segunda-feira, setembro 13, 2010

Quando o fim lembra o começo

Quando o fim lembra o começo
FERREIRA GULLAR – Folha de São Paulo
Passei a inventar artigos e articulistas que nunca existiram e comentava o conteúdo desses textos
O FIM DO "Jornal do Brasil" -que há duas semanas deixou de circular em papel- nos leva, a nós que nele trabalhamos, a lembrar dos anos passados em sua Redação, a lembrar dos colegas e dos momentos que nos marcaram.
As lembranças são muitas e diversas, porque muitos ali batalharam, e em diferentes momentos. Há os que, como eu, atuaram no JB da avenida Rio Branco, o antigo JB, que renasceu das cinzas para se tornar um jornal moderno e vibrante; outros, pelo contrário, viveram já a fase de declínio, quando a Redação foi transferida para o prédio novo da avenida Brasil.
Transferência que, na opinião de muitos, foi uma rematada maluquice, não apenas pela grana gasta para erguer aquele prédio enorme e feio, como por fazê-lo numa área pouco valorizada da cidade, de difícil acesso e fora de mão.
De minha parte, eu, que trabalhei no prédio antigo, mal me imagino tendo de ir diariamente para aquele ponto da avenida Brasil e sair de lá altas horas da noite. Mas, quando essa transferência se deu, eu já havia sido demitido havia muitos anos.
Fui demitido em 1962, por efeito da greve de jornalistas que marcou o renascimento da consciência reivindicatória de nossa profissão, depois de 50 anos quietinha, sem nada reivindicar.
Mas essa foi a minha segunda demissão, porque houve uma primeira, em 1959, que me pegou de surpresa, já que eu era amigo do editor-chefe e chefiava, eu próprio, o copidesque do jornal, quando, entre outras novidades, introduziu-se nele a técnica do lide e sublide. Fui demitido porque não aderi à conspiração que visava afastar da direção do suplemento literário meu amigo Reynaldo Jardim.
O suplemento, que lançara a poesia concreta, o movimento neoconcreto e esbanjava espaço em branco nas páginas, não contava com a simpatia de alguns poucos, que se valeram de uma atitude impensada do Reynaldo, para acabar com aquela farra. Só que eu disse não ao convite velado e, com isso, me tornei persona non grata. Um mês depois, ao voltar de uma viagem a São Paulo, soube que estava demitido.
Isso implicava em não ter como pagar o aluguel do apartamento e as despesas da família. Reynaldo me chamou e ofereceu-me uma solução: eu passaria a escrever para o suplemento literário, sob pseudônimo, já que a demissão implicava meu afastamento total do jornal, inclusive da página de artes plásticas que mantinha no SDJB. A proposta de Reynaldo, se não me restituía o total da renda mensal, salvaria ao menos o aluguel do apartamento.
Achei melhor não usar pseudônimo e bolei uma seção que se intitulou "Tabela" que consistia em comentar os artigos publicados nos suplementos literários de outros jornais. Era interessante porque, desse modo, ofereceríamos aos nossos leitores o essencial dos demais suplementos. Assim, apresentava sínteses de artigos de Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Willy Levin, os comentava, ora discordando, ora concordando com o que afirmavam.
Sucede que eu tinha que encher uma página inteira para justificar o meu pró-labore, mais alto que o dos demais colaboradores, e nem sempre encontrava, nos suplementos, artigos suficientemente interessantes para comentá-los. Foi então que apelei para a imaginação.
Passei a inventar artigos e articulistas que nunca existiram e comentava o conteúdo desses textos inventados. Como era eu quem os inventava, tratei de inventá-los interessantes tanto quanto possível, mais polêmicos que os artigos verdadeiros. Foi um sucesso, choviam cartas à Redação de leitores que desejavam participar das polêmicas que eu propiciava. Assim a "Tabela" tornou-se uma das seções mais lidas do SDJB.
E fui em frente. Certo dia inventei a história de um poeta negro, que escrevia em francês e estava sendo considerado um novo Rimbaud. Escrevi: "Na revista "A Revista", o crítico Forjaz Forjan comenta o livro do poeta Fulano de Tal (não me lembro o nome que pus no vate inexistente), que está sendo considerado pela crítica francesa um gênio da poesia. Nesse artigo, ele cita uma declaração do próprio poeta que diz o seguinte: "Meus poemas são, na verdade, plágios. Agora, que a crítica me consagrou, devo declarar que fiz isso para demonstrar que o que se chama poesia é mais uma sacanagem dos brancos'".

Quão hereditária é a inteligência? Estudos mostram que a criação é tão importante quanto a natureza

Quão hereditária é a inteligência? Estudos mostram que a criação é tão importante quanto a natureza
By Joerg Blech – 12/09/2010 – Der Spiegel
Pesquisadores há muito superestimavam o papel dos nossos gentes na inteligência. Mas descobriram que nossas capacidades cognitivas não dependem da etnia, e são bem mais maleáveis do que se supunha. O incentivo focalizado pode ajudar as crianças de famílias com dificuldades sociais a fazerem usarem melhor o seu potencial.
Eric Turkheimer faz piada sobre as pessoas que acreditam que apenas as influências ambientais determinam o caráter de uma pessoa: “Elas logo mudam de ideia quando têm um segundo filho”, diz ele. Ele próprio, que é pai, fala a partir da experiência. Sua filha mais velha gosta de ser o centro das atenções, enquanto a irmã é tímida e mais reticente na escola.
Mesmo assim, Turkheimer duvida que apenas a genética possa fornecer a resposta completa. Como psicólogo clínico da Universidade da Virgínia em Charlottesville, ele encontrou várias pessoas cuja infância não foi tão tranquila quanto a de suas filhas. Muitos de seus pacientes vêm de famílias pobres.
“Pode observar como a pobreza havia literalmente suprimido a inteligência dessas pessoas”, diz Turkheimer, de 56 anos.
Os cientistas normalmente usam gêmeos para aferir a influência dos genes por um lado e do ambiente pelo outro. Apesar disso, Turkheimer percebeu que esses estudos raramente envolvem gêmeos de lares problemáticos. O estresse, a negligência e o abuso podem ter um efeito dramático sobre a habilidade intelectual. E é exatamente esse fator que muitos estudos de natureza versus criação falham totalmente em abordar.
Preenchendo a lacuna
Turkheimer e seus colegas são os primeiros cientistas que preencheram essa lacuna. Seus três estudos feitos nos Estados Unidos sobre o assunto compararam a inteligência de centenas de gêmeos de contextos mais privilegiados com aqueles vindos de ambientes mais problemáticos Eles descobriram que quanto mais alta a situação socioeconômica da criança, maior era a influência genética na diferença de inteligência. A situação é muito diferente nas famílias mais desavantajadas socialmente, onde as diferenças em inteligência eram dificilmente herdadas.
“O QI dos gêmeos mais pobres parecia ser quase exclusivamente determinado pela sua situação socioeconômica”, diz Turkheimer. A inteligência de uma pessoa só pode de fato florescer se o ambiente dá ao cérebro o que ele deseja.
Ulman Lindenberger, psicólogo de 49 anos no Instituto Max Planck de Pesquisa em Educação em Berlim, chegou à mesma conclusão. Segundo ele, “a proporção dos fatores genéticos na diferença de inteligência depende do quanto o ambiente em que a pessoa vive a permite realizar seu potencial genético.” Em outras palavras: sementes jogadas em solo infértil nunca se tornam árvores frondosas.
É exatamente isso que os pesquisadores da inteligência negavam até agora. Impressionados com seus estudos de gêmeos de classe-média e classe média-alta sem dificuldades, eles decidiram que as habilidades cognitivas estão em grande parte sob controle da genética, que o talento acadêmico é biologicamente determinado e pode se desenvolver em quase qualquer ambiente.
“A inteligência é altamente modificável pelo ambiente”
Enquanto isso, psicólogos, neurocientistas e geneticistas desenvolveram uma perspectiva bem diferente. Eles agora acreditam que a habilidade que chamamos de “inteligência” não é nem um pouco fixa, mas na verdade altamente variável. “Agora ficou claro que a inteligência é altamente modificável pelo ambiente”, diz Richard Nisbett, psicólogo da Universidade de Michigan em Ann Arbor.
Como resultado, nos últimos anos os pesquisadores reduziram suas estimativas sobre a influência que a genética tem sobre as diferenças na inteligência. O antigo número de 80% é ultrapassado. Nisbett diz que se você leva as diferenças sociais em conta, você descobrirá “que a contribuição da genética é no máximo de 50%”. Isso deixa uma proporção inesperadamente grande da inteligência de uma criança para ser moldada pelos pais, professores e educadores.
As descobertas com certeza deixarão contentes os pais que já enviaram seus filhos para boas escolas, os levam a aulas de violino à tarde, e os arrastam para museus nos finais de semana. “Então você não perdeu seu tempo, dinheiro e paciência com seus filhos afinal de contas”, diz Nisbett.
De tempos em tempos os pesquisadores descobrem que os genes de uma criança têm menos influência sobre o seu cérebro do que o ambiente – e o ambiente social é um dos fatores nisso. Cientistas de Boston, por exemplo, descobriram que as crianças que vivem perto de estradas e cruzamentos e são expostas a niveis mais altos de fumaça de exaustores têm QI três pontos menor do que as crianças da mesma idade que vivem em áreas com ar mais limpo. Isso acontece simplesmente porque a poeira microscópica e os poluentes podem chegar ao cérebro e afetar a capacidade das células nervosas de funcionar de forma adequada.
De forma parecida com a exposição aos poluentes, as crianças também sofrem mais como resultado de pressão mental, miséria, preocupação e negligência. O estresse crônico altera a forma como os neurotransmissores funcionam, inibem a formação de células nervosas e fazem com que o hipocampo se contraia.
Isso pode levar a diferenças identificáveis, como mostraram pesquisadores da Universidade de Cornell em Ithaca, Nova York. Eles descobriram que crianças estressadas de famílias pobres tiveram atuações até 10% piores em testes de memória do que crianças bem cuidadas de lares de classe média.
QI aumenta a cada ano de escola
Ao contrário, o QI aumenta a cada ano que a criança passa na escola. Durante a 2ª Guerra Mundial, algumas crianças na Holanda entraram mais tarde na escola por causa da ocupação nazista – com consequências significativas. “A média de QI dessas crianças foi de sete pontos a menos do das crianças que chegaram à idade escolar depois da ocupação”, diz Nisbett.
Oportunidades desiguais de educação eram e continuam sendo particularmente prevalentes nos Estados Unidos. A sociedade norte-americana negava a educação aos escravos negros, e impedia que eles tivessem acesso a livros. Mas as raças continuaram divididas mesmo depois da abolição da escravidão em 1865. Durante muito tempo, crianças negras frequentaram escolas especiais que tinham instalações terríveis. Então não é muito surpreendente que elas tenham ficado atrás quando finalmente tiveram acesso às escolas públicas que antes eram reservadas para crianças brancas.
Acadêmicos brancos dos EUA tentaram várias vezes afirmar que as diferenças de performance eram geneticamente determinadas. Nos anos 60, o psicólogo Arthur Jensen da Universidade da Califórnia em Berkeley se perguntou por que tantos alunos fracos eram negros. Como alguém podia negar que sua pouca inteligência era uma característica étnica, argumentou Jensen. Ele concluiu portanto que não havia motivo para tentar encorajar as crianças de grupos socialmente desavantajados desde pequenas.
O livro controverso “The Bell Curve” foi publicado em 1994. Seus autores, Richard Herrnstein e Charles Murray, alertaram contra facilitar o acesso às universidades para as minorias étnicas.
Um experimento não planejado na Alemanha
Esta é a linha de raciocínio que Thilo Sarrazin, membro do banco central da Alemanha, adotou recentemente ao sugerir provocativamente que os filhos de imigrantes turcos eram geneticamente menos aptos do que as crianças alemãs.
Apesar das declarações de Sarrazin, um experimento não planejado que aconteceu na Alemanha mostrou há muito tempo que a cor da pele não tinha influência sobre a inteligência. Depois da 2ª Guerra Mundial, muitos norte-americanos tiveram filhos com mulheres alemãs. Essas crianças com duas nacionalidades foram chamadas de “bebês da ocupação”. Algumas delas tinham pais norte-americanos de pele clara, e outras de pele escura. Em comparação com os Estados Unidos, isso não teve nenhuma influência em sua performance na escola.
Em 1961, Klaus Eyferth do Instituto de Psicologia da Universidade de Hamburgo viu isso como uma oportunidade única para descobrir as “características do desenvolvimento de crianças (birraciais)” ao compará-las com os “bebês da ocupação branca”. Eyferth fez testes de inteligência com 264 crianças e adolescentes, 181 de pele negra, 83 de pele branca. As crianças com pais brancos tiveram um QI médio de 97 pontos, as com pais negros, 96,5, valores tão próximos estatisticamente que negaram a noção de “características de desenvolvimento.”
Centenas de milhares de genes atuam nas habilidades cognitivas
A moderna pesquisa em genética mostra que não há nada parecido com uma fonte biológica da inteligência composta por um gene ou uma série de “genes da inteligência”. Aparentemente há centenas – se não milhares – de gentes responsáveis por determinar nossas habilidades cognitivas.
A capacidade de uma pessoa usar seu potencial genético pode de fato ser influenciada, especialmente se a pessoa é assistida e permite que os outros ajudem. O pesquisador da educação Anders Ericsson já mostrou que os mestres da música, por exemplo, não nascem assim. Estudando violinistas de Berlim, ele descobriu que nenhum que praticou menos de 10 mil horas havia se tornado um virtuose. Por outro lado, quase todos que praticaram por mais de 10 mil horas, se tornaram os principais violinistas aos 20 anos.
A analogia não serve só para os músicos. As noções de “gênio do xadrez” ou “gênio da matemática” são também meras metáforas que não têm nenhuma base biológica.
É verdade que de tempos em tempos se observa que as crianças de vários países da Ásia são bem melhores em cálculo do que as crianças no ocidente. Mas isso não tem nada a ver com genética – e tudo a ver com as atitudes. Em uma pesquisa, estudantes do Japão e do Canadá receberam tarefas matemáticas. Não importa como eles se saíram, os pesquisadores disseram a um grupo que eles tinham ido muito bem. Os outros foram informados que fracassaram totalmente. Os cientistas então deram outro conjunto de tarefas para os estudantes, e disseram que eles poderiam tomar o tempo que quisessem.
As reações dos estudantes mostraram diferenças culturais notáveis. Os canadenses eram aparentemente motivados pelo sucesso. Aqueles que foram informados que tinham ido bem no primeiro teste ficaram bem mais tempo fazendo a segunda tarefa do que os colegas canadenses que acreditaram que tinham ido muito mal na primeira rodada. Os japoneses se comportaram de forma bem diferente. Os que tiveram uma nota ruim no primeiro teste trabalharam por mais tempo e com mais diligência do que os que haviam sido elogiados. Parece, portanto, que a noção de fracasso os motivou.
Habilidades cognitivas são reflexo do ambiente
Os números não são a única coisa que você pode ensinar a partir da prática. O mesmo vale para as palavras. O vocabulário de uma pessoa é uma expressão do quanto seus pais e pessoas próximas falavam com ela quanto criança. De acordo com estudos feitos nos EUA, uma criança já ouviu cerca de 30 milhões de palavras até a idade de três anos. O número para crianças desavantajadas é de apenas 20 milhões. Isso portanto afeta seu vocabulário. A média das crianças de três anos de classe média sabe usar 1.100 palavras, enquanto crianças de famílias mais pobres só têm apenas 525 palavras à sua disposição.
As novas descobertas dos pesquisadores da inteligência apontam todas para a mesma direção: nossas habilidades cognitivas são um reflexo de nosso ambiente. “O QI baixo esperado de crianças filhas de pais de classe baixa pode ser aumentado se seu ambiente for suficientemente rico cognitivamente”, diz o psicólogo Nisbett.
As possibilidades práticas foram exploradas pelos psicólogos Sharon Landesman Ramey e Craig Ramey da Universidade de Georgetown em Washington, DC. Os Ramey usaram como sujeitos crianças filhas de pais extremamente pobres e com pouca educação formal. Num projeto, as crianças passavam os dias num berçário especial no qual havia um professor para cada criança e onde as tarefas recebiam um incentivo especial desde a idade de seis semanas.
Depois de três anos, essas crianças foram comparadas com as de um grupo de controle. O QI médio de meninos e meninas era de impressionantes 13 pontos a mais do que de crianças da mesma idade que não tinham recebido atenção especial.
Tradução: Eloise De Vylder

J. Bosco, para O Liberal

domingo, setembro 12, 2010

Mimetismo

Mimetismo

Danuza Leão - FOLHA DE S. PAULO

Quase todos os homens usam barba, Erenice é a cara de Dilma, Marta e d. Marisa estão parecidas
Lula está histérico; um recém-chegado ao Brasil que o tenha visto no programa eleitoral acreditaria que o PSDB é que tinha violado o sigilo de altos dirigentes do PT, da filha de Dilma, do seu genro, e não o oposto do que se suspeita.
É muita cara de pau. A maneira como ele se refere aos outros candidatos é baixa, sem nenhum respeito; será que é demais querer para presidente alguém mais educado?
Até agora, Dilma está, segundo as pesquisas, à frente dos outros candidatos, mas a possibilidade de haver um segundo turno tira Lula do sério. Sempre se soube que ele era um mau perdedor, e agora se anuncia também como um (possível) péssimo ganhador. E alguém acredita na investigação da Polícia Federal?
Na quebra do sigilo telefônico da funcionária da Receita? Em alguma coisa que envolva esse governo?
Além de todos os meus medos, agora tenho um novo: de que Lula exploda feito um homem bomba num palco qualquer, com o microfone na mão, tal a raiva e o ódio que não consegue esconder -nem tenta. O presidente não se conforma em ser contrariado, não admite ser derrotado, e sua fúria, quando supõe que isso possa acontecer, é a de um animal com raiva -a doença- em seus piores momentos.
Em suas metáforas, passou da ignorância, até compreensível, à grosseria e à boçalidade.
Já acreditei que o PT fosse o partido da ética, diferente de todos os outros; alguém lembra? E me sinto uma total idiota, por não ter ouvido o que me diziam os mais experientes da política, que um governo Lula se tornaria quase uma ditadura stalinista - e um dos que me disseram isso foi Brizola.
Sou viciada em programa eleitoral, mas na hora do PT, tiro o som. As caras sinistras e os dedos apontando me fazem mal. O mesmo mal que eu sentia quando via Collor (não por acaso, agora aliados).
Para alguns, é mais fácil empunhar uma metralhadora do que um adversário, e Dilma continua se escondendo, não indo aos debates, não falando sobre o assunto. E se ela ganhar?
Lula é bem capaz de dizer, se achando o próprio D. Pedro 1º, "já que é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico".
O PT sofre de mimetismo. Quase todos os homens usam barba, Erenice é a cara de Dilma, Marta Suplicy e d. Marisa estão parecidíssimas, e os estoques de botox estão se acabando. Menos, gente, menos.
Além da eleição, tenho outra grande preocupação: qual será o destino dos oito pitorescos vestidos verde e amarelo que Marisa Letícia usou nos oito desfiles de 7 de Setembro, para comemorar o Dia da Independência e saudar o povo?
Não deixa de ter sido uma bela contribuição à República, mas como esses vestidos nunca poderão ser usados em nenhuma outra ocasião, aí vai a sugestão: como existe um movimento para transformar a casa tombada dos Paula Machado, na rua São Clemente, em Instituto Lula (para imitar Fernando Henrique), um pequeno espaço poderia ser destinado a esses vestidos, para que as futuras gerações entendam o que foram os anos Lula.
Um museu tipo o de Carmem Miranda; sem tanta graça, é verdade, mas também, a seu modo, histórico.
Mas por que logo no Rio? Por que não em São Bernardo?

Um país mais igual e mais justo

Um país mais igual e mais justo
SUELY CALDAS - O Estado de S Paulo
Na última semana, a divulgação de três pesquisas relativas ao Brasil e uma confissão histórica de el comandante Fidel Castro resumem, com raro senso de oportunidade, certas mudanças - ocorridas no mundo e na economia brasileira - que se complementam e desenham a realidade vivida hoje. Embora com 20 anos de atraso, a confissão do ditador cubano, de que o modelo econômico comunista fracassou e "não funciona mais nem em Cuba", enterra o penúltimo refúgio do sonho marxista-leninista. O último é a Coreia do Norte, já que a China é hoje considerada economia de mercado - embora no plano político ainda conviva com a ditadura do partido único, o Partido Comunista Chinês.
A esperança de um mundo igual e justo, lançada por Karl Marx e Friedrich Engels no século 19, não logrou sucesso em nenhuma das experiências socialistas vividas ao longo do século 20. Entre outras razões de ordem econômica, também porque nunca conseguiram se sustentar sem a imposição de uma ditadura a subjugar uma população que ansiava por liberdade. É o que o filósofo italiano Norberto Bobbio chama de "utopia invertida" ao se referir à União Soviética: "Na primeira vez em que uma utopia igualitária entrou na história, passando do reino dos discursos para o reino das coisas, acabou por se transformar em seu contrário." Mas também é Bobbio a completar: "O comunismo histórico faliu, mas o desafio por ele lançado permaneceu."
Pois bem, é este desafio - perseguir o ideal de igualdade - que o mundo e o Brasil passaram a viver depois da queda do Muro de Berlim, em 1989. E é o desafio retratado nas pesquisas divulgadas há dias. Vamos a elas.
Falta saneamento, sobram celulares - A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2009 expõe situações extremas de um Brasil que chegou à modernidade de suprir 85% da população com telefones, mas não consegue derrotar um velho e trágico atraso: só 59% da população tem acesso a água e esgoto tratados. Ou seja, já entrou no hábito corriqueiro dos pobres se comunicar a distância pelo celular, mas 41% deles continuam convivendo com valas, fossas mal cuidadas, toda sorte de sujeira e risco de contrair doenças graves por falta de saneamento básico. Por que a diferença?
Há dez anos, telefonia também era um bem com que os pobres não ousavam sonhar. Mas tudo mudou com a privatização da Telebrás, em 1998. Metas de investimento privado definidas pelo governo possibilitaram a massificação do serviço e tarifas acessíveis para o celular pré-pago. Hoje 85% da população é servida por telefone.
Está aí um bom desafio para um novo governante preocupado com o ideal de igualdade: quem sabe, privatizando o setor de saneamento e definindo metas de investimento para as empresas, não consegue obter o mesmo êxito da telefonia?
Fora saneamento, educação e saúde, a Pnad tem mostrado evolução positiva dos indicadores sociais do Brasil, desde o Plano Real e a derrota da inflação, em 1994. E provado que o presidente Lula erra ao atribuir sucessos ao seu governo e fracassos aos que lhe antecederam, como se construir um País dependesse de um único homem. O exemplo está na Pnad: a renda média real do trabalhador vem crescendo nos últimos anos, e em 2009 chegou a R$ 1.106 - a melhor marca do governo Lula. Mas não conseguiu ultrapassar o período do rival Fernando Henrique Cardoso, de 1995 a 1998, que sucedeu a queda brusca da inflação, com pico de R$ 1.144, em 1996.
Brasil preferido das múltis - Pesquisa anual da Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) com 236 empresas multinacionais e 116 agências de promoção de investimentos colocou o Brasil na terceira posição entre os países de maior interesse de investimentos do mundo, ultrapassando os Estados Unidos, pela primeira vez. É claro que o abalo da crise econômica sobre os países ricos teve influência nesse resultado: dos cinco primeiros colocados, quatro são emergentes - China, Índia, Brasil e Rússia no quinto lugar (o quarto é Estados Unidos). E 9 dos 15 países preferidos das múltis estão em regiões emergentes.
Mas é verdade também que, desde o Plano Real, o País soube manter a sua economia organizada e, nos últimos anos, o mercado interno ampliou e ganhou pujança, atraindo investimento externo. Felizmente, Lula não cumpriu a promessa de "mudar tudo o que está aí" e não seguiu os caminhos da Venezuela, da Bolívia e do Equador, que têm afugentado o investimento externo. Ao contrário dos tempos de economias socialistas fechadas, atualmente, criar empregos, gerar renda, produzir progresso e promover igualdade social implica atrair, não expulsar, o investimento estrangeiro.
E, diferentemente do que apregoam há mais de uma década ideólogos socialistas - como Fidel Castro e os do PT, no Brasil -, a globalização não prejudicou os países pobres na crise de 2008. Ao contrário, ela ajudou a dar a César o que é de César, ou seja: se foram os países ricos que a provocaram, que paguem pelos seus efeitos.
Brasil menos competitivo - Mas, se o Brasil ganha na preferência dos investidores, perde em competitividade. Típico de país não consolidado, o Brasil tem vulnerabilidades que já poderia ter superado ou reduzido, não fosse o governo Lula se orientar pelo interesse político-eleitoral ou por convicções ideológicas ultrapassadas, que acabam favorecendo a persistência da desigualdade social.
Pesquisa do Fórum Econômico Mundial rebaixou o Brasil da 56.ª para a 58.ª posição no ranking das 139 economias mais competitivas do planeta. Contradição com a pesquisa das múltis? É claro que não. Essa, do fórum, destaca pontos positivos e negativos de cada país. E o Brasil perde justamente naqueles em que progredia lentamente e que no governo Lula sofreram recuos graves e, pior, desnecessários. Corrupção, descrença da população nos políticos, desvio de dinheiro público, crescimento do endividamento, carga tributária e spread bancário elevados, falta de flexibilidade no mercado de trabalho e péssima regulação econômica são algumas taxas negativas que colocam o Brasil na lanterna em competição.
É na busca da superação desses pontos, invertendo a direção de Lula, que o novo governante deve atuar, se quiser ajudar a construir um país socialmente mais igual e mais justo.
JORNALISTA, É PROFESSORA DE COMUNICAÇÃO DA PUC-RIO E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR

Paisagem de Outono


Fotografia por Kurasovas Olegas

A flor e o espinho - Paulinho Moska

Tesouro ameaçado

Artes
Tesouro ameaçado
Carlos Henrique Braz – Veja Rio
Marco da arquitetura moderna brasileira, o Palácio Gustavo Capanema padece com a falta de manutenção
Fachada principal da antiga sede do Ministério da Educação: elevadores enguiçados e calor infernal
Enquanto alguns dos principais cartões-postais cariocas recebem melhoramentos, como o choque de ordem nas praias, a reforma do Maracanã e a restauração do Cristo Redentor, uma relíquia do Centro padece com a má conservação. Parada obrigatória para estudantes de arquitetura e turistas que não se limitam ao lugar-comum em suas visitas, o Palácio Gustavo Capanema, que foi sede do antigo Ministério da Educação e Saúde, exibe problemas por todos os lados (veja o quadro abaixo). Logo no térreo, uma área de aproximadamente 100 metros quadrados está há um mês isolada com fitas de advertência, devido à queda de uma placa de revestimento. Para piorar, outras partes ameaçam desabar. Esse é o ponto crítico do prédio, mas não o único motivo de preocupação. Na fachada voltada para a Rua Araújo Porto Alegre, telas de náilon azul poupam os pedestres de ser atingidos por pedaços de cimento-amianto, que há seis anos vêm se desprendendo das lâminas dos para-sóis. Na área interna, as agruras nem sempre são tão aparentes, mas há infiltrações, os detectores de fumaça não funcionam e os elevadores vivem quebrados. “Por ser de caráter emergencial, estamos licitando a modernização dos elevadores, no valor de 3 milhões de reais”, afirma Carlos Fernando Andrade, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), um dos órgãos ocupantes do edifício e responsável por sua preservação, uma vez que ele é tombado.
Representante da arquitetura moderna, em oposição ao academicismo predominante à época, o palácio uniu em seu projeto o franco-suíço Le Corbusier, um dos artífices daquele movimento, a um escrete brasileiro das pranchetas, formado por Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcellos, Carlos Leão e Jorge Machado Moreira. Erguida entre 1936 e 1945, a construção trouxe uma série de inovações aos padrões vigentes. Ela se sustenta sobre pilotis de 10 metros de altura, uma forma de integrá-la à rua e dar-lhe leveza, bem diferente dos caixotões de concreto que acolhiam ali perto os ministérios da Fazenda e do Trabalho. A fachada principal é envidraçada de ponta a ponta, e a ala posterior tem a proteção de para-sóis. No terraço e na cobertura do mezanino, destacam-se os jardins suspensos concebidos por Burle Marx. A conexão com as artes é, de fato, marcante. No prédio, estão ainda seis painéis de azulejos e quatro afrescos de Candido Portinari, esculturas de Bruno Giorgi, Celso Antonio e Alfredo Ceschiatti, além de uma galeria, uma sala para espetáculos e uma livraria. De todo o “acervo”, apenas uma pequena parte das obras não é acessível ao público, caso do painel Brincadeiras Infantis, de Portinari, situado no 2º andar.
Com tanta história e simbolismo, era de esperar que sua manutenção fosse contínua. Infelizmente, não é o que acontece. Por ser um bem tombado, qualquer intervenção no palácio passa pelo crivo do Iphan, o que resulta numa dificuldade extra. Apenas três dos dezesseis pavimentos ainda estão com persianas. Por força da lei, elas só podem ser restauradas ou trocadas por outras exatamente iguais, o que explica a demora. Outro mal crônico diz respeito ao sistema de refrigeração. Não há ar-condicionado central e é proibido instalar aparelhos nas janelas ou rebaixar o teto para a colocação de dutos de ventilação. Nos meses mais quentes, funcionários chegam a desmaiar por causa do calor intenso que os ventiladores não são capazes de atenuar. Após a resolução dos problemas na propriedade, para atrair o turista ainda será preciso superar a questão da segurança. O Centro é uma das regiões com maior ocorrência de roubos a transeuntes. Em junho, houve 129 registros desse crime, contra 46 verificados em Copacabana, para citar outra localidade carioca de grande afluxo de visitantes.
A despeito dos inconvenientes, o Iphan lançou recentemente na Unesco a candidatura do Palácio Gustavo Capanema a Patrimônio Histórico da Humanidade. Anexado ao processo seguiu um dossiê elaborado por uma equipe da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, destacando o valor do complexo e detalhando as intervenções necessárias para deixá-lo impecável. Incluída na agenda de compromissos, a reforma está orçada em 35 milhões de reais e dará continuidade às obras iniciadas em 1995 e concluídas quatro anos depois, que recuperaram algumas áreas internas, rebocos e painéis. Tudo leva a crer que o pedido terá a simpatia do órgão, pois a Unesco é a mais recente inquilina do imóvel, somando-se ao próprio Iphan, à Fundação Nacional de Artes (Funarte), a representações ministeriais e a outros condôminos. Resta saber se, com o apoio dos novos ocupantes, a conservação de um espaço tão relevante vai finalmente sair do papel.
Problemas por toda parte
Flagrantes do mau estado de conservação do edifício, tanto dentro quanto na área externa

Revestimento
Uma placa de pedra gnaisse despencou da parede lateral do mezanino e outras estão soltas

Para-sol
Há lâminas quebradas e falta manutenção ao equipamento que diminui o calor e a luminosidade

Ar-condicionado
O prédio sofre com o calor. Um sistema de refrigeração do tipo split foi vetado pelo Iphan

Elevadores
Os seis ascensores funcionam precariamente e ficam sujeitos a panes constantes

Detectores de fumaça
Instalado em 1996, o equipamento de prevenção contra incêndio está quebrado

Cobertura
No 16º andar, há pisos quebrados e as pastilhas que revestem as salas e a caixa-d’água estão se soltando

Infiltrações
Os jardins sobre o mezanino provocam umidade no teto da galeria e do auditório

Persianas
Só três dos dezesseis pavimentos têm a proteção, ainda assim em péssimo estado

Pátio
Seu piso exibe pontos quebrados pelas raízes das árvores

Vandalismo
Embora os azulejos de Portinari estejam bem conservados, há pilastras com placas soltas e que exalam odor de urina

Skoob

BBC Brasil Atualidades

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