segunda-feira, dezembro 27, 2010

Direto da Fonte

Direto da Fonte
SONIA RACY – O Estado de São Paulo
1. Há 10 anos sustentabilidade era uma palavra desconhecida para você?
2. O que fez você mudar?
3. O que faz em prol do planeta?
ROBERTO KLABIN
1. Não. Sempre olhei para o uso dos recursos finitos do planeta e no legado que vamos deixar para as próximas gerações. Sustentabilidade não é mais moda. E sim um caminho a favor do progresso e da civilização.

2. Acordei há mais de 30 anos e sei que é difícil levar uma vida em consonância com os critérios de sustentabilidade. Pior é não tentar. Hoje é possível prever, com a tecnologia disponível e conhecimento acumulado, as consequências de nossos atos.
3. Presido o SOS Mata Atlântica, que concentra suas atenções no Congresso. Com a Frente Parlamentar Ambientalista e outras ONGs, organizamos a resistência contra a aprovação da lei que altera o Código Florestal, retrocesso liderado pelo relator Aldo Rebelo. Queremos a reformulação do Código, mas sem base cientifica sólida só vamos atender interesses unilaterais de determinados setores econômicos. Luto pelo que acho melhor para a toda a sociedade brasileira, e não apenas para parte dela.
LUZIAH HENNESSY
1. Não exatamente. Mas cresci, por exemplo, com a consciência de separar plástico com plástico, papel com papel.
2. Acho que sempre fui atenta aos recursos naturais do nosso planeta.
3. Continuo apagando luz ao sair, fazendo coleta seletiva. Mas acho que tudo tem limite. Há algum tempo me hospedei na casa de um amigo que é ligado a uma ONG ambiental. Ele começou a reclamar comigo, dizendo que eu tomava muitos banhos. Imagine só! Então eu disse: "Você me desculpe, mas dos meus banhos eu não abro mão". E fui me banhar.
LAÍS BODANZKY
1.Conhecia sim, mas ainda não era uma palavra popular. Se restringia mais a grupos ligados ao meio ambiente.
2. Os grandes congressos, os encontros de ONGs e a cobertura da mídia ajudaram a popularizar o termo. E as discussões, especialmente com a ajuda da internet, tornaram-se mais amplas e diferentes grupos foram atingidos.
3. Além de pequenas ações como separar o lixo, fechar a torneira e consumir produtos orgânicos, desenvolvo projetos sociais que provocam um olhar crítico para o mundo. Alguns dos exemplos: o Cine Tela Brasil, Oficinas Tela Brasil e o Portal TelaBr.
KÁTIA ABREU
1. Era uma palavra nova e não sabíamos do que se tratava. Discutimos o assunto há apenas uma geração. Ninguém pode ter direitos sobre a matéria. Está todo mundo aprendendo. Na CNA (Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil), trabalhamos duro para entender o básico. E hoje agimos com bom senso, tentando não prejudicar o planeta.
2. O tema veio, o debate está em voga, e a CNA de fora? Não. Fui estudar. Humildemente.
3. O Projeto Biomas da CNA com a Embrapa. São 250 pesquisadores buscando alternativas de sustentabilidade. Investimento: US$ 23 milhões.
FERNANDO MEIRELLES
1. A palavra era desconhecida, mas o sentimento de que devia mudar meus hábitos para preservar o planeta já era muito forte.
2. Este é o tema sobre o qual mais me informo. A cada novo texto que leio, meu sentimento de urgência aumenta. Ainda estamos nos dando ao luxo de fingir que não estamos vendo o que está vindo.

3.Planto 12 mil árvores por ano para compensar o carbono liberado pela minha família. No filme Ensaio Sobre a Cegueira plantamos 60 mil árvores pela mesma razão. Também deixei de praticar esqui aquático há dez anos por achar que não faz mais sentido a queima de gasolina. Não como carne para poder criticar o avanço da pecuária. Troquei um jipe por um carro pequeno, e daqui para frente só rodarei com etanol ou eletricidade, preferencialmente de metrô. Reformamos a O2 pensando em sustentabilidade. Apoio a Marina Silva por entender a importância das questões que ela defende.
FÁBIO BARBOSA
1. Não era tão conhecida...Todos chamávamos de responsabilidade social. Mas, para mim, essa
palavra definiu valores nos quais sempre acreditei, como ética, transparência e cuidado. Fomos uma das primeiras instituições a ter uma diretoria para cuidar do assunto.
2. Não mudei. Evoluí. Resolvi encarar esses valores como lema da minha vida e como prática básica de negócios.
3. Acredito que é necessário fazer o que se prega. No Santander, encaramos a sustentabilidade como um jeito de fazer negócios e não como política compensatória. Dissemino esta visão estimulando atitudes, produtos e serviços que a reforcem e a valorizem.
NEY MATOGROSSO
1. Essa palavra nunca foi estranha para mim. É uma possibilidade de sobrevivência do planeta. E há muito tempo tenho certeza disso.
2. Não mudei de ideia, sempre pensei assim, e estou falando de décadas.
3. Já devo ter plantado 400 árvores neste ano no meu sítio, onde tenho uma reserva ambiental. Além disso, economizo água, luz, energia, o mínimo que podemos fazer como cidadãos.
CAROLINA FERRAZ
1. Completamente. Não tinha consciência do seu significado social, econômico e político. Não sentia o problema nas reais dimensões que ele tinha. E tem.
2. Comecei a entender que só temos este planeta e preservar é essencial. Nasceu em mim, como cidadã, uma necessidade de devolver ao mundo alguma coisa de alguma maneira.
3. Desenhei, como diretora e produtora, projeto para TV: seis programas mostrando exemplos bem sucedidos de autopreservação de comunidades. Escolhidos de maneira que possam servir de inspiração e mostrar que é possível.
ARMÍNIO FRAGA
1. Não, me interesso por ela há muitos anos. Sempre li sobre o assunto. E faço parte de ONG pró-natura há 15 anos.
2. A certeza de que era questão de tempo para a humanidade perceber.
3. No Rio, eu me engajei na campanha do Fernando Gabeira para a Prefeitura. Pelas qualidades dele e por acreditar que o Rio é a capital verde do Brasil.
MAYA GABEIRA

1. Não. Meu pai (Fernando Gabeira) sempre foi muito consciente. Cresci familiarizada com a questão.
2. Sempre tive consciência do problema. Mas a cada ano eu me motivo para mudar hábitos perigosos como o uso de muito plástico.
3. Tento ao máximo não usar plástico. Levo bolsa de pano ao supermercado.
JOSÉ SÉRGIO GABRIELLI
1.Estava em Londres. À época, a percepção era controlar os países em desenvolvimento. Sob a ótica do Primeiro Mundo, países pobres destruiriam a humanidade.
2.Não mudei. Eu já essa tinha consciência. Hoje, a diferença é que já sabemos que países em desenvolvimento não são os principais poluidores. E o sistema econômico também busca regulação. O Brasil está à frente dos EUA e China nesse sentido.
3.Busco micro-medidas, como melhorar o uso do água e do ar-condicionado.
ALDO REBELO
1. Não, não era.
2. Nada.
3. Defendi a agricultura do Brasil, que produz alimentos para o País e para o mundo. E contribui com a energia renovável através da geração de biocombustível, tornando nossa economia ambientalmente sustentável.

Clayton, no O Povo (CE)


Caixa-preta no STF

Caixa-preta no STF
JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO - O ESTADO DE SÃO PAULO - 27/12/10
Há uma traça roendo o cabeçalho virtual dos processos no Supremo Tribunal Federal. Ela é seletiva: apaga na internet apenas o nome dos réus, e troca pelas iniciais. Graças ao repórter Felipe Recondo, do Estado, sabemos que políticos sub judice foram ajudados pelo "bug".
O "J B J R" denunciado em inquérito por estelionato e formação de quadrilha é o senador João Ribeiro (PR-TO). E o "A R R G D A S" que pediu habeas corpus para sair da prisão preventiva é o prefeito de Macapá, Roberto Góes (PDT).
Mas quais os nomes de "U A P", funcionário público processado por crime contra a administração, ou do senador "J B P P", acusado de usar documento falso? Quem é o prefeito cearense "E R", réu por crime de responsabilidade? Só privilegiados podem saber.
Não são exceções nem casos secretos. Trata-se de uma nova regra do STF, defendida por seu presidente, Cezar Peluso, e que deve ser aplicada inclusive aos processos não protegidos por segredo de Justiça. O motivo? Preservar a honra dos réus.
Seria bonito, se não fosse obscurantista e discriminatório. Pela lógica de Peluso, uns poucos iluminados têm o discernimento necessário e, portanto, o direito de ter acesso a informações públicas. Os ignaros, que formamos o resto majoritário da sociedade, não.
Nada a ver com o WikiLeaks e o vazamento de informações secretas ou confidenciais.
Trata-se, no caso do STF, da simples divulgação daquilo que é de interesse coletivo, e, em última análise, pertence à sociedade: dados públicos em poder do Estado.
Um dos maiores ganhos da incensada democracia digital é dar acesso instantâneo, para qualquer um, ao que se encontra sob tutela dos poderosos. Afinal, ter informação é o primeiro passo para o cidadão fiscalizar os feitos, bons e maus, de governantes, juízes e congressistas.
Como escreveu Louis Brandeis (1856-1941), um dos mais influentes ministros da Suprema Corte dos EUA: "A luz do sol é o melhor desinfetante." Ele criou a metáfora para defender a transparência em casos de interesse público, sempre.
A luz ou a escuridão devem valer para todos. Assim, se os poderosos podem se beneficiar do anonimato proporcionado pela caixa preta do Supremo Tribunal Federal, por que não generalizar para os cidadãos comuns acusados pela polícia, denunciados e julgados em primeira instância?
O ministro Peluso deveria estender a regra contra o que chama de "divulgação desnecessária" a todo o sistema judicial, inclusive, quem sabe, às transmissões ao vivo das sessões plenárias de sua corte pela TV Justiça. Mas parece nem sequer tê-la discutido com os colegas de tribunal.
Segundo reportagem do Estado, o ministro Marco Aurélio Mello se opõe ao uso das iniciais e disse que os nomes serão escritos na íntegra nos processos sob sua responsabilidade.
Ou seja, a regra de Peluso não é regra. Prevalece o lugar-comum "cada cabeça uma sentença". Um ministro decidirá que o nome do réu deve se tornar público, o outro não?
Como se escreveria no site do Supremo, o tribunal não pode correr o risco de virar a "C da M J".
Um cidadão polido poderia perguntar: "Não há lei para regular essa zona?" A resposta é "ainda não".
Aprovado há meses na Câmara, o projeto de lei que garante acesso às informações públicas vai entrar em 2011 dormitando nos escaninhos do Senado (nem sempre os parlamentares têm a mesma agilidade demonstrada ao aprovar o aumento dos próprios salários).
Assim, o Brasil completará mais um ano como uma das raras democracias que não regulamentaram o seu, o meu, o nosso direito de saber o que há nas gavetas e arquivos públicos. A lei dos EUA tem mais de 40 anos. A do México é uma das mais avançadas do mundo.
O projeto de lei brasileiro foi apresentado pelo governo federal, mas só depois de haver muita pressão por parte da chamada sociedade civil, principalmente através do Fórum de Acesso a Informações Públicas, que reúne organizações não governamentais como Transparência Brasil, Abraji e OAB.
Pelo que o STF já demonstrou, se a sociedade não voltar à carga, não apenas o projeto da lei de acesso vai criar teias de aranha no Senado, como há o perigo iminente de retrocesso. Iniciativas para dar à luz informações de interesse público são sempre um parto a fórceps.

O vexame das contas de luz

O vexame das contas de luz
Maria Inês Dolci - FOLHA DE SÃO PAULO - 27/12/10
Ficaria difícil incluir essa inação do governo que termina no rol do "nunca antes na história deste país"
NESTE FINALZINHO de 2010 o consumidor levou um chute da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Não será ressarcido pelo que pagou a mais nas contas de luz desde pelo menos 2002.
Há estimativas de que R$ 7 bilhões foram garfados dos brasileiros, que terão de recorrer à Justiça em busca de seus direitos.
Já há ações nesse sentido.
A alegação é tão ridícula que chega a ser ofensiva: segundo a agência, não haveria amparo jurídico para pagamentos retroativos.
Além disso, há o temor de "instabilidade regulatória no setor elétrico".
Ou seja, quando o consumidor perde, tudo certo. Se fosse respeitado, haveria problemas. Não entendo, definitivamente, as agências reguladoras. Elas não equilibram o jogo de interesses que opõe governos, empresas e usuários. Simplesmente apoiam as demandas dos lados mais fortes, e ponto final.
Foi o que a Aneel fez. Reconheceu, depois da revelação feita pela Folha, que havia falha no método de cálculo dos reajustes de energia, retocou os contratos a partir de 2010, e estamos conversados.
Alguém espera forte reação do Congresso e do Judiciário? Tomara que sim. Há vozes isoladas em ambos os Poderes, mas é só. Conclamo todos os usuários de energia elétrica a se organizar e a ingressar na Justiça, nem que seja como forma de protesto contra essa arbitrariedade. Sabemos que, nessa seara, os mais fracos ficam para o final da fila, mas foi o que sobrou.
Confio no Ministério Público Federal, que tentou obter um acordo para evitar ações a rodo. É triste ressaltar que o governo federal, tão preocupado em "regulamentar" os meios de comunicação e a cultura, também tenha fechado os olhos para os direitos lesados dos brasileiros. Imagino que tamanha tunga não faça parte do balanço de realizações do governo que se encerra. Ficaria difícil incluir essa inação no rol do "nunca antes na história deste país".
Há, contudo, uma lição que devemos tirar desse episódio: assim como a inflação parece jamais morrer no Brasil, o respeito aos direitos dos cidadãos na área do consumo também é frequentemente alvejado.
Não podemos nos descuidar. Só não enterraram o Código de Defesa do Consumidor (CDC), até agora, porque não conseguiram. Mas continuarão tentando.
Se não ficarmos vigilantes, correremos o risco de retroagir às cavernas nas relações de consumo. Repito que há, ainda bem, exceções, mas não podemos relaxar e nos divertir, como já nos sugeriram em meio ao caos dos aeroportos. O descalabro na decisão da agência jogou luz sobre o abuso tributário nacional. Há 11 contribuições embutidas na conta de energia elétrica. Só isso já mereceria um trabalho sério e determinado na CPI das Tarifas de Energia.
Talvez nossos parlamentares, renovados pelo reajuste de 61,8% em seus vencimentos, resolvam apurar as falhas da área de energia. E insistam no ressarcimento aos consumidores, ou no desconto nas futuras contas de energia.
MARIA INÊS DOLCI, 54, advogada formada pela USP com especialização em business, é especialista em direito do consumidor e coordenadora institucional da ProTeste Associação de Consumidores.

Nani


O legado de Lula

O legado de Lula
Ricardo Noblat - O GLOBO
"Saio do governo para viver a vida das ruas. Homem do povo que sempre fui, serei mais povo do que nunca" – Lula
Na próxima sexta-feira sairá de cena o governo de um único protagonista! Entrará o governo dos coadjuvantes do governo passado. O período de oito anos de Lula foi construído sob medida para que ele, Lula, brilhasse sozinho. Deu certo. Nada indica que a história se repetirá no período de quatro ou de oito anos da presidente Dilma Rousseff.
Talvez seja melhor assim. O presidencialismo entre nós concentra poderes excessivos nas mãos de uma só pessoa. E isso não é bom para uma democracia que atravessa pela primeira vez dentro da normalidade três sucessões consecutivas. Fernando Henrique recebeu a faixa presidencial de Itamar e a repassou a Lula, que a repassará a Dilma.
O primeiro momento de Lula como presidente da República foi de natural perplexidade. Seria possível a um ex-pau de arara e ex-favelado, que passara fome e sequer completara os estudos, acabar eleito para governar seu país? Depois de ter sido derrotado três vezes, Lula custou a acreditar.
O segundo momento foi de pavor. Coincidiu com o escândalo do mensalão, que levou Lula, em julho de 2005, deprimido por uns tragos tomados a mais, a falar em renúncia ao mandato. Soubera que o publicitário Marcos Valério, um dos operadores do pagamento de propinas a deputados, ameaçava contar tudo.
O então ministro José Dirceu, chefe da Casa Civil, foi acionado para negociar o silêncio de Valério e assim sossegar Lula. Teve êxito. Mas dali a mais um mês ou dois, obrigado a pedir demissão, reassumiu a vaga de deputado federal para ser cassado. Enfim, era preciso entregar alguma cabeça coroada para que Lula preservasse a sua.
O terceiro momento de Lula na Presidência foi de esplendor. E de puro encantamento com ele mesmo. Reeleito em 2006, amparado por uma economia em expansão e idolatrado pela clientela dos programas sociais, passou a se comportar como um enviado de Deus. Ninguém mais do que ele alimentou o culto à própria imagem.
Por pouco não caiu na tentação de gastar parte de sua popularidade para vencer no Congresso a batalha por mais um mandato. Sondou a respeito governadores do PT e de outros partidos, além de auxiliares próximos. E aborreceu-se com alguns que se opuseram à ideia com veemência. Alô, alô, governador Jaques Wagner, da Bahia!
Está de saída porque não tem outro jeito. Mas deixa em seu lugar uma aliada fiel. Que a ele, unicamente a ele, deve sua eleição. E que ele espera que lhe seja fiel até o último dos seus dias na Presidência. Que dia será esse? Por ora, Dilma não faz ideia. Lula deve fazer, mas não conta a ninguém. Até porque pode mudar de ideia.
Lula abusa da credulidade dos brasileiros quando reescreve a história do país como se ela pudesse ser dividida em duas fases: antes dele e depois dele. Os desafetos de Lula incorrem no mesmo erro quando defendem a tese de que ele se limitou a dar continuidade à política herdada dos seus antecessores – além de ter tido muita sorte.
Nenhum presidente fez tanto pelos brasileiros mais pobres do que Lula – e esse será seu grande legado. Em oito anos de governo, o número de pobres foi reduzido a menos da metade. O programa Bolsa Família é uma invenção do governo anterior, eu sei. Mas foi com Lula que se expandiu e hoje atende a quase 13 milhões de famílias.
Quem elege os governantes numa democracia é o povo. Quem tem mais autoridade para julgá-los é ele. Lula foi tolerante e cúmplice com o desrespeito à moralidade pública? Foi. Mas nem isso o impediu de chegar ao fim do governo com a aprovação de 83% dos seus conterrâneos. Tamanho grau de aprovação é um equívoco? Bobagem!
É fato que o povo, só por deter a autoridade suprema numa democracia, não é necessariamente sábio. Mas aonde um regime de sábios, respeitando os direitos do povo, foi capaz de conduzi-lo a uma situação melhor? Recolha-se a São Bernardo do Campo, Lula! Tome uma por mim. E deixe Dilma acertar ou errar em paz.

O balanço negativo das comunicações

O balanço negativo das comunicações
EDITORIAL - O Estado de S. Paulo - 27/12/2010
Ao fim dos oito anos de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Ministério das Comunicações está esvaziado. Neste ano, em especial, a Pasta foi alijada de decisões específicas de sua área, como a reativação da Telebrás, a elaboração do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) e o anteprojeto da Lei de Comunicação Eletrônica.
O esvaziamento do Ministério das Comunicações demonstra que "essa Pasta precisa ser refundada" - como disse recentemente o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo federal, Franklin Martins, acrescentando que "nessa área, o governo Lula ficou devendo".
O único avanço digno de registro foi a implantação da TV digital no País. Mesmo assim, sob o comando do ex-ministro Hélio Costa, a escolha da tecnologia digital foi conduzida sem transparência, com a preferência explícita do ministro pelo padrão japonês ISDB, tecnologia que não precisaria de nenhum favor para ser considerada a melhor, em especial depois de ter recebido excelentes contribuições de uma centena de cientistas brasileiros.
O Ministério das Comunicações, sem projeto setorial nem quadros profissionais competentes, foi loteado pelo presidente Lula, que o entregou primeiro ao PDT, representado por Miro Teixeira. Em seguida, ao PMDB, com Eunício Teixeira e Hélio Costa. Em 31 de março de 2010, o presidente decidiu esvaziar de vez o Ministério, entregando-o ao chefe de gabinete de Hélio Costa, José Artur Filardi Leite.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou diversas vezes seu inconformismo com a privatização das telecomunicações, criticando insistentemente a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e as operadoras privatizadas, em especial no tocante à banda larga. Tentou esvaziar a Anatel, preenchendo seus cargos com líderes sindicais que combatiam a privatização e eram evidentemente despreparados para assumir a direção de um órgão regulador. Diante das reações, Lula pensou em reverter esse processo em 2007, escolhendo para presidi-la o ex-ministro de Ciência e Tecnologia embaixador Ronaldo Sardenberg.
Um dos maiores problemas das telecomunicações é a política tributária, pois sobre as tarifas telefônicas e de banda larga incidem 43% de impostos - alíquota superior à de artigos de luxo, como perfumes, bebidas e armas esportivas importados.
Não bastasse essa distorção, o governo federal apropria-se da maior parcela dos fundos setoriais de telecomunicações, como o Fundo de Universalização das Telecomunicações (Fust), o Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel) e o Fundo de Tecnologia de Telecomunicações (Funttel). O confisco desses fundos, em 10 anos, foi de R$ 32 bilhões que saíram do bolso dos contribuintes e não foram aplicados, como deveriam, num projeto de inclusão digital e banda larga.
O governo também se omitiu do processo de reestruturação da legislação setorial. Só no segundo semestre de 2010 uma comissão interministerial resolveu elaborar um anteprojeto do que poderá ser um dia a Lei Geral de Comunicações.
Esse anteprojeto precisa ser amplamente debatido e revisto por especialistas independentes, para que se transforme na semente de um novo marco regulatório, mais abrangente do que a legislação atual, porque deverá englobar todas as formas de Comunicações (telefonia, radiodifusão, correios, TV por assinatura, internet e outras formas de comunicação eletrônica) sob uma única agência reguladora, a Agência Nacional de Comunicações (Anacom), com o objetivo, entre outros, de modernizar e harmonizar as relações entre todos os segmentos.
Sempre mal assessorado nesse setor, Lula ignorou ao longo dos oito anos de sua gestão o papel fundamental do Executivo como formulador de políticas públicas para todos os segmentos das comunicações.
Não é de estranhar, portanto, que em seus dois governos tenham se registrado tantas ameaças à liberdade de imprensa e de expressão representadas pelas tentativas de criação de conselhos, com a finalidade de exercer o "controle social da mídia", o "controle do conteúdo" e outros eufemismos para censura.

Jasiel Botelho e os aumentos de salário dos parlamentares e suas implicações


Dez passos pra usar bota branca

Dez passos pra usar bota branca
LUIZ FELIPE PONDÉ - Folha De São Paulo
Nada mais brega do que se preocupar com o que os ricos pensam, confundir "dinheiro" com "ser chique"
CONVERSANDO COM uma jornalista de uma importante revista do mercado editorial recentemente, usei algumas vezes a palavra "brega" e ela me perguntou: "Pondé, o que você quer dizer com a palavra brega? Para mim, brega é usar bota branca".
Cumpro aqui a promessa que fiz a ela: vou dizer o que eu acho brega, e você vai ver como vivemos numa época brega.
Antes, um reparo: "brega" normalmente quer dizer coisa cafona, de mau gosto, como gente chorando em programa de TV para dona de casa, churrasco na laje como estilo de vida ou feijoada com pagode (sua presença será perdoada só se você estiver lá para pegar alguém, claro, aí, com Deus ou sem Deus, tudo é permitido).
Outro reparo: para os eruditos, sei bem que sou acusado de estetizar a ética (nisso tenho comigo um excelente cúmplice, Nietzsche). Explico: estetizar a ética é tornar o problema do bem e do mal mera questão de gosto, coisa de gente blasé.
Assumo o risco, quem ficar bravo pegue uma senha. Sei bem que o problema do bem e do mal não se reduz à questão de gosto, mas, num mundo como o nosso, defender-se desse mau gosto que é fazer marketing de comportamento é uma obrigação de qualquer pessoa de bom gosto.
Ser brega é:
1) Querer ser chique. Essa é terrível. Nada mais brega do que se preocupar com o que os ricos pensam de você. Confundir "ter dinheiro" com "ser chique" é coisa de gente pobre de espírito. "Ser chique" é como ter olho azul ou verde: se você não tem, azar o seu, se colocar lentes de contato com cor, será ridículo, como homem careca que usa peruca ou homem que pinta o cabelo.
2) Achar que seu filho não sofre dos males que os filhos dos outros sofrem. Crer que seus filhos não falam bobagens nas redes sociais. Achar que eles gostam mesmo de pepino e berinjela e que são mesmo pessoas preocupadas com o ambiente aos 12 anos de idade.
Some a essa breguice sua crença de que seu "filho consciente" é a prova viva de que você o educou bem e veja nisso uma prova de que você é mesmo legal. Gente assim coloca fatias de laranja italiana em jarras de água em festas e adora receber e fazer elogios no Facebook. Além, é claro, de criar vira-latinhas como prova de consciência social.
3) Achar avião chique. Tirar foto dentro do avião ou de você "com a Monalisa". Ir ao Louvre. Confundir "fazer turismo" com "conhecer o mundo". Uma diferença grande é: se quando voltar, você quiser muito contar para os outros onde foi que você fez turismo.
4) Acreditar em energias. Dizer que "você tem um deus dentro de você" e que ele "lhe entende". Deus deve ter bode de gente como você.
5) Querer que pensem que sua filha é sua irmã. Achar legal ela ser mais careta do que você. Pedir conselhos amorosos para ela.
6) "Respeitar" seu parceiro. No caso dos homens, dizer coisas como "Eu acho que as mulheres são vítimas sociais". Isso é papo de quem só pega mulher chata e feia ou nunca pegou mulher nenhuma.
7) Você até pode ser uma pessoa "fiel" e "honesta", mas, se você conseguir resistir à infidelidade e a "roubar no jogo" seja lá no que for e achar que resistiu não porque você teve medo ou porque a oportunidade não foi tão boa (o que você tem em casa é melhor, por exemplo, ou o risco de ser pego não vale a empreitada), você é mesmo brega.
Se você sabe que está mentindo, você é apenas hipócrita, se acredita mesmo na sua falsa virtude, é brega. Nada mais brega do que acreditar que você tem virtudes quando, na realidade, faltam oportunidades para você realizar seus vícios.
8) Ter sensibilidade de classe média: sonhar com ambientes de gente rica. Achar legal ser celebridade. Pegar trânsito para ir à praia em feriadões. Vestir-se para festa quando você vai a shopping centers.
9) Dizer que "você quer ser feliz" ou que não tem preconceitos. Acreditar numa vida saudável e na psicologia de recursos humanos aplicada à sua vida pessoal: confundir ter amigos com fazer networking, "agregar valor" a si mesmo, fazer marketing pessoal ou marketing do bem.
10) Acreditar em si, na natureza, no progresso da humanidade, na vida e na energia do Réveillon.

ponde.folha@uol.com.br

O complexo do Alemão e a república

O complexo do Alemão e a república
Luiz Werneck Vianna - VALOR ECONÔMICO
Com o episódio de ocupação do complexo do Alemão, santuário do narcotráfico encravado em uma região estratégica da cidade do Rio de Janeiro, a experiência republicana brasileira trava uma batalha que não admite recuo. É vencer ou vencer, embora as circunstâncias não lhe sejam afortunadas, quer porque ela não teve como escolher a hora, que lhe chegou de modo inesperado, nem ainda dispõe dos meios e de quadros qualificados a fim de converter uma cidadela de quatrocentos mil habitantes, há décadas vivendo sob uma ordem imposta por senhores de guerra, em um espaço citadino.
Em sua concepção original, a política das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPS) previa a sua imposição primeiramente nas comunidades faveladas de baixo risco, recolhendo experiências e conquistando o apoio da população, daí passando a agir nas mais problemáticas. Nessa escala, certamente o complexo do Alemão deveria ser uma das últimas, se não a última, inclusive pela natureza da sua geografia, a ser objeto de uma UPP. A reação dos narcotraficantes, sob as ordens de núcleos com base nesse complexo de favelas, que desencadearam uma série de ações terroristas em alvos indiscriminados da cidade, obrigou a mudança de cálculo: tornou-se imperativo começar pelo fim.
Concluída com sucesso, a operação político-militar de ocupação daquele território, a sociedade teve diante de si, nas telas da TV, a exposição nua de uma cidade de médio porte que vivia em um mundo paralelo à margem do Estado e de suas leis e serviços públicos, e que tinha aprendido a construir uma rotina em meio a um campo de guerra e às ameaças das balas perdidas. Nas imagens repetidas à exaustão, além das tropelias da incursão policial-militar, viam-se os movimentos das pessoas em suas fainas cotidianas, com suas sacolas de compras, em suas idas e vindas para os lugares do seu emprego, visíveis, em toda parte, os sinais de uma intensa vida mercantil.
Mas, em meio a tantas indicações de uma natureza bem assentada da vida privada, nada havia ali que denotasse a presença do público e do cidadão. Ali estavam indivíduos treinados a buscar suas condições de sobrevivência como seres especializados a viver na bolha da esfera privada, uma das quais, essencial, era a própria ocupação do solo sobre o qual tinham construído suas habitações, principal refúgio para evitar a lei da selva imperante no território.
Ali estava, em uma das principais cidades do país, um espaço em que o exercício da autonomia deveria se confinar à dimensão privada da vida, uma vez que, no mundo da rua, o que cada qual deveria esperar era o estatuto da heteronomia imposta pelos comandos narcotraficantes ou pelo aparelho policial, não sem frequência ocupado por membros da sua banda podre. Sem um lugar institucionalizado para uma fala livre, a comunidade, tal como se constatou, não teve como apresentar qualquer narrativa que exprimisse a situação de terror sob a qual vivia, e nem contou, embora a maioria adulta da população seja eleitoral e faça parte do mundo do trabalho, com uma solidariedade ativa dos partidos e dos sindicatos.
A simples libertação do território é, como se sabe, apenas um primeiro passo. A população inerme, em estado de anomia cívica, destituída de auto-organização, sem vínculos orgânicos com o mundo externo, continua uma presa fácil quer para a reconstituição, em novo formato, dos negócios dos narcotraficantes, quer para sua subordinação a organizações de milícias. Confiar unicamente na intervenção policial-militar, mesmo que permanente, não deve fazer parte das cogitações dos tomadores de decisão quanto ao objeto do complexo do Alemão, alguns com a rica experiência do Haiti. A tópica republicana sai dos livros, e se impõe como um remédio heroico, mesmo para aqueles que sempre a trataram com desdém em nome de nomeadas urgências substantivas.
O paradoxo da situação está no fato de que essa mudança de larga envergadura nas relações do Estado e dos seus governantes com os setores mais sensíveis das classes subalternas - a imensa população que habita as favelas -, se apresente como uma resposta à ação do narcotráfico, que contém, registre-se de passagem, um evidente elemento de rebelião juvenil quanto a um sistema de ordem excludente e discriminador. Se, ali, agora, a república conta com uma oportunidade para criar raiz, deve-se, de algum modo, a eles, pois foi a partir do domínio terrificante que impuseram nos territórios que ocupam, que a demanda por ela se tornou uma questão geral, socialmente necessária, quando ficaram patentes os efeitos perversos de deixar a tantos à margem da cidade, dos seus valores, direitos e oportunidades de vida.
A tarefa é de perder o fôlego e exige o envolvimento de todos, da universidade, dos intelectuais, dos especialistas, dos partidos, sindicatos, associações empresariais, além das autoridades governamentais envolvidas, que, diante da gravidade da situação, não podem mais agir segundo sua própria discrição. Estão maduras as condições para a constituição de um fórum permanente da sociedade civil, agregando um conjunto de inúmeras atividades já existentes a fim de concertar iniciativas comuns.
A república nos veio de cima, sob forma oligárquica, e a conhecemos, pelas longas décadas do processo de modernização, como autocrática. A Carta de 1988 nos apresentou às instituições de uma república democrática, mas, como sabido, ela ainda não é uma ideia popular, pois, contraditório que seja, é essa a possibilidade que se abre com o complexo do Alemão, onde estão dadas as condições para que se rompa com o sertão sem lei rumo à cidade e para que se introduza animação republicana a partir de baixo.
Desta feita, como se vê, a coluna mudou de estilo - foi mais normativa do que analítica.
Deve ser o Natal e a passagem de ano, tempos propícios aos bons augúrios.
Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador do Iesp-Uerj. Ex-presidente da Anpocs, integra seu comitê institucional. Escreve às segundas-feiras

Nani Humor


Zope, especial para A Charge Online


Nunca antes

Nunca antes
Paulo Brossard - ZERO HORA (RS)
Depois de escolher e eleger sua sucessora, depois de, nas barbas da Justiça e dos representantes das nações estrangeiras, assumir ostensivamente a direção da campanha de sua candidata, exercendo um poder que nem a Constituição nem as leis lhe outorgavam, de resto, inconciliável com o caráter nacional de sua investidura, depois de se autodenominar “o povo”, “a opinião pública”, o presidente da República, às escâncaras, fez as vezes do cel. Chávez. E, para não deixar dúvidas, se autoconcedeu o diploma de haver realizado o maior e melhor governo do Brasil em todos os tempos.
A verdade é que os governos acertam e erram e por muitas razões, a primeira das quais é que os governantes são homens, e estes, ainda que cheios de louváveis propósitos, não são imunes ao erro; ora, em relação ao que está vivendo seus últimos dias, pode-se dizer o mesmo. Entre acertos tanto mais dignos de nota quando seu chefe, a despeito de sua clara inteligência, não é e nunca foi um scholar e nem pretendeu sê-lo, também incorreu em falhas lamentáveis por ação e omissão. De resto, ele tinha que pagar tributo ao maldito sistema presidencial; tendo sido eleito pela maioria do eleitorado, seu partido não chegou a eleger cem deputados, quando são 513 os membros da Câmara, nem 20 senadores, quando 81 são os membros da Câmara Alta; como seu saber, da experiência feito, sua habilidade e prática sindical, não teve dificuldade em obter maioria parlamentar e crescer em poder e influência, a ponto de, como erva-de-passarinho, à custa da oposição, a ponto de desequilibrar a equação política nacional; o Executivo se agigantou e seu titular fez o que quis, interna e externamente.
Ligando-se ao Irã para mostrar seu distanciamento de Washington, foi de um primarismo a lembrar a criança que reage pondo a língua de fora, quando não faltavam maneiras adequadas para marcar as diferenças.
O do escândalo do Complexo do Alemão, um território soberano encravado no território nacional, durante oito anos não foi visto pelo governo do “nunca antes”, e só rompeu o pacto da convivência silenciosa quando o morro iniciou a guerra civil abertamente.
De janeiro a agosto do ano em curso, navios que fazem escala no Brasil, juntos, parados, tiveram de esperar 78.873 horas, ou 3.286 dias, para atracar em portos nacionais, notando-se que cada dia parado custa ao barco coisa de US$ 25 mil; esses números indicam que, comparados com os do ano anterior, o aumento foi de 16%; ainda mais, esse fenômeno levou as cinco maiores empresas de navegação a 741 cancelamentos de escala, 62% superiores aos de 2009, no mesmo período. Por sua vez, para o atraso no embarque e desembarque de mercadorias, não são isentas de responsabilidades a descoordenação entre Agência Reguladora, Polícia Federal, Receita Federal e não sei mais o quê. A título de ilustração, só no porto de Santos, 120 navios ficaram fundeados simultaneamente por falta de alguma providência de terra. São fatos de inconcussa gravidade que, direta e indiretamente, atingem magnos interesses do país e de milhares de pessoas.
Muito teria a dizer a respeito, mas me falta espaço para mostrar que a majestática declaração presidencial parece decorrer de uma explosão de megalomania festejada por uma publicidade “nunca antes vista neste país”.
A majestática declaração parece decorrer de uma explosão de megalomania
* Jurista, ministro aposentado do STF

Skoob

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