o esvaziamento da corregedoria.
Cabe a Alckmin definir o rumo.

O convite de Obama

O convite de Obama
EDITORIAL - FOLHA DE SÃO PAULO - editoriais@uol.com.br
Foi em resposta ao crescente poderio econômico e geopolítico da China que o presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou anteontem o apoio de seu país à candidatura da Índia a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
A relação complementar entre as economias chinesa e norte-americana -uma poupava, enquanto a outra consumia- entrou em crise com a debacle financeira de 2008. Pressionada por Washington, a China resiste a valorizar sua moeda e ceder em sua estratégia de relação comercial com os EUA e o restante do planeta.
Os americanos fazem mesuras à Índia cientes da importância de seu mercado consumidor, mas também com objetivos de longo prazo. O país, uma potência nuclear reconhecida pelos EUA, tem condições de servir de contrapeso aos chineses na Ásia - tanto do ponto de vista econômico quanto demográfico e militar.
A diplomacia brasileira, que também aspira a um assento definitivo no mais alto comitê decisório da política internacional, reagiu de maneira positiva ao aceno de Washington. Na prática, diz o Itamaraty, Obama chancelou a necessidade de reforma do Conselho de Segurança - e o Brasil é considerado um candidato "natural" a integrá-lo, numa cadeira representativa da América Latina.
É pouco provável, entretanto, que o gesto calculado de Obama tenha consequências práticas imediatas. O processo de reforma dos organismos multilaterais, que já está em marcha, deve tomar anos até que a cúpula da ONU seja alterada. Em que pese o enfraquecimento relativo das Nações Unidas desde o colapso da União Soviética, os países com força de veto resistirão a repartir seu poder.
Isso não invalida a busca do Itamaraty por oportunidades que propiciem a países em desenvolvimento maior peso nos rumos da política internacional. O Brasil, como se sabe, tem conseguido aumentar sua projeção nos fóruns globais -mas não sem tropeços. É preciso zelar para que visões maniqueístas e a ânsia pelo protagonismo não alimentem desconfianças e se traduzam em perda de isenção e de credibilidade.

Aumento do mínimo

Aumento do mínimo
EDITORIAL - FOLHA DE SÃO PAULO - editoriais@uol.com.br
Valor do salário mínimo tem recuperado poder de compra desde a década de 90, mas regra de reajuste precisa ser revista para evitar distorções
Se fosse seguida a regra vigente de correção do salário mínimo -que prevê o repasse anual da inflação somada à variação do PIB de dois anos antes- não haveria aumento real em 2011, pois em 2009 a economia não cresceu.
Apenas a inflação deste ano seria reposta - e o mínimo iria de R$ 510 para R$ 540 a partir de janeiro, valor que, aliás, consta da proposta orçamentária do governo.
Porém, mantida a mesma regra, uma grande alta estaria reservada para 2012, quando o crescimento de 7,5% previsto para este ano seria repassado. Somado à inflação esperada para 2011 -5% na previsão atual de analistas compilada pelo Banco Central-, a variação total do salário mínimo em 2012 seria próxima a 13%, percentual que poderia gerar grande impacto nas contas públicas e privadas.
São fortes as pressões para que o governo conceda uma correção maior já em 2011. As centrais sindicais querem algo próximo a R$ 580. O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, defende "pessoalmente" um valor acima de R$ 560. A presidente eleita, por sua vez, deu mostras de que aceitará um valor mais alto que o previsto no Orçamento em troca de um aumento menor em 2012. É possível que se forme uma solução de consenso entre R$ 550 e R$ 560.
Desde os anos 1990 tem havido contínua elevação real do salário mínimo. Nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso, o aumento foi de 46%, seguido por mais 59% nos dois mandatos do presidente Lula. Medida em termos do poder de compra da cesta básica, a alta nos dois governos foi de 102% e 44%, respectivamente.
Nestes 16 anos, é inegável que a política de correção teve papel social relevante e certamente contribuiu para consolidar o mercado de consumo de massas que hoje é um ponto forte da economia brasileira. Mais recentemente, o efeito foi potencializado pela criação de empregos e pela maior formalização do mercado de trabalho.
Contudo, há problemas que recomendam uma revisão da atual política. O primeiro é o impacto nas contas da Previdência. Levar o mínimo a R$ 600 custaria R$ 18 bilhões a mais do que se o valor fosse R$ 540, como previsto. Um segundo aspecto tem sido apontado por especialistas: o público mais beneficiado pela correção já não é o mais pobre, como era em 1994.
Isso significa que o combate à pobreza deve continuar a ocorrer mediante políticas de renda, como o Bolsa Família, programa que obtém reconhecido sucesso, com menos peso sobre as finanças públicas. Deve-se ter em mente ainda uma regra que no médio prazo não onere em demasia as empresas geradoras de emprego, já premidas pelas ineficiências do país e pela concorrência externa.
O novo governo começará com a difícil tarefa de realizar um ajuste de gastos para aumentar investimentos públicos e facilitar a queda da taxa de juros. Para isso, não apenas a questão do mínimo, mas as tentativas, em tramitação no Congresso, de conceder aumentos salariais exorbitantes no setor público precisam ser enfrentadas com responsabilidade e realismo.

R$ 1,26 trilhão, um detalhe

R$ 1,26 trilhão, um detalhe
Rolf Kuntz - O Estado de S. Paulo - 10/11/2010
Quem pode esquecer R$ 1,26 trilhão, cerca de 35% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, a maior economia latino-americana e uma das dez maiores do mundo? Resposta fácil: os defensores da recriação da CPMF, o imposto sobre o cheque. Liderados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, orquestrador do movimento lançado oficialmente na semana passada, eles lamentam a perda de R$ 40 bilhões anuais como se esse dinheiro fizesse falta num país com uma das maiores cargas tributárias do mundo. A intenção, segundo agora se diz, é ressuscitar a CPMF não só com outro nome, mas também com uma alíquota menor, para produzir uma receita na faixa de R$ 20 bilhões a R$ 24 bilhões por ano. Essa arrecadação, argumentam, é essencial para a execução das políticas de saúde. Combater esse tributo, portanto, é ficar contra os pobres, principais beneficiários da ação governamental. Não falta quem acredite nessa afirmação, assim como não falta, certamente, quem aceite outra bobagem repetida por defensores dessa aberração tributária: só ricos pagam a CPMF. Na verdade, todos pagam, direta ou indiretamente, porque esse tributo afeta o preço de toda mercadoria.
Coube ontem ao ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, falar sobre o assunto sem mencionar a carga tributária brasileira. Numa entrevista à Rádio Bandeirantes, ele admitiu haver margem para mais eficiência na execução das políticas de saúde. De vez em quando o ministro do Planejamento destoa de forma quase estridente do padrão petista, ao aceitar o debate sobre a qualidade da gestão pública. Mas os programas do setor também dependem, segundo ele, de mais dinheiro. Se se tratasse de apenas mais R$ 1 bilhão, acrescentou, o governo federal poderia simplesmente remanejar verbas. Mas não poderia atender a uma demanda muito maior, mesmo com um aperto nas despesas correntes.
O ministro Paulo Bernardo costuma discutir de forma civilizada, sem fugir dos problemas e apoiando seus argumentos com boa informação. Ontem, mais uma vez ele seguiu seu padrão e suas alegações seriam convincentes, se o ouvinte esquecesse alguns detalhes importantes. O primeiro, é claro, é o tamanho da tributação. Não se pode alegar falta de dinheiro para funções básicas de governo, como educação e saúde, quando a arrecadação é maior - como parcela do PIB - que a de vários países desenvolvidos, como Estados Unidos, Japão, Canadá, Espanha, Suíça e Irlanda. Outros emergentes, como Argentina, México, Chile e Turquia - para citar só uns poucos exemplos - têm cargas tributárias bem menores que a brasileira e melhores padrões de educação e saúde.
O ministro pode ter alguma razão quando se refere às condições financeiras do governo federal. De fato, a tributação brasileira é dividida entre União, Estados e municípios. Mas esse fato não torna menor para o contribuinte o peso dos impostos e contribuições. Ele paga e espera resultados, quando tem alguma consciência de seus direitos. Governadores apoiam a recriação da CPMF porque esperam participar do bolo. Mas já dispõem de receitas próprias, nada desprezíveis, e ainda recebem da União transferências constitucionais e aportes voluntários. Em quantos Estados e municípios o dinheiro público é usado com decência e competência?
Representantes do governo federal podem alegar também a rigidez orçamentária. Também isso é verdade. O Orçamento da União é rígido, tanto pelas vinculações quanto pela grande parcela de gastos quase incomprimíveis, como os de pessoal. Mas não há como negar o empreguismo, nem os excessos na concessão de vantagens salariais. Aumentos bem acima da inflação foram concedidos durante anos.
A rigidez do Orçamento é consequência de decisões políticas tomadas pelos constituintes, pelos parlamentares e também, seguidamente, pelo pessoal do Executivo. Além disso, o Tesouro tem sido sangrado para subsidiar empresas selecionadas com base em critérios duvidosos.
Como é difícil administrar o Orçamento e conter o desperdício - e é preciso incluir nessa conta os favores, subsídios injustificados e investimentos de interesse paroquial -, a saída mais fácil para o governo é aumentar a tributação. Pior que isso: os políticos ainda propõem aumentar a vinculação de verbas, uma irracionalidade. Verbas vinculadas são no máximo garantias de realização de despesas, não de uso produtivo e socialmente vantajoso do dinheiro público. São até um estímulo à ineficiência. Mas quem se preocupa com isso, quando o presidente da República descreve como "sucesso total e absoluto" o espetáculo de escândalos e de inépcia do Enem?

Ronaldo, para o Pioneiro


Nani, especial para Charge Online


Chegou a fatura

Chegou a fatura
Merval Pereira - O GLOBO
O Congresso mais fragmentado de todos os que foram eleitos nos últimos anos começa a mostrar suas garras para a futura administração. São dez partidos de peso político na base governista que começam a disputar espaços na futura administração Dilma Rousseff — PT (88), PMDB (79), PP (41), PR (41), PSB (34), PDT (28), PTB (21), PSC (17), PCdoB (15), PRB (8).
Além do peso político dos aliados, a presidente eleita introduziu um novo critério para a formação do Ministério: idealmente 30% dos escolhidos deverão ser mulheres, o que pode significar um esforço de valorização do gênero em um ambiente machista, mas que definitivamente não é critério de meritocracia para nenhum governo, mesmo o chefiado por uma mulher.
Que, aliás, não foi eleita por ser mulher, embora Lula tenha posteriormente tentado justificar sua escolha, e desqualificar muitas críticas, pelo fato de Dilma ser mulher.
Mas há também outros critérios duvidosos que começam a ser exibidos nessa disputa pelo poder político.
O PTB é exemplar da falta de compromissos programáticos dos nossos par tidos. Apoiou a candidatura oposicionista de José Serra até que ficasse mais ou menos claro que ela não chegaria a lugar algum.
A partir daí, seu presidente, Roberto Jefferson — aquele mesmo do mensalão — passou a criticar a organização da campanha de Serra e o próprio candidato — e tinha razão em algumas dessas críticas, como a de que Serra nunca reuniu seus aliados para definir a campanha —, e liberou o PTB para aderir à candidatura governista.
Vencida a eleição, o PTB apresenta sua fatura através do senador Mozarildo Cavalcanti, de Roraima.
Quer ficar com o Ministério do Turismo, que ganhará importância nos próximos anos com a realização da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016.
O interessante é que o senador Mozarildo Cavalcanti foi dos mais combativos opositores ao governo Lula nos últimos quatro anos e era computado em todas as análises como integrante da ala oposicionista no Senado.
Já o PT começou a mostrar a que veio, depois de eleger a maior bancada da Câmara, desalojando o PMDB: quer não apenas a presidência da Casa, mas pretende retomar para os seus alguns ministérios que foram perdendo no segundo governo Lula para que a aliança governista acomodasse os representantes de outros partidos.
Além dos ministérios que já ocupa, o PT quer pelo menos um ou dois dos que cuidam da área de infraestrutura, na suposição de que haverá mais investimentos nos próximos anos. Cidades, hoje com o PR, Transportes, com o PRB, e Minas e Energia, com o PMDB, são alguns dos que estão na mira petista.
E também coloca no seu quinhão o Ministério da Saúde, que passou para o PMDB no segundo governo Lula.
Ao mesmo tempo , o PTB, o PP e o PR formaram um bloco na Câmara para a próxima legislatura que terá 103 deputados. Querem disputar de igual para igual com PT e PMDB as presidências de comissões e cargos na Mesa Diretora. E, quem sabe, formar um futuro par tido de centro mais adiante.
Já o PSB, o partido da base que mais cresceu proporcionalmente, também já mandou seus recados.
Usou seus seis governadores eleitos para respaldar a proposta de recriação da CPMF, uma tentativa tosca da futura administração de aumentar a carga tributária fingindo que nada tem a ver com isso.
Como a ideia está tendo uma rejeição muito grande, pelo que representa de aumento de custos para a sociedade e, ao mesmo tempo, de enganação por parte do governo, que passou a campanha inteira defendendo a redução da carga tributária, a futura administração já começa a ter que lidar com as questões concretas de ter que cortar gastos para equilibrar as contas públicas e ter dinheiro para os investimentos que serão necessários.
É por isso que volta a ganhar corpo a proposta “rudimentar” apresentada pelo então ministro da Fazenda Antonio Palocci de manter as despesas do governo crescendo menos do que o Produto Interno Bruto (PIB).
O ministro Paulo Bernardo, que deve permanecer no Ministério de Dilma, embora não necessariamente no Planejamento, está do mesmo lado que há cinco anos, defendendo a mesma tese: com a medida, em quatro anos o governo conseguiria dobrar o volume de investimentos.
Mas o PSB, ao mesmo tempo em que socorre o governo, também mostra que tem condições de fazer política para além da hegemonia do PMDB e do PT.
Lançar a candidatura de Aécio Neves, do PSDB, à presidência do Senado é só uma maneira de chamar a atenção para outras possibilidades dentro de alianças políticas numa base tão fragmentada, onde cada um cuida de seu interesse partidário.
O PMDB, pragmático, está propondo simplesmente que cada um mantenha o que já tem.
Os conflitos ideológicos, que serão inevitáveis dentro de uma aliança tão diversa quanto a que está sendo montada, também aparecem na oposição.
O PPS já declarou, através de seu presidente, o deputado federal eleito por São Paulo Roberto Freire, que se sentiu incomodado com a discussão sobre o aborto ocorrida na campanha presidencial e que pretende fazer uma oposição ao governo Dilma “pela esquerda”, dissociando-se assim de uma ligação com o Democratas, que forma no bloco de oposição, mas pretende explorar cada vez mais o que identificou como uma tendência conservadora do eleitorado brasileiro.

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